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Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017)

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O primeiro Guardiões da Galáxia foi muito bom. Apoiado num visual hiper colorido, numa trilha sonora onipresente e saudosista e abraçando o humor sem medo de ser feliz, o filme do diretor James Gunn conquistou vários fãs com seu roteiro leve e ritmo frenético. Esta continuação, como não poderia deixar de ser, retoma e amplia esta fórmula, mas desta vez, principalmente na segunda metade do longa, o diretor resolveu incorporar elementos dramáticos à história, o que deixou o filme um pouco mais “adulto” do que seu antecessor. O resultado é inquestionavelmente bom, mas confesso que foi meio estranho entrar no cinema felizão, ansioso para dar boas risadas, e sair de lá meio cabisbaixo e pensativo.

Foi na gloriosa e mágica década de 80 que Meredith Quill (Laura Haddock) conheceu e apaixonou-se por uma criatura topetuda do espaço (Kurt Russell). Do amor deles, nasceu Peter Quill (Chris Pratt), o homem que anos mais tarde ganharia notoriedade por conseguir segurar uma das Joias do Infinito e sobreviver. Peter, que nunca conheceu o pai e que viu a mãe morrer ainda criança, cresceu e tornou-se o Senhor das Estrelas, um caçador de recompensas que lidera o grupo Guardiões da Galáxia em missões através de todo o universo.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 começa ao som de Brandy, do Looking Glass, com Meredith passeando num conversível estiloso junto de seu amado. Tão logo fica claro que os dois são os pais de Peter, porém, a cena muda para o longínquo planeta dos Soberanos onde os Guardiões aguardam pela chegada de uma besta interdimensional. Ayesha (Elizabeth Debicki), a rainha do local, contratou Peter, Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (voz do Bradley Cooper) e o Bebê Groot (voz do Vin Diesel) para protegerem uma preciosa carga de baterias inflamáveis do monstro. A luta que se segue é, sem sombra de dúvidas, a melhor sequência de abertura de um filme da Marvel até o momento. Fazendo um belo uso do 3D, James Gunn coloca Peter e cia para quebrarem o pau com o bichão enquanto mostra o simpático Bebê Groot dançando com a Mr. Blue Sky do Eletric Light Orchestra. Ver esse começo, que tem coisas bacanas como o Peter e o Rocket discutindo, o Drax vigiando o Bebê Groot e a Gamora desferindo alguns golpes estilosos de espada, é como abrir um presente no dia das crianças e encontrar exatamente aquilo que a gente queria ganhar. É familiar e surpreendente ao mesmo tempo.

Após ganhar nossa atenção com esse início divertidíssimo, o diretor introduz os elementos que compõe a história de Vol. 2. Por pura sacanagem, Rocket rouba algumas das baterias dos Soberanos e Ayesha ordena que seus comandados capturem os Guardiões. Rola uma cena frenética de perseguição no espaço, daquelas que parecem ter saído direto de um videogame, a qual é interrompida pela aparição já anunciada de Ego, o topetudo pai de Peter Quill. Nisso, o grupo divide-se em 2: Peter, Gamora e Drax acompanham Ego e Mantis (Pom Klementieff), sua auxilar, até um planeta distante, e Rocket e Bebê Groot ficam responsáveis por reparar a nave e vigiar Nebulosa (Karen Gillian), a filha de Thanos que havia sido entregue aos personagens como recompensa por protegerem as baterias. Paralelamente, o pirata Yondu (Michael Rooker) é contratatado por Ayesha para localizar os Guardiões.

Sobre esses eventos que constituem o “meio do filme”, por assim dizer, vale a pena realizar comentários separados para cada um deles:

Ego e Peter Quill: O esperado encontro entre o Senhor das Estrelas e seu pai responde muitas perguntas deixadas pelo primeiro Guardiões da Galáxia e é o principal acontecimento deste filme, mas todas as cenas que envolvem esse arco da história são chatas de doer. Eu entendo que até mesmo uma bomba de diversão como essas precise de algumas partes mais “sérias” para que os personagens sejam desenvolvidos, porém não posso negar que fiquei extremamente entediado enquanto Peter e Ego falavam do passado e do futuro naqueles cenários oníricos.

Rocket: Tanto por seu mau humor quanto por sua insanidade nas batalhas (adoro quando ele fala aquele HELL YEAH!), o guaxinim antropomórfico permanece como meu personagem favorito dentre todos os Guardiões. O Rocket continua legalzão e o James Gunn deu uma cena na floresta para ele brilhar sozinho com todos os seus equipamentos e metrancas, no entanto a imagem que eu levei dele desta vez foi a da criatura triste e solitária que maltrata todos, até os próprios amigos, pela inabilidade de ser amado. As cenas que nos levam a essa conclusão, principalmente aquele diálogo com o Yondu no final, são verdadeiramente tristes e destoam de tudo o que fora feito na série até aqui. Isso não é necessariamente ruim, mas confesso que fui surpreendido pela bad vibe.

Yondu: Lembram daquele sujeito risonho e seguro de si que dizimava grupos inteiros de inimigos com uma flecha voadora? Restou pouco dele em Vol. 2. Yondu não só enfrenta um motim de sua tripulação quanto é desprezado por Stakar Ogord (Sylvester Stallone), o líder dos piratas espaciais. Yondu também ganha espaço para exibir suas habilidades (a batalha contra o Taserface) e protagoniza um dos momentos mais engraçados do longa (Mary Poppins!), mas no geral a participação dele nesta continuação é bem melancólica. A cena em que a Father & Son do Cat Stevens é executada é de cortar o coração.

Resumindo, é muita tristeza e seriedade em um filme que é a continuação de um dos longas mais divertidos dos últimos anos. Vol. 2 ainda tem MUITO humor e inocência (conforme pode ser visto em praticamente todas as cenas do Bebê Groot e do Drax e em pérolas como o ‘Pac Man gigante’) repete aquele clima descolado proporcionado por músicas bacanas como The Chain do Fleetwood Mac e está cheio de easter eggs (Howard, o Pato está de volta e há incríveis 5 cenas após os créditos rs), mas no geral a investida do James Gunn no desenvolvimento dos personagens levou a história para rumos bastante sombrios (observem a Nebulosa falando sobre o que ela deseja fazer com o Thanos). Gostei do filme, tanto que vi ele duas vezes antes de escrever essa resenha (uma foi dublado: a voz do Yondu ficou HORRÍVEL na versão nacional), mas não gostei de ver o Rocket chorando. Tadinho.

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Star Trek: Sem Fronteiras (2016)

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star-trek-sem-fronteirasJá em seu terceiro filme, a vida do reboot da série Star Trek iniciada em 2009 (e seguido em 2013 pelo Além da Escuridão) já pode ser considerada “longa”, mas o que vi nesse Sem Fronteiras me fez questionar sobre o quesito “prosperidade”. Agora comandada pelo diretor Justin Lin, mais conhecido por seu trabalho na série Velozes & Furiosos (o J. J. Abrams, diretor dos dois primeiros, abriu mão dessa sequência para fazer O Despertar da Força), a franquia praticamente não sai do lugar nesse novo episódio, que pode ser resumido como uma sucessão quase ininterrupta de cenas de ação absurdas (no pior sentido da palavra) que faz pouquíssimas adições à história que foi contada até aqui.

Capitão Kirk (Chris Pine) e o Comandante Spock (Zachary Quinto) querem encerrar as atividades à bordo da USS Enterprise. O primeiro, após mais de 2 anos no espaço comandando a espaçonave nas mais variadas missões diplomáticas, sente que perdeu o “senso de propósito” e por isso quer sair. Já o vulcano, que continua brigando com a Tenente Uhura (Zoe Saldana), planeja encontrar uma fêmea para reproduzir e garantir a continuidade da sua espécie após a destruição de seu planeta natal. Sim, REPRODUZIR, porque o Spock continua frio e chatão. Antes de sair, no entanto, a dupla desembarca na impressionante Estação Yorktown e recebe uma última tarefa: acompanhar uma sobrevivente de uma batalha estelar até um planeta distante onde supostamente toda a tripulação de uma nave foi feita refém. Esta missão reafirmará junto aos membros da Enterprise o poder da união e do trabalho em equipe e fará Kirk e Spock repensarem seus desejos de partir.

Desconfiei que esse filme fosse ser ruim (ou pelo menos inferir aos anteriores) desde que vi o nome Justin Lin nos trailers. É certo que resgataram a série Star Trek para transformá-la em um blockbuster para as massas, mas há diferenças conceituais quase inconciliáveis entre o público da ficção científica e aquelas pessoas que pagam para assistir carecas bombados acelerando carros velozes. Temi por essa mistura e pelo direcionamento que seria dado à franquia e, infelizmente, desta vez eu não estava errado: há pouco cérebro em Sem Fronteira.

star-trek-sem-fronteiras-cena-2O roteiro, que é assinado pelo ator Simon Pegg (que interpreta o Scotty aqui), é uma reedição sem brilho daquilo que já havia sido feito no Além da Escuridão. Esquematizando:

  • AdE: Kirk é acusado de irresponsabilidade e quase perde o controle da USS Enterprise/ SF: Kirk cogita deixar o comando da Enterprise.
  • AdE: Spock e Uhura brigam e fazem as pazes no final/ SF: Spock e Uhura… fazem as pazes no final após brigarem.
  • AdE: Sulu (John Cho) assume a Enterprise interinamente (sem golpe) e mostra-se um capitão badass/ SF: Sulu, que revela-se homossexual, continua mais macho do que muito homem quando senta na cadeira de comando.
  • AdE: Doutor McCoy, o Magro (Karl Urban), mete-se em uma enrascada e fica preso numa bomba/ SF: Doutor McCoy fica sozinho com o Spock.
  • AdE: Surge Khan, um antigo membro da Federação que sentiu-se traído pela mesma e transformou-se em um inimigo/ SF: Aparece Krall (Idris Elba), antigo Capitão da Federação que…

… bem, acho que vocês entenderam. Acreditem, as semelhanças não param por aí. Sem pensar muito, ainda dá para falar da adição de uma personagem feminina para a tripulação (antes Carol, agora Jaylah) e, claro, o ataque maciço sofrido pela Enterprise.

star-trek-sem-fronteiras-cena-4Sem Fronteiras tem muitas cenas de ação e a maioria é genérica até não poder mais (tenho certeza que, por exemplo, daqui um mês não lembrarei de nenhum detalhe do confronto Kirk x Krall), mas é preciso render-se à beleza quase operística da queda da USS Enterprise. Atacada por uma legião de aeronaves semelhantes a um enxame de abelhas, a Enterprise desfaz-se diante dos nossos olhos em uma cena impensável, triste e extremamente emocional. É uma pena que, na sequência, o diretor Justin Lin opte por abandonar esse tipo de grandeza característica da série para investir na adrenalina tosca que dita o ritmo da maioria dos Velozes & Furiosos. Kirk acelerando uma moto através de um terreno pedregoso com a mesma facilidade de quem passeia por uma avenida no final de semana? Façam-me o favor… (observem também o PÉSSIMO efeito especial utilizado nessa cena, vergonha total)

star-trek-sem-fronteiras-cena-3Em suas lamentações sobre ter distanciado-se dos motivos que levaram-no a ingressar na Federação, Kirk diz que a vida no espaço tornou-se “episódica”, como se tudo fosse previsível e até mesmo entediante. Eu te entendo, Kirk. Foi exatamente assim, aliás, que me senti enquanto assistia Sem Fronteiras, como alguém que vê um episódio de uma série qualquer onde um vilão é derrotado sem que nada de muito relevante ocorra para mudar o curso geral da história (dentre os fã de anime, tais episódios até receberam um termo: filler). Gosto demais de Star Trek para encará-lo assim, como mero entretenimento descartável conduzido por um diretor de testosteronas totais. Espero sinceramente que o J. J. Abrams retorne ao comando da franquia e aproveito a oportunidade para deixar aqui meu pesar pela morte prematura do ator Anton Yelchin, que faleceu aos 27 anos vítima de um acidente de carro. Nasdrovia, pequeno grande Chekov!

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Festa no Céu (2014)

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Festa no CéuAssisti o trailer desse Festa no Céu no cinema e apostei que ele seria legalzão, mas mesmo assim não tive ânimo para pagar o ingresso para vê-lo na telona. Já comentei em outras oportunidades a minha descrença com a padronização que tem imperado nas animações exibidas no circuito comercial e isso, somado a expectativa de ver outro “produto para a família” em uma sala repleta de crianças gritando, foi mais forte do que as boas impressões causadas pela visão estonteante da cultura mexicana idealizada pelo diretor Jorge R. Gutiérrez. Assim sendo, deixei a oportunidade passar e só agora, passada a temporada de premiação do Globo de Ouro (em que ele foi indicado na categoria de Melhor Animação) e do Oscar é que encontrei tempo para assisti-lo e conferir se a promessa de um bom filme fora cumprida. Sentado no meu confortável sofá e tendo como companhia apenas a minha criança favorita, vi uma animação que procura revigorar as fórmulas já desgastadas das produções voltadas para o público infantil sem abrir mão da diversão e dos cenários hiper coloridos típicos do gênero.

Mudar por mudar o cenário em que a história será contada abrindo mão do tradicional território norte americano, por si só, não garante o sucesso de uma produção. O Rio, por exemplo, utilizou esse recurso e não conseguiu agradar completamente por não apresentar nada relevante fora o elemento “exótico” da paisagem e da cultura do Rio de Janeiro. É preciso fazer mais do que simplesmente deslocar o núcleo geográfico, e Gutiérrez começou a ganhar a minha simpatia quando demonstrou não ter medo de explorar as singularidades de sua pátria até elevá-las a um nível quase caricatural: San Angel não é só o palco dessa aventura, mas sim o próprio CENTRO DO UNIVERSO,  uma cidade localizada no México que, visto do espaço, é um país que ostenta um gigantesco e respeitoso bigodão. HELL YEAH!! Ali, a amizade de três crianças inspirará uma aposta entre La Muerte (Kate del Castillo) e Xibalba (Ron Perlman), deuses do Mundo dos Mortos, cujo resultado poderá mudar o destino de todo o planeta.

Festa no Céu - Cena 2A paisagem e os personagens cartunescos ricos em detalhes (a tal La Muerte está sensacional) criados por Gutiérrez enchem os olhos, mas nem mesmo todos os belos chapéus mexicanos e barraquinhas de taco seriam suficientes para desviar a atenção do público desse roteiro sem pé nem cabeça. “Então quer dizer que o destino do mundo será decidido em uma aposta infantil?” é uma pergunta bem pertinente de se fazer após o término da introdução em que uma guia apresenta a trama para um grupo de estudantes em um museu. É tão pertinente, aliás, que uma das crianças interrompe a história (em um daqueles momentos mágicos de humor auto depreciativo), para questionar o absurdo. Em outra cena, um estudante, triste pela morte de um dos personagens, pergunta se é certo que histórias para crianças sejam tão violentas. Festa no Céu não reinventa a roda, mas esses pequenos momentos de auto consciência salpicados de sarcasmo conferem personalidade a jornada e fazem com que a digestão da inevitável lição de moral direcionada aos pais seja menos cansativa.

Festa no Céu - CenaManolo (Diego Luna) nasceu em uma família de toureiros. O avô? Toureiro. O pai? Toureiro. Manolo? Violeiro apaixonado. Novamente, você terá uma oportunidade para refletir sobre a importância de aceitar as decisões e vontades de seu filho mas, caso você não os tenha (\o) ou já esteja suficientemente convencido disso depois de milhares de exemplos, restará como atrativo um simples mas funcional triângulo amoroso entre Manolo, Maria (Zoe Saldana) e Joaquin (Channing Tatum) que explora as sempre divertidas e complicadas questões de gênero e, claro, as sequências de ação espetaculares. Na primeira delas, aquela em que Manolo tenta agradar o pai em uma tourada, o diretor cumprimenta os fãs de faroeste e de heavy metal ao colocar o personagem para duelar contra um touro enraivecido ao som da Ecstasy of Gold do Ennio Morricone imortalizada no clímax do clássico Três Homens em Conflito e na abertura dos shows do Metallica. A música de Manolo, aliás, revela-se uma arma tão ou mais forte do que os músculos e a espada de Joaquin, já que é com ela que ele conquista Maria (tocando, entre outras coisas, uma versão da depressiva Creep do Radiohead) e acalma e vence um gigantesco inimigo. Os fãs do quebra pau a moda antiga, porém, não ficarão decepcionados, já que Festa no Céu traz na sua conclusão uma pancadaria épica envolvendo os moradores de San Angel e um grupo de forasteiros comandados por um mexicano gigantesco.

Festa no Céu - Cena 3Arrependi-me de não ter assistido esse filme no cinema, de fato ele parece ter sido uma das melhores animações de 2014 e não tenho dúvidas de que seus lindíssimos cenários (tentem não babar naquela primeira visão do Mundo dos Mortos) e belas músicas ficariam ainda mais legais com os recursos de uma sala de projeção. Achei-o bem superior ao vencedor do Oscar Operação Big Hero (que eu paguei para ver) e espero que dá próxima vez eu confie mais nos meus instintos e não perca outra oportunidade de ver algo tão bom assim na telona.

Festa no Céu - Cena 4

Guardiões da Galáxia (2014)

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Guardiões da GaláxiaOhhhh yeahhhh!!!!! Quando assisti a infeliz adaptação do A Bússola de Ouro para a telona, fiquei com a impressão que nada, absolutamente NADA poderia ser mais legal do que um urso da Coca-Cola polar falante vestido com uma armadura dourada. Sinto muito, Iorek, mas você não é mais o meu favorito: além de conter boas piadas e cenas de ação frenéticas, o novo filme da Marvel, Guardiões da Galáxia, traz um desses baixinhos ranzinzas pelos quais todos nós apaixonamo-nos imediatamente. Rocket, o guaxinim antropomórfico que funciona como o cérebro do grupo de super heróis apresentado aqui, é o responsável pelas melhores e mais engraçadas cenas do filme. Dublado pelo Bradley Copper, o bichinho feito em CGI é uma mistura da violência e atitude do Wolverine com as ironias e a insanidade do Tommy DeVito, o baixinho invocado interpretado pelo Joe Pesci no Os Bons Companheiros. Declarado o meu amor pelo sujeito, conto-lhes agora as minhas impressões sobre o longa.

Guardiões da Galáxia é e não é apenas mais um filme de super heróis. É porque ele claramente segue fórmulas que já foram testadas em outras produções da Marvel. Não é porque, devido ao sucesso dessas fórmulas, percebo que deram tanta liberdade criativa ao diretor James Gunn e sua equipe, principalmente no que diz respeito ao visual dos personagens, que esse longa pode significar o início de uma nova fase nas adaptações dos quadrinhos da empresa para o cinema.

Lembram daquele primeiro filme dos X-Men do Bryan Singer? Na época do lançamento, um dos pontos mais comentados da produção foram os uniformes dos personagens. De um lado, alguns fãs praguejaram contra as roupas pretas realistas utilizadas por Singer. Do outro, argumentou-se que a mudança era compreensível, visto que nem tudo que funciona na HQ fica legal quando transposto para o formato cinematográfico. Ainda que os dois pontos de vista sejam válidos, a impressão que ficou foi a de que os produtores estavam sondando o terreno tal qual quem não confia no material que tem nas mãos. Certamente eles não devem ter duvidado da popularidade e do apelo comercial dos discípulos do Professor Xavier, mas nem por isso eles colocaram o Hugh Jackman na tela vestido com um collant amarelo.

Guardiões da Galáxia - Cena 3Na sequência, grandes campeões de bilheteria do gênero, como a trilogia do Batman do Nolan, seguiram com a proposta de modernizar e aproximar da realidade o visual dos super-heróis mas, no mesmo período, os filmes do Homem de Ferro e do Thor vieram e agradaram mesmo trazendo modificações mínimas na caracterização vistosa de seus personagens. Notei, já no X-Men – Primeira Classe, que as coisas começavam a mudar: lá estava o uniforme amarelo, mutantes voando com asas naturais e sintéticas impulsionados por super gritos (rs) … Paulatinamente (eu sempre quis usar essa palavra), comprovou-se que o público estava disposto SIM a pagar para ver atores vestidos com roupas super coloridas quebrando o pau contra super vilões. A prova? Basta olhar o sucesso estrondoso do Os Vingadores, filme que, nessa mesma pegada fantasiosa, abriu as portas para que parte da Guerra Infinita seja contada nos cinemas.

Guardiões da Galáxia - Cena 2E agora, que não há absolutamente mais NENHUMA dúvida de que todos nós gostamos de ver seres super poderosos e seus uniformes bufantes, Guardiões da Galáxia chega para mostrar que a Marvel perdeu a vergonha de mostrar seus personagens tal qual eles são nos quadrinhos. No universo desenvolvido pelo diretor James Gunn, além de guaxinins bacanudos e todo o tipo de alienígenas coloridos, temos um protagonista que é personificação do inconvencional. Peter Quill (Chris Pratt), o Star Lord, é o anti-herói por excelência, um cara que coloca uma missão em risco para resgatar um walkman (ele tem um walkman!) e que, após uma ação heróica, profere um dos discursos mais canastrões de que se tem notícia. Ao lado dos igualmente inconvencionais e excêntricos Groot (voz e cérebro do Vin Diesel), Rocket, Gomorra (a musa nerd Zoe Saldana) e Drax (Dave Bautista), Peter viaja pela galáxia tentando vender um cobiçado objeto que ele roubou de um planeta longínquo. Enquanto eles escapam de prisões espaciais e tentam negociar com o Colecionador (Benicio del Toro), arma-se uma guerra entre o conquistador Ronan (Lee Pace) e o povo de Nova.

Guardiões da Galáxia - Cena 4Guardiões da Galáxia é composto de 3 impressionantes cenas de ação (fuga da prisão, invasão da estação Knowhere e batalha aérea do Planeta Nova) e muitas, muitas piadas. Não há dúvidas que o vasto vocabulário do Groot e o humor ácido do Rocket sejam o que há de melhor por aqui, mas o filme também agrada pela atenção dada aos detalhes. Fora a trilha sonora repleta daqueles clássicos trash das décadas de 70/80 que tanto amamos, o diretor recheou o longa de referências e ganchos para outras produções da Marvel. O Thanos, que até agora havia feito apenas uma ponta no Os Vingadores, aparece em toda sua magnificência (felizmente, com sua roupa dourada e queixo largo, tal qual deve ser) e, acreditem, será preciso ver o filme mais de uma vez para conseguir apreciar toda a beleza do estoque do Colecionador.

Guardiões da Galáxia - Cena 5Infelizmente, a produção não escapa de alguns clichês do gênero, as já comentadas “fórmulas” que a Marvel tem trabalhado nos últimos anos. Nisso, esperem pelos inevitáveis diálogos excessivamente didáticos, personagens que “morrem” só para reaparecerem vivos na cena seguinte e, claro, o maior lugar comum do cinema de ação contemporâneo: alguém dependurado em um abismo após uma batalha. Resta-nos ignorar essas repetições, apreciar o desfecho incomum da relação entre o Star Lord e a Gomorra e celebrar o “escancaramento” que a Marvel faz de seu universo com Guardiões da Galáxia que, além de ser um filme divertidíssimo, merece ser venerado por apresentar o épico Rocket e por resgatar para essa geração o Howard, o Pato imoral e transante daquele clássico injustiçado da Sessão da Tarde.

Guardiões da Galáxia - Cena

Além da Escuridão – Star Trek (2013)

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Além da Escuridão - Star TrekTenho um carinho especial pelo Star Trek de 2009. Eu, que até então conhecia os personagens apenas através de imagens e citações em revistas e outros filmes, saí da sala de cinema verdadeiramente feliz, desejando vida longa e próspera para o J. J Abrams e para a franquia que ele ajudara a resgatar. Entre todos os motivos que levaram-me a considerá-lo um dos meus filmes favoritos até então, cito:

  • O roteiro: Apoiando-se inteligentemente no recurso da viagem no tempo, Star Trek conseguiu ser, ao mesmo tempo, um reboot e uma sequência, o que permitiu ao diretor explorar novos elementos dentro do vasto universo da série sem a necessidade de abrir mão de personagens e eventos do passado. Entre outras coisas, isso permitiu que o Leonard Nimoy retornasse ao papel de Dr. Spock em um dos momentos mais emocionantes do longa 🙂
  • Os efeitos especiais: Uau, olhem aquele ataque inicial dos Romulanos contra a U.S.S. Kelvin! Além de todas as excelentes cenas de batalha envolvendo as espaçonaves, o filme ainda trazia cenas conceituais belíssimas, como o ataque ao planeta Vulcano e, principalmente, a missão para neutralizar a escavadeira alienígena. Quatro anos depois e muitos filmes assistidos, ainda digo que o mergulho de Kirk (Chris Pine) e Sulu (John Cho) até o equipamento (uma queda livre direta do espaço que tem o pôr do sol ao fundo e o silêncio como trilha sonora) é um dos momentos mais mágicos que eu já presenciei olhando para a tela grande.
  • O “clima”: Esse é mais difícil de explicar. Há ali uma conexão entre personagens, música e cenários, enfim, um “clima”, que conquistam instantaneamente o espectador. A identidade visual criada para o filme e o carisma da tripulação da Enterprise é comparável ao que é visto em outras grandes franquias de nosso tempo, como O Senhor dos Anéis e Matrix. Peço ao leitor que recorde-se da cena em que o Kirk resolve alistar-se na Frota Estelar. Chegando até o local ao entardecer, ele para sua potente moto e observa, de longe, a Enterprise recebendo os últimos ajustes. Eu ACREDITEI naquele mundo naquele momento e só saí dele quando o filme acabou.

Além da Escuridão - Star Trek - Cena 2

Por esses motivos e pela vontade de voltar a ver um bom filme de ficção científica no cinema, minha expectativa para a estréia do Além da Escuridão – Star Trek era gigantesca e isso me deixou com medo. As chances do filme não ser tão bom quanto o primeiro eram enormes e a de ele ser ruim, apesar de pequenas, eram reais. Chegou o dia e lá estava eu na estréia, com meu óculos 3D e meu medo, é verdade, mas também com a esperança de voltar a sentir o que eu sentira em 2009.

Após bater Nero e os Romulanos, Kirk firmou-se como o capitão da U.S.S. Enterprise e comanda sua tripulação em missões de reconhecimento através do vasto e desconhecido espaço. Uma falha durante uma dessas missões coloca em risco seu cargo e sua amizade com Spock (Zachary Quinto), mas antes que a situação possa ser resolvida surge uma nova ameça, um antigo inimigo da Federação (Benedict Cumberbatch) que ataca nosso planeta e foge para o espaço, o que cria um estado de guerra e obriga a tripulação da Enterprise a ignorar as tensões internas e ir atrás do criminoso para resolver o conflito.

Além da Escuridão - Star Trek - Cena 5

Digo-vos, sem nenhuma tristeza, que Além da Escuridão NÃO é melhor que Star Trek. A falta de pesar ou de decepção nesta constatação deve-se ao fato de que, após refletir um pouco, percebi que esta continuação nunca poderia repetir alguns dos méritos de seu antecessor e que, excluindo-se esses méritos, Além da Escuridão é o melhor filme que ele poderia ser. Explico.

Star Trek, além de todas as qualidades que foram citadas no início do texto, tem algo contra o qual esse filme não poderia concorrer: o fator novidade. Lá, a apresentação dos personagens, o desenvolvimento do relacionamento entre eles e as muitas “primeiras vezes” que o longa contém, como a primeira batalha na Enterprise, a primeira união de forças entre Spock e Kirk e a primeira aparição do Nimoy constituem pontos altíssimos do filme. Não era possível repetir aqui esses momentos, pelo menos não com o mesmo efeito nostálgico. Ciente disso, J. J. Abrams inicia Além da Escuridão com tudo, mostrando os personagens no meio de uma missão arriscada em um planeta primitivo e exótico. Se não causa a mesma surpresa acompanharmos Kirk e Spock em ação, é magnífico ver a equipe novamente reunida (e ver que todos recebem a devida atenção) e os efeitos especiais soberbos apresentados logo no início, como na estupenda cena do vulcão, que jogam facilmente o espectador para dentro da trama.

Além da Escuridão - Star Trek - Cena 4

Como não era possível superar a nostalgia do primeiro, os roteiristas esforçaram-se para que a trama, que apoia-se em um roteiro inteligente e sombrio, suprisse essa lacuna. Kirk revela-se um capitão impulsivo e irresponsável, Spock continua afastando as pessoas que ama com sua lógica fria e irredutível e a Federação parece mentir para a tripulação da Enterprise quando a designa para a missão no planeta Kronos. A ótima reviravolta de Star Trek, que era baseada em em uma viagem temporal, aqui advém da necessidade de confiar no próximo mesmo quando isso não parece ser a melhor opção. Amizades são desfeitas, ordens diretas são desacatadas e um passado sombrio volta a assombrar a Federação, o que gera um clima de desconfiança e mistério para a trama que casa muitíssimo bem com a pegada de aventura da série. Quando menos percebemos, passaram-se as 2h10min do filme.

Além da Escuridão - Star Trek - Cena 3

Visualmente, não há nada aqui tão significativo quanto a já descrita cena da furadeira, mas de modo geral Além da Escuridão é mais dinâmico e grandioso em suas cenas de ação do que seu antecessor. Além da divertida correria da abertura, o filme ainda reserva ótimos momentos para os fãs de ação com tiroteios espetaculares, combates corpo a corpo violentos e, principalmente, momentos épicos envolvendo a Enterprise. Praticamente um personagem à parte, a espaçonave serve de palco para a missão impossível que Kirk empreende quando salta dela até a nave Vengeance e protagoniza o clímax da aventura, uma sequência emocionante onde a tripulação tenta salvá-la daquilo que parece ser a destruição certa.

Além da Escuridão é, portanto, o melhor filme que ele poderia ser, a tal “continuação natural” que a história pedia e, sobretudo, merecia. Estendo o carinho que tenho pelo primeiro à ele e recomendo-lhes que assistam-no no cinema, tanto para os vossos benefícios, visto tratar-se de um excelente filme, quanto para o da série, que para continuar necessita apenas de público, já que o espaço é gigantesco e cheio de aventuras para Kirk e cia enfrentar. Reforço os desejos de vida longa e próspera ao J. J. Abrams e a franquia.

Além da Escuridão - Star Trek - Cena

Os Perdedores (2010)

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Lá pelo meio do ano eu vi o trailer e alguns cartazes do filme Os Perdedores e passei a esperar a estréia. Fora ser uma adaptação de uma HQ, Os Perdedores ainda contava com nomes como Jeffrey Dean Morgan (o Comediante do Watchmen), Zoe Saldana (Neytiri do Avatar) e Chris Evans (o Tocha Humana do Quarteto Fantástico) no elenco. O mínimo que dava para esperar era um testosterona total repleto de cenas de ação absurdas e piadinhas trash. Esse mínimo não foi alcançado: Os Perdedores é incrivelmente medíocre e felizmente saiu aqui direto em DVD.

O velho esquema de um grupo de especialistas que reúne-se para uma missão é o ponto de partida do filme. Eles são mandados para a Bolívia para eliminar um vilão qualquer e caem em uma armadilha que os obriga a refugiarem-se no país e fingirem que estão mortos. Eles são contactados por uma mulher (Saldana) que os oferece a chance de voltar para os EUA e vingarem-se de quem os colocou naquela situação.

Esse filme tem 1h36min, tem explosões, tem uma cena de sexo Emanuelle style, traições, um personagem engraçadinho, um caladão, um mal humorado e um vilão que no final quer explodir alguma coisa que ainda não foi explodida durante o filme. A maioria das piadas não funciona e nenhuma das cenas de ação tem algo original. Para não falar que tudo é genérico, a montagem do filme emula alguns elementos das HQ’s e o diretor teve culhões para mostrar mulheres tomando socos na cara e crianças morrendo, cenas que muitos filmes evitam pela não criar polêmica. Papo sério, qualquer pessoa que já viu uns 5 filmes de ação na vida não ganhará absolutamente nada assistindo Os Perdedores.