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Mulher Maravilha (2017)

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Após dividir opiniões com o tom sombrio adotado em O Homem de Aço e Batman vs Superman e ver o hiper colorido Esquadrão Suicida transformar-se em um dos maiores fiascos de 2016, o pessoal da DC certamente percebeu que não podia mais errar. Nisso, eles olharam para o lado, observaram o que a Marvel produziu nos últimos anos e decidiram tentar algo semelhante. Mulher Maravilha, filme da diretora Patty Jenkins concebido e produzido pelo onipresente Zack Snyder, traz todo o humor e ação que fizeram o Homem de Ferro e cia caírem nas graças do público. A aura mais “séria” da DC, no entanto, não foi completamente deixada de lado e continua presente graças à adição do atualíssimo tema do feminismo. O resultado dessa “mistura de fórmulas” é um filme legal, que diverte, faz pensar e que, acima de tudo, mostra o caminho que a DC pode e deve seguir daqui em diante.

Ninguém discorda que a participação da Mulher Maravilha (Gal Gadot) foi um dos pontos altos do Batman vs Superman, mas ao mesmo tempo ficou a sensação incômoda de que a personagem não rendeu tudo o que poderia render. A amazona foi fundamental para a vitória dos heróis sobre o Apocalypse, porém a falta de um longa anterior contando sua história transformou-a quase numa coadjuvante de luxo num universo em que ela é uma das principais protagonistas. Pensem aí: o que nos contaram da Diana antes de mostrarem-na saltando e golpeando ao som daquela música tribal legalzona? Que ela estava procurando uma foto? A real é que o Zack Snyder errou feio com a personagem (e, para quem acha que não é possível contar uma história bacana e apresentar muitos personagens ao mesmo tempo, basta ver o que a Marvel fez no Guerra Civil, que debutou simultaneamente gigantes como Homem Aranha e Pantera Negra).

Mulher Maravilha chega agora para contar a origem de Diana e explicar o contexto no qual aquela foto foi tirada. Ficou bom? Ficou bom demais, pena que não fizeram isso ANTES do Batman vs Superman. Se o filme da diretora Patty Jenkins preenche lacunas e responde questões anteriormente colocadas, ele pouco ou nada faz para preparar terreno para o próximo filme da DC, o aguardado Liga da Justiça (tanto que nem há cena pós-créditos). O acerto individual é inegável, mas, do ponto de vista cronológico, o Universo Estendido da DC continua estranho.

Feita esta ressalva, falemos dos muitos acertos de Mulher Maravilha. Tal qual O Homem de Aço, temos aqui um filme de origem, desses onde a história do/a personagem é explorada desde o início. Nisso, a diretora Patty Jenkins vale-se de sequências de animação e de cenas numa ilha paradisíaca para mostrar a infância de Diana, filha de Hippolyta (Connie Nielsen), uma amazona descendente do próprio Zeus que cresceu sem conhecer nenhum homem e foi treinada pela lendária guerreira Antiope (Robin Wright). Este começo, que é deveras rápido, revela-se fundamental para o funcionamento da trama: é aqui, nos diálogos entre a heroína e sua mãe, que a curiosidade, a determinação e a fé inabalável no amor da personagem ficam claros para o público. Vale destacar também a beleza onírica do cenário, que tanto faz a gente querer sair viajando por aí (as locações são italianas) quanto contrastam significativamente com os horrores da guerra que são mostrados em seguida.

O conflito começa quando, após uma briga com a mãe, Diana vê um avião cair próximo ao litoral da ilha. Naquela que talvez seja a cena mais bonita do filme (visualmente falando), a personagem salta de um penhasco e mergulha para resgatar o piloto Steve Trevor (Chris Pine) dos destroços. Tão logo salva a vida de Steve, Diana e as amazonas precisam lidar com um batalhão inteiro do exército alemão, que invade a ilha à procura do piloto. A primeira cena de ação de Mulher Maravilha é um espetáculo: mesmo que o uso excessivo do slow motion (estética visual que a diretora emula dos trabalhos do Snyder) acabe enjoando depois de um tempo, as lutas foram coreografadas para parecerem selvagens e brutais. Caem, junto com os corpos dos alemães (e o de uma importante personagem), os primeiros estereótipos: aqui, são as mulheres que salvam os homens e elas, ao contrário do que é levianamente dito, não tem nada de “sexo frágil”. Antiope bate igual uma campeã, caras.

O tema do feminismo é explorado em muitos pontos de Mulher Maravilha e a postura forte e independente de Diana certamente inspirará muitas mulheres a buscarem o próprio empoderamento. Como o debate é amplo, também não dá para desconsiderar a opinião de quem diz que, ao fazer da heroína uma mulher de corpo intangível e axilas depiladas, o filme foi superficial e até mesmo equivocado com as demandas atuais do feminismo. Independente da opinião que qualquer um possa ter sobre as questões abordadas, no entanto, não podemos abrir mão de pensar sobre elas, então deixo aqui a minha contribuição. Tão logo a batalha da praia encerra-se, Steve é interrogado pelas amazonas sobre o mundo exterior e a guerra. Quando tem oportunidade de ficar sozinha com o piloto, Diana interpela-o com uma série de perguntas que, em sua maioria, carregam algum tipo de conotação sexual. Achei particularmente interessante observar a reação do público do cinema nessa cena (e também naquela que acontece logo em seguida, num barco). Enquanto as mulheres riam o tempo todo, os homens ficavam visivelmente constrangidos. Por quê? Será que é porque o cinema costuma retratar somente o contrário (mulheres sexualizadas à serviço do humor)? Acredito que, mais do que revoltar-se quando Diana diz que “homens são necessários apenas para a reprodução”, vale a pena usar o desconforto causado por algumas cenas para repensarmos algumas atitudes e posturas.

Pelo tema da guerra, muitas pessoas apressaram-se em comparar Mulher Maravilha com o Capitão América. As semelhanças visuais são óbvias (apesar de estarmos falando de duas guerras diferentes), mas estruturalmente a trama lembra bem mais o primeiro Thor. Tão logo chega em Londres, Diana envolve-se em uma séries de situações cômicas tal qual o deus do trovão envolveu-se ao ser exilado na Terra por seu pai. Esse “meio” do filme é onde vemos com mais clareza a influência da Marvel sobre o trabalho da DC. O humor proveniente da inocência da Diana em cenas rápidas e leves como aquela da porta giratória é melhor do que tudo o que foi feito nesse sentido no Esquadrão Suicida (até hoje não acredito naquela ‘piada’ sobre apagar o histórico de busca) e é um indicativo de que a DC está no caminho certo.

Todo caso, trata-se de um filme de “super herói”, o que implica em cenas de ação grandiosas e confrontos contra vilões memoráveis. Antes de ficar cara a cara com seus antagonistas, Ludendorff (Danny Huston) e Dra. Maru (Elena Anaya), Diana (que, salvo engano, não é chamada em nenhum momento de Mulher Maravilha) enfrenta o perigo das trincheiras e luta contra um sniper nos escombros de uma cidade destruída. Fazendo uso de seu escudo, dos Braceletes Indestrutíveis, do Laço da Verdade e da Espada Matadora de Deuses, Diana toma a frente no campo de batalha e sobra sobre os soldados alemães. O que ela faz contra o sniper no campanário, aliás, é uma das maiores demonstrações de força bruta que se tem notícia em um filme de super herói.

É difícil imaginar ligações diretas entre Mulher Maravilha e o Liga da Justiça. Deveriam ter lançado este filme antes do Batman vs Superman e pronto. Como “consolação”, fica o fato de que, fora apontar um caminho, o trabalho da diretora Patty Jenkins começa, desenvolve-se e termina bem. A reviravolta do final, com o surgimento de um novo e inesperado vilão e a pancadaria brutal que segue-se é o exemplo que a DC ousa deixar para a Marvel: valorizem a luta final e façam o possível para tornarem-na épica e cheia de poderes, luzes e frases de efeito. Vencer uma guerra com amor? Gosto. Gal Gadot? Gosto também.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016)

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Batman vs Superman - A Origem da JustiçaAssisti Batman vs Superman: A Origem da Justiça na pré-estreia, dia 23/03, numa sessão praticamente lotada do Cinépolis. Cheguei, peguei meu óculos 3D e sentei lá no alto, no cantinho da fileira L. Mesmo não sendo um dos melhores lugares para visualizar a tela (as cadeiras parecem terem sido posicionadas para casais que só querem dar uns amassos), fiquei satisfeito por ter conseguido comprar os ingressos e presenciar em primeira mão uma das produções mais aguardadas de 2016.

Duas horas e meia depois, saí do cinema satisfeito com o que vi e, força do hábito, acessei sites especializados em cinema e quadrinhos para checar as reações do público e de outros críticos. Grande foi a minha surpresa quando percebi que muitas pessoas não só tinham reprovado o filme como já apressavam-se em sepultá-lo, dando como certo o seu fracasso comercial e apontando-o como forte candidato a maior decepção do ano. Os “argumentos” utilizados foram coisas do tipo “têm muitas referências aos quadrinhos”, “o Ben Affleck está horrível como Batman”, “o filme é longo demais”, “o Apocalypse e o Lex Luthor não são fiéis as HQ’s”, etc, etc, etc. Disseram, também, que “não é bom porque as produções da Marvel são melhores e mais divertidas”. Neste resenha “isentona”, tentarei deixar de lado toda essa passionalidade e fanatismo e concentrar-me apenas naquilo que vi: ainda que Batman vs Superman mereça sim algumas críticas, no geral ele é divertidão e entrega tudo aquilo que os trailers prometeram. O texto conterá SPOILERS, então só leia se você não importar-se com revelações sobre o roteiro ou se você já tiver assistido. De qualquer forma, veja, a opinião de nenhuma crítico substituirá as suas próprias impressões 🙂

Batman vs Superman - A Origem da Justiça - Cena 5O primeiro ponto que precisa ser comentado é a vastidão do material que o diretor Zack Snyder trabalhou aqui. Enquanto a Marvel lançou 6 filmes (2 do Homem de Ferro, 2 do Hulk, 1 do Thor e 1 do Capitão América) antes de reunir os Vingadores, a DC Comics optou por abrir caminho para a versão cinematográfica da Liga da Justiça tendo como referência apenas O Homem de Aço de 2013. Devido a isso, acredito que todo mundo que viu os trailers e/ou leu matérias sobre a produção antes do lançamento ficou preocupado com a quantidade de informações que Batman vs Superman teria que dar conta. Minimamente, este filme deveria 1) contar a origem do Batman (Ben Affleck), 2) ser uma continuação para o Superman (Henry Cavill), 3) trazer uma história onde a Mulher Maravilha (Gal Gadot) recebesse a devida atenção, 4) incluir referências aos futuros longas do Aquaman (Jason Momoa) e do Flash (Ezra Miller) e, não menos importante, 5) valorizar vilões importantes, como o Apocalypse e o Lex Luthor (Jesse Eisenberg) e 6) plantar elementos para continuações. É muita coisa. Independente do resultado, é preciso reconhecer que a aposta do estúdio (que talvez tenha acelerado o processo por recear perder o bom momento para filmes de super heróis) não foi das melhores.

Batman vs Superman - A Origem da Justiça - CenaCom uma bomba dessas nas mãos, o Zack Snyder e seus roteiristas tiveram que desenvolver um formato diferente de narrativa daquele que estamos acostumados a ver em produções do gênero. Assim sendo, Batman vs Superman conta sim a origem do Batman, mostrando o assassinato de seus pais e as motivações que levaram-no a lutar contra o crime, mas o faz de forma parcial. Vemos o menino Bruce caindo em um buraco cheio de morcegos e pronto, lá está ele já adulto e barbado, com um histórico de 20 anos de lutas contra o crime pra contar. Ao que tudo indica, esse longo espaço de tempo será aproveitado no próximo filme do herói, mas por ora resta ao público apenas comprar a ideia de que o personagem já passou por maus bocados (perder o Robin, enfrentar o Coringa e o Charada) antes de confrontar-se com o Azulão. O “problema” dessa abordagem é que ela praticamente obriga que o próximo filme do homem morcego seja uma prequência, ou seja, dificuldades à vista para que o Ben Affleck consiga conectar a história com o longa da Liga da Justiça.

Batman vs Superman - A Origem da Justiça - Cena 6O mesmo raciocínio vale para a Mulher Maravilha. O filme solo dela, que já está em fase final de produção, provavelmente mostrará eventos anteriores aos que podem serem vistos em Batman vs Superman. Por esse motivo, ela é inserida na história sem muitas explicações ou apresentações (sabemos que ela está procurando uma foto rs) e, mesmo que ela roube a cena na luta contra o Apocalypse (na sessão que fui, o pessoal bateu palmas para a entrada triunfal dela, com aquela música tribal HIPER legal tocando ao fundo), a verdade é que a personagem pouco ou nada acrescenta ao roteiro. Flash e Aquaman, por outro lado, fazem apenas rápidas (e promissoras) aparições e poderão, em seus respectivos longas, fazerem links diretos com A Liga da Justiça. Já o Ciborgue, que eu sinceramente não conhecia, não deve ganhar um longa próprio.

O único que saiu lucrando foi o Superman. O núcleo de personagens do O Homem de Aço (que reúne os atores Amy Adams, Laurence Fishburne e Diana Lane) foi mantido e a mitologia do herói foi ampliada com a adição do Lex Luthor, que opõe-se a condição “divina” do Superman e elabora uma tramoia para colocar o governo e o Batman contra o personagem. Não endosso as críticas que estão sendo feitas ao Jesse Eisenberg. Ao meu ver, a interpretação caótica dele casou bem com o dilema do Luthor, que demonstra frustração por sua inteligência elevada não ser o suficiente para garantir-lhe os mesmos poderes e veneração de seu rival.

Batman vs Superman - A Origem da Justiça - Cena 2Feitas essas considerações sobre cada um dos personagens e deixado claro que considero um erro reunir tantos elementos/heróis em um filme só, tiro mais uma vez o meu chapéu para o Zack Snyder. É difícil pensar sobre os problemas estruturais de Batman vs Superman enquanto você está lá, dentro da sala do cinema. O longa, que tem 2h30min, mistura muito bem diálogos e cenas de ação e o talento do diretor para criar imagens impactantes e para conduzir sequências grandiosas e memoráveis de pancadaria continua afiado. Não é difícil ouvir o Lex Luthor e o Batman falando sobre a ambiguidade da condição do Superman porque o texto é muito bom, repleto de citações a outras obras da literatura. Não é difícil ver os sonhos e pesadelos do Bruce Wayne sobre sua infância porque o diretor consegue dar uma visão poética para essas cenas, coisas como mostrar o menino erguendo-se no meio de morcegos com uma música dramática ou focar objetos simbólicos para as cenas (as flores para o enterro, as pérolas do colar materno). Conforme dito, há lacunas na história de alguns personagens, mas o que foi feito ficou muito bom.

Batman vs Superman - A Origem da Justiça - Cena 3Também não é difícil ficar empolgado com as cenas de ação. Ao meu ver, o Snyder é sim um diretor visionário nesse sentido e aqui ele entrega outro excelente trabalho, com cenas bastante variadas (perseguições de carro, combates individuais e em grupo) e bem filmadas. Eu queria que a luta contra o Apocalypse tivesse durado um pouco mais e que o cenário onde ela acontece fosse um pouco menos clichê (já estou cansado daquelas ruínas com céu avermelhado), mas todo o resto é muito bom. Reparem no quanto o diretor conseguiu dar personalidade, por assim dizer, para o estilo de luta de cada um dos heróis. O Batman, que sabe estar enfrentando seres superiores, apoia-se na tecnologia e no treinamento físico para fazer frente a seus inimigos. Ele consegue ser brutal na luta contra o Superman (gostei demais de ele golpear o cara com uma pia rs), letal contra a escória de Gotham e esperto para ficar escondido na luta contra o monstro (que, aliás, tem um visual horrível e genérico). A Mulher Maravilha, com suas habilidades épicas de batalha, sua espada, escudo, braceletes e laço, é 100% ataque e atitude, ela não hesita nenhum segundo antes de partir para cima dos vilões, o que é muito bom tanto pela quebra do estereótipo da “mulher indefesa” quanto pela selvageria que introduz nas cenas. Por último, o Superman continua absoluto, mas o seu senso de dever continua impedindo-o de utilizar plenamente os seus poderes, o que dá um contraste interessante para o personagem.

Batman vs Superman - A Origem da Justiça - Cena 4Batman vs Superman pode até não ser o filme “definitivo” de super heróis (como muita gente chegou a acreditar quando as primeiras informações sobre ele apareceram), mas definitivamente ele não merece toda a campanha de difamação que está sendo feita. Se o que vi me deixa um pouco preocupado com os próximos passos cinematográficos da DC Comics, também não posso deixar de ficar empolgado com tudo o que pode vir caso os erros vistos aqui sejam corrigidos (tenho muita fé, por exemplo, no filme do Aquaman). O material é muito bom. Continuo admirando o trabalho do Snyder e ansioso por novos lançamentos de filmes de super heróis, ainda não cansei do gênero.

Batman vs Superman - A Origem da Justiça - Cena 7

300: A Ascensão do Império (2014)

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300 - Ascensão do ImpérioO Zack Snyder debutou nas telonas com o excelente remake do Madrugada dos Mortos do Romero, mas ninguém discorda de que foi o testosterona total “six pack abs” 300 que lhe garantiu o título de “visionário” e o elevou a condição de um dos diretores mais criativos produzindo atualmente em Hollywood. Mesmo com os fracassos comerciais inexplicáveis de Watchmen e A Lenda dos Guardiões, o talento inquestionável do diretor para dirigir cenas de ação e trabalhar com efeitos especiais renderam-no um convite para revitalizar a saga do Super Homem nas telas, tarefa na qual, ao meu ver, ele saiu-se muitíssimo bem ao lado do Christopher Nolan no O Homem de Aço. 300: A Ascensão do Império, continuação de seu trabalho mais lembrado, estréia hoje em todo o país trazendo nos créditos o nome do desconhecido diretor Noam Murro. Não há, no entanto, motivos para preocupação por parte dos fãs do primeiro filme: sem poder dirigir o longa devido a seu trabalho com o azulão, Snyder produziu-o, ajudou a escrever o roteiro e é possível perceber durante a 1h40min de projeção que Murro (rs) apenas seguiu a cartilha que lhe foi dada.

A Ascensão do Império é baseado na vindoura Graphic Novel Xerxes, do Frank Miller. Vindoura? Sim, como pode ser lido aqui, o escritor/desenhista ainda não concluiu sua prequência do aclamado Os 300 de Esparta e, portanto, o que vemos no filme não necessariamente será o que poderá ser lido futuramente nos quadrinhos. Essa curiosidade é válida para compreendermos o porque do foco do filme ser o herói grego Temístocles (Sullivan Stapleton) e não o próprio Xerxes (Rodrigo Santoro), que dá nome a HQ e, na pré-produção, também intitulava o filme.

É Xerxes, porém, que abre o filme caminhando sobre os corpos dos guerreiros de Esparta vencidos na Batalha das Termópilas. Antes de partir para incendiar a cidade de Atenas, ele utiliza seu machado para extrair dali um dos maiores troféus de batalha daquele tempo: a cabeça do rei Leônidas. A Ascensão do Império mostra então os desdobramentos da cena final de 300, onde a Rainha Gorgo (Lena Headey) lidera o exército espartano e grego contra o Xerxes naquilo que a história nos conta como sendo o início do fim da soberania militar do Deus-Rei persa.

300 - A Ascensão do Império - Cena 5A grande sacada do roteiro, ao meu ver, é que todo o filme é um grande e divertido flashback. Lembram da Gorgo e do Dilios (David Weham, o grande Faramir de O Senhor dos Anéis) proferindo um discurso de vingança no fim de 300? Ascensão do Império, além de mostrar as origens de Xerxes, é o filme que dá conta do que aconteceu entre a morte de Leônidas e esse discurso. Não foram somente os espartanos que usaram suas lanças e escudos para tentar conter o avanço persa. Muito antes de um emissário ser chutado para dentro de um poço sem fim, Temístocles já havia provocado a ira de Xerxes, e por um motivo muito mais grave: na chamada Batalha de Maratona, o herói grego matou seu pai, o então rei persa Dário, na sua frente. Jurando vingança e sob a influência de Artemisia (Eva Green), Xerxes utiliza ritos antigos para converte-se no chamado Rei-Deus e reúne o maior exército já visto até então para destruir seus inimigos.

300 - A Ascensão do Império - Cena 4Temístocles é para esse filme o que Leônidas foi para o 300, um homem com poucos talentos para a política mas muita disposição e técnica para usar espada e escudo no campo de batalha. O personagem até tenta convencer Gorgo a juntar-se a ele em seus esforços navais contra a frota comandada por Artemísia, mas diante da recusa da rainha espartana ele não pensa duas vezes antes de juntar todos os guerreiros disponíveis e partir para a guerra, e é aí que a nossa diversão começa. Como dito, Murro segue com devoção o trabalho feito anteriormente pelo Snyder e nos joga no meio de batalhas sangrentas mostradas nos mínimos detalhes devido ao uso escandaloso do slow motion. O sangue, tão literalmente quanto possível graças ao excelente uso do 3D, voa incessantemente na tela após cabeças, pernas e braços serem decepados pelos golpes certeiros de Temístocles e seus companheiros. Gostei especialmente das cenas de ação do começo do filme, sequências avassaladores e brutais de pancadaria filmadas com pouquíssimos cortes da câmera e muitíssima criatividade. Há morte, há gritos de guerra, há espadas na boca e até mesmo um cavalo esmagando a cabeça de um infeliz, mas também há algo que não pode deixar de ser comentado: humor involuntário.

300 - A Ascensão do Império - CenaLembro que, na época do lançamento do 300, muita gente aloprou o filme (mesmo tendo gostado dele) classificando-o como “filme pornô-gay”. Ok, tínhamos ali homens envolvidos em atividades majoritariamente masculinas, como o treinamento militar e a guerra, mas esses mesmos homens apareciam usando tanga, capa e sandálias exibindo seus abdomens sarados (o tal “six pack abs”, como eles ficaram conhecidos rs) e, estranhamente, pareciam estar o tempo todo suados ou, pior, besuntados em óleo. Não tinha como ignorar a veia cômica dessa “macheza” toda e isso volta a acontecer aqui. Todo o elenco voltou a passar por um treinamento rigoroso para alcançar o físico necessário para a trama e, novamente, o espectador será “agraciado” com várias cenas onde os brutamontes do filme aparecem só de tanga. Para compensar esse presente de grego, Snyder trouxe para o filme a bela Eva Green, que, em uma cena de sexo tensa e engraçada (felizmente o diretor percebeu isso) com Temístocles, exibe suas belas e rosadas glândulas mamárias. Ao que tudo indica, a gravidade não afetou muito a atriz, que continua tão “talentosa” quanto na época do Os Sonhadores.

300 - A Ascensão do Império - Cena 3Classificado como “Não recomendado para menores de 16 anos”, 300: A Ascensão do Império aproveita a oportunidade para fazer um filme tão ou mais violento do que seu antecessor e é bem sucedido em sua proposta de fornecer entretenimento para o público adulto. Temístocles, obviamente, não consegue superar em carisma o Rei “This is Sparta!” Leônidas, mas a ferocidade e as estratégias usadas por ele nas batalhas navais, bem como a já citada cena de nudez da Eva Green, não nos deixam sentir falta do Gerard Butler. O ator, aliás, deveria fazer uma ponta no longa, mas recusou dizendo que “esse não era exatamente o lance dele”. Eu não quero nem imaginar o que ele quis dizer com isso. Finalizando, Ascensão do Império é o filme que eu e você, fã do Zack Snyder, esperávamos: violento, repleto de cenas em slow motion que utilizam sabiamente o efeito de luz e sombra e com uma trilha sonora que mistura heavy metal e música clássica. Dificilmente essa sequência daria errado e não foi o caso, podem comprar o ingresso tranquilos e prestigiarem (preferencialmente, em 3D numa sala com um bom sistema de som) outro trabalho irrepreensível comandado pelo diretor.

300 - A Ascensão do Império - Cena 2

O Homem de Aço (2013)

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O Homem de AçoEu gostei do Superman – O Retorno. Adoro a cena do salvamento do avião e, mesmo depois de 7 anos e muito títulos de ação semelhantes assistidos, ainda a considero como um dos feitos mais impressionantes/cool já realizados por um herói na telona. Não serei eu a discordar, no entanto, da principal crítica feita na época ao trabalho do Bryan Singer: excluindo a cena citada, faltou ação no filme. O Lex Luthor, inimigo clássico do herói, apesar de muitíssimo bem interpretado pelo Kevin Spacey, não conseguiu fornecer um desafio físico à altura dos poderes do azulão. Optando por uma continuação direta dos filmes estrelados pelo Christopher Reeve, Singer e sua equipe realizaram um trabalho tão nostálgico quanto repetitivo para quem conhecia os longas antigos e, ao que tudo indica, também não agradaram o público atual de filmes de ação, pessoas acostumadas a sequências de pancadaria frenéticas com cortes constantes e efeitos especiais exagerados. Com uma bilheteria que mau pagou os custos de produção, O Retorno, que tinha tudo para resgatar as aventuras do personagem em uma época onde as pessoas mostram-se interessadas em filmes de super-heróis, acabou transformando-se no ponto final da cine-série iniciada em 1978 pelo diretor Richard Donner.

Obviamente, o personagem, um dos mais conhecidos e rentáveis da DC Comics, não ficaria esquecido muito tempo pela indústria hollywoodiana. Dentre todas as especulações que surgiram sobre o projeto de levar o Super Homem de volta às telas, a que mais me agradou foi a possibilidade do Zack Snyder ser convidado para a direção. Para dizer pouco, o cara é um dos diretores mais criativos, se não o mais, que debutou em terras americanas nesse século. Para escancarar a minha admiração, Watchmen é um dos meus filmes favoritos e considero-o como uma das melhores adaptações de HQ’s já feitas para o cinema. O que era boato foi anunciado oficialmente e a expectativa, que à partir desse momento era gigantesca, foi alçada ao status de “monstruosa” quando Christopher Nolan, o responsável pela trilogia do Cavaleiro das Trevas, foi confirmado como um dos roteirista do reboot. Sim, reboot, pois também ficou decidido que O Homem de Aço desconsideraria os filmes anteriores do personagem para contar sua história desde o início.

O Homem de Aço - Cena 4

Essa história, caros leitores, começa no longínquo planeta Krypton, lar de uma sociedade avançadíssima porém condenada a extinção devido a exploração indevida de recursos naturais. Jor-El (Russell Crowe) sugere que os anciões do planeta procurem a salvação dos kryptonianos explorando outros planetas mas, antes mesmo que a proposta possa ser seriamente discutida, o General Zod (Michael Shannon) toma o poder com a ajuda de um golpe militar. Temendo a segurança do filho recém nascido, Jor-El envia-o em uma cápsula para a Terra, onde ele é encontrado e adotado pelo casal Martha (Diane Lane) e Jonathan Kent (Kevin Costner). Batizado Clark Kent (Henry Cavill), o extraterrestre cresce em nosso planeta procurando manter sua identidade e seus poderes escondidos, tarefa na qual ele é bem sucedido durante os primeiros 33 anos de sua vida errante, no final dos quais o mesmo Zod localiza-o e exige que nossas autoridades entreguem-no. Clark, cuja verdadeira história havia sido parcialmente descoberta pela repórter Lois Lane (Amy Adams), vê-se então dividido entre juntar-se ao que sobrou da sua raça, já que Krypton fora destruída logo após sua partida, ou usar seus poderes e lutar para proteger a Terra dos invasores.

O Homem de Aço - Cena 5

Quando finalmente falou como diretor oficial do longa, o Zack Snyder fez questão de dizer que sempre vira o Super Homem como um herói de grande força física e que era assim que ele o mostraria na tela. Logo após, surgiu uma imagem do personagem próximo a um caixa-forte todo retorcido. O recado era claro: O Homem de Aço, ao contrário de O Retorno, teria MUITA ação. Na época, lembro de ler comentários de fãs temerosos de que o diretor transformasse o filme em outro Sucker Punch, ou seja, que a forma suprimisse o conteúdo, que a ação espetacular, que o diretor inquestionavelmente sabe como fazer, não viesse acompanhada de um bom roteiro que a justificasse e complementasse. Regozijem-se, desconfiados, o que os aguarda no próximo dia 12 é um épico de 2h30min que não apenas cumpre a promessa de batalhas grandiosas como reserva tempo suficiente para diálogos e passagens que desenvolvem muitíssimo bem o personagem e o mundo no qual ele está inserido.

O Homem de Aço - Cena 2

Ao lado da pancadaria frenética, que comento no próximo parágrafo, acredito que o principal mérito de O Homem de Aço seja sua narrativa. O filme começa, Krypton e o núcleo envolvendo o ator Russell Crowe desaparecem rapidamente e, mais rápido ainda, ficamos sabendo que Jonathan Kent morreu, motivo que levou Clark a vagar pelo mundo. Aquela sensação incômoda de que estão correndo com a história para irem direto para a ação, felizmente, não dura muito: a medida que Clark vai enfrentando algumas provações, flashbacks vão sendo introduzidos para contextualizarem as cenas. É aí que atores como Kevin Costner e Diane Lane tem a chance de mostrarem seu talento, emocionando com suas performances seguras e discursos inspiradores, e é aí também que o Zack Snyder começa a provar que sua escolha não foi um equívoco. Extremamente sensível ao poder dos detalhes e da trilha sonora, como pode ser visto no já citado Watchmen, o diretor cria imagens lindas em meio as cenas de batalha, como aquela que pode ser vista no trailer quando o pequeno Clark brinca em seu quintal acompanhado  por um cachorro. A capa vermelha, o sol, a borboleta pendurada no balanço… Snyder faz poesia com imagens.

O Homem de Aço - Cena 6

Sobre a ação, na impossibilidade de descrevê-la com palavras que mostrem a minha empolgação sem revelar o que será visto, contentarei-me em dizer que eu não consigo imaginar como poderia ser melhor. Desde a furtividade adotada nas cenas do Jor-El e da Lois Lane, passando pela aprendizagem dos poderes (ah, aquele primeiro voô!) até a mega, hiPER, ULTRA sequência de luta entre o Super Homem e os kryptonianos, Snyder oferece aqui o que há de melhor no estilo. Barras de aço são retorcidas, caminhões são arremessados e corpos atravessam edifícios como consequência dos combates épicos entre os personagens. Os cortes são rápidos quando precisam ser, mas na maioria do tempo ele permite que o espectador veja, de fato, o que está acontecendo na tela. O uso do slow motion, talvez a característica mais marcante do estilo do diretor desde o 300, é reduzido mas feito com muito bom gosto, como quando finalmente Zod e Super Homem encontram-se no campo de batalha para a esperada e inevitável troca de sopapos. Durante o primeiro soco cruzado, o recurso torna possível ver detalhes dos uniformes (aliás, que seja dado um prêmio para quem teve a idéia de excluir a cuequinha do uniforme do herói), suor em suas faces e raiva, medo e esperança nos olhos de ambos.

O Homem de Aço - Cena 3

Como não conheço a HQ, não pude notar referências as mesmas, mas o pessoal do IMDB afirma que algumas das melhores histórias do azulão ganharam citações no longa. O que vi sem muito esforço foi a comparação do personagem com Jesus Cristo. A metáfora, aparentemente inocente, tendo em vista que os dois seriam figuras messiânicas responsáveis pela salvação da humanidade, esconde uma provocação religiosa sobre a origem de nossos deuses que, assim como no Prometheus, teriam origem extraterrestre e provocariam a adoração das pessoas não por sua qualidade divina, mas sim por serem diferentes e mais poderosos do que as pessoas de nosso planeta.

Assim como recomendo que vocês assistam O Homem de Aço no cinema, preferencialmente em 3D, já que o recurso foi bem empregado, também recomendo que vocês não o façam do lado de vossas namoradas. Caso isso não seja possível, levem-nas, mas mandem-nas comprar pipoca logo após a cena do salvamento no petroleiro. O ator Henry Cavill malhou durante 8 meses para o papel com o mesmo cara que conduziu os treinamentos físicos do 300. No momento citado, ele aparece sem camisa (e em 3D). Não é o tipo de coisa que uma namorada precisa ver, acreditem.

Obs.: Impressão minha ou o primeiro combate do filme acontece exatamente no mesmo posto de gasolina usado no Superman – O Filme?

O Homem de Aço - Cena

Watchmen – The Ultimate Cut (2009)

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A versão do Watchmen que chegou aos cinemas tem cerca de 2h40min e mesmo assim muitas cenas ficaram fora do corte final. Essas cenas podem ser conferidas no Watchmen – Director’s Cut que foi lançado diretamente em DVD e BlueRay e que, como bônus, traz ainda a animação Contos do Cargueiro Negro. Para os fãs mais hardcore (\o), foi disponibilizado também o The Ultimate Cut, a versão definitiva da história que conta com mais de 3h30min e reúne as cenas extras do Director’s Cut e introduz os Contos do Cargueiro Negro dentro do filme, sincronizando a animação com a investigação conduzida pelo Rorschach.

Salvo engano, foi a sexta vez que eu assisti Watchmen. É um dos meus 5 filmes favoritos e por isso é difícil falar dele sem usar uma sucessão sem fim de elogios. Mesmo não tendo lido a HQ antes de assistir, acompanhei cada uma das notícias e trailers que saíram antes do lançamento. Assisti o filme na estréia, corri para ler a HQ e voltei à sala de cinema outras 2 vezes tanto para fazer as comparações entre as histórias quanto porque eu queria aproveitar ao máximo a experiência. Claro que existem diferenças entre a HQ do Alan Moore e o filme dirigido pelo Zack Snyder. Algumas das adaptações feitas para o filme (como toda a sequência final) diferem quase que totalmente do que é visto nos quadrinhos, mas a “essência” da história e dos personagens ainda está lá, percebe-se que o Snyder respeita e admira a HQ e procurou colocar a história em primeiro plano, encaixando os efeitos especiais e suas características cenas em câmera lenta ao longo do processo.

Falar que algo é “o melhor” é divertido e rende muito em conversas de boteco, mas é difícil fazer tal classificação quando queremos ser levados a sério porque é praticamente impossível estabelecer critérios para tal. Digamos então que, se eu estiver sentado em uma mesa de bar, eu direi que a trilha sonora do filme, juntamente com a cena de abertura seguida pelos créditos onde os personagens são apresentados, é o que há de melhor dentro do gênero. Ali, enquanto o Bob Dylan canta sobre as mudanças através do tempo e vemos imagens dos MinuteMen, da infância do Rorschach e do Comediante assassinando o Kennedy, é ali que imagem e som unem-se para formar algo que está muito acima de qualquer expectativa, é aquele tipo de momento que sozinho justifica a existência do cinema enquanto arte.

The Ultimate Cut mostra cenas que dão mais espaço para a Laurie Jupiter, o destino do personagem Hollis Mason, várias cenas extras com o Rorschach e a parte da história onde o menino senta na banca de jornal para ler Os Contos do Cargueiro Negro. Quando se trata de Watchmen, há uma verdade universal: quem tem bom gosto, gosta.