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Kong: A Ilha da Caveira (2017)

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Por mais que eu goste do macaco brincalhão e quebrador de mandíbulas do Peter Jackson, não dá para negar que aquele King Kong de 2005 é duro de assistir. Ontem, para resgatar a história e fazer as devidas comparações com esse lançamento, coloquei o filme para rodar e lembrei do quão equivocada, por exemplo, foi a escalação do Jack Black no papel daquele cineasta inescrupuloso. Ver o ator, que tem uma carreira sólida em filmes de humor, esforçando-se para soar sério ao dizer “Não foram os aviões, foi a bela que matou a fera” é deprimente. Contribuem ainda para o desastre o início arrastado (Kong, o protagonista, demora mais de uma hora para aparecer em seu próprio filme), os efeitos especiais capengas (o macaco é perfeito, mas aquela correria entre as pernas dos dinossauros, por exemplo, é intragável) e o final acelerado e bobão. O que foi feito daquela mocinha chorosa após a queda do Kong? Nunca saberemos.

Kong escorregando no gelo e sacudindo a neve dos pelos tem lá o seu charme, mas a real é que, quando trata-se de um macaco gigante, a gente quer ver mesmo é o estrago que ele consegue provocar. Cientes disso, os produtores decidiram reencenar a história original do personagem mostrando-o não como um macaco que ri de truques bobos com pedrinhas, mas sim como um ser ancestral gigantesco e poderoso que habita a Ilha da Caveira, território inexplorado e extremamente hostil do Pacífico Sul. Eu gostei demais.

Ambientado na década de 70, o filme do diretor Jordan Vogt-Roberts começa com o pesquisador Bill Randa (John Goodman) tentando convencer um senador americano a investir em uma arriscada missão de mapeamento de uma ilha recém descoberta no extremo oriente. O político não fica lá muito empolgado com a ideia, mas a possibilidade de realizar tal feito antes dos russos (lembrem-se da Guerra Fria) e a disponibilidade de soldados americanos na região (os EUA estavam retirando seus homens da Guerra do Vietnã) pesam a favor de Randa e a missão é autorizada. Junto com o pesquisador, partem para a chamada Ilha da Caveira uma fotógrafa (Brie Larson), um guia (Tom Hiddleston) e um grupo de soldados comandados pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson).

Tão logo chegam no local (após um dos voos de helicóptero mais irresponsáveis de todos os tempos rs), a equipe de Randa começa a disparar bombas no solo com a intenção de provocar abalos sísmicos e gerar as leituras necessárias para a pesquisa. No ar, paira uma desconfiança sobre os verdadeiros objetivos da missão. No ar, propaga-se o som da hoje clássica Paranoid do Black Sabbath, que algum soldado de bom gosto coloca para rodar numa caixa de som. No ar, avista-se uma árvore que foi arremessada violentamente de um ponto desconhecido contra um dos helicópteros. Segue-se um verdadeiro massacre das forças do Coronel Packard que, conforme bem observado por um dos poucos sobreviventes, não tinham precedente tático para enfrentar o ataque enfurecido de um macaco gigante.

Kong: A Ilha da Caveira não te faz esperar mais de uma hora para ver a sombra do macaco agarrar uma mocinha e correr com ela para dentro da selva. Ambientação feita e personagens apresentados, o diretor faz questão de deixar claro logo no início que estamos vendo um filme de monstro gigante (e não uma bizarra e trágica história de amor) e nos dá uma cena de ação violenta e empolgante, tal qual deve ser. Cerca de 4 vezes maior do que seu antecessor (31 metros contra 7 metros do Peter Jackson), Kong, que felizmente continua sem pinto e sem cu (deve ser embutido), dizima sem dificuldades os invasores da ilha, local onde ele reina, protege e é venerado pelos nativos como um deus. Coronel Packard, que não havia ficado muito satisfeito com o fim da Guerra do Vietnã, decide então reunir o que sobrou dos seus homens e equipamentos e enfrentar o monstro.

O que vemos aqui, porém, não é apenas um duelo entre homem e besta. Packard acaba recebendo sua oportunidade de ficar frente a frente com Kong, olhar no fundo dos olhos da criatura e utilizar todo o seu pesado arsenal contra ela, mas este é apenas um dos arcos da história, e não é o melhor deles. Repetindo, Kong é um filme de monstro gigante, o que quer dizer que o pacote não estaria completo sem uma boa dose de exageros. Há todo o tipo de aberrações na Ilha da Caveira, desde bisões e aranhas colossais até polvos demoníacos e, claro, os temíveis Escaladores de Esqueleto, figuras grotescas que escondem-se nas profundezas da terra aguardando o momento certo de destronar o macacão de seu posto de macho alfa do lugar. Eventualmente, os personagens humanos também envolvem-se em conflitos com essas monstruosidades (e utilizam espadas japonesas para cortá-las em slow motion no melhor estilo HELL YEAH!), mas são os confrontos devastadores e teatrais entre Kong e essas criaturas que rendem as melhores cenas do filme. O pega pra capar entre o macaco e o Escalador de Esqueleto do final é o tipo de cena que faz a gente pensar “poxa, que legal eu estar aqui, sentado, vendo esta bagaça”.

Quando não está quebrando e explodindo coisas, o diretor fala de forma simples mas correta de ecossistemas (os predadores mauzões também tem o seu papel e importância no equilíbrio das coisas) e nos faz rir. John C. Reilly, que interpreta um piloto que caiu na ilha e lá permaneceu desde a 2° Guerra Mundial, traz o melhor do humor involuntário e há uma piada sobre uma carta que um dos soldados escreveu para seu filho (o querido Billy) que é repetida várias vezes e vai tornando-se mais e mais engraçada a cada repetição. O esmero do roteiro também pode ser percebido nas citações a outros filmes e obras. Marlow e Conrad, nomes dos personagens do Reilly e do Hiddleston, certamente são referências ao escritor Joseph Conrad e seu livro O Coração das Trevas, obra que também inspirou o Apocalipse Now. A belíssima fotografia de A Ilha da Caveira, aliás, em muitos momentos lembra o trabalho monumental do Coppola naquele que ainda é um dos melhores filmes de guerra já feitos (olhem os helicópteros, o sol e o tom laranja na imagem abaixo).

Kong: A Ilha da Caveira é a segunda etapa de um projeto que, em 2020, fará o mundo tremer ao colocar King Kong e Godzilla para trocar uns sopapos no cinema. Antes disso, porém, o Rei dos Monstros japonês ainda retornará mais uma vez às telas para aumentar nossas expectativas com o embate e, conforme pode ser visto na cena pós-crédito, para trazer alguns velhos e famosos inimigos. Quebra tudo, bicharada!

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Thor: O Mundo Sombrio (2013)

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Thor - O Mundo SombrioSe você também é um fã de carteirinha do Deus nórdico do trovão, besunte seu corpo de óleo, coloque Holy Thunder Force para tocar bem alto e grite a plenos pulmões: MJOLNIR! Bem, eu não gritei, não ouvi nenhum grito e desconfiaria sinceramente da sanidade de alguém que fizesse algo do tipo. O Thor não é um herói exatamente popular e, considerando que a participação dele no Os Vingadores não foi lá essas coisas (principalmente se considerarmos o que fizeram no mesmo longa personagens como o Hulk e o Homem de Ferro), o único motivo para alguém morrer de amores pelo cara é o divertido longa que introduziu seu mundo e mitologia para o público que não está acostumado a ler quadrinhos. Thor, o filme estrelado pelo até então desconhecido Chris Hemsworth, foi, na minha humildíssima opinião, uma das melhores apostas individuais da Marvel. Mesmo com um roteiro manjado e uma batalha final um tanto quanto capenga, o longa conseguiu sobressair-se apelando sem medo de ser feliz para o humor. Sem poder usar seus poderes durante a maior parte do filme, Thor ficou refém de situações deveras grotescas enquanto aprendia uma liçãozinha sem vergonha sobre humildade e a coisa toda foi hilária.

Dois anos depois e agora sob o comando do diretor Alan Taylor, o personagem retorna as telas apostando na mesma fórmula que o consagrou. Com Loki (Tom Hiddleston) julgado e preso por Odin (Anthony Hopkins), o herói agora luta para proteger Asgard dos planos malígnos dos Elfos Negros, criaturas que remontam do período da criação do universo, enquanto procura uma forma de reaproximar-se da cientista Jane Foster (Natalie Portman).

Thor - O Mundo Sombrio - Cena 4

Thor: O Mundo Sombrio (e abençoado seja Odin por não terem incluído um “2” título nacional) começa devagar para os fãs de testosterona. Excluindo-se a cena que reconstitui a primeira vitória dos asgardianos contra os Elfos Negros e a batalha, ou melhor, a humilhação do Thor contra o golem de pedra, praticamente não há ação na metade inicial do longa. A opção do diretor e dos roteiristas, ao meu ver acertada, foi usar o início da trama para fazer os links necessários entre a história que seria contada e o que já havia sido mostrado no primeiro filme e no Os Vingadores, preparando, ao mesmo tempo, o terreno para a vindoura continuação deste último. Felizmente, não erraram a mão nesse ponto como aconteceu no Homem de Ferro 3 (Tony Stark traumatizado após a batalha? sinceramente…) e as referências feitas foram pontuais e empolgantes, como o fato de apresentarem o Ether, substância desejada pelos Elfos Negros, como uma das Jóias do Infinito, objetos que remetem diretamente ao Thanos, personagem que já foi anunciado como o próximo vilão a ser enfrentado pelo super grupo.

Entre uma explicação e outra, o que segura o filme para quem não conhece ou gosta dessas referências nerds é o já comentado humor. Darcy (a lindinha Kat Dennings), melhor amiga de Jane Foster, está divertidíssima com o seu novo e desengonçado estagiário, praticamente todas as cenas dela terminam em alguma piadinha cretina. Erik (Stellan Skarsgard), o cientista que teve sua mente invadida no Os Vingadores, também está de volta e ativo no núcleo do humor, correndo pelado entre turistas que visitam um monumento histórico para avisá-los de um grande perigo que aproxima-se de nosso planeta. O destaque, no entanto (e isso não constitui nenhuma surpresa, muito pelo contrário, pode-se até dizer que era uma das maiores expectativas do público) é novamente a participação do Loki.

Thor - O Mundo Sombrio - Cena

Deus Fraco Deus da Trapaça e da Travessura, o Loki é um desses vilões dos quais a gente não consegue sentir ódio. Em alguns momentos, aliás, ele é até mais legal e divertido do que os próprios heróis. A cobiça, a inveja e o desejo de poder do personagem não são exatamente o tipo de sentimentos e valores que queremos cultivar, mas essas fraquezas, de certa forma, o tornam muito mais humano e, portanto, passível de empatia, do que muitos caras que usam a cueca por cima calça por aí. Condenado pelo próprio pai à prisão por invadir a Terra, o vilão assiste impotente e até mesmo despreocupado a tentativa dos Elfos Negros de ocuparem Asgard. Visto pelo irmão como um mal necessário para conter os invasores, Loki e seu humor ácido são libertados e roubam a cena na última metade do longa. Os produtores, que sabiamente perceberam o potencial do personagem e, principalmente, o talento do ator Tom Hiddleston, deram a ele tempo suficiente na tela para fazer tudo aquilo que esperávamos dele, ou seja, nos matar de rir (excelente a piada com o Capitão América) e tentar matar o Thor. Apesar de serem um tanto quanto previsíveis, as reviravoltas envolvendo o personagem e suas desavenças com o pai e o irmão são bacanas por serem um tanto quanto … brutais.

Thor - O Mundo Sombrio - Cena 3

Ok, o Loki é legal, há muitas e boas piadas, mas… este é um filme de ação do Thor, certo? A pancadaria e a correria realmente demora para começar, mas quando começa não há do que reclamar. A batalha por Asgard é grandiosa, com todo o poder bélico da cidade sendo finalmente revelado contra as espaçonaves dos Elfos Negros e, mesmo que o vilão do filme, Malekith (Christopher Eccleston) não seja lá um desafio à altura do Deus do Trovão, o embate final entre ele (já comandando o Ether) e o herói é empolgante e inventivo, com um mecanismo de troca de dimensões que funciona muitíssimo bem.

Thor: O Mundo Sombrio repete qualidades e defeitos do primeiro filme, tendo como principais atrativos a ambientação épica em Asgard e o tempo maior dedicado ao Loki. Acredito que, se você gostou do primeiro, certamente tu gostará desse. Eu gostei dos 2, mas espero que o terceiro (alguém duvida que haverá um?) traga alguma novidade. Há, antes que eu me esqueça, vale a pena esperar os créditos para ver a já tradicional cena extra, que dessa vez envolve o personagem Colecionador e uma rápida explicação sobre as Jóias do Infinito. Pelo que eu li, há ainda uma segunda cena, envolvendo o Thor e a Jane, bem no finalzinho, mas essa eu não vi.

Thor - O Mundo Sombrio - Cena 2

Os Vingadores – The Avengers (2012)

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Lembro de um final de tarde qualquer em que eu estava sentado na frente da minha casa conversando descontraidamente com o meu primo sobre filmes. Entre outras coisas, falavamos do padrão de qualidade e de inovação que o Matrix havia trazido para as cenas de ação e concordamos que dificilmente veríamos algo que causasse o mesmo impacto. Alguns anos depois, senti aquela mesma sensação de “embasbacamento” enquanto assistia o Avatar. Digam o que quiserem sobre as limitações (?) do roteiro ecologicamente engajado do James Cameron, mas as empolgantes cenas de ação somadas a inovadora experiência com o 3D garantiram para o filme o seu lugar na história do cinema e tranformou-lhe, por assim dizer, no blockbuster “a ser batido”. Muita coisa boa saiu depois, tanto no que diz respeito ao uso de efeitos especiais quanto na elaboração de cenas de ação de “tirar o fôlego”, mas ainda estava faltando um trabalho irrepreensível, um filme que, assim como Matrix e Avatar, fosse capaz de agradar crítica e público de modo que todos saíssem empolgados do cinema com a certeza de que um novo divisor de águas havia sido criado. Sexta-feira passada (27/04), eu fui ao cinema pela primeira vez desde que mudei para São José dos Campos-SP e testemunhei uma promessa que foi cumprida: Os Vingadores – The Avengers (doravante apenas Os Vingadores)  tinha tudo para ser o novo bambambam das telonas e é com muito prazer que eu posso usar esse blog para atestar o sucesso da empreitada da Marvel de levar seu maior grupo de super-heróis para as telas. Os Vingadores é DO CARALHO!

Lembram daquele cubo de energia azul que aparecia no filme do Thor e do Capitão América? Após ser derrotado pelo deus do trovão, Loki (Tom Hiddleston) vaga por outras dimensões e faz um pacto com criaturas poderosas e desconhecidas: em troca do governo de nosso planeta, ele roubaria o cubo (aqui chamado de Tesseract) para essas criaturas  e abriria um portal  para que elas pudessem vir até a Terra ajudá-lo na dominação. Diante de tal problema, o agente da S.H.I.E.L.D Nick Fury (Samuel L. Jackson) reativa o projeto Vingadores e reúne uma equipe formada por Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Capitão América (Chris Evans), Hulk (Mark Ruffalo), Thor (Chris Hemsworth), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e Viúva Negra (Scarlet Johansson) para lidar com o perigo iminente.

Considerando os filmes onde os heróis apareciam individualmente (lembrando que a Víuva Negra e o Gavião Arqueiro não tiveram produções solo, tendo aparecido no Homem de Ferro 2 e no Thor, respectivamente), eu temia que a iniciativa de colocá-los juntos sofresse do mesmo problema enfrentado por todas as produções: a tal “luta final”. A falta de um confronto significativo próximo ao fim do longa fez os filmes do Homem de Ferro perderem parte do seu brilho, não deu uma chance para o Capitão América mostrar suas verdadeiras habilidades, diminuiu o potencial do desfecho do Thor e não forneceu um inimigo à altura do poder destrutivo do Hulk. E quando todos eles estivessem juntos, quem seria capaz de enfrentar os Vingadores e oferecer uma luta que usasse todo o poder de fogo dos heróis?

O diretor e roteirista Joss Whedon, cara que já trabalhou roteirizando HQs da Marvel, entendeu esse problema e nos ofereceu uma batalha gigantesca que dura quase 1 hora e dá oportunidade para todos os personagens utilizarem todas as suas habilidades no limite. As flechas do Gavião Arqueiro acabam, a armadura do Homem de Ferro fica toda danificada, o Capitão América fica gravemente ferido… Todos os heróis precisam suar para conter a invasão alienígena. Até o Nick Fury, personagem que até então ficara apenas no comando das operações, ganha oportunidades para demonstrar o porque de ele ser O cara da S.H.I.E.L.D. Outra coisa que Whedon entendeu bem, e que, para mim, fez TODA a diferença, foi o modo de filmar (ou, na maioria dos casos, gerar por computador) as cenas de ação. Apesar de termos cenas editadas freneticamente, a maioria das grandes sequências de ação do filme são mostradas em todos os detalhes. A câmera dança pelo cenário mostrando a trajetória de uma flecha lançada pelo Clint Barton e segue, sem cortes, acompanhando Tony Stark e Steve Rogers detonando o exército inimigo com uma bela combinação de suas habilidades. Tanto é algo verdadeiramente bonito de ser visto quanto vai dando uma crescente de emoção para tais cenas ao ponto de, nos ápices, a platéia torcer e vibrar com a vitória dos heróis.

Enquanto não estão atirando, quebrando e esmagando, os heróis estão procurando encontrar uma forma de trabalharem juntos e, como era de se esperar, brigando entre si. Esses momentos são, em sua maioria, levados por aquele humor refinado dos filmes do Homem de Ferro e funcionam muito bem. Assisti o filme duas vezes (na sexta e no sábado, 28/04) e nas duas sessões a platéia riu muito das piadas, dentre as quais eu destaco a do Galaga (genial) e o alinhamento com a cultura pop do Tony Stark ao citar o Legolas. Dentre a pancadaria que rola entre os heróis está um dos únicos “furos” do filme, um confronto entre Homem de Ferro, Thor e Capitão América que acaba de forma inexplicável e é cortado para uma cena de calmaria que faz a lutar perder todo o sentido.

Finalizando, devo pedir ao leitor para que substitua as minhas impressões sobre o filme por aquelas que ele adquirirá indo no cinema. O 3D, infelizmente, não faz muita diferença, mas estamos diante do que há de melhor e mais refinado no cinema blockbuster atual, um filme que deixará o público mais exigente e contribuirá positivamente para a elevação dos níveis de excelência dos efeitos especiais e dos roteiros dos filmes de ação. Sei do peso dessas palavras e, justamente para não pronunciá-las em um momento de empolgação, esperei cerca de uma semana para escrever essa resenha, tempo que eu usei para refletir sobre o os filmes que foram lançados nos últimos anos e minha reação diante deles. Minha opinião não mudou: Os Vingadores é um divisor de águas no cinema de ação, o blockbuster que, devido a sua qualidade e sua bilheteria, será o filme a ser superado daqui para frente. Quem sabe a sequência, que é anunciada pela cena inserida durante os créditos (e é uma cena DO CARALHO se tu reconhecer aquele rosto, coloquei uma dica “escondida” na resenha, procura aí :p), consiga tal proeza.

Meia-Noite em Paris (2011)

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Certa vez, diante da minha empolgação com o Em Busca da Terra do Nunca, um amigo disse algo deveras óbvio mas que é difícil contestar: o impacto de certos filmes sobre nós varia de acordo com o momento que estamos passando em nossas vidas. O carinho dos filhos com a mãe doente interpretada pela Kate Winslet (um drama que pode ser considerado essencialmente como emocionante) me levou as lágrimas, mas eu tive que reconhecer que, fora a qualidade inquestionável do filme, grande parte da emoção que eu senti veio de um problema semelhante que eu enfrentei no mesmo período.

Meia-Noite em Paris, assim como a maioria dos trabalhos do Woody Allen (e digo maioria em respeito a opinião de terceiros que dizem que ele possui trabalhos irregulares, gostei dos poucos que vi até agora) é excelente e pode ser apreciado por todo tipo de público, inclusive por aquele que não interessa-se pelos temas abordados pelo filme (literatura, cinema, pintura) ao ponto de entender todas as referências do roteiro. É inegável, porém, que trata-se de um filme feito especialmente para um determinado tipo de público, um público no qual o próprio Allen parece incluir-se: Meia-Noite em Paris, assim como outros filmes do diretor, é uma conversa de Allen com ele mesmo, um ataque à nostalgia, ao pedantismo e ao pseudointelectualismo eternizado anteriormente em sua obra na cena da fila do cinema do Noivo Neurótico, Noiva Nervosa que dessa vez vem acompanhado por uma reflexão que aponta um caminho, caminho esse que eu procuro seguir há certo tempo e cuja identificação no discurso alheio me fez amar o filme.

Owen Wilson é Gil, uma espécie de consultor de roteiros/roteirista hollywoodiano que está em Paris junto com a noiva Inez (Rachel McAdams) fazendo os preparativos para o casamento. Gil pretende abandonar os roteiros que ele considera clichês e enfadonhos e mudar-se para Paris para escrever um livro e encontrar-se enquanto artista. O escritor sonha com o fervor cultural parisiense da década de 20 enquanto a esposa parece preocupar-se apenas em comprar objetos caros para decorar a futura casa em Malibu que ela tanto deseja. Através de um recurso divertido e nonsense do roteiro, Gil consegue retornar no tempo após ouvir doze badaladas de um sino da cidade e encontra vários de seus heróis, entre eles Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston), Ernest Hemingway (Corey Stoll), Pablo Picasso (Marcial Di Fonzo Bo), Salvador Dalí (Adrien Brody), Gertrude Stein (Kathy Bates) e Luis Buñuel (Adrien de Van). O escritor descobre então que a nostalgia é um sentimento atemporal que só pode ser vencido vivendo o presente com intensidade e paixão.

Ultimamente, tenho repetido e praticado muito um pensamento que eu não tenho a pretensão de reivindicar a autoria: nenhum tipo de conhecimento é válido se ele te afasta das outras pessoas ou lhe torna infeliz. O que Meia-Noite em Paris trouxe para complementar esse pensamento é que a arte deve ser apreciada e vivida, não ostentada ou colocada em um altar, usada para sentir-se melhor ou superior em relação as pessoas que nos cercam como o personagem interpretado pelo Michael Sheen faz no filme. Acredito que filmes, livros e etc são fontes de prazer pela experiência que a apreciação deles fornecem em um nível pessoal. Desconfio da sinceridade de pessoas que não perdem a oportunidade de demonstrar o que sabem, pessoas que conversam sozinhas e não importam-se de ter como platéia espectadores que balançam a cabeça com infinitos “ahams”, “tá certo” e “aí é foda”. A impressão que dá é que o prazer vem mais da exibição do que da apreciação.

Com piadas de apelo universal (o rinoceronte do Salvador Dali é um bom exemplo) e cenas onde Allen recompensa quem conhece os temas tratados (a referência ao Anjo Exterminador do Buñuel é a minha favorita), Meia-Noite em Paris tornou-se um dos melhores filmes que eu assisti esse ano: me fez rir, me fez pensar e, assim como o desconhecido O Homem da Terra, me deu vontade de conhecer mais, de ler mais, de viver mais E melhor. Obrigado, Woody Allen.

Thor (2011)

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O Thor da mitologia nórdica eu conhecia razoavelmente bem através das histórias contadas pelo Thomas Bulfinch no O Livro da Mitologia. Já o meu contato com o herói da Marvel foi mais reduzido, li apenas uma história dele junto com os Vingadores em uma revista do Homem Aranha. O que mais chama a atenção é o fato do personagem ser um deus, o que tanto garante a ele poderes infinitamente maiores do que a maioria dos outros super heróis quanto torna difícil a tarefa de arrumarem vilões convincentes para enfrentá-lo. Sabendo disso, fiquei um tanto desconfiado quando as primeiras informações do filme começaram a aparecer, desconfiança baseada principalmente no que a Marvel aprontou quando precisou encontrar adversários para outro herói extremamente forte, o Hulk. Lembram daqueles “cachorros atômicos” do filme com o Eric Bana?

Felizmente, a Marvel parece estar aprendendo com os próprios erros e isso fez de Thor um dos filmes mais divertidos baseados em super heróis da empresa até agora. O “problema” relacionado a superforça do herói e dos inimigos para enfrentá-lo é resolvido logo no começo: Thor (Chris Hemsworth) é banido de Asgard por Odin (Anthony Hopkins) como punição por sua arrogância e impulsividade. Obrigado a permanecer na Terra sem sua condição divina e sem a fonte da maioria de seus poderes (o martelo Mjolnir), Thor nem desconfia que seu irmão Loki (Tom Hiddleston) aproveita sua ausência em Asgard para tentar dominar o local com a ajuda dos temíveis Gigantes de Gelo.

A história do herói que precisa demonstrar sua bravura sem usar seus poderes não é exatamente nova, mas aqui tanto respeita a origem do personagem criado pelo Stan Lee (sim, ele faz uma pequena aparição no filme), Jack Kirby e Larry Lieber quanto funciona como um diferencial para a franquia frente aos outros heróis da empresa.

Sobre esses outros heróis, a Marvel já deixou bem clara a intenção de fazer um filme dos Vingadores. Thor prepara o terreno para esse vindouro projeto com várias referências aos outros filmes e personagens (citam claramente o Hulk e o Homem de Ferro e apresentam o Gavião Arqueiro interpretado pelo Jeremy Renner) e confirma que poderemos ver o Deus do Trovão novamente no filme dos Vingadores. Vale a pena também esperar até o fim dos créditos (tarefa relativamente fácil devido a execução da excelente Walk do Foo Fighters) pela já esperada participação do Nick Fury (Samuel L. Jackson).

Eu não poderia finalizar esse texto sem falar sobre o belo trabalho do diretor Kenneth Branagh. Fora contar com belos efeitos especiais e excelentes cenas de ação que duram tempo suficiente para fazer justiça aos poderes do personagem (um dos pontos fracos, por exemplo, do Quarteto Fantástico 1 e 2 e do Homem de Ferro 2), Thor faz uso inteligente da não-linearidade narrativa e ainda possui no núcleo formado pela Natalie Portman, Stellan Skarsgard e Kat Dennings um divertido alívio cômico.

Ótimo filme. Esperemos agora a estreia do Capitão América para depois iniciarmos a contagem regressiva para o filme dos Vingadores.