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Corra! (2017)

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Querido leitor: dentre as situações abaixo, qual tu considera mais assustadora?

  1. Programar uma ida ao cinema na única noite livre que você tem na semana e, chegando lá, descobrir que o filme que você quer assistir (no caso, o Alien: Covenant) só está disponível na versão dublada.
  2. Acordar no meio da madrugada, durante uma  viagem de ônibus interestadual, com o passageiro ao lado passando a mão nas suas partes íntimas.
  3. Acordar no meio da madrugada com o próprio capiroto gritando dentro da sua casa. Após sair da cama e ir verificar o que aconteceu, você descobre que um gato preto pulou a janela e tentou atacar sua gatinha, que defendeu-se como pode.
  4. Um filme de terror que desperdiça uma ideia bacana ao quebrar constantemente o clima de suspense com piadas bobas .

1) Continuo morrendo de medo dessa preferência que redes de cinema como o Cinépolis tem dado para os filmes dublados. 2) Antes de conseguir soltar um “AÍ NÃO, CAMARADA!”, fiquei momentaneamente paralisado quando acordei e percebi que havia um cara me bolinando. Filho da puta! 3) No dia do gato preto, quando ouvi o barulho dos bichos se enroscando, eu gritei de medo. Sinceramente? O som foi tão alto e demoníaco que eu achei que alguém estava sendo assassinado dentro da minha casa. 4) Corra!, longa que muita gente apressou-se em classificar como “um dos filmes mais assustadores dos últimos anos”, só me deu sono. Não raramente, a vida real é bem mais assustadora do que a ficção.

Eu não havia planejado assistir  esse filme e não o fiz por acreditar que ele tinha alguma chance de ser o “mais assustador e blablabla”. Fui ao cinema ver o Alien: Covenant, mas como não animei pagar por uma sessão dublada, acabei optando pelo Corra! mesmo.

Na minha cabeça, o debut cinematográfico do diretor Jordan Peele, mesmo que não fosse algo revolucionário, seria um filme de terror podreira decente, ou seja, o tipo de material legal para assistir numa quinta feira à noite. O começo, aliás, é deveras promissor. Andando sozinho à noite numa rua mal iluminada (que cenário perfeito, não?) um jovem negro percebe que está sendo seguido por um carro branco. O rapaz até tenta fugir, mas acaba sendo imobilizado por seu perseguidor e jogado no porta malas do carro. O veículo acelera e a música “Run, Rabbit Run” é executada. O contraste entre a violência mostrada e a melodia alegre geram um clima macabro e a gente fica doido para saber o que acontecerá a seguir.

Rosquinhas. É isso que aparece na sequência: uma mulher comprando rosquinhas. Rose (Allison Williams) pega os quitutes em uma padaria e vai até a casa de seu namorado, Chris (Daniel Kaluuya), para tomar o café da manhã. Após 4 meses de relacionamento, Rose quer levar Chris para conhecer os pais, mas há um “problema” nisso: ela é branca e ele é negro. Somando isso ao fato de, na cena inicial, um negro ser perseguido por um carro branco, entendi que o filme seria uma espécie Adivinhe Quem Vem Para Jantar versão terror, ou seja, o diretor Jordan Peele valeria-se de um pouco de sangue para falar sobre racismo e temas correlatos.

Não utilizarei SPOILERS, portanto não aprofundarei na forma como a questão racial é trabalhada dentro do filme (o tal Projeto Coagula). Fazê-lo implicaria, por exemplo, dar detalhes da “revelação” que é feita no final e certamente estragaria a surpresa para quem ainda for assistir. Posso dizer, porém, que Peele fala de apropriação cultural e utiliza ironias e metáforas (a cena do algodão) para explicitar os conflitos históricos entre brancos e negros. Essa parte da trama, principalmente pela atualidade do tema, é irretocável, mas ainda assim eu queria ver um filme de terror, e nisso Corra! peca bastante.

A mistura entre terror e humor é antiga e tem até um gênero cinematográfico próprio. Não há nada de errado com o chamado terrir: filmes como A Morte do Demônio e Tucker e Dale Contra o Mal são bem divertidos. O que acontece aqui, porém, é que Peele foi ambicioso demais. Ele quis fazer um filme sério (vide as questões raciais abordadas), assustar e divertir ao mesmo tempo. É difícil manter o foco com tanta informação. Ao mesmo tempo que está nos mostrando a falsidade impregnada na postura liberal e progressista dos pais de Rose (Catherine Kenner e Bradley Whitford), o diretor tenta nos assustar com coisas estranhas (um maluco correndo durante a noite, uma mulher que conversa fazendo caretas bizarras) e nos fazer rir com Rod (LilRel Howery), o colega falastrão de Chris. Peele faz uso de uma trilha sonora poderosa, da ambientação majoritariamente noturna e de alguns clichês (o acidente na estrada) para criar um clima de suspense, mas ele sabota o próprio trabalho quando interrompe a tensão com alguma piadinha cretina.

Corra! tem pouquíssimo sangue, um desfecho pouco original (um personagem até brinca com isso citando o De Olhos Bem Fechados) e essa alternância constante (e ruim) entre o humor e o terror como pontos negativos. Não tenho dúvidas que o filme pode encontrar mais aceitação junto de quem estiver diretamente envolvido nas questões raciais apresentadas, mas fiquei com a impressão que o diretor Jordan Peele errou feio em sua tentativa de misturar gêneros. Quem sabe em seu próximo trabalho ele entenda que, algumas vezes, tudo que um filme de terror precisa para dar certo é um assassino em série e adolescentes desmiolados. Ou um gato preto demoníaco. Ou um tarado em um ônibus.

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Tucker e Dale Contra o Mal (2010)

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Tucker e Dale Contra o MalLeia o trecho abaixo e tente encontrar algo familiar:

“Adolescentes sarados dirigem-se para uma cabana na zona rural para aquilo que promete ser um fim de semana cheio de sexo e drogas. No caminho, é possível perceber a hostilidade da população local para com o grupo quando eles estacionam para abastecer. No destino, todos os medos deles são concretizados: um a um, eles são mortos impiedosamente por um psicopata.”

Devido ao sucesso comercial monstruoso de filmes como O Massacre da Serra Elétrica, essa estrutura de roteiro aí transformou-se em um dos maiores lugares comuns do gênero terror nos anos subsequentes. As verdinhas arrecadadas pelo Tobe Hooper e seu Leatherface estimularam a produção de uma infinidade de filmes que seguiram essa mesma linha (cabana + adolescentes + psicopata) e eu quase posso apostar que, se você costuma ir no cinema frequentemente, tu já viu pelo menos um título desses. Tucker e Dale Contra o Mal, tal qual o ótimo O Segredo da Cabana, traz uma nova abordagem dessa fórmula e comprova que até mesmo o clichê mais batido ainda pode servir de base para um bom filme caso saibam aproveitá-lo com criatividade.

E qual a solução do diretor e roteirista Eli Craig para contornar a mesmice? Inversão de papéis! Tucker (Alan Tudyk) e Dale (Tyler Labine), os caras que teoricamente deveriam ser os caipiras malucões assassinos em série, não passam de dois amigos querendo descansar no final de semana. Eles respeitam a polícia, sonham em encontrar a garota perfeita e curtem beber e pescar, ou seja, eles são caras legais. A tranquilidade dos dois é interrompida quando uma série de coincidências daquelas que acontecem só nos filmes colocam-nos em uma verdadeira batalha campal contra o grupo de adolescentes liderados pelo mauricinho Chad (Jesse Moss), que julga erroneamente que Tucker e Dale sequestraram a delicinha Allison (Katrina Bowden).

Tucker e Dale Contra o Mal - CenaNo campo moral/social, a fórmula exposta acima traz nas entrelinhas um conflito interno norte americano que remonta a Guerra de Secessão. Quem é do norte vê no vilão bruto e tosco a condensação de todo o conservadorismo sulista e quem é do sul, por sua vez, enxerga na futilidade daqueles adolescentes o liberalismo que eles historicamente renegaram. Eu, que não tenho absolutamente nada a ver com isso, sempre torço para que o assassino aumente a contagem de corpos. É um mundo ficcional, caras, e em um ambiente assim não há problemas em sorrir quando um playboyzinho arrogante morre com um facão atolado na testa. Contrariando a minha torcida, porém, a dicotomia “sul = mal X norte = bem” impera nas produções “sérias” do estilo e, no final, alguma mocinha virginal sempre põe fim a matança ao vencer o psicopata de forma improvável. Tucker e Dale Contra o Mal, que é tudo menos “sério”, inverte essa lógica deveras manjada e garante algumas boas risadas ao reconstruir cenas clássicas do gênero dentro dessa nova perspectiva.

Tucker e Dale Contra o Mal - Cena 3Para exemplificar essa subversão da fórmula, peguemos a divertida cena da motosserra. Alheio a aproximação do furioso grupo de adolescentes, Tucker serra algumas madeiras no fundo da cabana. Prestes a ser alvejado, ele é atacado por um enxame de abelhas e, tal qual o Leatherface fez em seu debut, sai correndo desesperado sacudindo a motosserra acima da cabeça. É claro que o adolescente, assustado, também começa a correr e… morre empalado em um galho no meio da floresta rs Posteriormente, Tucker, já livre das abelhas, pergunta-se qual o motivo daquele jovem ter cometido suicídio dentro de sua propriedade. A referência ao O Massacre da Serra Elétrica, por si só, já me fez rir bastante (sempre gostei desse tipo de humor), mas o que há de realmente legal nessa cena (e no filme como um todo) é a inocência inicial dos personagens frente ao ataque dos adolescentes. É hilário vê-los tentando explicar para um policial que “há jovens cometendo suicídio em massa” no local.

Tucker e Dale Contra o Mal - Cena 2Chad revela-se um mala da marca maior ao engatar um papo arrogante sobre superioridade com Allison e, ao ver que os outros integrantes do grupo seguem-no em sua loucura e tentam matar os dois caipiras bonzinhos, só nos resta relaxar e divertir com as mortes grotescas de cada um deles. Um cara cai dentro de um triturador de madeira e tem toda a parte superior de seu corpo destroçada? Não há porque ficar triste: 1) ele era um boçal 2) pobre Tucker e Dale! Mais um suicídio inexplicável! Naturalmente, uma hora essa “inocência” acaba e o filme caminha para um final mais tradicional com os personagens enfrentando Chad, o próprio mal encarnado (malditos jovens drogados no cio e seus narizes empinados! rs) conforme o título sugere, mas quando isso acontece já tivemos toda a diversão trash que um terrir pode oferecer.

Tucker e Dale Contra o Mal é um desses filmes geniais que infelizmente acabam passando despercebidos devido a avalanche de produções do gênero que saem todo o ano. Apesar de muitas de suas piadas requererem conhecimento prévio do espectador devido as conexões que elas pedem, acredito que trata-se de um longa capaz de agradar qualquer um. Acreditem, a mistura de cenas gore com as caras de espanto dos personagens que compõe a ideia do tal “suicídio coletivo” é o tipo de coisa que faz um filme valer a pena. Agradeço a indicação do amigo que o recomendou (Valeu, Lucas!) e passo a dica adiante.

Tucker e Dale Contra o Mal - Cena 4

Possessão (2012)

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Eu gostei muito do Arraste-me Para o Inferno. Após 5 anos dedicados aos filmes do Homem Aranha, foi bom ver o Sam Raimi voltando a fazer um “terrir” (gênero que o consagrou com a série Uma Noite Alucinante) repleto de personagens medonhos, músicas marcantes (uma das últimas trilhas sonoras que eu “adquiri” rs) e uma boa quantidade de sustos e violência misturados com cenas hilárias. Por que eu estou falando isso? Porque, por uma falta de atenção imperdoável, eu caí novamente na pegadinha do malandro! Que coisa feia, Sr. Lucian!

Possessão, que é do tipo “Produzido/Apresentado por”, me levou ao cinema para ver, segundo eu imaginava, o novo trabalho do Sam Raimi. O engano infantil (visto que uma pesquisa rápida o teria evitado, bem como o teria ler o pôster direito) me colocou frente a frente com um filme de terror “baseado em fatos reais” dirigido pelo dinamarquês Ole Bornedal, do qual eu conhecia apenas o mediano Just Another Love Story. Bem, uma vez dentro do cinema não dava para voltar atrás, então resolvi deixar de lado a minha frustração e dar uma chance ao filme, afinal de contas o nome do Raimi estava de alguma forma envolvido no projeto e o longa era estrelado pelo Jeffrey Dean Morgan, ator de quem eu gosto muito por seu papel em Watchmen. Amigos, se nesse momento eu tivesse noção do quão entediante e chata seria a minha próxima 1h30min, eu CERTAMENTE teria abandonado a sala de cinema, atitude que eu não tomo desde 2005 quando eu fui ver aquele filme tosco e ridículo chamado O Pesadelo.

Vejam só: Clyde (J.D.Morgan) separou-se da mulher (Natasha Calis) recentemente. Ele vê suas duas filhas apenas nos finais de semana e costuma levá-las para uma casa em um lugar afastado que ele acabou de adquirir. Em um dia qualquer, Clyde leva as filhas em uma dessas vendas que os americanos costumam organizar nos jardins de suas casas e lá uma das meninas encanta-se com uma misteriosa caixa antiga. Clyde compra a tal caixa, a menina abre o objeto, é possuída por um demônio do panteão judaico e então tudo, absolutamente TUDO que você e eu já estamos cansados de ver em filmes sobre possessões e exorcismos (aqui e aqui) acontece.

O fato de eu não ter me informado melhor antes de ir no cinema é um problema meu. Não que eu não fosse assistir Possessão caso eu soubesse que o Sam Raimi apenas produziu o filme, mas nesse caso eu pelo menos teria ido mais preparado para algo ruim. Todo caso, repito, o erro foi meu. No entando, quando o filme começa e poucos minutos depois já vemos alguém mudando-se para uma casa nova, o problema começa a ser de outra pessoa. Quando o casal recém separado surge na tela reproduzindo briguinhas fúteis sobre as crianças, eu me sinto desconfortável com a sensação de que eu já vi isso antes. Quando o filme apresenta cena após cena onde tentam assustar o espectador com elevação do volume da música e objetos/personagens que são jogados na tela, eu me sento desrespeitado. Quando qualquer esforço para imprimir personalidade visual no filme não passa de uma cópia mal feita do Os Pássaros do Hitchcock, eu fico impressionado com a falta de criatividade dos envolvidos. E quando, finalmente, o filme culmina em um exorcismo repleto de xingamentos, corpos se contorcendo e eventos sobrenaturais rolando, eu realmente senti vontade de ir embora como forma de protesto. O que isso mudaria no mundo? Nada, absolutamente nada.

Terminei de ver o filme com uma idéia em mente: escrever um texto que mantesse as pessoas afastadas dele. Acreditem, não há NADA nesse filme que já não tenha sido feito antes de forma MUITO mais competente. Senti dó do J.D. Morgan por participar de uma bomba dessas. Amaldiçoei o Sam Raimi por vincular o nome dele a uma porcaria desse nível. Fiquei extremamente feliz quando a sessão acabou e cheguei a pensar em apenas postar o pôster do filme com um comentário simples, direto e eficaz do tipo “vtnc”. Bem, acho que não preciso dizer mais nada, Possessão é um dos piores filmes que eu vi na vida e eu espero que esse texto salve seu dinheiro e sua paciência.

Extremamente assustador, sombrio e convincente. Eu não sou irônico.