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Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017)

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O primeiro Guardiões da Galáxia foi muito bom. Apoiado num visual hiper colorido, numa trilha sonora onipresente e saudosista e abraçando o humor sem medo de ser feliz, o filme do diretor James Gunn conquistou vários fãs com seu roteiro leve e ritmo frenético. Esta continuação, como não poderia deixar de ser, retoma e amplia esta fórmula, mas desta vez, principalmente na segunda metade do longa, o diretor resolveu incorporar elementos dramáticos à história, o que deixou o filme um pouco mais “adulto” do que seu antecessor. O resultado é inquestionavelmente bom, mas confesso que foi meio estranho entrar no cinema felizão, ansioso para dar boas risadas, e sair de lá meio cabisbaixo e pensativo.

Foi na gloriosa e mágica década de 80 que Meredith Quill (Laura Haddock) conheceu e apaixonou-se por uma criatura topetuda do espaço (Kurt Russell). Do amor deles, nasceu Peter Quill (Chris Pratt), o homem que anos mais tarde ganharia notoriedade por conseguir segurar uma das Joias do Infinito e sobreviver. Peter, que nunca conheceu o pai e que viu a mãe morrer ainda criança, cresceu e tornou-se o Senhor das Estrelas, um caçador de recompensas que lidera o grupo Guardiões da Galáxia em missões através de todo o universo.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 começa ao som de Brandy, do Looking Glass, com Meredith passeando num conversível estiloso junto de seu amado. Tão logo fica claro que os dois são os pais de Peter, porém, a cena muda para o longínquo planeta dos Soberanos onde os Guardiões aguardam pela chegada de uma besta interdimensional. Ayesha (Elizabeth Debicki), a rainha do local, contratou Peter, Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (voz do Bradley Cooper) e o Bebê Groot (voz do Vin Diesel) para protegerem uma preciosa carga de baterias inflamáveis do monstro. A luta que se segue é, sem sombra de dúvidas, a melhor sequência de abertura de um filme da Marvel até o momento. Fazendo um belo uso do 3D, James Gunn coloca Peter e cia para quebrarem o pau com o bichão enquanto mostra o simpático Bebê Groot dançando com a Mr. Blue Sky do Eletric Light Orchestra. Ver esse começo, que tem coisas bacanas como o Peter e o Rocket discutindo, o Drax vigiando o Bebê Groot e a Gamora desferindo alguns golpes estilosos de espada, é como abrir um presente no dia das crianças e encontrar exatamente aquilo que a gente queria ganhar. É familiar e surpreendente ao mesmo tempo.

Após ganhar nossa atenção com esse início divertidíssimo, o diretor introduz os elementos que compõe a história de Vol. 2. Por pura sacanagem, Rocket rouba algumas das baterias dos Soberanos e Ayesha ordena que seus comandados capturem os Guardiões. Rola uma cena frenética de perseguição no espaço, daquelas que parecem ter saído direto de um videogame, a qual é interrompida pela aparição já anunciada de Ego, o topetudo pai de Peter Quill. Nisso, o grupo divide-se em 2: Peter, Gamora e Drax acompanham Ego e Mantis (Pom Klementieff), sua auxilar, até um planeta distante, e Rocket e Bebê Groot ficam responsáveis por reparar a nave e vigiar Nebulosa (Karen Gillian), a filha de Thanos que havia sido entregue aos personagens como recompensa por protegerem as baterias. Paralelamente, o pirata Yondu (Michael Rooker) é contratatado por Ayesha para localizar os Guardiões.

Sobre esses eventos que constituem o “meio do filme”, por assim dizer, vale a pena realizar comentários separados para cada um deles:

Ego e Peter Quill: O esperado encontro entre o Senhor das Estrelas e seu pai responde muitas perguntas deixadas pelo primeiro Guardiões da Galáxia e é o principal acontecimento deste filme, mas todas as cenas que envolvem esse arco da história são chatas de doer. Eu entendo que até mesmo uma bomba de diversão como essas precise de algumas partes mais “sérias” para que os personagens sejam desenvolvidos, porém não posso negar que fiquei extremamente entediado enquanto Peter e Ego falavam do passado e do futuro naqueles cenários oníricos.

Rocket: Tanto por seu mau humor quanto por sua insanidade nas batalhas (adoro quando ele fala aquele HELL YEAH!), o guaxinim antropomórfico permanece como meu personagem favorito dentre todos os Guardiões. O Rocket continua legalzão e o James Gunn deu uma cena na floresta para ele brilhar sozinho com todos os seus equipamentos e metrancas, no entanto a imagem que eu levei dele desta vez foi a da criatura triste e solitária que maltrata todos, até os próprios amigos, pela inabilidade de ser amado. As cenas que nos levam a essa conclusão, principalmente aquele diálogo com o Yondu no final, são verdadeiramente tristes e destoam de tudo o que fora feito na série até aqui. Isso não é necessariamente ruim, mas confesso que fui surpreendido pela bad vibe.

Yondu: Lembram daquele sujeito risonho e seguro de si que dizimava grupos inteiros de inimigos com uma flecha voadora? Restou pouco dele em Vol. 2. Yondu não só enfrenta um motim de sua tripulação quanto é desprezado por Stakar Ogord (Sylvester Stallone), o líder dos piratas espaciais. Yondu também ganha espaço para exibir suas habilidades (a batalha contra o Taserface) e protagoniza um dos momentos mais engraçados do longa (Mary Poppins!), mas no geral a participação dele nesta continuação é bem melancólica. A cena em que a Father & Son do Cat Stevens é executada é de cortar o coração.

Resumindo, é muita tristeza e seriedade em um filme que é a continuação de um dos longas mais divertidos dos últimos anos. Vol. 2 ainda tem MUITO humor e inocência (conforme pode ser visto em praticamente todas as cenas do Bebê Groot e do Drax e em pérolas como o ‘Pac Man gigante’) repete aquele clima descolado proporcionado por músicas bacanas como The Chain do Fleetwood Mac e está cheio de easter eggs (Howard, o Pato está de volta e há incríveis 5 cenas após os créditos rs), mas no geral a investida do James Gunn no desenvolvimento dos personagens levou a história para rumos bastante sombrios (observem a Nebulosa falando sobre o que ela deseja fazer com o Thanos). Gostei do filme, tanto que vi ele duas vezes antes de escrever essa resenha (uma foi dublado: a voz do Yondu ficou HORRÍVEL na versão nacional), mas não gostei de ver o Rocket chorando. Tadinho.

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Homem-Formiga (2015)

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Homem-FormigaDefinitivamente, estamos vivenciando a era de ouro das adaptações de quadrinhos, tanto para o cinema quanto para a televisão. Nos últimos anos, presenciamos eventos gigantescos e antes inimagináveis como a reunião dos Vingadores tomar forma e concretizar-se em um estrondoso blockbuster e vimos vários personagens ganharem suas aventuras solo em séries (Arrow e Demolidor) e em filmes (Lanterna Verde e Wolverine: Imortal). O cenário, construído principalmente graças aos esforços da Marvel, é tão favorável as produções do gênero que até mesmo o longa dos Guardiões da Galáxia, um grupo praticamente desconhecido do público geral, transformou-se em um fenômeno de bilheteria. Em virtude desse sucesso, acredito que ninguém chegou a duvidar do potencial do filme do Homem-Formiga, mas nem mesmo o mais otimista dos fãs poderia prever que ele tornaria-se um dos melhores produtos do MCU (Marvel Cinematic Universe) lançados até agora, competindo em excelência com filmes aclamados por crítica e público como o Capitão América 2: O Soldado Invernal.

Sobre o personagem, eu sabia apenas que ele possuía a habilidade de aumentar e diminuir o próprio tamanho. Assim sendo, assisti o filme sem nenhuma base para compará-lo com as HQ’s e isso não foi de todo ruim porque troquei a prazerosa tarefa de analisar o processo de adaptação pela diversão de conhecer o herói e o seu universo pela primeira vez.

Homem-Formiga - CenaDr. Hank Pym (Michael Douglas), temendo que sua maior invenção (a Partícula Pym, um experimento capaz de encolher pessoas e objetos) fosse utilizada para fins militares nefastos, elege o ex-presidiário Scott Lang (Paul Rudd) como aprendiz e lhe ensina a usar um poderoso traje de combate. Scott transforma-se então no Homem-Formiga e ajuda Hank a lutar contra o inescrupuloso empresário Darren Cross (Corey Stoll).

Vi o filme no escuro (literalmente rs), mas fiz a “lição de casa” e me inteirei sobre o personagem antes de escrever essa resenha para que ela não se transformasse em uma simples, ainda que sincera, saraivada de elogios. O Homem-Formiga é MUITO bom, o diretor Peyton Reed utilizou bem a fórmula “humor + cenas de ação fantásticas” para produzir um filme divertidão que, devido as várias referências aos outros títulos da Marvel, nos faz ficar ainda mais ansiosos pelos próximos lançamentos da empresa, mas ele possui alguns “problemas” que podem e devem serem comentados antes de cumprimentarmos o diretor pelo excelente trabalho.

Homem-Formiga - Cena 3O primeiro e mais importante de todos esses problemas refere-se ao vilão. No filme, Darren Cross usa a Partícula Pym para criar uma armadura de combate com fins bélicos. Como Hank e Scott tentam impedi-lo de vender o projeto para homens ligados a HYDRA, o empresário veste o protótipo e transforma-se no Jaqueta Amarela. A luta dele com o Homem-Formiga é tudo o que faltou no final do A Era de Ultron, um combate longo que permite aos dois personagens usarem seus poderes no máximo, mas não dá para ignorar que trata-se de um dos vilões mais rasos já vistos em um filme da Marvel. Darren Cross é ganancioso e ressentido por Hank Pym tê-lo rejeitado como aprendiz, só. Essa unilateralidade tornou-se ainda mais pobre quando pesquisei sobre o personagem e descobri que nos quadrinhos o Jaqueta Amarela é um dos muitos alter egos de Pym, que sofre de problemas mentais. Adaptações implicam mudanças (as que envolvem a Vespa são totalmente compreensíveis) e é normal que façam-se concessões para atingir as demandas do formato cinematográfico (privilegiar o desenvolvimento do herói, por exemplo), mas da forma que foi feito aqui poderiam ter colocado o herói para brigar com um boneco de posto equipado com raios laser que daria na mesma. Ao que tudo indica, a armadura Jaqueta Amarela será reaproveitada nos próximos filmes, já o Darren Cross tornou-se apenas mais um vilão descartável. Perdoem-me se eu estiver sendo pedante mas, quando olho para produções como o vindouro Esquadrão Suicida, tenho certeza que os vilões podem render mais do que é mostrado aqui.

Homem-Formiga - Cena 4Tendo como protagonista um ator conhecido por seus papéis em filmes de comédia (pessoalmente, conheci o Paul Rudd no Eu Te Amo, Cara), o diretor Peyton Reed recheou o longa com piadas e situações feitas sob medida para fazer o público rir. Reed é feliz em explorar o potencial cômico do Michael Peña e pode vangloriar-se por ter criado a divertidíssima batalha final entre o Homem-Formiga e o Jaqueta Amarela, com todas aquelas mudanças hilárias de perspectiva, mas ele também peca pela repetição. Exemplo: um personagem diz que não fará algo e, na cena seguinte, podemos vê-lo fazendo exatamente o que ele disse que não faria. É um tipo de piada engraçada, mas lá pela quarta vez, além de previsível, ela denuncia falta de criatividade.

Homem-Formiga - Cena 2Feitas essas considerações, rendo-me diante do poder de entretenimento do Homem-Formiga. Além das várias referências que ele faz as outras produções da Marvel, como a ótima cena envolvendo o Falcão Negro (Anthony Mackie) e o diálogo que “introduz” o Homem-Aranha no MCU (bem próximo do final, entre o Paul Rudd e o Michael Peña, do tipo ‘piscou, perdeu’),  a trama ainda conta com a singularidade e charme do mundo microscópico que Scott passa a habitar após vestir o traje de Hank. Diferente de tudo aquilo que vimos nos últimos filmes de super herói lançados (mas não tão diferente de clássicos como Querida, Encolhi as Crianças), Scott foge de ratos, usa formigas para voar e luta ao som de The Cure em cenas que fazem rir mas que também enchem os olhos pela qualidade dos efeitos especiais utilizados para criar aquele mundo em miniatura. O 3D, uma enganação na maioria das produções recentes, ajuda bastante a tornar esses cenários críveis e interessantes.

Homem-Formiga - Cena 5Assim como O Soldado Invernal destacou-se por investir em um clima de suspense e espionagem, Homem-Formiga sobressai-se por abraçar abertamente o humor. Ele cumpre bem o arroz com feijão de apresentar o personagem e suas habilidades para o público, conta com um ator magnífico como o Michael Douglas no elenco, apresenta uma das lutas mais convincentes já vistas em um filme da Marvel e enriquece o universo cinematográfico da empresa ao introduzir eventos que serão explorados no Capitão América 3: A Guerra Civil, mas o que há de melhor aqui são as piadas e a mão do diretor para casá-las com as cenas de ação. Gargalhei pra valer assistindo Homem-Formiga e, apesar dos pontos negativos citados anteriormente, considero-o como um dos maiores acertos da Marvel até agora na adaptação de seus personagens para o cinema.

Homem-Formiga - Cena 6

Vingadores: Era de Ultron (2015)

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Vingadores - Era de UltronQuase uma semana após o lançamento nacional do Vingadores: Era de Ultron, sem dúvida um dos filmes mais aguardados do ano (só não digo que é ‘O mais’ porque 2015 ainda nos dará O Despertar da Força), acredito que todo mundo que pretendia vê-lo já deu um jeito de ir ao cinema. Se não for o seu caso, só continue a leitura se tu não importar-se com SPOILERS, combinado?

Loki, deus fraco, foi derrotado e enviado para Asgard. Lá, ele ajudou Thor (Chris Hemsworth) a vencer Malekith e voltou a ser nosso vilão favorito. Tony Stark (Robert Downey Jr.), traumatizado pela batalha de Nova York, precisou da ajuda de sua namorada para derrotar um nerd bobão e depois promoveu a queima de fogos de artifício mais cara de que se tem notícia. Capitão América (Chris Evans) revelou o lado podre da S.H.I.E.L.D., beijou a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e derrotou o temível Soldado Invernal, tudo isso em uma única aventura. Bom trabalho, Capitão! Já o Hulk (Mark Ruffalo) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner)… bem, esses aí não fizeram nada nos últimos 3 anos.

Após mais uma rodada de filmes solo de seus heróis (ainda não entendo porque continuam ignorando o Hulk) e de ter nos apresentado os divertidos Guardiões da Galáxia, a Marvel volta a reunir seus personagens para enfrentar um vilão que ameaça o destino da Terra. Se, com base no que foi mostrado até aqui, você também apostou que esse vilão seria o Thanos, sinta-se abraçado, caro Jon Snow, você não foi o único ludibriado. Segundo o diretor Joss Whedon, apesar das aparições ameaçadoras do queixo quadrado no fim do primeiro Vingadores e no Guardiões, a intenção nunca foi utilizá-lo nessa primeira sequência. Thanos enfrentará os heróis, mas isso só acontecerá em 2018 quando for lançada a primeira parte da já anunciada Guerra Infinita. Por ora, contentemo-nos com o desconhecido Ultron (voz do James Spader) e com um roteiro que serve principalmente para preparar o terreno para o vindouro quebra pau envolvendo as Joias do Infinito.

Vingadores - Era de Ultron - Cena 6O “desconhecido” que utilizei para definir o Ultron, obviamente, é mais um atestado de fraqueza nerd desse que vos fala do que de insignificância do personagem. Não tenho costume de ler quadrinhos, mas pesquisei um pouco e descobri que o supergrupo e o vilão tem um vasto histórico de confrontos, o que certamente o gabarita para ser o antagonista dessa produção. Ultron, que nas HQs foi criado pelo Homem Formiga (que também chega esse ano nos cinemas), aparece aqui como o fruto das preocupações do Tony Stark com a segurança do planeta. Stark viu o inferno quando atravessou o portal aberto por Loki e, receoso que algo do tipo voltasse a acontecer, planejou um sistema de inteligência artificial capaz de liquidar previamente qualquer tipo de ameaça. Tal qual acontecera no Soldado Invernal, essa tentativa de controle absoluto falha e Ultron, uma espécie de ciborgue que cita Nietzsche e canta músicas do Pinóquio, revolta-se contra seu criador e, auxiliado por Mercúrio (Aaaron Taylor-Johnson) e Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), ambos resultado de experiências da HYDRA, inicia o bom e velho plano de destruição global.

Vingadores - Era de Ultron - Cena 5Agora que a Marvel já matou nossa curiosidade de ver seus heróis reunidos na tela, não faz mais sentido ficar segurando por muito tempo as cenas de ação envolvendo todo o o grupo. Ciente disso, Whedon abre Era de Ultron com uma sequência grandiosa de pancadaria e destruição em que os Vingadores invadem uma base da HYDRA para recuperar o cetro do Loki. De cara, pelo menos três coisas ficam claras: 1) o diretor, felizmente, continua optando por uma quantidade reduzida de cortes, o que favorece a continuidade e dá beleza às cenas 2) o 3D oferece apenas uma noção mequetrefe de profundidade e não justifica o valor investido no ingresso pelo recurso 3) os Vingadores estão funcionando melhor como grupo, combinando os seus poderes constantemente tanto para ataque quanto para defesa. Aqui faço uma pausa na resenha para contar uma desventura pessoal: eu comprei ingresso para uma sessão legendada. Rolaram os trailers, o longa começou e lá estava o pessoal comunicando-se com toda a conhecida qualidade da dublagem nacional. Cerca de 10 minutos depois, alguém percebeu a falha, parou o filme e colocou a cópia certa pra rodar. Do começo. Antes dos trailers. Parabéns, Cinépolis!

Vingadores - Era de Ultron - Cena 4O que vê-se após essa primeira dose de testosterona oferecida por Whedon é que o roteiro procura amarrar os filmes anteriores e valorizar os eventos que eles apresentaram. O Mundo Sombrio é menos lembrado (estranhei as poucas referências ao Loki e sua suposta morte), mas toda a paranoia do Stark e o conteúdo político do Soldado Invernal são resgatados e ampliados em Era de Ultron. Whedon investe também nas relações entre os heróis, aprofundando seus aspectos psicológicos e explorando afinidades e discordâncias. Nisso, ele ensaia um romance entre Bruce Banner e Natasha, deixa claro as diferenças ideológicas entre Stark e o Capitão, mostra um Clint Barton mais familiar e acentua o aspecto divino do Thor, cujo lendário Mjolnir rende a cena mais engraçada do filme. Em uma festa que conta com a tradicional participação do Stan Lee (Excelsior!), as várias teorias sobre o martelo são discutidas enquanto os personagens tentam levantá-lo.

Vingadores - Era de Ultron - CenaSobre os personagens novos, o Mercúrio (ou Quicksilver, no original) está bem mais legal no X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido. Disputas judiciais entre a Sony e a Marvel obrigaram a Casa das Ideias a trocar o ator e não permitiram-na referir-se a ele como mutante, daí a associação do mesmo com a HYDRA. O cara continua com as correrias e o bom humor e protagoniza uma cena trágica no final (que, ao meu ver, não foi devidamente valorizada), mas nada que ele faz aqui é tão bacana quanto a cena do filme do Bryan Singer em que ele corre ao redor de Wolverine e cia. A Feiticeira Escarlate tem uns poderes bem diferentes daqueles utilizados pelos Vingadores (magias e controle psíquico), mas, no geral ela é eclipsada pelos outros personagens. Já o Visão (Paul Bettany) foi uma grata surpresa. Como dito anteriormente, eu não leio quadrinhos, mas eu já conhecia o personagem das páginas da revista Herói e foi muito bom vê-lo nascer, tal qual a espécie de semideus que ele é, na frente dos olhos dos personagens. Ponto novamente para a Marvel, que perdeu de vez o receio de expandir seu universo colorido e encapuzado nos cinemas (referências plantadas aqui, aliás, mostram que o Pantera Negra também está a caminho).

Vingadores - Era de Ultron - Cena 7O que Era de Ultron faz bem é isso: apresenta novos personagens, aproveita os links dos filmes anteriores (Máquina de Guerra e Falcão Negro também dão as caras) e cria novos ganchos para as vindouras produções da empresa. De resto, estruturalmente, ele é bem parecido com o primeiro, tanto nos erros quanto nos acertos. Se antes Whedon nos divertiu com os confrontos Thor X Capitão América X Homem de Ferro e, principalmente, Hulk X Thor, aqui ele nos presenteia com uma pancadaria memorável entre o Hulk (que está atormentado pela Feiticeira Escarlate) e o Homem de Ferro e sua armadura HulkBuster. Os dois personagens destroem uma cidade inteira em um combate espetacular que opõe força bruta e tecnologia e abrem um interessante arco de história em que a população rejeitará os Vingadores e suas intervenções violentas. O final também é uma reedição do filme passado, com todos os personagens usando seus poderes a exaustão contra capangas genéricos enquanto o Homem de Ferro usa suas habilidades para salvar o mundo. Há uma cena espetacular envolvendo uma câmera que gira 360º ao redor dos heróis e, no geral, tudo é bem divertido e emocionante mas, tal qual acontecera com o Loki, deus fraco, Ultron também acaba não rendendo um desafio físico a altura dos personagens.

Vingadores - Era de Ultron - Cena 3Era de Ultron é menos impactante do que seu antecessor. Além de ter perdido-se o fator novidade, ele foi claramente feito para ser o prelúdio para um evento maior (assim como Homem de Ferro 2, Thor e O Primeiro Vingador o foram para Os Vingadores), e isso torna-o mais cadenciado e contido. Ultron é ameaçador, mas ele não consegue sair da sombra que o Thanos e as Joias do Infinito projetam aqui. Trata-se de um excelente filme, divertido, engraçado e com ótimos efeitos especiais e cenas de ação, mas assisti-lo, acima de tudo, significa preparar-se para a Guerra Infinita, que deve trazer o Homem Aranha e sabe-se lá mais quantos personagens legais. A única cena pós crédito (aparece logo no inicio dos mesmos, não é necessário ficar até o final), que mostra o Thanos pegando sua luva e dizendo algo do tipo “Ok, acho que eu mesmo terei de resolver isso”, indica que Era de Ultron é o início de um dos maiores eventos nerds da história do cinema e, como tal, ele deve ser devidamente comemorado e apreciado tantas vezes quanto possível no cinema. Chega logo, 2018!

Vingadores - Era de Ultron - Cena 2

X-Men – Primeira Classe (2011)

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Gosto do primeiro e do segundo X-Men, acho o terceiro muito ruim e considero o filme do Wolverine uma das maiores porcarias já feitas envolvendo super heróis. O saldo foi a completa falta de expectativas para essa espécie de reboot que a série sofre com X-Men – Primeira Classe. Como a divulgação do filme começou com cartazes genéricos e um trailer pouco promissor, eu praticamente já tinha desistido de pagar o ingresso para vê-lo no cinema. Eis então que o filme estréia e começam a aparecer vários reviews positivos, alguns bastante empolgados, sobre a nova chance que os mutantes criados pelos Stan Lee e pelo Jack Kirby ganharam no cinema. A apatia deu lugar à empolgação nerd e eu fui ver o filme. A pergunta mais direta: Valeu a pena? A resposta mais sincera: sim, mas a empolgação é questionável.

Em sua proposta de mostrar como tudo começou, X-Men – Primeira Classe  começa com o jovem Erik Lehnsherr padecendo em um campo de concentração para judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Quando tentam separar Erik de sua mãe, ele tem um acesso de fúria e demonstra possuir poderes sobre o metal. Anos depois, o jovem especialista em mutações genéticas Charles Xavier (James MacAvoy) é recrutado pelo governo para auxiliar na solução de um caso onde aparentemente alguém utilizou habilidades sobre-humanas no intuito de iniciar uma guerra nuclear entre EUA e URSS. Além de revelar que o tal plano maligno existe de fato, Charles conhece e faz amizade com Erik (Michael Fassbender) e os dois, com a ajuda de um aparelho construído pelo também mutante Hank McCoy, começam a reunir seus semelhantes com o propósito de evitar a guerra iminente. O convívio acaba revelando diferenças conceituais entre Charles e Erik no que diz respeito à forma que eles acham que deve ser o relacionamento entre os mutantes e os humanos.

O que mais me agradou em Primeira Classe foi o roteiro e os efeitos especiais. Contando com cenas de batalhas visualmente impecáveis, o filme mistura bem as cenas cômicas e o desenvolvimento dos personagens. O atrito do Professor X e do Magneto, peça fundamental do roteiro dos primeiros filmes, é apresentado para o espectador de forma bem natural e acessível. O time de mutantes, ao contrário do que acontece no X-Men 3 e no X-Men Origins: Wolverine, é reduzido e garante para cada um dos personagens um tempo mínimo na tela.

Em suma, acredito que boa parte da empolgação em cima do filme seja porque ele é sensivelmente melhor do que as outras tentativas que foram feitas até agora de emplacar Wolverine e cia nas telas (falando nele, a participação do personagem é um dos melhores momentos do longa). Não tenho a menor dúvida que os dramas raciais dos X-Men e seus bons personagens podem render muito mais do já foi apresentado. Se é para recomeçar, no entanto, ao menos recomeçaram bem. Ah sim, o Fassbender chuta bundas.

Thor (2011)

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O Thor da mitologia nórdica eu conhecia razoavelmente bem através das histórias contadas pelo Thomas Bulfinch no O Livro da Mitologia. Já o meu contato com o herói da Marvel foi mais reduzido, li apenas uma história dele junto com os Vingadores em uma revista do Homem Aranha. O que mais chama a atenção é o fato do personagem ser um deus, o que tanto garante a ele poderes infinitamente maiores do que a maioria dos outros super heróis quanto torna difícil a tarefa de arrumarem vilões convincentes para enfrentá-lo. Sabendo disso, fiquei um tanto desconfiado quando as primeiras informações do filme começaram a aparecer, desconfiança baseada principalmente no que a Marvel aprontou quando precisou encontrar adversários para outro herói extremamente forte, o Hulk. Lembram daqueles “cachorros atômicos” do filme com o Eric Bana?

Felizmente, a Marvel parece estar aprendendo com os próprios erros e isso fez de Thor um dos filmes mais divertidos baseados em super heróis da empresa até agora. O “problema” relacionado a superforça do herói e dos inimigos para enfrentá-lo é resolvido logo no começo: Thor (Chris Hemsworth) é banido de Asgard por Odin (Anthony Hopkins) como punição por sua arrogância e impulsividade. Obrigado a permanecer na Terra sem sua condição divina e sem a fonte da maioria de seus poderes (o martelo Mjolnir), Thor nem desconfia que seu irmão Loki (Tom Hiddleston) aproveita sua ausência em Asgard para tentar dominar o local com a ajuda dos temíveis Gigantes de Gelo.

A história do herói que precisa demonstrar sua bravura sem usar seus poderes não é exatamente nova, mas aqui tanto respeita a origem do personagem criado pelo Stan Lee (sim, ele faz uma pequena aparição no filme), Jack Kirby e Larry Lieber quanto funciona como um diferencial para a franquia frente aos outros heróis da empresa.

Sobre esses outros heróis, a Marvel já deixou bem clara a intenção de fazer um filme dos Vingadores. Thor prepara o terreno para esse vindouro projeto com várias referências aos outros filmes e personagens (citam claramente o Hulk e o Homem de Ferro e apresentam o Gavião Arqueiro interpretado pelo Jeremy Renner) e confirma que poderemos ver o Deus do Trovão novamente no filme dos Vingadores. Vale a pena também esperar até o fim dos créditos (tarefa relativamente fácil devido a execução da excelente Walk do Foo Fighters) pela já esperada participação do Nick Fury (Samuel L. Jackson).

Eu não poderia finalizar esse texto sem falar sobre o belo trabalho do diretor Kenneth Branagh. Fora contar com belos efeitos especiais e excelentes cenas de ação que duram tempo suficiente para fazer justiça aos poderes do personagem (um dos pontos fracos, por exemplo, do Quarteto Fantástico 1 e 2 e do Homem de Ferro 2), Thor faz uso inteligente da não-linearidade narrativa e ainda possui no núcleo formado pela Natalie Portman, Stellan Skarsgard e Kat Dennings um divertido alívio cômico.

Ótimo filme. Esperemos agora a estreia do Capitão América para depois iniciarmos a contagem regressiva para o filme dos Vingadores.