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Cinquenta Tons Mais Escuros (2017)

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Sinto-me feliz. Após um mês de muitas dificuldades e privações, cá estou eu conseguindo digitar com as duas mãos novamente. Fui ao médico ontem pela manhã e, contrariando todo o meu pessimismo, ele disse que já era hora de retirar o  gesso e a tala que eu vinha usando desde o dia do meu acidente. Ainda é preciso calma, algumas sessões de fisioterapia e tempo para as feridas da palma da mão direita fecharem, mas a felicidade de poder voltar a escrever e realizar sozinho tarefas cotidianas (tomar banho, comer, etc) é algo indescritível. Em breve, espero, este pesadelo ficará definitivamente no passado e eu poderei lembrar desses dias tenebrosos apenas para agradecer todo o carinho e apoio que recebi da minha família, amigos e da minha querida esposa.

Semana passada, tão logo eu e a Renata saímos da sessão do Logan, entramos em outra sala para assistir este Cinquenta Tons Mais Escuros. Isto foi um erro em todos os sentidos. Levando em conta nossa condição física, foi um erro porque ela precisou ficar sentada durante quase 4 horas (tempo somado dos dois filmes) num dia que o joelho dela estava bastante dolorido. Também foi um erro porque, após ver a despedida magistral do Wolverine, assistir um soft porn ruim assemelhou-se a sair dos Jardins do Éden e cair direto no Vale dos Ventos, Segundo Círculo do Inferno dantesco onde agonizam aquelas pessoas que, em vida, deixaram-se levar pela luxúria. Cinquenta Tons Mais Escuros não só repete todos os muitos erros de seu antecessor, o insosso Cinquenta Tons de Cinza, quanto volta a deixar claro que, se você tem mais de 18 anos, você não é o público alvo desta adaptação cinematográfica da obra da escritora E. L. James. Eu, que já completei 31 primaveras e não gosto de abandonar nada pelas metades, voltarei ao cinema para assistir a conclusão da história, mas o ânimo é zero depois do que vi nesta continuação.

Aqui, até mesmo para justificar o “por que raios eu fui ver este troço”, acho justo repetir algo que eu disse quando resenhei o Cinquenta Tons de Cinza. Antes de qualquer coisa, eu gosto de cinema. Mesmo que eu não tenha condições de assistir tudo que é lançado (alguém tem?), procuro ver a maior quantidade de filmes possíveis, e isso inclui desde o “novo do Scorsese” até o “blockbuster bafo sobre fodelança sadomasoquista”. É bastante confortável, principalmente devido a falta de tempo, dar atenção somente para trabalhos ligados a cineastas já consagrados e/ou para títulos que receberam boas resenhas, mas eu ainda gosto de ter uma visão ampla do que está sendo produzido atualmente e, as vezes, isso implica ir assistir algo mesmo quando todos os meus instintos me dizem para não ir.

Todo caso, eu fui e vi uma história que começa tão mal quanto a anterior havia terminado. Anastasia (Dakota Johnson), que havia afastado-se do bonitão Christian Grey (Jamie Dornan) após descobrir a extensão de suas peculiaridades sexuais, procurou superar o término do relacionamento enfiando a cara no trabalho. Agora ela é uma competente assistente numa editora de livros e, quando tem algum tempo livre, sai para beber com os amigos e para passear. Certo dia, enquanto visitava uma exposição de fotografias de um amigo, Anastasia surpreende-se não somente com o fato de que o tal amigo havia feito vários quadros com fotos dela quanto com a notícia de que um comprador havia arrematado todas as obras em que seu rosto aparecia. Não é nenhuma surpresa que o comprador é o galante Christian Grey, que surge logo em seguida pedindo para que a moçoila dê-lhe uma segunda chance.

E Anastasia dá. E Christian, que promete aceitar um “relacionamento baunilha” (menos foder, mais fazer amor) para agradar sua amada, abre a carteira e começa a mima-la com roupas caras, joias e celulares. Como pontos de conflito, a trama traz a possessividade e o ciúme de Christian atrapalhando a vida profissional de Anastasia, a eterna indecisão da moça, que ora quer experiências sadomasoquistas, ora não, e a inclusão da personagem Elena (Kim Basinger), a milf que ensinou o Sr. Grey a foder e que ainda exerce uma estranha influência sobre ele.

Dar, foder, fazer amor. Falou na série Cinquenta Tons de Cinza, falou em sexo. As pessoas postam comentários safadinhos no Facebook quando referem-se ao filme e, dentro da sala do cinema, imperam as risadinhas, suspiros e exclamações quando Anastasia e Christian começam a se pegar, mas a verdade é que o conteúdo sexual do filme é extremamente meia boca. Talvez por visar mesmo um público mais adolescente, o diretor James Foley abre mão de cenas de nudez frontal e sempre envolve o sexo e os elementos do sadomasoquismo em contextos humorísticos. Christian introduz esferas na vagina de Anastasia e, nas cenas seguintes, todo mundo ri dos closes que mostram as caras e bocas que ela faz para conter o tesão na frente de terceiros. Christian masturba Anastasia dentro de um elevador lotado e a gente ri da cara fechada de uma senhora próxima ao casal. Já tive 18 anos e sei que este tipo de conteúdo pode provocar rebuliços internos nessa fase (até porque praticamente tudo provoca rs), mas não acho que Cinquenta Tons Mais Escuros tenha algo a dizer sobre sexo para um adulto casado e com acesso à internet.

Se o sexo decepciona, não é o roteiro esquemático que salva o material. Resumidamente, Anastasia e Christian tem os mesmos problemas que eu e você, caro leitor, temos em nossos relacionamentos. A diferença é a proporção bizarra que esses problemas tomam quando há bilhões de dólares envolvidos no processo. Você sente ciúmes da sua namorada por pensar que o chefe dela está com segunda intenções mas resigna-se por saber que ela precisa do emprego. Christian também sente ciúmes, daí ele compra a empresa da namorada e manda o chefe dela embora. Sua namorada fica preocupada quando você não dá notícias. Anastasia fica preocupada porque Christian sofreu um acidente de helicóptero que está sendo transmitido ao vivo na TV. Sua namorada é independente e gosta de dividir a conta. Anastasia é independente e recusa um cheque de 24 mil dólares. Não dá para ter empatia com pessoas assim (nem com um diretor que faz de uma queda de helicóptero uma cena banal dentro de um filme).

O mistério envolta do passado e dos desejos sadomasoquistas de Christian, ponto central da trama, avança pouco em Cinquenta Tons Mais Escuros. O relacionamento entre os personagens dá o passo lógico em direção ao altar, Anastasia termina a trama um pouco mais determinada e segura de si, abandonando aquela postura passivo-confusa irritante de outrora, e um homem observa tudo das sombras, prometendo complicações futuras para a relação do casal, mas é só.  E é pouco. E é ruim. E não dá tesão. E, ainda que a trilha sonora e o figurino sejam bons e que tenham me dito que o livro é “melhor e mais quente”, não dá a MENOR vontade de conhecer o trabalho da escritora E. L. James com base nisso aqui. Felizmente, se não dividirem o último livro em 2 filmes, falta só mais um.

Elle (2016)

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elleHá 8 longas na lista do Indiewire de possíveis indicados ao Globo de Ouro/Oscar de 2017 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Dentre eles, escolhi o francês Elle para assistir primeiro tanto por acreditar que ele tem chances reais de figurar entre os cinco títulos que serão selecionados para as premiações (ele concorreu a Palma de Ouro no Festival de Cannes) quanto porque o filme foi dirigido pelo Paul Verhoeven, um sujeito que fez deste mundo um lugar melhor quando colocou a Sharon Stone para cruzar as pernas naquela cena icônica do Instinto Selvagem.

O diretor holandês é um desses caras de quem tu pode esperar sempre algo desconcertante relacionado a temas polêmicos como violência e sexualidade. Pessoalmente, nunca esqueci os banhos de sangue que ele promoveu em longas distópicos de ficção científica como Tropas Estelares e o primeiro RoboCop e sempre fui perturbado pela atração quase doentia que emanava da perigosíssima Catherine Tramell e seu picador de gelo no Instinto Selvagem, filme que transformou muita criança em adolescente na década de 90.

Mesmo sabendo onde estava pisando, devo dizer que fiquei bastante chocado com o que vi em Elle. A história que o Verhoeven conta aqui, adaptação de um romance do escritor Philippe Dijan, ofende o espectador o tempo todo pela forma banal com que atos de violência são praticados e absorvidos pelos personagens e também pela ausência quase total de amor nas muitas cenas de sexo do filme.

elle-cena-3Logo de cara, a personagem principal, Michèle (Isabelle Huppert), é estuprada em casa por um homem mascarado. A cena, como não poderia deixar de ser, é revoltante e cruel: Michèle luta e grita, mas o esforço dela, que já é uma mulher velha, não é páreo para a brutalidade do estuprador, que além de tudo espanca-a com violentos socos e tapas no rosto. Depois de uma cena dessas, o “normal” seria que, na sequência, o filme trabalhasse o dia a dia de uma mulher traumatizada pelo ocorrido, certo?

No primeiro dos muitos reveses de Michèle em Elle, a personagem toma um banho, compra um spray de pimenta, manda trocar as fechaduras das portas de sua casa, realiza um teste de DST e pronto, segue a vida. Num primeiro momento, até pensei que o fato de ela não desmoronar psicologicamente devia-se há um estado de choque ou algo do tipo, mas a explicação para o pragmatismo da personagem frente à situação revela-se um pouco mais sombria. Quando era criança, Michèle viu o pai, um católico convicto, assassinar um bocado de gente na rua em que eles moravam. Ele foi preso e os anos passaram, mas este evento parece ter contribuído significativamente para transformá-la em uma adulta amoral e apática.

elle-cena-4Na sequência, Verhoeven nos apresenta cada uma das pessoas que compõe a bizarra rede de relações da personagem. Há a mãe (Judith Magre, uma senhora que pretende casar-se com um garoto de programa), o filho (Jonas Bloque, um adolescente bobão, ex-usuário de drogas, que envolveu-se com uma trambiqueira), o ex-marido (Charles Berling, um intelectual vaidoso), um casal de amigos (Anne Consigny e Chistian Berkel, sendo ela a melhor amiga e ele o amante) e um vizinho (Laurent Lafitte, um homem misterioso e charmoso). O cenário onde esta estranha história desenrola-se conta ainda com a equipe de funcionários de Michèle, que é dona de uma empresa que produz jogos de videogame.

A aparente indiferença de Michèle para com o estupro, diagnóstico que parece ganhar força após uma cena na qual ela revela o ocorrido para os amigos com a mesma tranquilidade de alguém que relata um passeio no parque, parece diminuir quando ela começa a receber mensagens provocativas e obscenas no celular. Inicia-se então uma espécie de jogo de gato e rato entre a personagem e o estuprador, com ela tentando descobrir a identidade de seu algoz ao mesmo tempo em que fantasia com a situação. O toque bizarro do Verhoeven dá-se quando, a medida que o filme passa, a gente vai ficando cada vez mais convencido de que Michèle não será a vítima da história.

elle-cenaO diretor não relativiza o ato do estupro. Isso seria absurdo. Michèle foi abusada e, mesmo que a reação dela seja branda, trata-se de um ato monstruoso. O ponto polêmico da história é que vemos que a personagem consegue ser tão ou mais malévola do que o homem que violentou-a na abertura do filme. Em Elle, Michèle pode ser vista fazendo coisas horríveis como torturar psicologicamente a mãe e o próprio filho, transar com o marido de sua melhor amiga, humilhar um de seus funcionários, pedindo que ele mostre-lhe o pênis caso não queira ser demitido, e seduzir o vizinho na frente de sua esposa durante um jantar. Seja por traumas do passado, seja pelo abuso sofrido no presente, Michèle tornou-se uma sociopata e é impressionante a virada de jogo que ela promove nas cenas finais pra cima do estuprador. Também é perturbador, visto que a gente fica com aquela sensação incômoda de que a vida é bem mais desgraçada do que gostaríamos de acreditar.

Além de possuir uma história bastante original, que ignora qualquer noção de moralidade e de politicamente correto para explorar aspectos de nossa personalidade que muitas vezes preferimos ignorar (é difícil, por exemplo, admitir fetiches que envolvem violência), Elle conta ainda com a atuação estupenda da atriz francesa Isabelle Huppert (eu não estranharia se ela recebesse uma indicação individual pelo papel) e com a condução precisa e corajosa do Verhoeven, que consegue deixar a gente tenso durante 2 horas antes de nos entregar um final que dificilmente vemos nas produções de Hollywood. De fato, mesmo sem conhecer os outros concorrentes, não é difícil perceber o porque do Indiewire dizer que o Elle tem tudo para consagrar-se em 2017 como Melhor Filme Estrangeiro.

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Os Implacáveis (1972)

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os-implacaveisAcho difícil que o leitor já tenha ouvido falar desse Os Implacáveis. Eu mesmo só tomei conhecimento da existência dele quando, há alguns dias, procurei um filme do Sam Peckinpah para assistir. Fiquei fã do trabalho do diretor depois de ver títulos como Cruz de Ferro e Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia e, aos poucos, estou tentando ver todos os longas da filmografia dele. O fato aqui é que, se fosse lançado hoje, você certamente ouviria algo sobre Os Implacáveis e formaria uma opinião sobre a abordagem polêmica do Peckinpah para temas como relacionamento e violência física e sexual. Explico o porque logo após a sinopse.

Doc McCoy (Steve McQueen) está preso há 4 anos pelos crimes de assalto à mão armada e agressão. Após ter o seu pedido de liberdade condicional negado, ele sente que já passou da hora de deixar o local e pede para que sua namorada, Carol (Ali MacGraw), entre em contato com uma influente figura do crime para tirá-lo de lá. Doc é libertado, mas em troca ele tem que liderar uma equipe de desconhecidos escolhida por seu benfeitor em um arriscado assalto a banco.

Peckinpah sugere algumas coisas quando Carol encontra-se com o figurão do crime para interceder por seu namorado. Vestindo uma blusa que deixa pouco para a imaginação, ela é convidada pelo cara para “beber e ouvir uma música na jukebox”, convite que ela aceita prontamente com um sorriso no rosto. Nesse momento, lembro-me de pensar: estou sendo muito malicioso ou eles transaram? A cena termina abruptamente, sem mostrar o desenrolar do encontro, mas fica a impressão de que Carol precisou pagar um preço alto demais pela liberdade de seu amante.

os-implacaveis-cena-4Doc, que até então não sabia de nada, sai da prisão e começa a preparar-se para o assalto. Os detalhes do passado do personagem não são revelados, mas o respeito com que os bandidos tratam-no e a forma como ele elabora o plano para invadir o banco dão a entender que ele é realmente muito bom naquilo que faz. O crime transcorre dentro do esperado até o momento em que Rudy (Al Lettieri), um dos capangas, revela suas intenções de eliminar seus companheiros e fugir com todo o dinheiro do assalto. Após uma perseguição de carro e uma troca de tiros, Rudy leva a pior e é atingido por Doc, que foge ao lado de Carol.

Esse início de Os Implacáveis lembra muito o clássico Bonnie e Clyde, que na época completava apenas 5 anos de seu lançamento. Temos aqui um casal de jovens bonitos e apaixonados infringindo a lei e fugindo da polícia num rampante de violência e sangue. Peckinpah, no entanto, interpretou essa “fórmula de sucesso” à sua própria maneira, introduzindo na história alguns elementos sexuais que já haviam causado barulho em outro filme seu, o polêmico Sob o Domínio do Medo (que ganhou esse remake aqui). Responde aí, caro leitor: é possível que uma mulher sinta prazer e goste de ser estuprada?

os-implacaveis-cena-2Pergunta complicada, né? Recentemente, uma pesquisa mostrou que 1 em cada 3 brasileiros culpam a mulher em caso de estupro, seja pela roupa que ela estava usando no momento ou por falácias ainda maiores como “comportamento promíscuo”, etc. Essa visão de mundo misógina e mesquinha parece ganhar vida em Os Implacáveis quando Rudy, ferido pelo revolver de Doc, sequestra um casal e obriga a mulher a manter relações sexuais com ele na frente do marido dela. O elemento absurdo da cena é que a tal mulher parece GOSTAR do que acontece. Síndrome de Estocolmo? Fetiche? Libertinagem?

Tal qual havia sugerido no Sob o Domínio do Medo quando mostrou uma personagem que provocava um grupo de homens até o momento em que eles violentavam-na (sendo que ela SORRIA durante a cena), Peckinpah joga esse problemão envolvendo culpa e responsabilidades no colo do espectador e parece perguntar: e aí, o que você pensa dessa merda toda? Agora que já conheço a linha do trabalho dele, acho que a questão aqui é que o diretor, mais do que querer debater, era bem machista mesmo: essa figura da mulher “promíscua” que ele coloca sempre vem acompanhada de um homem meio “banana” que não consegue protegê-la e/ou satisfazê-la sexualmente, ou seja, cá está a velha visão “falocêntrica” do mundo que hoje está no meio de debates envolvendo temas como feminismo e cultura de estupro. É por isso que eu disse que, se fosse lançado hoje, Os Implacáveis não passaria despercebido e fomentaria discussões acaloradas nas redes sociais.

os-implacaveis-cena-3As polêmicas não param por aí. A reação de Doc ao descobrir que Carol transou com outro homem (para ajudá-lo a sair da prisão, é bom lembrar) é horrorosa. Sentindo-se frustrado e traído, o personagem dá um  bofetão na cara da parceira no meio da rua. Doc fica sem resposta quando ela pergunta se ele não faria o mesmo para ajudá-la e parece compreender a complexidade da situação, mas o ressentimento corrói o coração dele até não poder mais. Após passarem por poucas e boas juntos, incluindo serem enterrados vivos no meio do lixo e escaparem de um segundo tiroteio nos corredores de um hotel sujo e velho do México, a cumplicidade do casal parece renascer, mas é difícil acreditar no amor após ver Os Implacáveis rs

Feito com uma técnica afinada, que abusa da câmera lenta para mostrar detalhes de objetos sendo destruídos e pessoas sendo mortas, Os Implacáveis conta ainda com uma boa trilha sonora e com uma história que, seja por suas polêmicas, seja pela habilidade do diretor de conduzir a trama, nos tira da nossa zona de conforto e nos faz querer chegar no final para ver o que acontecerá. É preciso ter estômago para ver os filmes do Peckinpah, mas há muito o que aprender com eles principalmente quando você não concorda e fica ofendido com o que é mostrado.

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Love (2015)

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LoveAno passado, um burburinho nas redes sociais disse que um filme “praticamente pornô” estrearia nos cinemas nacionais. Matérias, como esta que pode ser lida clicando aqui, diziam que a produção chamaria-se Transa 3D e, entre outras coisas, traria uma polêmica cena onde um pênis ejacularia em direção ao público. Cinematograficamente falando, o sexo pelo sexo não me interessa: há milhares de sites na internet onde é possível encontrar pornografia em suas mais variadas e bizarras formas (há vídeos com pôneis, caras!), de modo que eu não assistiria Love (felizmente, o título original foi mantido) apenas para ver alguns peitinhos. Uma informação da matéria citada, porém, me fez ficar imediatamente interessado na produção:

“Com cenas quentes, o vídeo contém vários flashes de vários momentos da trama, que é dirigida pelo francês (sic) Gaspar Noé.”

Deixando de lado o erro do colunista (o diretor é argentino, e não francês), encontrei nesse trecho tudo o que eu precisava saber sobre o filme para decidir assisti-lo. A obra do Gaspar Noé (Sozinho Contra Todos, Irreversível, Viagem Alucinante) é marcada por cenas polêmicas de incesto, estupro e abuso de drogas, temas repulsivos e desagradáveis aos olhos, mas ainda assim temas que precisam ser discutidos e que o diretor explora sem preocupar-se com as amarras do politicamente correto. Assim sendo, no que diz respeito ao sexo, desconfiei que o Noé faria mais do que simplesmente mostrar closes das genitálias dos atores e, tal qual o Lars von Trier fez no Ninfomaníaca, discutiria o assunto de forma adulta e sem evitar as polêmicas inerentes ao tema. Felizmente, é exatamente isso que acontece aqui, ou seja, Love não é indicado para quem tem o Cinquenta Tons de Cinza como referência de sexo e relacionamento.

Love - Cena 3A primeira cena do longa é o tipo de material capaz de fazer com que o público desavisado desista do filme. Deitados em uma cama, Murphy (Karl Glusman) e Electra (Aomi Muyock) masturbam apaixonadamente um ao outro. Ao contrário do que geralmente acontece, a câmera do diretor não está posicionada para que você tenha apenas uma visão parcial do ato: lá está o pênis ereto do Murphy e a vagina cabeluda da Electra (rs). Na sequência, toda a química e felicidade do casal cede espaço para uma cena que acontece em outro local e num outro momento. Murphy acorda drogado e melancólico ao lado de Omi (Klara Kristin). No quarto ao lado, o bebê deles chora. O diretor então nos faz ouvir os pensamentos de Murphy e tudo o que ele faz é amaldiçoar a si mesmo e a vida que ele está levando.

O Gaspar Noé declarou que, com Love, a intenção dele era contar uma história de amor do ponto de vista sexual. Casais se conhecem, apaixonam-se, casam e separam-se pelos motivos mais variados, e aqui ele queria contar uma história em que o sexo fosse fator preponderante para os sucessos e insucessos da relação. Devido a uma gravidez indesejada, Murphy precisou casar-se com Omi, mas ele nunca superou os dias intensos vividos ao lado de Electra. Quando o telefone toca e a mãe de sua ex-namorada pede ajuda para localizá-la, visto que ela está desaparecida, o rapaz não pensa duas vezes antes de abandonar a esposa e o filho para procurar aquela que fora seu verdadeiro amor.

Love - CenaNoé ignora a ordem cronológica dos acontecimentos para nos mostrar o casal em várias etapas de uma relação que deteriorou-se ao longo do tempo pelo mesmo motivo que fizeram-na dar certo no início: a liberdade. Murphy e Electra retiram tudo o que podem um do outro, depois partem para uma ménage à trois com Omi, veem o ciúme frustrar a tentativa de levar uma relação aberta, entregam-se a curiosidade de interagir com um travesti e, por fim, procuram casas de swing para experimentarem o voyeurismo e o desprendimento de ver o parceiro transar com outra pessoa. Electra interessa-se pelo lado sonhador e artístico de Murphy, Murphy interessa-se pela inteligência e pelo espírito livre de Electra, mas a relação deles é baseada principalmente no sexo, e é sexo que vemos na maior parte do tempo de Love.

Há muitas cenas de masturbação, sexo vaginal, oral e homossexualidade no filme, tudo real, tudo filmado de forma que tu possa ver coisas como penetração e gozo. Essas cenas são “gratuitas”? Não mesmo. Além do filme possuir um roteiro sólido sobre obsessão sexual, que é filmado por Noé utilizando as mais diversas técnicas cinematográficas, como quebra da linha temporal e a inserção de textos explicativos na tela (um, por exemplo, associando o nome de Murphy com a Lei de Murphy, é bastante elucidativo), cada uma das cenas de sexo de Love tem uma razão para estarem lá e servem para reforçar a relação de dependência dos personagens com o ato sexual. Se a gente vê Murphy e Electra transando seguidamente em corredores de boate em uma determinada parte do filme, por exemplo, acredito que o diretor não está simplesmente querendo que a gente veja putaria, mas sim que entendamos que, ali, os dois estão tentando reaproximar-se depois de um período turbulento. Não dá para contar uma história de amor do ponto de vista sexual sem sexo, certo?

Love - Cena 2É claro que o diretor, depois de trabalhos como Irreversível (que traz uma longa cena onde a atriz Monica Bellucci é estuprada) sabe que está trabalhando com um tabu e que ele usa isso a seu favor, tanto para chocar o público quanto para atrair atenção do mesmo para o filme, mas não acredito que a intenção dele seja simplesmente fazer barulho. O Noé coloca-se muito em seus trabalhos (no Viagem Alucinante, por exemplo, ele fala da vida pós-morte, tema pelo qual ele sempre diz ter interesse) e aqui, além do diretor aparecer como o personagem Noe, ele ainda dá seu outro nome (Gaspar) para o bebê de Murphy e Omi, indícios de que muitas das angústias vividas na trama por seus protagonistas lhe são caras e, provavelmente, baseados em suas próprias experiências.

Love não é só um filme “praticamente pornô”. Se retirássemos dele todas as cenas de sexo, ainda assim ele chamaria a atenção por trazer uma história de amor cheia de elementos reais facilmente reconhecidos pelo público, coisas como a empolgação do início do relacionamento, as brigas (aquela do táxi me deixou bem pra baixo =/), o abuso de bebidas e drogas para mascarar uma realidade insatisfatória e o vazio que dá quando perdemos alguém que amamos devido aos nossos próprios excessos. As cenas de sexo poderiam ter ficado de fora, mas, cá entre nós, melhor com elas, não é mesmo? rs

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Paraísos Artificiais (2012)

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Paraísos ArtificiaisEm 2012, quando Paraísos Artificiais foi lançado, não consegui encontrar motivos para assisti-lo. Pelo que entendi através do trailer, tratava-se de um longa sobre o universo das festas rave e de temas que lhes são comumente relacionados, como a juventude, drogas e música eletrônica. Como na época eu nem sonhava em frequentar esse tipo de ambiente, deixei passar a oportunidade de ver o filme no cinema e meio que acabei esquecendo dele. O tempo passou, tive minha primeira (e traumática) experiência em um desses eventos e, recentemente, reencontrei o Paraísos Artificiais dentre os títulos disponíveis no Netflix. Dessa vez, a minha indiferença foi vencida por duas curiosidades distintas:

  1. Haveria no filme algo tão bizarro quanto o que experimentei pessoalmente na festa que fui no começo desse ano?
  2. Por qual motivo os usuários do Netflix avaliaram o filme negativamente (nota 2 de 5)? Teriam eles estranhado o tema ou, de fato, a produção comandada pelo diretor Marcos Prado seria um desastre?

Antes de contar-lhes sobre a terrível noite em que paguei 5 reais para beber uma lata de cerveja Crystal quente, vamos a segunda pergunta formulada ali acima. Obviamente, não tenho como precisar o motivo de outras pessoas terem rejeitado o filme, mas arrisco dizer que a maioria delas deve ter ficado perdida com a narrativa proposta pelo diretor. Marcos Prado, que fez seu nome no mercado cinematográfico nacional produzindo os dois Tropa de Elite, dispensa a linearidade temporal para contar uma história relativamente simples de ascensão e queda que tende a tornar-se confusa depois de algum tempo devido ao uso constante de flashbacks. Nando (Luca Bianchi) e Patrick (Bernardo Melo Barreto) vão para uma rave organizada em um local paradisíaco na costa nordestina. Lá, eles planejam viver um final de semana inesquecível, expectativa semelhante as de Lara (Lívia Bueno) e Érika (Nathalia Dill), duas amigas repletas de sonhos e vontade de vivenciar novas experiências. Os desdobramentos desses dias de liberdade absoluta, infelizmente, muda para pior a vida de todos.

Paraísos Artificiais - Cena 4Se fosse necessário, de forma bastante simplória, extrair uma “lição de moral” de Paraísos Artificiais, poderíamos dizer que o filme está nos dizendo que “as drogas não compensam” ou até mesmo que “não há ação sem reação”. O roteiro, que também é assinado pelo diretor, tenta desconstruir o glamour, por assim dizer, das festas rave e suas viagens de ácido assim como os Tropa‘s o fizeram com a romantização do crime que não raramente pode ser vista nas produções nacionais. Marcos quer que o espectador saiba que o caminho das drogas, seja o do consumo ou o do tráfico, é ilegal e destrói vidas e famílias. A intenção, inquestionavelmente boa, esbarra no formato proposto pelo diretor para difundi-la: optar por um “vai-e-vem” narrativo cujo maior mérito é guardar uma revelação para o final foi uma decisão infeliz. Em produções semelhantes, como Réquiem Para um Sonho, é justamente a linearidade da história que faz com que os últimos acontecimentos da trama tenham o peso que tem. Aqui, a quebra da linha temporal me fez olhar com indiferença, por exemplo, para as cenas desconexas que falam sobre a morte do pai de Nando.

Paraísos Artificiais - Cena 3Se a história decepciona, tanto pela superficialidade quanto pela narrativa equivocada, os outros elementos que compõe o filme também não conseguem agradar. A música é boa mas nunca é tocada tempo suficiente para empolgar, as experimentações visuais que emulam o uso drogas tem pouco espaço dentro da trama (basicamente, a cena dos ‘bois’ e essa aí do pôster) e a pegação entre as delicinhas Nathalia Dill e Lívia de Bueno, apesar de “estimulante”, não deixa de soar forçada. Para não dizer que nada funciona 100%, a fotografia está acima da média, capturando com precisão tanto a melancolia e a escuridão quando os personagens estão “na pior” no estrangeiro quanto a luz, o sol e a alegria quando eles estão fritando na rave. Falando em rave, paro por aqui o meu relato sobre o filme (resumindo: é chato e mal executado) para contar-lhes a experiência que vivi.

Paraísos Artificiais - CenaQuando fui morar em São José dos Campos-SP em 2012, conheci um cara que é um frequentador apaixonado de raves. De tanto conversar com ele e ouvir maravilhas sobre as festas, decidi que um dia eu experimentaria ir em uma. Cerca de 3 anos depois, surgiu a oportunidade perfeita: o local era perto, o preço do ingresso era bom e os organizadores tinham boas referências. O que deu errado? Tudo. Como os bombeiros negaram conceder alvará para a festa ser realizada no local previsto, os organizadores improvisaram toda a estrutura que eles haviam preparado em um novo lugar, uma chácara que ficava do lado do fim do mundo. A mudança, no entanto, não foi o pior da noite: a chuva recente transformou o local em uma piscina de lama, a cerveja era ruim, quente e cara, a única opção de comida era um espetinho de carne de monstro, os banheiros estavam num estado indescritível e a música, no final das contas, foi tocada através do som de um carro. Desconfiando que nenhum tipo de droga no mundo seria capaz de mudar essa realidade decepcionante, fui embora menos de 3 horas depois de ter chegado e terminei a noite em uma sorveteria rs Sei que, devido aos imprevistos, eu nem posso falar que vivi a experiência real de uma rave, mas esse episódio e o que vi em Paraísos Artificiais (observem a cara de psicopata do ator Bernardo Melo Barreto ‘dançando’) não me deixam nenhum pouco animado em tentar uma segunda vez.

Paraísos Artificiais - Cena 2

Foxy Brown (1974)

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Foxy BrownNo Jackie Brown, aquele filme “menos brilhante” da filmografia do Tarantino, a personagem título tem o seguinte diálogo com Max Cherry, o detetive interpretado pelo ator Robert Foster:

Max Cherry: Eu aposto que você está exatamente como você era aos 29 anos.
Jackie Brown: Bem, minha bunda não é mais a mesma.
Max Cherry: Maior?
Jackie Brown: É.
Max Cherry: Não há nada errado nisso!

Sábias palavras, Tarantino, sábias palavras. Pam Grier, a atriz que dá vida a Jackie, foi um dos principais nomes do período clássico do cinema black exploitation, gênero conhecido por explorar a imagem do negro americano relacionada a violência, sexo e drogas. Desde que vi o filme citado, grande admirador da beleza das mulheres negras que sou, fiquei curioso para conferir como a voluptuosa Pam Grier (48 anos quando gravou Jackie Brown) era aos “29 anos” quando atuou no auge da forma nas produções que a consagraram. Pesquisei a filmografia da moça e, dentre tantos longas com cartazes mostrando decotes generosos, escolhi esse Foxy Brown. Falo-vos agora como um homem satisfeito e admirado com o que viu.

Foxy Brown - Cena 2E o que vi, tão logo o filme começou, foi uma dessas maluquices psicodélicas setentistas que meio que dizem para a gente “prepare-se, nada fará sentido aqui!” rs. Ao som de uma música dançante, a cocotinha Pam Grier surge com um cabelão black power chacoalhando seus impressionantes atributos. Ela sorri, acena e troca de roupa. O fundo da tela pisca, brilha e muda de cor freneticamente. Completamente hipnotizado, fui dominado por um único e persistente pensamento: “Peitos, peitos, peitos!”. Jack Hill, o diretor e roteirista dessa loucura, certamente sabia o efeito que essa introdução (ui!) causaria no espectador e, tão logo ela termina, ele já nos liberta desse transe demoníaco ao nos fornecer a visão daquilo sem o qual nada mais importaria a partir dali: Foxy Brown (Grier), acordada durante a madrugada pelo irmão que precisava de ajuda, levanta-se e… tira a blusa. Pausa, volta a cena. Pausa. Repete. Acende um cigarro. Pronto, agora já é possível prestar atenção nos outros personagens e na trama rs

Exageros e brincadeiras à parte (os peitos da atriz são gigantescos mesmo), nem só de sutiãs nº48 é feito Foxy Brown. Produto de sua época, ele evoca temas como o vigilantismo e a segregação racial para contar uma históra de vingança. Foxy vê tanto o namorado (Terry Carter) quanto o irmão (Antonio Fargas) terem suas vidas destruídas por uma organização criminosa comandada pela inescrupulosa Katherine (Kathryn Loder). Disfarçada de garota de programa, a personagem infiltra-se na organização e utiliza seu charme e intelgência para destruir o esquema criminoso.

Foxy Brown - CenaFoxy Brown transborda sexualidade em suas cenas de nudez e nos diálogos sugestivos e foi principalmente por isso que eu gostei dele, mas é necessário reconhecer também o valor das questões hitóricas do roteiro. Pensado como uma continuação para outro filme da Grier (o aclamado Coffy), ele acaba apresentando alguns furos, como a falta de informações sobre o passado da personagem principal contrastando com a construção sólida do background do namorado dela, mas o que chama a atenção aqui, principalmente para quem recorre aos filmes buscando também um olhar para as particularidades do passado, é o alinhamento da trama com as contradições sociais de seu tempo. Hill faz do irmão de Foxy um sujeito amargurado pela pobreza e pelo preconceito que discursa contra o excludente e segregador “sonho americano” mas, para tanto, não o transforma em uma vítima. O cara, aliás, é um filho da puta sem a menor noção de lealdade. A personagem principal, por sua vez, é uma mulher forte, independente e segura de si cuja comparação com sua antagonista, a branca, ciumenta e emocionalmente desequilibrada Katherine, chega a ser cruel. Mesmo assim, nota-se que o discurso, apesar de exaltar a cor negra, ainda considera-a como algo “exótico”. Um grupo de negros arma-se e começa a patrulhar o bairro, em uma clara alusão aos Panteras Negras? Há um personagem para dizer que isso é ilegal e constitui vigilantismo. Hill soa liberal, mas o passar dos anos permite-nos perceber que ele não conseguiu livrar-se completamente do conservadorismo que marcou a história americana naquele período quando escreveu seu filme.

Foxy Brown - Cena 3É possível e válido ler o filme através desse contexto político, mas nem de longe o foco dele é esse. Os black exploitatons são marcados sobretudo pela violência e aqui nós temos uma boa quantidade de cenas envolvendo o que há de melhor no amor entre os seres. Foxy atira no próprio irmão, queima um sujeito vivo, arranca as partes íntimas de um garanhão e atropela e tritura um bandido utilizando um monomotor. Quando não está na sua forma mais gráfica envolvendo litros de sangue falso, a pancadaria aparece num viés mais cômico. Dentre as cenas em que a Pam Grier aparece vestida, a que mais me agradou em Foxy Brown foi a invasão do bar lésbico em que ela dá uma surra em uma caminhoneira. A mulher diz que tem faixa preta em karatê e faz uma pose de combate engraçada só para cair em seguida toda estropiada no chão após ser atingida por um banco de madeira que Foxy arremessa contra ela. A confusão desenvolve-se então para uma briga de bar generalizada e um cenário majoritariamente masculino transforma-se no palco de um memorável festival de puxões de cabelo rs

Não foi à toa que o Tarantino resgatou a Pam Grier do ostracismo e transfomou-a na estrela de seu Jackie Brown. De fato, a atriz possuia um corpo capaz deixar qualquer um de boca aberta e encarnava com perfeição o tipo badass dos filmes de vingança, motivos mais do que suficientes para que ainda hoje ela mereça ser homenageada (entendam como quiserem rs) e para que valha a pena explorar sua filmografia.

Foxy Brown - Cena 4

Cinquenta Tons de Cinza (2015)

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Cinquenta Tons de Cinza Até onde sei, apenas uma pessoa dentre os meus conhecidos leu o best seller Cinquenta Tons de Cinza. É estranho, portanto, que eu saiba a “opinião” da maioria deles sobre o livro da escritora E. L. James. Vamos pensar um pouco sobre isso.

Acredito que, nessa época de democratização do acesso à internet em que qualquer pessoa com um smartphone está apta a emitir uma opinião sobre QUALQUER assunto, a soberba e o ódio direcionados ao Cinquenta Tons de Cinza  só pode ser comparado aos ataques igualmente infantilóides feitos contra a série Crepúsculo da Stephenie Meyer. Estou defendendo as escritoras e suas obras? De forma alguma. Eu NÃO LI o que elas escreveram e não tenho meios, portanto, para me posicionar a favor ou contra seus livros. Espanta-me, porém, a facilidade com a qual as pessoas comentam sobre aquilo que não conhecem, que não leram, que não pesquisaram. Quando trata-se de assuntos “menores”, como um livro ou um filme, essa desonestidade intelectual é quase inofensiva, mas e quando envolve temas que nos afetam diretamente, como política e economia? A argumentação baseada em achismos e embasada em figurinhas com frases irônicas típicas das redes sociais é um câncer desgraçado que alastrou-se no meio de nós e apodreceu o cérebro de muita gente bacana. Em troca de um “curtir”, o sujeito é capaz de falar mal do “filme do momento”, filme esse que ele nem se deu ao trabalho de assistir mas rotula com adjetivos pejorativos. O gesto até poderia ser encarado como um ato de fanfarronice inocente, mas, como a maioria dessas piadinhas envolve diminuir e/ou criticar quem optou por ir ao cinema, não consigo calar-me frente a tamanha prepotência. Não seja um babaca boçal, amiguinho: evite comentar o que você não leu/não assistiu/não conhece, não contribua para o aumento do preconceito e da ignorância no mundo.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 2E o que, devido a super exposição que a obra recebeu, eu sabia sobre o Cinquenta Tons de Cinza antes de assisti-lo? Apenas que ele era sobre um ricaço que seduzia uma jovem tímida e a convencia a participar de seus fetiches sadomasoquistas. É uma sinopse interessantíssima, daquelas que tu corre para comprar o ingresso antes da estreia? Não mesmo, mas, minimamente, é uma premissa pouco comum dentro do gênero romance. Algum motivo para invocar todo o panteão de bestas do apocalipse contra a autora/livro/filme? Não caras, não mesmo. Grandes clássicos do cinema mundial, como o cult e respeitado Último Tango em Paris, por exemplo, partem de premissas parecidas. A única forma real, portanto, de conferir a qualidade do conteúdo era ir no cinema e assistir o filme. Obviamente, assim como faço com vários outros títulos, eu poderia simplesmente ter optado por ignorar a produção por acreditar que ela não me agradaria devido ao tema. Por que não fiz isso? Porque, independentemente de qualquer opinião, Cinquenta Tons de Cinza tornou-se um sucesso estrondoso de público e eu, fã de cinema que sou, queria ter uma opinião sobre ele, simples assim. Falar bem ou falar mal, mas falar com propriedade, tal qual eu fiz com a série Crepúsculo.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 3O que vi foi um filme cuja parte técnica é impecável mas que tropeça miseravelmente no roteiro. Anastasia Steele (Dakota Johnson) conhece e apaixona-se pelo rico e intimidador Christian Grey (Jamie Dornan) durante uma entrevista. Christian, ou Sr. Grey, também demonstra interesse por ela, mas tenta manter distância devido a algumas “excentricidades” que ele mesmo diz possuir. Como era de se esperar, essa hesitação só faz aumentar o tesão a tensão entre os dois e, depois de algum tempo, eles iniciam um relacionamento, mas não um nos moldes tradicionais: Christian pede para que Anastasia assine um contrato autorizando-o a machucá-la em práticas sadomasoquistas. Ele não quer fazer amor, ele quer f-o-d-e-r. HELL YEAH!!!! (fazia tempo que eu não usava essa expressão rs)

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 6O tal Christian Grey é fundamental para a história, mas não precisa ser um gênio para perceber que Cinquenta Tons de Cinza, além de ter sido escrito por uma mulher, também é SOBRE uma mulher e feito PARA as mulheres. Desde a trilha sonora, que é composta majoritariamente por baladas repletas de falsetes e gemidinhos (Beyoncé quase derrete em um versão pra lá de sexy da Crazy in Love), até as piadinhas típicas das comédias românticas tão adoradas pelas moçoilas (vá lá, a cena da fila de banheiro na boate é engraçadona), o filme da diretora Sam Taylor-Johnson mostra o princípio de um relacionamento a partir dos olhos da Anastasia. Nisso, vi com desinteresse grande parte das primeiras cenas que mostram a personagem agoniada após conhecer seu interesse amoroso: Anastasia sonha acordada enquanto trabalha, não consegue prestar atenção nas aulas e morde constantemente o lábio inferior ao lembrar de Christian. Achei isso tudo extremamente chato, mas fui forçado a reconhecer que essa ambientação funciona devido a boa resposta do público presente. É um começo leve e deveras comum dentro do gênero, nada que tu vá odiar nem amar.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 4É aí que surge, por assim dizer, o diferencial de Cinquenta Tons de Cinza (a ideia do contrato e tudo aquilo que ele implica), e aí eu realmente não gostei do que vi. Não tenho absolutamente NADA contra pornografia, seja ela nos milhares sites de vídeo que existem por aí, seja na literatura (até hoje lembro com carinho da pág.369 do Se Houver Amanhã do Sidney Sheldon rs), mas não vejo porque assistir um filme teoricamente “sério” apenas para ver umas bundas brancas de fora. Eu esperava, portanto, que entre uma e outra cena de putaria desenvolvessem os personagens e explicassem o porque de eles serem tal qual o são, ele um homem com desejos sexuais excêntricos, ela uma mulher disposta a envolver-se com um cara como ele. Isso acontece? Parcialmente. Há um diálogo aqui, outro acolá, mas o que domina a tela na metade final do filme são as cenas de sexo soft porn (sem nú frontal, sem closes no nheco nheco) e as reclamações de Anastasia sobre os excessos de seu amado. Sobre o sexo, achei-o tão empolgante quanto a possibilidade de ver a minha vó de cinta liga bege imitando uma gata no cio. Conversam sobre apetrechos, mostram os apetrechos mas, no final das contas, Christian só usa uma corda e um chicotinho. As reclamações de Anastasia merecem um parágrafo à parte.

Cinquenta Tons de Cinza - CenaAnastasia conhece Christian. Christian diz para Anastasia que tem desejos estranhos. Anastasia fica curiosa e apaixona-se mais ainda. Christian revela esses desejos e pede para que ela assine um contrato concordando com eles. Anastasia aceita inicialmente a proposta e depois, como toda mulher que já colocou os pés nesse mundão velho sem fronteiras, tenta MUDAR o cara e transformá-lo em um namoradinho do tipo que vai no cinema e dorme juntinho. Isso é uma visão cômica da coisa toda, mas não deixa de conter uma triste verdade: mesmo em um filme teoricamente transgressor como Cinquenta Tons de Cinza, a ideia central parece ser identificar a fonte dos desejos sadomasoquistas do personagem e “cura-los”, assim, como se eles fossem uma doença. Não falarei das sequências porque não li e nem pretendo ler os livros, mas ficarei bem decepcionado caso o desfecho seja algo pobre do tipo “Anastasia, com todo o seu amor puro e supremo, SALVA Christian do monstro interior que ele desenvolveu devido a um trauma de infância”. Não que eu espere, com base no que vi, alguma discussão sobre sexualidade com a profundidade de um Ninfomaníaca ou de um O Império dos Sentidos, mas, para não ser marcada apenas pelo sensacionalismo que o tema sempre evoca, é bom que a série traga algo menos clichê e mais adulto em seus próximos capítulos. Por enquanto, digo que Cinquenta Tons de Cinza é sim um filme fraco e chato, mas também reconheço que ele é funcional devido ao fato gritante de ele preparar o terreno para algo maior e mais sombrio. Como eu SEMPRE torço para que os filmes sejam bons para que eu possa me divertir com eles, espero que as minhas suspeitas estejam erradas e as sequências compensem toda a falta de ritmo e profundidade desse debut.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 5