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A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017)

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Antes de falar do filme, uma nota rápida sobre a minha última semana.

Após 2 meses de muitas dores, dúvidas e privações devido aquele maldito acidente de moto, finalmente consegui retornar para a minha rotina. Voltei a dar aulas de História na quarta (12/04)  e, na manhã da quinta feira (13/04), eu já estava no aeroporto realizando controle de tráfego aéreo. É bom pensar que aquele pesadelo agora faz parte do passado, mas nem a vontade de seguir em frente me fará esquecer daqueles 60 dias em que tive tempo de sobra para duvidar de mim mesmo. Dentre outras coisas, tive medo de voltar a dirigir, de não fazer falta para os meus colegas de trabalho e alunos, de não encontrar mais motivação para escrever e medo de encarar as pessoas e reconhecer que eu havia falhado.

Falhei mesmo. Por mais que o quebra molas que me derrubou esteja mal sinalizado (passei lá ontem: ele está sem pintura e a placa está oculta atrás de uma árvore), não posso negar que eu estava acima do limite de velocidade (100km/h numa via onde o máximo é 80). Daqui até o fim da minha vida, terei a lembrança da queda e uma cicatriz enorme no braço esquerdo para me recordarem do que fiz. Fui irresponsável e precisarei lidar com isso, mas o caminho rumo ao amadurecimento não precisa ser trilhado sozinho. Nesta última semana, além de ter sido muitíssimo bem acolhido nos meus locais de trabalho, ganhei um abraço carinhoso de um aluno (Valeu, Claudin!), recebi mensagens encorajadoras dos meus familiares e fui presenteado com o apoio da minha esposa, que propôs realizarmos uma viagem de moto até o estado de Goiás para que, nas palavras dela, “eu pudesse reconquistar a minha confiança ao dirigir”. Quando penso em tudo que passei, concluo que não há fardo suficientemente pesado para quem tem amigos e nem dúvida que resista a um gesto sincero de amor. Sinto-me feliz e motivado para recomeçar. Obrigado a todos que me ajudaram durante esse período difícil 🙂

Percorridos os 180km que separam Uberlândia-MG de Caldas Novas-GO, tive um final de semana bastante agradável em solo goiano. O forte de Caldas são as piscinas de água quente, a música sertaneja e a cerveja gelada, porém há uma grande variedade de opções de entretenimento na vida noturna da cidade para quem quiser algo mais sossegado, dentre elas o 7ªrte Cine Stadium. O local não é lá dos maiores (há apenas 2 salas) e a programação prioriza filmes dublados, mas as instalações são boas (cadeiras novas e limpas; sistema de som eficiente) e de fácil acesso. Mesmo contrariado por perder o áudio original e as sutilezas da voz da Scarlett Johansson, acabei vendo A Vigilante do Amanhã por lá mesmo, meio bêbado e grilado com o cara da bilheteria que não quis aceitar a minha carteirinha de estudante para pagar meia entrada.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell não foi bem nas bilheterias. Envolto numa polêmica de whitewashing (quando um ator branco é escalado no papel de um personagem que, originalmente, tinha outra raça/etnia), a produção deve acumular incríveis 100 milhões de dólares de prejuízo. Eu não fiquei empolgadão com o que vi, mas não achei o o filme tão ruim assim. O fato de terem optado pela Johansson em detrimento de uma atriz oriental certamente foi uma mancada e, como eu havia desconfiado quando resenhei o anime original, simplificaram bastante o roteiro, mas a condução pragmática e o trabalho visual do diretor Rupert Sanders são bastante eficientes.

Ambientando em um futuro próximo, A Vigilante do Amanhã mostra uma realidade em que os seres humanos podem realizar implantes cibernéticos para aprimorarem seus corpos. Após sofrer um acidente, Mira (Johansson) foi salva pela empresa Hanka Robotics, que extraiu seu cérebro e implantou-o num corpo de metal, transformando-a em um ciborgue. Algum tempo depois, Mira, que agora trabalha para o governo e é conhecida como Major, está no meio de uma operação secreta em que ela precisa monitorar uma conversação entre um executivo da Hanka e um político. A reunião é encerrada abruptamente quando ciborgues em formato de gueixa começam a atacar e hackear os cérebros dos participantes, o que obriga a Major a invadir o local e utilizar a força para controlar a situação. No fim, após dizimar a ameaça, ela ouve de uma das gueixas que “quem colaborar com a Hanka será destruído”.

Mira e seu parceiro Batou (Pilou Asbaek), que trabalham sob o comando do Chefe Aramaki (Takeshi Kitano), iniciam então uma investigação para descobrir o responsável pelo ataque das gueixas. Em linhas gerais, A Vigilante do Amanhã segue a mesma narrativa de O Fantasma do Futuro, com a Major esgueirando-se através dos becos sujos de Tóquio perseguindo um inimigo sem rosto. O remake difere-se do original mais nos detalhes e na profundidade em que o tema da individualidade é abordado. Seguem algumas diferenças:

  • Visual: A Major, infelizmente, está mais “comportada”. O corpo de ciborgue dela, que era praticamente idêntico ao de uma mulher normal, ficou com um visual “emborrachado” para suavizar as cenas de nudez. Já o Batou, que no original não tinha nada que acusasse sua natureza cibernética, ganhou olhos biônicos após ser ferido em uma explosão. A maior mudança, porém, foi no vilão: o Mestre dos Fantoches, hacker que transferia a própria consciência para a rede e que agia como um vírus, foi substituído por Kuze (Michael Pitt), um experimento defeituoso da Hanka Robotics. Pessoalmente, eu gostava mais da ideia quase abstrata do anime.
  • Cenas de ação e violência: O diretor Rupert Sanders recriou com maestria o clima noir e a estética cibernética de O Fantasma do Futuro, mas não podemos dizer que ele teve o mesmo êxito com a ação. Por mais que a clássica luta no “espelho d’água” tenha ficado idêntica, os momentos mais violentos do filme (como o assassinato do embaixador e o confronto com o tanque do final) perderam sangue, vísceras e impacto.
  • “Individualidade”: A Vigilante do Amanhã abre mão de praticamente todo o subtexto político do anime para concentrar-se na história de Mira. Ainda que a personagem tenha uma ou duas digressões sobre sua condição de ciborgue, o diretor optou mesmo foi por focar no passado dela. Essa decisão alterou significativamente o final da trama (pra pior, ao meu ver), mas deixou o roteiro mais enxuto e acessível.

A Vigilante do Amanhã é um filme mais simples e funcional do que O Fantasma do Futuro. Isso é bom em certos pontos (achei mais fácil acompanhar a história) e ruim em outros (sem a violência, a nudez e a ‘esquisitice’, perdeu-se a aura ‘cult’). Futuramente, num dia que eu não tiver nada melhor para fazer, pretende vê-lo novamente nem que seja para rir do visual estranho da Johansson, que ficou parecendo o Jesse Eisenberg com aquele cabelinho na cara rs

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Mogli: O Menino Lobo (2016)

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mogli-o-menino-loboBoa tarde, leitores.

É dia 08 de novembro e venho a público DECRETAR a abertura de mais uma “Cobertura Globo de Ouro/Oscar” do Já viu esse? nesta internet espetacular de Cenas Lamentáveis, Aprenda Dollynez e Legado da Copa. A partir de agora já pode:

Brincadeiras facebookianas à parte, está na hora de começar a dar atenção para a temporada de 2017 das premiações mais tradicionais do cinema norte americano. Assim como fiz nos últimos 2 anos, peguei no Indiewire a lista de possíveis indicados ao Globo de Ouro/Oscar e vasculhei a internet atrás dos títulos que já haviam sido lançados. Não encontrei muita coisa (no início de janeiro sempre melhora), mas já há material online suficiente para começar a trabalhar. Dos 8 filmes estrangeiros indicados pelo site, por exemplo, 5 já estão disponíveis nos principais servidores de Torrent e logo logo devem figurar por aqui.

Segundo o Indiewire, Mogli: O Menino Lobo, adaptação do diretor Jon Favreau para o livro do escritor Rudyard Kipling, tem chances reais de estar entre os concorrentes a Melhor Filme por ser um “filme família” da Disney que não só tornou-se bastante popular entre o público quanto recebeu boas resenhas da crítica especializada. Pessoalmente, não acredito que a produção tenha essa força toda (talvez para o Globo de Ouro, não para o Oscar), mas começarei a cobertura por ela enquanto outros títulos mais expressivos não surgem.

mogli-o-menino-lobo-cena-3Pulei a chance de ver Mogli nos cinemas por pura falta de interesse. Gosto bastante da história, tanto que revi a animação de 1967 antes de escrever esta resenha e já passei um bocado de horas jogando o dificílimo game do filme no Super Nintendo, mas acho que minha cota de paciência com essa onda de refilmagens de clássicos da Disney já acabou. Não fosse a aposta do Indiewire, dificilmente vocês leriam sobre esse filme por aqui. Querem saber? Errei feio ao ignorar Mogli. A adaptação do Favreau, além de recriar com carinho e nostalgia algumas das melhores cenas da original, amplia significativamente a grandeza do material com um roteiro mais sombrio e profundo e encanta pelo uso magnífico da computação gráfica na criação dos personagens e dos cenários.

De todas as lendas estranhas que são contadas sobre as selvas da Índia, nenhuma é tão estranha como a do menino Mogli (Neel Sethi). Encontrado na floresta ainda bebê pela pantera Bagheera (voz do Ben Kingsley), Mogli foi levado para ser criado por uma família de lobos. Tudo transcorreu relativamente bem até o dia em que uma seca prolongada fez com que o tigre Shere Kan (voz do Idris Elba) retornasse da escuridão e exigisse a cabeça de Mogli. Segundo ele, os homens não são confiáveis e não deveriam permanecer na floresta. Temendo pela vida do garoto, Bagheera decide levá-lo até uma aldeia onde ele pudesse viver em paz com sua própria espécie, mas uma série de infortúnios vão colocando Mogli mais e mais perto do confronto com o tigre.

mogli-o-menino-lobo-cena-4No filme, o simpático ator mirim Neel Sethi interage com ambientes e animais totalmente criados por CGI e o resultado é nada menos do que sensacional. Num primeiro instante, aliás, é bastante difícil acreditar que a floresta em que vemos Mogli e os lobinhos correr não é real. A cachoeira, as árvores cheias de cipó, os mosquitos… tudo faz aumentar nossa incredibilidade devido à riqueza de detalhes e esmero da produção. É o tipo de material que deve ter ficado BEM legal na tela do cinema com o uso do óculos 3D 😦

Sobre a história, que originalmente foi contada em pouco mais de 1h15min de muita cantoria e tagarelice, Favreau investiu em uma trama mais adulta que fala sobre um garoto que tenta encontrar seu próprio caminho na vida. Nisso, o diretor aumentou a importância de certos personagens (lobos), modificou alguns (elefantes) e suprimiu outros tantos (abutres) do roteiro para falar sobre como Mogli aprendeu um pouquinho com cada um de seus amigos no tocante a enfrentar dificuldades e resolver problemas. Destoa do original a valorização das habilidades de Mogli enquanto ser humano (principalmente na cena do mel), o escancaramento dos defeitos dos animais (a preguiça do Baloo e a ganância do Rei Louie, por exemplo) e a violência. Um amigo do trabalho me disse que arrependeu-se de levar o filho dele para ver Mogli porque haviam muitas cenas no filme que não eram feitas para crianças. Não dá para tirar a razão do cara: o confronto de Shere Kan com Akela, o líder dos lobos, é deveras traumático.

THE JUNGLE BOOKMogli atualiza a história do Rudyard Kipling para esta geração, mas é notável que o diretor preocupou-se em agradar os fãs da antiga animação da Disney. Fora começar o filme apresentando uma versão saudosista do logo da empresa (o castelo, com os fogos e o pó mágico da Sininho, aparece em 2D), Favreau foi bastante atencioso ao adaptar as cenas mais famosas do desenho. Não gostei tanto da sequência envolvendo a cobra Kaa (voz da Scarlett Johansson), mas o encontro do menino com o divertidão Baloo (voz do Bill Murray) é o tipo de coisa capaz de colocar um sorriso no rosto de alguém. Tal qual no original, Mogli desliza rio abaixo na barriga do urso cantando a viciante Somente o Necessário e nos faz pensar sobre as vantagens de viver comendo mel e formigas. Outra passagem clássica que ficou muito boa foi a do Rei Louie (voz do Christopher Walken): nunca deixará de ser engraçado ver o macaco, que está gigantesco, falando que quer ser igual a gente enquanto gagueja.

Num cenário bastante positivo, Mogli pode até concorrer ao Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia/Musical e disputar alguma categoria técnica no Oscar, como Melhores Efeitos Especiais, mas disso não passa. Não é por isso, porém, que o filme não merece uma chance: destas refilmagens de clássicos infantis que Hollywood andou lançando, ele é um dos poucos que valem a pena caso você não seja mais um pimpolho.

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Capitão América: Guerra Civil (2016)

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Capitão América - Guerra CivilAntes de contar-lhes como voltei a ser criança assistindo esse novo épico da Marvel, compartilho uma informação que acredito ser de utilidade pública:

  • Como dar “tranco” em uma moto caso a bateria descarregar: 1) suba na moto 2) segure a embreagem 3) coloque a segunda marcha 4) embale a moto e, tão logo ela ganhe velocidade 5) solte a embreagem e acelere.

O que? Vocês já sabiam como fazer isso? Pois é, amigos, aparentemente eu era o único homem desse mundão velho que não conhecia esse truque demoníaco e, por esse motivo, perdi a estreia do Guerra Civil. O lance foi mais ou menos o seguinte: comprei ingresso para assistir o filme na semana passada, na madrugada de quarta (27) para quinta (28), na sessão das 00:01. Grande foi a minha frustração quando, as 23:30, descobri que a bateria da minha moto havia descarregado. Ainda tentei dar partida nela (uma Yamaha Fazer) durante uns 20 min mas, como eu não conhecia o processo citado acima, tive que render-me a minha própria ignorância e ir dormir poucos minutos depois amaldiçoando-me por perder os ingressos de forma tão boba.

Todo caso, troquei a bateria, comprei novas entradas e, finalmente, consegui assistir o filme no sábado, dia 30. Fiquei tão feliz com o que vi que, enquanto a sessão durou, esqueci que havia um mundo lá fora onde motos só pegam na base do tranco. Para ir direto ao ponto, Guerra Civil é o melhor filme da Marvel feito até agora e, para falar sobre ele, utilizarei alguns SPOILERS, ok?

Capitão América - Guerra Civil - CenaHá uma espécie de consenso entre os fãs de quadrinho de que “a DC é séria e a Marvel é divertida”. Ainda que essa seja uma ideia passível de relativização (mesmo não sendo um grande leitor de HQ’s, sei que a Liga da Justiça já passou por uma fase bastante escrachada e que muitos temas sociais já foram discutidos nas páginas dos X-Men), não podemos negar que ela descreve bem as investidas cinematográficas das duas empresas: o tom de filmes como O Homem de Aço e Homem Formiga, por exemplo, são completamente diferentes.

Levando isso em consideração, fiquei imediatamente curioso para saber como a Marvel adaptaria para as telas os eventos obscuros da HQ Guerra Civil. A “Lei de Registro de Super-Heróis” e os temas que ela evoca (tais como responsabilidade civil e censura), bem como a morte de personagens importantes, não são o tipo de material que a gente consegue imaginar lado a lado com cenas de humor, certo?

Capitão América - Guerra Civil - Cena 4Felizmente, ainda há diretores que conseguem misturar elementos tão díspares e fazer com que cada um deles receba a devida atenção. Anthony e Joe, os Irmãos Russo, já haviam mostrado do que eram capazes no O Soldado Invernal. Corriqueiramente apontado como uma das melhores adaptações da Marvel até então, o filme conseguiu transmitir toda a tensão de uma história de espionagem repleta de traições e reviravoltas sem abrir mão de piadas pontuais, como quando o Capitão (Chris Evans) deixava o Falcão (Anthony Mackie) comendo poeira na corrida. Os diretores nos deram lutas muitíssimo bem coreografadas em que os personagens corriam risco real de morte nas mãos do Soldado Invernal (Sebastian Stan) e reviraram as entranhas da S.H.I.E.L.D., mas isso não os impediu de nos fazer dar boas risadas durante o processo. Não era exatamente isso que Guerra Civil precisava?

Capitão América - Guerra Civil - Cena 5A sinopse: Comandados pelo Capitão, os Vingadores Falcão, Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Viúva Negra (Scarlett Johansson) vão até a Nigéria para impedir que o vilão Ossos Cruzados (Frank Grillo) roube e espalhe um vírus mortal. Durante o confronto, Wanda utiliza seus poderes psíquicos para proteger o Capitão do que seria a morte certa mas acaba destruindo um prédio e matando vários civis. Esse acidente, somado as destruições anteriores provocadas pela ação dos Vingadores (Nova York, Washington e Sokovia), fazem com que o governo proponha uma Lei de Registro de Super-Heróis, de modo que as intervenções da equipe deixem de ser arbitrárias e passem a ser reguladas e comandas por órgãos do Estado. A proposta é aceita pelo Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Máquina de Guerra (Don Cheadle), Visão (Paul Bettany) e Viúva Negra, mas o Capitão, Falcão e Feiticeira Escarlate negam-se a assinar. A divergência sobre o tema provoca um racha na equipe e, após um atentado a uma embaixada da ONU que é atribuído ao Soldado Invernal, os heróis entram em rota de colisão.

Capitão América - Guerra Civil - Cena 6Quem acompanhou as informações que foram divulgadas antes do lançamento certamente estava ansioso pela aparição do Pantera Negra (Chadwick Boseman) e pelo debut do Homem Aranha (Tom Holland) no MCU (o Marvel Cinematic Universe, ou Universo Cinematográfico Marvel). Os dois momentos são mágicos, com o Pantera (que eu conheci recentemente assistindo o desenho Os Vingadores – Os Super-Heróis Mais Poderosos da Terra que está disponível no Netflix) mostrando-se um homem sábio e letal com sua armadura de vibranium e o Homem Aranha representando cada um de nós com sua empolgação e admiração pelos outros heróis, mas há muito mais por aqui do que a simples adição de personagens que o público ama.

Capitão América - Guerra Civil - Cena 2O tema central de Guerra Civil é o tipo de coisa que rende uma boa discussão e os diretores souberam balancear os dois lados da questão. Ao meu ver, os argumentos podem ser divididos da seguinte forma:

  • Tony Stark (Homem de Ferro): Caras maus existem e sempre existirão. Como a tentativa de conter esse mal antes que ele prejudique alguém falhou miseravelmente no Era de Ultron, Tony não quer mais carregar sozinhos nas costas a culpa pela morte de inocentes. Traumatizado pelo relato de uma mãe que perdeu um filho em Sokovia, ele prefere transferir a responsabilidade dos atos dele para o governo. A opinião do personagem, mesmo que emocionalmente contaminada, evoca a confiança nas instituições governamentais e na busca pela legalidade, mas desconsidera que mesmo essas instituições podem cometer erros.
  • Steve Rogers (Capitão América): O mal do mundo precisa ser enfrentado diariamente e quem tem o poder para tal deve assumir a responsabilidade de liderar a luta e ser forte o suficiente para lidar com os inevitáveis reveses do processo. O Capitão acredita que a ideologia dos Vingadores de tornar o mundo um lugar melhor e mais seguro não pode curvar-se diante dos danos colaterais que as ações deles provocam. O “bem maior” pelo qual ele luta, porém, mostra-se uma ideia passível de corrupção quando ele permite que assuntos pessoais (a amizade dele pelo Bucky) interfiram em seu julgamento.

Em momentos alternados da trama, damos razão tanto para o Tony quanto para o Capitão e isso mostra a grandeza do roteiro, que consegue mostrar de forma bastante didática que sempre há mais de um ponto de vista sobre qualquer questão.

Capitão América - Guerra Civil - Cena 3Esse tema “sério” é trabalhado pelos Irmãos Russo da forma como deve ser, com cenas mais lentas, diálogos bem elaborados e lutas brutais pintadas de sangue (o Soldado Invernal continua MUITO violento), mas isso não atrapalha em nada a reprodução da fórmula “piadas + cenas de ação espetaculares” que fizeram a fama da Marvel nos cinemas. A cena da batalha no aeroporto, com todo mundo batendo, todo mundo apanhando, o Homem Formiga (Paul Rudd) voando agarrado na flecha do Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e o Homem Aranha fazendo piada do Star Wars é candidata a melhor cena de ação dos últimos anos. A gente ri e fica empolgado, tudo ao mesmo tempo, e só não grita de emoção porque, ao contrário das crianças, nós temos essa péssima mania de nos preocuparmos com a opinião dos outros. Todo caso, ali no meu cantinho, experimentei uma forte sensação de nostalgia e lembrei-me de quando eu era pequeno e ficava sentado na frente da TV vendo desenho, sinal definitivo de que o filme havia conquistado meu coração.

As 2 cenas pós-crédito de Guerra Civil revelam as intenções da Marvel de concentrar-se agora no Pantera Negra e no Homem Aranha. Considerando tudo que vi aqui, só tenho motivos para continuar sentindo-me feliz por estar vivo e com dinheiro para continuar frequentando o cinema em um período onde tudo aquilo que eu gostava quando criança está sendo transformado em filmes de altíssima qualidade. Obrigado, Marvel!

BÔNUS ROUND: Para terminar, um vídeo cuja “vibe” resume perfeitamente o meu sentimento após sair do cinema: DESCUBRA!

Capitão América - Guerra Civil - Cena 7

Vingadores: Era de Ultron (2015)

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Vingadores - Era de UltronQuase uma semana após o lançamento nacional do Vingadores: Era de Ultron, sem dúvida um dos filmes mais aguardados do ano (só não digo que é ‘O mais’ porque 2015 ainda nos dará O Despertar da Força), acredito que todo mundo que pretendia vê-lo já deu um jeito de ir ao cinema. Se não for o seu caso, só continue a leitura se tu não importar-se com SPOILERS, combinado?

Loki, deus fraco, foi derrotado e enviado para Asgard. Lá, ele ajudou Thor (Chris Hemsworth) a vencer Malekith e voltou a ser nosso vilão favorito. Tony Stark (Robert Downey Jr.), traumatizado pela batalha de Nova York, precisou da ajuda de sua namorada para derrotar um nerd bobão e depois promoveu a queima de fogos de artifício mais cara de que se tem notícia. Capitão América (Chris Evans) revelou o lado podre da S.H.I.E.L.D., beijou a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e derrotou o temível Soldado Invernal, tudo isso em uma única aventura. Bom trabalho, Capitão! Já o Hulk (Mark Ruffalo) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner)… bem, esses aí não fizeram nada nos últimos 3 anos.

Após mais uma rodada de filmes solo de seus heróis (ainda não entendo porque continuam ignorando o Hulk) e de ter nos apresentado os divertidos Guardiões da Galáxia, a Marvel volta a reunir seus personagens para enfrentar um vilão que ameaça o destino da Terra. Se, com base no que foi mostrado até aqui, você também apostou que esse vilão seria o Thanos, sinta-se abraçado, caro Jon Snow, você não foi o único ludibriado. Segundo o diretor Joss Whedon, apesar das aparições ameaçadoras do queixo quadrado no fim do primeiro Vingadores e no Guardiões, a intenção nunca foi utilizá-lo nessa primeira sequência. Thanos enfrentará os heróis, mas isso só acontecerá em 2018 quando for lançada a primeira parte da já anunciada Guerra Infinita. Por ora, contentemo-nos com o desconhecido Ultron (voz do James Spader) e com um roteiro que serve principalmente para preparar o terreno para o vindouro quebra pau envolvendo as Joias do Infinito.

Vingadores - Era de Ultron - Cena 6O “desconhecido” que utilizei para definir o Ultron, obviamente, é mais um atestado de fraqueza nerd desse que vos fala do que de insignificância do personagem. Não tenho costume de ler quadrinhos, mas pesquisei um pouco e descobri que o supergrupo e o vilão tem um vasto histórico de confrontos, o que certamente o gabarita para ser o antagonista dessa produção. Ultron, que nas HQs foi criado pelo Homem Formiga (que também chega esse ano nos cinemas), aparece aqui como o fruto das preocupações do Tony Stark com a segurança do planeta. Stark viu o inferno quando atravessou o portal aberto por Loki e, receoso que algo do tipo voltasse a acontecer, planejou um sistema de inteligência artificial capaz de liquidar previamente qualquer tipo de ameaça. Tal qual acontecera no Soldado Invernal, essa tentativa de controle absoluto falha e Ultron, uma espécie de ciborgue que cita Nietzsche e canta músicas do Pinóquio, revolta-se contra seu criador e, auxiliado por Mercúrio (Aaaron Taylor-Johnson) e Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), ambos resultado de experiências da HYDRA, inicia o bom e velho plano de destruição global.

Vingadores - Era de Ultron - Cena 5Agora que a Marvel já matou nossa curiosidade de ver seus heróis reunidos na tela, não faz mais sentido ficar segurando por muito tempo as cenas de ação envolvendo todo o o grupo. Ciente disso, Whedon abre Era de Ultron com uma sequência grandiosa de pancadaria e destruição em que os Vingadores invadem uma base da HYDRA para recuperar o cetro do Loki. De cara, pelo menos três coisas ficam claras: 1) o diretor, felizmente, continua optando por uma quantidade reduzida de cortes, o que favorece a continuidade e dá beleza às cenas 2) o 3D oferece apenas uma noção mequetrefe de profundidade e não justifica o valor investido no ingresso pelo recurso 3) os Vingadores estão funcionando melhor como grupo, combinando os seus poderes constantemente tanto para ataque quanto para defesa. Aqui faço uma pausa na resenha para contar uma desventura pessoal: eu comprei ingresso para uma sessão legendada. Rolaram os trailers, o longa começou e lá estava o pessoal comunicando-se com toda a conhecida qualidade da dublagem nacional. Cerca de 10 minutos depois, alguém percebeu a falha, parou o filme e colocou a cópia certa pra rodar. Do começo. Antes dos trailers. Parabéns, Cinépolis!

Vingadores - Era de Ultron - Cena 4O que vê-se após essa primeira dose de testosterona oferecida por Whedon é que o roteiro procura amarrar os filmes anteriores e valorizar os eventos que eles apresentaram. O Mundo Sombrio é menos lembrado (estranhei as poucas referências ao Loki e sua suposta morte), mas toda a paranoia do Stark e o conteúdo político do Soldado Invernal são resgatados e ampliados em Era de Ultron. Whedon investe também nas relações entre os heróis, aprofundando seus aspectos psicológicos e explorando afinidades e discordâncias. Nisso, ele ensaia um romance entre Bruce Banner e Natasha, deixa claro as diferenças ideológicas entre Stark e o Capitão, mostra um Clint Barton mais familiar e acentua o aspecto divino do Thor, cujo lendário Mjolnir rende a cena mais engraçada do filme. Em uma festa que conta com a tradicional participação do Stan Lee (Excelsior!), as várias teorias sobre o martelo são discutidas enquanto os personagens tentam levantá-lo.

Vingadores - Era de Ultron - CenaSobre os personagens novos, o Mercúrio (ou Quicksilver, no original) está bem mais legal no X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido. Disputas judiciais entre a Sony e a Marvel obrigaram a Casa das Ideias a trocar o ator e não permitiram-na referir-se a ele como mutante, daí a associação do mesmo com a HYDRA. O cara continua com as correrias e o bom humor e protagoniza uma cena trágica no final (que, ao meu ver, não foi devidamente valorizada), mas nada que ele faz aqui é tão bacana quanto a cena do filme do Bryan Singer em que ele corre ao redor de Wolverine e cia. A Feiticeira Escarlate tem uns poderes bem diferentes daqueles utilizados pelos Vingadores (magias e controle psíquico), mas, no geral ela é eclipsada pelos outros personagens. Já o Visão (Paul Bettany) foi uma grata surpresa. Como dito anteriormente, eu não leio quadrinhos, mas eu já conhecia o personagem das páginas da revista Herói e foi muito bom vê-lo nascer, tal qual a espécie de semideus que ele é, na frente dos olhos dos personagens. Ponto novamente para a Marvel, que perdeu de vez o receio de expandir seu universo colorido e encapuzado nos cinemas (referências plantadas aqui, aliás, mostram que o Pantera Negra também está a caminho).

Vingadores - Era de Ultron - Cena 7O que Era de Ultron faz bem é isso: apresenta novos personagens, aproveita os links dos filmes anteriores (Máquina de Guerra e Falcão Negro também dão as caras) e cria novos ganchos para as vindouras produções da empresa. De resto, estruturalmente, ele é bem parecido com o primeiro, tanto nos erros quanto nos acertos. Se antes Whedon nos divertiu com os confrontos Thor X Capitão América X Homem de Ferro e, principalmente, Hulk X Thor, aqui ele nos presenteia com uma pancadaria memorável entre o Hulk (que está atormentado pela Feiticeira Escarlate) e o Homem de Ferro e sua armadura HulkBuster. Os dois personagens destroem uma cidade inteira em um combate espetacular que opõe força bruta e tecnologia e abrem um interessante arco de história em que a população rejeitará os Vingadores e suas intervenções violentas. O final também é uma reedição do filme passado, com todos os personagens usando seus poderes a exaustão contra capangas genéricos enquanto o Homem de Ferro usa suas habilidades para salvar o mundo. Há uma cena espetacular envolvendo uma câmera que gira 360º ao redor dos heróis e, no geral, tudo é bem divertido e emocionante mas, tal qual acontecera com o Loki, deus fraco, Ultron também acaba não rendendo um desafio físico a altura dos personagens.

Vingadores - Era de Ultron - Cena 3Era de Ultron é menos impactante do que seu antecessor. Além de ter perdido-se o fator novidade, ele foi claramente feito para ser o prelúdio para um evento maior (assim como Homem de Ferro 2, Thor e O Primeiro Vingador o foram para Os Vingadores), e isso torna-o mais cadenciado e contido. Ultron é ameaçador, mas ele não consegue sair da sombra que o Thanos e as Joias do Infinito projetam aqui. Trata-se de um excelente filme, divertido, engraçado e com ótimos efeitos especiais e cenas de ação, mas assisti-lo, acima de tudo, significa preparar-se para a Guerra Infinita, que deve trazer o Homem Aranha e sabe-se lá mais quantos personagens legais. A única cena pós crédito (aparece logo no inicio dos mesmos, não é necessário ficar até o final), que mostra o Thanos pegando sua luva e dizendo algo do tipo “Ok, acho que eu mesmo terei de resolver isso”, indica que Era de Ultron é o início de um dos maiores eventos nerds da história do cinema e, como tal, ele deve ser devidamente comemorado e apreciado tantas vezes quanto possível no cinema. Chega logo, 2018!

Vingadores - Era de Ultron - Cena 2

Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014)

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Capitão América 2 - O Soldado InvernalDentre os Vingadores que ganharam aventuras solo no cinema, o Capitão América foi o que mais me decepcionou. Até mesmo o Hulk, que começou mal brigando com cachorros atômicos no filme meia boca do Ang Lee, teve uma oportunidade de usar todas as suas habilidades e músculos naquela pancadaria no campus universitário no longa com o Edward Norton e agradou. Em O Primeiro Vingador, o Capitão simplesmente não mostrou a que veio. O filme, que narrou a transformação do Steve Rogers (Chris Evans) no herói e sua luta contra o Caveira Vermelha durante a Segunda Guerra, começava cadenciado, porém divertido e bem ambientado, mas não engrenava quando o personagem assumia o uniforme e o escudo do bandeiroso: as cenas de ação ficaram aquém daquelas mostradas nas outras produções da Marvel e o último combate entre Steve e o personagem do Hugo Weaving é o próprio conceito de anti clímax.  Não foi no Os Vingadores que a situação do Capitão melhorou. Embora tenha participado ativamente da batalha campal que encerra o filme, os grandes movimentos daquele dia foram executados pelo Homem de Ferro e pelo Hulk. Resumindo, o cara estava devendo e a Marvel, aparentemente, sabia disso.

 Capitão América 2: O Soldado Invernal traz o personagem logo após os eventos mostrados nos Os Vingadores ainda tentando adaptar-se ao mundo moderno no qual ele foi despertado pelo agente da S.H.I.E.L.D. Nick Fury (Samuel L. Jackson). Mais do que estranhar os avanços tecnológicos de nosso tempo, Steve “on your left” Rogers sente falta de uma época onde as relações entre os povos eram mais claras e sinceras, onde os inimigos tinham uma face e podia-se confiar qualquer segredo aos amigos. Longe dessa realidade preto e branca nostálgica, o Capitão é enviado em uma noite cinzenta por Nick para comandar a missão de resgate do barco Estrela de Lemúria. Auxiliado pela Viúva Negra (Scarlett Johansson), o herói invade o local, vence os sequestradores e salva o dia, mas a missão lhe rende mais dúvidas do que glórias. Por que a Viúva desviou-se dos objetivos da operação para roubar dados de inteligência? Qual o verdadeiro interesse do Fury naquela ação? Enquanto busca respostas, o Capitão tem que lidar com as consequências de um ataque direto ao agente da S.H.I.E.L.D., com a desconfiança do diretor da instituição (Robert Redford) e com a aparição de um novo e mortífero inimigo, o misterioso (e estranhamente familiar) Soldado Invernal.

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - CenaO Primeiro Vingador tinha a tarefa espinhenta de apresentar o personagem, introduzí-lo dentro do projeto Vingadores e, de quebra, ainda entreter o público. É um trabalho difícil, mas o debut do Homem de Ferro, ainda que possua alguns defeitos pontuais,  está aí para provar que não é impossível fazer algo bacana em uma primeira investida. Todo caso, não deu certo para o Steve Rogers: a escalação do Chris Evans não agradou, a antipatia que muita gente nutre pelo patriotismo do personagem atrapalhou e as cenas de ação do diretor Joe Johnson não convenceram. Diante tantas críticas, acredito que ninguém seria capaz de apostar muito nessa continuação (eu não apostei), muito menos dizer que ela transformaria-se em um dos melhores (se não o melhor) filme de super herói individual da Marvel até agora. Pois é, galera, foi EXATAMENTE isso que aconteceu. Vamos, ponto por ponto, explicar os motivos dessa afirmação.

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - Cena 4Chris Evans: Chris, um galã boa pinta e canastrão, ficou perfeito como o Tocha Humana nos filmes ruins do Quarteto Fantástico. Difícil discordar disso. Por outro lado, quem em sã consciência o escalaria para viver mais um herói em outro filme da empresa, ainda mais quando consideramos que esse herói, em termos de personalidade e valores, está no extremo oposto do playboy Johnny Storm? O CGI usado para deixar o sujeito magrelo no primeiro longa foi fantástico, mas era impossível olhar para ele e não lembrar de pelo menos uma dúzia de porcarias que o ator já havia feito que o afastavam da aura de austeridade do Capitão. Dois filmes depois, é necessário reconhecer que o cara deu a volta por cima: Com o físico ideal e a postura correta, Chris Evans está convincente como um homem atormentado diante do distanciamento temporal e moral que seu congelamento lhe impôs perante o resto da sociedade.

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - Cena 2Patriotismo e roteiro: Sim, o Capitão América nasceu como parte da propaganda de guerra norte americana durante a Segunda Guerra. Pessoalmente, eu não tenho nenhum problema com isso, mas entendo porque muita gente torce o nariz quando ouve o discurso sobre liberdade ou vê a bandeira com as estrelas e listras tremulando. Todo caso, O Primeiro Vingador pouco defendeu a ideologia americana (ele é até bem sarcástico com os motivos que levaram ao ‘nascimento’ do personagem e o que ele representa) e O Soldado Invernal, ainda que traga o discurso liberal em cada frase do Capitão, está mais para um dedo na ferida da política externa dos EUA do que para um auto elogio. A punição para crimes que ainda não foram cometidos, tema que sempre me remete ao Minority Report, é o ponto de discórdia entre Steve e Nick Fury. O agente da S.H.I.E.L.D., que define-se como um “realista”, rebate os argumentos sobre liberdade do Capitão, os quais ele classifica como “nostálgicos e românticos”, dizendo que não há mais inocentes no mundo e que, tal qual o seu avô fizera no passado, às vezes é necessário “mostrar o cano”, intimidar e agir antes do crime acontecer de modo a garantir a própria segurança. O discurso de Fury remete instantaneamente a política de vigilantismo dos EUA, que não raramente violam a soberania de estados que eles consideram como potenciais inimigos alegando que os mesmo planejam atacá-los com “armas de destruição em massa”. Quando Steve vai contra essa iniciativa, é possível perceber que nem todos os cidadãos do país consideram essa paranóia intervencionista como “realista”. Esse sub texto político é um dos grandes trunfos de O Soldado Invernal e confere ao longa um muito bem vindo clima de espionagem e suspense, o que não impede, no entanto, que o humor esteja presente em cenas divertidas como a corrida que abre a história e nas ótimas citações (a lista de ‘coisas à fazer’ do Steve muda de país para país e, para os mais antenados, há um easter egg do Pulp Fiction).

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - Cena 5Cenas de ação: Encarregados de corrigir aquele que talvez tenha sido o pior dos defeitos de O Primeiro Vingador, os diretores Anthony e Joe Russo (que até então haviam trabalhado basicamente com séries) realizaram um trabalho corajoso ao optarem por utilizar a menor quantidade possível de efeitos especiais no filme durante as cenas de ação para ressaltarem o aspecto de realidade que os thrillers políticos pedem. A pancadaria que o Capitão trava com seus inimigos é muitíssimo bem coreografada e o fato de aqui, ao contrário do primeiro filme, ele usar o escudo mais para atacar do que para defender, oferece ao personagem sua tão aguardada chance de mostrar todo o potencial de luta que o Super Soro lhe conferiu. Com poucos cortes e câmeras que não movimentam-se além do necessário, conseguimos ver com clareza toda a beleza e violência dos combates. A Viúva Negra continua sútil e mortal em seus movimentos e ataques silenciosos, Nick Fury participa de uma ótima sequência de perseguição de carro e o longa ainda apresenta Sam Wilson, o Falcão (Anthony Mackie), um veterano de guerra que voa com asas mecânicas pelos cenários oferecendo ao espectador o tipo de ação frenética que pode ser visto na série do Homem de Ferro. O tal Soldado Invernal, personagem que serve de ligação entre os eventos desse filme e a HYDRA do primeiro, é um inimigo à altura do Capitão e toda vez que ele aparece na tela, inclusive na última cena, podemos esperar ótimas cenas de ação.

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - Cena 3Capitão América 2: O Soldado Invernal aumenta e muito as expectativas para a participação do herói na sequência do Os Vingadores. Gostando ou não dele (eu mesmo nunca fui fã), é preciso reconhecer que, entre o mais do mesmo do Thor, o chatíssimo filme do Homem de Ferro e a falta de projeto para o Hulk, o bandeiroso saiu na frente.

OBS. 1: Precisa dizer que há cenas extras depois dos créditos? Não, né?

OBS. :2 Eu também fico constrangido perto de casais beijando-se.

OBS.3: ON YOUR LEFT! rs

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - Cena 6

Ela (2013)

Padrão

ElaTheodore (Joaquin Phoenix) trabalha escrevendo cartas românticas à mão por encomenda. A ironia aqui é que, além de Theodore não escrever nada a mão, já que a história passa-se em um futuro onde a tecnologia permite a interação total entre humanos e computadores através de comandos de voz (simplificando: ele DITA as cartas para um programa), ele também não tem motivo algum para ser romântico. Separado a um ano de Catherine (Rooney Mara), Theodore leva uma vida melancólica relembrando o passado junto da ex-mulher para a qual ele recusa-se a fornecer o divórcio. Vivendo dias sempre iguais, nos quais divide o tempo entre o trabalho, a companhia da amiga Amy (Amy Adams) e jogos eletrônicos, Theodore resolve dar uma chance para um novo produto lançado no mercado, o OS, um aplicativo inteligente e com personalidade própria que, segundo os anunciantes, é capaz de compreender todos os sentimentos e ajudar seus proprietários em todos os aspectos de suas vidas.

Ela, título deste concorrente ao Oscar dirigido pelo Spike Jonze, pode referir-se tanto a Samantha (Scarlett Johansson), sistema operacional que Theodore cria e relaciona-se durante o filme, quanto, em uma leitura mais ampla e subjetiva, com Catherine ou Amy. A tendência natural, já que o personagem passa a maior parte da projeção conversando com Samantha, é que relacionemos o título com ela. Entendi o que vi, ou preferi entender, como queiram, como uma análise da nossa forma de ver o outro, seja esse outro “ela”, “ele” ou qualquer um que passe pelas nossas vidas e desafie nossa capacidade de sermos empáticos para cultivarmos relacionamentos duradouros e satisfatórios, relações essas cada vez mais raras no mundo de hoje.

Ela - Cena 3Há um consenso sobre a banalização do amor. Você e eu já lemos em algum lugar ou ouvimos alguém dizer que, hoje em dia, todo mundo diz “eu te amo” para qualquer um. Ainda que esse comentário esteja carregado de pessimismo e prepotência, já que julga arbitrariamente os sentimentos de terceiros como falsos e, ao mesmo tempo, coloca-se acima dessa suposta superficialidade, não é difícil perceber porque a sociedade está com o pé atrás com essas declarações, sobretudo quando elas são feitas por pessoas que se conheceram a pouco tempo. Considerando todas as tentações do mundo, problemas pessoais e financeiros e, principalmente, nossas mudanças constantes de objetivos e formas de ver a vida, é difícil dar crédito a alguém, ainda mais se esse alguém for uma adolescente, que diz amar outra pessoa rapidamente. O amor, acreditamos, é forjado na luta diária, na superação de dificuldades e aceitação do próximo. Mas será que é realmente possível dar moldes tão estreitos ao amor apenas para contrapô-lo a sentimentos efêmeros que despertam nossa desconfiança? Será que, quando amamos, realmente aceitamos o outro exatamente como ele é?

Ela - Cena 2Do relacionamento de Theodore e Catherine, sabemos através de flashbacks que todo o carinho e admiração mútua do início transformaram-se em distância e mágoa após um casamento infeliz. Catherine parecia mudar constantemente de opinião e de humor. Theodore, insatisfeito, tentou como pode mudar esse comportamento da esposa. As acusações foram de insensibilidade, de um lado, e de instabilidade, do outro. Samantha surge então para o personagem como a possibilidade de um relacionamento onde ele seria finalmente o centro das atenções, ela o compreenderia tal qual ele era e o amaria de verdade. Apesar de no começo ele não conseguir entrar de cabeça na relação, já que Samantha era “apenas” um aplicativo, o tempo, as tentativas sem sucesso de relacionar-se com pessoas reais e, claro, a habilidade dela de ser agradável, amorosa e compreensiva, conquistam totalmente o personagem. Theodore declara então o seu amor e, para sua surpresa, percebe que Samantha, tal qual sua ex-mulher, já estava com outros interesses.

Ela - Cena 5Ela concorre a 5 Oscars, sendo três prêmios técnicos e também nas categorias de Melhor Filme e Melhor Roteiro Original. Não que isso vá fazer muita diferença, mas em mim o Spike Jonze tem um empolgado torcedor para que ele leve por Melhor Roteiro. Ainda preciso assistir o Blue Jasmine e o Nebraska, que também concorrem nessa categoria, mas desde já declaro a minha admiração pelo que o diretor e escritor alcançou aqui ao falar de uma forma tão madura do mais clichê dos sentimentos. Quantas vezes procuramos alguém que aceite todas as nossas fraquezas e defeitos mas, em contrapartida, não estamos dispostos a oferecer o mesmo? Somos exigentes e duros com as pessoas que amamos, muitas vezes até desejando sinceramente que eles melhorem em alguma coisa (e o grande exemplo disso na trama é a cena onde Amy apresenta o documentário que ela está fazendo para o esposo, que o critica), mas nessas horas, não raramente, também somos cruéis e tentamos moldar a personalidade de nossos parceiros para atender nossos caprichos. O dia-a-dia demonstra que, na prática, o amor incondicional não é tão fácil quanto parece. Ao tentar um relacionamento com uma mulher artificial que foi feita para ele e ver essa tentativa falhar, Theodore aprende um pouco sobre o próximo e sobre si mesmo. Cobramos tanto uns dos outros mas, no final das contas, como ele admite em um diálogo que eu achei particularmente tocante, na maioria do tempo nós não sabemos exatamente o que queremos. A grande sacada do Jonze é mostrar que o outro, ou “ela”, também está tão perdido quanto nós nesse aspecto.

Ela - Cena 4Por incrível que pareça, essa exposição de certos aspectos “feios” dos relacionamentos termina de uma forma leve e até mesmo feliz. Há amadurecimento e aprendizado no último email que o personagem dita para seu computador. Esse tipo de filme, além de oferecer entretenimento de primeira, com uma trilha sonora composta de excelentes melodias conduzidas no piano e interpretações comoventes (que bom que aquilo que vemos aqui não passou de uma brincadeira) nos estimula a sermos mais tolerantes e compreensivos com aquelas pessoas que estão diariamente do nosso lado, acertando e errando mas, sobretudo, tentando, serem pessoas melhores para nós e para elas mesmas. Quando percebemos que também estamos sujeitos aos mesmos erros e acertos, percebemos a importância de sermos mais amorosos nesses momentos. Para tanto, não precisamos de amar ninguém eternamente nem sermos frios tal qual somente um computador conseguiria, basta que nos enxerguemos como um igual. Empatia, Spike Jonze, empatia ❤

Ela - Cena

Hitchcock (2012)

Padrão

HitchcockAssistir Hitchcock com a minha noiva ontem a noite, logo após rever Psicose, foi uma experiência incrível e recompensante. O filme, que enquanto obra de arte isolada já é ótimo, traz várias referências e curiosidades sobre a produção daquele que é o longa mais conhecido do diretor, detalhes que podem passar despercebidos para quem nunca viu Psicose ou não gosta/conhece/interessa-se pela filmografia do “Mestre do Suspense”, mas que certamente agradarão os fãs e recompensarão a bagagem por eles acumulada.

Tendo debutado na direção com o documentário Anvil: The Story of Anvil, o diretor Sacha Gervasi utiliza sua experiência com histórias não ficcionais para adaptar o livro Alfred Hitchcock and The Making of Psycho, do escritor Stephen Rebello, de modo a revelar o homem por trás da lenda. Anthony Hopkins, que está irreconhecível debaixo de uma maquiagem monstruosa, dá vida ao diretor em um momento complicado de sua carreira. Apesar de ter acabado de dirigir o bem sucedido Intriga Internacional, Hitchcock é confrontado diariamente por repórteres que lhe fazem perguntas difíceis. De um lado, uns lhe pressionam querendo saber qual será seu próximo trabalho, do outro, questionam se ele não deveria encerrrar a carreira enquanto ainda era um diretor importante, tendo em vista que vários outros nomes eram apontados naquele momento como os prováveis novos mestres do suspense. Para reiventar-se e calar a boca dos criticos, o diretor escolhe um caminho arriscadíssimo: contrariando os conselhos da esposa (Alma, interpretada pela Helen Mirren), do agente e do chefe da Paramount, Hitchcock decide adaptar para as telas o livro Psicose, ficção baseada em fatos reais que havia chocado os leitores devido a sua trama macabra envolvendo assassinatos, travestismo e embalsamento de cadáveres. Desacreditado e sem apoio do estúdio, o diretor aposta no seu talento e resolve financiar o projeto do próprio bolso, o que cria um atrito entre ele e a esposa que só aumenta quando ela começa passar as tardes na companhia de um escritor.

Hitchcock - Cena 3

Eu nunca tive a felicidade de assistir nenhum episódio da série Alfred Hitchcock Presents, mas conheço-a através de leituras e converas com amigos e por isso esbocei um sorriso logo na primeira cena, aquele sorriso bom de uma criança que tem suas vontades atendidas. Após uma discussão entre dois homens que termina com um batendo com uma pá na cabeça do outro, a câmera move-se para a direita e revela o Anthony Hopkins incrivelmente caracterizado como o diretor. “Good evening”, diz ele segurando uma xícara. Arrepiei quando vi e arrepiei agora escrevendo. O sotaque, o terno preto escondendo o abdomen volumoso, a postura imponente… Hopkins que, na minha modesta opinião, já estava devendo um trabalho relevante há muito tempo, transforma-se no diretor diante dos nossos olhos e, cena após cena, diálogo após diálogo, nos convence que estamos vendo não apenas uma mera interpretação, mas sim o próprio Hitchcock orquestrando sua obra prima.

A história, que começa logo após essa divertida e sombria introdução, recria a premiere do Intriga Internacional para nos contar a situação que o diretor encontrava-se naquele momento. Apesar de ser incrivelmente respeitado por sua filmografia, Hitchcock não possuía carta branca para “inovar” seu trabalho. Um Corpo que Cai, que hoje é considerado um de seus melhores filmes, trouxe inovações e, além de não ter sido bem recebido pela crítica, deu prejuízo nas bilheterias. Receosa de um novo fracasso, a Paramount nega-lhe o financiamento de Psicose e pede para que ele faça algo mais comercial, como a adapatação do Cassino Royale do Ian Fleming. O diretor, que encontrava-se desejoso de um desafio como aqueles que ele enfrentara no começo da carreira, decide então hipotecar a própria casa para financiar o filme, o que tanto traz à tona alguns de seus problemas conjugais quanto acabam lhe inspirando a raiva, desespero e medo que seriam vistos na tela em Psicose.

Hitch, "Janet Leigh" e "Anthony Perkins"

Hitch, “Janet Leigh” e “Anthony Perkins”

Sacha Gervasi investe bastante tempo no aspecto psicológico da relação entre o diretor e sua esposa e em como isso inflenciou no filme que ele estava fazendo, o que torna Hitchcock convidativo para qualquer apreciador de um bom drama, mas é sobretudo na valorização dos detalhes e no conhecimento dos fãs que ele alcança um resultado magnífico. Eu, que havia acabado de assistir o Psicose, adorei ver algumas das cenas mais famosas do filme serem recriadas. Scarlett Johansson ficou linda como a igualmente provocante Janet Leigh, a obsessão do diretor com loiras e sua “linha dura” com os atores é citada e explorada e a famosa cena do chuveiro, além de ser mostrada como fruto de uma explosão emocional do diretor, ainda garante boas cenas de bastidores (onde são citados outros filmes da época) e um momento mágico próximo ao fim da projeção onde o diretor, também tal qual uma criança, observa feliz o resultado de seu trabalho.

Marcada sobretudo pelo seus filmes de suspense, a história do Alfred Hitchcock, ou pelo menos parte dela, é utilizada aqui para contar uma história de amor. Gordo, irônico, egocêntrico e muitas vezes tido como uma pessoa sádica, o diretor é visto por Gervasi como um homem que procurava, sobretudo, impressionar a própria mulher. As frustrações e fraquezas, catalizadoras do talento de Hitchcock, associadas ao pragmatismo e a competência de Alma, segundo Gervasi, geraram todos esses filmes maravilhosos que amamos. Hitchcock é um filme que satisfaz os fãs de Psicose e do trabalho do lendário diretor e que ainda tem o poder de instigar a galera mais nova a procurar sua filmografia devido as várias referências e citações da trama, principalmente uma maravilhosa envolvendo um certo pássaro preto.

HITCHCOCK