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Kong: A Ilha da Caveira (2017)

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Por mais que eu goste do macaco brincalhão e quebrador de mandíbulas do Peter Jackson, não dá para negar que aquele King Kong de 2005 é duro de assistir. Ontem, para resgatar a história e fazer as devidas comparações com esse lançamento, coloquei o filme para rodar e lembrei do quão equivocada, por exemplo, foi a escalação do Jack Black no papel daquele cineasta inescrupuloso. Ver o ator, que tem uma carreira sólida em filmes de humor, esforçando-se para soar sério ao dizer “Não foram os aviões, foi a bela que matou a fera” é deprimente. Contribuem ainda para o desastre o início arrastado (Kong, o protagonista, demora mais de uma hora para aparecer em seu próprio filme), os efeitos especiais capengas (o macaco é perfeito, mas aquela correria entre as pernas dos dinossauros, por exemplo, é intragável) e o final acelerado e bobão. O que foi feito daquela mocinha chorosa após a queda do Kong? Nunca saberemos.

Kong escorregando no gelo e sacudindo a neve dos pelos tem lá o seu charme, mas a real é que, quando trata-se de um macaco gigante, a gente quer ver mesmo é o estrago que ele consegue provocar. Cientes disso, os produtores decidiram reencenar a história original do personagem mostrando-o não como um macaco que ri de truques bobos com pedrinhas, mas sim como um ser ancestral gigantesco e poderoso que habita a Ilha da Caveira, território inexplorado e extremamente hostil do Pacífico Sul. Eu gostei demais.

Ambientado na década de 70, o filme do diretor Jordan Vogt-Roberts começa com o pesquisador Bill Randa (John Goodman) tentando convencer um senador americano a investir em uma arriscada missão de mapeamento de uma ilha recém descoberta no extremo oriente. O político não fica lá muito empolgado com a ideia, mas a possibilidade de realizar tal feito antes dos russos (lembrem-se da Guerra Fria) e a disponibilidade de soldados americanos na região (os EUA estavam retirando seus homens da Guerra do Vietnã) pesam a favor de Randa e a missão é autorizada. Junto com o pesquisador, partem para a chamada Ilha da Caveira uma fotógrafa (Brie Larson), um guia (Tom Hiddleston) e um grupo de soldados comandados pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson).

Tão logo chegam no local (após um dos voos de helicóptero mais irresponsáveis de todos os tempos rs), a equipe de Randa começa a disparar bombas no solo com a intenção de provocar abalos sísmicos e gerar as leituras necessárias para a pesquisa. No ar, paira uma desconfiança sobre os verdadeiros objetivos da missão. No ar, propaga-se o som da hoje clássica Paranoid do Black Sabbath, que algum soldado de bom gosto coloca para rodar numa caixa de som. No ar, avista-se uma árvore que foi arremessada violentamente de um ponto desconhecido contra um dos helicópteros. Segue-se um verdadeiro massacre das forças do Coronel Packard que, conforme bem observado por um dos poucos sobreviventes, não tinham precedente tático para enfrentar o ataque enfurecido de um macaco gigante.

Kong: A Ilha da Caveira não te faz esperar mais de uma hora para ver a sombra do macaco agarrar uma mocinha e correr com ela para dentro da selva. Ambientação feita e personagens apresentados, o diretor faz questão de deixar claro logo no início que estamos vendo um filme de monstro gigante (e não uma bizarra e trágica história de amor) e nos dá uma cena de ação violenta e empolgante, tal qual deve ser. Cerca de 4 vezes maior do que seu antecessor (31 metros contra 7 metros do Peter Jackson), Kong, que felizmente continua sem pinto e sem cu (deve ser embutido), dizima sem dificuldades os invasores da ilha, local onde ele reina, protege e é venerado pelos nativos como um deus. Coronel Packard, que não havia ficado muito satisfeito com o fim da Guerra do Vietnã, decide então reunir o que sobrou dos seus homens e equipamentos e enfrentar o monstro.

O que vemos aqui, porém, não é apenas um duelo entre homem e besta. Packard acaba recebendo sua oportunidade de ficar frente a frente com Kong, olhar no fundo dos olhos da criatura e utilizar todo o seu pesado arsenal contra ela, mas este é apenas um dos arcos da história, e não é o melhor deles. Repetindo, Kong é um filme de monstro gigante, o que quer dizer que o pacote não estaria completo sem uma boa dose de exageros. Há todo o tipo de aberrações na Ilha da Caveira, desde bisões e aranhas colossais até polvos demoníacos e, claro, os temíveis Escaladores de Esqueleto, figuras grotescas que escondem-se nas profundezas da terra aguardando o momento certo de destronar o macacão de seu posto de macho alfa do lugar. Eventualmente, os personagens humanos também envolvem-se em conflitos com essas monstruosidades (e utilizam espadas japonesas para cortá-las em slow motion no melhor estilo HELL YEAH!), mas são os confrontos devastadores e teatrais entre Kong e essas criaturas que rendem as melhores cenas do filme. O pega pra capar entre o macaco e o Escalador de Esqueleto do final é o tipo de cena que faz a gente pensar “poxa, que legal eu estar aqui, sentado, vendo esta bagaça”.

Quando não está quebrando e explodindo coisas, o diretor fala de forma simples mas correta de ecossistemas (os predadores mauzões também tem o seu papel e importância no equilíbrio das coisas) e nos faz rir. John C. Reilly, que interpreta um piloto que caiu na ilha e lá permaneceu desde a 2° Guerra Mundial, traz o melhor do humor involuntário e há uma piada sobre uma carta que um dos soldados escreveu para seu filho (o querido Billy) que é repetida várias vezes e vai tornando-se mais e mais engraçada a cada repetição. O esmero do roteiro também pode ser percebido nas citações a outros filmes e obras. Marlow e Conrad, nomes dos personagens do Reilly e do Hiddleston, certamente são referências ao escritor Joseph Conrad e seu livro O Coração das Trevas, obra que também inspirou o Apocalipse Now. A belíssima fotografia de A Ilha da Caveira, aliás, em muitos momentos lembra o trabalho monumental do Coppola naquele que ainda é um dos melhores filmes de guerra já feitos (olhem os helicópteros, o sol e o tom laranja na imagem abaixo).

Kong: A Ilha da Caveira é a segunda etapa de um projeto que, em 2020, fará o mundo tremer ao colocar King Kong e Godzilla para trocar uns sopapos no cinema. Antes disso, porém, o Rei dos Monstros japonês ainda retornará mais uma vez às telas para aumentar nossas expectativas com o embate e, conforme pode ser visto na cena pós-crédito, para trazer alguns velhos e famosos inimigos. Quebra tudo, bicharada!

Celular (2016)

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CelularPronto, voltei! 🙂

Depois de um cansativo primeiro semestre trabalhando em dois empregos, pude finalmente sair de férias e descansar. Aproveitei a oportunidade para realizar um sonho antigo: após 30 anos de existência nesse mundão velho, finalmente consegui transcender os limites territoriais do nosso querido Brasil e, junto da minha esposa, passei uma semana incrível sob o calor escaldante do México.

Programei a viagem de modo que, entre tacos, ruínas maias e praias paradisíacas, sobrasse uma tarde livre para ir ao cinema. Sei que, como um amigo brincou em uma foto que postei no Facebook, “ninguém vai para Cancún para assistir filmes”, mas, cinéfilo que sou, não pude resistir à vontade de conhecer uma sala de projeção de outro país. Na minha bagagem, mais do que as tradicionais bugigangas (eu comprei um apito de coruja, caras rs), eu queria trazer experiências, e consegui uma bem interessante vendo esse Celular por lá.

O áudio do filme estava no idioma original, em inglês, e as legendas estavam em espanhol. Mesmo sem dominar a língua, não é difícil extrair o significado geral, por assim dizer, de uma frase escrita em espanhol, certo? Muitas palavras são iguais ou parecidas. O que pega mesmo, principalmente para a leitura dinâmica que precisa ser feita para as legendas (acompanhando simultaneamente a imagem e o texto) são os falso cognatos. Basta confundir uma palavra e pronto, tu perde um diálogo inteiro. A solução que encontrei para esse “problema” foi confiar no meu inglês e concentrar a atenção nos diálogos, deixando as legendas como último recurso para compreender o que estava sendo falado. Até que deu certo: fiquei perdido em pouquíssimos momentos, de modo que considerei a experiência bastante positiva. Sobre o cinema em si (rede Cinépolis), acrescento ainda que fiquei impressionado com a estrutura do mesmo (cadeiras hiper confortáveis, tela gigante) e satisfeito com o valor do ingresso: num baita de um domingão, paguei 44 pesos (cerca de 11 reais) por um ingresso, sendo que por aqui costuma ser pelo menos o dobro disso.

Celular - CenaFeitas estas considerações, vamos ao filme. Num episódio da segunda temporada do Family Guy, o MacFarlane brincou com o fato do Stephen King utilizar premissas bizarras para seus livros (o trecho pode ser visto clicando aqui). Não pude deixar de lembrar dessa piada após ver os primeiros 10min de Celular, que é baseado em um romance do escritor. Eis o que acontece: Clay Riddell (John Cusack) desembarca de um avião e vai para o saguão do aeroporto. O personagem, que é uma espécie de artista gráfico, está feliz por ter conseguido fechar um bom contrato com uma empresa de jogos. Clay liga para a ex-mulher para contar as novidades e para falar com o filho, mas o celular dele acaba a bateria e a ligação cai. Eis então que surge um forte zunido e …. TODO MUNDO QUE ESTÁ FALANDO NO CELULAR TRANSFORMA-SE EM ZUMBI!

Assim, sem mais nem menos. É meio que uma tradição de histórias de zumbi não revelar a origem do problema e, sinceramente, eu até acho isso legal, mas não deixa de ser bizarro e até mesmo engraçado a forma abrupta como as coisas acontecem por aqui. O figurante está lá, falando tranquilamente no celular, aí rola o barulho, ele começa a ter umas convulsões, coloca sangue pela boca e pelos olhos e já sai mordendo e matando outras pessoas. Esse começo, aliás, lembra as grandes obras do chamado terrir de diretores como o Sam Raimi, filmes de terror onde o exagero do gore acaba ganhando traços cômicos: tão logo fiquei chocado com a exibição de vísceras e ossos quebrados, comecei a dar risada da ferocidade animalesca dos zumbis e das caras de susto do Cusack.

Celular - Cena 2Na sequência, Clay une-se a outros sobreviventes, dentre eles Tom McCourt (Samuel L. Jackson) e foge do aeroporto. Os zumbis, que são bastante rápidos, perseguem o grupo e continuam fazendo vítimas. Clay convence Tom a ajudá-lo a procurar por seu filho e sua ex-mulher e então os personagens começam a peregrinar através dos destroços do que outrora fora uma cidade civilizada. O perigo constante obriga os personagens a esconderem-se em vários locais e fazerem alianças com outros sobreviventes, como a Órfã feiosa Alice (Isabelle Fuhrman).

Acredito que a intenção do King com esse Celular seja criticar o uso exacerbado que fazemos do aparelho nos dias de hoje. Para comprovar a força da analogia do escritor que compara os usuários a zumbis, basta sair na rua e observar as pessoas andando e/ou dirigindo completamente imersas nos conteúdos exibidos na tela de seus smartphones. Eu, que me considero bastante viciado em redes sociais e outros aplicativos, não deixei de fazer a auto crítica que a história estimula e estou tentando diminuir progressivamente o uso do aparelho e dar mais atenção para as pessoas e coisas ao meu redor. Não quero ser visto como um zumbi cultuador de uma antena de companhia telefônica rs

Celular - Cena 4O começo de Celular é estranho mas bom, a ideia de um apocalipse zumbi provocado por telefones é divertida e há umas duas cenas realmente legais aqui (estou pensando na queima de zumbis no estádio e no sujeito paranoico cheio de explosivos), mas no geral eu achei o filme bastante cansativo. O diretor Tod Williams gasta muito tempo com diálogos e divagações pouco interessantes (cala a boca, Samuel! rs) e não preocupa-se em explicar melhor aspectos importantes da história, como a relação do personagem fictício criado por Clay com os eventos do filme. Quando Celular termina, com AQUELA música tornando AQUELE final ainda mais bizarro, fiquei com a sensação de ter visto algo bastante diferente, mas não necessariamente algo bom.

Es una película extraña rs

Celular - Cena 3

Os Oito Odiados (2015)

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Os Oito OdiadosO momento é de empolgação. O Globo de Ouro está próximo (10/01), a maioria dos indicados já encontra-se disponível na internet e, no último mês, vivi duas experiências completamente diferentes (e igualmente satisfatórias) dentro das salas dos cinemas locais. Da sensação de ter retornado à infância com O Despertar da Força no final do ano passado, fui arremessado agora até os confins obscuros do universo adulto por essa nova obra de arte do Tarantino. Como cinéfilo apaixonado que sou, eu não poderia estar mais feliz ❤

“Obra de arte?” Sim, caras, ele conseguiu de novo. Sei que sou suspeito para falar (quando escrevi sobre o Django Livre, revelei que o Tarantino é ‘o meu herói’), mas continuo impressionado com a capacidade do diretor de transitar entre gêneros, os quais ele continua mesclando e subvertendo para fornecer ao espectador experiências multifacetadas difíceis até mesmo de classificar. Os Oito Odiados é um suspense? Drama? Faroeste? Comédia? O “Oitavo filme do Quentin Tarantino” (e que outro diretor tem a audácia/capacidade de nos fazer contar seus trabalhos? rs) é tudo isso misturado, um conto épico de mais de 3 horas no qual você será levado a desconfiar das intenções de cada um dos personagens, será abordado por questões morais envolvendo justiça e violência, espantará-se com o quão frio o tradicionalmente quente Oeste americano pode ser e pegará-se rindo de piadas sobre homens com paus pretos na boca 😀

Castigada por uma nevasca infernal, a carruagem fretada por John ‘O Carrasco’ Huth (Kurt Russell) atravessa o cenário montanhoso do estado de Wyoming. Consigo, Huth leva Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), uma criminosa por cuja cabeça ele espera receber um prêmio de 10 mil dólares na cidade de Red Rock. No caminho, em momentos alternados, a trajetória da diligência é interrompida pelo Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e pelo Xerife Chris Mannix (Walton Goggins), sujeitos que estavam perdidos no meio da tempestade de neve e que Huth, mesmo relutante, resolve levar consigo.

Os Oito Odiados - Cena 6Durante os dois primeiros capítulos de Os Oito Odiados (adoro essa divisão por capítulos), Tarantino coloca os personagens para conversar e já nos dá algumas pistas de que o filme não é sobre gente que merece ir para o céu. Daisy pode até ser a única procurada pela justiça ali dentro daquela carruagem, mas os outros passageiros também estão bem longe de serem pessoas confiáveis. O xerife é um homem racista que adora fomentar intrigas e tanto John quanto o Major são conhecidos por suas reputações violentas: um por seu prazer confesso em ver pessoas sendo enforcadas, o outro por um episódio macabro da Guerra de Secessão em que ele ateou fogo em inimigos e aliados para salvar a própria pele. Tarantino, cujo trabalho sempre destacou-se pelo desenvolvimento dos personagens (basta lembrar-se, por exemplo, de toda a história que ele criou para a O-Ren Ishii da Lucy Liu no Kill Bill), não decepciona quem esperava por toda uma nova gama de sujeitos ruins e seus diálogos memoráveis: quando as condições climáticas deterioram e o grupo precisa parar na estalagem chamada “Armarinhos da Minnie”, nós já estamos simpatizando com cada um daqueles marginais filhos da puta.

Os Oito Odiados - Cena 4 Os 4 personagens (excluindo o cocheiro O. B), juntam-se então a outros 4 homens misteriosos e a matemática básica nos faz entender o motivo do título: Oswaldo Mobray (Tim Roth), Joe Gage (Michael Madsen), Bob (Demián Bichir) e o General Sandy Smithers (Bruce Dern) também estavam hospedados no “Armarinhos da Minnie” devido a nevasca. Calma lá. Eles estavam hospedados ou estavam lá aguardando a diligência? Algum daqueles homens está ali para resgatar/raptar Daisy? Onde está Minnie, a dona do local? Todos eles são realmente quem dizem que são? Com bons e longos diálogos e planos sequência, Tarantino passa então a conduzir uma trama de mistério que resgata e homenageia clássicos do cinema (o Festim Diabólico, do Hitchcock, não saiu da minha cabeça durante a sessão) e da literatura (a sensação de estar vendo uma versão filmada de algum livro da Agatha Christie é constante, principalmente na narração do próprio Tarantino na cena do café). Há um aspecto “teatral” em Os Oito Odiados, aliás, que remete diretamente ao primeiro trabalho do diretor, o elogiadíssimo Cães de Aluguel: cenário reduzido, poucos personagens, alguém fingindo ser o que não é, Tim Roth e Michael Madsen… está tudo lá. Autocitações? Gosto.

Os Oito Odiados - Cena 5Como eu optei por não utilizar spoilers neste texto, não convém revelar mais detalhes da trama, mas o leitor antenado deve desconfiar que a possibilidade de oito sujeitos armados e trancados dentro de um mesmo local durante uma nevasca dar certo é ínfima, não é mesmo? O climão de “isso vai dar merda” construído desde o início, com aquela imagem de Jesus congelando e a música tenebrosa do Ennio Morricone tocando alto (achei o tema tão bom quanto o do Arraste-me Para o Inferno, umas das minhas trilhas sonoras de terror favoritas), explode então no final e nos dá uma boa dose da violência explícita extremamente gráfica e exagerada que sempre esperamos dos filmes do Tarantino. Cabeças estouram, testículos explodem e a branquíssima neve de Wyoming é pintada de vermelho em cenas que nos chocam e fazem-nos rir ao mesmo tempo: o absurdo e o exagero, denúncia do efeito cinematográfico, continuam sendo a melhor defesa do diretor contra os seus costumazes críticos que acusam-no levianamente de fazer apologia à violência. É apenas ficção, caras.

Os Oito Odiados - CenaNo campo dos diálogos, o “arroz de festa” Samuel L. Jackson e o Bruce Dern protagonizam o momento mais memorável do filme. Assim como Pulp Fiction tem os diálogo do “Quarteirão com queijo/Silêncios confortáveis” e assim como o Bastardos Inglórios tem o Christoph Waltz comparando judeus e ratos, Os Oito Odiados tem o Major provocando o general com a história sobre o cara que chupou um pau preto para ganhar um cobertor. Sabe aquele tipo de coisa que, quando começa a acontecer ali, na sua frente, tu simplesmente não consegue acreditar? “Sério que ele teve coragem de fazer isso?”. É exatamente assim que eu desconfio que todo mundo sentirá-se quando o Samuel L. Jackson começar a falar sobre o dia em que um homem tentou capturá-lo. *Pausa para uma pergunta para quem já viu o filme e está lendo o texto: Como falei sobre o Waltz ali em cima, vocês também não tiveram a impressão de que o Tim Roth tentou emular a atuação dele no Django Livre o tempo todo?*

Os Oito Odiados - Cena 3Para parecer imparcial, eu poderia fechar esse texto dizendo que o filme deveria ter sido melhor editado, de modo que tornassem-no mais curto, mas a grande verdade é que eu amei cada minuto que permaneci dentro daquela sala de cinema. Quando resenhei o Transformes: A Era da Extinção, escrevi: “Entrei no cinema para assistir esse filme em um domingo, as 22hrs, e só saí na segunda, uma hora da manhã, após muitos bocejos e desejos de que ele acabasse logo”. Bem, no que diz respeito ao horário, dessa vez aconteceu EXATAMENTE a mesma coisa, mas eu não passei nem perto de ficar com sono, sinal de que, quando há qualidade, o tempo realmente não importa.

Sei que o ano promete como nunca, com várias produções de super-heróis a caminho, mas desconfio que já vi meu filmes favorito de 2016 (a produção, todo caso, é de 2015). Os Oito Odiados concorre a 3 Globos de Ouro (Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro) e a minha torcida vai toda para ele. Novamente, muito obrigado, Tarantino, você faz desse cinéfilo um sujeito muito feliz 🙂

Os Oito Odiados - Cena 2

Vingadores: Era de Ultron (2015)

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Vingadores - Era de UltronQuase uma semana após o lançamento nacional do Vingadores: Era de Ultron, sem dúvida um dos filmes mais aguardados do ano (só não digo que é ‘O mais’ porque 2015 ainda nos dará O Despertar da Força), acredito que todo mundo que pretendia vê-lo já deu um jeito de ir ao cinema. Se não for o seu caso, só continue a leitura se tu não importar-se com SPOILERS, combinado?

Loki, deus fraco, foi derrotado e enviado para Asgard. Lá, ele ajudou Thor (Chris Hemsworth) a vencer Malekith e voltou a ser nosso vilão favorito. Tony Stark (Robert Downey Jr.), traumatizado pela batalha de Nova York, precisou da ajuda de sua namorada para derrotar um nerd bobão e depois promoveu a queima de fogos de artifício mais cara de que se tem notícia. Capitão América (Chris Evans) revelou o lado podre da S.H.I.E.L.D., beijou a Viúva Negra (Scarlett Johansson) e derrotou o temível Soldado Invernal, tudo isso em uma única aventura. Bom trabalho, Capitão! Já o Hulk (Mark Ruffalo) e o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner)… bem, esses aí não fizeram nada nos últimos 3 anos.

Após mais uma rodada de filmes solo de seus heróis (ainda não entendo porque continuam ignorando o Hulk) e de ter nos apresentado os divertidos Guardiões da Galáxia, a Marvel volta a reunir seus personagens para enfrentar um vilão que ameaça o destino da Terra. Se, com base no que foi mostrado até aqui, você também apostou que esse vilão seria o Thanos, sinta-se abraçado, caro Jon Snow, você não foi o único ludibriado. Segundo o diretor Joss Whedon, apesar das aparições ameaçadoras do queixo quadrado no fim do primeiro Vingadores e no Guardiões, a intenção nunca foi utilizá-lo nessa primeira sequência. Thanos enfrentará os heróis, mas isso só acontecerá em 2018 quando for lançada a primeira parte da já anunciada Guerra Infinita. Por ora, contentemo-nos com o desconhecido Ultron (voz do James Spader) e com um roteiro que serve principalmente para preparar o terreno para o vindouro quebra pau envolvendo as Joias do Infinito.

Vingadores - Era de Ultron - Cena 6O “desconhecido” que utilizei para definir o Ultron, obviamente, é mais um atestado de fraqueza nerd desse que vos fala do que de insignificância do personagem. Não tenho costume de ler quadrinhos, mas pesquisei um pouco e descobri que o supergrupo e o vilão tem um vasto histórico de confrontos, o que certamente o gabarita para ser o antagonista dessa produção. Ultron, que nas HQs foi criado pelo Homem Formiga (que também chega esse ano nos cinemas), aparece aqui como o fruto das preocupações do Tony Stark com a segurança do planeta. Stark viu o inferno quando atravessou o portal aberto por Loki e, receoso que algo do tipo voltasse a acontecer, planejou um sistema de inteligência artificial capaz de liquidar previamente qualquer tipo de ameaça. Tal qual acontecera no Soldado Invernal, essa tentativa de controle absoluto falha e Ultron, uma espécie de ciborgue que cita Nietzsche e canta músicas do Pinóquio, revolta-se contra seu criador e, auxiliado por Mercúrio (Aaaron Taylor-Johnson) e Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), ambos resultado de experiências da HYDRA, inicia o bom e velho plano de destruição global.

Vingadores - Era de Ultron - Cena 5Agora que a Marvel já matou nossa curiosidade de ver seus heróis reunidos na tela, não faz mais sentido ficar segurando por muito tempo as cenas de ação envolvendo todo o o grupo. Ciente disso, Whedon abre Era de Ultron com uma sequência grandiosa de pancadaria e destruição em que os Vingadores invadem uma base da HYDRA para recuperar o cetro do Loki. De cara, pelo menos três coisas ficam claras: 1) o diretor, felizmente, continua optando por uma quantidade reduzida de cortes, o que favorece a continuidade e dá beleza às cenas 2) o 3D oferece apenas uma noção mequetrefe de profundidade e não justifica o valor investido no ingresso pelo recurso 3) os Vingadores estão funcionando melhor como grupo, combinando os seus poderes constantemente tanto para ataque quanto para defesa. Aqui faço uma pausa na resenha para contar uma desventura pessoal: eu comprei ingresso para uma sessão legendada. Rolaram os trailers, o longa começou e lá estava o pessoal comunicando-se com toda a conhecida qualidade da dublagem nacional. Cerca de 10 minutos depois, alguém percebeu a falha, parou o filme e colocou a cópia certa pra rodar. Do começo. Antes dos trailers. Parabéns, Cinépolis!

Vingadores - Era de Ultron - Cena 4O que vê-se após essa primeira dose de testosterona oferecida por Whedon é que o roteiro procura amarrar os filmes anteriores e valorizar os eventos que eles apresentaram. O Mundo Sombrio é menos lembrado (estranhei as poucas referências ao Loki e sua suposta morte), mas toda a paranoia do Stark e o conteúdo político do Soldado Invernal são resgatados e ampliados em Era de Ultron. Whedon investe também nas relações entre os heróis, aprofundando seus aspectos psicológicos e explorando afinidades e discordâncias. Nisso, ele ensaia um romance entre Bruce Banner e Natasha, deixa claro as diferenças ideológicas entre Stark e o Capitão, mostra um Clint Barton mais familiar e acentua o aspecto divino do Thor, cujo lendário Mjolnir rende a cena mais engraçada do filme. Em uma festa que conta com a tradicional participação do Stan Lee (Excelsior!), as várias teorias sobre o martelo são discutidas enquanto os personagens tentam levantá-lo.

Vingadores - Era de Ultron - CenaSobre os personagens novos, o Mercúrio (ou Quicksilver, no original) está bem mais legal no X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido. Disputas judiciais entre a Sony e a Marvel obrigaram a Casa das Ideias a trocar o ator e não permitiram-na referir-se a ele como mutante, daí a associação do mesmo com a HYDRA. O cara continua com as correrias e o bom humor e protagoniza uma cena trágica no final (que, ao meu ver, não foi devidamente valorizada), mas nada que ele faz aqui é tão bacana quanto a cena do filme do Bryan Singer em que ele corre ao redor de Wolverine e cia. A Feiticeira Escarlate tem uns poderes bem diferentes daqueles utilizados pelos Vingadores (magias e controle psíquico), mas, no geral ela é eclipsada pelos outros personagens. Já o Visão (Paul Bettany) foi uma grata surpresa. Como dito anteriormente, eu não leio quadrinhos, mas eu já conhecia o personagem das páginas da revista Herói e foi muito bom vê-lo nascer, tal qual a espécie de semideus que ele é, na frente dos olhos dos personagens. Ponto novamente para a Marvel, que perdeu de vez o receio de expandir seu universo colorido e encapuzado nos cinemas (referências plantadas aqui, aliás, mostram que o Pantera Negra também está a caminho).

Vingadores - Era de Ultron - Cena 7O que Era de Ultron faz bem é isso: apresenta novos personagens, aproveita os links dos filmes anteriores (Máquina de Guerra e Falcão Negro também dão as caras) e cria novos ganchos para as vindouras produções da empresa. De resto, estruturalmente, ele é bem parecido com o primeiro, tanto nos erros quanto nos acertos. Se antes Whedon nos divertiu com os confrontos Thor X Capitão América X Homem de Ferro e, principalmente, Hulk X Thor, aqui ele nos presenteia com uma pancadaria memorável entre o Hulk (que está atormentado pela Feiticeira Escarlate) e o Homem de Ferro e sua armadura HulkBuster. Os dois personagens destroem uma cidade inteira em um combate espetacular que opõe força bruta e tecnologia e abrem um interessante arco de história em que a população rejeitará os Vingadores e suas intervenções violentas. O final também é uma reedição do filme passado, com todos os personagens usando seus poderes a exaustão contra capangas genéricos enquanto o Homem de Ferro usa suas habilidades para salvar o mundo. Há uma cena espetacular envolvendo uma câmera que gira 360º ao redor dos heróis e, no geral, tudo é bem divertido e emocionante mas, tal qual acontecera com o Loki, deus fraco, Ultron também acaba não rendendo um desafio físico a altura dos personagens.

Vingadores - Era de Ultron - Cena 3Era de Ultron é menos impactante do que seu antecessor. Além de ter perdido-se o fator novidade, ele foi claramente feito para ser o prelúdio para um evento maior (assim como Homem de Ferro 2, Thor e O Primeiro Vingador o foram para Os Vingadores), e isso torna-o mais cadenciado e contido. Ultron é ameaçador, mas ele não consegue sair da sombra que o Thanos e as Joias do Infinito projetam aqui. Trata-se de um excelente filme, divertido, engraçado e com ótimos efeitos especiais e cenas de ação, mas assisti-lo, acima de tudo, significa preparar-se para a Guerra Infinita, que deve trazer o Homem Aranha e sabe-se lá mais quantos personagens legais. A única cena pós crédito (aparece logo no inicio dos mesmos, não é necessário ficar até o final), que mostra o Thanos pegando sua luva e dizendo algo do tipo “Ok, acho que eu mesmo terei de resolver isso”, indica que Era de Ultron é o início de um dos maiores eventos nerds da história do cinema e, como tal, ele deve ser devidamente comemorado e apreciado tantas vezes quanto possível no cinema. Chega logo, 2018!

Vingadores - Era de Ultron - Cena 2

Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014)

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Capitão América 2 - O Soldado InvernalDentre os Vingadores que ganharam aventuras solo no cinema, o Capitão América foi o que mais me decepcionou. Até mesmo o Hulk, que começou mal brigando com cachorros atômicos no filme meia boca do Ang Lee, teve uma oportunidade de usar todas as suas habilidades e músculos naquela pancadaria no campus universitário no longa com o Edward Norton e agradou. Em O Primeiro Vingador, o Capitão simplesmente não mostrou a que veio. O filme, que narrou a transformação do Steve Rogers (Chris Evans) no herói e sua luta contra o Caveira Vermelha durante a Segunda Guerra, começava cadenciado, porém divertido e bem ambientado, mas não engrenava quando o personagem assumia o uniforme e o escudo do bandeiroso: as cenas de ação ficaram aquém daquelas mostradas nas outras produções da Marvel e o último combate entre Steve e o personagem do Hugo Weaving é o próprio conceito de anti clímax.  Não foi no Os Vingadores que a situação do Capitão melhorou. Embora tenha participado ativamente da batalha campal que encerra o filme, os grandes movimentos daquele dia foram executados pelo Homem de Ferro e pelo Hulk. Resumindo, o cara estava devendo e a Marvel, aparentemente, sabia disso.

 Capitão América 2: O Soldado Invernal traz o personagem logo após os eventos mostrados nos Os Vingadores ainda tentando adaptar-se ao mundo moderno no qual ele foi despertado pelo agente da S.H.I.E.L.D. Nick Fury (Samuel L. Jackson). Mais do que estranhar os avanços tecnológicos de nosso tempo, Steve “on your left” Rogers sente falta de uma época onde as relações entre os povos eram mais claras e sinceras, onde os inimigos tinham uma face e podia-se confiar qualquer segredo aos amigos. Longe dessa realidade preto e branca nostálgica, o Capitão é enviado em uma noite cinzenta por Nick para comandar a missão de resgate do barco Estrela de Lemúria. Auxiliado pela Viúva Negra (Scarlett Johansson), o herói invade o local, vence os sequestradores e salva o dia, mas a missão lhe rende mais dúvidas do que glórias. Por que a Viúva desviou-se dos objetivos da operação para roubar dados de inteligência? Qual o verdadeiro interesse do Fury naquela ação? Enquanto busca respostas, o Capitão tem que lidar com as consequências de um ataque direto ao agente da S.H.I.E.L.D., com a desconfiança do diretor da instituição (Robert Redford) e com a aparição de um novo e mortífero inimigo, o misterioso (e estranhamente familiar) Soldado Invernal.

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - CenaO Primeiro Vingador tinha a tarefa espinhenta de apresentar o personagem, introduzí-lo dentro do projeto Vingadores e, de quebra, ainda entreter o público. É um trabalho difícil, mas o debut do Homem de Ferro, ainda que possua alguns defeitos pontuais,  está aí para provar que não é impossível fazer algo bacana em uma primeira investida. Todo caso, não deu certo para o Steve Rogers: a escalação do Chris Evans não agradou, a antipatia que muita gente nutre pelo patriotismo do personagem atrapalhou e as cenas de ação do diretor Joe Johnson não convenceram. Diante tantas críticas, acredito que ninguém seria capaz de apostar muito nessa continuação (eu não apostei), muito menos dizer que ela transformaria-se em um dos melhores (se não o melhor) filme de super herói individual da Marvel até agora. Pois é, galera, foi EXATAMENTE isso que aconteceu. Vamos, ponto por ponto, explicar os motivos dessa afirmação.

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - Cena 4Chris Evans: Chris, um galã boa pinta e canastrão, ficou perfeito como o Tocha Humana nos filmes ruins do Quarteto Fantástico. Difícil discordar disso. Por outro lado, quem em sã consciência o escalaria para viver mais um herói em outro filme da empresa, ainda mais quando consideramos que esse herói, em termos de personalidade e valores, está no extremo oposto do playboy Johnny Storm? O CGI usado para deixar o sujeito magrelo no primeiro longa foi fantástico, mas era impossível olhar para ele e não lembrar de pelo menos uma dúzia de porcarias que o ator já havia feito que o afastavam da aura de austeridade do Capitão. Dois filmes depois, é necessário reconhecer que o cara deu a volta por cima: Com o físico ideal e a postura correta, Chris Evans está convincente como um homem atormentado diante do distanciamento temporal e moral que seu congelamento lhe impôs perante o resto da sociedade.

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - Cena 2Patriotismo e roteiro: Sim, o Capitão América nasceu como parte da propaganda de guerra norte americana durante a Segunda Guerra. Pessoalmente, eu não tenho nenhum problema com isso, mas entendo porque muita gente torce o nariz quando ouve o discurso sobre liberdade ou vê a bandeira com as estrelas e listras tremulando. Todo caso, O Primeiro Vingador pouco defendeu a ideologia americana (ele é até bem sarcástico com os motivos que levaram ao ‘nascimento’ do personagem e o que ele representa) e O Soldado Invernal, ainda que traga o discurso liberal em cada frase do Capitão, está mais para um dedo na ferida da política externa dos EUA do que para um auto elogio. A punição para crimes que ainda não foram cometidos, tema que sempre me remete ao Minority Report, é o ponto de discórdia entre Steve e Nick Fury. O agente da S.H.I.E.L.D., que define-se como um “realista”, rebate os argumentos sobre liberdade do Capitão, os quais ele classifica como “nostálgicos e românticos”, dizendo que não há mais inocentes no mundo e que, tal qual o seu avô fizera no passado, às vezes é necessário “mostrar o cano”, intimidar e agir antes do crime acontecer de modo a garantir a própria segurança. O discurso de Fury remete instantaneamente a política de vigilantismo dos EUA, que não raramente violam a soberania de estados que eles consideram como potenciais inimigos alegando que os mesmo planejam atacá-los com “armas de destruição em massa”. Quando Steve vai contra essa iniciativa, é possível perceber que nem todos os cidadãos do país consideram essa paranóia intervencionista como “realista”. Esse sub texto político é um dos grandes trunfos de O Soldado Invernal e confere ao longa um muito bem vindo clima de espionagem e suspense, o que não impede, no entanto, que o humor esteja presente em cenas divertidas como a corrida que abre a história e nas ótimas citações (a lista de ‘coisas à fazer’ do Steve muda de país para país e, para os mais antenados, há um easter egg do Pulp Fiction).

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - Cena 5Cenas de ação: Encarregados de corrigir aquele que talvez tenha sido o pior dos defeitos de O Primeiro Vingador, os diretores Anthony e Joe Russo (que até então haviam trabalhado basicamente com séries) realizaram um trabalho corajoso ao optarem por utilizar a menor quantidade possível de efeitos especiais no filme durante as cenas de ação para ressaltarem o aspecto de realidade que os thrillers políticos pedem. A pancadaria que o Capitão trava com seus inimigos é muitíssimo bem coreografada e o fato de aqui, ao contrário do primeiro filme, ele usar o escudo mais para atacar do que para defender, oferece ao personagem sua tão aguardada chance de mostrar todo o potencial de luta que o Super Soro lhe conferiu. Com poucos cortes e câmeras que não movimentam-se além do necessário, conseguimos ver com clareza toda a beleza e violência dos combates. A Viúva Negra continua sútil e mortal em seus movimentos e ataques silenciosos, Nick Fury participa de uma ótima sequência de perseguição de carro e o longa ainda apresenta Sam Wilson, o Falcão (Anthony Mackie), um veterano de guerra que voa com asas mecânicas pelos cenários oferecendo ao espectador o tipo de ação frenética que pode ser visto na série do Homem de Ferro. O tal Soldado Invernal, personagem que serve de ligação entre os eventos desse filme e a HYDRA do primeiro, é um inimigo à altura do Capitão e toda vez que ele aparece na tela, inclusive na última cena, podemos esperar ótimas cenas de ação.

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - Cena 3Capitão América 2: O Soldado Invernal aumenta e muito as expectativas para a participação do herói na sequência do Os Vingadores. Gostando ou não dele (eu mesmo nunca fui fã), é preciso reconhecer que, entre o mais do mesmo do Thor, o chatíssimo filme do Homem de Ferro e a falta de projeto para o Hulk, o bandeiroso saiu na frente.

OBS. 1: Precisa dizer que há cenas extras depois dos créditos? Não, né?

OBS. :2 Eu também fico constrangido perto de casais beijando-se.

OBS.3: ON YOUR LEFT! rs

Capitão América 2 - O Soldado Invernal - Cena 6

RoboCop (2014)

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RoboCopAcabei de perceber que passei mais de 2 meses sem ir no cinema! Logo depois do A Desolação do Smaug eu já comecei a assistir os filmes do Oscar e, como a maioria deles não chegou nas salas daqui, fiquei um bom tempo em casa aproveitando os confortos da minha TV nova rs. Com a cobertura da cerimônia praticamente encerrada (Vidas ao Vento, Omar e A Imagem que Falta ainda não estão disponíveis; se der tempo, pretendo ver outros dois filmes que concorrem a prêmios técnicos), retornei ontem ao Cinemark para ver o novo RoboCop, remake do brasileiro José Padilha para o clássico cult de 1987 do Paul Verhoeven. Antes de comentar o filme, deixo registrada aqui a minha insatisfação com a empresa, que vende um cartão que lhe permite pagar meia entrada durante um ano mas suspende esse benefício durante as férias. Pelo que a funcionária da bilheteria disse, o tal desconto está suspenso desde dezembro do ano passado. Que beleza!

Conheço poucas pessoas da minha idade que não viram os RoboCop‘s originais. A Globo reprisava bastante os filmes e até mesmo um desenho baseado no personagem foi exibido nos programas (pasmem) infantis da emissora. Quando eu tinha uns 10 anos, era praticamente normal tu comer uma macarronada no domingo e depois sentar em frente a TV para ver o detetive Alex Murphy ser despedaçado por bandidos sádicos. Os anos passaram, os Teletubbies, Yudi Playstation e semelhantes corromperam uma geração inteira e, por conta disso, todos os brucutus nascidos na década de 80 certamente torceram o nariz quando as primeiras notícias sobre esse remake pipocaram. Eu mesmo me perguntei como encaixariam a refilmagem de um dos filmes mais violentos já feitos dentro de uma classificação PG-13. A notícia de que o diretor do igualmente violento Tropa de Elite comandaria a produção, animadora no princípio, transformou-se em outro motivo de preocupação quando Padilha veio a público dizer que estava insatisfeito com seu debut em Hollywood justamente porque os produtores insistiam que o filme deveria visar o público adolescente. Pouco tempo depois, os primeiros trailers começaram a sair, os fãs da série praguejaram contra a mudança do visual do personagem e o clima de desconfiança aumentou. Pois bem, RoboCop estreou na última sexta-feira e, pelos resenhas que eu andei lendo, é possível perceber que a galera ficou bastante divida sobre o que viu. Aqui, tu lerá a opinião de alguém que, mesmo com algumas críticas, saiu bastante satisfeito da sala de cinema.

RoboCop - Cena 5No ano de 2028, a multinacional americana OmniCorp vende seus robôs patrulheiros para vários países do mundo, porém a opinião pública e uma lei criada por um senador impedem que a empresa comercialize seus produtos nos EUA. Nesse cenário, Raymond Sellars (Michael Keaton), presidente da OmniCorp, procura uma forma de tornar sua tecnologia mais atrativa e confiável para o público, que teme as consequências de entregar sua liberdade e segurança nas mãos de máquinas incapazes de compreender a complexidade humana. A oportunidade de Sellars surge quando o detetive Alex Murphy (Joel Kinnaman) sofre um atentado por tentar prender policiais corruptos. Com a ajuda do trabalho do Dr. Dennett Norton (Gary Oldman), a OmniCorp reconstrói o corpo mutilado de Murphy e o transformam no RoboCop, um robô que possui toda a tecnologia dos outros patrulheiros da empresa porém, devido ao cérebro quase intacto do detetive, é capaz de sentir emoções e tomar decisões tipicamente humanas. O que não é revelado para o público é que, devido ao excesso de medicamentos, Murphy transformou-se praticamente em um zumbi que faz, tal qual os outros robôs da empresa, tudo aquilo que Sellars e o Dr. Norton programam-no para fazer.

RoboCop - CenaNo tocante à violência, não há comparação justa entre o remake e o filme de 1987 ou até mesmo ao Tropa de Elite. Há mais sangue em Parque dos Dinossauros do que no RoboCop de Padilha e, mesmo que o filme possua boas e longas cenas de ação, Murphy mata a maioria dos bandidos com disparos “politicamente corretos” no peito, nada de tiros no rosto “que estragam o velório” ou no saco por aqui. Sinal dos tempos e símbolo dessa “suavização”, até mesmo o acidente que brutal que iniciava a história foi readaptado para um atentado à bomba. Sinceramente, não gostei do novo visual “preto tático” do personagem e achei deslocada a execução da Hocus Pocus do Focus na cena onde o personagem testa suas novas habilidades. Também poderiam ter gastado um ou dois minutos extras entre a última cena de ação e o fim do filme para explicarem algumas coisas envolvendo o Sellars e a OmniCorp, assim como o Padilha poderia já ter desistido daquela câmera de mão irritante que treme até mesmo em cenas onde os personagens estão apenas conversando. O novo RoboCop poderia sim ter sido melhor, mas ainda assim acredito que há mais motivos para comemorar do que para reclamar.

RoboCop - Cena 2Provavelmente, nunca saberemos o que o Padilha realmente poderia ter feito com o roteiro. Em uma carta escrita para o também diretor Fernando Meirelles, ele teria dito que “9 entre 10 idéias que ele apresentava para os produtores eram descartadas”. Sabemos que alguém que discutiu segurança e corrupção como ele fez nos filmes do Capitão Nascimento certamente também poderia ter feito algo grandioso no mundo das megacorporações do RoboCop, mas o que se vê aqui não é de forma alguma superficial. Enquanto Dennet enfrenta questões morais complexas envolvendo sua criação, como a ética profissional e o livre arbítrio (Murphy é ou não é livre? É o homem ou a máquina que está no comando?), Sellars é o típico personagem que o Padilha expôs em Tropa de Elite, um empresário com ligações no governo que discursa sobre segurança mas que, na verdade, só visa o lucro. Alterando algumas palavras, a frase “A polícia não trabalha para resolver os problemas da sociedade. A polícia trabalha para resolver os problemas da polícia” poderiaser o lema pessoal de Sellars. Aproveitando algo que ele fez no Tropa de Elite 2, Padilha investe ainda contra o jornalismo parcial e sensacionalista que garante a audiência de títulos como Balanço Geral, dando ao Samuel L. Jackson o papel de âncora no tosco e divertido The Novak Element, um programa que incita a população a enxergar a complicada questão dos robôs de forma unilateral, como vemos na engraçada cena onde o Senador que argumentava contra Sellars tem sua voz sumariamente cortada.

RoboCop - Cena 3O nostálgico ED209 está de volta, o ótimo Jackie Earle Haley é tão bom quanto o saudoso Kurtwood Smith e até mesmo o “barulhinho de engrenagens” que fazia quando o personagem movimentava-se foi mantido. O RoboCop é parcialmente destruído, dá voz de prisão e sofre quando olha para sua mulher sabendo que falta “algo” entre eles, tudo como deve ser. Há Hocus Pocus mas também há Fly Me To The Moon do Sinatra e a questão sobre o preço alto que deveríamos pagar pela nossa segurança permanece polêmica. RoboCop é um ótimo filme de ação cujos poucos defeitos residem basicamente na comparação com seu antecessor, que é simplesmente um dos filmes mais importantes já feitos dentro do gênero, e no castramento de um diretor que poderia sim ter oferecido muito mais.

RoboCop - Cena 4

Django Livre (2012)

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Django LivreHaverá sangue e SPOILERS nesse texto, certo, Sr. Plainview?

O Tarantino é o meu herói. Para tal “cargo”, algumas pessoas escolhem um músico, outros um ator, massas inteiras veneram um deus ou jogadores de futebol e outros tanto espelham-se em figuras políticas. Eu admiro um diretor de cinema, um cara que começou a vida tentando ser ator, acabou indo parar atrás do balcão de uma videolocadora e em seguida escreveu o roteiro de um dos filmes mais comentados da década de 90. Assim, logo de cara, em seu primeiro trabalho, o cinéfilo nascido no Tennessee provocou toda uma discussão sobre a violência nos filmes ao dar para o Michael Madsen uma música para dançar, uma lâmina afiada e um policial para ser interrrogado na cena mais lembrada do Cães de Aluguel. Se deus realmente criou o mundo para ser habitado por humanos feitos a sua imagem e semelhança, Tarantino cria desde 1992 um universo inteiro para ser desfrutado por pessoas que, assim como ele, amam filmes acima de qualquer coisa. Referências a cultura pop, músicas cuidadosamente escolhidas, citações e homenagens a outros filmes e um talento singular na condução dos atores, eis os elementos que podem ser encontrados dentro das produções “tarantinescas”, título que hoje não apenas liga filmes ao nome do diretor como já representa praticamente um gênero cinematográfico a parte.

“O novo filme de Quentin Tarantino”, frase que tem sido usada nos cartazes de seus trabalhos recentes, pode até passar despercebida para o público ocasional, mas para quem conhece o peso de um lançamento desses o anúncio é motivo de alegria, ansiedade e até mesmo de preparação. Esperando o Django Livre, revi o Pulp Fiction, conheci o ótimo Sukiyaki Western Django, comecei a ler o Quentin Tarantino do Paul A. Woods (onde, entre outras coisas, eu descobri que a cena de dança do JackRabbit Slim’s não foi pensada para o John Travolta =/) e procurei ler tudo que saiu na internet sobre a produção desde que divulgaram o título e a foto da capa do roteiro . Sexta-feira (18/01), as 18h, as luzes da sala 1 do Cinemais apagaram-se e, mais do que um filme qualquer, eu assisti a um evento. Segue-se o relato apaixonado do que eu vi, identifiquei e interpretei ao longo das 2h45min mais prazerosas que eu tive dentro de uma sala de cinema esse ano.

Um alemão libertando um negro que o ajudará a matar escravocratas brancos *.*

Um alemão libertando um negro que o ajudará a matar escravocratas brancos *.*

Django Livre, assim como Kill Bill, é um filme de vingança que homenageia um gênero. Após demonstrar o seu conhecimento e a sua admiração pelos filmes de ação orientais, Tarantino agora resgata os western spaguetti de diretores como Sergio Leone e Sergio Corbucci para contar a história do “roaring rampage of revenge” do escravo Django (Jamie Foxx) contra os escravocratas sulistas norte-americanos. Libertado pelo caçador de recompensas Dr. King Schultz (Christoph Waltz), Django aprende a manusear armas de fogo e parte para a fazenda do fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) para libertar a esposa.

Ciente das perguntas e polêmicas que seu trabalho provocaria, Tarantino dedica a primeira cena do longa para, de certa forma, justificar-se para o público. O zoom escandaloso, propositalmente amador, no rosto do Christoph Walz denuncia a presença da câmera e nos lembra de que estamos vendo um filme, uma obra ficcional onde a liberdade artística deve ser privilegiada em detrimento de que qualquer tipo de moralismo. Momentos depois, Tarantino fala através das palavras do C. Waltz quando o personagem dele “compra” Django. O diretor está, portanto, resgatando uma história, não simplesmente roubando-a ou copiando-a como muitos críticos acusam-no. Dr. Schultz admira e precisa de Django para sua aventura assim como Tarantino gosta e recorre aos westerns italianos para criar a sua obra. Acusado de racismo por diretores como Spike Lee (Febre da Selva), o diretor abre Django Livre reescrevendo a história (idéia que ele já havia usado muitíssimo bem no Bastardos Inglórios) mostrando um grupo de negros levantando-se contra um capataz branco em um período imediatamente anterior a Guerra de Secessão.

Candie em seu grande momento com a teoria da servidão

Candie em seu grande momento com a teoria da servidão

Colocadas as cartas na mesa, passamos então àquilo que o diretor faz de melhor: escrever diálogos e subverter gêneros. Ao contrário dos caçadores de recompensa taciturnos e mal encarados imortalizados por lendas do western como o Clint Eastwood, o Dr. King Schultz do Christoph Waltz é um tagarela nato, um homem cuja habilidade no gatilho só é superada por seu poder de oratória. Nos clássicos do gênero, imperava a arrogância e a brutalidade, aqui vemos um personagem que vence a maioria de suas lutas conversando e interpretando personagens que ele cria para si e para Django antes dos embates. Vale citar aqui a consciência que o Tarantino demonstra dos esteriótipos do gênero quando coloca Schutz explicado para Django como ele deve agir em determinadas situações que eles certamente enfrentarão, situações essas que podem ser encontradas em praticamente todos westerns disponíveis. Ainda sobre as mudanças no gênero, reparem também que os típicos cenários escaldantes dão lugar a passagens rodadas durante o inverno.

Neve: uma das muitas subversões do western que Tarantino faz em Django Livre

Neve: uma das muitas subversões do western que Tarantino faz em Django Livre

A história avança e a verborragia é intercalada por cenas que provocam pânico e risadas ao mesmo tempo. Fã de filmes de horror e de  comédia (Taratino já disse mais de uma vez ser um admirador da dupla Abbott e Costello devido a suas misturas de gêneros), o diretor produz momentos que, graças a uma edição habilidosa, transformam-se em uma sucessão de espantos e gargalhadas. Exemplos claros disso são a “cena do chicote” e a da emboscada na carroça. Django encontra um de seus algozes em uma fazenda, toma-lhe o chicote e dá-lhe uma bela surra. A câmera captura imagens fantásticas do chicote desdobrando-se na mão de um Jamie Foxx que vinga ali várias gerações de negros americanos, o som dá idéia de que as pancadas estão doendo MUITO e o sujeito se contorce todo, mas ao mesmo tempo não dá para deixar de notar um tom humorístico na inversão inesperada de papéis tal qual acontece no final bombástico do Bastardos. Alguns minutos depois, surgem na tela cavaleiros usando máscaras brancas, referência óbvia a Klu Klux Klan. O terror anunciado é quebrado bruscamente por uma regressão temporal onde vemos os cavaleiros reunidos discutindo o uso das máscaras. Não bastasse a presença na cena de um ator associado as comédias (Jonah Hill), o diálogo que eles travam é hilário  e suaviza as imagens de corpos explodindo que vem na sequência.

O sadismo permitido pela sensação de "justiça histórica"

O sadismo permitido pela sensação de “justiça histórica”

Não pensem, no entanto, que a violência tarantinesca foi amenizada em Django Livre. À explosão da cabeça do capataz na primeira cena, seguem-se momentos brutais como quando um homem é devorado vivo por cachorros e a luta dos mandingos assistida com empolgação pelo personagem do DiCaprio, o qual pede (e é atendido) ao seu lutador que arranque os olhos do oponente. Mesmo cientes de que estamos vendo um filme, é difícil olhar para a tela. Em outros momentos, essa violência é usada para criar “obras de arte” polêmicas. Por mais complicado que seja admitir, há uma beleza fúnebre (e metafórica) nos branquíssimos algodões sulistas repletos de sangue e na “pintura” que Django promove na também branca mansão de Calvin Candie com o sangue de seus capangas.

Django encontra... Django: O "D" é mudo. "Eu sei"

Django encontra… Django: O “D” é mudo. “Eu sei”

Django Livre tem 2h45min, um tempo relativamente longo que passa rápido devido a essa inteligente mistura de gêneros, as referências “escondidas” no roteiro que farão a alegria dos cinéfilos e, principalmente, a qualidade do time de atores escolhido por Tarantino. Waltz novamente rouba a cena com seus diálogos rápidos e sua persuasão (não seria uma injustiça dizer que ele é o protagonista não anunciado do filme), DiCaprio, apesar de alguns exageros (nada justifica aquele grito na carroça), construiu um vilão divertido e arrogante e o Samuel L. Jackson está mais irritante do que nunca, o que é muito bom. Vale ainda citar a hilária aparição do próprio Tarantino (BOOM!), a participação “amigável” e nostálgica do Franco Nero (o primeiro Django) e a caminhada da irmã de Candie e seus empregados após o enterro, referência clara ao momento mais marcante do clássico Meu Ódio Será Sua Herança do Sam Peckinpah.

Desculpem-me pelo texto gigante, mas um épico desses merecia um comentário a altura. Django Livre concorre a 5 Oscars e já ganhou 2 Globos de Ouro (Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante – Drama para o C. Waltz). É, sem dúvidas, um trabalho a altura da filmografia irreprensível que o diretor construiu até agora e um dos filmes mais divertidos que eu assisti na vida. 2012 ficará marcado na história do cinema mundial como o ano que o Tarantino deslocou a localização geográfica do gatilho mais rápido do oeste para o sul. Esse é o meu herói.

"O" diretor: Tarantino recebe o Globo de Ouro pelo roteiro de Django Livre

“O” diretor: Tarantino recebe o Globo de Ouro pelo roteiro de Django Livre