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A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017)

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Antes de falar do filme, uma nota rápida sobre a minha última semana.

Após 2 meses de muitas dores, dúvidas e privações devido aquele maldito acidente de moto, finalmente consegui retornar para a minha rotina. Voltei a dar aulas de História na quarta (12/04)  e, na manhã da quinta feira (13/04), eu já estava no aeroporto realizando controle de tráfego aéreo. É bom pensar que aquele pesadelo agora faz parte do passado, mas nem a vontade de seguir em frente me fará esquecer daqueles 60 dias em que tive tempo de sobra para duvidar de mim mesmo. Dentre outras coisas, tive medo de voltar a dirigir, de não fazer falta para os meus colegas de trabalho e alunos, de não encontrar mais motivação para escrever e medo de encarar as pessoas e reconhecer que eu havia falhado.

Falhei mesmo. Por mais que o quebra molas que me derrubou esteja mal sinalizado (passei lá ontem: ele está sem pintura e a placa está oculta atrás de uma árvore), não posso negar que eu estava acima do limite de velocidade (100km/h numa via onde o máximo é 80). Daqui até o fim da minha vida, terei a lembrança da queda e uma cicatriz enorme no braço esquerdo para me recordarem do que fiz. Fui irresponsável e precisarei lidar com isso, mas o caminho rumo ao amadurecimento não precisa ser trilhado sozinho. Nesta última semana, além de ter sido muitíssimo bem acolhido nos meus locais de trabalho, ganhei um abraço carinhoso de um aluno (Valeu, Claudin!), recebi mensagens encorajadoras dos meus familiares e fui presenteado com o apoio da minha esposa, que propôs realizarmos uma viagem de moto até o estado de Goiás para que, nas palavras dela, “eu pudesse reconquistar a minha confiança ao dirigir”. Quando penso em tudo que passei, concluo que não há fardo suficientemente pesado para quem tem amigos e nem dúvida que resista a um gesto sincero de amor. Sinto-me feliz e motivado para recomeçar. Obrigado a todos que me ajudaram durante esse período difícil 🙂

Percorridos os 180km que separam Uberlândia-MG de Caldas Novas-GO, tive um final de semana bastante agradável em solo goiano. O forte de Caldas são as piscinas de água quente, a música sertaneja e a cerveja gelada, porém há uma grande variedade de opções de entretenimento na vida noturna da cidade para quem quiser algo mais sossegado, dentre elas o 7ªrte Cine Stadium. O local não é lá dos maiores (há apenas 2 salas) e a programação prioriza filmes dublados, mas as instalações são boas (cadeiras novas e limpas; sistema de som eficiente) e de fácil acesso. Mesmo contrariado por perder o áudio original e as sutilezas da voz da Scarlett Johansson, acabei vendo A Vigilante do Amanhã por lá mesmo, meio bêbado e grilado com o cara da bilheteria que não quis aceitar a minha carteirinha de estudante para pagar meia entrada.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell não foi bem nas bilheterias. Envolto numa polêmica de whitewashing (quando um ator branco é escalado no papel de um personagem que, originalmente, tinha outra raça/etnia), a produção deve acumular incríveis 100 milhões de dólares de prejuízo. Eu não fiquei empolgadão com o que vi, mas não achei o o filme tão ruim assim. O fato de terem optado pela Johansson em detrimento de uma atriz oriental certamente foi uma mancada e, como eu havia desconfiado quando resenhei o anime original, simplificaram bastante o roteiro, mas a condução pragmática e o trabalho visual do diretor Rupert Sanders são bastante eficientes.

Ambientando em um futuro próximo, A Vigilante do Amanhã mostra uma realidade em que os seres humanos podem realizar implantes cibernéticos para aprimorarem seus corpos. Após sofrer um acidente, Mira (Johansson) foi salva pela empresa Hanka Robotics, que extraiu seu cérebro e implantou-o num corpo de metal, transformando-a em um ciborgue. Algum tempo depois, Mira, que agora trabalha para o governo e é conhecida como Major, está no meio de uma operação secreta em que ela precisa monitorar uma conversação entre um executivo da Hanka e um político. A reunião é encerrada abruptamente quando ciborgues em formato de gueixa começam a atacar e hackear os cérebros dos participantes, o que obriga a Major a invadir o local e utilizar a força para controlar a situação. No fim, após dizimar a ameaça, ela ouve de uma das gueixas que “quem colaborar com a Hanka será destruído”.

Mira e seu parceiro Batou (Pilou Asbaek), que trabalham sob o comando do Chefe Aramaki (Takeshi Kitano), iniciam então uma investigação para descobrir o responsável pelo ataque das gueixas. Em linhas gerais, A Vigilante do Amanhã segue a mesma narrativa de O Fantasma do Futuro, com a Major esgueirando-se através dos becos sujos de Tóquio perseguindo um inimigo sem rosto. O remake difere-se do original mais nos detalhes e na profundidade em que o tema da individualidade é abordado. Seguem algumas diferenças:

  • Visual: A Major, infelizmente, está mais “comportada”. O corpo de ciborgue dela, que era praticamente idêntico ao de uma mulher normal, ficou com um visual “emborrachado” para suavizar as cenas de nudez. Já o Batou, que no original não tinha nada que acusasse sua natureza cibernética, ganhou olhos biônicos após ser ferido em uma explosão. A maior mudança, porém, foi no vilão: o Mestre dos Fantoches, hacker que transferia a própria consciência para a rede e que agia como um vírus, foi substituído por Kuze (Michael Pitt), um experimento defeituoso da Hanka Robotics. Pessoalmente, eu gostava mais da ideia quase abstrata do anime.
  • Cenas de ação e violência: O diretor Rupert Sanders recriou com maestria o clima noir e a estética cibernética de O Fantasma do Futuro, mas não podemos dizer que ele teve o mesmo êxito com a ação. Por mais que a clássica luta no “espelho d’água” tenha ficado idêntica, os momentos mais violentos do filme (como o assassinato do embaixador e o confronto com o tanque do final) perderam sangue, vísceras e impacto.
  • “Individualidade”: A Vigilante do Amanhã abre mão de praticamente todo o subtexto político do anime para concentrar-se na história de Mira. Ainda que a personagem tenha uma ou duas digressões sobre sua condição de ciborgue, o diretor optou mesmo foi por focar no passado dela. Essa decisão alterou significativamente o final da trama (pra pior, ao meu ver), mas deixou o roteiro mais enxuto e acessível.

A Vigilante do Amanhã é um filme mais simples e funcional do que O Fantasma do Futuro. Isso é bom em certos pontos (achei mais fácil acompanhar a história) e ruim em outros (sem a violência, a nudez e a ‘esquisitice’, perdeu-se a aura ‘cult’). Futuramente, num dia que eu não tiver nada melhor para fazer, pretende vê-lo novamente nem que seja para rir do visual estranho da Johansson, que ficou parecendo o Jesse Eisenberg com aquele cabelinho na cara rs

Power Rangers (2017)

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Vamos encarar a realidade? Power Rangers É ruim. Não concordam? Experimentem rever a série (tem no Netflix) e percebam o quão zoado era tudo aquilo. Já no primeiro episódio, em menos de 5min, a Rita Repulsa e seu exército são libertados de uma prisão lunar, Zordon convoca os Rangers e lhes dá a missão de proteger os EUA a Terra e o Alpha já soltou vários AI AI AIAIAI . Sim, também tem a Amy Jo Johnson, primeira namoradinha de muita gente, fazendo ginástica com uma calça suplex rosa, mas no geral o seriado era bem bobão e previsível. Com raríssimas exceções, todos os episódios seguiam o esquema:

  1. Rangers na lanchonete + piadinhas do Bulk e Skull
  2. Rita conspirando contra o sossego alheio
  3. Bonequinhos de massa (PRULULULU!) e monstro
  4. Rita faz o monstro crescer
  5. Megazord destrói o monstro (e toda a cidade de Angel Grove junto)
  6. Rangers na lanchonete tomando milk shake, lição de moral e Rita com dor de cabeça pedindo aspirina

Todo caso, em 1995, quando o seriado estreou no Brasil, eu era apenas um garoto de 10 anos que saía da escola e ia correndo para casa ver Power Rangers na TV Colosso. Naquela época, eu tinha medo do Roberval, O Ladrão de Chocolates e gostava muito, muito de do seriado. Eu não tava nem aí para o roteiro capenga e para o fato de que a Ranger amarela tinha um volume estranho no meio das pernas. Para falar a verdade, eu nem sabia o que era roteiro. Quando eu sentava no sofá de casa na hora do almoço, as únicas coisas que importavam eram o purê de batata da minha mãe e a sequência animal de transformação do Megazord.

Com o exposto, sei que constato o óbvio – nem tudo que a gente gosta quando é criança continua nos agradando quando crescemos – mas é bom deixar isso claro para que nenhum fã da série apareça por aqui pra me xingar pelo que vou dizer. Acho difícil gostar de Power Rangers hoje em dia. Por mais que eles tenham feito parte da minha infância (eu tinha vários daqueles bonequinhos trash que giravam a cabeça; o meu favorito era o Billy/Triceratops) e que eu me sinta nostálgico em relação ao seriado, o tempo passou e agora eu me interesso por outras coisas. Nisso, fica a pergunta: faço parte do público alvo desse novo Power Rangers? A intenção dos produtores era conquistar uma nova leva de fãs ou fornecer um produto saudosista para a galera da década de 90? As duas coisas? É certo que esse filme do diretor Dean Israelite, com todos os seus efeitos especiais e linguagem atual, abre as portas dos anos 2000 para os Rangers, mas também é patente que o longa foi construído buscando proporcionar uma válvula de escape para o passado ao custo de um ingresso. Não sei se a molecada gostou do que viu, mas o tiozão aqui não ficou nenhum pouco empolgado.

O começo até que não é dos piores. Ao contrário do que acontece no seriado, reservaram um bom tempo para apresentar os personagens e dar sentido para uma história em que monstros gigantes tentam destruir o mundo. Há cerca de 65 milhões de anos, Rita Repulsa (Elizabeth Banks) e Zordon (Bryan Cranston) duelaram pelo destino da Terra. Zordon, que então era o Power Ranger vermelho, conseguiu vencer e selar Rita em uma prisão, mas a vitória custou a vida de todos os seus companheiros e sua própria liberdade, visto que seu corpo também ficou preso em uma dimensão paralela. Muitos anos depois, os colegiais Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cyler), Kimberly (Naomi Scott), Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.) encontram Zordon enterrado em uma pedreira e são encarregados por ele de protegerem o planeta da vingança iminente de Rita, que fugiu da prisão e iniciou o processo para invocar seu poderoso Goldar.

Como todo bom filme de origem, Power Rangers foca primeiro nos personagens e depois na ação. Jason é um líder irresponsável com problemas com o pai, Billy é autista, Kimberly espalhou nudes na escola, a mãe de Zack está doente e a família de Trini não aceita sua sexualidade. De suas 2 horas de duração, o filme investe pelo menos metade do tempo na apresentação do lado humano dos heróis antes que eles transformem-se em guerreiros que saltam sobre penhascos e lutam fazendo poses engraçadas. Disso eu gostei: como o desenvolvimento de personagens é bem feito, a gente sempre sabe, por exemplo, que o Zack fará alguma coisa doidona e que a Trini estará de mau humor.

A qualidade, no entanto, cai vertiginosamente quando o conteúdo “Ranger” é adicionado ao filme. Desde que saíram os primeiros trailers, eu torci o nariz para o visual dos personagens. Sei que seria impraticável repetir os pijamas de latex de outrora, mas essas roupas novas, que mais parecem trajes de motoqueiros, ficaram feias demais. A “modernização” também escorregou nos bonequinhos de massa, cujos atores foram substituídos por um CGI horroroso, e na aparência da Rita, que lembra muito mais a saudosa Scorpina do que aquela velha maluca do cabelo branco. Nenhum desses equívocos, porém, compara-se com o que foi feito com os Dinozords e com o Goldar. Para falar pouco, os veículos de batalha dos Rangers estão irreconhecíveis (aquilo lá NÃO É um mastodonte) e o monstro, que era uma espécie de macacão demoníaco, transformou-se em uma massa tosca de ouro ambulante.

Diante de todas essas apostas visuais bizarras, a minha animação foi zero quando a batalha final começou. Pra falar a verdade, fiquei até com um pouco de vergonha quando tocou o tema clássico da série (Go Go Power Rangers). No dia eu estava acompanhado da minha mãe, que vai pouquíssimo ao cinema, e fiquei bastante arrependido por ter escolhido esse filme para ver. A transformação do Megazord, que deveria ser o ponto alto do filme, apenas revelou outro amontado de efeitos especiais ruins e nem mesmo as boas piadas e referências a filmes como Transformers, Duro de Matar e Vingadores tornaram a sessão menos penosa. Power Rangers era ruim mas a gente era criança e gostava. Power Rangers é muito ruim e já fazem incríveis 20 anos que a TV Colosso acabou. Não dá mais.

Obs.: Durante os créditos, uma cena extra revela planos para uma continuação. Haim Saban, o criador dos personagens, quer mais 5 filmes. Única reação possível? AI AI AIAI!

Sete Homens e um Destino (1960)

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Sete Homens e um DestinoOlhando o contador de posts do blog (localizado ali no canto inferior direito da página), dei-me conta de que não tenho dado a devida atenção aos westerns. Como a produção hollywoodiana atual praticamente ignora o estilo, restou-me recorrer ao passado para encontrar um bom filme de pistoleiros malvadões que pudesse por fim a lacuna de quase 1 ano sem títulos do gênero por aqui. Aproveitei então a oportunidade para conferir o gabaritado Sete Homens e um Destino, remake do diretor John Sturges para o longa Os Sete Samurais do Akira Kurosawa, clássico dentre os clássicos do cinema japonês.

Em um vilarejo paupérrimo localizado na fronteira dos Estados Unidos com o México, um grupo de aldeões tenta sobreviver com o pouco que eles conseguem extrair do cultivo da terra. Não bastassem todas as dificuldades impostas pelo sol escaldante, um bando liderado pelo insano Calvera (Eli Wallach) saqueia o lugar regularmente, aterrorizando a população e tirando deles o alimento e o dinheiro sem os quais eles não tem a menor chance de resistir. Dispostos a defenderem-se de Calvera, os aldeões organizam uma expedição e partem rumo a cidade mais próxima com o intuito de contratarem pistoleiros que possam enfrentar o bandido e seu bando. Mesmo podendo pagar apenas 20 dólares pelo serviço, eles conseguem convencer o destemido Chris Larabee (Yul Brynner) a juntar-se a comissão, cabendo a este a difícil tarefa de escolher os homens certos para a missão.

Para tirar logo a comparação inevitável entre o original e o remake do caminho, digo-vos (sem nenhuma surpresa, aliás) que gostei mais do Os Sete Samurais. Além de não poder ser superado na questão originalidade (já que ele apresenta a ideia), o filme do Kurosawa, até por ter quase o dobro do tempo (3h30min contra as 2h dessa versão), desenvolve melhor os personagens e explora muitíssimo bem a teatralidade das mortes e dos atos heroicos que compõe a última cena. Sete Homens e um Destino tem seus méritos e é principalmente neles que eu focarei abaixo, mas não há dúvidas que ele não atinge todo o brilhantismo do original japonês.

Sete Homens e um Destino - Cena 2Sturges organizou seu filme em 3 blocos. No primeiro deles, Chris conhece e reúne os homens que enfrentarão Calavera. Em seguida, eles treinam junto aos aldeões e preparam o vilarejo para o combate que se aproxima. Finalmente, o conflito explode em uma sangrenta batalha de 2 atos. Trata-se de uma narrativa clássica (com começo, meio e fim muito bem definidos e sem grandes reviravoltas) que cresce graças ao apelo da ideia de um grupo de desajustados rendendo-se a grandeza de uma causa e, claro, devido as interpretações poderosas, quase canastronas, dos protagonistas.

Eu não conhecia o ator Yul Brynner, mas comprei imediatamente a imagem dele como Chris, um badass careca disposto a arriscar a própria vida em troca de 20 dólares. Ao lado de Vin, sujeito deveras genérico interpretado pelo Steve McQueen, ele passa o início da trama selecionando os caras que o ajudarão a defender o vilarejo. Esse começo, que acaba pendendo involuntariamente para o humor devido ao excesso de “macheza” de Yul e cia, é a melhor parte do filme. Nem todos os pistoleiros dos “sete” são dignos de nota, mas Bernardo (Charles Bronson) e Britt (James Coburn) são nada menos do que memoráveis. A cena em que Britt é convocado, aliás, tornou-se a minha favorita do filme, um divertido duelo de canivete (!!!) contra revólver muitíssimo bem coreografado por Sturges que, tal qual acontece tradicionalmente nos westerns, sugere a superioridade do ato e da técnica sobre a teoria e a arrogância.

Sete Homens e um Destino - CenaJá o treinamento dos aldeões e os preparativos dos “sete” para a batalha contra Calvera não são tão legais assim. Com mais tempo e mais talento a disposição, Kurosawa utilizou a parte intermediária de sua trama para nos fazer conhecer cada um de seus personagens, revelando detalhes de seus passados, mostrando suas habilidades e fazendo-os interagir com as pessoas do vilarejo em situações graves e cômicas. Como resultado, chegávamos ao clímax “íntimos” de cada um dos samurais e isso valorizava suas ações e mortes. Sturges ignora 2 de seus pistoleiros (Lee e Harry Luck praticamente não tem diálogos), investe mais em cenas rápidas de humor do que na construção da história dos protagonistas e dá atenção demais para o chatíssimo Chico (Host Buchholz), um cara novo e inexperiente que, além de passar todo o filme fazendo merda dando trabalho para os mais velhos, ainda engata um romance mequetrefe com uma nativa, arco de história que destoa totalmente do restante da trama.

Sete Homens e um Destino - Cena 3Quando finalmente os sinos tocam anunciando a chegada de Calvera e seu bando, o filme volta a melhorar e Sturges nos entrega uma boa dose do velho e bom bang bang que fundou as bases do oeste americano. Chris e Vin demonstram habilidades sobrenaturais no gatilho e os bandidos são obrigados a recuar, mas o clima de felicidade dos aldeões dura pouco: Calvera reorganiza seus homens e retorna para a segunda parte do confronto. Novamente, não há paralelos possíveis entre o remake e o original. A conclusão de Sete Homens e um Destino é violenta e possui momentos verdadeiramente empolgantes, como a sequência de tiros destruidores de espingarda que o Charles Bronson dá nos invasores, mas Sturges, além de não contar com a dramaticidade e beleza da chuva usada pelo Kurosawa, não valoriza devidamente as mortes de seus personagens. Alguns deles, aliás, morrem devido a tiros aleatórios vindos de lugares desconhecidos. Sabe aquele barulhinho típico de tiro usado nos westerns? Pois é, o cara tá lá, tu ouve o barulho, surge uma mancha vermelha no peito dele e pronto, um dos protagonistas da trama foi eliminado.

Sete Homens e um Destino - Cena 4Tendo em mãos uma história cuja qualidade já havia sido comprovada, Sturge limitou-se a adaptá-la para o cenário americano e, apoiado por um bom elenco e uma música tema inesquecível, fez um filme divertido e agradável de ser assistido. É visível, porém, que ele não atentou-se aos detalhes que contribuíram para a canonização do original. Sete Homens e um Destino é um bom western? Sem dúvidas, mas, considerando a fonte em que ele bebeu, poderia ser BEM melhor.

Sete Homens e um Destino - Cena 5

Sob o Domínio do Medo (2011)

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Sob o Domínio do Medo“Um homem deve ser independente, ter os seus interesses próprios. Temos de ser varonis.”

Esse diálogo foi retirado de um trecho do Ana Karênina do Tolstói em que um personagem repreende o outro por ele ser excessivamente intelectual e preocupado com a esposa e seus desejos.

Pergunta: Um homem DEVE ser varonil? Parto do princípio que ninguém é obrigado a absolutamente nada. Obviamente, a vida em sociedade nos cobra certas posturas e comportamentos e muitas vezes temos que agir de forma pragmática para evitar problemas, mas nem por isso precisamos moldar nossas vidas dentro de estereótipos que, socialmente, são mais “aceitos”. Mesmo sendo “macho”, portanto, um homem pode tranquilamente preferir frequentar aulas de danças, escrever e ler do que jogar futebol, entupir o carro com equipamentos de som, arrotar e coçar o saco, tudo isso sem comprometer em nada sua masculinidade. Acredito que, mais do que nossas escolhas pessoais, é nossa postura frente as adversidades que define quem somos.

David Sumner (James Marsden) entrou de cabeça no relacionamento com a delicinha Amy (Kate Bosworth). Mesmo sendo um homem culto, escritor de roteiros e amante de música clássica, ele aceita mudar-se para uma cidadezinha no interior do Mississippi para acompanhar a esposa, que acabara de receber uma propriedade de herança. No local, além das diferenças culturais, David também precisa enfrentar Charlie (Alexander Skarsgard), ex-namorado de Amy que não esconde seus desejos de reatar o antigo relacionamento.

Sob o Domínio do Medo - Cena 4Na propriedade herdada por Amy, há um celeiro que ficou parcialmente destruído após uma tempestade. Assim que chega na cidade, a personagem contrata o ex-namorado e os amigos dele para consertarem a construção. Além de ter que lidar com a presença constante de Charlie, que investe descaradamente em sua mulher, David também precisa lidar com os abusos dos outros funcionários, que entram e saem da sua casa sem pedir e cometem absurdos como consumir os produtos de sua geladeira sem autorização. Como ele responde a tudo isso? Da forma como podemos esperar de um homem intelectualizado: ele tenta apelar para a razão dialogando com os folgados. Os caras entendem que estão passando do limite e todos são felizes para sempre? Claro que não.

Sob o Domínio do Medo - CenaEsse Sob o Domínio do Medo do diretor Rod Lurie é um remake do filme homônimo de 1971 do Sam Peckinpah estrelado pelo Dustin Hoffman. Remakes não estão na lista de prioridade desse blog, mas decidi assisti-lo porque eu queria uma oportunidade de escrever sobre as problemáticas que a história traz. Não raramente, sinto-me exatamente como o David. Ano passado, por exemplo, contratei um pedreiro para fazer o muro da minha casa. O cara faltava constantemente, saía mais cedo do serviço sem dar satisfação, bebia no trabalho… O que eu fiz? Tentei conversar com o cara uma, duas, três vezes, o tempo passou, ele finalizou a obra do jeito que ele quis (o muro ficou todo torto, o piso rachou depois de uma semana) e foi embora com o pagamento no bolso. Eu deveria ter batido nele com o meu taco de baseball e chutado ele para fora da minha casa sem pagar-lhe um tostão para provar-lhe que eu era macho? Provavelmente isso me daria tanto prazer quanto complicações com a polícia. Eu poderia ter olhado nos olhos dele, como adulto e como alguém que está pagando por um serviço (e, portando, tem o direito de cobrar qualidade) e dito que ele estava dispensado? Poderia, e todos os dias após o ocorrido eu amaldiçoei-me por não ter feito isso. Eu não precisaria abrir mão do que eu sou e acredito e tornar-me um troglodita violento para “ser varonil”, bastava encarar o problema de frente, com convicção, tal qual um homem senhor de seu próprio destino. Perdi grana, tempo e senti-me um merda, mas aprendi a lição e, em situações posteriores semelhantes, não deixei que essa tendência que tenho de gostar de resolver tudo na base da conversa atrapalhasse a minha forma de lidar com quem me prejudica.

Sob o Domínio do Medo - Cena 3David fez o que pôde para tentar resolver toda aquela situação sem fazer uso de violência. Se os homens estavam mexendo com a mulher dele, que praticava esportes nas proximidades da casa sem sutiã, ele pediu para que ela fosse mais recatada. Se os homens achavam que ele era um almofadinha arrogante da cidade, David deixou seu trabalho de lado e foi beber e caçar com eles. Ele pediu educadamente para que eles não entrassem em sua casa sem autorização. Ele foi na igreja local mesmo não acreditando em deus. Ele fez o que pôde e tudo o que conseguiu em troca foi a falta de respeito alheia. Eis o erro que hoje, depois de ter passado pelo que passei, ouso atribuir a David: ele tentou adaptar-se, seja por covardia, seja por omissão, a um tipo de gente que claramente só queria ferrar com ele. Em outras palavras, ele deixou que Charlie e cia “subissem nas suas costas” e, de certa forma, acabou contribuindo para toda a desgraça que isso provocou. A mulher dele comportou-se tal qual uma filha da puta? Certamente, mas não posso deixar de atribuir uma parcela de culpa ao personagem por toda a desgraceira que acontece na parte final do filme, assim como atribuo culpa a mim mesmo pelos perrengues que passei. É ótimo, porém, ver que, tal qual o poster anuncia, até mesmo David possui um limite. Aliás, observem o poster. Viram o olhar animalesco do Marsden por trás do óculos? O simbolismo, pra mim, está claro: o fato de David ser um intelectual não o torna um bobo, ele é um homem e também é capaz de ser tão ou mais violento do que qualquer brucutu caso coloquem-no contra a parede.

Sob o Domínio do Medo - Cena 2Sob do Domínio do Medo, o original, é um dos meus filmes favoritos. Gosto de ver a virada de jogo provocada pelo personagem principal contra aqueles brutamontes boçais, uma típica vingança setentista embalada pelo vigilantismo (o cidadão comum fazer justiça com as próprias mãos) que seria uma constante nos longas daquela década. Peckinpah, que foi um dos grandes mestres da violência cinematográfica, vinga todos os “Davids” do mundo naquele banho de sangue do final e deixa um recado para quem costuma aproveitar-se da paciência “alheia”: o fato de preferirmos dialogar não significa que não conseguimos arrebentar a cabeça de alguém com uma armadilha de urso caso isso seja necessário. Nsse remake, que possui uma baixíssima nota 5.8 no IMDB (majoritariamente, o público é conservador com remakes de clássicos), o diretor Rod Lurie preserva tudo de bom que o original trazia, inclusive a polêmica cena envolvendo Amy e Charlie, e cumpre bem o papel de atualizar a história para nossa época. Sob o Domínio do Medo - Cena 5

Carrie, a Estranha (2013)

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Carrie 2013Carrie, Carrie! Maybe will meet again… Essa música, balada mela cueca do Europe que embalou corações na década de 80, hoje, na época dos remakes, soa como uma espécie de prenúncio para um cântico de conjuração demoníaco. Voltaremos, depois dessa terceira versão, a rever Carrie White? Creiamos em Deus, se não por fé, por medo, para que ele nos prive desse reencontro. Não li o livro do Stephen King e tenho lembranças vagas do filme do De Palma, mas, com base no que é visto aqui nessa releitura da diretora Kimberly Peirce, há motivos suficientes para que não queiramos rever nossa estranhíssima amiga tão nunca mais.

Para quem não está familiarizado com a trama, Carrie (Chloe Grace Moretz) é uma adolescente tímida que estuda em uma escola repleta de idiotas. Até aí, nenhuma novidade. O que, de fato, torna a história da moçoila interessante é a relação problemática que ela tem com a mãe. Margareth White (Julianne Moore) é uma dessas velhas obcecadas por religião que vivem sob a paranoia constante da tentação demoníaca. Um gato preto passeia no quintal? Manifestação do demo. Um passarinho canta uma bela melodia? Satanás está chegando. Criada nesse ambiente carregado pelo discurso censurador da mãe, Carrie torna-se uma garota taciturna e medrosa, um brinquedo nas mãos maldosas dos alunos do colégio.

Falar de continuações, quase que obrigatoriamente, implica em comparar o filme novo com o original. Antes de prosseguir com o texto, devo dizer que tentei ao máximo escapar desse lugar comum da crítica cinematográfica. Quando sentei para ver esse remake, procurei avaliá-lo somente por aquilo que ele é, ou seja, um filme que conta uma história de terror. Ser bom ou ruim, portanto, dependeria apenas do que fosse apresentando, e não daquilo que a diretora fez diferente, melhor ou pior do que o De Palma.

Carrie 2013 - CenaCarrie, a Estranha começa deveras bem com uma cena agoniante em que a Julianne Moore, sempre com aquela cara de doida de pedra, dá à luz a Carrie. Deitada em uma cama encharcada de sangue, a atriz grita, berra e reza enquanto conduz o próprio parto. Quando a criança finalmente nasce, o impensável acontece: Margareth, de posse de uma tesoura, decide matar a filha, ação que ela só não leva adiante devido a algo um tanto quanto sobrenatural que a criança traz nos olhos. É um início sombrio e promissor, uma daquelas cenas que nos deixam curiosos para saber o que acontecerá na sequência.

Créditos, pulo temporal e lá está Carrie, já adolescente, prestes a viver um dos episódios mais traumáticos de sua vida. A cena da menstruação no banheiro feminino, sem dúvidas uma das mais marcantes da trama, serve para atualizar alguns pontos da história. Agora, de posse de modernos celulares, as garotas da escola filmam o momento de desespero de Carrie e publicam-no na internet. Aqui as coisas começam a desandar. Repetindo: não li o livro do King, mas é MUITO artificial todo aquele ódio gratuito que as meninas despejam na personagem. Ok, bullying existe e há toda uma tradição no cinema de retratar os jovens americanos de forma agressiva e mesquinha, mas nem tendo isso em mente dá para engolir aquele comportamento. Dá-se um voto de confiança em nome da fluidez narrativa, aprecia-se as garotas más que precisam serem punidas em traje de banho e continuamos rumo ao A-G-U-A-R-D-A-D-Í-S-S-I-M-O baile de formatura.

Carrie 2013 - Cena 3Assim como não há explicação para o ataque, também não o há para os “poderes” que Carrie começa a desenvolver. Supomos, devido as poucas informações que o filme nos dá, que eles sejam habilidades tele cinéticas, mas o tema religioso da trama sugere que há algo mais sinistro em jogo. As preces de Margareth teriam pegado o elevador errado e garantido-lhe uma cria infernal? Deus, em toda a sua sabedoria e onipresença, teria dado poderes a garota para que ela pudesse proteger-se da maldade disfarçada de fé da mãe? As possibilidades são muitas, mas opta-se por deixar a resposta subentendida para aumentar o clima de mistério, o que não é de todo ruim.

Chega então o tal baile e, com ele, um problema com o qual eu não consigo ser tão compreensivo. Não há explicações para a idiotice das meninas da escola e os poderes da protagonista veem de fontes obscuras? Ok, isso é aceitável, mas nada justifica a mudança de comportamento de Carrie após a nova humilhação que ela sofre na festa. Tudo bem, ela já vinha acumulando uma grande dose de stress desde o começo da projeção e alguns dos presentes na celebração realmente mereciam ter suas almas encaminhadas para o cramunhão, mas a reação dela soa desproporcional, falsa. Carrie já havia demonstrado em mais de uma cena sua capacidade de ser racional frente as adversidades, como quando ela argumenta com a mãe sobre o baile, portanto é difícil engolir que ela utilize tão poucos critérios na hora da vingança, matando inadvertidamente todos a seu redor, inclusive aqueles que haviam dado-lhe apoio. Diante disso, só me resta acreditar que:

Carrie 2013 - Cena 4

  • o Stephen King desenvolveu mal sua personagem;
  • a diretora Kimberly Peirce teve dificuldades para trabalhar o material que lhe foi dado.

Tendencioso ou não, fico com essa segunda opção. Lembro que, no meu texto sobre o filme de 1976, eu disse que ele me pregou um dos maiores sustos que eu tomei na vida. Provavelmente eu estava exagerando, mas é fato que a cena final me fez pular no sofá. Essa nova versão de Carrie, além de não ter me dado nenhum susto, tem um final ruim, um início que promete um clima tenso que não chega a realizar-se e uma atuação medíocre da Chloe Grace Moretz, ou seja, ele é ruim porque é ruim mesmo, e não porque o original é um dos grandes clássicos do gênero. Carrie, descanse em paz, menina, espero de verdade que this might be our last goodbye….

Carrie 2013 - Cena 2

O Planeta dos Macacos (2001)

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O Planeta dos Macacos 2001Setembro, Outubro, Novembro, Dezembro, Janeiro e Fevereiro. 6 Meses. Esse é o espaço de tempo que passou-se desde que, finalizando a resenha do A Batalha do Planeta dos Macacos, eu prometi para “breve” o texto sobre O Planeta dos Macacos do Tim Burton. Quem acompanha o blog regularmente (clique aqui caso não seja o seu caso) deve ter percebido (ou não rs) que eu comecei praticamente todos os meus textos sobre a série dessa mesma forma, ou seja, recriminando-me com piadinhas cretinas por não cumprir os prazos que eu estipulei para ver/resenhar o próximo longa da lista. Algumas vezes, eu fiz isso simplesmente porque na hora não me veio nenhuma outra idéia para começar a escrever, mas dessa vez eu estou agindo cínica e premeditadamente. Se o Sr. Burton e sua equipe não importaram-se de fazer um remake mequetrefe de um dos melhores filmes de ficção científica já feitos, porque eu me importaria de criar algo novo para falar sobre esse remake? O pior de tudo é que, nesse caso, eu não posso nem fazer outra piadinha cretina, dizendo que “estou dando a César o que é de César”, porque o macaco de mesmo nome, importantíssimo na série original e na nova começada em A Origem, não é sequer mencionado aqui.

Antes que algum fã do cultuado diretor comece a me dissecar nos comentários, devo dizer que SIM, eu sei que o Burton alega que o que ele fez não foi um remake, mas sim uma reinterpretação da obra original do francês Pierre Boulle. Assim como o Franklin J. Schaffner fez no O Planeta dos Macacos de 1968, ele recorreu ao livro para moldar a história, acrescentando algumas coisas e mudando outras. Justo, isso eu posso compreender e aceitar, o problema é que o diretor emulou todo o visual, maquiagem e cenários mostrados no filme de Schaffner e, pra mim, isso também configura a idéia de remake, ele admita isso ou não. Todo caso, essa “classificação” do que ele fez ou deixou de fazer é uma discussão secundária e subjetiva perto do fato deveras gritante que o filme é ruim.

Planeta dos Macacos 2001 - CenaNa “reinterpretação” proposta por Burton, o astronauta Leo Davidson (Mark Wahlberg) cai com seu módulo espacial em um planeta estranho após entrar em uma tempestade eletromagnética. A ironia da situação reside no fato de que, antes da queda, ele estava tentando salvar um macaco e, após ela, foi feito prisioneiro por símios inteligentes que dominavam o local e escravizavam a espécie humana. Com a ajuda de Ari (Helena Bonham Carter), uma espécie de liberal abolicionista, Leo foge e organiza um levante dos humanos contra os macacos, que são liderados pelo violento General Thade (Tim Roth).

Esse O Planeta dos Macacos resume-se a isso aí: uma queda, uma fuga e um confronto final. Ainda que o original possua boas cenas de ação, duvido que a maioria das pessoas que lembram dele o façam devido a pancadaria entre o Charlton Heston e os macacos. Obviamente, a maquiagem sensacional (que rendeu um Oscar honorário ao filme) chamava a atenção, mas o que havia de mais bacana ali era o roteiro questionador que nos fazia pensar sobre temas como ciência, religião, moral e ética. Esses temas, aliás, foram desenvolvidos em todos os filmes da série original e não há dúvidas de que são eles, e não a ação, que os sustentaram. Para confirmar o que estou dizendo, basta assistí-los e perceber o abismo que há, por exemplo, entre o Fuga do Planeta dos Macacos, que é um dos melhores da série e o que mais investe nos personagens e suas problemáticas, e o A Batalha do Planeta dos Macacos, o pior dentre todos eles e, coincidência ou não, o que mais foca em batalhas e cenas de ação.

Planeta dos Macacos 2001 - Cena 5Helena Bonham Carter, que está mais estranha do que de costume maquiada de macaco, interpreta o personagem que deveria dar esse suporte “filosófico” a trama, mas infelizmente ela não dá conta do recado. A personagem desafia seus semelhantes (entre eles, o saudoso Michael Clarke Duncan) que insistem em tratar os humanos como escravos e discursa sobre uma suposta “igualdade” entre as espécies, mas é quase impossível prestar atenção no que ela está dizendo diante da paixonite velada (e bizarra) que ela desenvolve pelo personagem do Mark Wahlberg. Esse último, aliás, que um amigo esses dias definiu perfeitamente como um “ator bom, mas que não consegue segurar um filme sozinho”, é um desses personagens que não me despertam nada. Visto pelos humanos como uma espécie de messias, Leo parece preocupar-se somente consigo mesmo e passa o filme todo tentando fugir daquele local. É deveras absurdo, no ato final e depois de quase duas horas de indiferença para com seus semelhantes, vê-lo liderando o grupo de humanos contra Thade em uma batalha que, de bom mesmo, só tem uma explosão, recurso mais do que batido em filmes de ação.

Planeta dos Macacos 2001 - Cena 2À essa explosão, seguem-se beijos de despedidas e closes no rosto de crianças esperançosas de um futuro melhor. Tudo muito bom, tudo muito ruim e Leo embarca naquilo que, ele supõe, seria sua viagem de volta para casa. **SPOILERS** Esqueçam o sofrimento do Heston no filme original após deparar-se com os restos da Estátua da Liberdade e perceber que ele não estava em outro planeta, mas sim na própria Terra do futuro. Burton, ao que tudo indica, foi mais fiel do que o Schaffner na conclusão de sua história e realmente levou seu personagem de volta para a Terra (ele não estava lá durante o filme, percebam que há duas luas no céu) e o fez encontrar uma outra sociedade dominada por macacos. Quando tu para pra pensar, há poucas explicações para isso, como, por exemplo, a possibilidade de Thade ter voltado para lá antes dele, mas não vale à pena quebrar a cabeça aqui: tais eventos deveriam ser explicados na sequência do filme que nunca chegou a sair do papel devido ao fracasso de crítica e público do longa. **FIM DOS SPOILERS**

Planeta dos Macacos 2001 - Cena 4A história de O Planeta dos Macacos pode e deve ter cenas de ação, como ficou provado no De Volta Ao Planeta dos Macacos e no A Origem. Não dá para engolir, no entanto, um filme que foque mais em explosões, efeitos especiais e na maquiagem do que na trama rica escrita por Boulle, essa sim o grande atrativo da franquia. Que vergonha, Tim Burton! Cruzemos agora os dedos pelo diretor Matt Reeves (responsável pelo próximo filme da série, Planeta dos Macacos: O Confronto), um cara que já provou que consegue fazer um remake tão bom quanto o original.

Planeta dos Macacos 2001 - Cena 3

A Morte do Demônio (2013)

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A Morte do DemônioEu tenho uma história engraçada com o Evil Dead – A Morte do Demônio original. Se não me falha a memória, assisti ele em 2004, ano que eu entrei na faculdade e arrumei minha primeira namorada séria, dessas de levar em casa e apresentar para a família. Em um dos finais de semana que ela veio me visitar (ela morava em outra cidade), ficamos acordados até tarde para ver um filme e outras coisitas mais. Éramos virgens (quer dizer, eu certamente era rs) e a idéia machista patriarcal era assistir um filme de terror abraçadinho, protegendo e bulinando a donzela apavorada. Sinceramente, lembro pouco ou nada do filme, mas nunca esquecerei da cena do matinho estuprando uma personagem. Não que nós estivessemos realmente prestando atenção na TV, mas essa cena provocou uma reação nela do tipo “por quê você está me mostrando esse tipo de coisa?”, um boa noite e uma porta de quarto trancada. Menina humilde, de uma cidade pequena e de um tempo onde “quadradinhos de 8” provocariam espanto, senão morte por decepção, até mesmo no próprio demônio. Uma pena…

“The most terrifying film you will ever experience”. No meu caso, não, meu último post, por exemplo, foi uma experiência mais aterrorizante, mas não criticarei a estratégia de marketing dos produtores, primeiro porque ela funciona, segundo porque, de fato, o diretor Fede Alvarez fez desse remake um dos lançamentos com mais “colhões” vistos ultimamente no circuito comercial.

A cabana. Qual? Não importa, elas são todas iguais...

A cabana. Qual? Não importa, elas são todas iguais…

Além da famigerada cena do estupro, minhas lembranças do filme original resumiam-se a imagem da cabana, do Bruce Campbell e de uma fita que revelava uma mensagem demoníaca quando reproduzida. Convenhamos, isso não me permite fazer nenhum tipo de comparação, portanto vi e opino sobre A Morte do Demônio sem associá-lo com o cultuado filme de 1981, ok?

Após um rápido prólogo onde uma moça é queimada viva pelo próprio pai, vemos cinco jovens reunindo-se em uma cabana abandonada no meio da floresta. Mia (Jane Levy) está tentando livrar-se do vício das drogas e pretende passar o fim de semana no local na companhia do irmão e de alguns amigos para não ceder à crise de abstinência. Incomodada com um odor que somente ela parece sentir, Mia leva os amigos até um porão onde vários corpos de animais estão pendurados. Ali eles encontram um livro velho e o princípio do fim.

Não sei até onde o primeiro Evil Dead, um clássico do gênero, ajudou a construir esse cenário que acabou transformando-se em um clichê. Jovens dentro de uma cabana no meio da floresta enfrentando algum perigo tornou-se um lugar comum dentro do cinema de terror e recentemente essa constatação até foi usada como tema do excelente O Segredo da Cabana. Como trata-se de um remake, não dava para fazer muita coisa a esse respeito e, por isso mesmo, a história manjada não chega a incomodar, mas vale o aviso de que não há absolutamente nada de novo nesse sentido aqui.

Coisa linda...

Coisa linda…

Há algumas coisas interessantes sobre os personagens. A história de loucura na família de Mia é útil para o roteiro e para o desenvolvimento da personalidade hesitante (e irritante) do irmão dela e há uma ambiguidade divertida no personagem que é um professor universitário. Cético, pessimista e representante esteriotipado da ciência, o rapaz acaba sendo o responsável pela liberação do coisa ruim e a trava uma espécie de embate metafórico com as forças demoníacas. Não é por acaso que ele é um dos que mais sofrem no processo. Vale ainda citar, como curiosidade boba, que as letras iniciais dos nomes do personagens formam a palavra DEMON (David, Eric, Mia, Olivia, Natalie).

Os diálogos são ruins e excessivamente explicativos, tal qual pode-se esperar de um filme trash. As blasfêmias típicas do gênero misturam-se a pérolas do tipo: “Ah, então você veio?/Claro que vim, eu sou seu irmão”. Excelente.

Mas deixemos esses detalhes de lado e vamos para o prato principal oferecido por Fede Alvarez, o terror, o medo, as cenas que fariam o espectador desejar nunca ter saído do útero da mãe, a tal experiência fílmica mais aterrorizante que nós já teríamos vivido. A Morte do Demônio não me assustou uma vez sequer. Infelizmente, o diretor abusou da técnica de aumentar o volume e cortar rápido para um objeto/personagem surpresa para orquestrar a maioria dos sustos que ele planejou. O clima também é constantemente quebrado por transições mal feitas. Há mais de um momento onde a tensão está em uma crescente interessante, tu, tenso,  começa a movimentar-se na poltrona e, de repente…. a cena corta para uma imagem exterior da cabana onde nada, NADA está acontecendo.

Let's put a smile on that face

Let’s put a smile on that face

A Morte do Demônio, portanto, tem diálogos ruins, personagens esteriotipados e cenas e cenários clichê. “Ué, mas tu não disse que o remake tem colhões?”. Sim, e é por isso que, apesar de tudo que foi falado até agora, eu ADOREI o que vi e recomendo que tu também o faça, preferencialmente no cinema. Alvarez não economiza na violência e no sangue, vê-se cabeças esmagadas, membros amputados, línguas partidas com estiletes, corpos fuzilados e todo tipo de perfuração, cortes e incineração em closes explícitos, os quais ficam ainda mais perturbadores devido ao pequeno número de cortes  (de cena) utilizados pelo diretor. Não me assustaram, mas a cena onde tentam furar o olho de um personagem com uma agulha e a sequência final, referência direta a famosa motosserra da franquia original, me fizeram contorcer na cadeira. Aliás, o final do filme é daqueles para tu assistir de pé, com os braços abertos gritando HELL YEAH! Logicamente, tu fará isso apenas em pensamento, visto que não é legal atrapalhar as outras pessoas e tu certamente não gostará de ser taxado como doido. Com censura 18 anos, A Morte do Demônio arrecadou o triplo do que gastou em um mês de exibição no território americano. Espero que esses números sirvam para os produtores perceberem que o público, de vez em quando, gosta de um bom banho de sangue ficcional.

Raining blood, from a lacerated sky, bleeding it's horror, creating my structure, now I shall reign in blood!

Raining blood, from a lacerated sky, bleeding it’s horror, creating my structure, now I shall reign in blood!