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Corra! (2017)

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Querido leitor: dentre as situações abaixo, qual tu considera mais assustadora?

  1. Programar uma ida ao cinema na única noite livre que você tem na semana e, chegando lá, descobrir que o filme que você quer assistir (no caso, o Alien: Covenant) só está disponível na versão dublada.
  2. Acordar no meio da madrugada, durante uma  viagem de ônibus interestadual, com o passageiro ao lado passando a mão nas suas partes íntimas.
  3. Acordar no meio da madrugada com o próprio capiroto gritando dentro da sua casa. Após sair da cama e ir verificar o que aconteceu, você descobre que um gato preto pulou a janela e tentou atacar sua gatinha, que defendeu-se como pode.
  4. Um filme de terror que desperdiça uma ideia bacana ao quebrar constantemente o clima de suspense com piadas bobas .

1) Continuo morrendo de medo dessa preferência que redes de cinema como o Cinépolis tem dado para os filmes dublados. 2) Antes de conseguir soltar um “AÍ NÃO, CAMARADA!”, fiquei momentaneamente paralisado quando acordei e percebi que havia um cara me bolinando. Filho da puta! 3) No dia do gato preto, quando ouvi o barulho dos bichos se enroscando, eu gritei de medo. Sinceramente? O som foi tão alto e demoníaco que eu achei que alguém estava sendo assassinado dentro da minha casa. 4) Corra!, longa que muita gente apressou-se em classificar como “um dos filmes mais assustadores dos últimos anos”, só me deu sono. Não raramente, a vida real é bem mais assustadora do que a ficção.

Eu não havia planejado assistir  esse filme e não o fiz por acreditar que ele tinha alguma chance de ser o “mais assustador e blablabla”. Fui ao cinema ver o Alien: Covenant, mas como não animei pagar por uma sessão dublada, acabei optando pelo Corra! mesmo.

Na minha cabeça, o debut cinematográfico do diretor Jordan Peele, mesmo que não fosse algo revolucionário, seria um filme de terror podreira decente, ou seja, o tipo de material legal para assistir numa quinta feira à noite. O começo, aliás, é deveras promissor. Andando sozinho à noite numa rua mal iluminada (que cenário perfeito, não?) um jovem negro percebe que está sendo seguido por um carro branco. O rapaz até tenta fugir, mas acaba sendo imobilizado por seu perseguidor e jogado no porta malas do carro. O veículo acelera e a música “Run, Rabbit Run” é executada. O contraste entre a violência mostrada e a melodia alegre geram um clima macabro e a gente fica doido para saber o que acontecerá a seguir.

Rosquinhas. É isso que aparece na sequência: uma mulher comprando rosquinhas. Rose (Allison Williams) pega os quitutes em uma padaria e vai até a casa de seu namorado, Chris (Daniel Kaluuya), para tomar o café da manhã. Após 4 meses de relacionamento, Rose quer levar Chris para conhecer os pais, mas há um “problema” nisso: ela é branca e ele é negro. Somando isso ao fato de, na cena inicial, um negro ser perseguido por um carro branco, entendi que o filme seria uma espécie Adivinhe Quem Vem Para Jantar versão terror, ou seja, o diretor Jordan Peele valeria-se de um pouco de sangue para falar sobre racismo e temas correlatos.

Não utilizarei SPOILERS, portanto não aprofundarei na forma como a questão racial é trabalhada dentro do filme (o tal Projeto Coagula). Fazê-lo implicaria, por exemplo, dar detalhes da “revelação” que é feita no final e certamente estragaria a surpresa para quem ainda for assistir. Posso dizer, porém, que Peele fala de apropriação cultural e utiliza ironias e metáforas (a cena do algodão) para explicitar os conflitos históricos entre brancos e negros. Essa parte da trama, principalmente pela atualidade do tema, é irretocável, mas ainda assim eu queria ver um filme de terror, e nisso Corra! peca bastante.

A mistura entre terror e humor é antiga e tem até um gênero cinematográfico próprio. Não há nada de errado com o chamado terrir: filmes como A Morte do Demônio e Tucker e Dale Contra o Mal são bem divertidos. O que acontece aqui, porém, é que Peele foi ambicioso demais. Ele quis fazer um filme sério (vide as questões raciais abordadas), assustar e divertir ao mesmo tempo. É difícil manter o foco com tanta informação. Ao mesmo tempo que está nos mostrando a falsidade impregnada na postura liberal e progressista dos pais de Rose (Catherine Kenner e Bradley Whitford), o diretor tenta nos assustar com coisas estranhas (um maluco correndo durante a noite, uma mulher que conversa fazendo caretas bizarras) e nos fazer rir com Rod (LilRel Howery), o colega falastrão de Chris. Peele faz uso de uma trilha sonora poderosa, da ambientação majoritariamente noturna e de alguns clichês (o acidente na estrada) para criar um clima de suspense, mas ele sabota o próprio trabalho quando interrompe a tensão com alguma piadinha cretina.

Corra! tem pouquíssimo sangue, um desfecho pouco original (um personagem até brinca com isso citando o De Olhos Bem Fechados) e essa alternância constante (e ruim) entre o humor e o terror como pontos negativos. Não tenho dúvidas que o filme pode encontrar mais aceitação junto de quem estiver diretamente envolvido nas questões raciais apresentadas, mas fiquei com a impressão que o diretor Jordan Peele errou feio em sua tentativa de misturar gêneros. Quem sabe em seu próximo trabalho ele entenda que, algumas vezes, tudo que um filme de terror precisa para dar certo é um assassino em série e adolescentes desmiolados. Ou um gato preto demoníaco. Ou um tarado em um ônibus.

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Loving (2016)

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lovingNo ano de 1958, Richard Loving (Joel Edgerton) e Mildred (Ruth Negga) cometeram um crime. Contrariando as leis do estado da Virgínia, eles, um casal interracial, casaram-se e foram morar juntos. Como naquela época a miscigenação (mistura de raças, por casamento ou coabitação) era proibida, eles foram presos e levados a julgamento. Na sentença, o juiz determinou que eles seriam liberados da prisão com a condição de deixarem o estado e não voltarem juntos para o mesmo durante os próximos 25 anos.

Baseado em fatos reais, Loving conta como a batalha judicial de Richard e Mildred para regressarem à Virgínia chegou até a Suprema Corte dos Estados Unidos e transformou-se em um símbolo da luta pelos direitos civis na década de 60, culminando na invalidação da lei que proibia o casamento interracial.

Pode ser que, caso você tenha o hábito de assistir filmes regularmente, o tema do preconceito/igualdade racial pareça-lhe repetitivo e esgotado. Você não está tão errado por pensar assim. No últimos anos, produções que tratam do assunto como Histórias Cruzadas, 12 Anos de Escravidão e Selma ocuparam lugares de destaque nas premiações hollywoodianas. Em 2016, a ausência de material voltado para essa temática (bem como a de de atores negros entre os concorrentes) provocou campanhas de rejeição e boicote ao Oscar nas redes sociais, o que prova que a demanda pelo tema continua forte. De fato, trata-se de um assunto recorrente, mas isso não torna-o chato ou menos importante. Diariamente pessoas são vítimas de preconceitos raciais e o cinema cumpre um papel fundamental de exemplificar o quão monstruosas são essas atitudes. Se o trabalho de conscientização não pode parar, cabe aos cineastas encontrarem novas formas de abordarem o tema sem tornarem-no enfadonho para quem já possui alguma bagagem cinematográfica. Em Loving, o diretor e roteirista Jeff Nichols tenta nos conquistar com a força pura dos fatos e do amor, sem grandes rodeios e discursos teatrais. Funciona até certo ponto.

loving-cenaAntes de termos qualquer informação de tempo e espaço para prevermos as dificuldades que o casal enfrentará, vemos Mildred contar para Richard que ele será pai. Richard, que posteriormente revelará-se um homem sério e de poucas palavras, abre um sorrisão e responde “Bom. Isso é muito bom”. Na sequência, ele adquire um terreno, esboça o plano de construção de uma casa e compra um anel de noivado. Tais atitudes poderiam até serem interpretadas apenas como sinais de uma postura responsável diante da gravidez, mas não é bem isso que está acontecendo ali. Em cada olhar, em cada beijo que Richard dá em Mildred, a gente vê claramente que ele é um homem apaixonado.

Os carros antigos, as roupas “fora de moda” e as placas e embalagens de produtos que já não estão mais em circulação denunciam que trata-se de um filme onde o amor entre uma pessoa branca e uma “de cor” não será aceito facilmente pela sociedade. Richard, que conhece as leis da Virgínia sobre o casamento interracial, tenta burlá-las levando Mildred para casar-se em Washington, D. C. A manobra, no entanto, não passa despercebida da população local, que denuncia-os para a polícia. Nesse ponto, já munido de informações suficientes para saber sobre o que o filme trataria, fiquei bastante triste e revoltado quando vi a viatura policial dirigindo-se para a residência do casal para efetuar a prisão. Sabe quando algo parece não fazer absolutamente nenhum sentido? É exatamente assim que a gente sente-se quando vê Richard e Mildred, que está grávida, sendo presos apenas por se amarem e por terem casado um com o outro.

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Quando vi a tal viatura, pensei também que o diretor nos daria uma daquelas cenas difíceis de serem assistidas em que algum dos personagens seria vítima de violência policial. O ato físico em si (socos, chutes) não acontece, mas há coisas tão ruins quanto. Richard, aquele homem bom e apaixonado que conhecemos no início do filme, precisa ouvir de um policial que não é certo ele casar com Mildred porque isso vai contra a “lei de Deus”, que fez as pessoas diferentes por um motivo. Ele até tenta argumentar que aquilo não está certo, que Mildred está grávida, mas o homem vale-se da lei e de sua mente conservadora para fazê-lo calar sob pena de prendê-lo novamente. Esse tipo de cena faz a gente sentir-se pequeno demais, impotente demais, e é bom que assim seja para que a gente passe a pensar duas vezes antes de querer ditar regras (sejam elas baseadas em raça, religião, sexualidade, etc) para a vida alheia.

Fianças pagas, Richard e Mildred são soltos, julgados e condenados a mudarem-se de seu estado. Para evitar maiores problemas, o casal junta suas coisas e vai para o Distrito de Columbia, mas ainda que a vida deles comece a progredir na nova residência (Richard consegue trabalho na construção civil, Mildred dá a luz três filhos), é notório o desejo deles de retornar para a Virginia. Eles até o fazem algumas vezes, escondidos, mas o medo constante da polícia continua sendo um indicativo de que algo não está certo. É aí que, aproveitando a força que a luta pelos direitos civis ganhou nos anos que seguiram-se a sua condenação, Mildred resolve escrever uma carta para o Senador Bob Kennedy solicitando que ele interviesse na situação. O casal passa então a ser assessorado por um ambicioso advogado, que vê no caso a possibilidade de ficar famoso mudando a própria Constituição dos Estados Unidos.

loving-cena-2A beleza de Loving está nas atuações quase silenciosas de seus protagonistas. Indicados ao Globo de Ouro de Melhor Atriz e Ator, Ruth Negga e Joel Edgerton falam pouco durante o filme, mas a gente não tem a menor dúvida do que eles estão sentindo, seja revolta, amor ou esperança, quando olham um para o outro e para as muitas pessoas, boas e más, que cruzam seus caminhos. O diretor Jeff Nichols oferece realismo quando retrata os sentimentos e aflições de pessoas comuns do interior, que não precisam valerem-se de discursos eloquentes para provarem a grandeza de suas causas, e quando mostra que grandes mudanças dependem mais de persistência do que de enfrentamentos imprudentes. É uma abordagem deveras inovadora, mas vez ou outra o filme tende a ficar maçante devido a ausência de cenas mais explosivas (no bar, quando ouve de um amigo que ele ‘não é preto’, o controlado Richard só ri). Não tenho dúvidas, porém, que as qualidades de Loving superam suas poucas escorregadas, transformando-o em mais um importante registro da sempre válida luta contra o preconceito.

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Foxy Brown (1974)

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Foxy BrownNo Jackie Brown, aquele filme “menos brilhante” da filmografia do Tarantino, a personagem título tem o seguinte diálogo com Max Cherry, o detetive interpretado pelo ator Robert Foster:

Max Cherry: Eu aposto que você está exatamente como você era aos 29 anos.
Jackie Brown: Bem, minha bunda não é mais a mesma.
Max Cherry: Maior?
Jackie Brown: É.
Max Cherry: Não há nada errado nisso!

Sábias palavras, Tarantino, sábias palavras. Pam Grier, a atriz que dá vida a Jackie, foi um dos principais nomes do período clássico do cinema black exploitation, gênero conhecido por explorar a imagem do negro americano relacionada a violência, sexo e drogas. Desde que vi o filme citado, grande admirador da beleza das mulheres negras que sou, fiquei curioso para conferir como a voluptuosa Pam Grier (48 anos quando gravou Jackie Brown) era aos “29 anos” quando atuou no auge da forma nas produções que a consagraram. Pesquisei a filmografia da moça e, dentre tantos longas com cartazes mostrando decotes generosos, escolhi esse Foxy Brown. Falo-vos agora como um homem satisfeito e admirado com o que viu.

Foxy Brown - Cena 2E o que vi, tão logo o filme começou, foi uma dessas maluquices psicodélicas setentistas que meio que dizem para a gente “prepare-se, nada fará sentido aqui!” rs. Ao som de uma música dançante, a cocotinha Pam Grier surge com um cabelão black power chacoalhando seus impressionantes atributos. Ela sorri, acena e troca de roupa. O fundo da tela pisca, brilha e muda de cor freneticamente. Completamente hipnotizado, fui dominado por um único e persistente pensamento: “Peitos, peitos, peitos!”. Jack Hill, o diretor e roteirista dessa loucura, certamente sabia o efeito que essa introdução (ui!) causaria no espectador e, tão logo ela termina, ele já nos liberta desse transe demoníaco ao nos fornecer a visão daquilo sem o qual nada mais importaria a partir dali: Foxy Brown (Grier), acordada durante a madrugada pelo irmão que precisava de ajuda, levanta-se e… tira a blusa. Pausa, volta a cena. Pausa. Repete. Acende um cigarro. Pronto, agora já é possível prestar atenção nos outros personagens e na trama rs

Exageros e brincadeiras à parte (os peitos da atriz são gigantescos mesmo), nem só de sutiãs nº48 é feito Foxy Brown. Produto de sua época, ele evoca temas como o vigilantismo e a segregação racial para contar uma históra de vingança. Foxy vê tanto o namorado (Terry Carter) quanto o irmão (Antonio Fargas) terem suas vidas destruídas por uma organização criminosa comandada pela inescrupulosa Katherine (Kathryn Loder). Disfarçada de garota de programa, a personagem infiltra-se na organização e utiliza seu charme e intelgência para destruir o esquema criminoso.

Foxy Brown - CenaFoxy Brown transborda sexualidade em suas cenas de nudez e nos diálogos sugestivos e foi principalmente por isso que eu gostei dele, mas é necessário reconhecer também o valor das questões hitóricas do roteiro. Pensado como uma continuação para outro filme da Grier (o aclamado Coffy), ele acaba apresentando alguns furos, como a falta de informações sobre o passado da personagem principal contrastando com a construção sólida do background do namorado dela, mas o que chama a atenção aqui, principalmente para quem recorre aos filmes buscando também um olhar para as particularidades do passado, é o alinhamento da trama com as contradições sociais de seu tempo. Hill faz do irmão de Foxy um sujeito amargurado pela pobreza e pelo preconceito que discursa contra o excludente e segregador “sonho americano” mas, para tanto, não o transforma em uma vítima. O cara, aliás, é um filho da puta sem a menor noção de lealdade. A personagem principal, por sua vez, é uma mulher forte, independente e segura de si cuja comparação com sua antagonista, a branca, ciumenta e emocionalmente desequilibrada Katherine, chega a ser cruel. Mesmo assim, nota-se que o discurso, apesar de exaltar a cor negra, ainda considera-a como algo “exótico”. Um grupo de negros arma-se e começa a patrulhar o bairro, em uma clara alusão aos Panteras Negras? Há um personagem para dizer que isso é ilegal e constitui vigilantismo. Hill soa liberal, mas o passar dos anos permite-nos perceber que ele não conseguiu livrar-se completamente do conservadorismo que marcou a história americana naquele período quando escreveu seu filme.

Foxy Brown - Cena 3É possível e válido ler o filme através desse contexto político, mas nem de longe o foco dele é esse. Os black exploitatons são marcados sobretudo pela violência e aqui nós temos uma boa quantidade de cenas envolvendo o que há de melhor no amor entre os seres. Foxy atira no próprio irmão, queima um sujeito vivo, arranca as partes íntimas de um garanhão e atropela e tritura um bandido utilizando um monomotor. Quando não está na sua forma mais gráfica envolvendo litros de sangue falso, a pancadaria aparece num viés mais cômico. Dentre as cenas em que a Pam Grier aparece vestida, a que mais me agradou em Foxy Brown foi a invasão do bar lésbico em que ela dá uma surra em uma caminhoneira. A mulher diz que tem faixa preta em karatê e faz uma pose de combate engraçada só para cair em seguida toda estropiada no chão após ser atingida por um banco de madeira que Foxy arremessa contra ela. A confusão desenvolve-se então para uma briga de bar generalizada e um cenário majoritariamente masculino transforma-se no palco de um memorável festival de puxões de cabelo rs

Não foi à toa que o Tarantino resgatou a Pam Grier do ostracismo e transfomou-a na estrela de seu Jackie Brown. De fato, a atriz possuia um corpo capaz deixar qualquer um de boca aberta e encarnava com perfeição o tipo badass dos filmes de vingança, motivos mais do que suficientes para que ainda hoje ela mereça ser homenageada (entendam como quiserem rs) e para que valha a pena explorar sua filmografia.

Foxy Brown - Cena 4

Selma: Uma Luta Pela Igualdade (2014)

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SelmaA legenda saiu, a legenda saiu! Obrigado, Deus Todo Poderoso, a legenda finalmente saiu! Santa demora, inominável sofrimento! Perdoem-me o exagero, mas estou tentando assistir esse filme desde o começo de janeiro: não exibiram-no nos cinemas da cidade, o arquivo demorou para aparecer na internet e, quando apareceu, não veio com legenda. Eis então que surge uma legenda e…. olha o Google Tradutor aí, minha gente! Péssima, incompreensível. O resultado de todo esse perrengue é que só hoje, faltando 3 dias para o Oscar, tive a oportunidade de assistir e resenhar o último dos concorrentes a estatueta de Melhor Filme, tarefa que eu temi não poder executar antes da premiação, como tenho feitos nos últimos anos. Mas agora deixemos esse pesadelo de lado e falemos do que realmente importa aqui: o sonho do Martin Luther King Jr.

Em 1965, ano em que começa o recorte temporal trabalhado pela diretora Ava DuVernay, Luther King (David Oyelowo) já era O Luther King consagrado nas páginas da história americana da luta pelos direitos civis que conhecemos. A Marcha de Washington, oportunidade em que ele pronunciou o famoso discurso “I Have a Dream” aconteceu em 63 e, em 64, ele já havia sido agraciado com o Nobel da Paz. Uma das suas maiores batalhas, no entanto, ainda estava por vir: de posse de sua popularidade e prestígio internacional, o Doutor, como ele também era conhecido, passa a pressionar o então presidente Lyndon B. Johnson (Tom Wilkinson) para que ele garanta direitos de voto igualitários entre pretos e brancos. A campanha, que teria seu momento mais significativo na marcha de protesto realizada entre as cidades de Selma e Montgomery, Alabama, é alvo de ataques violentos tanto do estado quanto da parte conservadora da população civil.

Selma, portanto, não é exatamente aquela biografia tradicional em que acompanhamos a vida de uma personalidade, da infância até a maturidade, de modo que possamos compreender os motivos que levaram-na a ser tal qual ela é. DuVernay também envereda pouco por outro caminho comum dentro do gênero, que é mostrar o “homem por trás do mito”. A grande sacada da diretora, ao meu ver, é dividir a carga e as conquistas do Doutor com cada um que lutou ao lado dele e, por analogia, com aqueles que continuam disseminando sua mensagem de igualdade e tolerância até os dias de hoje, quase que em um tom de agradecimento e reconhecimento por seus esforços que raramente são lembrados.

Selma - Cena 2De frente para um espelho, King ensaia o discurso que fará na cerimônia de recebimento do Prêmio Nobel. “Aceito essa honra por aqueles que perdemos, cujas mortes pavimentaram nosso caminho e pelos 20 milhões de homens e mulheres negros motivados pela dignidade e o desdém pela desesperança”. São palavras bonitas e, no final das contas, ele está ali apenas ensaiando, mas, mesmo assim, ele interrompe a fala com um desaprovador “Não está certo”. A cena segue e vemos que, no final das contas, ele estava falando da própria gravata, mas é significativo que o filme comece assim, com o personagem negando parte de seu discurso. Naquele momento, não podemos dar o devido peso as palavras do personagem. Ele nos diz que pessoas morreram para que ele chegasse até ali e isso é indiscutivelmente triste mas, como essas pessoas não tem um rosto e/ou nome, tudo que podemos fazer é aplaudir mecanicamente o que foi dito, tal qual acontece na cena seguinte quando ele é ovacionado pela plateia ao palestrar na cerimônia de premiação. Não há dúvidas que King foi um homem extraordinário, um agente modificador das estruturas sociais de seu tempo, assim como não há dúvidas de que, se ele conseguiu fazer o que fez, foi porque várias pessoas sacrificaram tempo, suor e a própria vida para ajudá-lo. Selma cumpre essa importante tarefa de dar voz aos agentes secundários das revoluções e mostrar-nos o nosso próprio papel nesse processo.

Selma - CenaQualquer livro de história conta-nos que as reivindicações de King e dos movimentos sociais por direitos eleitorais acabaram sendo atendidas, mas, por mais que queiramos, nunca conseguiremos entender de fato o preço que foi pago pela mudança. O que DuVernay nos mostra, ainda que seja apenas uma dramatização dos conflitos do período, é uma pequena parcela da realidade, mas é uma parcela capaz de sensibilizar qualquer um para as questões de segregação racial que ela aborda devido a crueza com que cenas de espancamento e morte são registradas por sua câmera. Mulheres, dentre elas uma interpretada pela pop Oprah Winfrey, tem seus rostos esmurrados e seus corpos chutados. Homens são violentamente mortos e crianças tem suas vidas ceifadas por atentados. A cena da marcha na ponte, aquele tipo de material que deixa a gente enojado, é um verdadeiro massacre. Tudo isso, nos livros, costuma vir resumido em alguma frase eufemista (houveram conflitos entre o estado e a população), mas aqui nós vemos o rosto de cada uma dessas pessoas, gente que possui família e esperanças tal qual e você, e sabemos o que cada uma delas sacrificou individualmente para que King pudesse elevar sua voz acima do medo e da ignorância segregacionista. Cada corpo que cai provoca uma nova reflexão para o líder, cada perda adiciona um novo degrau na escada rumo a vitória: DuVernay prova que, mesmo que nem todos sejam lembrados, TODOS são fundamentais.

Voting Rights MarchSelma concorre a apenas 2 Oscars (Melhor Filme e Melhor Canção Original) e, independente dos resultados, a injustiça da Academia para com ele já está consumada. Li que a Paramount falhou em enviá-lo para que os avaliadores analisassem-no a tempo e isso é até compreensível, mas nada mudará o fato de que ele, a despeito de ser bem melhor do outros filmes que abordaram as causas negras nos últimos anos e foram reconhecidos pela Academia (Histórias Cruzadas, 12 Anos de Escravidão), foi praticamente ignorado pela mesma. Canção Original? Por que não Melhor Diretora e Melhor Ator? Decepcionante.

Selma - Cena 4

Filadélfia (1993)

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FiladélfiaJá tem um bom tempo que eu não ouço falar que alguém morreu em consequência das mazelas provocadas pela AIDS. Quando eu era criança, o dono da fazenda onde o meu avô trabalhava aparentemente adquiriu a doença e não resistiu e nomes conhecidos como Cazuza e Freddy Mercury tiveram a causa de suas mortes associadas ao HIV. Lembro ainda de ver várias propagandas do Ministério da Saúde e semelhantes alertando sobre os riscos da doença. De qualquer forma, já faz um bom tempo que eu abandonei a televisão, portanto o “sumiço” da doença do qual estou falando não tenciona diagnosticar o fim da mesma, seu controle ou sua inexistência (como apontam algumas teorias da conspiração facilmente encontradas na internet). Esta reflexão, no entanto, me leva a pensar que alguma coisa mudou no tocante a forma como a AIDS era vista há uns 10-15 anos. O tempo e o conhecimento por ele trazido, penso, serviram para derrubar parte dos preconceitos, medos e falta de informações que marcaram os primeiros anos após a descoberta da doença.

Desempenhando uma papel importantíssimo nesse processo de conscientização, o hollywoodiano Filadélfia, filme do diretor de O Silêncio dos Inocentes, Jonathan Demme, estrelado pelo queridinho Tom Hanks e pelo Denzel Washington, conta a história de um aidético que foi demitido da empresa onde trabalhava, segundo ele acredita, devido ao preconceito de seus empregadores. Andrew Beckett (Hanks), advogado, escondeu o quanto pode a doença (e sua homossexualidade) de seus patrões, mas as manchas em sua pele acabam por denunciar sua condição e, após o desaparecimento suspeito de documentos importantes de um caso no qual o personagem trabalhava , ele é demitido sob a acusação de incompetência. Indignado com a provável sabotagem, Andrew procura o também advogado Joe Miller (Denzel) para representá-lo em um processo contra a firma de advocacia na qual trabalhava.

Filadélfia - Cena

Filadélfia, que abre com imagens da cidade e seus moradores ao som de Streets of Philadelphia, hit do Bruce Springsteen vencedor do Oscar, saiu justamente na época que eu citei no primeiro parágrafo. Em 1993, eu estava com 8 anos e tinha pouco mais de uma década que a doença havia sido diagnosticada em um grupo de homossexuais na cidade de Los Angeles. Inicialmente relacionada aos gays, hemofílicos, usuários de heroína e haitianos (!), naquele ano a AIDS ainda permanecia estigmatizada como uma consequência do comportamento homossexual. Se as estatísticas comprovavam o padrão eu sinceramente não sei, a questão é que o fato de Andrew Beckett ser aidético E gay e o seu advogado ser um negro lutando contra brancos heterossexuais transformou o filme de Demme em um verdadeiro símbolo da luta pelo fim do preconceito.

O roteiro da história, felizmente, não apela para simplificações infantis em sua intenção de sensibilizar o público para a causa que defende. A trama, que inevitavelmente converge para uma sequência de tribunal, esforça-se com sucesso para mostrar algo que está além de uma disputa do tipo bem contra o mal. Beckett mostra-se uma pessoa imprudente com a própria saúde e segurança, mas nem por isso ele merecia ser demitido da forma como foi. Seus chefes, por outro lado, são pessoas homofóbicas que tem medo da doença, mas no geral eles não são muito diferentes do grosso da população de sua época, desinformados e paranóicos frente a doença sem cura que tem ceifado vidas diariamente. Há ainda o advogado Joe Miller, um negro que venceu o preconceito em sua profissão devido a seus próprios esforços e que vê-se frente a uma situação onde ele passou de vítima a “culpado”, visto que ele declara abertamente não gostar de homossexuais e temer o contato com aidéticos por ter acabado de ter uma filha e, portanto, temer a infecção. A sensibilização e mudança de comportamento de Miller, que acontece progressiva e naturalmente, é, por assim dizer, a concretização daquilo que o diretor procura estimular no público.

A ótima cena da ópera

A ótima cena da ópera

Optando por não mostrar cenas explícitas de homossexualismo (Hanks faz par no filme com o ator Antonio Banderas), Demme é mais efetivo em seu propósito de chocar e impressionar o público com as perguntas que faz e com o desempenho que extrai de seus atores. Beckett praticou sexo sem preoteção dentro de uma sala de cinema com um desconhecido e, talvez por conta disso, foi infectado. Sem pensar muito, podemos dizer que ele foi vítima de sua própria imprudência, que ele é responsável pelo preconceito que sofre, certo? O que podemos dizer então da mulher que depõe durante o julgamento, a qual também foi demitida por ter AIDS e contraiu o vírus em uma trasfusão de sangue? O preconceito deixa de existir devido a ausência de culpa ou através do conhecimento? Em outro momento, Hanks, que ganhou o Oscar por seus desempenho, emociona o público em uma cena onde chora diante dos olhos de um aturdido Denzel Washington enquanto ouve uma ópera. O ator, que perdeu cerca de 13kg para o papel, protagoniza um belíssimo momento de instrospecção nesta cena, recitando a letra da música que, em momentos alternados, fala de esperança e desespero, sentimentos díspares que ele enfrentava diante do processo e da expectativa próxima da morte.

Segundo o Wikipédia (eu sempre me sinto mal quando escrevo isso), em 2007 estimava-se que mais de 2 milhões de pessoas já haviam morrido vítimas da AIDS, sendo que mais de 33 milhões ainda viviam com o vírus, 630 mil delas no Brasil. Apesar de a doença permanecer sem cura, os coquetéis ajudam os infectados a viverem melhor e hoje sabe-se que atos como abraçar, apertar a mão e beijar não transmitem a doença. Essa conscientização que, creio eu, ajudou a diminuir a paranóia que cercava a doença e matava socialmente os infectados, encontra excelentes argumentos em Filadélfia, que cumpriu e ainda cumpre um papel importantíssimo na luta pelo fim do preconceito, sem o qual, por exemplo, é possível rir de coisas como isso aqui:

Adivinhe Quem Vem Para Jantar (1967)

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Assim como todo homem que já “aprontou” bastante na vida, eu nutro um certo pavor pela idéia de ser pai de uma garotinha. A imagem de um “molecão” de 16, 17 anos vestindo roupas largas e usando boné sentado no sofá da minha casa e me chamando de “sogrão” é uma das representações mais reais que eu consigo conceber de pesadelo.  Faço agora uma pequena pausa para a sinopse para depois explicar o porque de eu ter percebido o quão hipócrita eu estou sendo com essa linha de raciocínio.

Em Adivinhe Quem Vem Para Jantar, a jovem Joey Drayton (Katharine Houghton) está retornando para casa após um período de férias. Junto com Joey, está o homem que ela pretende apresentar aos pais como namorado e futuro esposo, o médico John Prentice (Sidney Poitier). Os pais, Matt (Spencer Tracy) e Christina Drayton (Katharine Hepburn), julgam-se liberais e defensores dos direitos civis, mas qual será a reação deles quando, em plena década de 60, sua filha pedir permissão para casar-se com um negro?

Retornemos ao raciocínio inicial. Eu me considero uma pessoa íntegra: trabalho, estudo, sou honesto e procuro não prejudicar o próximo. Quando conheço alguém, espero que esses valores e não as minhas tatuagens, meus brincos ou meu costumeiro cabelo moicano sejam notados e/ou levados em consideração na hora de formarem opinião a meu respeito.

Prentice (Poitier) conhece o “sogrão” Matt Drayton (Tracy)

 O ponto aqui é: como eu posso me considerar um liberal (o que, em linhas gerais, eu me considero) e esperar que os outros também o sejam mas, na primeira opotunidade, me comportar EXATAMENTE da forma que eu considero condenável e julgar os outros pela aparência?

Dirigido e produzido por Stanley Kramer, nome importante da chamada Era de Ouro de Hollywood, Adivinhe Quem Vem Para Jantar é um filme feito durante o processo de reivindicação de direitos civis engrenada pela população negra dos EUA na década de 60 e, apesar de alguns equívocos esperados de análises feitas “no calor” do momento, provou-se uma obra atemporal nesse combate a hipocrisia. Último trabalho do veterano Spencer Tracy, que morreu poucas semanas depois do término das gravações, Matt Drayton é um americano liberal de classe média alta dono de um jornal que, historicamente, posicionou-se favoravelmente a igualdade entre negros e brancos. Tendo educado a filha com tais valores, Matt provavelmente nunca imaginou que ela fosse absorvê-los ao ponto de desafiar a sociedade da época apaixonando-se por um negro.

A família de Prentice também demonstra resistência a idéia do casamento inter-racial

Kramer combate a hipocrisia e o preconceito mas, em um dos tais “equívocos típicos”, exagera na retratação daqueles que defende estereotipando-os. Poitier, repetindo algo que passaria a ser uma caracterização constante em sua carreira, não é apenas um negro qualquer, humano, com defeitos e qualidades, que apaixonou-se por uma garota branca. Ele é (e precisa ser para que o público da época não fique tão chocado com a idéia que o filme vende) um super herói, um médico formado com honras em uma faculdade qualquer que salva a vida de crianças na África, um homem calmo e maduro que responde provocações com sorrisos e bom humor. Ponto que poderia criar alguma tensão, o fato do personagem já ter sido casado também é usado de forma a gerar empatia junto ao público: mulher e filha do médico, como é dito duas vezes no filme, morreram TRAGICAMENTE em um acidente. Vale lembrar que, tal análise é possível pelo distanciamento temporal e pela leitura do livro Cenas de Uma Revolução do Mark Harris, trabalho elucidativo sobre o filme/tema/período.

Com um argumento simples e gostoso de acompanhar, Adivinhe Quem Vem Para Jantar conta ainda com bons trabalhos de Poitier e de uma envelhecida Katharine Hepburn e termina com um longo e inspirado discurso do Spencer Tracy cuja carga emocional aumenta ainda mais quando visto como o canto do cisne de uma longa carreira. A forma como a questão racial é apresentada está datada, mas ainda sim é importante para entendermos a complexidade ideológica do período. Ah, quase me esqueci: filha minha não casa com pagodeiro, palmeirense ou “mano vidaloka” 🙂

Hepburn e Tracy (ele não parece o Carl Fredricksen do Up! – Altas Aventuras?)

No Calor da Noite (1967)

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Comentei sobre as “fórmulas” dos filmes americanos de segregação racial no texto do Histórias Cruzadas. Dias depois, comecei a ler o Cenas de Uma Revolução – O Nascimento da Nova Hollywood do Mark Harris, livro onde o autor comenta sobre os filmes que foram responsáveis pela renovação que indústria cinematográficas passou no final da década de 60. Estabelecendo como marco inicial o Oscar de 1968, Harris analisa todos os aspectos da produção dos cinco indicados, entre os quais estava o No Calor da Noite, adaptação do diretor Norman Jewison para o romance do escritor John Ball.

Atualmente, quando vemos filmes como Histórias Cruzadas, evocamos mentalmente algumas imagens e cenários que foram construídos ao longo das últimas décadas até transformarem-se nas tais “fórmulas” comentadas. No Calor da Noite, filme feito “no calor” das lutas pelos direitos civis da década de 60, é uma dessas produções que ajudaram a moldar o imaginário popular sobre o tema.

A trama começa com o negro Virgil Tibbs (Sidney Poitier) descendo do trem noturno na cidade de Sparta, Mississipi. Nessa mesma noite, um rico empresário local é assassinado e a polícia, procurando por suspeitos, encontra e prende Tibbs na estação. Levado ao encontro de Gillespie (Rod Steiger), o rechonchudo e preconceituso delegado da cidade, Tibbs revela ser um policial especialista em homicídios e, a contragosto de muita gente, decide ficar e ajudar Gillespie a solucionar o caso.

Gillespie e Tibbs

Dentre todas as interessantes curiosidades trazidas por Harris sobre o filme, me chamou a atenção um trecho onde ficou clara a intenção do roteirista Stirling Silliphant de alterar certos aspectos do romance de Ball para contemplar as questões sociais em curso. Segue a citação:

E a transformação de Gillespie não era a única mudança que Jewison havia imposto ao roteiro desde que começou a conversar com Stirling Sillphant. Quando o roteirista concluiu seu trabalho, o enredo, os personagens e o conflito racial que pulsava no interior de todas as cenas tinham sido explicitados e aprofundados sem exceção. A história não se passava mais na Carolina do Sul, e sim no Mississipi, e Tibbs não era mais do Arizona, mas da Filadélfia, o que transformou os dois policiais em representantes inequívocos dos costumes e das posições políticas do Norte e do Sul dos Estados Unidos”.

Insisto para que o leitor atente-se para a questão da “fórmula” comentada. Fora citar o Luther King e a KKK, No Calor da Noite já trazia todos aqueles elementos que até hoje ditam as regras do jogo. Aqui, em específico, não estou fazendo da observação uma crítica, o que seria até um anacronismo visto que estamos falando de um dos precursores do gênero. A citação faz-se válida tanto como simples curiosidade quanto para demonstrar o raciocínio que pouco a pouco criou um modelo a ser seguido.

Vale citar ainda a leitura precisa que Harris faz da participação do ator Sidney Poitier no filme. Primeiro ator negro a vencer um Oscar, Poitier é um ícone da luta pelos direitos civis mas, ao mesmo tempo, representa uma espécie de retrocesso nessa luta. Virgil Tibbs é um homem que, com sua inteligência e sabedoria, suporta o preconceito e a raiva daqueles sulistas estereotipados. Não trata-se de “oferecer a outra face” (como um personagem acaba aprendendo de forma bem dolorosa em uma cena emblemática), mas de não apresentar raiva e desejo tipicamente humanos: Poitier precisa ser um símbolo de austeridade e sabedoria, alguém melhor do que todos aqueles que o cercam (o “primeiro ser humano que pisa naquela cidade”, como Gillespie observa), não um “igual”.

Acredito que, pelo que foi falado até agora, tenha ficado claro o quanto assistir No Calor da Noite é fundamental para compreender certos aspectos da história da indústria cinematográfica americana. Para quem não importa-se com isso, fica a dica de um ótimo filme policial com um bom mistério a la Agatha Christie. Além de ter todo aquele charme dos filmes antigos e a música maravilhos do Ray Charles, No Calor da Noite ainda traz uma leitura importante, ainda que controversa, sobre fraternidade e oferece ao espectador uma dessas cenas para ver e não esquecer nunca mais: quando perguntando como chamam-no em sua cidade, Poitier responde com um sonoro “Eles me chamam de SENHOR Tibbs”. E “ai” de quem duvidar.

SENHOR Tibbs defende-se de uns sulistas preconceituosos. Pleonasmo?