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A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017)

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Antes de falar do filme, uma nota rápida sobre a minha última semana.

Após 2 meses de muitas dores, dúvidas e privações devido aquele maldito acidente de moto, finalmente consegui retornar para a minha rotina. Voltei a dar aulas de História na quarta (12/04)  e, na manhã da quinta feira (13/04), eu já estava no aeroporto realizando controle de tráfego aéreo. É bom pensar que aquele pesadelo agora faz parte do passado, mas nem a vontade de seguir em frente me fará esquecer daqueles 60 dias em que tive tempo de sobra para duvidar de mim mesmo. Dentre outras coisas, tive medo de voltar a dirigir, de não fazer falta para os meus colegas de trabalho e alunos, de não encontrar mais motivação para escrever e medo de encarar as pessoas e reconhecer que eu havia falhado.

Falhei mesmo. Por mais que o quebra molas que me derrubou esteja mal sinalizado (passei lá ontem: ele está sem pintura e a placa está oculta atrás de uma árvore), não posso negar que eu estava acima do limite de velocidade (100km/h numa via onde o máximo é 80). Daqui até o fim da minha vida, terei a lembrança da queda e uma cicatriz enorme no braço esquerdo para me recordarem do que fiz. Fui irresponsável e precisarei lidar com isso, mas o caminho rumo ao amadurecimento não precisa ser trilhado sozinho. Nesta última semana, além de ter sido muitíssimo bem acolhido nos meus locais de trabalho, ganhei um abraço carinhoso de um aluno (Valeu, Claudin!), recebi mensagens encorajadoras dos meus familiares e fui presenteado com o apoio da minha esposa, que propôs realizarmos uma viagem de moto até o estado de Goiás para que, nas palavras dela, “eu pudesse reconquistar a minha confiança ao dirigir”. Quando penso em tudo que passei, concluo que não há fardo suficientemente pesado para quem tem amigos e nem dúvida que resista a um gesto sincero de amor. Sinto-me feliz e motivado para recomeçar. Obrigado a todos que me ajudaram durante esse período difícil 🙂

Percorridos os 180km que separam Uberlândia-MG de Caldas Novas-GO, tive um final de semana bastante agradável em solo goiano. O forte de Caldas são as piscinas de água quente, a música sertaneja e a cerveja gelada, porém há uma grande variedade de opções de entretenimento na vida noturna da cidade para quem quiser algo mais sossegado, dentre elas o 7ªrte Cine Stadium. O local não é lá dos maiores (há apenas 2 salas) e a programação prioriza filmes dublados, mas as instalações são boas (cadeiras novas e limpas; sistema de som eficiente) e de fácil acesso. Mesmo contrariado por perder o áudio original e as sutilezas da voz da Scarlett Johansson, acabei vendo A Vigilante do Amanhã por lá mesmo, meio bêbado e grilado com o cara da bilheteria que não quis aceitar a minha carteirinha de estudante para pagar meia entrada.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell não foi bem nas bilheterias. Envolto numa polêmica de whitewashing (quando um ator branco é escalado no papel de um personagem que, originalmente, tinha outra raça/etnia), a produção deve acumular incríveis 100 milhões de dólares de prejuízo. Eu não fiquei empolgadão com o que vi, mas não achei o o filme tão ruim assim. O fato de terem optado pela Johansson em detrimento de uma atriz oriental certamente foi uma mancada e, como eu havia desconfiado quando resenhei o anime original, simplificaram bastante o roteiro, mas a condução pragmática e o trabalho visual do diretor Rupert Sanders são bastante eficientes.

Ambientando em um futuro próximo, A Vigilante do Amanhã mostra uma realidade em que os seres humanos podem realizar implantes cibernéticos para aprimorarem seus corpos. Após sofrer um acidente, Mira (Johansson) foi salva pela empresa Hanka Robotics, que extraiu seu cérebro e implantou-o num corpo de metal, transformando-a em um ciborgue. Algum tempo depois, Mira, que agora trabalha para o governo e é conhecida como Major, está no meio de uma operação secreta em que ela precisa monitorar uma conversação entre um executivo da Hanka e um político. A reunião é encerrada abruptamente quando ciborgues em formato de gueixa começam a atacar e hackear os cérebros dos participantes, o que obriga a Major a invadir o local e utilizar a força para controlar a situação. No fim, após dizimar a ameaça, ela ouve de uma das gueixas que “quem colaborar com a Hanka será destruído”.

Mira e seu parceiro Batou (Pilou Asbaek), que trabalham sob o comando do Chefe Aramaki (Takeshi Kitano), iniciam então uma investigação para descobrir o responsável pelo ataque das gueixas. Em linhas gerais, A Vigilante do Amanhã segue a mesma narrativa de O Fantasma do Futuro, com a Major esgueirando-se através dos becos sujos de Tóquio perseguindo um inimigo sem rosto. O remake difere-se do original mais nos detalhes e na profundidade em que o tema da individualidade é abordado. Seguem algumas diferenças:

  • Visual: A Major, infelizmente, está mais “comportada”. O corpo de ciborgue dela, que era praticamente idêntico ao de uma mulher normal, ficou com um visual “emborrachado” para suavizar as cenas de nudez. Já o Batou, que no original não tinha nada que acusasse sua natureza cibernética, ganhou olhos biônicos após ser ferido em uma explosão. A maior mudança, porém, foi no vilão: o Mestre dos Fantoches, hacker que transferia a própria consciência para a rede e que agia como um vírus, foi substituído por Kuze (Michael Pitt), um experimento defeituoso da Hanka Robotics. Pessoalmente, eu gostava mais da ideia quase abstrata do anime.
  • Cenas de ação e violência: O diretor Rupert Sanders recriou com maestria o clima noir e a estética cibernética de O Fantasma do Futuro, mas não podemos dizer que ele teve o mesmo êxito com a ação. Por mais que a clássica luta no “espelho d’água” tenha ficado idêntica, os momentos mais violentos do filme (como o assassinato do embaixador e o confronto com o tanque do final) perderam sangue, vísceras e impacto.
  • “Individualidade”: A Vigilante do Amanhã abre mão de praticamente todo o subtexto político do anime para concentrar-se na história de Mira. Ainda que a personagem tenha uma ou duas digressões sobre sua condição de ciborgue, o diretor optou mesmo foi por focar no passado dela. Essa decisão alterou significativamente o final da trama (pra pior, ao meu ver), mas deixou o roteiro mais enxuto e acessível.

A Vigilante do Amanhã é um filme mais simples e funcional do que O Fantasma do Futuro. Isso é bom em certos pontos (achei mais fácil acompanhar a história) e ruim em outros (sem a violência, a nudez e a ‘esquisitice’, perdeu-se a aura ‘cult’). Futuramente, num dia que eu não tiver nada melhor para fazer, pretende vê-lo novamente nem que seja para rir do visual estranho da Johansson, que ficou parecendo o Jesse Eisenberg com aquele cabelinho na cara rs

Guerra (2015)

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GuerraTenho dito que, por ter vencido o Globo de Ouro, o Filho de Saul é o favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas a verdade é que não é bem isso que a história recente da premiação nos mostra. Ano passado, por exemplo, o russo Leviatã não conseguiu repetir junto à Academia o desempenho do Globo e foi superado no Oscar pelo Ida e sua bela fotografia em preto e branco. Levando isso em consideração, o melhor a se fazer é ver a maior quantidade possível de indicados para não ser pego desprevenido com a vitória de algum título que não recebeu a devida atenção dos críticos. Guerra, filme do diretor e roteirista Tobias Lindholm (do polêmico A Caça), apesar de não estar sendo muito comentado, é uma produção que tem potencial para surpreender na cerimônia desse ano: com poucas mas boas cenas de ação e provocações éticas e morais, ele é o melhor dentre os concorrentes a Melhor Filme Estrangeiro que vi até agora (Cinco Graças e O Lobo do Deserto).

Lindholm começa o filme com uma cena tão impactante quanto aquela da abertura do O Resgate do Soldado Ryan. Soldados andam furtivamente através de um cenário desértico. Concentrados, eles utilizam o rádio para comunicar cada passo da missão para Claus (Pilou Asbaek), o capitão que orienta-os a partir de uma base remota. Não mais do que de repente, um deles pisa em uma mina terrestre e tem os membros inferiores completamente destroçados pela explosão. À distância, Claus tenta fazer com que todos acalmem-se e concentrem-se em ajudar o soldado ferido, mas logo ele percebe que não havia mais nada que pudesse ser feito nem para salvar o sujeito e nem para apagar da memória dos membros do pelotão o evento macabro que eles acabaram de presenciar.

Guerra - Cena 4Claus martiriza-se pelo ocorrido e decide que, dali em diante, ele liderará pessoalmente os soldados para garantir que mais nenhum homem perca a vida sob seu comando. Mesmo preocupado com o futuro da esposa (Tuva Novotny) e dos três filhos que deixou em casa, Claus abandona a segurança da base e assume a linha de frente do pelotão. Durante uma missão de reconhecimento, o capitão e seu grupo são cercados por rebeldes nas proximidades de um vilarejo e, vendo que mais um de seus homens está prestes a morrer devido a um ferimento de bala, Claus solicita apoio aéreo. O helicóptero é enviado, um míssil é lançado e Claus consegue retirar todos os soldados vivos do local, mas o preço da ação acaba sendo alto demais: o bombardeio autorizado pelo personagem atinge uma área civil e mata vários inocentes. No dia seguinte, o capitão é enviado para casa, na Dinamarca, para ser julgado pelo crime de guerra.

Como o filme é contado sob a perspectiva de Claus, nós sabemos o inferno ao qual ele estava submetido quando solicitou o bombardeio. Nós conhecemos a família dele (oh moleque chato!) e nós sabemos que ele é um homem bom que preocupa-se com o bem de seus comandados. Assim sendo, é perfeitamente natural que nós torçamos pela absolvição do personagem no julgamento que inicia-se na segunda metade do filme para definir se ele é culpado ou não pela morte dos civis afegãos. A intenção do diretor Tobias Lindholm, porém, não é criticar os burocratas que julgam ações de terceiros que eles não conhecem e nem entendem, mas sim mostrar o quão impessoais são os terrores que emanam da guerra.

Guerra - Cena 2Lindholm enche nossa cabeça de dúvidas e nos convida a relativizar  algo que, a princípio, nos foi vendido como se fossem ações e valores inquestionáveis e até mesmo admiráveis. Claus é um herói, certo? Ele assume a frente do pelotão em um momento complicado, acalma o desespero de um soldado, conduz uma missão bem sucedida onde um rebelde que ameaçava crianças é eliminado (a ótima e extremamente tensa cena do sniper) e, num momento crítico, toma uma decisão difícil que garante que vários soldados escapem com vida de uma emboscada. Além disso tudo, nas cenas familiares, vemos que ele é um ótimo pai. À medida que a promotora começa o processo de acusação, no entanto, percebemos que as coisas não são bem assim. Claus, além de autorizar um bombardeio desastroso em um local que ele não conhecia, também fora o responsável direto pela morte de toda uma família para a qual ele negou proteção no dia anterior ao ataque. E aí, o personagem é culpado ou inocente?

Guerra - Cena 3O dinamarquês Guerra cumpre aquele chato porém importante papel de nos mostrar que nem sempre as coisas são tão simples quanto nós gostaríamos que elas fossem. Quando assistimos a cena da emboscada e vemos os personagens prestes a serem massacrados por tiros que veem de todos os lugares, ficamos felizes pela intervenção do bombardeio e acreditamos que o capitão tomou a decisão correta, mas fica difícil sustentar essa certeza quando vemos as fotos de crianças mutiladas pela explosão que são apresentadas pela promotoria: vidas foram salvas, mas vidas também foram igualmente destruídas por conta da ordem do personagem. Condená-lo à prisão e privá-lo da convivência da família resolverá alguma coisa? Deixar tal crime impune, apesar do contexto difícil em que ele foi cometido, não seria abrir um perigoso precedente para ações semelhantes no futuro? Muitas são as perguntas, poucas são as respostas e, no final, independente da decisão do júri, só fica aquela sensação incômoda de que não basta ser uma pessoa séria e responsável para ser feliz nesse mundo caótico. Guerra, o filme, é muito bom. Guerra, o conflito, continua sendo uma das maiores atrocidades praticadas pelo ser humano.

Guerra - Cena