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Power Rangers (2017)

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Vamos encarar a realidade? Power Rangers É ruim. Não concordam? Experimentem rever a série (tem no Netflix) e percebam o quão zoado era tudo aquilo. Já no primeiro episódio, em menos de 5min, a Rita Repulsa e seu exército são libertados de uma prisão lunar, Zordon convoca os Rangers e lhes dá a missão de proteger os EUA a Terra e o Alpha já soltou vários AI AI AIAIAI . Sim, também tem a Amy Jo Johnson, primeira namoradinha de muita gente, fazendo ginástica com uma calça suplex rosa, mas no geral o seriado era bem bobão e previsível. Com raríssimas exceções, todos os episódios seguiam o esquema:

  1. Rangers na lanchonete + piadinhas do Bulk e Skull
  2. Rita conspirando contra o sossego alheio
  3. Bonequinhos de massa (PRULULULU!) e monstro
  4. Rita faz o monstro crescer
  5. Megazord destrói o monstro (e toda a cidade de Angel Grove junto)
  6. Rangers na lanchonete tomando milk shake, lição de moral e Rita com dor de cabeça pedindo aspirina

Todo caso, em 1995, quando o seriado estreou no Brasil, eu era apenas um garoto de 10 anos que saía da escola e ia correndo para casa ver Power Rangers na TV Colosso. Naquela época, eu tinha medo do Roberval, O Ladrão de Chocolates e gostava muito, muito de do seriado. Eu não tava nem aí para o roteiro capenga e para o fato de que a Ranger amarela tinha um volume estranho no meio das pernas. Para falar a verdade, eu nem sabia o que era roteiro. Quando eu sentava no sofá de casa na hora do almoço, as únicas coisas que importavam eram o purê de batata da minha mãe e a sequência animal de transformação do Megazord.

Com o exposto, sei que constato o óbvio – nem tudo que a gente gosta quando é criança continua nos agradando quando crescemos – mas é bom deixar isso claro para que nenhum fã da série apareça por aqui pra me xingar pelo que vou dizer. Acho difícil gostar de Power Rangers hoje em dia. Por mais que eles tenham feito parte da minha infância (eu tinha vários daqueles bonequinhos trash que giravam a cabeça; o meu favorito era o Billy/Triceratops) e que eu me sinta nostálgico em relação ao seriado, o tempo passou e agora eu me interesso por outras coisas. Nisso, fica a pergunta: faço parte do público alvo desse novo Power Rangers? A intenção dos produtores era conquistar uma nova leva de fãs ou fornecer um produto saudosista para a galera da década de 90? As duas coisas? É certo que esse filme do diretor Dean Israelite, com todos os seus efeitos especiais e linguagem atual, abre as portas dos anos 2000 para os Rangers, mas também é patente que o longa foi construído buscando proporcionar uma válvula de escape para o passado ao custo de um ingresso. Não sei se a molecada gostou do que viu, mas o tiozão aqui não ficou nenhum pouco empolgado.

O começo até que não é dos piores. Ao contrário do que acontece no seriado, reservaram um bom tempo para apresentar os personagens e dar sentido para uma história em que monstros gigantes tentam destruir o mundo. Há cerca de 65 milhões de anos, Rita Repulsa (Elizabeth Banks) e Zordon (Bryan Cranston) duelaram pelo destino da Terra. Zordon, que então era o Power Ranger vermelho, conseguiu vencer e selar Rita em uma prisão, mas a vitória custou a vida de todos os seus companheiros e sua própria liberdade, visto que seu corpo também ficou preso em uma dimensão paralela. Muitos anos depois, os colegiais Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cyler), Kimberly (Naomi Scott), Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.) encontram Zordon enterrado em uma pedreira e são encarregados por ele de protegerem o planeta da vingança iminente de Rita, que fugiu da prisão e iniciou o processo para invocar seu poderoso Goldar.

Como todo bom filme de origem, Power Rangers foca primeiro nos personagens e depois na ação. Jason é um líder irresponsável com problemas com o pai, Billy é autista, Kimberly espalhou nudes na escola, a mãe de Zack está doente e a família de Trini não aceita sua sexualidade. De suas 2 horas de duração, o filme investe pelo menos metade do tempo na apresentação do lado humano dos heróis antes que eles transformem-se em guerreiros que saltam sobre penhascos e lutam fazendo poses engraçadas. Disso eu gostei: como o desenvolvimento de personagens é bem feito, a gente sempre sabe, por exemplo, que o Zack fará alguma coisa doidona e que a Trini estará de mau humor.

A qualidade, no entanto, cai vertiginosamente quando o conteúdo “Ranger” é adicionado ao filme. Desde que saíram os primeiros trailers, eu torci o nariz para o visual dos personagens. Sei que seria impraticável repetir os pijamas de latex de outrora, mas essas roupas novas, que mais parecem trajes de motoqueiros, ficaram feias demais. A “modernização” também escorregou nos bonequinhos de massa, cujos atores foram substituídos por um CGI horroroso, e na aparência da Rita, que lembra muito mais a saudosa Scorpina do que aquela velha maluca do cabelo branco. Nenhum desses equívocos, porém, compara-se com o que foi feito com os Dinozords e com o Goldar. Para falar pouco, os veículos de batalha dos Rangers estão irreconhecíveis (aquilo lá NÃO É um mastodonte) e o monstro, que era uma espécie de macacão demoníaco, transformou-se em uma massa tosca de ouro ambulante.

Diante de todas essas apostas visuais bizarras, a minha animação foi zero quando a batalha final começou. Pra falar a verdade, fiquei até com um pouco de vergonha quando tocou o tema clássico da série (Go Go Power Rangers). No dia eu estava acompanhado da minha mãe, que vai pouquíssimo ao cinema, e fiquei bastante arrependido por ter escolhido esse filme para ver. A transformação do Megazord, que deveria ser o ponto alto do filme, apenas revelou outro amontado de efeitos especiais ruins e nem mesmo as boas piadas e referências a filmes como Transformers, Duro de Matar e Vingadores tornaram a sessão menos penosa. Power Rangers era ruim mas a gente era criança e gostava. Power Rangers é muito ruim e já fazem incríveis 20 anos que a TV Colosso acabou. Não dá mais.

Obs.: Durante os créditos, uma cena extra revela planos para uma continuação. Haim Saban, o criador dos personagens, quer mais 5 filmes. Única reação possível? AI AI AIAI!

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La La Land: Cantando Estações (2016)

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Ontem, 24/01, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou os indicados ao Oscar de 2017 (clicando aqui você vê a lista completa dos concorrentes). Seguem alguns comentários sobre os selecionados:

  •  A despeito de ter disputado apenas prêmios secundários no Globo de Ouro, o drama racial Estrelas Além do Tempo arrancou uma surpreendente indicação a Melhor Filme. O ocorrido parece ser uma resposta da Academia às críticas sofridas em 2016, quando praticamente nenhum ator/atriz negro(a), bem como as produções voltadas para eles, tiveram espaço na cerimônia. Olhando para cada categoria, percebe-se que esse ano houve uma preocupação com a diversidade, o que é bastante positivo.
  • Outra surpresa em relação ao Globo de Ouro foi a performance do ótimo A Chegada, que passou de 2 para 8 indicações, incluindo Melhor Filme. Os fãs de ficção científica agradecem o/
  • Eu não esperava o Mel Gibson na lista para Melhor Diretor, não por ter alguma crítica negativa ao que ele fez no Até o Último Homem, que ainda não vi, mas pela recente trajetória polêmica dele fora das telas.
  • Bizarro o Elle vencer o Globo de Melhor Filme Estrangeiro e não ser sequer indicado na mesma categoria do Oscar, ainda mais porque que sua protagonista, a Isabelle Huppert, concorrerá a Melhor Atriz. Alguém em Hollywood não gosta do Verhoeven.

Anúncio feito, agora é esperar até o dia 26/02 para assistir a cerimônia de premiação e conhecer os vencedores. Ficarei feliz comigo mesmo se, até lá, eu conseguir ver e resenhar pelo menos mais 12 filmes, o que cobrirá todos os indicados nas principais categorias e ainda me permitirá ver ao menos um documentário. I am one with the force and the force is with me! Bora!

la-la-land-cena-3La La Land ainda está nos cinemas e uma forma bem fácil de vendê-lo é dizer que o filme concorre em incríveis 14 categorias, o que coloca-o ao lado do Titanic e do A Malvada como recordista de indicações. A outra forma é defini-lo pelo que ele é, um musical que aquecerá o seu coração e fará com que você recorde cada um dos pequenos e belos momentos que marcaram o início da sua relação com aquela pessoa especial. Prefiro essa segunda abordagem, mas reconheço que ela esbarra em um problema: o musical, apesar de ser um gênero queridinho da Academia, não tem muito apelo junto ao público ocasional. Minha esposa mesmo, antes do filme começar, reconheceu que estava curiosa, mas que não gosta “quando aquele povo começa a cantar e dançar”. Nesse texto, contarei-lhes como o La La Land venceu a resistência dela à musicais e explicarei-lhes porque o filme tem tudo para ser o grande vencedor do Oscar de 2017.

la-la-land-cena-2É apenas mais um dia ensolarado em que dois jovens tentam sobreviver na mágica porém cruel cidade de Los Angeles. Mia (Emma Stone) trabalha como atendente na lanchonete de um estúdio e sonha com a possibilidade de tornar-se uma estrela de cinema. O pianista Sebastian (Ryan Gosling) toca músicas chatas em bandas ruins enquanto planeja abrir o seu próprio bar de jazz. O amor pela arte e o desejo de uma vida melhor unirá os personagens em uma história cheia de altos e baixo e muitas, muitas cenas onde o “povo começa a cantar e dançar”.

É claro que a cantoria causa estranhamento. Não é todo dia que você está em um engarrafamento e, do nada, alguém salta de um carro e começa um coro sobre o poder da perseverança. Superado esse “choque” inicial, porém, a qualidade do material fala mais alto do que qualquer desconfiança. La La Land foi escrito e dirigido pelo Damien Chazelle (o responsável pelo conceitual Whiplash) e, cena após cena, fica patente o esmero do diretor na coreografia das danças e na manipulação da câmera para que o espectador experimente algo arrebatador. Da parte técnica, chamo a atenção para o seguinte:

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  • Plano-sequência: Seja nas passagens grandiosas como a dança na ponte que abre o filme, seja em cenas mais intimistas como a do planetário ou ainda nas apresentações solo dos protagonistas, Chazelle praticamente não utiliza cortes, filmando tudo em incríveis tomadas contínuas.
  • Experimentação: Tradicionalmente, musicais costumam utilizar suntuosos cenários de estúdio para os personagens executarem suas performances. O diretor vale-se desse recurso (principalmente no final, com as muitas transições entre ambientes), mas ele também leva a dança para lugares pouco comuns. Gostei de ouvir os TIC PLEC dos sapatos de Sebastian e Mia no asfalto e achei a sequência abstrata do planetário, com o casal flutuando e movendo-se no infinito, o ponto alto do filme.
  • Repertório: La La Land é uma defesa apaixonada do jazz e do musical, dois formatos que Chazelle considera ameaçados atualmente. O diretor as vezes soa amargo (Sebastian diz que Los Angeles venera tudo mas não valoriza nada), mas a argumentação dele concentra-se mais em enaltecer o que ele ama através de citações dos grandes clássicos do estilo. Sou leigo em jazz, mas notei a frequência com que nomes de músicos são citados (bem como suas fotos nos cenários) e vi referências ao Cantando na Chuva (Sebastian rodopiando no poste), Cinderela em Paris (os balões), Sinfonia de Paris (toda a sequência final) e ao próprio Whiplash, com o J. K. Simmons fazendo uma divertida inversão de seu papel naquele filme (agora ele não gosta de jazz).

la-la-land-cena-5O espetáculo técnico, porém, pouco valeria se não viesse acompanhado de bons sentimentos. Palavras do Stephen King no Sobre a Escrita, “é menos sobre estilo e mais sobre contar uma boa história”. Sebastian e Mia são sonhadores, pessoas como eu e você que acordam todos os dias querendo uma oportunidade de mostrar ao mundo quem eles realmente são. Após um começo difícil (no engarrafamento, ele buzina e manda ela ir tomar um suco), eles encontram o caminho até o coração um do outro e, juntos, buscam forças para viverem seus sonhos. La La Land traz uma visão bem adulta sobre projetos de realização pessoal, mostrando que, as vezes, é necessário saber aceitar menos do que a gente merece antes da vitória chegar, mas ele também tem espaço para a inocência do amor adolescente. A química entre o Ryan Gosling e a Emma Stone, ambos indicados ao Oscar, me lembrou da primeira vez que saí com a minha (hoje) esposa, da primeira cerveja dividida em um bar barulhento, da primeira sessão de cinema juntos e, claro, do primeiro beijo. Durante a execução da linda City of Stars (concorre a Melhor Canção Original) eu olhei para o lado e vi ela me olhando de volta, sorrindo. Naquele momento, tive duas certezas: 1) ela gostou do filme que “o povo canta e dança”  tanto quanto eu 2) sou sortudo pra caralho.

La La Land foi o grande vencedor do Globo de Ouro e tem tudo para repetir o desempenho no Oscar. Vi um filme cult, que celebra o jazz e a história de Hollywood com uma técnica primorosa, mas também vi uma história de amor que faz qualquer um querer voltar a viver um namorinho de portão. Seu trabalho, Damien Chazelle, merece ser venerado pela Academia (com o Oscar) e valorizado pelo público (com o ingresso). Parabéns e obrigado ❤

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O Escaravelho do Diabo (2016)

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O Escaravelho do DiaboNão lembro qual foi o primeiro livro que li na vida (gosto de pensar que foi o Expedição aos Martírios, do Francisco Marins), mas recordo-me bem de ter adquirido o hábito da leitura por volta dos 12-13 anos quando conheci a Coleção Vaga-Lume, série de literatura infantojuvenil lançada pela Editora Ática. Semanalmente, eu ia até a biblioteca da escola e pegava um livro emprestado com a Dona Marta, a bibliotecária acolhedora que cuidava muitíssimo bem do local, para ler durante o final de semana. Nas páginas da Coleção, aprendi um pouco sobre história do Brasil (Coração de Onça) e preconceito (Menino de Asas), diverti-me com tramas variadas de aventura (A Ilha Perdida) e drama (Éramos Seis) e tomei gosto pela literatura de suspense/crime. Muito antes de conhecer os trabalhos mestre do gênero como Stephen King e Agatha Christie, deixei-me impressionar pelos contos cheios de mistérios e reviravoltas do Marcos Rey (Um Cadáver Ouve Rádio e O Mistério do Cinco Estrelas) e por livros  como O Escaravelho do Diabo, que falava de um assassino em série com uma curiosa obsessão por ruivos.

Pelo exposto, fiquei bem feliz e saudosistas quando anunciaram que adaptariam alguns títulos da Coleção Vaga-Lume para o cinema, começando justamente pelo O Escaravelho do Diabo. É claro que tive receio de que, agora adulto, eu ficasse indiferente à trama voltada para os mais jovens, mas a nostalgia e a vontade de revisitar aquelas tardes em que eu chegava da escola, sentava no sofá e abria o livro (sempre acompanhado de um copo de leite e um pacote de bolachas, o lanche dos campeões rs) substituíram a preocupação, de modo que coloquei o filme para rodar (infelizmente, não consegui vê-lo no cinema) com as expectativas lá em cima.

O Escaravelho do Diabo - CenaO cargo de adaptar o texto rápido e divertido da escritora Lucia Machado de Almeida para o formato cinematográfico ficou com o Carlo Milani, um diretor que até então havia trabalhado apenas com novelas e mini-séries. Milani não realiza aqui nada muito fantástico e, em alguns momentos, até escorrega na condução do elenco infantil, mas a direção dele merece ser elogiada por conseguir preservar a “aura” do livro, que cumpria o papel espinhoso de falar de vingança, morte e sangue para crianças e adolescentes.

Ambientada na cidade de Vista Alegre, interior de São Paulo, a história de O Escaravelho do Diabo é protagonizada por Alberto (Thiago Rosseti), um garoto de 13 anos que passa pela experiência traumatizante de encontrar o irmão mais velho assassinado dentro de casa. Desconfiado de que o suspeito preso pela polícia não é o verdadeiro culpado, Alberto pressiona o inspetor Pimentel (Marcos Caruso) para que as investigações sejam retomadas e, juntos, eles descobrem pistas que indicam a presença de um assassino em série na cidade.

O Escaravelho do Diabo - Cena 2Mesmo quando eu ainda ansiava para dar os meus primeiros beijos, nunca dei muita bola para a parte da história em que Alberto apaixonava-se pela ruiva Raquel (Bruna Cavalieri) e tentava protegê-la do assassino. O legal mesmo de O Escaravelho do Diabo era tentar descobrir quem seria a próxima vítima do vilão e acompanhar as engenhosas explicações das mortes. Felizmente, o diretor parece ter entendido e apreciado o livro da mesma forma que eu, visto que ele reserva pouco tempo para o conteúdo teen e capricha nas cenas em que o modus operandi do assassino é apresentado. Mesmo considerando as “suavizações” necessárias ao formato (coisas como não focar diretamente as mortes), Carlos Milani mostra bastante sangue e utiliza uma edição perturbadora, com cortes rápidos, câmera tremida e uma música sombria (Brisa Fria, do Black Alien, Paulo Miklos e Don L) para ilustrar o divertido esquema dos escaravelhos (que eu aprendi com o livro que são o mesmo que besouros), aspecto mais memorável da trama.

O Escaravelho do Diabo - Cena 3Isso quer dizer que estamos diante uma versão brasileira de O Silêncio dos Inocentes? Não mesmo. No geral, fiquei satisfeito com o que vi e acho que o diretor realizou um bom trabalho, mas ainda assim trata-se de um filme que foi feito para um público do qual eu não faço mais parte. O Escaravelho do Diabo me fez reviver muitas boas memórias da minha adolescência e, no embalo da sessão, acabei até comprando alguns livros da Coleção Vaga-Lume pela internet, mas ele não é o tipo de filme de crime/suspense que me interessa atualmente: fora o trabalho do Caruso, as atuações são ruins, a fotografia excessivamente clara destoa da história sombria e a forma como a identidade do vilão é revelada lembra aquelas explicações mastigadas do final dos episódios do Scooby Doo.

Resumindo, acredito que esse filme é competente em resgatar e homenagear um clássico da literatura nacional, mas não acho que ele seja suficientemente bom para agradar um fã adulto de suspense que não tenha laços emocionais com o livro. Todo caso, fica o agradecimento aos produtores pelo o esforço e o desejo sincero de que o projeto de levar a Coleção para o cinema seja bem sucedido.

O Escaravelho do Diabo - Cena 4

Além do Arco-Íris Negro (2010)

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Além do Arco-Íris NegroDe vez em quando, gosto de pegar uns filmes esquisitões para assistir. Na última vez que fiz isso, ri bastante com a história de dois amigos que presenciam uma série de “suicídios” inexplicáveis no meio da florestas. Acredito que, mesmo quando a experiência é negativa, essas produções menos convencionais acabam servindo para estimular nossa criatividade e capacidade de interpretação. Assim sendo, peguei esse Além do Arco-Íris Negro, título que encontrei numa dessas listas de “10 filmes mais blablabla dos últimos anos” no Facebook. O “blablabla”, no caso, referia-se ao potencial dos listados para transformarem-se em “filmes cult”, o que é sempre um bom indicativo de esquisitice.

Mesmo correndo o risco de soar contraditório, devo dizer que fiquei insatisfeito com o que vi justamente por encontrar o tipo de filme que eu estava procurando. Como assim? Explico. Eu queria ver algo pouco convencional? Sim. Além do Arco-Íris Negro é esquisitão? Sim, muito. Vê-lo no dia do aniversário da esposa foi uma decisão inteligente? Não mesmo rs O fato aqui é que, fora uma risada gostosa que dei no final, não consegui aproveitar praticamente nada do filme. Além da história não revelar nada mais complexo do que a paixão do diretor italiano Panos Cosmatos por um determinado gênero cinematográfico, foi deveras frustrante compartilhar todas as maluquices visuais e sonoras do longa com a minha mulher no dia em que ela estava completando 29 anos. Nesta resenha, tentarei converter em palavras tanto a expressão de tédio absoluto que vi no rosto dela quanto os vários bocejos que dei durante a sessão. Acreditem, não foi fácil chegar no final do filme.

O começo não é dos piores. Um cientista genérico qualquer, desses vestidos de jaleco e com cara de maluco, aparece em um vídeo institucional com uma promessa. “Sua vida é insatisfatória? Venha conhecer o Instituto Arboria, um local feito para você alcançar a felicidade plena”. O tom amistoso do sujeito e suas aparentes boas intenções, no entanto, logo dão lugar a cruel realidade de um laboratório onde Elena (Eva Bourne), uma voluntária (?) do projeto é mantida presa pelo insano Dr. Barry Nyle (Michael Rogers).

Além do Arco-Íris Negro - Cena 4Essa interessante premissa, que tem alguns paralelos com o recente Ex-Machina (um homem e uma mulher conversando longamente dentro de um ambiente controlado), logo transforma-se em uma sequência interminável de divagações e imagens psicodélicas. Dr. Barry Nyle fala exaustivamente sobre sua visão doentia e distorcida da realidade enquanto Elena balbucia qualquer coisa sobre os pais. Além do Arco-Íris Negro, em vários sentidos, parece ser uma homenagem de seu diretor para aqueles filmes distópicos de ficção científica da década de 80. Os cenários são ao mesmo tempo claustrofóbicos e coloridos (a influência de trabalhos do Kubrick, como 2001 e O Iluminado, é gritante), os personagens são depressivos e a tecnologia é vista como uma força opressora. Além disso, ainda há aquele som irritante de sintetizadores reverberando o tempo todo e uma série de experiências visuais extraídas da combinação de elementos variados como água e fumaça que são introduzidas entre uma cena e outra.

Além do Arco-Íris Negro - CenaReconheço que o conceito visual é bacana (gostei demais daqueles Sentionautas) e acho que a homenagem a gêneros feita de coração é sempre positiva (vide títulos divertidíssimos como o Kung Fury), mas isso não faz de Além do Arco-Íris Negro um filme menos ruim. Para emular os discursos pretensiosos dos “cientistas/mentores loucos” da ficção, Panos Cosmatos cria o quê? Discursos pretensiosos, longos e insossos capazes de matar qualquer um de tédio. Essa lenga-lenga proposital poder até ser engraçada no começo, mas torna-se insuportável depois de um tempo. O visual tosco, por outro lado, não chega a incomodar, mas o som repetitivo e agoniante é o tipo de coisa que faz alguém querer dar um tiro na própria cabeça. Repetindo: entendo que a intenção era exatamente essa (pegar um estereótipo e levá-lo até as últimas consequências), mas isso não torna a apreciação do material menos sofrível.

Além do Arco-Íris Negro - Cena 3Depois de quase 2 horas de muitas pausas, copos de água e tapas na cara para conseguir ficar acordado, vi o final inesperado e repentino com bons olhos. Não convém comentar o que acontece, mas é algo muito absurdo e engraçado, ri alto mesmo. A esposa, é claro, não acho graça alguma. Para ser bastante justo, reconheço que eu até poderia ter gostado mais de Além do Arco-Íris Negro caso eu tivesse visto ele outro dia, em outra ocasião, mas nem por isso vou deixar de pensar que ele, mais do que o título esquisito que eu queria ver, é só um filme chatão mesmo, desses que o conceito é bem melhor do que a execução.

Além do Arco-Íris Negro - Cena 2

Star Wars – O Despertar da Força (2015)

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Star Wars - O Despertar da Força“Seduzido pelo lado Negro do SPOILER este texto foi, jovens padawans”

E lá se vão mais de 15 anos desde que eu dei de cara com o Anakin Skywalker no centro de Uberlândia. Em 1999, a franquia Star Wars retornou aos cinemas com o Episódio I – A Ameaça Fantasma e o saudoso Cine Bristol colocou uma maquete enorme do futuro Lorde Vader ao lado de sua bilheteria para promover o filme. Naquela época, além de não ter dinheiro para pagar o ingresso, o meu único contato com a saga havia sido através do jogo Super Return of Jedi, do Super Nintendo, então deixei passar a oportunidade de assistir o longa no cinema.

3 anos depois, quando o Episódio II – Ataque dos Clones estreou, a minha realidade já havia mudado um pouco: dinheiro para pagar a entrada não era mais um problema, visto que eu começara a trabalhar, e a minha falta de conhecimento da série foi compensada pela empolgação de um amigo do serviço, que me convenceu que ver o filme no cinema era algo absolutamente obrigatório. Fui, gostei do que vi, voltei no dia seguinte para outra sessão e então aluguei os DVD’s da série clássica e assisti Uma Nova Esperança, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi de uma só vez. Apaixonei-me de tal forma pelo universo e pelos personagens criados pelo George Lucas que, quando o Episódio III – A Vingança dos Sith foi lançado em 2005, assisti-o 2 vezes seguidas no dia da estreia e ainda voltei ao cinema outras 3 vezes antes de tirarem-no da programação para ver o Anakin cedendo ao lado Negro da Força.

Foi assim, leitores, que começou a minha história de amor com a série Star Wars. Depois disso, fiz questão de apresentar todos os filmes para a minha esposa (não dá para dormir sob o mesmo teto de alguém que não conhece o R2-D2), visitei o restaurante temático da franquia na cidade de São Paulo e enchi as paredes da minha casa com quadros dos personagens. Começo o texto compartilhando essas memórias e informações para que vocês possam dar o devido peso ao que escreverei agora: ir ao cinema ver material inédito da série foi uma das coisas mais emocionantes que eu fiz em toda a minha vida de cinéfilo! É sobre essa experiência extremamente emocional que vou tentar escrever à partir de agora. Aliás, não existe tentativa, certo Mestre Yoda? Ou a gente faz ou não faz, então vamos lá! 🙂

Star Wars - O Despertar da Força - CenaEu não quis comparecer à primeira sessão disponível, aquela das 00:01. Fiquei com um sono desgraçado na última vez que fiz isso e eu não queria desrespeitar O Despertar da Força com os meus bocejos. Todo caso, a minha ansiedade me fez comprar ingresso para 2 sessões seguidas: vi o filme as 19:15, saí do cinema, lanchei e retornei para a sala de exibição as 22:10. Foi com o público do primeiro horário que bati palmas e gritei e vibrei com a aparição de cada personagem e referência às trilogias anteriores, mas foi algo que aconteceu na segunda sessão que me fez confirmar o poder atemporal da saga. Um pai, que levou o filho para ver o filme, apresentou para o menino cada um dos personagens que apareceram na tela. “Hey, filho, aquele ali é o Han Solo!”. “Aquela ali é a Princesa Leia. Nossa, como ela envelheceu!”. Normalmente, esse tipo de “narração” me deixaria irritado, mas não pude deixar de ficar emocionado com a forma pessoal e carinhosa que o sujeito usou para referir-se aos personagens e com a naturalidade com a qual a criança ouviu o pai e foi assimilando aquele universo. Foi deveras bonito presenciar a série sendo passada, por assim dizer, de uma geração para outra.

Star Wars - O Despertar da Força - Cena 2Passada a euforia provocada pelo logo da Lucasfilm (que foi vendida recentemente para a Disney) e pela exibição do título da série, o famoso letreiro subiu para revelar que o Luke Skywalker (Mark Hamill) desapareceu alguns anos após a derrota do Imperador Palpatine. Procurando por ele, Poe Dameron (Oscar Isaac), piloto da Resistência, bem como membros da Primeira Ordem, organização ligada ao antigo Império Galáctico comandada pelo misterioso Kylo Ren (Adam Driver), vão até o planeta Jakku atrás de informações. Poe consegue parte de um mapa que contem o provável paradeiro do Jedi mas, capturado pelas tropas de Kylo, esconde as informações em uma unidade BB-8 e despacha-a para o deserto. Posteriormente, Poe consegue fugir com a ajuda do stormtrooper Fynn (John Boyega) e BB-8 é encontrado por Rey (Daisy Ridley), uma garota do planeta Jakku que sobrevive vendendo peças coletadas nos destroços da batalha entre o Império e a Aliança Rebelde.

Star Wars - O Despertar da Força - Cena 6Quando eu finalmente consegui colocar os pés no chão, respirar e acreditar que eu estava MESMO dentro de uma sala de cinema assistindo um novo Star Wars, pude confirmar algo que eu já havia notado anteriormente sobre o J. J. Abrams: o cara definitivamente é um mestre em criar/recriar ambientações. O Star Trek, filme dirigido pelo diretor em 2009, tem todo um climão sci-fi no início que é fundamental para que a história renda todas aquelas lutas épicas no final. O subestimado Super 8, por sua vez, é um filme que qualquer um acreditaria que foi rodado na década de 80 tamanha é a similaridade do material com outros títulos feitos naquele período. Finalmente, temos o Lost, um seriado que basta tu ver 2 ou 3 episódios para que tu compre e abrace a ideia de um grupo de sujeitos perdidos em uma ilha estranha. Nos 40 minutos iniciais de O Despertar da Força, Abrams mostra-nos os stormtroopers, coloca-nos a bordo de uma TIE fighter, leva-nos através das clássicas paisagens desérticas da série onde as carcaças de um Cruzador Imperial e de um AT-AT repousam e resgata aqueles larápios que seriam capazes de deixar orgulhoso o próprio Jabba, o Hutt. O diretor, juntamente com o roteirista Lawrence Kasdan (de O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi), conseguiu a proeza de criar um link mais direto e natural com a trilogia clássica do que o próprio George Lucas conseguiu quando assumiu o comando das prequências.

Star Wars - O Despertar da Força - Cena 5Ambiente preparado, personagens novos apresentados, TODO MUNDO amando o BB-8, e então é chegado o momento mágico e emocionante pelo qual todos os fãs haviam esperado desde que o primeiro trailer saiu. “Chewie, estamos em casa”. Palmas explodem, pessoas gritam e cai aquela lágrima sincera quando o Harrison Ford surge na tela interpretando o seu mais icônico personagem (desculpa, Indy). Han Solo envelheceu, mas ele continua aquele canastrão que responde um “Eu te amo”  com um “Eu sei”, continua contando vantagem de suas performances no comando da Millennium Falcon, continua acompanhado pelo Chewie (Peter Mayhew) e continua devendo grana para bandidos, ou seja, ele CONTINUA sendo o Han Solo que todo aprendemos amar. Reconhecido por Fynn e por Rey como o mito vivo que ajudou os Rebeldes a destruírem a Estrela da Morte, ele acaba assumindo o papel de conduzir essa nova geração de heróis através da trama. Nunca a palavra nostalgia fez tanto sentido: ver o grupo viajando pela galáxia e esgueirando-se pelos cantos das bases imperiais nos leva de volta para aqueles dias em que os recém apresentados Luke, Leia (Carrie Fisher), Han e Chewie fizeram o mesmo no Uma Nova Esperança. Lá no fundo do nosso coração, algo nos diz que aquilo não irá durar, mas é impossível tirar o sorriso de criança do rosto quando os personagens estão juntos falando sobre compactadores de lixo e coisas do tipo.

Star Wars - O Despertar da Força - Cena 3Depois de dar a devida atenção para Solo, Chewie e a Millennium Falcon, Abrams começa a introduzir os eventos que ditarão os rumos dessa nova trilogia. Aparentemente, Rey é filha de Luke e caberá a ela trazer o pai de volta do exílio a que ele submeteu-se após falhar no treinamento de Kylo, filho de Han e Leia que converteu-se ao lado negro da Força e que agora segue os ensinamentos do enigmático Supremo Líder Snoke (Andy Serkis). Muitos desses eventos são apenas sugeridos através de flashbacks e muita coisa fica no ar (Quem é a esposa de Luke? Por que eles abandonaram Rey? Qual a origem de Snoke?), mas já há bastante material por aqui para os fãs divertirem-se e criarem suas teorias. No meio disso tudo, Leia e C-3PO (Anthony Daniels) também reaparecem em uma cena cujo potencial emocional poderia ter sido melhor aproveitado (comparem o peso da entrada da Princesa com a do Han) e Fynn tem a sua chance de utilizar o Sabre de Luz em combate contra os seus ex-companheiros da Primeira Ordem. Esses stormtroopers, aliás, são infinitamente mais bem treinados do que aqueles vistos anteriormente, mas continuam tão ruins de mira quanto os clones do Jango rs

Star Wars - O Despertar da Força - Cena 8Os Rebeldes ressurgem com seus esquadrões de X-Wing em uma batalha que mostra que ainda podemos esperar grandes feitos do Poe Dameron, a República é destruída em uma cena triste e bela e Rey é sequestrada e torturada mentalmente por Kylo. Os nossos risos, apesar das piadas constantes de Fynn, vão ficando cada vez mais no passado e percebe-se que este filme vai caminhando para algo tão ou mais sombrio do que os eventos mostrados no A Vingança dos Sith. Rey percebe que consegue controlar a força, a Capitã Phasma (Gwendoline Christie) é detida e então Han encontra-se frente a frente com Kylo em uma ponte. O ambiente é sombrio, a música vai sendo lentamente substituída por uma silêncio ensurdecedor, os personagens pronunciam coisas que a gente já não consegue mais prestar atenção e então o pior acontece. Desculpem-me o exagero, mas eu não estava mentalmente preparado para ver o Han Solo morrer. Tudo bem, eu sei que é só um filme, mas eu fiquei tão triste e revoltado quando o Kylo atravessou-o com o Sabre de Luz que a minha vontade na hora foi abandonar a sala de cinema. Han Solo, aquele mesmo cara que fez o circuito de Kessel em 12 parsecs e que foi congelado em carbonita estava lá, morto por um idiota. Star Wars meio que tem dessas coisas, a gente acaba apegando-se de verdade aos personagens e não é fácil despedir-se deles. Descanse em paz, Capitão Solo!

Star Wars - O Despertar da Força - Cena 10Sobre o Kylo, é difícil não compará-lo com o Darth Vader, mas a grande verdade é que ainda temos poucas informações para estabelecermos paralelos. O sujeito é emotivo e descontrolado, tal qual o Anakin tornou-se a partir do Ataque dos Clones, e as habilidades de combate dele não são das melhores (o cara tem dificuldade para lidar com Fynn e Rey), mas ainda há muito para ser revelado sobre seu passado e o final dá a entender que ele ainda será devidamente treinado pelo Supremo Líder Snoke e retornará mais letal e centrado. Vader é insuperável, mas acredito que com o tempo (e com menos cenas sem o capacete rs), Kylo também conseguirá seu espaço junto aos grandes vilões da série.

Star Wars - O Despertar da Força - Cena 4No final, depois da tradicional e fantástica batalha campal onde os Rebeldes e suas X-Wings reúnem-se para destruir a poderosa Starkiller da Primeira Ordem, o absolutamente cool R2-D2 reaparece com o restante do mapa e Rey e Chewie partem para encontrar Luke. Mark Hamill então finalmente ressurge diante dos nossos olhos, velho, barbudo e trajando sua indumentária branca, tal qual o Ben Kenobi no Uma Nova Esperança. Rey entrega o Sabre de Luz pra ele, a câmera gira, o tema da série explode nas caixas de som e os créditos surgem. Alguns segundos depois, acordo do sonho e percebo que estou sentado dentro de uma sala de cinema. Caralho, mataram o Han Solo, desgraçados! Saio triste, mas saio com a certeza de que o J. J. Abrams conseguiu: Star Wars está de volta com força total e esse “recomeço” não poderia ter sido mais promissor. O caminho para a paz naquela galáxia muito muito distante será árduo e colocará em risco a vida de personagens que aprendemos a amar, mas novas lideranças surgirão, novas cenas emblemáticas como a queda do Han serão acrescentadas à mitologia da série e novas emoções nos aguardam nos próximos anos.

Star Wars - O Despertar da Força - Cena 9Este texto ficou gigante (é o maior que escrevi desde que comecei o blog), mas não podia ser diferente quando trata-se de Star Wars. Do medo que senti inicialmente, medo de cometer alguma heresia escrevendo algo que não fosse digno da série, passei à empolgação de fã que fala daquilo que mais gosta e aí falei demais rs Medo, todo caso, leva a raiva, raiva ao ódio e ódio leva ao sofrimento, não é mesmo, Mestre Yoda? Então que haja apenas alegria: sinto-me verdadeiramente realizado por viver na época em que Star Wars retornou com toda sua majestade aos cinemas. Que venham os próximos filmes e que a força esteja com todos nós!

Star Wars - O Despertar da Força - Cena 7

Pixels (2015)

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PixelsLembro de ficar empolgadíssimo quando comecei a assistir o trailer desse Pixels. Lá estavam todos aqueles personagens de jogos de videogames invadindo e destruindo nosso planeta, o queridinho Peter Dinklage do Game of Thrones interpretando um cara malvadão e uma cena mágica que promovia o encontro do Professor Iwatani com a sua maior criação. Antes, porém, que eu chegasse a acreditar que o filme poderia tornar-se um novo clássico da cultura nerd (juntando-se a títulos recentes como o Detona Ralph), o Adam Sandler surgiu na tela com aquela expressão de tédio absoluta que ele usa em 10 de 10 personagens que interpreta. Fosse antigamente, o simples fato do ator estrelar a produção já seria o suficiente para que eu não pagasse para vê-la, mas, como tenho tentado me livrar desse tipo de preconceito, resolvi dar uma chance ao filme (ainda que mais pelo potencial da ideia do que por acreditar que o ator pudesse me surpreender) e fui conferí-lo no cinema.

Pixels, que é assinado pelo Chris Columbus (de Esqueceram de Mim 1 e 2 e dos dois primeiros Harry Potter), começa com uma viagem nostálgica até a década de 80 para mostrar como as crianças amontoavam-se nas casas de jogos para enfrentar os desafios de arcades como Pac-Man, Centopéia e Donkey Kong. Três delas, Brenner, Cooper e Eddie, conhecem-se em um campeonato nacional de videogames e anos depois, já adultos (e interpretados respectivamente por Adam Sandler, Kevin James e Peter Dinklage), são escolhidos para proteger a Terra de alienígenas que tentam nos destruir usando gigantescos e ameaçadores personagens de jogos.

Pixels - Cena 2Pixels poderia ser um filme sobre videogames com pitadas de comédia, mas infelizmente ele tornou-se apenas mais uma produção do Adam Sandler com os jogos ocupando um insatisfatório papel secundário. E o que é “apenas mais um filme do Adam Sandler”? Explico. Você tem um cara solteirão. Ele não é pobretão, mas definitivamente ele também não é o que pode-se chamar de alguém que venceu na vida. Esse cara conhecerá uma mulher, enfrentará algumas dificuldades para conquistá-la mas, no final, seu bom coração contará mais do que seu mau humor acumulado por anos de insucessos e o amor prevalecerá entre os dois.

Pixels - Cena 3Obviamente, existem variações dessa fórmula, mas, no geral, a impressão que eu tenho é a de que todos os filmes do ator encaixam-se de uma forma ou de outra dentro desse arquétipo e com Pixels não é diferente. A cocota da vez é a delicinha Michelle Monaghan, uma mulher divorciada que trabalha para o governo e que passa o filme todo flertando/implicando com Brenner, personagem do Sandler. Para completar o clichê, ela tem um filho que logo simpatiza com o cara e aí não precisa ser muito esperto para adivinhar que no final da trama teremos a formação de mais uma família feliz. Não tenho nada contra famílias felizes, mas já cansei de acompanhar esse tipo de história insossa dentro de filmes que deveriam estar investindo o tempo de projeção em outras coisas, no caso, na nostalgia dos jogos de arcade clássicos. Para dizer pouco, ignorei tudo que envolveu esse romance manjado e no máximo esbocei um sorriso ou outro com as piadas do ator, ou seja, não aproveitei cerca de 50% do produto pelo qual eu paguei.

Pixels - Cena 4Quando deixa esses nhenhenhês de lado, Pixels intercala boas cenas de ação com uma porção de idéias sem pé nem cabeça que tu necessariamente tem que abraçar para divertir-se com a experiência. Se, ao ver o trailer, tu achou bastante improvável que o planeta algum dia seja atacado por personagens de videogames, espere até você ver o presidente dos Estados Unidos interpretado pelo Kevin James (outro ator que parece sempre fazer o mesmo cara). Há um exagero proposital e voltado para o humor nos trejeitos do cara e na “incompetência” de seus assessores, mas o fato de ele chamar amigos pessoais para resolver questões de segurança nacional é muito mais bizarro do que engraçado.

Filtrando todo esse conteúdo de segunda, temos 3 grandes sequências de ação e, claro, a participação do Peter Dinklage. É bem verdade que o anão também não faz nada muito diferente daquilo que ele apresenta no Game of Thrones, visto que o tal Eddie é um beberrão e falador nato que, tal qual o Tyrion, não mede esforços para conseguir o que quer, mas o cara, além de ser “totalmente tubular”, agrada ao explorar referências a jogos (quando bate no peito tal qual o Donkey Kong), filmes (ao fazer exigências absurdas para salvar o mundo assim como o Bruce Willis o fez no Armageddon) e ao requisitar a companhia da poderosa Serena Williams.

Pixels - CenaAs cenas de ação, que no final de contas é o que todo nerd esperava assistir após conferir o trailer, são legais e satisfatórias, mas aqui também faz-se necessário algumas observações.

  • A do jogo Centopéia, que é antecedida por uma participação completamente dispensável do Sean Bean, poderia ter um final menos forçado. Não faz NENHUM sentido aquela centopéia deixar o campo de combate e correr rumo as casas.
  • A do Pac-Man foi MUITO prejudicada pelo trailer. Além de revelarem ali seu melhor momento (o encontro de criador e criatura), também já haviam mostrado a mecânica dos fantasminhas (que são substituídos por carros). O “cheat” usado por Eddie nessa cena também é algo que não dá para explicar, tu tem que aceitar e pronto.
  • A cena do Donkey Kong, que acontece em meio a uma batalha campal tão divertida (por reunir uma infinidade de personagens) quanto genérica, é o tipo de material que poderia ter aparecido mais ao longo do filme. Aqui, tudo funciona: é legal ver a ação sendo mostrada lateralmente (tal qual acontecia nos jogos), os power ups são legais e a mecânica utilizada pelos personagens para vencer o vilão é uma representação divertida e fiel do arcade.

Infelizmente, Pixels não valeu o ingresso. As cenas envolvendo videogames poderiam ter sido mais exploradas, tanto em tempo quanto em qualidade, e o humor baseado em mau humor do Adam Sandler, que definitivamente já deu o que tinha que dar, é difícil de tolerar. É uma pena, porque a ideia em si era muito boa, mas a verdade é que esse novo filme do Columbus, que poderia ocupar um lugar no coração dos milhares de jogadores que cresceram divertindo-se com aqueles jogos, não passa de uma produção ruim fadada a preencher a grade de programação dominical de uma emissora de TV aberta qualquer.

Obs.: “Pra variar”, o 3D é uma enganação.

Pixels - Cena 5

Kung Fury (2015)

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Tal qual era esperado, Vingadores: Era de Ultron e Mad Max: Estrada da Fúria tornaram-se dois dos filmes mais comentados do ano até agora. Surpresa de verdade foi o fato de um curta metragem sueco lançado no mesmo período ter sido tão ou mais celebrado nas redes sociais do que os aguardados blockbusters hollywoodianos. Kung Fury, projeto idealizado, escrito, dirigido e interpretado pelo polivalente David Sandberg, é uma mistureba de gêneros feita sob medida para agradar o público saudoso da “estética” da década de 80. Nunca utilizei o blog para comentar curta metragens, até porque não costumo vê-los com muita frequência, mas resolvi abrir uma exceção para ajudar a divulgar essa que é inquestionavelmente uma das produções mais insanas e divertidas dos últimos anos.

Em uma cidade dominada pelo crime em que aparentemente todos os cidadãos carregam um toca fitas gigante nos ombros, o policial Kung Fury (Sandberg) é o único que pode fazer frente aos delinquentes e aos de fliperamas que, revoltados com os jogadores, ganham vida e transformam-se em máquinas de combate gigantes, provocando caos e destruição. Certo dia, Adolf Hitler (Jorma Taccone), também conhecido como Kung Fuhrer (!!!), ressurge e obriga o herói a viajar no tempo até a Alemanha Nazista para conter a ameaça de dominação mundial do ditador.

Kung Fury - Cena 2Se você acha que nada do que foi dito no parágrafo anterior faz o menor sentido mas, mesmo assim, percebeu o potencial de diversão do roteiro, parabéns, você é um fã em potencial de Kung Fury. A genialidade do trabalho do Sandberg foi reconhecer e reunir todos os estereótipos, exageros e aquelas coisas ruins incrivelmente boas da década de 80 em uma história de 30min que homenageia aquele que foi um dos períodos mais férteis para a cultura pop. Não há dúvidas de que trata-se de um “filme de nicho”, desses que provocam idolatria e risadas histéricas em algumas pessoas enquanto outras (a grande maioria, aliás) acharão tudo chato e mal feito e não esboçarão um sorriso sequer. Na esperança de que você, caro leitor, pertença ao primeiro grupo, compartilho contigo os meus momentos favoritos:

Kung Fury - Cena 4

  • O logo: A primeira imagem que aparece no filme é um bom indicador do que veremos a seguir. O logo da produtora de Sandberg, a Laser Unicorns (rs), remete aqueles logos pomposos com letras em cinza metálico que 7 entre 10 bandas de metal utilizavam antigamente.
  • Os toca fitas: Tem coisa mais “década de 80” do que andar com um toca fitas no ombro? O aparelho ainda é utilizado na história para fazer uma divertida referência com a série O Exterminador do Futuro.
  • O roteiro: Quantos filmes ou seriados policiais vocês já viram que o personagem principal perde seu parceiro em ação e depois recusa-se a trabalhar com outro cara, cara esse esse que acaba revelando-se um sujeito bacana? Quantos que o inimigo é a Alemanha Nazista? Quantos em que o personagem ganha super poderes de uma forma bizarra? Sandberg utiliza todos esses lugares comuns para criar o roteiro mais clichê possível e o resultado é legalzão: Kung Fury ganhou suas habilidades marciais quando foi picado por uma cobra e atingido por um raio ao mesmo tempo (!!!), rejeita seu novo parceiro (que é um TRICERÁTOPS vestido de policial rs) e volta no tempo para desafiar Hitler no braço. Sensacional.

Kung Fury - Cena

  • O fator nonsense: Antes de enfrentar o Fuhrer, o herói vai para o período jurássico e é ameaçado por um LASER RAPTOR. Salvo por uma delicinha viking e sua metralhadora, Kung Fury monta em um Tiranossauro Rex e vai conhecer Thor, que é um velho marombeiro que fica beijando os próprios músculos. Por mais que eu me esforçasse bastante, acredito que eu nunca conseguiria explicar para alguém o quão engraçado eu achei tudo isso. É muita coisa ruim, absurda e genial reunida em poucos minutos e só quem conseguir suspender a descrença aproveitará todo o potencial cômico do filme.
  • As referências: Kung Fury é, basicamente, um amontoado de referências a outros filmes, seriados, programas de TV, jogos de videogame e discos de música, portanto em cada cena teu conhecimento sobre a cultura pop poderá lhe brindar com algum easter egg. Particularmente, reconheci que o tal Hoff 9000 é uma homenagem ao Hal 9000 do 2001 – Uma Odisséia no Espaço, encarei a sequência de animação como uma referência a clássicos como He-Man e Comandos em Ação, liguei a faixa vermelha ao Rambo e vi reproduzidos na cena de ação lateral todos os movimentos e sons do game Mortal Kombat. Sei, no entanto, que deixei muitas coisas passarem batida, e isso acaba sendo bom porque dá vontade de assistir o filme outras vezes.

Kung Fury - Cena 3Kung Fury é o tipo de material feito de alguém que é fã de verdade de alguma coisa para pessoas que também o são. Para bancar os custos da produção, Sandberg realizou uma campanha na internet visando arrecadar 200 mil dólares, valor necessário para a produção de um curta. Caso arrecadasse 1 milhão, ele faria um longa metragem. Esse segundo objetivo não foi atingido (o montante final foi de cerca de 600 mil), mas é bem provável que a popularidade alcançada pelo curta impulsionem um segunda investida. Torço fervorosamente para que isso aconteça (imaginem um filme de 1h30min com personagens como o bonitão Hackerman rs) e faço aqui a minha parte ajudando a divulgar o excelente trabalho do diretor.

Kung Fury - Cena 5