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Be Here Now (2015)

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Assisti Spartacus ao longo de 2016 e, no início, não gostei muito do que vi. Eu conhecia a história do personagem através daquele filme interminável do Kubrick de 1960 e, na primeira temporada da série, tive a impressão de que o roteiro sobre o escravo que comandou uma rebelião contra o Império Romano foi deixado de lado para privilegiar as cenas de ação e putaria.

Claramente inspirado pelo trabalho conceitual do Zack Snyder no 300, Spartacus começou mal com cenários toscos gerados por CGI, repetidas lutas sangrentas em slow motion e uma porção de homens fortões seminus que conversavam como se estivessem recitando poemas. Todo caso, o roteiro foi tomando corpo ao longo do caminho, os personagens foram tornando-se mais e mais carismáticos (o Gannicus é muito legal) e, quando terminei a quarta e última temporada, bateu aquela tristeza por saber que não havia mais material para ver, ou seja, a série havia superado o início ruim e ganhado o meu coração.

O último episódio, aliás, trouxe uma dose extra de emoção para quem acompanhou as notícias de bastidores de Spartacus. Terminada a história e encerrados os créditos finais, exibiram uma justa e tocante homenagem ao Andy Whitfield, ator que interpretou o protagonista na primeira temporada mas que abandonou a série após ser diagnosticado com câncer. Infelizmente, Andy não resistiu ao tratamento e faleceu vítima da doença no dia 11 de setembro de 2011. Não serei hipócrita e dizer que eu achava o cara um grande ator (além de não ter lembranças dele naquele Gabriel, que é um filme horroroso, acho que o Liam McIntyre encarnou melhor o gladiador), mas ainda assim é sempre estranho e triste quando um rosto conhecido nos abandona. Assim sendo, fiquei bastante emocionado quando terminaram a série mostrando o Andy gritando “I”m Spartacus” naquela que talvez seja a cena mais marcante da produção.

Lembro que, quando o episódio acabou, enxuguei as lágrimas e fui procurar informações sobre a morte do ator. Foi aí que encontrei esse Be Here Now (ainda sem título nacional), documentário no qual a diretora Lilibet Foster conta como a família Whitfield lidou com a doença desde o momento de sua descoberta até o falecimento de Andy. A minha intenção era vê-lo de imediato, mas vasculhei todos os cantos da internet e não tive sucesso na busca. Desde já, fica a dica: se você também procurou e não encontrou (ou se você ficar interessado em assistir após ler esta resenha), saiba que o título foi disponibilizado recentemente na Netflix 🙂

O primeiro ponto que precisa ser comentado é que Be Here Now é mais sobre o Andy Whitfield pai e esposo do que sobre o cara que interpretou o Spartacus. Como a maioria das pessoas conheceram o ator através da série, é perfeitamente natural que o público queira ver cenas de bastidores da mesma bem como saber de que forma a doença impactou as gravações. Ciente disso, a diretora reserva espaço para que o ator Jai Courtney (o Varro da 1° temporada) fale sobre seu colega e mostra cenas de Andy ensaiando e atuando como o personagem, mas na maior parte do tempo o que vemos são cenas do dia a dia da família Whitfield e depoimentos que Andy e sua mulher, a valente Vashti Whitfield, registraram de si mesmos. Tal abordagem pode até deixar alguns fãs frustrados (inicialmente, eu também queria ver mais conteúdo sobre a série), mas o resultado não decepciona ao compor um registro intimista e emocionante dos últimos dias de um homem que precisou encarar a própria mortalidade e preparar sua saída de cena.

Lilibet não dá muitos detalhes sobre o assunto, mas é citado o fato de que Andy já havia enfrentado e vencido outro câncer antes de ser diagnosticado novamente com um linfoma em março de 2010. Dessa forma, o início do tratamento é pouco traumático: ele já venceu a doença uma vez e voltará a vencer. Tendo retornado para sua casa na Austrália após afastar-se das gravações da série, Andy opta então por realizar um tratamento espiritual na Índia antes de iniciar o processo de quimioterapia. Em sua fé, o ator acreditou que a medicina e os conhecimentos milenares do oriente poderiam prepará-lo para o que viria a seguir. Independente da opinião que possamos ter sobre temas como astrologia e medicina alternativa, essa passagem é bastante bonita por dois motivos: 1) Andy recebe a visita do pai na Índia e, juntos, eles visitam lugares fantásticos e andam de moto nas ruas caóticas daquele país. Acredito que isso é o tipo de lembrança boa para um pai guardar do filho. 2) A sintonia entre Andy e sua esposa é muito bacana. Vashti deixa bem claro sua opinião sobre aquela viagem (ela preferia que o marido iniciasse a quimioterapia imediatamente), mas o faz de forma respeitosa e mostra-se disposta a apoiá-lo 100% quando ele decide ir.

Findada a viagem, Andy retorna confiante para casa e inicia o tratamento. É um período difícil e confuso: ao mesmo tempo que os médicos fazem diagnósticos que mostram a remissão do linfoma, surgem notícias desanimadoras sobre a detecção da doença em novas áreas do corpo do ator. Andy demonstra ser um homem forte e de poucas palavras, mas não são poucas às vezes que a câmera capta-o com os olhos cheios de lágrimas após os telefonemas que não trazem as notícias que ele esperava. Vashti é uma fortaleza e doa-se por completo para a situação, desdobrando-se para auxiliar o marido sem deixar os dois filhos de lado, mas quando fica sozinha ela desmorona e fala sobre o medo de perder seu amor. Novamente, a maturidade do casal chama a atenção. Seja nos consultórios escutando que o quadro piorou, seja no dia a dia alegre da família, os dois demonstram uma química fantástica e estão sempre dispostos a ouvirem e confortarem um ao outro. A forma madura como eles discutem um tema espinhoso como a possibilidade real de Andy morrer é algo que todos os casais deveriam aprender a fazer.

Começamos a ver Be Here Now sabendo que ele não terá um final feliz, mas ver Andy lutando contra a doença (e praticamente vencendo-a antes de definhar por completo) nos dá uma falsa sensação de esperança que é completamente destruída pela inevitável confirmação de que o ator perdeu a batalha para o câncer e faleceu aos 39 anos de idade. Felizmente, a diretora teve bom senso e evitou o sensacionalismo, logo a gente não vê nenhum registro em vídeo da família no dia do ocorrido, mas mesmo assim é difícil segurar a emoção quando Vashti narra como foram os últimos momentos ao lado de seu marido. A grande verdade é que ninguém está preparado para perder o amor de sua vida, logo a gente entende perfeitamente o que aquela mulher sentiu e chora junto com ela. Chora muito.

Be Here Now, numa tradução livre, seria algo como “estar aqui agora”. Andy Whitfield tatuou esta frase no antebraço no início do tratamento para simbolizar a importância de aproveitar cada momento como se ele fosse o último. Se até mesmo o forte Spartacus, aquele que venceu o gigante Theokoles e trouxe a chuva de volta, sucumbiu diante de uma doença, é bom que nós, meros mortais assinantes da Netflix, aprendamos com a mensagem de Be Here Now e percebamos a urgência de encararmos a brevidade da vida, de “estarmos aqui agora” e abraçarmos com força cada oportunidade de sermos felizes que tivermos. Afinal de contas, nunca saberemos quando poderemos dar um último beijo na pessoa amada ou quando haverá um quebra molas no caminho. Descanse em paz, Andy.

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Divines (2016)

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divinesA cerimônia do Globo de Ouro 2017 foi realizada no último domingo, dia 08/01. Eis alguns comentários sobre o que vi (e alguns sobre o que li no dia seguinte):

  • La La Land: Cantando Estações levou tudo. Indicado em 7 categorias, o musical terminou a noite com 7 estatuetas e transformou-se no favorito para vencer o Oscar de Melhor Filme deste ano. Moonlight: Sob a Luz do Luar (e dá-lhe subtítulo tosco!) levou o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e correrá por fora (apesar que, considerando o que houve em 2016, sempre pode surgir um azarão).
  • O Rubens Ewald Filho continua insuportável. Fora os comentários rasos sobre os concorrentes (quando perguntado sobre o Ryan Gosling, ele disse que é um ator ‘interessante’), o crítico foi grosseiro ao menosprezar a vitória do Casey Affleck, classificando-a como “uma grande bobagem”. Pessoalmente, eu também preferia o Denzel, mas daí a dizer que o Casey é um ator ruim é MUITA babaquice.
  • Que bom que a Isabelle Huppert venceu na categoria Melhor Atriz – Drama. A performance visceral dela não merecia ser eclipsada pelo fato do Elle ter sido feito fora de Hollywood.
  • A Meryl Streep foi homenageada com o prêmio Cecil B. DeMille pelo conjunto da obra e, no discurso de agradecimento, fez duras críticas ao comportamento do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, bem como às suas promessas de políticas anti-imigracionistas. No outro dia, as redes sociais estavam cheias de mensagens de apoio à atriz, mas também houve quem acusasse-a (como o próprio Trump fez) de mentir por não aceitar a derrota dos democratas na última eleição. Do ocorrido, extrai-se que, mesmo que aos trancos e barrancos, a liberdade de expressão ainda respira (ela pode acusá-lo, sem provas, de zombar da deficiência de um repórter; ele pode dizer que ela, vencedora de 3 Oscars, é uma atriz superestimada). Também conclui-se que a internet transformou-se no grande tribunal do século XXI. Eu, que também sou juiz, achei que o apelo da atriz por tolerância, respeito e paz perdeu-se um pouco na insistência sobre o caso do deficiente e na comparação infeliz entre cinema e MMA. Esses “deslizes”, porém, não invalidam o resto da mensagem, ou alguém discorda que “violência gera violência e desrespeito gera desrespeito”? As vezes, é bom analisar mais os discursos e menos os oradores.

Divines (que provavelmente sairá por aqui como Divinas – Duas Garotas da Pesada), produção original da Netflix da diretora Houda Benyamina, concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Assisti-o sem muitas expectativas (ele não entrou na lista final de produções indicadas ao Oscar e, no Globo, os favoritos eram o Elle, que ganhou, e o The Salesman) e encontrei um filmão, daqueles que tu termina e tem vontade de sair comentando e indicando para todo mundo.

divines-cena-2Dounia (Oulaya Amamra) é uma adolescente lutando para sobreviver na periferia de Paris. Filha de uma prostituta alcoólatra (!!!), Dounia pratica pequenos roubos nos supermercados locais para adquirir produtos que, posteriormente, ela e Maimouna (Déborah Lukumuena), sua amiga, venderão na escola durante os intervalos. Foi após ver uma cena ambientada nessa escola, aliás, que eu perdi o meu chão.

No que parece ser uma aula profissionalizante, uma professora tenta ensinar as atribuições de uma secretária para as alunas. “Boas secretárias”, ela diz, “sorriem, sentam com a coluna ereta e estão sempre preparadas para resolverem conflitos”. Dounia, que é literal e metaforicamente uma filha da puta, atrapalha a aula de todas as formas possíveis. Com a paciência no fim, a professora pergunta se Dounia não pensa no futuro, se ela não quer ganhar dinheiro. A resposta da menina é fulminante: “Ser secretária pra quê? Para ter a mesma vida miserável que você? Quanto você ganha? O suficiente para pagar o aluguel, água, energia, telefone e comprar essas roupas feias que você usa? Eu quero MONEY, MONEY, MONEY!”. A sala inteira ri. Irritada, a professora expulsa Dounia da sala.

divines-cena-5O incômodo com o que vi não deixa de ser uma reação natural de empatia. Eu também sou professor e, infelizmente, já vivi situações semelhantes, logo é fácil imaginar a frustração que aquela mulher passou. O vazio que senti, no entanto, vai um pouco além da empatia. Em um primeiro momento, eu até fiquei com raiva de Dounia. Vai ser grossa assim lá na puta que pariu! Na sequência, porém, eu não pude deixar de reconhecer que há uma verdade inconveniente no que ela diz. O planejamento de vida a longo prazo baseado na escola (estudar, aprender uma profissão, batalhar por alguns trocados) deixou de ser uma opção para os jovens que crescem acostumados com a velocidade da internet. Eles não querem conselhos sobre coluna ereta e nem promessas de um futuro estável, eles querem dinheiro, sexo, roupas de marca, bebidas e carros, tudo aqui e agora. Nós, um dia, também desejamos o mesmo, mas daí crescemos, apanhamos um pouco da vida e percebemos que não existem muitos atalhos: se você quer algo, você tem que esforçar-se para consegui-lo. É ruim ver que, por melhor que sejam nossos argumentos, nós não conseguimos mudar a cabeça de alguns jovens. Infelizmente, eles também precisam se ferrar para aprender, e em Divines Dounia se ferra pra valer.

divines-cenaApós virar as costas para a escola e perceber que a mãe não lhe dará nenhum futuro, Dounia e Maimouna começam a trabalhar para Rebecca (Jisca Kalvanda), uma traficante local. No início, elas realizam tarefas simples, como vigiar o quarteirão para certificar-se que a policia não aparecerá no meio de uma venda de drogas, mas logo Rebecca decide usar a inteligência e a beleza de Dounia para faturar alto. Na cidade, há um figurão que guarda 100mil dólares em casa. Caberá a Dounia seduzi-lo e rouba-lo.

Divines tem o mesmo poder de assustar/conscientizar que, em seu tempo, filmes como Eu, Christiane F., Diário de um Adolescente e Réquiem para um Sonho tiveram. A diretora Houda Benyamina construiu uma narrativa do tipo “ascensão e queda” bastante didática e atual para mostrar para os jovens (ou até mesmo para os adultos que não amadureceram) que não há como escapar das consequências de atos ilícitos. As meninas divertem-se muito antes dos problemas acontecerem (há uma cena verdadeiramente divina, tanto pela execução quanto pela atuação das atrizes, em que elas fingem dirigir uma Ferrari ), mas, no fim, a conta chega. É um filme moralista? É, mas um pouco de moralismo não faz mal para quem maltrata professores e acredita que pode sair por aí roubando, vendendo drogas e ganhando Iphone de graça, não é mesmo?

divines-cena-4A diretora não desconsidera o ambiente ruim em que Dounia cresceu (família desestruturada, vizinhança violenta). Houda parece ser partidária da ideia de que as condições influenciam, mas não determinam o destino de alguém, e por isso gasta um tempo mostrando que, apesar de tudo, há caminhos (o amor, a arte, a amizade) fora do crime para que os jovens possam escapar das armadilhas de uma sociedade em que eles valem o que consomem. Como eu concordo com ela, levarei Divines para os meus alunos verem esse ano, não para ditar caminhos, mas para dar exemplos e mostrar que sempre haverá mais de uma opção.

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What Happened, Miss Simone? (2015)

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What Happened, Miss SimoneAcabou! Acabou! Acabou! A não ser que O Filho de Saul ou O Abraço da Serpente vazem de hoje para amanhã (e eu duvido muito que isso aconteça), esse What Happened, Miss Simone?, produção original da Netflix, será o último indicado ao Oscar de 2016 que resenharei. Como quero utilizar esse texto para fazer alguns comentários sobre o trabalho que realizei, vou começar analisando o documentário e, no final, reservarei um espaço para finalizar a cobertura do Oscar. Fiquem a vontade para lerem apenas a parte do texto que lhes interessarem 🙂

No começo, quando coloquei What Happened, Miss Simone? pra rodar no Netflix, não liguei nem o nome e nem a voz à pessoa. Assim sendo, deixei que a diretora Liz Garbus me apresentasse uma cantora que começou a carreira ainda criança quando foi descoberta por uma professora de piano em uma igreja. Eunice Waymon, que mais tarde mudaria o nome para Nina Simone, ambicionava ser a primeira pianista clássica negra dos EUA e para isso ela dedicou os primeiros anos de sua vida estudando teoria musical e compositores como Bach. Nina alcançou o sucesso e transformou-se em uma das vozes mais marcantes de sua geração, mas isso não garantiu-lhe paz de espírito.

Para responder a pergunta que faz no título do documentário (O que aconteceu, Srta. Simone?), a diretora utiliza imagens de shows e de entrevistas gravadas por Nina (ela faleceu em 2003), bem como dá voz a pessoas que conviveram diretamente com ela, como sua filha e Andrew Stroud, seu esposo e empresário. Notei que, apesar de citar o diagnóstico de bipolaridade que teriam atribuído à cantora e mostrar que ela não mediu consequências na hora de participar da luta pelo fim da segregação racial durante a década de 60, Liz Garbus é excessivamente respeitosa ao apontar os motivos que comprometaram a carreira de Nina. O comportamento muitas vezes intransigente nos palcos e o discurso violento que ela parece ter adotado enquanto manifestava-se pelos direitos civis, ao meu ver, não são suficientemente problematizados pela diretora, que prefere concentrar-se mais nos aspectos da vida privada da cantora para buscar as respostas que ela procurava.

What Happened Miss Simone - Cena 2What Happened, Miss Simone?, conta-nos, por exemplo, que Nina desenvolveu uma personalidade mais reservada por ter crescido separada das outras crianças de sua idade. Enquanto todos corriam e brincavam, ela estava sentada e concentrada nos estudos musicais. Já na adolescência, Nina depara-se com a face preconceituosa da sociedade americana quando é rejeita de uma escola de música devido à cor de sua pele. Quando adulta, ela precisa conviver diariamente com a violência e a ganância do marido, que espanca-a constantemente e age como um parasita sobre a carreira e os lucros dela.

Tudo isso, a diretora Liz Garbus nos diz, contribuiu para que a cantora fosse acumulando uma série de tristezas e frustrações que tanto explodiram nas mensagens anti-sistema que ela converteu em música enquanto lutou ao lado de nomes como Martin Luther King e Malcolm X quanto foi preponderante para que, no auge do sucesso, ela abandonasse tudo e todos e se mudasse para a África. Não acho, porém, que Nina tenha sido uma vítima das cruéis circunstâncias que a vida lhe impôs: o que vi foi uma mulher forte que, quando atingiu o topo, não quis mais curvar-se nem para a sociedade e nem para a família. Durante esse processo, ela cometeu alguns erros de julgamento (os que eu disse que a diretora poderia ter explorado mais) e acabou pagando um preço altíssimo por isso (perder público, chegar a ser confundida com uma moradora de rua), mas ela parece ter chegado no final da vida consciente de que os altos e baixos enfrentados levaram-na até onde ela queria chegar.

What Happened Miss Simone - Cena 4Durante o filme, a diretora mostra algumas das canções mais conhecidas de Nina, como Don’t Let Me Be Misunderstood e My Babe Just Cares For Me, mas foi justamente por uma música que não foi executada que eu acabei lembrando que eu já conhecia a cantora. Como assim? A medida fui ouvindo aqueles movimentos rápidos no piano e ficando encantado com a voz marcante de Nina, recordei-me que a Feeling Good, música que o Muse resgatou no álbum Origin of Symmetry, é de autoria dela. Ao contrário do que eu disse na resenha do Amy, estou percebendo que gosto bastante de jazz, pois foi bom conhecer a história da Nina, mas foi melhor ainda ouvi-la cantar. A execução no final da música Stars, aliás, é o tipo de momento que merece ser chamado de “embasbacante”: tal qual alguém que resume a própria vida, Nina expõe a alma no palco enquanto fala de estrelas que vem e vão. É de arrepiar, de verdade.

What Happened Miss Simone - CenaBem, a resenha de What Happened, Miss Simone? acaba aqui. Sobre os últimos 3 meses e todo o trabalho que fiz para cobrir o Oscar, devo dizer que estou bastante feliz comigo mesmo. Lá em dezembro, quando iniciei o processo com o texto do Beasts of no Nation, eu estava bastante cansado e desanimado com o blog: era final de ano letivo na escola onde eu dou aula e duvidei de verdade que eu fosse conseguir tempo para ver todos os indicados. Foi então que filmes como O Despertar da Força e Os Oito Odiados foram estreando e me fazendo lembrar do porque o cinema ter convertido-se na grande paixão da minha vida: tive ótimas experiências cinematográficas na passagem de 2015 para 2016 e isso fez com que eu decidisse esforçar-me para realizar a minha melhor cobertura do Oscar até então. Não foi fácil. Esse ano, a Academia escolheu muitos títulos bons, como O Quarto de Jack, mas também selecionou títulos chatos e difíceis como A Grande Aposta. Se não tive as mesmas dificuldades que tive o ano passado para ver os indicados a Melhor Filme (só consegui ver o Selma, por exemplo, faltando 3 dias para a premiação) e a Melhor Animação (vi todos dessa vez, em 2015 faltou o A Canção do Oceano), não posso dizer o mesmo dos concorrentes a Melhor Filme Estrangeiro: sempre costuma faltar um ou outro, mas dessa vez faltaram dois e um deles, O Filho de Saul, é o franco favorito a levar a estatueta. Todo caso, o resultado é extremamente positivo: com esse documentário (e faço questão de pontuar que é a primeira vez que resenhei dois indicados nessa categoria), somam-se 28 textos de filmes que amanhã concorrerão entre si pelo prêmio máximo da indústria cinematográfica americana. Eu me propus a fazer algo e consegui: estou feliz e agora vou abrir uma cerveja para comemorar essa vitória enquanto revejo O Regresso, filme pelo qual torcerei amanhã com todas as minhas forças. Chegou a sua hora, Leo!

What Happened Miss Simone - Cena 3

Paraísos Artificiais (2012)

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Paraísos ArtificiaisEm 2012, quando Paraísos Artificiais foi lançado, não consegui encontrar motivos para assisti-lo. Pelo que entendi através do trailer, tratava-se de um longa sobre o universo das festas rave e de temas que lhes são comumente relacionados, como a juventude, drogas e música eletrônica. Como na época eu nem sonhava em frequentar esse tipo de ambiente, deixei passar a oportunidade de ver o filme no cinema e meio que acabei esquecendo dele. O tempo passou, tive minha primeira (e traumática) experiência em um desses eventos e, recentemente, reencontrei o Paraísos Artificiais dentre os títulos disponíveis no Netflix. Dessa vez, a minha indiferença foi vencida por duas curiosidades distintas:

  1. Haveria no filme algo tão bizarro quanto o que experimentei pessoalmente na festa que fui no começo desse ano?
  2. Por qual motivo os usuários do Netflix avaliaram o filme negativamente (nota 2 de 5)? Teriam eles estranhado o tema ou, de fato, a produção comandada pelo diretor Marcos Prado seria um desastre?

Antes de contar-lhes sobre a terrível noite em que paguei 5 reais para beber uma lata de cerveja Crystal quente, vamos a segunda pergunta formulada ali acima. Obviamente, não tenho como precisar o motivo de outras pessoas terem rejeitado o filme, mas arrisco dizer que a maioria delas deve ter ficado perdida com a narrativa proposta pelo diretor. Marcos Prado, que fez seu nome no mercado cinematográfico nacional produzindo os dois Tropa de Elite, dispensa a linearidade temporal para contar uma história relativamente simples de ascensão e queda que tende a tornar-se confusa depois de algum tempo devido ao uso constante de flashbacks. Nando (Luca Bianchi) e Patrick (Bernardo Melo Barreto) vão para uma rave organizada em um local paradisíaco na costa nordestina. Lá, eles planejam viver um final de semana inesquecível, expectativa semelhante as de Lara (Lívia Bueno) e Érika (Nathalia Dill), duas amigas repletas de sonhos e vontade de vivenciar novas experiências. Os desdobramentos desses dias de liberdade absoluta, infelizmente, muda para pior a vida de todos.

Paraísos Artificiais - Cena 4Se fosse necessário, de forma bastante simplória, extrair uma “lição de moral” de Paraísos Artificiais, poderíamos dizer que o filme está nos dizendo que “as drogas não compensam” ou até mesmo que “não há ação sem reação”. O roteiro, que também é assinado pelo diretor, tenta desconstruir o glamour, por assim dizer, das festas rave e suas viagens de ácido assim como os Tropa‘s o fizeram com a romantização do crime que não raramente pode ser vista nas produções nacionais. Marcos quer que o espectador saiba que o caminho das drogas, seja o do consumo ou o do tráfico, é ilegal e destrói vidas e famílias. A intenção, inquestionavelmente boa, esbarra no formato proposto pelo diretor para difundi-la: optar por um “vai-e-vem” narrativo cujo maior mérito é guardar uma revelação para o final foi uma decisão infeliz. Em produções semelhantes, como Réquiem Para um Sonho, é justamente a linearidade da história que faz com que os últimos acontecimentos da trama tenham o peso que tem. Aqui, a quebra da linha temporal me fez olhar com indiferença, por exemplo, para as cenas desconexas que falam sobre a morte do pai de Nando.

Paraísos Artificiais - Cena 3Se a história decepciona, tanto pela superficialidade quanto pela narrativa equivocada, os outros elementos que compõe o filme também não conseguem agradar. A música é boa mas nunca é tocada tempo suficiente para empolgar, as experimentações visuais que emulam o uso drogas tem pouco espaço dentro da trama (basicamente, a cena dos ‘bois’ e essa aí do pôster) e a pegação entre as delicinhas Nathalia Dill e Lívia de Bueno, apesar de “estimulante”, não deixa de soar forçada. Para não dizer que nada funciona 100%, a fotografia está acima da média, capturando com precisão tanto a melancolia e a escuridão quando os personagens estão “na pior” no estrangeiro quanto a luz, o sol e a alegria quando eles estão fritando na rave. Falando em rave, paro por aqui o meu relato sobre o filme (resumindo: é chato e mal executado) para contar-lhes a experiência que vivi.

Paraísos Artificiais - CenaQuando fui morar em São José dos Campos-SP em 2012, conheci um cara que é um frequentador apaixonado de raves. De tanto conversar com ele e ouvir maravilhas sobre as festas, decidi que um dia eu experimentaria ir em uma. Cerca de 3 anos depois, surgiu a oportunidade perfeita: o local era perto, o preço do ingresso era bom e os organizadores tinham boas referências. O que deu errado? Tudo. Como os bombeiros negaram conceder alvará para a festa ser realizada no local previsto, os organizadores improvisaram toda a estrutura que eles haviam preparado em um novo lugar, uma chácara que ficava do lado do fim do mundo. A mudança, no entanto, não foi o pior da noite: a chuva recente transformou o local em uma piscina de lama, a cerveja era ruim, quente e cara, a única opção de comida era um espetinho de carne de monstro, os banheiros estavam num estado indescritível e a música, no final das contas, foi tocada através do som de um carro. Desconfiando que nenhum tipo de droga no mundo seria capaz de mudar essa realidade decepcionante, fui embora menos de 3 horas depois de ter chegado e terminei a noite em uma sorveteria rs Sei que, devido aos imprevistos, eu nem posso falar que vivi a experiência real de uma rave, mas esse episódio e o que vi em Paraísos Artificiais (observem a cara de psicopata do ator Bernardo Melo Barreto ‘dançando’) não me deixam nenhum pouco animado em tentar uma segunda vez.

Paraísos Artificiais - Cena 2