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Alien: Covenant (2017)

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Eu gostei MUITO do Prometheus. Já passaram-se 5 anos desde que o Ridley Scott resolveu revisitar a franquia Alien e explorar as origens daquele universo, mas ainda lembro como se fosse ontem do quão empolgado eu fiquei quando saí do cinema após ver aquela história sobre Arquitetos, androides e a busca pela origem da vida.

Aparentemente, porém, nem todo mundo gostou do que viu. Clicando aqui, você lê uma nota sobre as mudanças que o diretor precisou fazer nessa sequência devido a rejeição de boa parte do público ao que foi mostrado no Prometheus. Nunca saberemos se Paradise Lost (Paraíso Perdido), a ideia que ele planejou originalmente para a sequência, calaria a boca dos críticos, mas é fato consumado que Alien: Covenant, com seus cenários equivocados e repetições, representa um passo atrás para a franquia.

A resenha conterá SPOILERS do Prometheus, ok?

É no espaço, aquele lugar onde ninguém te ouvirá gritar, que começa Covenant. Responsável pela nave cujo nome dá título ao filme, o androide Walter (Michael Fassbender) cuida para que a tripulação permaneça no sono criogênico até que o destino, um planeta distante que apresenta características semelhantes as da Terra, seja alcançado. Um incidente coloca em risco a integridade da nave e obriga Walter a acordar o pessoal antes da hora. Mesmo abalados pelas severas avarias e pela perda de seu capitão (participação relâmpago do James Franco), os membros da tripulação decidem interromper a viagem para checar um sinal de vida captado pela Covenant durante o tumulto. Daniels (Katherine Waterson) é a única que opõe-se a ideia de abandonar a missão original, mas seus argumentos são vencidos pela determinação do novo capitão, Oram (Billy Crudup), um homem de fé que acredita estar diante de uma oportunidade única de visitar e colonizar um novo planeta.

Quando assisti o trailer do Covenant, fiquei curioso para ver como todos aqueles cenários abertos seriam usados em uma franquia que, no princípio, valeu-se dos corredores escuros da nave Nostromo para criar uma ambientação claustrofóbica. Campos de trigo e florestas certamente ficam muito bonitos numa tela grande de alta definição, mas desconfiei que essas locações não funcionariam para o filme. E não funcionaram. O Alien não é o Predador, Ridley Scott. Não foi legal (e não deu medo) ver o xenomorfo esgueirando-se no meio daquele matagal e, na segunda metade da trama, toda aquela sequência na cidade abandonada (outro lugar enorme e aberto) foi apenas tediosa.

Se, ao tentar inovar, o diretor errou a mão, ele também não teve muita sorte quando apegou-se aos elementos clássicos da série. Estão lá a tradicional cena do peito explodindo de dentro pra fora, a protagonista seminua de cabelo curto, o androide traíra e o confronto final entre humanos e criatura. Não que essas cenas sejam ruins, mas a proximidade delas com o que já foi usado nos longas anteriores torna o material pra lá de previsível. Comparem a “batalha final” de Covenant com o clímax do Oitavo Passageiro. É praticamente a mesma coisa.

“Ah, mas você reclama quando o cara muda os cenários e também reclama quando ele repete certos elementos. Incoerência”. Reclamo mesmo. Não é incoerência. O problema aqui não é a mudança e/ou a repetição em si, mas a qualidade do que foi feito. A nova ambientação é ruim (botaram o alien no meio de um matinho, caras) e não foi lá muito surpreendente o fato de, mais uma vez, utilizarem o espaço como esquife para o xenomorfo.

A parte boa de Covenant acaba sendo justamente o desenvolvimento das teorias sobre a criação que foram mostradas no Prometheus. David e Elizabeth “retornam” à trama para reforçar a ideia de que a vida na Terra foi criada não pelo Deus bíblico, mas sim por viajantes espaciais que, aparentemente, não ficaram muito satisfeitos com sua criação e preparam-se para elimina-la. A primeira cena do filme, aquela que mostra David conversando sobre a essência da vida com seu criador, Peter Weyland (Guy Pearce), é disparado o momento mais inspirado de Covenant. O diálogo, que traz reminiscências do clássico Frankenstein (a criatura que levante-se contra o próprio criador) é bastante útil para entender a mudança de comportamento de David ao longo de Prometheus e contribui significativamente para que, no fim deste filme, a gente entenda com alguma antecedência o que acontecerá.

Alien: Covenant era uma das produções que eu mais queria assistir em 2017. Sabe quando anunciam aquelas listas de lançamentos do ano seguinte? Pois é, eu estava doido para ver este filme. Reservei uma tarde de sexta da minha semana, que é sempre muito corrida, só para ir ao cinema. Vibrei com a cena inicial que comentei no parágrafo anterior, mas após isso vi o Alien ser transformado em coadjuvante dentro de sua própria franquia e não gostei nenhum pouco disso. Nem o enorme talento do Fassbender justifica tamanho sacrilégio. A parte da ficção científica de Covenant é muito bem feita, com todos aqueles equipamentos high tech e naves espaciais enchendo a tela, mas há pouco terror, sangue e ácido alienígena aqui. Não deu certo, Ridley Scott. Da próxima vez, segue o plano original.

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Assassin’s Creed (2016)

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assassins-creedDescobri que, fora o branco dos olhos, eu tenho algo em comum com o ator Michael Fassbender: assim como ele, eu nunca joguei um game da franquia Assassin’s Creed. Isso, no entanto, não impediu-o de protagonizar a primeira versão cinematográfica do jogo e nem me deixou indiferente ao lançamento. Já passei muitas horas na frente da TV apertando x, quadrado, bolinha e triângulo e entendo perfeitamente o frisson causado pelo anuncio de adaptações de sucessos do videogame para o cinema.

Assim sendo, pausei (sem apertar Start) minha cobertura do Oscar e reservei um dia para assistir o filme. Motivos para desconfiar da qualidade de Assassin’s Creed não faltaram (alguns sites classificaram-no como ‘decepcionante’ e aquele trailer com uma música de hip hop foi um equívoco só), mas ainda sim eu honrei minha trajetória nerd e comprei o ingresso. Não me arrependi. O que vi não é tão empolgante quanto outras adaptações de jogos recentes (sinceramente, não acredito que o filme tenha forças para gerar a continuação que o final promete), mas as cenas de ação acabam compensando o roteiro capenga e, todo caso, sempre haverá a interminável série Resident Evil para ser o fundo do poço do gênero.

Entre os séculos XV e XIX, o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, também conhecido como Inquisição Espanhola, perseguiu e matou judeus e muçulmanos que recusavam-se a converter-se à religião católica. É neste contexto que Aguilar (Fassbender) ingressa numa sociedade secreta de assassinos árabes para fazer frente aos templários, os quais estão varrendo o território espanhol em busca de um item precioso, a Maçã do Éden. Segundo a tradição, o artefato contem um segredo capaz de mudar o destino de toda a humanidade, e Aguilar e seus companheiros devem impedir que ele vá parar nas mãos da igreja.

assassins-creed-cena-4Católicos colocando fogo nos hereges, assassinos esfaqueando católicos, artefatos milenares… O cenário de Assassin’s Creed é bastante rico e convidativo, mas ao que parece os produtores não acreditaram que essa treta religiosa seria o suficiente para segurar o roteiro. Paralelamente à Inquisição, o diretor Justin Kurzel narra uma trama atual em que o detento Cal Lynch é salvo da morte por Sofia (Marion Cottilard), cientista que trabalha para uma organização misteriosa. Sofia é a mente por trás do projeto Animus, uma máquina que coloca Cal Lynch em contato com seu antepassado, o assassino Aguilar sobre o qual você leu ali no parágrafo anterior.

Vou tentar resumir. Cal Lynch é (foi) Aguilar, assassino do credo árabe. A organização de Sofia está ligada aos templários. Os conflitos entre os dois grupos repetem-se no presente, com Sofia manipulando Cal para que ele resgate as memórias de seu antepassado e descubra o paradeiro da Maçã do Éden. Entenderam? Não? Credo, uai! O modus operandi de Assassin’s Creed consiste numa série de flashbacks em que Cal usa o Animus para conectar-se à Aguilar e voltar para a Inquisição Espanhola em busca de informações. Suas habilidades vão aumentado à medida que o filme vai passando e, progressivamente, ele vai tomando partido no conflito entre muçulmanos e católicos. No meio de tudo, rola umas explicações meio O Código da Vinci, mas nada digno de nota.

assassins-creed-cenaHá uma discrepância gritante entre as cenas do passado e as do presente. Aguilar corre, pula, esfaqueia e despenca de lugares altíssimos no melhor estilo “X + -> + quadrado + bolinha”, tudo muito legal, mas aí na sequência seguinte você precisa ver o Fassbender lutando contra um roteiro ruim para tentar dar alguma profundidade a Cal, um personagem clichê que não aceita o seu destino. Aguilar foge da fogueira da inquisição e enfrenta uma série de inimigos em lutas muitíssimo bem coreografadas. Cal chora a morte da mãe e fica de birra com o pai. Aguilar pode até ser uma máquina de matar sem praticamente nenhum background, mas a gente acaba gostando muito mais dele do Cal. Adivinhem? As cenas de Cal duram muito mais que as do Aguilar.

Como não joguei Assassin’s Creed, não sei até que ponto essa dinâmica funciona (ou até mesmo existe) nos jogos, mas, enquanto filme, a alternância entre cenários de ação (passado) e drama (presente) é a grande vilã da história. A cena final até tenta unir os dois arcos (e não por acaso ela é melhor do que todo o lenga lenga sobre o lado violento do caráter humano), mas cá com os meus botões eu fico pensando no quanto o longa poderia ter sido melhor caso a trama inteira fosse ambientada na Inquisição, com o Aguilar tendo motivações mais claras e o conflito moral do presente sobre o livre arbítrio sendo adaptado para o século XV.

assassins-creed-cena-3Assassin’s Creed poderia ser melhor, mas certamente não é decepcionante. Acredito que o fato de eu não ter ligações emocionais com o jogo pode até ter ajudado na avaliação positiva, porém a qualidade das cenas de ação me impressionou de verdade. Caso vocês assistam, procurem reparar nos detalhes dos trajes dos personagens, na movimentação dos atores (que visivelmente abriram mão de dublês na maioria das cenas) e nas sequências criativas de pancadaria. É ou não é um material de primeira, desses que ficam bem legais na tela grande? Por cenas como aquele “salto da fé” (que foi filmado na marra), vale a pena deixar um pouco a história de lado.

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X-Men: Apocalipse (2016)

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X-Men - ApocalipseDe todos os filmes de super herói que foram anunciados para 2016, o que menos me empolgou foi esse X-Men: Apocalipse. Não sei vocês, mas depois do péssimo O Confronto Final, dois spin-offs horrorosos do Wolverine e um filme potencialmente bom prejudicado pelo “excesso de Wolverine”, eu meio que perdi a fé na capacidade da Fox de voltar a realizar algo minimamente decente relacionado aos mutantes.

Não bastasse essa desconfiança, as imagens do longa divulgadas antes do lançamento não eram nada animadoras. Impiedosa que é, a internet não tardou em comparar o visual proposto pelo diretor Bryan Singer para o vilão Apocalipse com o do Ivan Ooze, antagonista dos gloriosos Power Rangers naquele filme ruim de 1995. Diretor e estúdio rebateram dizendo que aquele não era o visual “finalizado” do personagem e que a imagem não havia recebido todo o “tratamento necessário”, mas aí a semente da descrença já estava plantada e germinada.

Foi assim, pessimista e com a mesma sensação de quem está realizando uma atividade meramente burocrática, que comprei ingressos para assistir X-Men: Apocalipse. Assim sendo, não posso negar que seria um tanto quanto prazeroso escrever um texto falando “eu avisei que o filme era ruim e blablabla”, mas melhor do que massagear o meu próprio ego é relatar-lhes como quebrei a cara em todos os sentidos e saí felizão do cinema. É sempre bom ser surpreendido positivamente. Ao meu ver, Apocalipse, além de ser tão bom quanto o X-Men 2 e o Primeira Classe, cumpre o importante papel de amarrar a complicada linha cronológica que a série apresentou até agora e abre caminho para que, daqui para frente, sejam feitos filmes mais consistentes sobre os mutantes.

X-Men - Apocalipse - Cena 5O ponto de partida aqui é aquela cena pós-crédito mostrada no Dias de Um Futuro Esquecido. Há milhares de anos, os egípcios veneravam um ser poderosíssimo que, juntamente com seus 4 ajudantes, reinava sobre o povo com status de divindade. Considerado por muitos como o primeiro mutante da história, esse ser, que mais tarde viria a ser chamado de Apocalipse (Oscar Isaac), é atacado por dissidentes e então o seu corpo permanece lacrado em uma tumba até a década de 80, quando ele desperta com o propósito de purificar o mundo através da destruição global.

Os eventos vistos em Apocalipse, portanto, acontecem no período imediatamente posterior àqueles que vimos em Dias de Um Futuro Esquecido. A volta de Wolverine (Hugh Jackman) ao passado e o confronto dos X-Men contra os Sentinelas criados pelo Dr. Bolivar Trask criaram uma linha temporal alternativa na qual a Mística (Jennifer Lawrence) transformou-se numa heroína para os mutantes, o Professor Xavier (James McAvoy) conquistou vários alunos para sua escola e o Erik (Michael Fassbender) abandonou suas pretensões enquanto Magneto para constituir família e esconder-se em um vilarejo na Polônia. Quando Apocalipse surge e começa a reunir seus seguidores (os Quatro Cavaleiro do Apocalipse), os X-Men precisarão juntar forças novamente e deixarem velhas diferenças de lado para impedir que o vilão extermine toda a vida existente no planeta.

X-Men - Apocalipse - Cena 4Logo na primeira cena o diretor Bryan Singer já deixa claro sua intenção de dar ao filme toda a grandiosidade que uma história sobre um dos vilões mais icônicos dos X-Men merece. A fantástica destruição da pirâmide, com aquelas pedras gigantes esmagando tudo e todos, é seguida da tradicional abertura da série (a exibição dos créditos em corredores virtuais que nos levam até a porta do Cérebro), que dessa vez foi sabiamente utilizada para mostrar a passagem do tempo da antiguidade até os dias atuais. Ali, naquela sequência espetacular de planos abertos, efeitos especiais sensacionais e músicas épicas, o meu ceticismo foi demolido junto com a pirâmide na qual o corpo do Apocalipse é sepultado vivo.

X-Men - Apocalipse - CenaO que vem em seguida, em termos de ação, também não decepciona. Tendo em vista os confrontos meia boca que os mutantes haviam tido até então com vilões como Dente de Sabres, Magneto do Ian McKellen e Samurai de Prata, muita gente desconfiou que o Apocalipse não seria retratado como o ser extremamente poderoso que ele é. O diretor não só consertou o visual “Ivan Ooze”, deixando o rosto do personagem quadradão e com as “listras” características, como fez do vilão a maior ameaça que os X-Men enfrentaram até agora em suas adaptações cinematográficas. Tendo trocado de corpo com vários mutantes ao longo dos séculos, Apocalipse acumulou vários poderes e habilidades e aqui ele faz uso de todas elas para tentar vencer a batalha, coisas impressionantes como enterrar os adversários vivos e aumentar o tamanho do próprio corpo. Durante o filme há muitas cenas de pancadaria divertidas e estilosas (o Magneto vingando-se de um grupo de aldeões utilizando ‘apenas’ um pingente foi a minha favorita), mas é muito bom que a “joia da coroa” seja o último quebra pau entre os X-Men e o vilão, que mostra-se um desafio à altura dos mutantes e obriga-os a utilizarem todos os seus poderes (e até mesmo alguns que estavam adormecidos 😛 ) para derrotá-lo. Sinceramente, eu já estava cansado de vilões que muito falavam e pouco faziam.

X-Men - Apocalipse - Cena 3Fosse o filme apenas uma sequência interminável de cenas de ação, porém, eu não teria gostado dele. Nos quadrinhos, os X-Men enfrentam grandes vilões e ameaças, mas eles também enfrentam as dificuldades de serem criaturas diferentes em um mundo preconceituoso. Esse drama hamletiano do “ser ou não ser” (observem a referência no poster acima), de personagens que amaldiçoam-se e sentem-se abençoados pelo mesmo motivo (a mutação) é uma constante na série (Vampira, Mística, Xavier após o acidente) e, em Apocalipse, o Bryan Singer desenvolveu a questão tendo como foco o Erik: ao tentar negar sua essência e seus poderes, o personagem só consegue ver-se mais e mais imerso em problemas. Sobre o roteiro, também chama a atenção a forma crítica como o diretor trabalha a questão da divindade, visto que ele faz uma clara analogia entre o Apocalipse e o Deus vingativo descrito no Antigo Testamento.

X-Men - Apocalipse - Cena 6Sobre um bolo que contém algumas das melhores cenas de ação da série e um roteiro consistente cheio de bons diálogos, coube ao Bryan Singer distribuir não uma, mas várias cerejas para os fãs deliciarem-se. Nisso, ele coloca a matadora The Four Horsemen do Metallica para tocar quando os Quatro Cavaleiro do Apocalipse reúnem-se, a queridinha Sophie Turner (da série Game of Thrones) aparece como Jean Grey e nos deixa animados com suas curvas e com o poder “desconhecido” que ela carrega, a Psylocke (Olivia Munn) e o Anjo (Ben Hardy) finalmente recebem o devido tratamento (tanto gráfico quanto em tempo de tela e ferocidade) e o Mercúrio (Evan Peters) rouba novamente a cena com sua velocidade e bom humor em uma sequência espetacular de resgate que ocorre ao som da clássica Sweet Dreams (Are Made of This) do Eurythmics. Finalmente, o Wolverine é utilizado em uma única cena (ALELUIA!) na qual ele dilacera alguns bandidos genéricos, esbanja mau humor e faz links com seu vindouro filme (que, felizmente, deve sair com censura +18). Como eu já havia desconfiado, nos filmes do X-Men, “menos Wolverine é mais Wolverine”.

X-Men: Apocalipse me surpreendeu positivamente em todos os motivos. Eu, que já defendia a ideia de que os mutantes deveriam passar por um reboot cinematográfico, voltei a ficar empolgado com a possibilidade de voltar ao cinema para vê-los dentro do universo imaginado pelo Bryan Singer. Agora é só colocar o Hugh Jackman para estripar o Sr. Sinistro no próximo filme do Wolverine (confronto que é sugerido pela cena pós-créditos) para que a confiança na Fox seja plenamente restabelecida.

X-Men - Apocalipse - Cena 2

Steve Jobs (2015)

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Se você, assim como eu, não tem um iPhone e nem interessa-se demasiadamente por tecnologia, é bem provável que tu também não tenha ficado muito empolgado para assistir esse Steve Jobs. Permitam-me, portanto, começar esse texto apresentando-lhes três motivos que fazem o filme valer a pena independentemente da marca dos produtos eletrônicos que você usa.

  1. Além de ter vencido o Globo de Ouro de Melhor Roteiro, a produção concorre a 2 Oscars (Melhor Ator para o Fassbender e Melhor Atriz Coadjuvante para a Kate Winslet, que tem chances reais de vencer).
  2. O filme é do diretor Danny Boyle, o mesmo cara que arrancou o braço do James Franco e nos mostrou a DEUSA Rosario Dawson tal qual ela veio ao mundo. Por isso e por filmes como Trainspotting Boyle merece o meu e o seu respeito.
  3. A tecnologia desempenha apenas um papel secundário em Steve Jobs, cabendo o protagonismo aos diálogos rápidos que mostram as contradições da personalidade do ex-presidente da Apple.

Lembro que, em 2011, pouco tempo depois de eu entrar no Facebook, quase todo mundo postou algo relacionado à morte do Steve Jobs, que faleceu prematuramente aos 56 anos de idade vítima do câncer. A maioria das pessoas agradeceram-no por suas contribuições à informática, mas também houveram aqueles que preferiram utilizar a oportunidade para criticá-lo. Se não me falha a memória, a frase “Jobs era um gênio, mas era chato pra caralho” foi dita mais de uma vez naquele dia. É essa dicotomia entre o profissional brilhante e o homem “ruim” que o Danny Boyle explora em Steve Jobs para nos dizer que, por mais excêntrico e “difícil” que o sujeito possa ter sido, ele não foi lá tão diferente assim de cada um de nós: todos temos defeitos e qualidades.

O roteiro, que é assinado pelo escritor Aaron Sorkin (A Rede Social), acompanha os momentos que antecederam o lançamento de três grandes produtos desenvolvidos por Jobs (Michael Fassbender): Macintosh, em 1984, NeXT, em 1988 e o iMac, em 1998. Nos bastidores das apresentações, vemos o inventor lidando com todos os tipos de conflitos pessoais e profissionais antes de subir no palco para apresentar suas inovações ao mundo.

Boyle, que entre outras coisas é conhecido por suas experimentações visuais, optou por algo mais tradicional em Steve Jobs, limitando-se a ir “modernizando” a fotografia ao longo do filme para mostrar a passagem do tempo. Desta vez, o que deixa evidente que estamos vendo um trabalho de um dos diretores mais interessantes da atualidade é a própria narrativa que, além de não tornar-se mais complicada do que o necessário em nenhum momento, faz da relação do Jobs com a filha um ótimo meio para desnudar a alma do protagonista.

Na abordagem proposta por Boyle, Jobs só consegue alcançar o verdadeiro sucesso profissional quando encontra uma ponte para o coração de Lisa, filha de seu relacionamento tempestuoso com Chrisann (Katherine Waterston). Em 1984, quando nega a paternidade da menina e acusa Chrisann publicamente de ter traído-o, Jobs vê o Macintosh transformar-se em um fracasso e é despedido da Apple, empresa que ele ajudara a fundar. Já em 1988, o lançamento promissor do NeXT coincide com uma aproximação entre o personagem e a filha, visto que Lisa, enfrentando dificuldades com a mãe, pede (sem sucesso) para morar junto com ele. Finalmente, no momento decisivo da trama, Jobs consegue ter um diálogo aberto e sincero com a filha, sendo que a conexão que estabelece-se entre eles é mostrada como algo preponderante para a consagração definitiva do inventor na apresentação do iMac.

Não pensem, porém, que Steve Jobs mostra um homem que chega no final do filme livre de seus demônios internos. Boyle sugere que, devido à problemas vividos na infância, Jobs desenvolveu uma capacidade extraordinária de entender o que os usuários de seus produtos necessitam, mas esses mesmos problemas também tornaram-no uma pessoa autocentrada e difícil de se conviver. Em momentos alternados, o Fassbender empresta sua conhecida eloquência e tom autoritário para que o personagem discuta e grite com praticamente todos os seus sócios e funcionários. Assim, Joanna Hoffman (Kate Winslet) é chamada de incompetente, John Scully (Jeff Daniels) é acusado de sabotagem, Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg) tem sua carreira ameaçada e, naquela que talvez seja a cena mais impactante do filme, Steve Wozniak (Seth Rogen) e suas inquestionáveis contribuições para a Apple são desprezados por Jobs na frente de um auditório cheio.

Steve Jobs - CenaBoyle escancara, portanto, o tal “gênio ruim” do protagonista e, por mais que seja difícil vê-lo humilhando desnecessariamente outras pessoas (minha esposas toda hora chamava-o de ridículo rs), é sempre bom ter acesso a esse tipo de exemplo para refletirmos sobre os perigos de deixarmo-nos seduzir pelas tentações do ego. Apesar de ser bilionário e inteligentíssimo, Steve Jobs não conseguia relacionar-se com amigos e parentes: ele sabia como atender e prever a vontade dos outros (gostei da deixa para o desenvolvimento do iPod), mas não conseguia utilizar essa inteligência para agradar a si próprio. Jobs compara a si mesmo com um maestro, mas ele não parece conduzir uma música que lhe agrade. Convenhamos, isso não é exatamente um exemplo de vida feliz.

Lá no primeiro motivo que eu dei-lhes para assistir Steve Jobs, eu disse que a Kate Winslet tem grandes chances de levar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, mas isso deve-se principalmente ao fato de ela ter vencido o Globo de Ouro na mesma categoria: não acho que ela tenha feito nada demais aqui e há outras atrizes em papéis mais interessantes na disputa, como a Alicia Vikander. Fora isso, Steve Jobs foi uma grata surpresa: eu, que não esperava absolutamente nada do filme antes de saber que ele era do Danny Boyle, deparei-me com uma boa história, boas atuações (continuo amando o Seth Rogen; o Fassbender dispensa comentários) e uma direção enxuta e eficiente.

Steve Jobs - Cena 2

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014)

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X-Men - Dias de um Futuro EsquecidoTal qual seu antecessor, o X-Men – Primeira Classe, Dias de um Futuro Esquecido estreou embalado por críticas empolgadas e notas generosas em sites especializados. No Facebook, cheguei a ver alguns amigos dizendo que o longa era a melhor adaptação dos mutantes feita para os cinemas até então, sendo que alguns deles acrescentava ainda que, comparado as outras produções do gênero, o novo filme do Bryan Singer sobressaia-se ao ponto de poder ser apontado como o MELHOR filme de super-heróis já realizado. Lendo esse tipo de coisa, só nos resta pensar “UAU! Eu PRECISO ver esse filme!”, não?  Bem, sim e não. Sim porque eu me importo com a opinião dos meus amigos e, costumeiramente, levo notas e críticas em consideração antes de escolher quais filmes verei. Não porque já aprendi que dificilmente expectativas altas são compensadas dentro da sala de cinema, mesmo que essas expectativas tenham sido criadas por pessoas ou fontes confiáveis. A experiência cinematográfica, no final das contas, é algo extremamente pessoal e, pessoalmente, não vi motivos para considerar Dias de um Futuro Esquecido como o melhor filme dos mutantes nem para colocá-lo no topo das produções sobre super-heróis. Watchmen manda-vos um caloroso abraço, amigos queridos, e explico-lhes agora os motivos que me levam a discordar da empolgação geral.

X-Men - Dias de um Futuro Esquecido - Cena 5

Para todos os efeitos, esse filme deveria fazer um divertido e inesperado link entre a série iniciada pelo X-Men – Primeira Classe e aquela que encerrou-se de forma pra lá de questionável com o X-Men: O Confronto Final. O link é feito mas, sob a alegação de estar trabalhando dentro de um universo paralelo que não necessariamente precisa estar 100% alinhado com as duas séries citadas, o diretor Bryan Singer deixou muitas informações subentendidas e nem se deu ao trabalho de explicar outras. Antes de ir no cinema, eu revi  as últimas aventuras dos mutantes para recapitular a história e, à quem interessar e não importar-se com SPOILERS, elas terminam assim:

  • X-Men: O Confronto Final: Jean Grey, que transformara-se na Fênix Negra, é morta por Logan (cujos traumas devido ao combate podem ser vistos no Wolverine: Imortal), a proposta de vacinar os mutantes contra o gene X é contida e Magneto perde seus poderes. Na cena após os créditos, vemos que Xavier, que aparentemente havia sido morto pela Fênix, apenas transferira sua consciência para outro corpo.
  • X-Men – Primeira Classe: Magneto mata Shaw e, acidentalmente, acaba sendo o responsável pela paralisia de Xavier. A diferença filosófica entre os dois coloca-os então em lados opostos na luta pela classe mutante. Raven, que mais tarde passaria a ser conhecida como Mística, fica do lado de Magneto.

X-Men - Dias de um Futuro Esquecido - Cena 2E como começa Dias de um Futuro Esquecido? No futuro (HÁ!) e, aparentemente, em um futuro bem distante dos eventos mostrados em O Confronto Final. O espaço temporal, por si só, é a resposta de Singer para alguns pontos questionáveis do roteiro: o tempo passou e, portanto, QUALQUER coisa poderia ter acontecido. Magneto recuperou seus poderes, Xavier está em seu velho corpo e agora eles são aliados. Como? O tempo passou amigos, simples assim. É necessário reconhecer, no entanto, que o diretor é hábil em desviar nossa atenção desse “furo” com uma cena de ação inquestionável, dessas que tu sai do cinema comentando com os amigos. Atacados por versões mutáveis e imbatíveis dos Sentinelas, Kitty Pryde (Ellen Page), Bishop (Omar Sy) e cia combinam seus poderes para escapar do que parece a ser a morte certa. Os efeitos especiais e o trabalho em equipe dos mutantes nessa cena correspondem ao ponto alto no quesito ação dentro de Dias de um Futuro Esquecido, lembrando a engenhosidade e a pancadaria desenfreada daquela invasão do Noturno à Casa Branca no começo do X-Men 2. Depois disso, o filme segue com uma trama sobre viagem no tempo que leva Wolverine (Hugh Jackman) de volta à década de 70, onde ele deve encontrar os então jovens Erik (Michael Fassbender) e Charles (James McAvoy) e, com a ajuda deles, impedir que Raven (Jennifer Lawrence) dê início aos eventos que, no futuro, colocaram em risco a existência dos mutantes.

X-Men - Dias de um Futuro Esquecido - Cena 3Dias de um Futuro Esquecido é baseado em uma história clássica do grupo publicada em uma HQ de 1981 assinada pelo escritor Chris Claremont. Com sua trama que fala sobre viagem no tempo, a saga mostrou-se pontual para reunir os atores das duas franquias em um megablockbuster que aproveitasse não apenas o sucesso do Primeira Classe como o cenário positivo para filmes de super-herói criado pelos esforços contínuos da Marvel. É bom ver atores como a Halle Berry, Patrick Stewart e, principalmente, o Ian McKellen (fora as surpresas) de volta a seus respectivos papéis na franquia. De modo geral, isso e a ambientação na década de 70 garantem ao filme um caráter nostálgico que é sempre bem vindo. Acrescento ainda na sessão dos elogios a participação do ótimo Peter Dinklage, o clima de pânico que o diretor conseguiu imprimir no futuro quando os Sentinelas aproximam-se do refúgio dos mutantes (coitado do Colossus!), a estilosa e bem humorada sequência do Mercúrio (Evan Peters) e as referências históricas (Magneto e sua ligação com o assassinato do Kennedy) e cinematográficas (a chegada do Wolverine no passado é uma quase-citação da cena semelhante no Exterminador do Futuro 2, tanto nos diálogos quanto na nudez desnecessária dos personagens rs) distribuídas ao longo do filme.

X-Men - Dias de um Futuro Esquecido - Cena 4Para quem leu o texto esperando o “porém” que foi sugerido no primeiro parágrafo, ei-lo aqui: Wolverine, leitores. Leitores, Wolverine. Aliás, essa apresentação é desnecessária, certo? TODO MUNDO conhece o cara, visto que ele apareceu em TODOS os filmes do X-Men e, coincidência ou não (dica: NÃO é coincidência), ele só não foi protagonista daquele que acabou sendo o melhor deles, o Primeira Classe. Já destilei todo o meu ódio contra essa versão domesticada do Logan no texto sobre o Imortal, mas nunca é demais lembrar que colocá-lo para fumar um charuto não é suficiente para caracterizá-lo como o anti-herói politicamente incorreto dos quadrinhos. Por mais que o Hugh Jackman seja um cara carismático, essa proposta que ele representa do personagem já cansou. Sinceramente, chega de filmes tendo ele como foco. Aqui, por exemplo, quem deveria ter voltado no tempo, segundo a história do Claremont, era a Kitty Pryde, não ele. É bacana que a Mística, Magneto e Xavier tenham bastante tempo na tela mas, no final das contas, analisando começo, meio e, principalmente, o clímax e o fim, o que fica patente é que, antes de ser um filme dos X-Men, Dias de um Futuro Esquecido é mais um filme de Wolverine e cia. Se já seria difícil (pela qualidade dos concorrentes) que esse novo trabalho do Singer fosse o “melhor filme de super-heróis” já feito, pra mim, a insistência no Wolverine contribuiu significativamente para que o longa nem ao menos fosse o melhor da saga dos mutantes. Duvido que alguém saia do cinema insatisfeito, trata-se de um ótimo filme de ação, mas não há dúvidas de que, devido a riqueza do roteiro e da grandiosidade do projeto, poderia ter sido BEM melhor.

OBS. (CENA PÓS-CRÉDITO): **SPOILER** Sinceramente, eu boiei. Se tu também não entendeu, querido leitor sem tempo de ler HQ’s e pesquisar na internet, saiba que o sujeito que manipula as pirâmides do Egito e é venerado pelos nativos é o Apocalipse, um dos maiores inimigos dos X-Men.

X-Men - Dias de um Futuro Esquecido - Cena

12 Anos de Escravidão (2013)

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12 Anos de EscravidãoOscar de 2014, aqui vamos nós. Na verdade, as nomeações saem apenas no dia 16/01, mas como 12 Anos de Escravidão concorreu a impressionantes 7 Globos de Ouro, é praticamente certo que ele também figure entre os títulos que concorrerão nas principais categorias da premiação da Academia. Apostas feitas, vamos ao filme.

Baseado em fatos reais, a trama do diretor Steve McQueen (Hunger) adapta para o cinema as memórias de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um homem negro que, mesmo tendo conseguido sua carta de liberdade nos EUA pré-Guerra Civil, acabou sendo sequestrado e vendido para fazendeiros do sul do país. Tal como o título não faz questão alguma de ocultar, Solomon permanece novamente na condição de escravo durante longos e penosos 12 anos e é exatamente isso que vemos por aqui.

Em comum, as cinebiografias costumam partilhar a apresentação de uma história de vida espetacular e utilizá-la para passar uma mensagem edificante de luta e superação ou, no caso de personalidades controversas, oferecer novos pontos de vista sobre fatos conhecidos mas não inteiramente apreciados pelo público. Em outras palavras, o formato é uma verdadeira vitrine para os valores que seus produtores cultivam ou condenam. No caso de 12 Anos de Escravidão, Steve McQueen partilha com o espectador o respeito pela paciência e até mesmo pela subserviência quando esses comportamentos visam a preservação da vida.

12 Anos de Escravidão - CenaExiste uma frase um tanto quanto batida, mas nem por isso menos significativa, de que os homens só dão valor à liberdade após perdê-la. No caso de Solomon, não chegamos a saber se ele já nascer escravo (o que é bem provável), ou se, após o sequestro, ele experimenta essa sensação de perda pela segunda vez. Todo caso, é verdadeiramente PAVOROSA a expressão de desespero no rosto do sujeito quando ele acorda acorrentado em um quarto escuro vítima de um golpe sórdido. Na contramão da imensa maioria dos outros escravos da época, o personagem fora educado, o que, além de lhe garantir as capacidades de ler e escrever, o ajudou a desenvolver outros talentos, como tocar violino e aplicar o raciocínio lógico em suas atividades diárias. Retornar à condição de escravo, além de privá-lo da liberdade de ir e vir e de permanecer junto de sua família, significou a necessidade degradante de anular-se perante os seus senhores e capatazes que, como acontece mais claramente com o personagem do Paul Dano (em uma reedição, aliás, do que ele fez no Sangue Negro), são intelectualmente inferiores a ele.

12 Anos de Escravidão - Cena 3Quando oculta suas capacidades e opta pela paciência em detrimento do enfrentamento para lidar com o cativeiro, Solomon é julgado e até mesmo taxado de covarde pelos outros personagens e também por nós, espectadores. Acostumados que estamos com figuras heróicas a la Django que preferem morrer do que deixarem-se dominar, ficamos decepcionados quando o protagonista cala-se diante das injustiças cometidas contra ele e seus semelhantes. Procurando agir nas brechas, conquistando a simpatia de seus donos e arquitetando planos individuais para escapar, não raramente nos pegamos classificando-o como puxa-saco e egoísta.

Solomon não é, portanto, um herói nos moldes tradicionais. Sua história não é inspiradora no sentido de que ele reverte uma grande injustiça coletiva e/ou traz redenção para o seu povo. Não seria errado, inclusive, dizer que ele, por ter sido educado e vivido livremente, não se considera nem mesmo nas mesmas condições dos outros escravos (consciência essa que ele adquire progressivamente durante a trama, culminando na tocante cena do canto coletivo no velório). O que há de genuíno em sua história é o seu amor pela vida e vontade de regressar para sua família, objetivo que ele persegue sacrificando muitas vezes a própria dignidade. Tal comportamento, em uma sociedade que valoriza os mártires por representarem algo que ela não dispõe-se a ser/fazer, tende naturalmente a ser visto como covardia, subserviência e falta de personalidade, mas McQueen propõe que vejamos o personagem e a idéia que ele representa além desse julgamento superficial.

12 Anos de Escravidão - Cena 512 Anos de Escravidão retrabalha a imagem dos heróis, mas o faz a custa de vilões clássicos. P. Dano e Paul Giamatti interpretam homens medíocres que sustentam pequenos poderes, usando seus cargos e a brutalidade arbitrária para humilharem os outros. Fassbender e Cumberbatch, dois dos melhores atores da atualidade, representam duas faces do mesmo problema chamado indiferença. O primeiro, incrivelmente violento e desumano, é responsável por algumas das cenas mas agoniantes do longa (eu penso na cena do tronco e me vem um AI! automático à mente), abusando sexualmente e ferindo os escravos sem nenhum sinal de culpa ou arrependimento. Os negros, ele diz, não são humanos assim como os macacos também não o são e, portanto, não há motivos para tratá-los como tal. Cumberbatch faz o tipo bom patrão, cuidadoso com seus escravos e ciente de seus problemas, mas assim que aparece uma oportunidade de ajudar Solomon de verdade ele vira as costas e afasta-se para não colocar sua reputação em risco.

12 Anos de Escravidão - Cena 2Sem nenhuma grande estrela no cast (Brad Pitt, que também produz o longa, faz apenas uma breve aparição como um abolicionista), 12 Anos de Escravidão conquistou a crítica e abocanhou o Globo de Ouro de Melhor Filme na categoria Drama devido a esse roteiro que evita o lugar comum e o endeusamento de seu protagonista, às ótimas escolhas para os papéis principais (ressalto que o Fassbender está o cão) e, sobretudo, pelo magnífico trabalho de direção do McQueen. Com uma fotografia arrebatadora que captura toda a beleza e melancolia dos estados sulistas dos EUA e uma abordagem que não evitou cenas de nudez e violência para suavizar uma história que não poderia ser suavizada, McQueen construiu um filme sólido dentro de um tema que já está deveras batido. Que ele e sua equipe recebam os devidos méritos por isso.

12 Anos de Escravidão - Cena 4

Um Método Perigoso (2011)

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Um Método PerigosoNão que isso seja do interesse de alguém, mas após longos 8 meses e meio volto a escrever uma resenha no calor infernal da minha querida Uberlândia-MG. Terminei o curso de Controlador de Voo em São José dos Campos-SP no útimo dia 21 e voltei para a minha cidade. Deixei no estado de São Paulo as confortáveis cadeiras numeradas do Cinemark Colinas que ficavam a 10min da minha casa para voltar a ser vítima das filas desorganizadas e dos filmes dublados do Cinemais. Segue vida, pois a alegria é imensa! *Cof*

Antes de voltar para o glorioso Triângulo Mineiro, li o Filosofia – Pequeno Livro das Grandes Idéias do Jeremy Stangroom e assisti o Um Método Perigoso. O livro traz artigos curtos e elucidativos sobre as obras e teorias de 50 pensadores elencados pelo autor, dentre os quais estão Sigmund Freud e Carl Gustav Jung, protagonistas desse filme dirigido pelo David Cronenberg. Freud (Viggo Mortensen), nas palavras de Stangroom, o pai da psicanálise, auxilia Jung (Michael Fassbender) a entender e lidar com uma de suas pacientes, a histérica Sabina Spielrein (Keira Knightley). Durante o processo, as divergências de opinião e método provocam o rompimento entre Jung e Freud enquanto Sabina torna-se ela mesma uma estudiosa do comportamento humano.

Jung (Fassbender) e Freud (Mortensen)

Jung (Fassbender) e Freud (Mortensen)

Por mais que eu tenha um interesse genuíno por Psicologia, não possuo conteúdo nem cara de pau suficientes para tecer comentários sobre as diferenças metodológicas de Freud e Jung. O que dá para entender, com base no que eu li no livro do Stangroom e no que é mostrado na camada mais superficial do filme, é que Freud acreditava que a interpretação de manifestações inconscientes, como o sonhos, poderia auxiliar na compreensão de estados doentios da mente, como a histeria de Sabina, e, consequentemente, auxiliar na cura através de conversas que estimulassem o paciente a entender e superar seus próprios problemas. Jung discorda de Freud principalmente no que diz respeito a origem dessas manifestações inconscientes. Trabalhando com a idéia do inconsciente coletivo, Jung diminui o impacto da libido contido nas explicações de Freud e com isso estabelece as bases do que hoje conhecemos como psicologia analítica.

Como eu comentei no texto do Cosmópolis, o trabalho do Cronenberg é relativamente novo pra mim. Utilizando temas complexos, o diretor mostra tramas que exigem do espectador um certo conhecimento prévio do tema abordado e atenção constante nos diálogos e comportamento dos personagens para desvendar a “mensagem” do filme. Um Método Perigoso desperta interesse pela atuação bizarra/genial da Keira Knightley e pelo mergulho na mente de alguns dos pensadores mais relevantes do último século, mas acredito que a história perda parte de seu atrativo se a pessoa não estiver interessada nos temas apresentados. Sobretudo, o filme tem uma narrativa lenta e o “intelectualismo” está presente em todos os cantos, até mesmo os cenários e o vestuário dos personagens inspiram seriedade e retidão. Trazendo um pouco de anarquismo para a história, Vincent Cassel aparece como o libertino Otto Gross e garante alguns dos melhores momentos do longa. Consciente de suas “fraquezas morais”, o personagem entrega-se sem pudor algum a seus desejos e representa um contraponto interessante ao aparente autocontrole de Jung e Freud. A “obsessão” de Freud por sexo, aliás, é ironizada por um personagem como um indicativo de que o mesmo não o pratica muito. Eu ri.

Moroso mas curto, Um Método Perigoso não dura tempo suficiente para que tu fique cansado ou entediado com os diálogos essencialmente teóricos. Assim como um artigo de um dicionário filosófico, apresenta um tema complexo em um espaço relativamente curto e tem como principal mérito fornecer uma porta de entrada para um campo vasto.

O obsessão com o sexo e seus significados são um dos pontos fortes de Um Método Perigoso

A obsessão com o sexo e seus significados são um dos pontos fortes de Um Método Perigoso