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Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017)

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O primeiro Guardiões da Galáxia foi muito bom. Apoiado num visual hiper colorido, numa trilha sonora onipresente e saudosista e abraçando o humor sem medo de ser feliz, o filme do diretor James Gunn conquistou vários fãs com seu roteiro leve e ritmo frenético. Esta continuação, como não poderia deixar de ser, retoma e amplia esta fórmula, mas desta vez, principalmente na segunda metade do longa, o diretor resolveu incorporar elementos dramáticos à história, o que deixou o filme um pouco mais “adulto” do que seu antecessor. O resultado é inquestionavelmente bom, mas confesso que foi meio estranho entrar no cinema felizão, ansioso para dar boas risadas, e sair de lá meio cabisbaixo e pensativo.

Foi na gloriosa e mágica década de 80 que Meredith Quill (Laura Haddock) conheceu e apaixonou-se por uma criatura topetuda do espaço (Kurt Russell). Do amor deles, nasceu Peter Quill (Chris Pratt), o homem que anos mais tarde ganharia notoriedade por conseguir segurar uma das Joias do Infinito e sobreviver. Peter, que nunca conheceu o pai e que viu a mãe morrer ainda criança, cresceu e tornou-se o Senhor das Estrelas, um caçador de recompensas que lidera o grupo Guardiões da Galáxia em missões através de todo o universo.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 começa ao som de Brandy, do Looking Glass, com Meredith passeando num conversível estiloso junto de seu amado. Tão logo fica claro que os dois são os pais de Peter, porém, a cena muda para o longínquo planeta dos Soberanos onde os Guardiões aguardam pela chegada de uma besta interdimensional. Ayesha (Elizabeth Debicki), a rainha do local, contratou Peter, Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (voz do Bradley Cooper) e o Bebê Groot (voz do Vin Diesel) para protegerem uma preciosa carga de baterias inflamáveis do monstro. A luta que se segue é, sem sombra de dúvidas, a melhor sequência de abertura de um filme da Marvel até o momento. Fazendo um belo uso do 3D, James Gunn coloca Peter e cia para quebrarem o pau com o bichão enquanto mostra o simpático Bebê Groot dançando com a Mr. Blue Sky do Eletric Light Orchestra. Ver esse começo, que tem coisas bacanas como o Peter e o Rocket discutindo, o Drax vigiando o Bebê Groot e a Gamora desferindo alguns golpes estilosos de espada, é como abrir um presente no dia das crianças e encontrar exatamente aquilo que a gente queria ganhar. É familiar e surpreendente ao mesmo tempo.

Após ganhar nossa atenção com esse início divertidíssimo, o diretor introduz os elementos que compõe a história de Vol. 2. Por pura sacanagem, Rocket rouba algumas das baterias dos Soberanos e Ayesha ordena que seus comandados capturem os Guardiões. Rola uma cena frenética de perseguição no espaço, daquelas que parecem ter saído direto de um videogame, a qual é interrompida pela aparição já anunciada de Ego, o topetudo pai de Peter Quill. Nisso, o grupo divide-se em 2: Peter, Gamora e Drax acompanham Ego e Mantis (Pom Klementieff), sua auxilar, até um planeta distante, e Rocket e Bebê Groot ficam responsáveis por reparar a nave e vigiar Nebulosa (Karen Gillian), a filha de Thanos que havia sido entregue aos personagens como recompensa por protegerem as baterias. Paralelamente, o pirata Yondu (Michael Rooker) é contratatado por Ayesha para localizar os Guardiões.

Sobre esses eventos que constituem o “meio do filme”, por assim dizer, vale a pena realizar comentários separados para cada um deles:

Ego e Peter Quill: O esperado encontro entre o Senhor das Estrelas e seu pai responde muitas perguntas deixadas pelo primeiro Guardiões da Galáxia e é o principal acontecimento deste filme, mas todas as cenas que envolvem esse arco da história são chatas de doer. Eu entendo que até mesmo uma bomba de diversão como essas precise de algumas partes mais “sérias” para que os personagens sejam desenvolvidos, porém não posso negar que fiquei extremamente entediado enquanto Peter e Ego falavam do passado e do futuro naqueles cenários oníricos.

Rocket: Tanto por seu mau humor quanto por sua insanidade nas batalhas (adoro quando ele fala aquele HELL YEAH!), o guaxinim antropomórfico permanece como meu personagem favorito dentre todos os Guardiões. O Rocket continua legalzão e o James Gunn deu uma cena na floresta para ele brilhar sozinho com todos os seus equipamentos e metrancas, no entanto a imagem que eu levei dele desta vez foi a da criatura triste e solitária que maltrata todos, até os próprios amigos, pela inabilidade de ser amado. As cenas que nos levam a essa conclusão, principalmente aquele diálogo com o Yondu no final, são verdadeiramente tristes e destoam de tudo o que fora feito na série até aqui. Isso não é necessariamente ruim, mas confesso que fui surpreendido pela bad vibe.

Yondu: Lembram daquele sujeito risonho e seguro de si que dizimava grupos inteiros de inimigos com uma flecha voadora? Restou pouco dele em Vol. 2. Yondu não só enfrenta um motim de sua tripulação quanto é desprezado por Stakar Ogord (Sylvester Stallone), o líder dos piratas espaciais. Yondu também ganha espaço para exibir suas habilidades (a batalha contra o Taserface) e protagoniza um dos momentos mais engraçados do longa (Mary Poppins!), mas no geral a participação dele nesta continuação é bem melancólica. A cena em que a Father & Son do Cat Stevens é executada é de cortar o coração.

Resumindo, é muita tristeza e seriedade em um filme que é a continuação de um dos longas mais divertidos dos últimos anos. Vol. 2 ainda tem MUITO humor e inocência (conforme pode ser visto em praticamente todas as cenas do Bebê Groot e do Drax e em pérolas como o ‘Pac Man gigante’) repete aquele clima descolado proporcionado por músicas bacanas como The Chain do Fleetwood Mac e está cheio de easter eggs (Howard, o Pato está de volta e há incríveis 5 cenas após os créditos rs), mas no geral a investida do James Gunn no desenvolvimento dos personagens levou a história para rumos bastante sombrios (observem a Nebulosa falando sobre o que ela deseja fazer com o Thanos). Gostei do filme, tanto que vi ele duas vezes antes de escrever essa resenha (uma foi dublado: a voz do Yondu ficou HORRÍVEL na versão nacional), mas não gostei de ver o Rocket chorando. Tadinho.

Logan (2017)

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“Eu já havia enfrentado muitas situações terríveis antes, e a escrita me ajudara a superá-las – me ajudara a esquecer de mim por pelo menos alguns momentos. Talvez ela me ajudasse outra vez. Parecia ridículo pensar que funcionaria, dado o nível de dor e incapacidade física que eu sentia, mas uma voz no fundo da minha cabeça, ao mesmo tempo paciente e implacável, me dizia (…) que a hora era aquela.”

Em junho de 1999, o Stephen King quase abotoou o paletó de madeira após ser atropelado por um furgão. O escritor estava realizando sua caminhada diária próximo a uma estrada do Maine (provavelmente pensando em novas formas de matar personagens tagarelas) quando foi atingido em cheio por um veículo desgovernado. Dentre outras coisas, o cara teve lesões sérias no joelho, na coluna, nas costelas e no couro cabeludo e precisou operar o quadril, que foi completamente deslocado pelo impacto. Coincidência bizarra, King relatou o ocorrido no Sobre a Escrita, último livro que li antes do meu próprio acidente e do qual retirei o trecho acima.

De fato, após vivenciar um grande trauma e ver tarefas corriqueiras como escovar os dentes transformarem-se em experiências dolorosas, a gente meio que fica uns dias no limbo. Te levam para o hospital para trocar curativos, te levam pra casa. Te levam para almoçar, colocam comida na sua boca (olha o aviãozinho!), te dão banho e parabéns quando você demonstra alguma evolução (coisas complexas como usar um cotonete sozinho). O pior de tudo é que, por mais horroroso que seja abrir mão da própria independência, não há muito o que fazer e a gente vai deixando-se levar. Daí para acostumar-se com a situação é um passo. Felizmente, a tal voz a qual o King refere-se também habita a minha cachola e, no último fim de semana, eu decidi que chegara a hora de reconquistar parte do meu espaço: chamei um Uber e fui ao cinema. Ousado, não?

Não foi fácil. Acostumado que estou a fazer as coisas de forma rápida e objetiva, vi-me na entediante situação de precisar andar bem devagar, tanto para acompanhar minha esposa, que ainda está com o joelho dolorido, quanto para evitar que alguém esbarrasse nos meus braços. Tarefas simples, como inserir o cartão de crédito na maquininha e digitar a senha, transformaram-se em verdadeiras aventuras. A felicidade por ter saído de casa após quase 3 semanas de relacionamento com o Netflix foi acompanhada pela sensação constante de impotência, como se os meus melhores dias houvessem passado e dado lugar a decadência de alguém que viverá o resto da vida na sombra daquilo que um dia foi. Exagero? Talvez, mas, noutra coincidência incrível, Logan, o primeiro filme que vi após o acidente, evoca justamente esses sentimentos de alguém que, consciente de suas limitações, prepara-se para sair de cena após uma última dança.

No ano de 2029, o Logan (Hugh Jackman) ganha a vida trabalhando como chofer. Velho e decadente, ele divide o tempo entre encher a cara e cuidar, com a ajuda do esquisitão Caliban (Stephen Merchant), de um decrépito Professor Xavier (Patrick Stewart). Aparentemente, após os eventos mostrados em Apocalipse, o Xavier foi diretamente responsável por um acidente que não só vitimou vários mutantes como desencadeou uma reação implacável do governo contra os chamados homo superior: os X-Men chegaram ao fim e o nascimento de novos mutantes foi coibido através da manipulação de drogas inibidoras nos alimentos.

Logan sente que o fim está próximo. Não que ele importe-se com isso, visto que praticamente todas as pessoas que ele amou já partiram deste mundo, mas seu fator de cura regenerativo nunca mais foi o mesmo desde que ele recebeu os implantes de Adamantium no Programa Arma X. O metal, ainda que útil, está apodrecendo Logan de dentro pra fora, e sempre que ele envolve-se em uma briga e fica ferido (o que não é lá uma raridade) a morte fica mais e mais próxima.

O Wolverine que o diretor e roteirista James Mangold nos mostra em Logan, portanto, é um personagem bem diferente daquela máquina da fazer sashimi que foi vista no Imortal e nos outros longas da franquia X-Men feitos até agora. Já na abertura do filme, Logan demonstra uma dificuldade incomum para despachar um grupo de bandidos que tentam roubar as rodas da limousine que ele usa para trabalhar. Num aperitivo da violência gráfica galopante que será vista ao longo de toda a projeção, os delinquentes acabam estraçalhados, mas antes de terem seus membros e cabeças arrancados eles conseguem dar uma coça considerável no personagem. Para um cara que já saiu no braço com o Dentes-de-Sabre e com o Magneto, apanhar de ladrões de carro não é um bom sinal.

Essa abordagem de “humanizar” o herói nem sempre dá certo, mas aqui funciona muitíssimo bem. Logan tem muitas e boas cenas de ação (aquela luta noturna na fazenda é um espetáculo), mas o forte do filme é mesmo o conteúdo emocional extraído das fraquezas e defeitos do mutante. Vivendo nas sombras procurando juntar uma grana para comprar um barco e dar no pé com Xavier, Logan não dá a mínima quando uma mulher procura-o pedindo ajuda para levar ela e uma garotinha até a fronteira dos EUA com o Canadá. Nada de heroísmo gratuito para um cara que bebe dia e noite para esquecer as dores do corpo e da alma. Quando agentes do governo demonstram interesse na tal garotinha, porém, Logan aceita os conselhos de Xavier (e uma quantia generosa de dinheiro), e inicia uma longa viagem rumo ao norte do país. Assumindo, pois, o formato de um road movie na maior parte da trama, o roteiro é balizado por diálogos e situações do cotidiano que revelam um Logan cético, estressado e pessimista precisando encontrar forças tanto para realizar uma última missão quanto para cuidar de uma criança e de um velho. Após vários filmes focados na brutalidade do personagem, vê-lo esforçando-se para ter paciência com uma garota brincando com o pino da porta do carro foi algo bem diferente e divertido.

A tal garota, Laura/X-23 (Dafne Keen), revela-se uma máquina de matar tão ou mais implacável que o Wolverine de outrora. Mangold explora bem o contraste entre a inocência esperada das crianças e a capacidade destrutiva da personagem, fazendo-a decapitar seus perseguidores e fatiá-los freneticamente em cenas brutais. Felizmente, Logan redime toda a falta de violência de filmes horrorosos como X-Men Origens Wolverine, mas insisto que o grande trunfo do filme é o conteúdo emocional. Fora o fator “Hugh Jackman” (particularmente, eu nunca morri de amores pelo ator, mas é inegável que a ciência de que esta é a última vez que ele aparecerá como o mutante acrescenta uma certa melancolia ao material), há o humor inocente da X-23 roubando um óculos na loja de conveniência, as piadas e as palavras de sabedoria do Xavier esclerosado e, claro, a conclusão carregada de sacrifício e redenção.

Logan, pela classificação indicativa (para maiores de 16 anos) e pelos temas que aborda, foi feito buscando um público mais adulto, fato que devemos comemorar e agradecer a títulos como Batman – O Cavaleiro das Trevas e Deadpool por mostrarem que é possível fazer filmes de super heróis focando menos nos efeitos especiais e mais no roteiro (que bela sacada aquela metalinguagem com os gibis e as action figures). Foi bom abandonar um pouco o limbo e ir ao cinema ver um filme sobre um cara que, mesmo visivelmente decadente, encontrou forças (ainda que sintéticas rs) para fazer o que precisava ser feito. Tem sido bom usar a escrita para esquecer um pouco da dor e tirar alguns sentimentos ruins aqui de dentro. É bom ver que, aos poucos, as coisas vão voltando ao normal.

Doutor Estranho (2016)

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doutor-estranho2016 foi um ano de reafirmação para a Marvel. Por mais que, desde 2008, a empresa tenha feito a alegria da comunidade nerd com os muitos lançamentos do MCU (Marvel Cinematic Universe ou Universo Cinematográfico Marvel), a verdade é que a abordagem mais psicológica (e ruim) do Homem de Ferro 3, bem como as recepções mornas do público a grandes apostas do estúdio (como Vingadores: Era de Ultron e Homem-Formiga) fizeram com que muita gente questionasse se a fórmula dos filmes de super-heróis não havia se esgotado.

A resposta da Marvel foi rápida e eficaz. Primeiro, a empresa nos deu o ótimo Guerra Civil, produção que não só mostrou sua superioridade em relação à DC, sua concorrente direta, quanto resgatou o querido Homem Aranha das garras da Sony (isso sem falar na apresentação pra lá de promissora do Pantera Negra). Agora, com o lançamento do Doutor Estranho, ela mostra que é possível expandir a fórmula do MCU (cenas de ação fantásticas e muito humor) conciliando-a com a atuação de um dos maiores atores da atualidade e com um visual soberbo e conceitual.

Dr. Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um respeitado neurocirurgião que entra em desespero após perder sua capacidade de operar devido a um acidente de carro que esmaga suas mãos. Strange passa por uma série de procedimentos cirúrgicos para tentar restabelecer suas habilidades mas, como não obtém sucesso em nenhum deles, acaba viajando para a Ásia atrás de uma promessa de cura que, disseram-lhe, poderia ser encontrada em um antigo e misterioso monastério. É então que, sob a tutela do Ancião (Tilda Swinton), Strange aprende os segredos da magia e vê-se repentinamente no meio de uma batalha milenar contra Dormammu, entidade ancestral que planeja anexar a Terra aos seus domínios.

doutor-estranho-cena-3Aproveitei o feriado de finados para assistir Doutor Estranho na pré-estreia, algo que eu não fazia desde o começo do ano. Comprei o combo de bugigangas do Cinépolis (balde de pipoca personalizado + chaveiro do Olho de Agamotto) e sentei na poltrona horrorosa do cinema as 00:15 (dia 01 para 02) impressionado com a quantidade de pessoas que resolveram fazer o mesmo. Considerando que trata-se de um “filme de origem”, desses que apresentam o personagem e sua história, e que o Doutro Estranho não é lá um dos heróis mais conhecidos da Marvel (não tanto como o Hulk ou o Thor, por exemplo), a sala estava bem cheia. Para alegria geral, o que foi mostrado na tela fez valer a pena passar parte da madrugada acordado.

De cara, me chamou a atenção o fato da Marvel ter mudado a apresentação do logo da empresa. Sabe aquela sequência onde são exibidos algumas páginas das HQ’s antes que a palavra “MARVEL” surja? Colocaram no lugar uma sucessão de pequenos clipes das versões cinematográficas dos heróis retirados dos filmes anteriores. Ao meu ver, esta alteração (que ficou bem legal) é um sinal positivo de que a empresa tem consciência e orgulho da solidez do material que ela produziu ao longo dos últimos 8 anos. “O MCU deu certo e está na hora de elevá-lo a um novo patamar”, eis o recado.

doutor-estranho-cenaAcabou, portanto, aquele tempo em que falar de universos paralelos, magias e entidades ancestrais era algo arriscado. O começo de Doutor Estranho é frenético e diferente de tudo aquilo que havíamos visto no MCU até agora. O vilão Kaecilius (Mads Mikkelsen), um dos seguidores de Dormammu, rouba a página de um livro de magias proibidas e o Ancião utiliza seus poderes para impedi-lo. Fora a pancadaria tradicional, que é muitíssimo bem coreografada pelo diretor Scott Derrickson (um cara que fez o nome no gênero de terror com títulos como O Exorcismo de Emily Rose e A Entidade), salta aos olhos os efeitos especiais utilizados na alteração da realidade física dos ambientes provocadas pelas habilidades dos personagens. Peguem os melhores e mais insanos momentos do conceitual A Origem, adicionem algumas magias que são conjuradas em meio a uma infinidade de runas e deem a tudo isso a profundidade de um 3D pelo qual vale a pena pagar: eis a receita que fará tua mente explodir nos primeiros minutos do filme.

doutor-estranho-cena-5A calmaria que se segue, momento onde o Doutor Stephen Strange é apresentado em seu local de trabalho antes do acidente que levaria-o para o olho do furacão, é o tipo de cena que tinha tudo para ser banal devido a previsibilidade do conteúdo. Um sujeito, que conhece uma garota legal (Rachel McAdams), passa por alguns problemas, ganha habilidades, treina e enfrenta uma grande ameaça: com uma ou outra variação, eis o resumo do “filme de origem”, e é a sétima vez que vemos isso dentro do MCU. Doutor Estranho não foge muito deste esquema, mas o talento do Benedict Cumberbatch revigora a fórmula e torna a parte de drama do roteiro tão interessantes quanto as cenas de ação. Com sua voz dracônica, o ator brilha em diálogos repletos de arrogância e citações à cultura pop (atenção à referência ao Máquina de Guerra) e os ensinamentos que ele aprende, principalmente nos diálogos com o Ancião (Não é sobre você, Strange), são o tipo de coisa que dá para levar para fora da sala do cinema.

doutor-estranho-cena-2Doutor Estranho tem seus problemas. As cenas do treinamento, aquelas onde o herói desenvolve suas habilidades com Mordo (Chiwetel Ejiofor), poderiam durar mais. A edição sugere passagens de tempo e o fato do Strange ser muito inteligente pode até justificar a rapidez com que ele domina algumas técnicas, mas ainda assim fiquei com a impressão de que o cara já estava preparado demais quando enfrentou o Kaecilius pela primeira vez. Não ficou natural eles lutando de igual para igual. Também achei que poderiam ter caprichado mais no clímax do filme, velha pedra no sapato da Marvel (desta vez, o conflito é mais ‘cerebral’, por assim dizer, do que físico), e nas piadas. Beyoncé, Adele e Eminem? Haha. Senha de Wi-fi? Nem Esbocei.

doutor-estranho-cena-4Feitas essas considerações, digo que o saldo de Doutor Estranho é MUITO positivo. A caracterização do personagem (Olho de Agamotto + Capa de Levitação + cavanhaque do Cumberbatch) também deve ser citada como ponto alto da produção (aprende, Fox) e o espetáculo visual criado pelo diretor Scott Derrickson, principalmente na cena de abertura e quando o Strange conhece o “multiverso”, é o tipo de coisa que faz a gente ter certeza que valeu a pena comprar um ingresso e ir ao cinema (já há quem diga, aliás, que os efeitos especiais do filme são tão bons que não será surpresa se eles renderem para a Marvel seu primeiro Oscar).

Doutro Estranho é mais de um mesmo que a gente aprendeu a amar. A Marvel continua de parabéns por respeitar o desenvolvimento de seus personagens (aprende, DC) e por conseguir corrigir seus erros e criar novos atrativos dentro da fórmula que ela mesmo desenvolveu. Fica agora a expectativa para sabermos como o Doutor Estranho irá interagir com os Vingadores (um das duas cenas pós-crédito dá uma dica) e como os eventos desse filme afetarão as outras produções do MCU.

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X-Men: Apocalipse (2016)

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X-Men - ApocalipseDe todos os filmes de super herói que foram anunciados para 2016, o que menos me empolgou foi esse X-Men: Apocalipse. Não sei vocês, mas depois do péssimo O Confronto Final, dois spin-offs horrorosos do Wolverine e um filme potencialmente bom prejudicado pelo “excesso de Wolverine”, eu meio que perdi a fé na capacidade da Fox de voltar a realizar algo minimamente decente relacionado aos mutantes.

Não bastasse essa desconfiança, as imagens do longa divulgadas antes do lançamento não eram nada animadoras. Impiedosa que é, a internet não tardou em comparar o visual proposto pelo diretor Bryan Singer para o vilão Apocalipse com o do Ivan Ooze, antagonista dos gloriosos Power Rangers naquele filme ruim de 1995. Diretor e estúdio rebateram dizendo que aquele não era o visual “finalizado” do personagem e que a imagem não havia recebido todo o “tratamento necessário”, mas aí a semente da descrença já estava plantada e germinada.

Foi assim, pessimista e com a mesma sensação de quem está realizando uma atividade meramente burocrática, que comprei ingressos para assistir X-Men: Apocalipse. Assim sendo, não posso negar que seria um tanto quanto prazeroso escrever um texto falando “eu avisei que o filme era ruim e blablabla”, mas melhor do que massagear o meu próprio ego é relatar-lhes como quebrei a cara em todos os sentidos e saí felizão do cinema. É sempre bom ser surpreendido positivamente. Ao meu ver, Apocalipse, além de ser tão bom quanto o X-Men 2 e o Primeira Classe, cumpre o importante papel de amarrar a complicada linha cronológica que a série apresentou até agora e abre caminho para que, daqui para frente, sejam feitos filmes mais consistentes sobre os mutantes.

X-Men - Apocalipse - Cena 5O ponto de partida aqui é aquela cena pós-crédito mostrada no Dias de Um Futuro Esquecido. Há milhares de anos, os egípcios veneravam um ser poderosíssimo que, juntamente com seus 4 ajudantes, reinava sobre o povo com status de divindade. Considerado por muitos como o primeiro mutante da história, esse ser, que mais tarde viria a ser chamado de Apocalipse (Oscar Isaac), é atacado por dissidentes e então o seu corpo permanece lacrado em uma tumba até a década de 80, quando ele desperta com o propósito de purificar o mundo através da destruição global.

Os eventos vistos em Apocalipse, portanto, acontecem no período imediatamente posterior àqueles que vimos em Dias de Um Futuro Esquecido. A volta de Wolverine (Hugh Jackman) ao passado e o confronto dos X-Men contra os Sentinelas criados pelo Dr. Bolivar Trask criaram uma linha temporal alternativa na qual a Mística (Jennifer Lawrence) transformou-se numa heroína para os mutantes, o Professor Xavier (James McAvoy) conquistou vários alunos para sua escola e o Erik (Michael Fassbender) abandonou suas pretensões enquanto Magneto para constituir família e esconder-se em um vilarejo na Polônia. Quando Apocalipse surge e começa a reunir seus seguidores (os Quatro Cavaleiro do Apocalipse), os X-Men precisarão juntar forças novamente e deixarem velhas diferenças de lado para impedir que o vilão extermine toda a vida existente no planeta.

X-Men - Apocalipse - Cena 4Logo na primeira cena o diretor Bryan Singer já deixa claro sua intenção de dar ao filme toda a grandiosidade que uma história sobre um dos vilões mais icônicos dos X-Men merece. A fantástica destruição da pirâmide, com aquelas pedras gigantes esmagando tudo e todos, é seguida da tradicional abertura da série (a exibição dos créditos em corredores virtuais que nos levam até a porta do Cérebro), que dessa vez foi sabiamente utilizada para mostrar a passagem do tempo da antiguidade até os dias atuais. Ali, naquela sequência espetacular de planos abertos, efeitos especiais sensacionais e músicas épicas, o meu ceticismo foi demolido junto com a pirâmide na qual o corpo do Apocalipse é sepultado vivo.

X-Men - Apocalipse - CenaO que vem em seguida, em termos de ação, também não decepciona. Tendo em vista os confrontos meia boca que os mutantes haviam tido até então com vilões como Dente de Sabres, Magneto do Ian McKellen e Samurai de Prata, muita gente desconfiou que o Apocalipse não seria retratado como o ser extremamente poderoso que ele é. O diretor não só consertou o visual “Ivan Ooze”, deixando o rosto do personagem quadradão e com as “listras” características, como fez do vilão a maior ameaça que os X-Men enfrentaram até agora em suas adaptações cinematográficas. Tendo trocado de corpo com vários mutantes ao longo dos séculos, Apocalipse acumulou vários poderes e habilidades e aqui ele faz uso de todas elas para tentar vencer a batalha, coisas impressionantes como enterrar os adversários vivos e aumentar o tamanho do próprio corpo. Durante o filme há muitas cenas de pancadaria divertidas e estilosas (o Magneto vingando-se de um grupo de aldeões utilizando ‘apenas’ um pingente foi a minha favorita), mas é muito bom que a “joia da coroa” seja o último quebra pau entre os X-Men e o vilão, que mostra-se um desafio à altura dos mutantes e obriga-os a utilizarem todos os seus poderes (e até mesmo alguns que estavam adormecidos 😛 ) para derrotá-lo. Sinceramente, eu já estava cansado de vilões que muito falavam e pouco faziam.

X-Men - Apocalipse - Cena 3Fosse o filme apenas uma sequência interminável de cenas de ação, porém, eu não teria gostado dele. Nos quadrinhos, os X-Men enfrentam grandes vilões e ameaças, mas eles também enfrentam as dificuldades de serem criaturas diferentes em um mundo preconceituoso. Esse drama hamletiano do “ser ou não ser” (observem a referência no poster acima), de personagens que amaldiçoam-se e sentem-se abençoados pelo mesmo motivo (a mutação) é uma constante na série (Vampira, Mística, Xavier após o acidente) e, em Apocalipse, o Bryan Singer desenvolveu a questão tendo como foco o Erik: ao tentar negar sua essência e seus poderes, o personagem só consegue ver-se mais e mais imerso em problemas. Sobre o roteiro, também chama a atenção a forma crítica como o diretor trabalha a questão da divindade, visto que ele faz uma clara analogia entre o Apocalipse e o Deus vingativo descrito no Antigo Testamento.

X-Men - Apocalipse - Cena 6Sobre um bolo que contém algumas das melhores cenas de ação da série e um roteiro consistente cheio de bons diálogos, coube ao Bryan Singer distribuir não uma, mas várias cerejas para os fãs deliciarem-se. Nisso, ele coloca a matadora The Four Horsemen do Metallica para tocar quando os Quatro Cavaleiro do Apocalipse reúnem-se, a queridinha Sophie Turner (da série Game of Thrones) aparece como Jean Grey e nos deixa animados com suas curvas e com o poder “desconhecido” que ela carrega, a Psylocke (Olivia Munn) e o Anjo (Ben Hardy) finalmente recebem o devido tratamento (tanto gráfico quanto em tempo de tela e ferocidade) e o Mercúrio (Evan Peters) rouba novamente a cena com sua velocidade e bom humor em uma sequência espetacular de resgate que ocorre ao som da clássica Sweet Dreams (Are Made of This) do Eurythmics. Finalmente, o Wolverine é utilizado em uma única cena (ALELUIA!) na qual ele dilacera alguns bandidos genéricos, esbanja mau humor e faz links com seu vindouro filme (que, felizmente, deve sair com censura +18). Como eu já havia desconfiado, nos filmes do X-Men, “menos Wolverine é mais Wolverine”.

X-Men: Apocalipse me surpreendeu positivamente em todos os motivos. Eu, que já defendia a ideia de que os mutantes deveriam passar por um reboot cinematográfico, voltei a ficar empolgado com a possibilidade de voltar ao cinema para vê-los dentro do universo imaginado pelo Bryan Singer. Agora é só colocar o Hugh Jackman para estripar o Sr. Sinistro no próximo filme do Wolverine (confronto que é sugerido pela cena pós-créditos) para que a confiança na Fox seja plenamente restabelecida.

X-Men - Apocalipse - Cena 2

Capitão América: Guerra Civil (2016)

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Capitão América - Guerra CivilAntes de contar-lhes como voltei a ser criança assistindo esse novo épico da Marvel, compartilho uma informação que acredito ser de utilidade pública:

  • Como dar “tranco” em uma moto caso a bateria descarregar: 1) suba na moto 2) segure a embreagem 3) coloque a segunda marcha 4) embale a moto e, tão logo ela ganhe velocidade 5) solte a embreagem e acelere.

O que? Vocês já sabiam como fazer isso? Pois é, amigos, aparentemente eu era o único homem desse mundão velho que não conhecia esse truque demoníaco e, por esse motivo, perdi a estreia do Guerra Civil. O lance foi mais ou menos o seguinte: comprei ingresso para assistir o filme na semana passada, na madrugada de quarta (27) para quinta (28), na sessão das 00:01. Grande foi a minha frustração quando, as 23:30, descobri que a bateria da minha moto havia descarregado. Ainda tentei dar partida nela (uma Yamaha Fazer) durante uns 20 min mas, como eu não conhecia o processo citado acima, tive que render-me a minha própria ignorância e ir dormir poucos minutos depois amaldiçoando-me por perder os ingressos de forma tão boba.

Todo caso, troquei a bateria, comprei novas entradas e, finalmente, consegui assistir o filme no sábado, dia 30. Fiquei tão feliz com o que vi que, enquanto a sessão durou, esqueci que havia um mundo lá fora onde motos só pegam na base do tranco. Para ir direto ao ponto, Guerra Civil é o melhor filme da Marvel feito até agora e, para falar sobre ele, utilizarei alguns SPOILERS, ok?

Capitão América - Guerra Civil - CenaHá uma espécie de consenso entre os fãs de quadrinho de que “a DC é séria e a Marvel é divertida”. Ainda que essa seja uma ideia passível de relativização (mesmo não sendo um grande leitor de HQ’s, sei que a Liga da Justiça já passou por uma fase bastante escrachada e que muitos temas sociais já foram discutidos nas páginas dos X-Men), não podemos negar que ela descreve bem as investidas cinematográficas das duas empresas: o tom de filmes como O Homem de Aço e Homem Formiga, por exemplo, são completamente diferentes.

Levando isso em consideração, fiquei imediatamente curioso para saber como a Marvel adaptaria para as telas os eventos obscuros da HQ Guerra Civil. A “Lei de Registro de Super-Heróis” e os temas que ela evoca (tais como responsabilidade civil e censura), bem como a morte de personagens importantes, não são o tipo de material que a gente consegue imaginar lado a lado com cenas de humor, certo?

Capitão América - Guerra Civil - Cena 4Felizmente, ainda há diretores que conseguem misturar elementos tão díspares e fazer com que cada um deles receba a devida atenção. Anthony e Joe, os Irmãos Russo, já haviam mostrado do que eram capazes no O Soldado Invernal. Corriqueiramente apontado como uma das melhores adaptações da Marvel até então, o filme conseguiu transmitir toda a tensão de uma história de espionagem repleta de traições e reviravoltas sem abrir mão de piadas pontuais, como quando o Capitão (Chris Evans) deixava o Falcão (Anthony Mackie) comendo poeira na corrida. Os diretores nos deram lutas muitíssimo bem coreografadas em que os personagens corriam risco real de morte nas mãos do Soldado Invernal (Sebastian Stan) e reviraram as entranhas da S.H.I.E.L.D., mas isso não os impediu de nos fazer dar boas risadas durante o processo. Não era exatamente isso que Guerra Civil precisava?

Capitão América - Guerra Civil - Cena 5A sinopse: Comandados pelo Capitão, os Vingadores Falcão, Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Viúva Negra (Scarlett Johansson) vão até a Nigéria para impedir que o vilão Ossos Cruzados (Frank Grillo) roube e espalhe um vírus mortal. Durante o confronto, Wanda utiliza seus poderes psíquicos para proteger o Capitão do que seria a morte certa mas acaba destruindo um prédio e matando vários civis. Esse acidente, somado as destruições anteriores provocadas pela ação dos Vingadores (Nova York, Washington e Sokovia), fazem com que o governo proponha uma Lei de Registro de Super-Heróis, de modo que as intervenções da equipe deixem de ser arbitrárias e passem a ser reguladas e comandas por órgãos do Estado. A proposta é aceita pelo Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Máquina de Guerra (Don Cheadle), Visão (Paul Bettany) e Viúva Negra, mas o Capitão, Falcão e Feiticeira Escarlate negam-se a assinar. A divergência sobre o tema provoca um racha na equipe e, após um atentado a uma embaixada da ONU que é atribuído ao Soldado Invernal, os heróis entram em rota de colisão.

Capitão América - Guerra Civil - Cena 6Quem acompanhou as informações que foram divulgadas antes do lançamento certamente estava ansioso pela aparição do Pantera Negra (Chadwick Boseman) e pelo debut do Homem Aranha (Tom Holland) no MCU (o Marvel Cinematic Universe, ou Universo Cinematográfico Marvel). Os dois momentos são mágicos, com o Pantera (que eu conheci recentemente assistindo o desenho Os Vingadores – Os Super-Heróis Mais Poderosos da Terra que está disponível no Netflix) mostrando-se um homem sábio e letal com sua armadura de vibranium e o Homem Aranha representando cada um de nós com sua empolgação e admiração pelos outros heróis, mas há muito mais por aqui do que a simples adição de personagens que o público ama.

Capitão América - Guerra Civil - Cena 2O tema central de Guerra Civil é o tipo de coisa que rende uma boa discussão e os diretores souberam balancear os dois lados da questão. Ao meu ver, os argumentos podem ser divididos da seguinte forma:

  • Tony Stark (Homem de Ferro): Caras maus existem e sempre existirão. Como a tentativa de conter esse mal antes que ele prejudique alguém falhou miseravelmente no Era de Ultron, Tony não quer mais carregar sozinhos nas costas a culpa pela morte de inocentes. Traumatizado pelo relato de uma mãe que perdeu um filho em Sokovia, ele prefere transferir a responsabilidade dos atos dele para o governo. A opinião do personagem, mesmo que emocionalmente contaminada, evoca a confiança nas instituições governamentais e na busca pela legalidade, mas desconsidera que mesmo essas instituições podem cometer erros.
  • Steve Rogers (Capitão América): O mal do mundo precisa ser enfrentado diariamente e quem tem o poder para tal deve assumir a responsabilidade de liderar a luta e ser forte o suficiente para lidar com os inevitáveis reveses do processo. O Capitão acredita que a ideologia dos Vingadores de tornar o mundo um lugar melhor e mais seguro não pode curvar-se diante dos danos colaterais que as ações deles provocam. O “bem maior” pelo qual ele luta, porém, mostra-se uma ideia passível de corrupção quando ele permite que assuntos pessoais (a amizade dele pelo Bucky) interfiram em seu julgamento.

Em momentos alternados da trama, damos razão tanto para o Tony quanto para o Capitão e isso mostra a grandeza do roteiro, que consegue mostrar de forma bastante didática que sempre há mais de um ponto de vista sobre qualquer questão.

Capitão América - Guerra Civil - Cena 3Esse tema “sério” é trabalhado pelos Irmãos Russo da forma como deve ser, com cenas mais lentas, diálogos bem elaborados e lutas brutais pintadas de sangue (o Soldado Invernal continua MUITO violento), mas isso não atrapalha em nada a reprodução da fórmula “piadas + cenas de ação espetaculares” que fizeram a fama da Marvel nos cinemas. A cena da batalha no aeroporto, com todo mundo batendo, todo mundo apanhando, o Homem Formiga (Paul Rudd) voando agarrado na flecha do Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e o Homem Aranha fazendo piada do Star Wars é candidata a melhor cena de ação dos últimos anos. A gente ri e fica empolgado, tudo ao mesmo tempo, e só não grita de emoção porque, ao contrário das crianças, nós temos essa péssima mania de nos preocuparmos com a opinião dos outros. Todo caso, ali no meu cantinho, experimentei uma forte sensação de nostalgia e lembrei-me de quando eu era pequeno e ficava sentado na frente da TV vendo desenho, sinal definitivo de que o filme havia conquistado meu coração.

As 2 cenas pós-crédito de Guerra Civil revelam as intenções da Marvel de concentrar-se agora no Pantera Negra e no Homem Aranha. Considerando tudo que vi aqui, só tenho motivos para continuar sentindo-me feliz por estar vivo e com dinheiro para continuar frequentando o cinema em um período onde tudo aquilo que eu gostava quando criança está sendo transformado em filmes de altíssima qualidade. Obrigado, Marvel!

BÔNUS ROUND: Para terminar, um vídeo cuja “vibe” resume perfeitamente o meu sentimento após sair do cinema: DESCUBRA!

Capitão América - Guerra Civil - Cena 7

Deadpool (2016)

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DeadpoolCom base no que vi no cinema na última sexta feira e no que li e ouvi sobre o Deadpool nas redes sociais desde que o filme foi anunciado, comentarei 3 temas acerca da produção nessa resenha, a saber: “modinha”, o filme em si e calça marrom. Por motivos de “organização emocional”, dividirei o texto em tópicos, ok?

“Modinha” ou “Hey, caras, pra que isso?”: É sempre a mesma coisa. Anunciam uma adaptação para cinema de algum quadrinho/livro/game. As competentes campanhas de marketing atuais preparam o terreno para o lançamento viralizando informações sobre o filme em todos os lugares possíveis, principalmente nas redes sociais. Nisso, até aquela sua tia que só entra no Facebook para dar bom dia para a família terá acesso ao mesmo material promocional (trailers, teasers, imagens oficiais) que você. Algumas pessoas (\o) não veem problema algum nisso, mas outras, não conseguindo aceitar que aquele personagem que elas tanto amavam já não é mais só delas, passam a vomitar frases soberbas do tipo “eu já conhecia isso aí muito tempo antes do filme” ou “agora todo mundo é fã do fulano de tal, mesmo sem ter lido nada dele”. Caras, isso é algo que precisa acabar.

Antes de prosseguir com a crítica, ofereço um pouco de simpatia nerd e digo que até compreendo o porque dessas pessoas comportarem-se assim. De fato, é difícil ver algo que amamos sendo tratado de forma passional e superficial. O cara vai lá, vê o trailer do filme, lê uma matéria de 500 palavras e já quer sair falando com propriedade sobre algo que tu dedicou várias horas da sua vida para conhecer. Dá raiva, principalmente quando percebemos que a pessoa está “falando merda”. Entendo tudo isso, mas acredito que, no lugar de ridicularizar a pessoa  chamando-a de “modinha”, é mais eficiente utilizar o conhecimento que você tem para instruir o outro. Compartilhar, sabe? É claro que algumas pessoas não estão interessadas em aprender mais e só querem falar sobre o assunto do momento, mas não devemos nos pautar por isso. Não sejamos arrogantes e nem protecionistas, concentremo-nos em quem vale a pena: quanto mais fãs um determinado quadrinho/livro/game ganhar, maior é a chance de temos com quem conversar sobre ele e de encontrarmos produtos dele nas lojas.

Deadpool - Cena 3“O filme” ou “HO HO HO”: Em um ano que promete ser épico para os fãs de quadrinho, Deadpool entrega tudo aquilo que havia prometido nos trailers e joga a batata quente para o próximo título da “lista nerd de 2016”, o Batman vs Superman. Debutando na direção, o especialista em efeitos especiais Tim Miller valeu-se de um roteiro escrito por Rhett Reese e Paul Wernik (as mentes criadoras do ótimo Zumbilândia) para realizar um filme que reúne o que há de melhor dentro do que já foi feito até agora dentro do gênero “super herói”: o humor é constante, como no Homem-Formiga, o sangue escorre da tela, como no Justiceiro: Em Zona de Guerra e as lutas estão tão ou mais bem coreografadas do que aquelas vistas no Capitão América 2: O Soldado Invernal. Conferindo personalidade ao material, temos uma pegada mais adulta, tanto pelo teor sexual quanto pelo excesso de violência, uma trilha sonora marcante (a Shoop, do Salt-N-Pepa, já está na minha playlist) e o texto completamente afinado com a cultura pop que fica ainda mais legal devido a muito comentada “quebra da quarta parede”, recurso narrativo que permite que o personagem converse diretamente com o espectador.

Deadpool - Cena 4Bem, eu era uma “dessas pessoas” que não conheciam o personagem a fundo. Eu lembrava do Deadpool daquele filme solo horroroso do Wolverine e só, nunca li nenhum quadrinho dele e ignorava sua origem e motivações. Assim sendo, comprei sem base de comparação o que o diretor vendeu e é apenas isso que posso comentar. Wade Wilson (Ryan Reynolds), um ex-membro das Forças Especiais, descobre que está com câncer terminal e é abordado por uma organização secreta que promete livrar-lhe da doença se ele topar participar de um novo e arriscado procedimento. Durante a operação, Wade é curado e ganha super poderes, mas ao mesmo tempo ele tem sua pele completamente destruída. Assumindo o alter ego de Deadpool, o personagem procura vingança contra o cabeça da tal organização, o misterioso Ajax (Ed Skrein).

Deadpool - Cena 2Não é lá uma história inovadora e o tal Ajax é chatão, mas, ainda assim, o filme funciona muitíssimo bem devido a autoconsciência dos roteiristas sobre o material. Já na cena inicial, quando uma câmera espetacular vai acompanhando todos os detalhes do interior de um carro onde o inferno está acontecendo, o texto brinca com todos os clichês do gênero, como o “vilão britânico”, “o parceiro engraçadinho” e “a gostosa”, que é vivida pela brasileira Morena Baccarin. O esquema batido do “filme de origem” também é subvertido, já que a linha temporal de Deadpool é quebrada (primeiro vemos o Deadpool e só depois vamos saber como deu-se o processo de transformação do personagem), e a história agrada muito por não levar nada e nem ninguém a sério. No meio das muitas cenas de ação violentíssimas que ajudaram a elevar a censura da produção para 16 anos, ninguém escapa das zoeiras de Wade: a Fox, a linha cronológica dos filmes dos X-Men, o Lanterna Verde, o Nick Fury e até o próprio Ryan Reynolds são alvos das piadas do personagem. Piadas de referência sempre serão as minhas favoritas e aqui há uma tonelada delas (quem, sabendo o que está sendo falado, não dará risada da citação do Patrick Stewart e do James McAvoy?), mas fiquei impressionado com a quantidade de risadas do tipo “HO HO HO” que escutei durante a sessão. Sabe quando alguém ri mais alto do que tudo mundo para mostrar que entendeu algo? Pois é, bizarro.

Deadpool - CenaCalça Marrom ou O terror do clímax: Vi o filme numa sessão no meio da tarde. Eu tinha almoçado e, antes do filme começar, comprei o tradicional combo pipoca + refrigerante. Deadpool diz que usa roupa vermelha para que não vejam-no sangrar e aponta para um bandido que, segundo ele, está usando calça marrom por ter entendido a “ideia”. Um sujeito perto de mim dá uma risada do tipo “HO HO HO”: deduzo que ele entendeu que o Deadpool está insinuando que o cara cagará nas próprias calças. Sinto um leve desconforto estomacal. O filme segue, Wade dá SPOILERS do filme 127 Horas, transa, luta com Colossus (Stefan Kapicic) e zoa a Míssel Adolescente Megassônico (Brianna Hildebrand). Quando chega na última cena e o personagem finalmente fica frente a frente com Ajax, bem no auge do filme, bem no clímax…. minha barriga dá um ultimato e, como eu não estava usando calça marrom, me vejo obrigado a sair correndo para o banheiro. Bem na hora da luta final. Resultado: perdi de 5 a 10 minutos de pancadaria, senti-me zuado pela vida e vi que teria que pagar para ver o filme novamente. Da próxima vez, porém, não comerei NADA antes de ir.

Pronto, isso é tudo o que falarei sobre o Deadpool #aresenhaacabou

Deadpool - Cena 5

Quarteto Fantástico (2015)

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Quarteto FantásticoFazia tempo que eu não via um filme receber tantas críticas negativas quanto esse novo Quarteto Fantástico. Tirando os tradicionais sacos de pancada da crítica (série Crepúsculo, Cinquenta Tons de Cinza), o último longa que eu lembro de ter sido tão massacrado pelo público foi o Lanterna Verde.

Nota-se que a qualidade crescente das adaptações de quadrinhos para o cinema (que pode ser verificada principalmente na última década) deixou os fãs exigentes e aumentou suas expectativas por novos lançamentos. Hoje, eles leem notícia em sites especializados sobre o diretor, elenco e roteiro das produções do gênero muito antes da estreia e, quando o que é lido/visto não agrada, já iniciam a condenação online do filme. No caso do citado Lanterna Verde, por exemplo, geral torceu o nariz quando anunciaram que o uniforme do personagem seria gerado por computação gráfica. No fim das contas, esse foi o menor dos problemas do longa, mas a desconfiança criada pelas informações que haviam sido divulgadas foi preponderante para o fracasso dele. Obviamente, nem sempre esse “pé atrás” é bem fundamentado ou prova-se justificável após o lançamento. O caso mais conhecido em que a descrença dos fãs mostrou-se infundada talvez seja o do Batman: O Cavaleiro das Trevas: quem não acreditou na escolha do Heath Ledger teve que “engolir” uma atuação icônica que rendeu um Oscar póstumo para o ator.

O que podemos concluir disso é que o fã de filmes de super heróis, ainda que cometa alguns erros de julgamento, está atento e não aceita mais, por falta de opções, qualquer amontoado de efeitos especiais que tentarem lhe empurrar. Isso posto, falemos desse desastre chamado Quarteto Fantástico. A decisão da Fox de realizar um reboot na franquia (que começou com aqueles dois filmes horrorosos de 2005/2007) não surpreendeu ninguém. O cenário está extremamente positivo para filmes de super heróis e, por motivos contratuais, o estúdio corria o risco de perder os direitos do grupo para a Marvel caso não produzisse outro longa deles. Em outras palavras, desde a concepção, este filme foi tratado como um produto para fazer grana.

Quarteto Fantástico - Cena 3Deixando de lado aquele romantismo inocente de quem acredita que a principal motivação por trás de um filme deva ser a arte, as notícias que foram surgindo sobre a produção do longa foram tornando-se cada vez mais desanimadoras. O Tocha Humana, contrariando o que é feito nos quadrinhos, seria interpretado por um ator negro (Michael B. Jordan), a Sue Storm (Kate Mara) seria apenas sua irmã adotiva, o Coisa (Jamie Bell) seria gerado por efeitos especiais e (pasmem!) não usaria sua tradicional cuequinha… Fora terem escalado o Milles Teller como Reed Richards, ator que está em alta após a performance destruidora no Whiplash, nada, absolutamente NADA do que foi divulgado sobre o Quarteto Fantástico empolgou.

Eis então que, aproximadamente uma semana antes do lançamento, o que era apenas suspeita começou a transformar-se em uma terrível realidade. Reviews majoritariamente negativos pipocaram por toda a internet, o filme apareceu no IMDB com uma vergonhosa nota 4/10, imagens de um Dr. Destino (Toby Kebbell) irreconhecível foram usadas pelo público para confeccionar memes depreciativos nas redes sociais e a Fox cancelou publicamente o já anunciado crossover cinematográfico entre os personagens e os X-Men. Para piorar, o diretor Josh Trank postou um desabafo no Twitter onde lia-se que a versão do filme exibida nos cinemas não fazia justiça ao material que ele filmou, o que apenas confirmou todos os boatos sobre as desavenças dele com a Fox.

Quarteto Fantástico - Cena 4De posse de todas essas informações (e de um comentário de um amigo no Facebook que disse ‘Preparem-se para ter raiva e sair do cinema‘), comprei o meu ingresso e fui lá conferir se o filme era, de fato, esse desastre todo. Independente de qualquer coisa, precisamos ter a nossa própria opinião, certo? Movimento natural, confesso que fui disposto a gostar de qualquer coisa que fosse exibida apenas pelo prazer de poder ir contra a corrente. E não é que, no começo, eu cheguei a acreditar que tudo o que eu ouvira/lera de ruim sobre o filme não passava de um monte de exageros?

Tal qual a maioria dos “filmes de origem” de super heróis, Quarteto Fantástico mostra como os personagens ganham seus poderes e coloca-os frente a frente com um inimigo. O diretor abre o filme com Reed ainda pequeno, na escola, explicando para uma sala de alunos boçais como ele pretende criar um teletransportador. Desacreditado por todos (até mesmo pelo professor, em uma cena difícil de acreditar), ele acaba chamando a atenção do amigável Ben Grimm e, juntos, eles constroem um dispositivo capaz de teletransportar matéria através do espaço. Anos depois, Reed e seu invento são descobertos pelo Dr. Franklin Storm (Reg E. Cathey), que contrata-o para participar de um projeto cujo objetivo é tornar possível uma viagem interplanetária.

Quarteto Fantástico - CenaEsse começo não tem nada de excepcional ou que você não tenha visto antes e melhor em outro filme sobre adolescentes, mas também não é aqui que você “morrerá de raiva e sairá do cinema”. Fica clara a intenção do Josh Trank de desenvolver os personagens, de nos mostrar seus sonhos e intenções e fazer com que nos afeiçoemos a eles. O ritmo mais cadenciado, calcado principalmente nos diálogos, e os cenários que trazem laboratórios modernos sugerem ainda que Trank quis distanciar-se da ação desenfreada para apostar no tema da ficção científica que é inerente ao grupo. É uma aposta arriscada, que funciona relativamente bem até a primeira parte do filme e que, caso a proposta vingasse, poderia conferir personalidade à franquia, mas aí vem os últimos minutos e destroem TUDO o que fora feito até então.

Quarteto Fantástico - Cena 6Lembro que, quando lançaram o péssimo X-Men Origens: Wolverine, foi comentado que a intenção do diretor/roteiristas era mostrar o Logan como um soldado traumatizado após anos e anos de combates, porém a Fox interveio e transformou a trama em mais um filme de ação genérico. Vendo Quarteto Fantástico e tendo lido o desabafo do Trank, só me resta acreditar que ele falou a verdade e que foi exatamente isso que aconteceu com esse filme. A última metade do longa não tem absolutamente NADA a ver com o que é mostrado no início. O desejo de Reed de ser reconhecido por seus feitos, os conflitos de Johnny com o pai… Tudo isso é abandonado após o acidente em que os personagens ganham seus poderes e, a partir daí, intercalam clichê após clichê (exibição de poderes, negação da condição de ‘aberração’, desavenças entre os heróis) para conduzirem a história até uma batalha final tão, mas TÃO RUIM que o público sentirá saudade daquele espetáculo de horrores  com o Galactus e sua vergonhosa “versão vapor” do Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado.

Quarteto Fantástico - Cena 5Quarteto Fantástico é indefensável. A aparente “seriedade” que Trank tentou imprimir ao longa foi completamente destruída pela edição desastrosa que acelera o filme no final, os efeitos especiais são ruins (lutas em cenários apocalípticos gerados por computador são intragáveis), as alterações na gênese e no visual dos personagens provaram-se inúteis e o Dr. Destino… Caras, o que fizeram com o Dr. Destino? Sério que transformaram um dos maiores vilões da Marvel em um nerd revoltadinho com discurso ambientalista hipócrita? Não que eu seja um grande fã do grupo, mas quando olho para aquela cena forte do Tocha Humana queimando tal qual um cadáver, com aquela música grave no fundo, não posso deixar de lamentar o rumo mongoloide que o filme toma no final, com diálogos do tipo “Ele é muito forte, mas JUNTOS nós podemos vencê-lo!” e aquela bobagem regurgitada de outras produções em que os personagens tentam encontrar um nome para o grupo. Josh Trank, pelo sim e pelo não, eu acredito em ti e atribuo a culpa desse desastre exclusivamente à Fox.

Quarteto Fantástico - Cena 2