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Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017)

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O primeiro Guardiões da Galáxia foi muito bom. Apoiado num visual hiper colorido, numa trilha sonora onipresente e saudosista e abraçando o humor sem medo de ser feliz, o filme do diretor James Gunn conquistou vários fãs com seu roteiro leve e ritmo frenético. Esta continuação, como não poderia deixar de ser, retoma e amplia esta fórmula, mas desta vez, principalmente na segunda metade do longa, o diretor resolveu incorporar elementos dramáticos à história, o que deixou o filme um pouco mais “adulto” do que seu antecessor. O resultado é inquestionavelmente bom, mas confesso que foi meio estranho entrar no cinema felizão, ansioso para dar boas risadas, e sair de lá meio cabisbaixo e pensativo.

Foi na gloriosa e mágica década de 80 que Meredith Quill (Laura Haddock) conheceu e apaixonou-se por uma criatura topetuda do espaço (Kurt Russell). Do amor deles, nasceu Peter Quill (Chris Pratt), o homem que anos mais tarde ganharia notoriedade por conseguir segurar uma das Joias do Infinito e sobreviver. Peter, que nunca conheceu o pai e que viu a mãe morrer ainda criança, cresceu e tornou-se o Senhor das Estrelas, um caçador de recompensas que lidera o grupo Guardiões da Galáxia em missões através de todo o universo.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 começa ao som de Brandy, do Looking Glass, com Meredith passeando num conversível estiloso junto de seu amado. Tão logo fica claro que os dois são os pais de Peter, porém, a cena muda para o longínquo planeta dos Soberanos onde os Guardiões aguardam pela chegada de uma besta interdimensional. Ayesha (Elizabeth Debicki), a rainha do local, contratou Peter, Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (voz do Bradley Cooper) e o Bebê Groot (voz do Vin Diesel) para protegerem uma preciosa carga de baterias inflamáveis do monstro. A luta que se segue é, sem sombra de dúvidas, a melhor sequência de abertura de um filme da Marvel até o momento. Fazendo um belo uso do 3D, James Gunn coloca Peter e cia para quebrarem o pau com o bichão enquanto mostra o simpático Bebê Groot dançando com a Mr. Blue Sky do Eletric Light Orchestra. Ver esse começo, que tem coisas bacanas como o Peter e o Rocket discutindo, o Drax vigiando o Bebê Groot e a Gamora desferindo alguns golpes estilosos de espada, é como abrir um presente no dia das crianças e encontrar exatamente aquilo que a gente queria ganhar. É familiar e surpreendente ao mesmo tempo.

Após ganhar nossa atenção com esse início divertidíssimo, o diretor introduz os elementos que compõe a história de Vol. 2. Por pura sacanagem, Rocket rouba algumas das baterias dos Soberanos e Ayesha ordena que seus comandados capturem os Guardiões. Rola uma cena frenética de perseguição no espaço, daquelas que parecem ter saído direto de um videogame, a qual é interrompida pela aparição já anunciada de Ego, o topetudo pai de Peter Quill. Nisso, o grupo divide-se em 2: Peter, Gamora e Drax acompanham Ego e Mantis (Pom Klementieff), sua auxilar, até um planeta distante, e Rocket e Bebê Groot ficam responsáveis por reparar a nave e vigiar Nebulosa (Karen Gillian), a filha de Thanos que havia sido entregue aos personagens como recompensa por protegerem as baterias. Paralelamente, o pirata Yondu (Michael Rooker) é contratatado por Ayesha para localizar os Guardiões.

Sobre esses eventos que constituem o “meio do filme”, por assim dizer, vale a pena realizar comentários separados para cada um deles:

Ego e Peter Quill: O esperado encontro entre o Senhor das Estrelas e seu pai responde muitas perguntas deixadas pelo primeiro Guardiões da Galáxia e é o principal acontecimento deste filme, mas todas as cenas que envolvem esse arco da história são chatas de doer. Eu entendo que até mesmo uma bomba de diversão como essas precise de algumas partes mais “sérias” para que os personagens sejam desenvolvidos, porém não posso negar que fiquei extremamente entediado enquanto Peter e Ego falavam do passado e do futuro naqueles cenários oníricos.

Rocket: Tanto por seu mau humor quanto por sua insanidade nas batalhas (adoro quando ele fala aquele HELL YEAH!), o guaxinim antropomórfico permanece como meu personagem favorito dentre todos os Guardiões. O Rocket continua legalzão e o James Gunn deu uma cena na floresta para ele brilhar sozinho com todos os seus equipamentos e metrancas, no entanto a imagem que eu levei dele desta vez foi a da criatura triste e solitária que maltrata todos, até os próprios amigos, pela inabilidade de ser amado. As cenas que nos levam a essa conclusão, principalmente aquele diálogo com o Yondu no final, são verdadeiramente tristes e destoam de tudo o que fora feito na série até aqui. Isso não é necessariamente ruim, mas confesso que fui surpreendido pela bad vibe.

Yondu: Lembram daquele sujeito risonho e seguro de si que dizimava grupos inteiros de inimigos com uma flecha voadora? Restou pouco dele em Vol. 2. Yondu não só enfrenta um motim de sua tripulação quanto é desprezado por Stakar Ogord (Sylvester Stallone), o líder dos piratas espaciais. Yondu também ganha espaço para exibir suas habilidades (a batalha contra o Taserface) e protagoniza um dos momentos mais engraçados do longa (Mary Poppins!), mas no geral a participação dele nesta continuação é bem melancólica. A cena em que a Father & Son do Cat Stevens é executada é de cortar o coração.

Resumindo, é muita tristeza e seriedade em um filme que é a continuação de um dos longas mais divertidos dos últimos anos. Vol. 2 ainda tem MUITO humor e inocência (conforme pode ser visto em praticamente todas as cenas do Bebê Groot e do Drax e em pérolas como o ‘Pac Man gigante’) repete aquele clima descolado proporcionado por músicas bacanas como The Chain do Fleetwood Mac e está cheio de easter eggs (Howard, o Pato está de volta e há incríveis 5 cenas após os créditos rs), mas no geral a investida do James Gunn no desenvolvimento dos personagens levou a história para rumos bastante sombrios (observem a Nebulosa falando sobre o que ela deseja fazer com o Thanos). Gostei do filme, tanto que vi ele duas vezes antes de escrever essa resenha (uma foi dublado: a voz do Yondu ficou HORRÍVEL na versão nacional), mas não gostei de ver o Rocket chorando. Tadinho.

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Velozes e Furiosos 8 (2017)

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“O mocinho vira bandido. Que clichê.”

Essa frase é dita pela Cipher (Charlize Theron), a vilã de Velozes e Furiosos 8, e resume bem o que pode ser visto neste oitavo episódio da franquia. Após 3 filmes com roteiros girando em torno de uma “última missão”, dessa vez os produtores resolveram colocar Toretto (Vin Diesel) para quebrar o pau com sua própria equipe (ou família, como ele gosta de dizer). A mudança não é uma inovação (você já viu isso antes e você verá isso outra vez), mas a autocrítica travestida de ironia do diálogo acima já é um bom indicativo de que o diretor F. Gary Gray não está lá muito preocupado com originalidade. Sem surpresa alguma, Velozes e Furiosos 8 requenta tudo o que a série já havia apresentado até aqui, porém nota-se que a busca por cenas de ação cada vez mais absurdas e grandiosas está levando a franquia para rumos distantes daqueles rachas de carro que marcaram as primeiras produções.

Dom até tentou sossegar. Após despedir-se de Brian naquele final emocionante do filme anterior, ele mudou-se com Letty (Michelle Rodriguez) para Cuba e passou a levar uma vida simples e tranquila. É claro que, vez ou outra, surge alguma possibilidade de reviver toda aquela loucura do passado (logo na abertura, Dom corre contra um zé barbicha para salvar o carro do primo de Letty), mas na maior parte do tempo o casal está fazendo coisas triviais como planejar bebês e ir ao mercado comprar pão. A desculpa para a ação surge quando Toretto é abordado por Cipher, uma hacker especializada em terrorismo digital que obriga-o a trair seus amigos e juntar-se a ela numa missão para roubar armas nucleares russas.

Tal qual aconteceu com o Velozes e Furiosos 6, que era levado pelo mistério ao redor do ressurgimento de Letty, Velozes 8 faz suspense em cima do motivo da traição de Dom. Cipher mostra algo para ele na tela de um celular e na cena seguinte o cara quase mata o grandalhão Hobbs (Dwayne Johnson) jogando-o para fora da estrada. O que Dom viu? Nos poucos momentos em que precisa preocupar-se com o roteiro, o diretor resgata acontecimentos e personagens do Operação Rio para dar sentido à chantagem de Cipher. A “revelação”, apesar de simplória, não chega a ser ruim, mas o timing definitivamente não foi bom: como sabemos quase desde o início que Dom está agindo para proteger alguém, os confrontos dele com os outros corredores perdem muito no quesito emoção. No fim, o que o trailer anunciou como “Toretto piradão tocando o terror” acaba não passando de um decepcionante “Tadinho do Dom!”.

Outro que “troca de lado” é o Deckard (Jason Statham), que é retirado da prisão pelo Mr. Nobody (Kurt Russell) para ajudar Letty e cia a localizarem Toretto. Isso ficou bem legal. Ainda que seja clara a forçação de barra para que o Statham continue na franquia e ocupe o espaço deixado pelo Paul Walker (tarefa que também está sendo empurrada para o Scott Eastwood, filho de ‘vocês sabem quem’), a tensão entre Deckard e Hobbs rende os melhores momentos do filme fora dos carros. Os personagens não chegam a reprisar a pancadaria travada no Velozes 7 (pode ser que o confronto fique para o spinoff que a Universal confirmou para a dupla), mas a troca de ofensas e ameaças entre eles é muito boa. A gente sabe que está assistindo algo bacana quando alguém diz “Quando tudo isso acabar, eu vou empurrar seus dentes tão fundo na sua garganta que tu terá que enfiar a escova de dentes no rabo pra poder escová-los”.

Mas e os carros? Velozes 8 começa com Toretto acelerando um trambolho através das ruas cubanas no melhor estilo daqueles rachas que ditaram o ritmo dos primeiros filmes. A música toca alto, todo mundo é bonito e malhado e há uma gostosona com um short minúsculo na linha de largada. É estranho notar, porém, o quão deslocada esse tipo de cena, que remete aos primórdios da franquia, soa atualmente quando comparada ao restante do material. Verdade seja dita, os carros não fazem mais a menor diferença dentro da história. Na maior parte dos casos, eles poderiam ser substituídos por motos, paraquedas ou snowmobiles sem que isso prejudicasse em nada as cenas. Velozes e Furiosos 8 até reserva tempo para o sempre engraçado Roman (Tyrese Gibson) babar em uma Lamborghini, mas é visível que os veículos modificados e as manobras impossíveis de outrora foram colocadas em segundo plano para privilegiar o espetáculo do absurdo, com os personagens disputando corrida com um submarino de guerra e Hobbs amassando paredes de metal com socos e parando bala de borracha com o peitoral. Qual o próximo passo? Carros no espaço? Corridas no deserto com Hobbs transformando-se no Escorpião Rei? Tudo é possível.

Velozes e Furiosos 8 é um filme perfeito para tu assistir no cinema comendo um balde de pipoca e tomando um copão de refrigerante. Os cenários são bonitos, a ação é constante e os diálogos motivacionais (O que importa não é a máquina, mas sim quem está atrás do volante) ditos por personagens que acumularam fortuna no mundo do crime deixam-nos motivados para trabalhar no dia seguinte. Como o público parece não cansar da franquia (o filme teve a melhor estreia de todos os tempos), é apenas uma questão de tempo para que saiam mais e mais continuações. No fim, Vin Diesel venceu tudo (carros, aviões, submarinos) e todos (Statham, The Rock, eu, você e a ‘crítica especializada’): gostando ou não, temos que respeitar um cara desses.

Os Oito Odiados (2015)

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Os Oito OdiadosO momento é de empolgação. O Globo de Ouro está próximo (10/01), a maioria dos indicados já encontra-se disponível na internet e, no último mês, vivi duas experiências completamente diferentes (e igualmente satisfatórias) dentro das salas dos cinemas locais. Da sensação de ter retornado à infância com O Despertar da Força no final do ano passado, fui arremessado agora até os confins obscuros do universo adulto por essa nova obra de arte do Tarantino. Como cinéfilo apaixonado que sou, eu não poderia estar mais feliz ❤

“Obra de arte?” Sim, caras, ele conseguiu de novo. Sei que sou suspeito para falar (quando escrevi sobre o Django Livre, revelei que o Tarantino é ‘o meu herói’), mas continuo impressionado com a capacidade do diretor de transitar entre gêneros, os quais ele continua mesclando e subvertendo para fornecer ao espectador experiências multifacetadas difíceis até mesmo de classificar. Os Oito Odiados é um suspense? Drama? Faroeste? Comédia? O “Oitavo filme do Quentin Tarantino” (e que outro diretor tem a audácia/capacidade de nos fazer contar seus trabalhos? rs) é tudo isso misturado, um conto épico de mais de 3 horas no qual você será levado a desconfiar das intenções de cada um dos personagens, será abordado por questões morais envolvendo justiça e violência, espantará-se com o quão frio o tradicionalmente quente Oeste americano pode ser e pegará-se rindo de piadas sobre homens com paus pretos na boca 😀

Castigada por uma nevasca infernal, a carruagem fretada por John ‘O Carrasco’ Huth (Kurt Russell) atravessa o cenário montanhoso do estado de Wyoming. Consigo, Huth leva Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), uma criminosa por cuja cabeça ele espera receber um prêmio de 10 mil dólares na cidade de Red Rock. No caminho, em momentos alternados, a trajetória da diligência é interrompida pelo Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e pelo Xerife Chris Mannix (Walton Goggins), sujeitos que estavam perdidos no meio da tempestade de neve e que Huth, mesmo relutante, resolve levar consigo.

Os Oito Odiados - Cena 6Durante os dois primeiros capítulos de Os Oito Odiados (adoro essa divisão por capítulos), Tarantino coloca os personagens para conversar e já nos dá algumas pistas de que o filme não é sobre gente que merece ir para o céu. Daisy pode até ser a única procurada pela justiça ali dentro daquela carruagem, mas os outros passageiros também estão bem longe de serem pessoas confiáveis. O xerife é um homem racista que adora fomentar intrigas e tanto John quanto o Major são conhecidos por suas reputações violentas: um por seu prazer confesso em ver pessoas sendo enforcadas, o outro por um episódio macabro da Guerra de Secessão em que ele ateou fogo em inimigos e aliados para salvar a própria pele. Tarantino, cujo trabalho sempre destacou-se pelo desenvolvimento dos personagens (basta lembrar-se, por exemplo, de toda a história que ele criou para a O-Ren Ishii da Lucy Liu no Kill Bill), não decepciona quem esperava por toda uma nova gama de sujeitos ruins e seus diálogos memoráveis: quando as condições climáticas deterioram e o grupo precisa parar na estalagem chamada “Armarinhos da Minnie”, nós já estamos simpatizando com cada um daqueles marginais filhos da puta.

Os Oito Odiados - Cena 4 Os 4 personagens (excluindo o cocheiro O. B), juntam-se então a outros 4 homens misteriosos e a matemática básica nos faz entender o motivo do título: Oswaldo Mobray (Tim Roth), Joe Gage (Michael Madsen), Bob (Demián Bichir) e o General Sandy Smithers (Bruce Dern) também estavam hospedados no “Armarinhos da Minnie” devido a nevasca. Calma lá. Eles estavam hospedados ou estavam lá aguardando a diligência? Algum daqueles homens está ali para resgatar/raptar Daisy? Onde está Minnie, a dona do local? Todos eles são realmente quem dizem que são? Com bons e longos diálogos e planos sequência, Tarantino passa então a conduzir uma trama de mistério que resgata e homenageia clássicos do cinema (o Festim Diabólico, do Hitchcock, não saiu da minha cabeça durante a sessão) e da literatura (a sensação de estar vendo uma versão filmada de algum livro da Agatha Christie é constante, principalmente na narração do próprio Tarantino na cena do café). Há um aspecto “teatral” em Os Oito Odiados, aliás, que remete diretamente ao primeiro trabalho do diretor, o elogiadíssimo Cães de Aluguel: cenário reduzido, poucos personagens, alguém fingindo ser o que não é, Tim Roth e Michael Madsen… está tudo lá. Autocitações? Gosto.

Os Oito Odiados - Cena 5Como eu optei por não utilizar spoilers neste texto, não convém revelar mais detalhes da trama, mas o leitor antenado deve desconfiar que a possibilidade de oito sujeitos armados e trancados dentro de um mesmo local durante uma nevasca dar certo é ínfima, não é mesmo? O climão de “isso vai dar merda” construído desde o início, com aquela imagem de Jesus congelando e a música tenebrosa do Ennio Morricone tocando alto (achei o tema tão bom quanto o do Arraste-me Para o Inferno, umas das minhas trilhas sonoras de terror favoritas), explode então no final e nos dá uma boa dose da violência explícita extremamente gráfica e exagerada que sempre esperamos dos filmes do Tarantino. Cabeças estouram, testículos explodem e a branquíssima neve de Wyoming é pintada de vermelho em cenas que nos chocam e fazem-nos rir ao mesmo tempo: o absurdo e o exagero, denúncia do efeito cinematográfico, continuam sendo a melhor defesa do diretor contra os seus costumazes críticos que acusam-no levianamente de fazer apologia à violência. É apenas ficção, caras.

Os Oito Odiados - CenaNo campo dos diálogos, o “arroz de festa” Samuel L. Jackson e o Bruce Dern protagonizam o momento mais memorável do filme. Assim como Pulp Fiction tem os diálogo do “Quarteirão com queijo/Silêncios confortáveis” e assim como o Bastardos Inglórios tem o Christoph Waltz comparando judeus e ratos, Os Oito Odiados tem o Major provocando o general com a história sobre o cara que chupou um pau preto para ganhar um cobertor. Sabe aquele tipo de coisa que, quando começa a acontecer ali, na sua frente, tu simplesmente não consegue acreditar? “Sério que ele teve coragem de fazer isso?”. É exatamente assim que eu desconfio que todo mundo sentirá-se quando o Samuel L. Jackson começar a falar sobre o dia em que um homem tentou capturá-lo. *Pausa para uma pergunta para quem já viu o filme e está lendo o texto: Como falei sobre o Waltz ali em cima, vocês também não tiveram a impressão de que o Tim Roth tentou emular a atuação dele no Django Livre o tempo todo?*

Os Oito Odiados - Cena 3Para parecer imparcial, eu poderia fechar esse texto dizendo que o filme deveria ter sido melhor editado, de modo que tornassem-no mais curto, mas a grande verdade é que eu amei cada minuto que permaneci dentro daquela sala de cinema. Quando resenhei o Transformes: A Era da Extinção, escrevi: “Entrei no cinema para assistir esse filme em um domingo, as 22hrs, e só saí na segunda, uma hora da manhã, após muitos bocejos e desejos de que ele acabasse logo”. Bem, no que diz respeito ao horário, dessa vez aconteceu EXATAMENTE a mesma coisa, mas eu não passei nem perto de ficar com sono, sinal de que, quando há qualidade, o tempo realmente não importa.

Sei que o ano promete como nunca, com várias produções de super-heróis a caminho, mas desconfio que já vi meu filmes favorito de 2016 (a produção, todo caso, é de 2015). Os Oito Odiados concorre a 3 Globos de Ouro (Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro) e a minha torcida vai toda para ele. Novamente, muito obrigado, Tarantino, você faz desse cinéfilo um sujeito muito feliz 🙂

Os Oito Odiados - Cena 2

Velozes & Furiosos 7 (2015)

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Velozes e Furiosos 7Falar mal da série Velozes & Furiosos é o “bater em cachorro morto” da crítica cinematográfica (eu mesmo fiz isso aqui e aqui), mas nem mesmo o crítico mais turrão ousará negar o óbvio: a fórmula deu certo. O que começou com “rachas de carros tunados + delicinhas + hip hop” cresceu para um requentado de tudo que há de melhor (e pior) nos filmes de ação e, hoje, a série contabiliza incríveis 7 longas, tendo angariado ao longo do caminho a participação de nomes de peso dentro do gênero, como Dwayne Johnson, Jason Statham e Kurt Russell, e elevado ao estrelato desconhecidos como o divertido Tyrese Gibson e o Paul Walker. Esse último, em uma dessas ironias do destino, partiu para o andar de cima no dia 30 de Novembro de 2013 em um acidente automobilístico e essa tragédia, mais do que qualquer coisa que a série apresentou até aqui (pelo menos para quem não é fã), criou uma expectativa geral em cima do lançamento desse Velozes & Furiosos 7.

Segundo informações divulgadas na época do acidente, Paul Walker, que não havia acabado de filmar a sua participação no longa, seria substituído por dublês e CGI nas cenas que faltavam. Não sei como o leitor encara esse tipo de notícia, mas, particularmente, eu assisti o filme TODO procurando esses efeitos especiais (rs) e, como percebi apenas um ou outro artifício, devo dizer (com o devido respeito) que o cara não fez falta. Fará? Certamente. Apesar do diretor James Wan ter afirmado que esse seria o último episódio da franquia (e de ter conduzido o filme para tal), a estreia de Velozes & Furiosos 7, impulsionada pela morte do ator, transformou-se na melhor de toda a série e na 9º melhor da história do cinema ($384 milhões no primeiro fim de semana) e, como todos sabem, contra lucros não há argumentos nem luto que dure para sempre. Tu não consegue imaginar uma sequência sem o estiloso Brian O’Conner (Walker)? Não preocupe-se, amigo: roteiristas são pagos para isso e eu APOSTO que, no máximo até 2018, teremos um Velozes 8. Mas, enquanto isso não acontece, vamos a essa sétima parte da franquia.

Velozes e Furiosos 7 - CenaVelozes e Furiosos 6 é um filme extremamente meia boca que redime-se apenas no final com a promessa de um pega pra capar épico: Dominic Toretto (Vin Diesel) e sua equipe logo logo conheceriam Deckard Shaw (Statham), um casca grossa que está em busca de vingança e que acabara de matar o insosso Han. 7 começa nos dando algumas provas de que o tal Shaw é realmente um pesadelo ambulante (sozinho, ele invade e destrói um prédio inteiro) para depois colocá-lo em rota de colisão contra Toretto e cia. Os heróis, dispostos a vingar Han e Hobbs (Dwayne Johnson), que fora enviado por Shaw para o hospital, fazem um acordo com um agente do governo (Mr. Nobody, interpretado pelo Kurt Russell) para conseguir um dispositivo capaz de localizar o vilão.

Operação Rio era sobre uma última missão que garantiria grana suficiente para que os personagens pudessem aposentar. 6 foi sobre uma última missão para que eles tivessem seus registros criminais apagados e, de quebra, reencontrassem a supostamente morta Letty (Michelle Rodriguez). Velozes & Furiosos 7 é sobre … uma última missão … de vingança. É por essas e outras que não acredito que esse seja o derradeiro capítulo da série, os produtores da mesma simplesmente ignoram o significado da palavra “último(a)”. Isso, porém, é mais uma triste e irônica constatação do que uma reclamação propriamente dita: assistir um longa da franquia nessas alturas do campeonato esperando um roteiro minimamente original nada mais é do que um sinal de inocência do espectador.

Velozes e Furiosos 7 - Cena 4E hoje tem marmelada? Tem sim senhor! James Wan, um diretor conhecido por seus filmes de terror (entre outros, ele é o responsável pelo primeiro Jogos Mortais), fez a lição de casa direitinho e trouxe para o público cada um dos elementos que tornaram a série conhecida, a começar pelos rachas de carro que haviam sido deixados meio de lado nos últimos longas. Com a poderosa Blast Off do David Guetta tocando alto, Letty enfrenta e vence um marmanjo em uma corrida no meio de deserto enquanto delicinhas de shortinho balançam bandeiras quadriculadas e enfeitam o mundo com suas medidas invejáveis. A cota da pancadaria oitentista entre brutamontes é preenchida pela triangulação Toretto-Shaw-Hobbs (as meninas e os fãs do UFC ainda poderão apreciar os golpes da Ronda Rousey) e o Tyrese Gibson continua engraçadão. Funciona assim: ele fala alguma coisa, você ri.

Velozes e Furiosos 7 - Cena 3Mas nada disso, é claro, seria o suficiente sem um bocado de ação absurda e embasbacante. Se, depois de presenciar os personagens arrastarem um cofre gigante pelas ruas do Rio e impedirem um avião de decolar de uma pista infinita, você também pensou que nada mais poderia ser inventado, amigo, como você é bobinho! Meça suas noções de realidade, parça! Nas melhores sequências de ação de Velozes & Furiosos 7, Toretto e Brian primeiro saltam de um avião com seus veículos e, posteriormente, atravessam as Etihad Towers em Abu Dhabi com um Lykan HyperSport, um “brinquedinho” avaliado em 3,4 milhões de dólares. HELL YEAH!

É aí que chega o final do longa e então passa-se um ano e você continua lá, sentado, assistindo esse final. Tal qual a conclusão do Transformers 3 – O Lado Oculto da Lua, o clímax desse filme estende-se muito além do necessário e parece não acabar nunca. Felizmente, depois de muita correria sem objetivo, de uma briga de chaves de mecânico (!) e de uma cena onde é possível perceber que usaram um dublê/recurso visual para substituir o Walker (a luta no escuro), o Dwayne Johnson empunha uma metralhadora giratória e, emulando o que ele já fizera antes no G.I. Joe: Retaliação, acaba com a brincadeira.

Velozes e Furiosos 7 - Cena 2Repetindo os mesmos erros e acertos dos longas anteriores, Velozes & Furiosos 7 chega ao fim sem comprometer nem empolgar e tem seu melhor e mais sincero momento na mais do que anunciada homenagem que fazem para o Paul Walker no final. A verdade? Eu nunca dei muita bola pra esse cara. Nos Velozes ele faz apenas o feijão com arroz e, no único filme que vi com ele fora da série (o A Conquista da Honra, do Eastwood), também não há o que recordar. Essa indiferença, no entanto, foi totalmente DESTRUÍDA pela compilação de imagens do ator que exibem antes dos créditos. A voz engasgada do Vin Diesel, o semblante triste do Gibson, a incredulidade do Ludacris e uma baladinha triste falando sobre amizade e despedidas: eis o que lhe colocará pra baixo, leitor, eis o que lhe fará olhar para a poltrona ao lado para conferir se mais alguém está segurando as lágrimas. O filme, que até então fora apenas mediano, brilha nessa conclusão e comprova (tu, eu e os críticos queiramos ou não) o poder de uma série que, com toda sua simplicidade, levou milhares de pessoas aos cinemas nos últimos 14 anos e também é capaz de emocionar. Pena que o preço dessas lágrimas tenha sido tão caro. Descanse em paz, Paul.

Velozes e Furiosos 7 - Cena 5