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Alien: Covenant (2017)

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Eu gostei MUITO do Prometheus. Já passaram-se 5 anos desde que o Ridley Scott resolveu revisitar a franquia Alien e explorar as origens daquele universo, mas ainda lembro como se fosse ontem do quão empolgado eu fiquei quando saí do cinema após ver aquela história sobre Arquitetos, androides e a busca pela origem da vida.

Aparentemente, porém, nem todo mundo gostou do que viu. Clicando aqui, você lê uma nota sobre as mudanças que o diretor precisou fazer nessa sequência devido a rejeição de boa parte do público ao que foi mostrado no Prometheus. Nunca saberemos se Paradise Lost (Paraíso Perdido), a ideia que ele planejou originalmente para a sequência, calaria a boca dos críticos, mas é fato consumado que Alien: Covenant, com seus cenários equivocados e repetições, representa um passo atrás para a franquia.

A resenha conterá SPOILERS do Prometheus, ok?

É no espaço, aquele lugar onde ninguém te ouvirá gritar, que começa Covenant. Responsável pela nave cujo nome dá título ao filme, o androide Walter (Michael Fassbender) cuida para que a tripulação permaneça no sono criogênico até que o destino, um planeta distante que apresenta características semelhantes as da Terra, seja alcançado. Um incidente coloca em risco a integridade da nave e obriga Walter a acordar o pessoal antes da hora. Mesmo abalados pelas severas avarias e pela perda de seu capitão (participação relâmpago do James Franco), os membros da tripulação decidem interromper a viagem para checar um sinal de vida captado pela Covenant durante o tumulto. Daniels (Katherine Waterson) é a única que opõe-se a ideia de abandonar a missão original, mas seus argumentos são vencidos pela determinação do novo capitão, Oram (Billy Crudup), um homem de fé que acredita estar diante de uma oportunidade única de visitar e colonizar um novo planeta.

Quando assisti o trailer do Covenant, fiquei curioso para ver como todos aqueles cenários abertos seriam usados em uma franquia que, no princípio, valeu-se dos corredores escuros da nave Nostromo para criar uma ambientação claustrofóbica. Campos de trigo e florestas certamente ficam muito bonitos numa tela grande de alta definição, mas desconfiei que essas locações não funcionariam para o filme. E não funcionaram. O Alien não é o Predador, Ridley Scott. Não foi legal (e não deu medo) ver o xenomorfo esgueirando-se no meio daquele matagal e, na segunda metade da trama, toda aquela sequência na cidade abandonada (outro lugar enorme e aberto) foi apenas tediosa.

Se, ao tentar inovar, o diretor errou a mão, ele também não teve muita sorte quando apegou-se aos elementos clássicos da série. Estão lá a tradicional cena do peito explodindo de dentro pra fora, a protagonista seminua de cabelo curto, o androide traíra e o confronto final entre humanos e criatura. Não que essas cenas sejam ruins, mas a proximidade delas com o que já foi usado nos longas anteriores torna o material pra lá de previsível. Comparem a “batalha final” de Covenant com o clímax do Oitavo Passageiro. É praticamente a mesma coisa.

“Ah, mas você reclama quando o cara muda os cenários e também reclama quando ele repete certos elementos. Incoerência”. Reclamo mesmo. Não é incoerência. O problema aqui não é a mudança e/ou a repetição em si, mas a qualidade do que foi feito. A nova ambientação é ruim (botaram o alien no meio de um matinho, caras) e não foi lá muito surpreendente o fato de, mais uma vez, utilizarem o espaço como esquife para o xenomorfo.

A parte boa de Covenant acaba sendo justamente o desenvolvimento das teorias sobre a criação que foram mostradas no Prometheus. David e Elizabeth “retornam” à trama para reforçar a ideia de que a vida na Terra foi criada não pelo Deus bíblico, mas sim por viajantes espaciais que, aparentemente, não ficaram muito satisfeitos com sua criação e preparam-se para elimina-la. A primeira cena do filme, aquela que mostra David conversando sobre a essência da vida com seu criador, Peter Weyland (Guy Pearce), é disparado o momento mais inspirado de Covenant. O diálogo, que traz reminiscências do clássico Frankenstein (a criatura que levante-se contra o próprio criador) é bastante útil para entender a mudança de comportamento de David ao longo de Prometheus e contribui significativamente para que, no fim deste filme, a gente entenda com alguma antecedência o que acontecerá.

Alien: Covenant era uma das produções que eu mais queria assistir em 2017. Sabe quando anunciam aquelas listas de lançamentos do ano seguinte? Pois é, eu estava doido para ver este filme. Reservei uma tarde de sexta da minha semana, que é sempre muito corrida, só para ir ao cinema. Vibrei com a cena inicial que comentei no parágrafo anterior, mas após isso vi o Alien ser transformado em coadjuvante dentro de sua própria franquia e não gostei nenhum pouco disso. Nem o enorme talento do Fassbender justifica tamanho sacrilégio. A parte da ficção científica de Covenant é muito bem feita, com todos aqueles equipamentos high tech e naves espaciais enchendo a tela, mas há pouco terror, sangue e ácido alienígena aqui. Não deu certo, Ridley Scott. Da próxima vez, segue o plano original.

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Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016)

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animais-fantasticos-e-onde-vivem Nos 2 meses que antecederam a estreia de Animais Fantásticos e Onde Habitam, revi todos os 8 filmes da série Harry Potter. Não me considero um fã hardcore da franquia (nunca li nada escrito pela J. K. Rowling), mas eu queria relembrar a trama visto que, conforme anunciaram, este lançamento seria ambientado no mesmo universo de bruxos e magia em que Harry e Voldemort duelaram.

Completada a maratona (o As Relíquias da Morte – Parte 1 continua sendo um dos meus soníferos favoritos), acessei o site do cinema para comprar ingressos para a pré-estreia, que ocorreria numa sessão durante a madrugada. Foi aí que as coisas começaram a dar errado. Tal qual um velho gaga, eu confundi a data da sessão e, por muito pouco, não gastei dinheiro à toa e perdi a viagem até o shopping. Fiquei meio chateado com isso. Antigamente, eu não costumava fazer esse tipo de confusão.

Todo caso, escolhi uma data posterior, comprei os ingressos e, chegado o dia, saí de casa 1h30min antes do horário marcado para o início da sessão. Foi aí que começou a chover. Detalhe: eu estava de moto. No prazo de uns 3 minutos, eu e minha esposa ficamos completamente encharcados e, para não piorar a situação, entramos no estacionamento de um supermercado com a esperança de que a chuva parasse. Cerca de uma hora depois, ainda molhados e morrendo de frio, decidimos voltar para casa. Fim da história? Não para um homem determinado! Observando que a chuva estava parando, resolvi deixar toda a minha dignidade de lado e ir ao cinema daquele jeito mesmo, todo zoado. Para não perder os ingressos, atravessei a cidade acelerado e entrei na sala do cinema, minutos antes dos trailers começarem, com o tênis fazendo *plec plec* e a roupa pingando água. Foi uma experiência horrorosa e eu teria ficado muito puto se, depois de todo esses infortúnios, o filme fosse ruim. Felizmente, porém, não foi o caso: Animais Fantásticos e Onde Habitam é um ótimo início de franquia (já anunciaram mais 4 sequências rs) e sua dinâmica, que mistura piadas, cenas de ação grandiosas e referências aos longas anteriores, foi boa o suficiente para me fez esquecer que eu estava molhado dentro de uma sala de cinema com ar condicionado rs

animais-fantasticos-e-onde-vivem-cena-3Ambientada nos Estados Unidos do início do século passado, a história conta como o bruxo inglês Newt Scamander (Eddie Redmayne) chegou em Nova York levando uma mala mágica repleta de criaturas extraordinárias. Devido a uma confusão envolvendo o simpático padeiro Kowalski (Dan Fogler), algumas dessas criaturas escapam e Newt precisa recuperá-las antes que elas denunciem para os trouxas (ou No-Maj) a existência da comunidade de bruxos norte americana.

Em sua aventura, Newt recebe ajuda de Tina (Katherine Waterston), uma Auror do Congresso Mágico dos EUA, e acaba envolvendo-se em uma trama muito mais séria e sombria do que a fuga dos animais que ele trazia em sua mala: Gellert Grindelwald, um terrível feiticeiro negro, pode ter refugiado-se em território americano após espalhar o pânico no continente europeu.

animais-fantasticos-e-onde-vivem-cena-4Em Animais Fantásticos e Onde Habitam, o diretor David Yates (que também dirigiu os últimos 4 filmes da saga Harry Potter) cumpre muitíssimo bem a delicada tarefa de resgatar o interesse do público por uma das franquias mais amadas da história recente do cinema (vale lembrar que já passaram-se 5 anos desde As Relíquias da Morte – Parte 2), e o faz principalmente através da manipulação de alguns elementos que já haviam sido testados e aprovados anteriormente. Fora o fato de, essencialmente, Newt, Tina e Kowalski serem reedições mais maduras de Harry, Hermione e Rony, não passam despercebidas as semelhanças entre Graves (Colin Farrell) e o Professor Snape (dois personagens poderosos envoltos em algum tipo de mistério), bem como o mecanismo do roteiro que, tal qual o da Pedra Filosofal, prepara o terreno para a chegada de um terrível inimigo nos longas posteriores. Essas paridades, que vem acompanhadas de citações à personagens conhecidos (Dumbledore e Bellatrix Lestrange) e do uso de seres e encantamentos próprios da série, imprimem à trama uma necessária e aconchegante sensação de familiaridade.

FANTASTIC BEASTS AND WHERE TO FIND THEMPara si, estava nova incursão no universo criado pela escritora J. K. Rowling pode reivindicar uma mistura de gêneros mais coesa do que havia sido feita na série anterior. Animais Fantásticos e Onde Habitam equilibra satisfatoriamente cenas de ação, aventura, comédia, romance e drama, oferecendo uma gama variada de sentimentos ao longo de suas pouco mais de 2 horas. Se a correria e as espetaculares batalhas de magia fazem valer à pena investir num ingresso mais caro para assistir em 3D, o romance entre Kowalski e Queenie (Alison Sudol, que é a cara do Redmayne no A Garota Dinamarquesa rs) e o tema do preconceito/tolerância trabalhado no núcleo da Família Barebone atendem as necessidades de quem procura um filme mais intimista. Se você, por outro lado, está se sentindo velho e/ou teve um péssimo dia correndo de moto sob um temporal, desafio-lhe a continuar mal-humorado após ver o simpático Niffler coletando todo e qualquer objeto brilhante que ele encontra pela frente. É de rir alto, igual criança feliz.

Tomando por base esse incrível debute, acredito que Animais Fantásticos e Onde Habitam tem tudo para ser lembrado como o início de mais uma franquia de sucesso, fornecendo para os fãs de fantasia toda a emoção que a adaptação do O Hobbit, por exemplo, prometeu e não cumpriu (por mais difícil que seja, é necessário reconhecer que A Batalha dos Cinco Exércitos foi um fiasco). A julgar pela revelação bombástica do final, a sequência, que está programada para 2018, será um filmão.

FANTASTIC BEASTS AND WHERE TO FIND THEM

Steve Jobs (2015)

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Se você, assim como eu, não tem um iPhone e nem interessa-se demasiadamente por tecnologia, é bem provável que tu também não tenha ficado muito empolgado para assistir esse Steve Jobs. Permitam-me, portanto, começar esse texto apresentando-lhes três motivos que fazem o filme valer a pena independentemente da marca dos produtos eletrônicos que você usa.

  1. Além de ter vencido o Globo de Ouro de Melhor Roteiro, a produção concorre a 2 Oscars (Melhor Ator para o Fassbender e Melhor Atriz Coadjuvante para a Kate Winslet, que tem chances reais de vencer).
  2. O filme é do diretor Danny Boyle, o mesmo cara que arrancou o braço do James Franco e nos mostrou a DEUSA Rosario Dawson tal qual ela veio ao mundo. Por isso e por filmes como Trainspotting Boyle merece o meu e o seu respeito.
  3. A tecnologia desempenha apenas um papel secundário em Steve Jobs, cabendo o protagonismo aos diálogos rápidos que mostram as contradições da personalidade do ex-presidente da Apple.

Lembro que, em 2011, pouco tempo depois de eu entrar no Facebook, quase todo mundo postou algo relacionado à morte do Steve Jobs, que faleceu prematuramente aos 56 anos de idade vítima do câncer. A maioria das pessoas agradeceram-no por suas contribuições à informática, mas também houveram aqueles que preferiram utilizar a oportunidade para criticá-lo. Se não me falha a memória, a frase “Jobs era um gênio, mas era chato pra caralho” foi dita mais de uma vez naquele dia. É essa dicotomia entre o profissional brilhante e o homem “ruim” que o Danny Boyle explora em Steve Jobs para nos dizer que, por mais excêntrico e “difícil” que o sujeito possa ter sido, ele não foi lá tão diferente assim de cada um de nós: todos temos defeitos e qualidades.

O roteiro, que é assinado pelo escritor Aaron Sorkin (A Rede Social), acompanha os momentos que antecederam o lançamento de três grandes produtos desenvolvidos por Jobs (Michael Fassbender): Macintosh, em 1984, NeXT, em 1988 e o iMac, em 1998. Nos bastidores das apresentações, vemos o inventor lidando com todos os tipos de conflitos pessoais e profissionais antes de subir no palco para apresentar suas inovações ao mundo.

Boyle, que entre outras coisas é conhecido por suas experimentações visuais, optou por algo mais tradicional em Steve Jobs, limitando-se a ir “modernizando” a fotografia ao longo do filme para mostrar a passagem do tempo. Desta vez, o que deixa evidente que estamos vendo um trabalho de um dos diretores mais interessantes da atualidade é a própria narrativa que, além de não tornar-se mais complicada do que o necessário em nenhum momento, faz da relação do Jobs com a filha um ótimo meio para desnudar a alma do protagonista.

Na abordagem proposta por Boyle, Jobs só consegue alcançar o verdadeiro sucesso profissional quando encontra uma ponte para o coração de Lisa, filha de seu relacionamento tempestuoso com Chrisann (Katherine Waterston). Em 1984, quando nega a paternidade da menina e acusa Chrisann publicamente de ter traído-o, Jobs vê o Macintosh transformar-se em um fracasso e é despedido da Apple, empresa que ele ajudara a fundar. Já em 1988, o lançamento promissor do NeXT coincide com uma aproximação entre o personagem e a filha, visto que Lisa, enfrentando dificuldades com a mãe, pede (sem sucesso) para morar junto com ele. Finalmente, no momento decisivo da trama, Jobs consegue ter um diálogo aberto e sincero com a filha, sendo que a conexão que estabelece-se entre eles é mostrada como algo preponderante para a consagração definitiva do inventor na apresentação do iMac.

Não pensem, porém, que Steve Jobs mostra um homem que chega no final do filme livre de seus demônios internos. Boyle sugere que, devido à problemas vividos na infância, Jobs desenvolveu uma capacidade extraordinária de entender o que os usuários de seus produtos necessitam, mas esses mesmos problemas também tornaram-no uma pessoa autocentrada e difícil de se conviver. Em momentos alternados, o Fassbender empresta sua conhecida eloquência e tom autoritário para que o personagem discuta e grite com praticamente todos os seus sócios e funcionários. Assim, Joanna Hoffman (Kate Winslet) é chamada de incompetente, John Scully (Jeff Daniels) é acusado de sabotagem, Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg) tem sua carreira ameaçada e, naquela que talvez seja a cena mais impactante do filme, Steve Wozniak (Seth Rogen) e suas inquestionáveis contribuições para a Apple são desprezados por Jobs na frente de um auditório cheio.

Steve Jobs - CenaBoyle escancara, portanto, o tal “gênio ruim” do protagonista e, por mais que seja difícil vê-lo humilhando desnecessariamente outras pessoas (minha esposas toda hora chamava-o de ridículo rs), é sempre bom ter acesso a esse tipo de exemplo para refletirmos sobre os perigos de deixarmo-nos seduzir pelas tentações do ego. Apesar de ser bilionário e inteligentíssimo, Steve Jobs não conseguia relacionar-se com amigos e parentes: ele sabia como atender e prever a vontade dos outros (gostei da deixa para o desenvolvimento do iPod), mas não conseguia utilizar essa inteligência para agradar a si próprio. Jobs compara a si mesmo com um maestro, mas ele não parece conduzir uma música que lhe agrade. Convenhamos, isso não é exatamente um exemplo de vida feliz.

Lá no primeiro motivo que eu dei-lhes para assistir Steve Jobs, eu disse que a Kate Winslet tem grandes chances de levar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, mas isso deve-se principalmente ao fato de ela ter vencido o Globo de Ouro na mesma categoria: não acho que ela tenha feito nada demais aqui e há outras atrizes em papéis mais interessantes na disputa, como a Alicia Vikander. Fora isso, Steve Jobs foi uma grata surpresa: eu, que não esperava absolutamente nada do filme antes de saber que ele era do Danny Boyle, deparei-me com uma boa história, boas atuações (continuo amando o Seth Rogen; o Fassbender dispensa comentários) e uma direção enxuta e eficiente.

Steve Jobs - Cena 2

Vício Inerente (2014)

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Vício InerenteExistem filmes complicados de entender devido as suas metáforas e temas complexos, como O Mestre, e existem filmes complicados de entender porque a intenção do diretor parece ser justamente criar uma narrativa caótica, quase ininteligível, como é o caso desse Vício Inerente, novo (e ruim) filme do Paul Thomas Anderson.

O detetive particular Larry “Doc” Sportello (Joaquin Phoenix) recebe a visita de Shasta (Katherine Waterston), sua ex-namorada, que pede-lhe ajuda para resolver um embaraçoso processo de divórcio. Doc aceita o caso e vai até uma casa de massagem fazer algumas perguntas, mas aí Shasta desaparece, um homem morre e o truculento Detetive Bigfoot (Josh Brolin) leva o personagem preso.

O roteiro do Anderson (que concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado) é uma versão para o cinema de um livro do escritor Thomas Pynchon, livro que o diretor declarou gostar bastante e que, portanto, ele tentou seguir à risca ao filmá-lo. Ao que parece (não conheço o livro), Pynchon apresenta uma imagem cômica do mundo hippie americano da década de 70 através de uma história clássica de detetive. As paranóias e teorias da conspiração que compunham o cenário da Guerra Fria são potencializados pelas drogas que Doc utiliza o tempo todo e isso, muitas vezes, confere a trama um tom onírico. Colocado dessa forma, é difícil imaginar que uma versão cinematográfica da história pudesse dar errado: o material é interessante (noir+psicodelismo) e o diretor, no também setentista Boogie Nights, já dera provas de que compreende bem aquele período. A teoria, infelizmente, não realizou-se na prática e é com muito pesar (visto que sou fã declarado do Anderson), que estou aqui para dizer-lhes que este é o trabalho mais chato do diretor até o momento.

Vicío Inerente - Cena 4Não faz muito tempo, li o divertido Factotum do Bukowski. Chinaski, o personagem principal, é um escritor fracassado que sobrevive as custas de diversos subempregos enquanto toma porres épicos na companhia do pior tipo de gente que se pode imaginar. É uma leitura rápida e gostosa, mas não sei se o material ficaria bacana se tranformado em um filme (essa nota baixa no IMDB sugere que não). Majoritariamente, Bukowski nos fornece relatos de episódios sem muita conexão entre si e que não necessariamente levam o personagem de um lugar para o outro (físico e/ou emocional) ao longo da trama. O formato cinematográfico, por deixar pouco para nossa imaginação devido as imposições de imagem e tempo, não costuma ser o ideal para essas histórias mais “livres” e carentes de unidade (aqui o Satyricon sempre será um bom exemplo) e é principalmente por isso que Vício Inerente, ao meu ver, fracassa como entretenimento: a transposição entre as mídias não funcionou.

Vicío Inerente - Cena 3Após ser preso, Doc é interrogado por Bigfoot em um diálogo desbocado (o Benício del Toro dá as caras por aqui também) em que fica claro o subtexto político da história. Toda a intolerância social que pesou desfavoravelmente aos hippies e a contracultura aqui representados por Doc ganha forma no discurso preconceituoso do policial. Depois disso, a investigação vai tomando rumos cada vez mais estranhos (sai o divórcio, entra o barco Golden Fang e uma conspiração *PASMEM* envolvendo implantes dentários como foco) e aí fica realmente difícil acompanhar o que está acontecendo. Quando você começa a ligar um ponto ao outro, surge o Owen Wilson interpretando um sujeito que julgava-se estar morto e a trama, que já estava nebulosa, estende um braço rumo a paranoia comunista. Reese Witherspoon aparece como um possível interesse romântico de Doc, muitas drogas são consumidas e, quando a gente menos espera (algum mistério foi realmente resolvido?) os créditos sobem.

Vicío Inerente - CenaSem ler o livro é impossível dizer o quão fiel a ele o Anderson foi com essa adaptação. Isso não me impede, porém, de ter uma opinão sobre o que vi e não, eu não gostei MESMO de Vício Inerente. O diálogo na delegacia é legal e a cena de sexo entre Doc e Shasta, com todo o contexto triste que a antecede, está dentre as melhores sequências que o diretor já gravou, mas o restante do material simplesmente não vale o esforço. A intenção era captar a visão de mundo teoricamente sem nexo do personagem principal, um cara que fuma maconha e cheira pó com a mesma naturalidade que eu e você tomamos um copo d’água? Talvez. Anderson e Pynchon gostam e falam de eventos caóticos porque a vida real também não segue um curso lógico do tipo início-meio-fim? Talvez também. O que posso afirmar é que fiquei entediado durante quase toda sessão, não gostei do humor empregado e não vi nada ali que me motivasse assistir o filme novamente para tentar compreende-lo melhor. Enquanto o diretor não lança outro título, continuarei revendo o Sangue Negro e acreditando que um cara que fez um filme tão bom quanto aquele ainda voltará a me surpreender positivamente.

Vicío Inerente - Cena 2