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Silêncio (2016)

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Tenho ido bastante ao cinema. Dos meus últimos 10 posts, 8 foram sobre filmes vistos no escurinho comendo pipoca e bebendo refrigerante. Isso é bom, mas tenho sentido falta de procurar títulos de diretores/atores/temas que me interessam, logo optei por ficar uma semana longe das salas de projeção e escolher algo para ver no conforto do sofá da minha casa.

Apesar de ser assinado pelo consagradíssimo Martin Scorsese, Silêncio não teve uma grande distribuição nas redes de cinemas nacionais. Aqui em Uberlândia-MG, por exemplo, ele nem entrou em cartaz. Não é difícil imaginar o porquê. Com quase 3 horas de duração (2h40min) e baseado em um livro que explora aspectos pouco ortodoxos do cristianismo (obra do japonês Shûsaku Endô), Silêncio não teria grandes chances nas bilheterias contra produções como Velozes e Furiosos 8. Pessoalmente, porém, acredito que não há o que lamentar: as questões levantadas pelo Scorsese neste longa despertam uma vontade enorme de comentar na hora, tão logo a cena acaba. Como gente educada não conversa dentro do cinema, assistir o filme em casa acaba sendo bem mais legal e produtivo.

*Pausa na resenha para um agradecimento (Caso você queira ler só sobre o filme, pule o próximo parágrafo)* Este texto ficou parado neste ponto por mais de uma semana. Estou num período complicado, organizando viagens, corrigindo provas e resolvendo algumas coisas em casa, mas a verdade é que eu cansei um pouco de escrever. Não é a primeira vez que isso acontece e certamente não será a última, porém dessa vez a vontade de deixar o blog de lado foi bastante tentadora. Já são quase 7 anos dedicados a essa página e 848 textos publicados, daí eu me peguei pensando no quão mais leve os meus dias seriam sem essa “obrigação” de resenhar todos os filmes que eu assisto. Geralmente, quando bate esse desânimo, é a minha esposa quem me faz lembrar o porque de eu ter começado isso aqui (ter um espaço só meu para falar de algo que eu amo), mas desta vez, por mais que ela tenha feito a parte dela, eu encontrei forças mesmo foi nas palavras carinhosas e inesperadas de um amigo. Eu conheço o Luiz (ou Sir Luiz, como ele é chamado por aqui) há uns 6 anos e sempre o admirei pelo bom coração e pela autenticidade (ele usa ‘saia’, faz slav squat e tem uma Suzuki Intruder legalzona), mas mesmo assim eu fiquei sem reação quando fui cumprimentá-lo na saída de um bar e vi ele falando para uma galera sobre o meu blog. Qualquer elogio sempre é bem vindo, mas o cara estava falando sobre o meu estilo de escrever, algo que dá a entender que ele realmente lê e gosta do que eu faço ao ponto de já ter identificado um padrão (salvo engano, ele estava comentando o começo deste texto aqui). Isso me deixou feliz demais. Muito obrigado, Sir! É muito bom saber que tem alguém aí do outro lado notando o que eu faço e, graças as suas palavras, cá estou eu com o ânimo renovado escrevendo novamente 🙂

Silêncio retrata parte da história do catolicismo romano no Japão e, caso você queira mais informações sobre o tema, há um artigo do Wikipédia bastante completo sobre o assunto. Resumidamente, o que aconteceu foi que, após obterem um relativo sucesso no século XVI, as missões catequizadoras, em sua maioria portuguesas, foram combatidas pelo governo japonês ao longo do século XVII, que considerava-as nocivas à estabilidade política e econômica do país. Assim sendo, as missões foram proibidas e os missionários foram obrigados a apostatar-se (desertar) da religião católica sob pena de morte.

Ferreira (Liam Neeson) foi um padre que viu-se na difícil situação de precisar abandonar sua fé para salvar a própria vida e dos kirishitan (japoneses convertidos ao cristianismo) que o seguiam. Tal acontecimento teve uma grande repercussão em sua terra natal, Portugal, visto que ele era uma figura bastante conhecida e respeitada dentro da igreja. Interessados em saber o que realmente aconteceu com o padre, os missionários Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) conseguem permissão para ir até o Japão investigar o caso e darem seguimento a missão catequizadora.

Apesar de possuírem objetivos comuns, porém, nota-se que os missionários tem formas bastante distintas de lidarem com a fé e de ensina-la para os japoneses. Garupe parece ser mais pragmático. Ele vê dificuldades onde há dificuldades e não aceita, mesmo em nome da conversão, que os kirishitans façam distorções e adaptações do texto bíblico para a realidade deles. Rodrigues, por outro lado, é um católico fervoroso cujo amor por Cristo lhe dá forças para lidar com qualquer tipo de situação sem perder a alegria. Seguro de sua fé e de seus propósitos, ele arrisca-se sem pestanejar através de territórios hostis para levar a palavra de Cristo até os japoneses.

Como dito, assisti Silêncio em casa e fui comentando o que eu via com a minha esposa ao longo da sessão. Espectador gosta de torcer por alguém, e nós nos afeiçoamos bastante com o o tal Rodrigues. A beleza da fé inabalável dele contrasta demais com o pessimismo e com a feiura do Adam Driver, daí nós ficamos do lado dele em praticamente todos os conflitos entre os missionários que surgem na primeira metade do filme. Foi aí que, como geralmente acontece em filmes conduzidos por grandes diretores, o roteiro apresentou uma reviravolta e nos fez ver um outro ângulo da história. Segundo o próprio Scorsese, Silêncio é sobre a “necessidade de acreditar conflitando com a voz da experiência”. Rodrigues “conversa” com Deus e vê sinais de manifestação divina em quase tudo (numa imagem na água, por exemplo), mas a gente vai notando aos poucos que há um pouco de egoísmo nessa comunhão dele. O personagem, que inicialmente preferira não acreditar que o padre Ferreira havia apostatado, passa a criticar o seu velho amigo pela abdicação da fé quando a verdade finalmente surge. Rodrigues não vê (ou não quer ver) que Ferreira fez o que fez (pisar em cima de uma imagem da Virgem como gesto simbólico de rejeição do cristianismo) para salvar outros cristãos. Rodrigues prefere ver pessoas morrendo (e as cenas onde isso acontece são bastante traumáticas) do que ceder. Nisso, deixei de ver a beleza do sacrifício, da fé e da coerência e passei a ver o ego, a vaidade e a prepotência.

Silêncio tem essas e outras questões espinhosas (os japoneses precisavam mesmo do catolicismo?) e, claro, a direção impecável do Scorsese. Como elogiar o trabalho do cara nessas alturas do campeonato é meio que chover no molhado, vou contentar-me em chamar a atenção de vocês para duas coisas que ele fez aqui que me agradaram muito. Uma é o tal silêncio que dá título ao filme. Notem toda a frustração de Rodrigues quando, em resposta a suas orações, um silêncio constrangedor preenche a tela. O outro ponto é a cena em que Rodrigues e Garupe conversam com alguns japoneses no meio de um matagal. A câmera está posicionada em cima dos atores, estática, mostrando-os quase que como insetos do ponto de vista de alguém superior e indiferente ao sofrimento deles. Esses artifícios falam mais da posição do diretor sobre o tema abordado do que qualquer diálogo poderia fazer e colocam Silêncio em pé de igualdade com outros clássicos do diretor como Os Bons Companheiros e Taxi Driver. Que bom que o Scorsese continua firme e forte nesse negócio de fazer a gente gostar de cinema.

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Ghost in the Shell – O Fantasma do Futuro (1995)

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A versão hollywoodiana do Ghost in the Shell, aquele clássico da animação japonesa de 1995, está disponível nos cinemas desde a semana passada, porém antes de ir assisti-lo eu achei melhor conhecer e resenhar a obra original.

*Pausa para adivinhar o pensamento do leitor* Como assim cara? Você, que se diz um cinéfilo, até hoje não havia assistido esse filme OBRIGATÓRIO?

Pois é amigos, que vergonha, né? Acontece que, mesmo sabendo da aura cult que cerca o anime (que é considerado um trabalho seminal dentro do gênero cyberpunk), até hoje eu não havia encontrado uma oportunidade para vê-lo (ainda que eu tenha tido tempo para ver esta merda aqui). Fala-se muito mal dessa “onda de remakes” de Hollywood (na maioria das vezes com razão), mas algo que eu sempre achei válido na ideia de resgatar clássicos é que, mesmo que indiretamente, essas novas roupagens acabam despertando o interesse do público pela produção original. Descobri bons filmes desse jeito, e foi assim que eu finalmente criei vergonha na cara e coloquei o Ghost in the Shell pra rodar. Nos últimos dias, aliás, eu vi ele duas vezes.

Seria bem legal dizer que realizei uma segunda sessão porque gostei demais da primeira, mas a grande verdade é que, se eu não tivesse revisto, eu não teria a mínima condição de escrever essa resenha. Resumidamente, eu não entendi patavinas da história. As cenas de ação são brutais e a mistura de computação gráfica com animação tradicional dá um visual incrível e futurista para o cenário, mas a trama envolvendo temas como terrorismo, política e existencialismo não entrou na minha cabeça de jeito nenhum. Na boa? Não fiquei nenhum pouco triste ou preocupado com isso.

Dia desses, uma amiga fez um post no Facebook dizendo que sentiu-se “tonta” por ver Donnie Darko e não “entender nada”. Antigamente eu também me sentia assim, mas com o tempo eu fui percebendo que tem obras que simplesmente não foram concebidas para serem digeridas de uma só vez. É muita pretensão, por exemplo, querer assistir algo da magnitude de um Interestelar e entender de cara todos aqueles diálogos carregados de física quântica. Independente dos temas complicados que escolher trabalhar (viagem no tempo SEMPRE dá nó na cabeça), o filme precisa funcionar, mas isso não quer dizer que o roteiro precise entregar tudo mastigadinho para o espectador. A força de filmes como Donnie Darko, por exemplo, está justamente no fator replay, ou seja, tu assisti-lo novamente utilizando informações que você não tinha da primeira vez para preencher lacunas e chegar a um novo entendimento, tal qual um quebra cabeças que vai sendo montado aos poucos. Foi mais ou menos isso que eu fiz com Ghost in the Shell. Eis o que compreendi das duas sessões.

No ano de 2029, a tecnologia permite que a consciência humana seja extraída do corpo e implantada em ciborgues. As pessoas que realizam essas modificações não tornam-se imortais, visto que seu cérebro/banco de dados pode sofrer danos permanentes  e que, regularmente, os corpos cibernéticos precisam de manutenção, mas o processo confere superforça, supervelocidade, acesso a uma infinidade de informações via download instantâneo e resistência contra doenças. No futuro sombrio dominado por megacorporações imaginado pelo escritor Shirow Masamune, ser um ciborgue é estar preparado para lidar com ataques terroristas e com a violência das grandes cidades.

A Major Motoko é uma ciborgue que trabalha para o governo utilizando força bruta quando as coisas saem do controle ou tornam-se demasiadamente complexas para a polícia comum resolver. Exemplo: um diplomata de um país vizinho quer extraditar e dar abrigo para um importante programador. Pela lei, nada poderia impedi-lo de ajudar o sujeito, então Motoko é enviada até o local e mete uma bala bem no meio das fuças do diplomata, desaparecendo logo em seguida, tal qual um fantasma, sem deixar rastros. É difícil duvidar do profissionalismo da Major após vê-la executar com frieza uma ordem sanguinária dessas, mas o surgimento de um famoso hacker trará à tona sentimentos e dúvidas que a personagem havia ocultado sob as placas de metal de seu corpo.

Da primeira vez que assisti, boiei completamente na parte “política” da historia. Os diálogos rápidos do anime e as muitas referências à personagens governamentais fictícios me confundiram bastante. Enquanto eu ainda estava tentando entender a relação do ditador exilado no Japão e o hacker, que é conhecido como Mestre dos Fantoches, a Major estava lá descendo o cacete num maluco em um laguinho, filosofando sobre sua individualidade e, finalmente, lutando contra um poderosíssimo tanque no clímax da trama. Eu respirei e o filme, que é bem curto (1h23min) acabou. Não tive nenhuma dúvida relacionada a qualidade visual do trabalho do diretor Mamoru Oshii (20 anos depois, a animação ainda é muito bonita), mas reconheci que o roteiro havia me escapado e resolvi ver outra vez.

A real é que a trama política é o que menos importa em Ghost in the Shell. O controle governamental sobre o cidadão comum é ferrenho, a politicagem come solta em negociações internacionais escusas e há brigas de hierarquia dentro dos vários setores do governo. Tudo fichinha para quem lê jornal diariamente no Brasil. O que dá sentido para o roteiro são os questionamentos de Motoko sobre sua condição de ciborgue. Se você ainda não assistiu o anime e pretende fazê-lo, aconselho-o a focar nisso. Todas as certezas que a Major tinha sobre si mesma desmoronam quando ela percebe que o tal Mestre dos Fantoches é capaz de produzir memórias e introduzi-las nos cérebros alheios. Se nossas lembranças podem ser criadas e manipuladas, o que definirá nossa individualidade? O que nos fará diferentes das máquinas? Vale a pena ser apenas um vulto dentro de um corpo metálico poderoso, um fantasma numa concha?

Esses questionamentos desenvolvem-se em cima da subtrama política citada e num cenário distópico em que a tecnologia de ponta contrasta com a pobreza absoluta. Ghost in the Shell conta ainda com pelo menos 3 cenas de ação frenéticas, com a Major e seus aliados (Batou e Togusa) fazendo sangue jorrar pra valer e, muita, muita nudez. O trailer do remake mostra a Johansson com um corpo metálico estilizado bem diferente da Motoko peladona da animação que, por fora, não tem absolutamente nenhuma diferença de uma mulher comum. Que vacilo, Hollywood! Como é certo que tornarão o material mais palatável para o público dos blockbusters, exagerando na ação e simplificando o roteiro (parece que o Mestre dos Fantoches deixou de ser um programa para ser um personagem físico), torço para que A Vigilante do Amanhã seja ao menos um filme que também dê vontade de assistir mais de uma vez, visto que Ghost in the Shell eu repeti e não veria problema algum em partir para uma terceira sessão.

Godzilla (1954)

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Godzilla 1954Posso até demorar, mas sempre cumpro as promessas que faço por aqui. Passaram-se quase 2 anos desde que assisti o ótimo Godzilla do diretor Gareth Edwards e, na oportunidade, eu disse que começaria a resenhar os filmes clássicos do personagem. No melhor estilo “antes tarde do que nunca”, eis aqui então o texto sobre o filme que deu origem a longeva carreira cinematográfica do Rei dos Monstros.

Ao meu ver, há pelo menos duas formas de comentar uma produção com essa. A primeira, que abordarei no começo do texto, é a visão respeitosa de um clássico absoluto do cinema japonês e mundial, um filme que, além de ter realizado experiências visuais consideradas incríveis e inovadoras para a época, foi o responsável por apresentar para o público um personagem icônico que sintetizou como poucos a paranoia nuclear do período pós-Segunda Guerra Mundial. A outra forma é o relato sincero de alguém que riu muito dos efeitos especiais datados do filme e do roteiro cheio de furos e diálogos ruins. Godzilla é um filme importante e obrigatório para os fãs de cinema, mas vê-lo atualmente exige paciência e bom humor por parte do espectador.

Lançado em 1954 graças aos esforços da equipe comandada pelo diretor Ishirô Honda, Godzilla tornou-se o filme japonês mais caro produzido até então. Utilizando maquetes para simular cidades bem como efeitos e técnicas variadas para emular combates aéreos, aquáticos e terrestres, Honda contou ainda com um ator vestido com um traje de borracha para tornar-se o responsável pela popularização do Tokusatsu, ou “filme de efeitos especiais”, gênero que ao longo dos anos consagrou personagens conhecidos do público brasileiro como Kamen Rider, Ultraman e Changeman.

Godzilla 1954 - CenaInspirado na história real do incidente envolvendo o Lucky Dragon, barco que aproximou-se de uma área de testes nucleares e contaminou todos os seus tripulantes, Honda começa Godzilla mostrando como uma embarcação de pescadores japoneses foi destruída em alto mar após deparar-se com uma fonte de luz misteriosa que emanava do fundo das águas. Como um segundo barco enviado para procurar por sobreviventes é igualmente destruído, o governo entra em estado de alerta e começa a investigar o caso, mas nada poderia prepará-los para a terrível ameaça que havia despertado no fundo do oceano: devido as recentes explosões nucleares, Godzilla, tradução ocidental para Gojira, união das palavras gorira (gorila) e kujira (baleia), abandona seu esconderijo subterrâneo e começa a atacar o Japão. Enquanto o governo apela inutilmente para o poder de fogo para tentar deter o monstro, o Professor Yamane (Takashi Shimura), sua filha Emiko (Momoko Kôchi) e o valente Hideto Ogata (Akira Takarada) procuram uma forma alternativa para lidarem com a ameaça sem sacrificarem a criatura.

O rugido, grito ou “barulho dos infernos que o Godzilla faz quando abre a boca”, um dos elementos mais conhecidos da série, é realmente de arrepiar. Tão logo os créditos inicias começam, Honda já estoura nossos ouvidos com o som ameaçador do monstro em uma espécie de prelúdio para toda a destruição que virá na sequência. Eu tenho uma gatinha de 10 meses em casa e foi bem engraçado observar a expressão de pânico que ela fez quando ouviu o barulho 😀

Godzilla 1954 - Cena 2Apesar de extremamente tosca (comentarei mais sobre isso daqui a pouco), também não posso deixar de comentar o impacto que senti quando vi o monstro pela primeira vez. Honda, tal qual todo diretor esperto de filmes de terror, vai mostrando sua criatura aos poucos: primeiro vemos o rastro de destruição deixado por ela, depois suas pegadas e em seguida nossa imaginação é atiçada com relances de partes de seu corpo. De repente, quando menos esperamos, eis que o Godzilla surge de trás de um morro em toda a sua monstruosidade e magnificência para destruir um vilarejo inteiro. O “efeito amedrontador” perdeu-se com o tempo, mas, além da cena ser muito bem executada (Honda posicionou a câmera de um jeito que faz com que a gente sinta-se minúsculo diante do monstro), o momento emociona pelo marco cinematográfico que é: lá está o hoje sexagenário Godzilla em sua primeiríssima aparição. Na mesma medida que pensei “nossa, que legal!”, porém, também dei risada do efeito especial e da feiura do personagem.

Godzilla 1954 - Cena 4Aqui, não trata-se de ser anacrônico. Gosto muito de filmes antigos e tenho carinho e respeito pela obra desses profissionais que desbravaram as fronteiras técnicas do cinema. Admiro o pioneirismo do trabalho do Ishirô Honda (para vocês terem uma ideia, o George Lucas costuma citar esse filme como influência direta para a criação dos efeitos especiais do Star Wars), mas o fato é que eu não consegui tratar Godzilla com seriedade, tanto pelo design do personagem, que na maior parte do tempo parece um lagartão debiloide, quanto pelos cenários absurdamente falsos. Logo após a primeira aparição do monstro, por exemplo, o diretor nos mostra um helicóptero de brinquedo destruído. Tão claro quanto 2 e 2 são 4, aquilo É UM HELICÓPTERO DE BRINQUEDO. Na sequência, porém, falam que o Godzilla destruiu um helicóptero DE VERDADE. Não consegui segurar a risada. As ideais de Honda são majoritariamente boas (a sequência de invasão da cidade, atualmente, poderia render uma cena de ação épica), mas as limitações técnicas da época exigem que a gente veja o filme através de um viés puramente trash para aproveitá-lo.

Godzilla 1954 - Cena 3Sobre o roteiro, nada envolvendo o tal “Destruidor de Oxigênio” faz sentido. Percebe-se que o diretor quis explorar o eterno dilema moral enfrentado pelos cientistas, que precisam ser responsáveis pela aplicabilidade daquilo que eles criam/descobrem, mas os diálogos são ruins, os personagens mudam de opinião rápido demais e a atuação da atriz Momoko Kôchi é pra lá de irritante.

Visto hoje, Godzilla é praticamente impossível de ser levado a sério, uma daquelas produções que, de tão ruins que são, a gente acaba amando e cultuando. Pausei o filme várias vezes para rir das expressões engraçadíssimas do monstro e achei extremamente cômico vê-lo andando na água, quase dançando, enquanto fugia dos “mísseis” (que são feitos com fogos de artifício) disparados pelos caças japoneses (que também são aviõezinhos de brinquedo). Diante desta experiência tão singular, só resta uma coisa para ser feita: assistir TODOS os filmes do personagem rs

Godzilla 1954 - Cena 5

O Conto da Princesa Kaguya (2013)

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O Conto da Princesa KaguyaEra uma vez um cortador de bambu que vivia em uma casinha no meio da floresta. Certo dia, o dedicado homenzinho cortou uma planta que parecia estar iluminada pela luz da lua e …. VOILÀ!!! encontrou uma garotinha do tamanho de um ovo dentro do broto de bambu. Impossível?!? Absurdo?!?!? Não mesmo, caros leitores. O Conto da Princesa Kaguya, novo trabalho dos Estúdios Ghibli que concorre ao Oscar de Melhor Animação, é uma obra japonesa e, como todos sabem, TUDO pode acontecer no Japão, se não literalmente, ao menos em suas animações que sempre deram um banho no quesito originalidade naquelas que são produzidas no ocidente.

Assim sendo, a Princesa Kaguya (ou Pequeno Bambu, como uns molequinhos incrivelmente irritantes gostam de chamá-la) não embarcará em uma aventura de amadurecimento repleta de ação e perigos com seus amiguinhos coloridos e engraçados, fórmula deveras desgastada das animações hollywoodianas. A jornada rumo ao auto conhecimento é sim parte importante da trama, mas existe a preocupação em torná-la atraente também para o público adulto, o que acontece através do uso do elemento fantástico (entre outras coisas, Kaguya aumenta de tamanho a olhos nus toda vez que ela aprende alguma coisa) e do final abstrato que, evitando a tradicional e simplória lição de moral, convida o espectador a elaborar a sua própria interpretação para o que é mostrado. Apresento-lhes a minha e, para tanto, alguns SPOILERS, ok?

O Conto da Princesa Kaguya - CenaO cortador de bambu é agraciado pelos céus, ou pelo menos é isso que ele acredita, em três oportunidades distintas. Na primeira vez, ele encontra Kaguya. Depois vem o ouro e, por último, os tecidos finos. Enxergando nisso tudo um sinal de que a garota é uma princesa e precisa ser tratada como tal, o camponês abandona sua vida simples, porém satisfatória, no campo e muda-se para a capital, onde ele constrói uma mansão e dá um jeito de introduzir Kaguya nos altos círculos da sociedade. A personagem recebe aulas de etiqueta e música e ganha vestidos novos, mas nada disso faz com que ela esqueça os dias felizes de sua rápida infância quando ela brincava entre pássaros, besouros, bestas, grama, árvores e flores (ôh musiquinha! rs). Envolvida nos sonhos do “pai”, Kaguya é então cortejada por cinco nobres que comparam sua beleza aos maiores tesouros da Terra. Disposta a atrasar o casamento tanto quanto possível, ela pede então para que os pretendentes tragam para ela esses tesouros como prova de amor, tarefa que nenhum deles consegue realizar. Em um devaneio, Kaguya percebe que sua vida distanciou-se muito de seu propósito, que era ser feliz, e acaba regressando para a lua junto com uma figura feminina parecida com Buda. Fim  da história.

O Conto da Princesa Kaguya - Cena 4As histórias dos Estúdios Ghibli sempre trazem temas ligados ao respeito pela natureza (Meu Vizinho Totoro, Nausicaa, Os Pequeninos) e, arrisco dizer, essa veneração pelas paisagens bucólicas e o amor pela vida simples do campo é a chave para compreender a mensagem anti materialista de O Conto da Princesa Kaguya. O diretor Isao Takahata (Túmulo dos Vagalumes) deixa bem claro o contraste da vida que Kaguya levava no campo com os pais e os amigos (dentre eles Sutemaru, seu interesse romântico), lugar onde ela podia brincar, correr e comer frutas silvestres, e aquela que ela vive na cidade, repleta de protocolos e obrigações. Entendo que o diretor quis nos mostrar que a natureza é capaz de nos fornecer tudo, inclusive ouro e objetos de luxo, mas que depende de nós resolver o que faremos com aquilo que extraímos dela. O cortador de bambu (o personagem não tem um nome, por isso continuo me referindo a ele dessa maneira) certamente queria o melhor para Kaguya, mas a visão imediatista de mundo dele fê-lo entender que esse melhor seria uma vida de princesa na capital. Ele ignorou o quanto a filha cresceu (alegoria que dentro do filme sinaliza amadurecimento e felicidade) ali mesmo, na casinha simples na qual ele vivia com a esposa, e levou-a para um lugar cercado de riquezas, empregados e homens que interessaram-se por ela apenas devido a sua beleza. A estranha aparição da figura feminina de Buda no final (o que é aquilo? um carro de escola de samba? rs) para resgatar a personagem parece confirmar a mensagem contrária ao materialismo.

O Conto da Princesa Kaguya - Cena 5É bonito que o filme nos faça pensar e que ele deixe lacunas para que preenchamos com o conhecimento de mundo que temos, mas bonito mesmo é o estilo de animação que utilizaram aqui. O leitor certamente já notou através das imagens do post que O Conto da Princesa Kaguya é diferente de tudo aquilo que estamos acostumados a ver dentro do estilo. A impressão que eu tive é que pintaram os cenários à mão e depois sobrepuseram os personagens, esses feitos intencionalmente para parecerem-se com rascunhos mal finalizados. O resultado é fantástico e, mesmo que tu não importe-se com nada do que for dito no filme, certamente tu guardará um lugar na sua memória para ele devido ao visual. De tudo de belo que o diretor oferece para nossos olhos, destaco a sequência deveras obscura em que Kaguya corre através de cenários sombrios em uma espécie de devaneio assustador. Notem que os cenários e as cores vão ficando meio embaçados, quase desaparecendo, para acompanhar o desespero da personagem que naquele momento só queria fugir de tudo e de todos.

O Conto da Princesa Kaguya - Cena 2Não acredito que O Conto da Princesa Kaguya possa fazer frente ao favorito Como Treinar Seu Dragão 2, a Academia é protecionista com as produções americanas e, de fato, a sequência das aventuras de Soluço e Banguela é um filme quase irrepreensível. É ótimo, porém, que ele tenha vencido outros fortes concorrentes à indicação (Uma Aventura Lego, por exemplo) e, com isso, ganhado a visibilidade que o Oscar sempre fornece: os Estúdios Ghibli merecem o reconhecimento pelo excelente trabalho e nós merecemos ter acesso (imaginem ver algo do tipo algum dia no cinema *.*) a animações que façam mais do que entreter a molecada.

O Conto da Princesa Kaguya - Cena 3

47 Ronins (2013)

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47 RoninsKeanu Reeves, que anos horríveis você viveu após o fim da Trilogia Matrix. Depois de protagonizar alguns dos longas de ação/ficção científica mais inovadores da história, a aparição mais marcante do ator foi em um metrô quando flagraram-no em um típico momento gente como a gente. Apesar das críticas esmagadoras dos fãs da HQ, eu até gostei do Constantine, mas filmes como o remake do O Dia em que a Terra Parou e o chatíssimo A Casa do Lago me fizeram perder o interesse pelo trabalho do cara. Aí vem esse 47 Ronins e suas espadas, dragões e japonesinhas bonitinhas sussurrantes oferecer ao ator uma nova chance de reavivar em nossos corações o amor que outrora sentimos por ele. Bem, aqui Keanu até consegue repetir tudo que ele fez de melhor no ápice de sua carreira, ou seja, permanecer calado e com cara paisagem mesmo diante do próprio apocalipse, mas o restante do material é tão sem vergonha que nem a atuação “sou foda” do cara impede que este título converta-se em mais um passo ladeira abaixo na qualidade da filmografia do ator.

Abrirei mão de escrever uma resenha normal, com sinopse e comentários sobres as qualidades e defeitos da produção, para contar-lhes a minha experiência assistindo essa joça. Quero dar-lhes o meu testemunho para que, assim, quem sabe, vocês não precisem sujeitar-se ao mesmo sofrimento rs

47 Ronins - CenaHá três dias, sentei no meu confortável sofá após o almoço, liguei a TV e coloquei o filme para rodar. Expectativas? Medianas: nem em sonho eu esperava algo épico como o Yojimbo, mas o trailer dava a entender que poderiam ao menos ter alcançado o nível de diversão descompromissada demonstrado no O Último Samurai. Pois bem, passados os logos dos estúdios e produtoras envolvidas, um dragão feito de CGI surge voando na tela. Antes que eu tivesse tempo de decidir se eu havia gostado ou não do que vi (fiquei com a impressão de que o efeito era meio tosco), fui bombardeado com uma metralhadora de informações. 47 Ronins é baseado em uma lenda japonesa que fala sobre a vingança de 47 ronin (sim, no singular, já que não há plural para a palavra como o título nacional sugere ¬¬) contra o homem que fora diretamente responsável pela morte de seu daimyõ (mestre). Esses termos, ronin e daimyõ, juntam-se ainda a xogun (comandante militar) e seppuku (ritual suicida) e pronto, temos uma saraivada de conceitos sendo disparados contra o espectador nos 2-3 primeiros minutos em uma tentativa ineficaz de ambientá-lo naquele universo cultural. Você já conhece esses termos e não depende desse tipo de explicação? Parabéns amigo, toma aqui um saquinho de Mupy de presente. Não conhece? Acredite, não é ouvindo o narrador falar sobre eles que tu conhecerá. Ao que parece, com esse início, a intenção era muito mais cumprir uma obrigação narrativa do que apresentar um mundo/idéia, tal qual acontece no começo do A Sociedade do Anel.

47 Ronins - Cena 4Confesso que esse início mequetrefe já me deixou predisposto a não gostar de qualquer coisa que viesse a seguir, mas aí Hollywood fez a sua costumeira mágica e me levou de volta para o filme. Se o efeito usado no dragão é questionável, não há o que reclamar da sequência de ação fantástica que abre a produção. Kai (Keanu Reeves), acompanhado por Ôishi (Hiroyuki Sanada) e outros samurais, caçam e matam uma enorme besta no meio de uma floresta. Por mais manjada que esse tipo de cena tenha se tornado ao longo dos anos, com seus cortes rápidos e som estourado para dar a sensação de velocidade e violência, é difícil negar o impacto visual que elas provocam e a diversão fornecida. Ponto para o diretor debutante Carl Rinsch por fazer o dever de casa. Os problemas e lugares comuns, no entanto, voltam a aparecer em seguida e não cessam mais.

47 Ronins - Cena 3Contam-nos quem não gosta de quem, informam-nos sobre amores proibidos e desejos de poder. Não que eu não goste dessas subtramas sentimentais, mas fiquei com preguiça de assistí-las quando ficou claro que elas estavam lá apenas para preencher os espaços entre uma e outra cena de ação e agradar parte do público. 47 Ronins é uma história clássica sobre vingança que poderia ser contada com litros e mais litros de sangue, porém a necessidade de encaixá-lo dentro do formato blockbuster faz com que ele sujeite-se  a fórmulas que os produtores, com toda sua “experiência” e exibições-teste, acreditam serem a mais indicada $$$: saem os samurais retalhadores capazes de estraçalhar a própria barriga em nome da honra, entra o Keanu Reeves, um mestiço que vive um amor proibido em um mundo exótico e fantástico.

47 Ronins - Cena 5Depois que eu percebi o que filme seguiria essa proposta aí, o meu interesse praticamente sumiu. Pausei ele várias vezes, saí para tomar água, acessei a internet e, com muito custo e sofrimento, cheguei até o final. Há algumas coisas legais? Claro que sim: o visual e os efeitos especiais utilizados na última batalha são muito bonitos, o figurino está impecável e os cenários foram muito bem escolhidos. O que faltou mesmo foi a habilidade de contar uma história, o poder de entreter o público. Esta é a sétima adaptação dessa história para o cinema, prova irrefutável do poder de fascinação da lenda, mas também é aquela que, segundo o IMDB, tem a nota mais baixa entre todas (coincidência ou não, o roteiro é assinado pelo Chris Morgan, roteirista da maioria dos filmes da série Velozes e Furiosos). 47 Ronins não reabilita o Keanu Reeves, não é instrutivo e não merece a sua atenção. Quer assistir um filme realmente bom sobre samurais? Tente esse.

47 Ronins - Cena 2

Os Cavaleiros do Zodíaco: A Lenda do Santuário (2014)

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Os Cavaleiros do Zodíaco - A Lenda do SantuárioHá duas formas de assistir e analisar essa adaptação da história dos Protetores da Atena para os cinemas. Em uma delas, avalia-se tão somente aquilo que é apresentado sem levar em conta o saudoso anime que estreou por aqui em 94 na grade da extinta TV Manchete. Alguém que nunca assistiu um episódio sequer da série certamente consegue fazer isso, pagar o ingresso para ver a animação e decidir se ela é boa ou ruim apenas com base no que é exibido. A outra forma, tão imatura quanto sincera, é compará-lo ostensivamente com o desenho que cresci assistindo, dizendo para o leitor (que eu julgo que também seja fã) se o dinheiro e tempo investido valem ou não a pena. Opto sem titubear por essa segunda opção: não dá para falar de Cavaleiros do Zodíaco sem nostalgia e paixão. Aviso, portanto, que o texto estará repleto de SPOILERS.

Não faz muito tempo, baixei e revi toda a Saga do Santuário que, para mim, sempre foi o melhor momento de Seiya e cia. O quebra-pau contra a Hilda é chatão (aquela armadura de Odin é horrível) e as lutas contra Poseidon e Hades tem lá seus momentos, mas é ali na Batalha das 12 Casas que o desenho ganhou meu coração. Digo isso porque Os Cavaleiros dos Zodíaco: A Lenda do Santuário é baseado exatamente nessa saga, fato que me fez ficar empolgadíssimo com a produção. Definitivamente, não era necessário reinventar a roda, bastava refazerem em CGI os melhores momentos das batalhas contra os cavaleiros de ouro e bolar um roteiro minimamente decente  que resumisse a história do que acontece antes delas. E não é que, no início, eu tive a impressão de que os caras haviam entendido isso?

Os Cavaleiros do Zodíaco - A Lenda do Santuário - Cena Os primeiros minutos de A Lenda do Santuário são impecáveis. Em uma sequência que usa o que há de melhor da computação gráfica atual, Aioros, o cavaleiro de Sagitário, foge do Santuário levando a pequena Saori nos braços. Perseguido por Shura de Capricórnio, ele é derrotado e cai dos céus para o que parecia ser a morte certa. A cena, que mostra os dois guerreiros digladiando-se em um céu repleto de estrelas, é sensacional (talvez até mesmo a melhor de todo o filme) e dá a entender que, apesar de todas as mudanças no visual, veríamos exatamente aquilo com que sempre sonhamos.

Na sequência, os fãs sentem as primeiras mudanças necessárias para a transposição da saga (que foi contada originalmente em 73 episódios de 23min cada) para o formato cinematográfico. Aqui algumas coisas começam a irritar. A Lenda do Santuário tem apenas 93min, que é a duração padrão da maioria das animações que chegam atualmente nos cinemas visando o público infantil. Considerando que trata-se de um desenho que foi exibido pela primeira vez em 1986 e que a maioria do público que o aprecia hoje está na casa dos 25-30 anos, é um erro deveras grosseiro fazê-lo usando os mesmos moldes de produções voltadas para os pimpolhos. Não há sangue, e percebe-se que com meia hora a mais, por exemplo, seria possível mostrar minimamente como foi o treinamento de cada um dos cavaleiros, o que não acontece. Mitsumasa Kido encontra Aioros, recebe sua missão e PUF! lá está a Saori adolescente recebendo um tutorial wikipediano do Tatsumi sobre como tornar-se uma deusa e salvar o universo. Um cavaleiro “dumal” genérico qualquer ataca o carro em que eles estavam e PUF! Seiya, Shiryu, Hyoga e Shun aparecem, vestem suas armaduras, despacham o infeliz e juram proteção à Deusa Atena. Tudo tão rápido quanto um Capsula do Poder.

Os Cavaleiros do Zodíaco - A Lenda do Santuário - Cena 3Conforme dito no primeiro parágrafo, me recuso a avaliar uma cena dessas como se eu não conhecesse aqueles caras. Aquele cabeludo lá não é só o cavaleiro de Dragão, ele é o Shiryu, o sujeito que reverteu o fluxo das águas da cachoeira de Rozan. O loirinho com pinta de playboy não é só o cavaleiro de Cisne, ele é o Hyoga, o sujeito que teve o seu coração destroçado por um soco e, no melhor estilo “pegadinha do malandro”,  mostrou ao mundo o poder de proteção do amor materno. O menino delicado do cabelos verdes não é só o cavaleiro de Andrômeda, ele é o Shun, ser cintilante que usa uma armadura perto da qual os bat-mamilos do Joel Schumacher são objetos de orgulho hetero. Finalmente, o saco de pancadas lá não é somente o cavaleiro de Pegasus, ele é o Seiya, o cara que cortou a orelha do gigante Cassius e que reativou o coração do Shiryu com um soco. COM UM SOCO! Não dá para apresentar esses caras em uma cena de 5 minutos, assim, como se eles fossem qualquer um. De todas as escolhas que precisaram serem feitas visando a economia de tempo, essa foi sem dúvida alguma a pior, ainda que, pasmem, não tenha sido a pior. Mas antes de velarmos o Afrodite vamos comentar sobre as escolhas visuais.

Os Cavaleiros do Zodíaco - A Lenda do Santuário - Cena 4Pessoalmente, eu prefiro as armaduras de bronze que os cavaleiros usam na Batalha do Santuário do que aqueles modelos Slim Fit adotados na saga da Hilda. Por mais “trambolhosos” que eles sejam, eles tem um certo charme que aquelas tiaras e cintinhos adotados depois não conseguiram imprimir aos personagens. Aqui não só optaram pelas armaduras mais “econômicas” como introduziram um capacete horrendo nelas, uma espécie de proteção facial que simplesmente impede que a gente veja todas aquelas divertidas caras de pânico que Seiya e cia faziam enquanto apanhavam. Inexplicavelmente, também mudaram o visual do Tatsumi, que agora é cabeludo, deixaram a Saori a maior parte do longa com cabelo curto e trocaram o sexo do cavaleiro de Escorpião: sai Miro, de cabelo azul, e entra a ruiva Milo. Já que era para transformar homem em mulher, não poderiam ter usado o Afrodite, que sempre esteve mais pra lá do que pra cá? Não, para o cavaleiro de Peixes eles reservaram algo muito mais cruel que será comentando abaixo.

Os Cavaleiros do Zodíaco - A Lenda do Santuário - Cena 6Não mostrar parte do treinamento e/ou história de cada um dos cavaleiros de bronze foi chato. Arrumar um jeito estranhíssimo de eles teletransportarem-se para um Santuário modernoso não foi lá muito legal, mas é aceitável. Agora não, não mexam na sequência das Batalhas do Santuário, isso é imperdoável.

  • O Mu de Áries, coitado, após oferecer sua lealdade e ajoelhar-se diante da Atena, precisou ouvir da personagem que “eles estavam com um pouco de pressa”. Que falta de educação!
  • Aldebaran de Touro, o cavaleiro brasileiro (é verdade, olha aqui), talvez tenha sido o mais feliz na reprodução de sua luta. Rolou Grande Chifre e chifre cortado.
  • Simplesmente IGNORARAM a casa de Gêmeos e os links que ela fazia com a Casa de Libra.
  • Máscara da Morte de Câncer protagonizou um dos momentos mais vergonhosos da história do cinema ao ser transformado em um alívio cômico ridículo. Colocaram-no para dançar e cantar no meio de umas máscaras coloridas e, pior, fizeram dele a grande luta do Shiryu no Santuário, quando todo mundo esperto sabe que a pancadaria memorável do cara foi com o Shura.
  • Aioria de Leão foi outro que podemos dizer que recebeu a devida atenção. Obviamente, por economia de tempo, a luta contra ele não tem aquele desfecho emocionante com a participação do Cassius, mas mesmo assim deu para relembrar das peripécias do Seiya para desviar o poderoso Capsula do Poder.
  • Shaka de Virgem: aqui o filme começa a descer ladeira abaixo. Colocaram-no como um pacificador na briga entre Aioria e Seiya e ignoraram a luta legalzona dele contra o Ikki.
  • Casa de Libra: sem o link do Hyoga na casa de Gêmeos, também foi ignorada. Pelo menos nos privaram de ver o Shun “aquecendo” seu companheiro.
  • Milo de Escorpião: usada para acelerar o filme. Com um golpe, ela empurra (!!!) Shun e Seiya para a casa de Sagitário, onde Shura, apressadinho, também aparece para bater nos personagens.
  • Kamus de Aquário, que dessa vez não precisou andar até na casa de Libras, recebe seu discípulo na sua própria casa e trava uma batalha até bacana com ele.

Os Cavaleiros do Zodíaco - A Lenda do Santuário - Cena 5A casa de Peixes merece um parágrafo à parte mas, antes, já que eu falei no Ikki ali atrás, façamos algumas considerações sobre o mesmo. O cavaleiro de Fênix sempre foi o badass do seriado, aparecendo em momentos cruciais para salvar os personagens com sua Ave Fênix e suas frases de efeito (Prepare-se para morrer, aliás, é a minha frase ruim favorita de todos os tempos). Aqui, no filme todo, ele não faz nada mais do que matar o fraco cavaleiro de Sagita e jogar um foguinho no Shura. Ridículo. Sobre o Afrodite, talvez a cena em que ele morre seja o momento mais emblemático desse A Lenda do Santuário. Ares/Saga, percebendo que a batalha estava perdida, simplesmente mata o cavaleiro de Peixes, assim, sem mais nem menos. Não sei vocês, mas apesar de todos os frufrus e frescurites, eu sempre considerei a luta dele com o Andrômeda uma das mais legais da série, o sujeito purpurinado realmente sabia como ser uma bitch com aquelas rosas piranhas. Não confiando no potencial de todas as lutas legais e memoráveis que levavam ao enfrentamento do cavaleiro de Gêmeos, resolveram despachar o Afrodite em uma cena de 5 segundos e investiram em… Montro gigante! Enquanto os poderosos cavaleiros de ouro brincam de destruir pedrinhas, Seiya combate Ares em uma luta totalmente inspirada nos últimos confrontos dos games da série Final Fantasy. Não ficou bom e a armadura de Sagitário, naquele formato equino, foi a cereja do bolo de decepção que o diretor Kei’ichi Sato fez com a obra do mestre Masami Kurumada.

Os Cavaleiros do Zodíaco - A Lenda do Santuário - Cena 7A Lenda do Santuário só não ocupará um lugar pior no meu coração porque esse espaço foi vendido na forma de contrato vitalício para o Dragon Ball Evolution. Vale a pena ver pela curiosidade? Sim, visto que algumas cenas até são legais e há sempre a chance de tu, assim como eu, empolgar-se com esses pequenos momentos e decidir rever a série antiga. Todo caso, não veja no cinema, abrace a mãe internet e mande um recado no formato de uma bilheteria ruim para os produtores: não aceitamos que vocês façam isso com nossa infância, Cólera do Dragão em todo vocês!

Os Cavaleiros do Zodíaco - A Lenda do Santuário - Cena 2

Yojimbo – O Guarda-Costas (1961)

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Yojimbo - o Guarda CostasFalar sobre o método da escrita e comentar quais ideias me motivaram a escrever e o que foi mais ou menos importante para escolher o filme criticado, atualmente, é uma das minhas abordagens favoritas na hora de produzir textos para o blog. A metalinguística, o escrever sobre o ato de escrever, permite-me avaliar e criticar minhas resenhas, como se eu estivesse escrevendo-as e lendo-as ao mesmo tempo, escolhendo, simultaneamente,  o que gosto e o que preciso eliminar nas minhas abordagens.

No caso de Yojimbo, a minha intenção inicial era fazer a ligação entre o filme e seu “remake” hollywoodiano, o Por um Punhado de Dólares do Leone/Eastwood, comentando a grandeza do trabalho do Kurosawa tendo em vista tudo aquilo que ele influenciou. É um caminho que eu costumeiramente trilho por aqui quando vou falar sobre algum clássico, mas pensar sobre ele me fez querer ir em outra direção dessa vez. Ok, influenciar um filme que é considerado um dos pilares do western norte americano é um fato digno de nota, mas não foi por isso que eu decidi assistir Yojimbo: o que, verdadeiramente, me trouxe até aqui e o que eu gostaria de comentar com vocês é o processo pessoal que hoje me permite sentar para ver um filme antigo da mesma forma que eu sento para ver um lançamento repleto de efeitos especiais. Considerando os benefícios que tiro disso, acho que vale a pena compartilhar a experiência.

 Quando escrevi sobre o Os Sete Samurais, que também é do Kurosawa, gastei algumas linhas do texto para falar sobre como conheci e reagi inicialmente ao trabalho do diretor. Estranhei, ri e critiquei o Rashomon, que é um filme preto e branco japonês de 1950. Os meus argumentos eram justamente esses: filme preto e branco japonês de 1950. Até onde a minha mente adolescente conseguia ir, a simples combinação dessas palavras/características já era suficiente para condenar uma obra. É bom lembrar disso porque, mais do que sentir vergonha de mim mesmo, consigo ver que os anos livraram-me de alguns preconceitos e ajudaram-me a encarar o cinema de forma mais madura, menos óbvia, e isso tem me ajudado a apreciar alguns clássicos não somente por tudo aquilo que eles representam historicamente, mas sim porque eles, de fato, são bons e divertidos.

Yojimbo - O Guarda-Costas - CenaQuando dei o play no Yojimbo, fiz questão de perguntar à minha esposa o que ela esperava dele que, jocosamente, eu defini como um “filme preto e branco japonês de 1961”. A resposta dela, com a qual eu tive de concordar imediatamente, foi a de que esses filmes apresentam relações e sentimentos que, muitas vezes, não nos são contemporâneos. Esse olhar para o passado, juntamente com as diferenças culturais típicas da cultura japonesa, por si só, já seriam motivos suficientes para ela dedicar um pedaço do dia para assistir um filme. Bingo, casei com a mulher certa! O filme antigo, portanto, atrai por ser um produto de um período em que as pessoas tinham preocupações e sonhos diferentes daqueles que temos atualmente. Reconheço que, quando tu começa a assistí-los frequentemente, é possível perceber que eles também encaixam-se dentro de algumas padronizações e, depois de um tempo, tornam-se tão previsíveis quanto as produções atuais, mas balancear a apreciação deles com a de filmes novos, até o momento, foi uma das formas que encontrei para continuar descobrindo coisas novas dentro do mundo por vezes formulaico do cinema.

Yojimbo - O Guarda-Costas - Cena 2Yojimbo influenciou Por um Punhado de Dólares (experimentem ler o texto e compará-lo com a sinopse abaixo) mas, como não posso (ou quero) rastrear a origem da idéia, vamos deixar esses enigmas do tipo “ovo-galinha” de lado e concentrarmo-nos naquilo que ele traz de melhor, que é diversão que os elementos que nos parecem exóticos e o roteiro engenhoso são capazes de oferecer. No século XIX, os samurais, outrora defensores da realeza, viram seu estilo de vida cair em desuso e passaram a vagar procurando por alguém que estivesse disposto a pagar por seus serviços. Sanjuro (Toshirô Mifune), um desses guerreiros, chega com sua espada em uma cidade que vive ameaçada por duas gangues. Após matar rapidamente 3 sujeitos que o provocam e desrespeitam, o samurai recebe e recusa propostas para servir dos dois lados. Mais do que associar-se a uma das famílias que oprimem os trabalhadores da cidade, ele deseja acabar com todos os degenerados do local e, claro, lucrar em cima disso.

Yojimbo - O Guarda-Costas - Cena 3Temos aqui, deste modo, o roteiro tradicional do filme de western em que um estrangeiro desconhecido chega em uma cidade corrompida para resolver seus problemas. Vê-se também o confronto entre o conservadorismo e o progresso, em que os novos tempos (o liberalismo, o capitalismo, as gangues) são apresentadas como uma forma de vida degenerada quando comparados com o modelo anterior, o tempo dos samurais, tempo da honra e do respeito. Logo no começo da trama, por exemplo, Sanjuro presencia uma briga entre pai e filho em que o garoto diz que prefere morrer vivendo uma vida de aventuras do que sobreviver através dos anos comendo mingau de arroz. No final, após espalhar sangue por toda a cidade, Sanjuro deixa claro para o garoto o quão errado ele estava. Tradicionalista, a mensagem de Kurosawa caiu como uma luva para aquele é o mais americano dos gêneros cinematográficos.

Yojimbo, até mesmo pela proposta de seu personagem principal de não entrar em conflito direto com seus inimigos, é um filme mais cadenciado, que privilegia mais os diálogos do que as cenas de ação. É engraçado ver como Sanjuro utiliza sua inteligência para colocar as gangues para lutar entre si, poupando-lhe o trabalho de matar um por um. No entanto, quando a estratégia é descoberta e o combate torna-se inevitável, Kurosawa não decepciona e nos dá uma boa dose de pancadaria samurai. Eu, que assisti esse filme com o ótimo Os Sete Samurais em mente (talvez o maior de todos os longas do estilo já feitos), fiquei satisfeitíssimo com o que vi, principalmente quando ele enfrenta os “6 da cabana”, cena brutal e sanguinolenta que, filmada por Kurosawa, consegue expressar uma forma estranha e sutil de beleza.

Yojimbo - O Guarda-Costas - Cena 4Tudo o que vi e gostei certamente não teria o mesmo efeito se eu o fizesse através do prisma “filme japonês preto e branco de 1961”. Yojimbo, mais do que um clássico que qualquer fã, estudioso ou interessado por cinema deve conhecer e respeitar, é um filme divertido, com piadas atemporais (a covardia das duas gangues, que fazem de tudo para não brigarem, é impagável), humor negro (reparem naquele cachorro que anda tranquilo carregando uma mão no início), cenas muitíssimo bem coreografadas (observem a qualidade da movimentação dos atores antes dos duelos e as escolhas pontuais de ângulos que o Kurosawa faz), ótimas sequências de ação e uma atuação memorável do monstro Toshirô Mifune, ou seja, tudo que um filme precisa ter, seja ele novo ou antigo. Sinto-me feliz por, hoje, poder assistir uma obra dessas tal qual deve ser, sem preconceitos com a imagem e o som e tirando proveito do distanciamento temporal que, mais do que deixar os filmes “estranhos”, os tornam interessantes e prazerosos justamente por suas linguagens e valores que são diferentes daquilo que temos nas produções atuais.

Yojimbo - O Guarda-Costas - Cena 5