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Be Here Now (2015)

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Assisti Spartacus ao longo de 2016 e, no início, não gostei muito do que vi. Eu conhecia a história do personagem através daquele filme interminável do Kubrick de 1960 e, na primeira temporada da série, tive a impressão de que o roteiro sobre o escravo que comandou uma rebelião contra o Império Romano foi deixado de lado para privilegiar as cenas de ação e putaria.

Claramente inspirado pelo trabalho conceitual do Zack Snyder no 300, Spartacus começou mal com cenários toscos gerados por CGI, repetidas lutas sangrentas em slow motion e uma porção de homens fortões seminus que conversavam como se estivessem recitando poemas. Todo caso, o roteiro foi tomando corpo ao longo do caminho, os personagens foram tornando-se mais e mais carismáticos (o Gannicus é muito legal) e, quando terminei a quarta e última temporada, bateu aquela tristeza por saber que não havia mais material para ver, ou seja, a série havia superado o início ruim e ganhado o meu coração.

O último episódio, aliás, trouxe uma dose extra de emoção para quem acompanhou as notícias de bastidores de Spartacus. Terminada a história e encerrados os créditos finais, exibiram uma justa e tocante homenagem ao Andy Whitfield, ator que interpretou o protagonista na primeira temporada mas que abandonou a série após ser diagnosticado com câncer. Infelizmente, Andy não resistiu ao tratamento e faleceu vítima da doença no dia 11 de setembro de 2011. Não serei hipócrita e dizer que eu achava o cara um grande ator (além de não ter lembranças dele naquele Gabriel, que é um filme horroroso, acho que o Liam McIntyre encarnou melhor o gladiador), mas ainda assim é sempre estranho e triste quando um rosto conhecido nos abandona. Assim sendo, fiquei bastante emocionado quando terminaram a série mostrando o Andy gritando “I”m Spartacus” naquela que talvez seja a cena mais marcante da produção.

Lembro que, quando o episódio acabou, enxuguei as lágrimas e fui procurar informações sobre a morte do ator. Foi aí que encontrei esse Be Here Now (ainda sem título nacional), documentário no qual a diretora Lilibet Foster conta como a família Whitfield lidou com a doença desde o momento de sua descoberta até o falecimento de Andy. A minha intenção era vê-lo de imediato, mas vasculhei todos os cantos da internet e não tive sucesso na busca. Desde já, fica a dica: se você também procurou e não encontrou (ou se você ficar interessado em assistir após ler esta resenha), saiba que o título foi disponibilizado recentemente na Netflix 🙂

O primeiro ponto que precisa ser comentado é que Be Here Now é mais sobre o Andy Whitfield pai e esposo do que sobre o cara que interpretou o Spartacus. Como a maioria das pessoas conheceram o ator através da série, é perfeitamente natural que o público queira ver cenas de bastidores da mesma bem como saber de que forma a doença impactou as gravações. Ciente disso, a diretora reserva espaço para que o ator Jai Courtney (o Varro da 1° temporada) fale sobre seu colega e mostra cenas de Andy ensaiando e atuando como o personagem, mas na maior parte do tempo o que vemos são cenas do dia a dia da família Whitfield e depoimentos que Andy e sua mulher, a valente Vashti Whitfield, registraram de si mesmos. Tal abordagem pode até deixar alguns fãs frustrados (inicialmente, eu também queria ver mais conteúdo sobre a série), mas o resultado não decepciona ao compor um registro intimista e emocionante dos últimos dias de um homem que precisou encarar a própria mortalidade e preparar sua saída de cena.

Lilibet não dá muitos detalhes sobre o assunto, mas é citado o fato de que Andy já havia enfrentado e vencido outro câncer antes de ser diagnosticado novamente com um linfoma em março de 2010. Dessa forma, o início do tratamento é pouco traumático: ele já venceu a doença uma vez e voltará a vencer. Tendo retornado para sua casa na Austrália após afastar-se das gravações da série, Andy opta então por realizar um tratamento espiritual na Índia antes de iniciar o processo de quimioterapia. Em sua fé, o ator acreditou que a medicina e os conhecimentos milenares do oriente poderiam prepará-lo para o que viria a seguir. Independente da opinião que possamos ter sobre temas como astrologia e medicina alternativa, essa passagem é bastante bonita por dois motivos: 1) Andy recebe a visita do pai na Índia e, juntos, eles visitam lugares fantásticos e andam de moto nas ruas caóticas daquele país. Acredito que isso é o tipo de lembrança boa para um pai guardar do filho. 2) A sintonia entre Andy e sua esposa é muito bacana. Vashti deixa bem claro sua opinião sobre aquela viagem (ela preferia que o marido iniciasse a quimioterapia imediatamente), mas o faz de forma respeitosa e mostra-se disposta a apoiá-lo 100% quando ele decide ir.

Findada a viagem, Andy retorna confiante para casa e inicia o tratamento. É um período difícil e confuso: ao mesmo tempo que os médicos fazem diagnósticos que mostram a remissão do linfoma, surgem notícias desanimadoras sobre a detecção da doença em novas áreas do corpo do ator. Andy demonstra ser um homem forte e de poucas palavras, mas não são poucas às vezes que a câmera capta-o com os olhos cheios de lágrimas após os telefonemas que não trazem as notícias que ele esperava. Vashti é uma fortaleza e doa-se por completo para a situação, desdobrando-se para auxiliar o marido sem deixar os dois filhos de lado, mas quando fica sozinha ela desmorona e fala sobre o medo de perder seu amor. Novamente, a maturidade do casal chama a atenção. Seja nos consultórios escutando que o quadro piorou, seja no dia a dia alegre da família, os dois demonstram uma química fantástica e estão sempre dispostos a ouvirem e confortarem um ao outro. A forma madura como eles discutem um tema espinhoso como a possibilidade real de Andy morrer é algo que todos os casais deveriam aprender a fazer.

Começamos a ver Be Here Now sabendo que ele não terá um final feliz, mas ver Andy lutando contra a doença (e praticamente vencendo-a antes de definhar por completo) nos dá uma falsa sensação de esperança que é completamente destruída pela inevitável confirmação de que o ator perdeu a batalha para o câncer e faleceu aos 39 anos de idade. Felizmente, a diretora teve bom senso e evitou o sensacionalismo, logo a gente não vê nenhum registro em vídeo da família no dia do ocorrido, mas mesmo assim é difícil segurar a emoção quando Vashti narra como foram os últimos momentos ao lado de seu marido. A grande verdade é que ninguém está preparado para perder o amor de sua vida, logo a gente entende perfeitamente o que aquela mulher sentiu e chora junto com ela. Chora muito.

Be Here Now, numa tradução livre, seria algo como “estar aqui agora”. Andy Whitfield tatuou esta frase no antebraço no início do tratamento para simbolizar a importância de aproveitar cada momento como se ele fosse o último. Se até mesmo o forte Spartacus, aquele que venceu o gigante Theokoles e trouxe a chuva de volta, sucumbiu diante de uma doença, é bom que nós, meros mortais assinantes da Netflix, aprendamos com a mensagem de Be Here Now e percebamos a urgência de encararmos a brevidade da vida, de “estarmos aqui agora” e abraçarmos com força cada oportunidade de sermos felizes que tivermos. Afinal de contas, nunca saberemos quando poderemos dar um último beijo na pessoa amada ou quando haverá um quebra molas no caminho. Descanse em paz, Andy.

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Esquadrão Suicida (2016)

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Esquadrão SuicidaPor mais difícil que seja, é preciso reconhecer a verdade: Esquadrão Suicida é ruim. No máximo, com muito amor no coração, dá pra dizer que ele é mediano, um 5/10, mas bom ele não é. Não estou dizendo isso porque eu “gosto dos filmes da Marvel”. Não estou dizendo isso porque os “trailers vendiam um filme e entregaram outro”. Enfim, não estou dizendo isso para contribuir com o “sepultamento” que o filme está recebendo em alguns cantos da internet. Não gostei de Esquadrão Suicida porque achei-o mal feito, rasteiro e sem personalidade e, neste texto, explicarei-lhes o porque da avaliação negativa.

Antes de começar a resenha, porém, faço-lhes um pedido: vão ao cinema, vejam o filme e, só depois, voltem aqui para trocarmos uma ideia. Digo isto tanto porque utilizarei SPOILERS abaixo quanto porque não quero que a minha experiência substitua a sua. O papel da crítica cinematográfica, acredito, não é afastar o público das salas de projeção nem mudar a opinião de ninguém, mas sim ajudar o espectador a enriquecer suas próprias impressões acerca daquilo que ele mesmo viu. Concordar ou discordar do crítico é apenas uma consequência caso tu conheça o assunto tratado, mas é fundamental que tu conheça o assunto para que haja diálogo, certo? 🙂

Esquadrão Suicida chega aos cinemas depois de O Homem de Aço e Batman vs Superman com a tarefa de 1) ampliar o chamado Universo Estendido da DC, apresentando um novo grupo de heróis/vilões e 2) conectar as produções anteriores e plantar links para os próximos lançamentos da DC Comics. Ao meu ver, nenhuma das duas propostas foram desenvolvidas satisfatoriamente, mas é principalmente as falhas da primeira (apresentar os personagens) que faz o filme do diretor David Ayer afundar.

Esquadrão Suicida - Cena 4O fato de um alienígena extremamente poderoso como o Superman ter escolhido a Terra para viver colocou nossas autoridades em estado de alerta. Temendo que o kryptoniano volte-se contra os humanos ou que a presença dele aqui atraia novas criaturas hostis como o General Zod e o Apocalypse, a agente Amanda Waller (Viola Davis) propõe ao governo norte americano a criação de um grupo secreto de pessoas com habilidade extraordinárias (os chamados meta-humanos) para defender-nos em situações de emergência. Até mesmo pela característica “suicida” dessas missões, Amanda sugere que os membros do grupo sejam recrutados nas prisões, visto que, na visão fria e pragmática dela, vilões condenados são “descartáveis”. É assim que nasce o Esquadrão Suicida, uma equipe de desajustados fora da lei comandada pelo soldado Rick Flag (Joel Kinnaman).

Tão logo Amanda consegue formar sua equipe de vilões, surge uma ameaça para colocar à prova as habilidades dos personagens. Enchantress, uma entidade ancestral que habita o corpo da pesquisadora June Moone (Cara Delevigne), sai do controle e inicia um plano de dominação global. É assim que o Esquadrão Suicida, que é formado por Arlequina (Margot Robbie), Deadshot (Will Smith), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Diablo (Jay Hernandez), Killer Croc (Adewale Akinnuoye-Agbaje) e Slipknot (Adam Beach), bem como Katana (Karen Fukuhara), guarda costas de Rick Flag, entra em ação para evitar o pior.

Esquadrão Suicida - Cena 3Filmes de origem, desses que precisam contar a história dos personagens antes de colocá-los para quebrar o pau, são sempre complicados de se fazer. Para que esse tipo de longa dê certo e consiga estabelecer laços emocionais com o público, é preciso que o roteiro dedique tempo suficiente para desenvolver as relações pessoais dos personagens (motivações, família, amigos, inimigos), de modo que, quando a pancadaria começar, tu veja na tela não um zé mané qualquer com um uniforme no meio de uma infinidade de efeitos especiais, mas sim aquele cara legal cuja história tu conheceu e afeiçoou-se desde o início da projeção. Não é isso que acontece em Esquadrão Suicida.

Tão logo o filme começa, vemos a Amanda Waller em um jantar defendendo seu projeto de super grupo para o governo. Durante uns 15 min (?), ela apresenta cada um dos vilões, falando de suas habilidades e de seu passado no crime. Esta cena, além de ser rápida e acompanhada por textos explicativos impossíveis de serem lidos na totalidade (pisque e tu perderá informações importantíssimas, como aquela que fala do assassinato do Robin, por exemplo), ainda precisa cumprir o papel de linkar o filme com as futuras produções da DC (o Flash e o Batman aparecem por aqui). O ritmo é tão acelerado e o background dos vilões é tão superficial que, quando o tal Slipknot morre após uma tentativa de fuga, a única coisa que eu consegui pensar foi “foda-se”. A matemática, nesse caso, é implacável: quanto mais personagens tu tiver, mais tempo tu precisa investir para desenvolvê-los. Não fazer isso é o primeiro passo para criar um produto genérico.

Esquadrão Suicida - Cena 6Esse defeito é corrigido durante o filme? Parcialmente. Anunciados como as grandes estrelas de Esquadrão Suicida, a Arlequina e o Coringa ganham muitas cenas de flashback para explicar como começou e desenvolveu-se o romance obsessivo deles, tanto que a gente realmente passa a importar-se com o destino dos personagens. O resultado também é satisfatório para o Deadshot do Will Smith, que rala bastante para conseguir protagonizar o longa (não é fácil competir com uma dupla de loucos coloridos) com sua história de devoção à filha. O restante dos personagens não recebe a mesma atenção e parece estar ali só para fazer volume, sofrendo para conseguir uma ou duas frases de efeito e para emplacar suas próprias esquisitices. A ideia do unicórnio cor de rosa do Capitão Bumerangue, por exemplo, não rende nem a metade do que poderia render.

O grande problema desse Universo Estendido da DC parece ser justamente esse: eles não estão interessados em gastar tempo e filmes para nos mostrar como as coisas começaram. O Capitão Bumerangue? Ele é aquele cara lá que rouba as coisas e que foi preso pelo Flash. Como? Quando? Eles explicam tudo isso em um flashback de 15seg. O Batman tem 20 anos de lutas contra o crime, o Robin foi morto pelo Coringa e pela Arlequina… Isso tudo aconteceu em histórias que não vimos e das quais só ouvimos falar em diálogos e referências plantadas nos cenários. Ao que parece, a DC não quer perder o bom momento para filmes de super heróis e está tentando acelerar a adaptação de seu universo para os cinemas. Achei compreensível eles pularem a origem do Batman no Batman vs Superman (eles poderiam contar essa história no já anunciado filme solo do morcegão), mas não dá para entender o motivo dessa pressa com o Esquadrão Suicida: poderiam ter feito um filme legal misturando humor, cenas de ação fantásticas e um pouco de violências, tal qual o Guardiões da Galáxia, mas preferiram realizar uma espécie de vídeo clipe tosco onde a história dos personagens fica em segundo plano para dar espaço para um romance hiper colorido embalado por músicas de forte apelo popular (quem não gosta de Bohemian Rhapsody?).

Esquadrão Suicida - CenaConsigo até imaginar um reunião dos executivos da DC onde foi dito o seguinte: “Como o marido da Katana morreu? Por onde o Killer Croc andou? Não importa, explicamos isso em um diálogo. Acrescenta mais um close da bunda da Arlequina aí ou coloca ela para falar algo insano com AQUELE sorriso. Ah, coloca o Batman também. O Batman é legal.” Esquadrão Suicida é uma colagem de coisas potencialmente legais que, sem contexto, não funcionam e soam gratuitas. Peguemos, por exemplo, aquela cena do trailer onde a Arlequina rouba uma joia de uma vitrine. Legal o derrière, legal a fala, mas ela não acrescenta NADA para a história. Vi a mesma falta de propósito na referência ao Watchmen (o smile dentre da vitrine), na Arlequina quebrando o pau dentro do elevador (pra quê?) e na cena do Coringa deitado e rindo no meio de um círculo de facas: tudo muito legal, tudo muito bonito, mas completamente desnecessário.

A trilha sonora é uma das melhores dos últimos anos, as atuações do Jared Leto e da Margot Robbie (nunca duvidei deste Coringa) estão desgraçadas de boa e o Deadshot é um bom personagem, mas a real é que este filme é composto de uma única, gigantesca e  genérica cena de ação (encontrem a Enchantress, matem a Enchantress) com um monte de personagens esquecíveis e sem personalidade. Aparentemente, não era para ser assim. Notícias que podem ser lidas em sites especializados dizem que, tal qual aconteceu no Quarteto Fantástico, a direção do David Ayer sofreu diversas intervenções. Muito material que ele gravou para desenvolver os personagens (coisas como aprofundar o relacionamento do Flag com a June, por exemplo) ficou de fora do corte final para dar lugar para piadinhas cretinas (aquela do ‘limpar o histórico de navegação’ foi sofrível) e para colocar mais cenas de ação. O fato do público ter torcido o nariz para o lado sombrio do Batman vs Superman, pelo visto, foi preponderante para que esse filme mudasse de tom e mostrasse não o que o diretor preparou, mas sim o que o “espectador médio” queria ver: piadas, romance e explosões. Que bosta.

Esquadrão Suicida - Cena 5Repetindo o que eu disse no texto do A Origem da Justiça, a Marvel gastou pelo menos 6 filmes antes de reunir os Vingadores. Mesmo em longas menos inspirados, como o primeiro do Thor, eles fizeram o dever de casa: contaram a origem do personagem, apresentaram o mundo dele, a família, os inimigos, etc. A gente vai no cinema e pira com produções como o Guerra Civil porque a gente sabe da trajetória daqueles personagens, porque a gente já viu eles conversando e lutando antes. Ou a DC adota a mesma fórmula e tira o pé do acelerador ou ela está correndo o sério risco de perder toda a credibilidade junto ao público que realmente gosta de cinema e de quadrinhos e que conhece aqueles personagens e sabe o que eles podem render. Não dá para desperdiçar atuações como a do Leto e da Robbie num filme ruim desses, não dá para continuar apenas falando de personagens e acontecimentos que eles ainda não mostraram, não dá para colocar o Batman em uma cena pós crédito falando da Liga da Justiça e achar que, com isso, tu irá motivar o público a voltar ao cinema para ver outra história ruim. Se a editora for esperta, dessa vez ela ouvirá as críticas certas (ter um ‘tom sombrio’, nem de longe, é um defeito) e repensará a condução do seu universo cinematográfico. Torço para que isso aconteça.

Esquadrão Suicida - Cena 2

O Exterminador do Futuro: Gênesis (2015)

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O Exterminador do Futuro - GênesisAssisti O Exterminador do Futuro: Gênesis na pré estreia, dia 01/07, mas posterguei a resenha porque, antes de escrever sobre ele, eu queria afastar-me dos sentimentos ruins que a sessão me provocou. Muito longe de ser apenas “mais um lançamento”, Gênesis é a sequência de uma das melhores e mais conhecidas séries de ação da história do cinema e é imprescindível que ele seja visto e analisado como tal. Assim sendo, revi todos os 4 longas anteriores e li críticas negativas e positivas sobre a produção para organizar melhor minhas ideias e chegar a um parecer que não fosse baseado apenas no tédio descomunal que esse filme do diretor Alan Taylor (de Thor: O Mundo Sombrio) me fez sentir. Passaram-se 9 dias e acabei desistindo de começar o texto com frases como “Venha comigo se você quiser economizar seu dinheiro!”, mas a grande verdade é que, mesmo daqui um tempão, ainda lembrarei-me desse filme com o pesar de alguém que não poderia ter ficado mais decepcionado com o que viu.

Em 2029, John Connor (Jason Clarke), o líder da resistência humana contra a Skynet, envia o soldado Kyle Reese (Jai Courtney) ao passado para proteger a sua mãe, Sarah Connor (Emilia Clarke), de um exterminador que fora programado para matá-la. Aqui faço uma pausa na sinopse para relatar algo importante que certamente nem todo mundo deve ter notado.

O Exterminador do Futuro - Gênesis - CenaNão sei o quão familiarizado com a série o leitor está, mas essa premissa aí é EXATAMENTE a mesma do O Exterminador do Futuro de 1984. Trata-se, portanto, de um remake? Negativo: o que vemos na abertura de Gênesis é a reconstrução fiel e nostálgica dos primeiros minutos do clássico do James Cameron, com direito a mendigo sendo roubado, zoom em tênis da Nike e tudo mais. A tecnologia nos permite reviver a chegada do Arnold Schwarzenegger no passado, quando ele estava no auge de sua forma física (o rosto rejuvenescido do ator foi inserido no corpo de um dublê), mas, pouco depois da famosa frase “Suas roupas: me dê elas, agora!”, as coisas começam a ficar um pouco diferentes. Sarah não precisa da ajuda de Kyle para fugir da máquina assassina: auxiliada por um envelhecido exterminador modelo T-800, ela despacha o vilão e revela um plano audacioso para acabar com a Skynet de uma vez por todas.

O Exterminador do Futuro - Gênesis - Cena 5Como a proposta do recente O Exterminador do Futuro – A Salvação de explorar o futuro sombrio dominado pela Skynet não caiu nas graças do público, nada mais óbvio do que apelar novamente ao passado para tentar reconquistar os fãs da franquia. Kyle e Sarah estão juntos novamente, os produtores encontraram um bom argumento para explicar o aspecto envelhecido do Arnold e pronto, o palco está armado para uma nova tentativa de impedir a dominação das máquinas. É aí que o exterminador, que até então era um sujeito praticamente monossilábico, resolve abrir a boca e as coisas desandam pra valer.

No O Julgamento Final, aquele que é inquestionavelmente o melhor filme da série, o John Connor já tentava humanizar o T-800, que dava provas de ser capaz de aprender novas expressões e falas. As cenas em que isso acontecia eram muito bem encaixadas entre uma e outra sequência de ação, de modo que elas não tornavam-se cansativas nem conferiam ao filme mais humor do que o roteiro de um filme DE AÇÃO sobre um ROBÔ ASSASSINO pedia. O “Hasta la vista, baby” transformou-se em uma das frases mais icônicas do cinema por ser PONTUAL. Foi com grande desgosto, portanto, que encarei esse T-800 “humanizado” e tagarela. O Arnold fala mais aqui do que em todos os outros filmes juntos (a cena em que ele explica as viagens no tempo e as realidades paralelas entraria facilmente no Interestelar) e a insistência em transformá-lo em um alívio cômico com aquele sorriso forçado é nada menos do que deprimente. Schwarzenegger diz estar velho, não obsoleto, mas os papéis que ele escolheu para interpretar nessa retomada da carreira como ator (vide O Último Desafio, Os Mercenários 3) tem nos feito lembrar mais das filas do INSS do que do potencial de alguém que foi o símbolo maior dos filmes de ação das décadas de 80/90.

O Exterminador do Futuro - Gênesis - Cena 2Quando força a barra com esse humor raso para agradar o público ocasional do cinema (senti até uma dor no estômago quando ficharam os personagens ao som daquela música do Bad Boys), o diretor Alan Taylor acaba sacrificando o clima de suspense que marcou os dois primeiros filmes. Não há NADA aqui que lembre aquela parte do hospital do O Julgamento Final em que é possível sentir o desespero da Sarah quando ela vê o exterminador saindo do elevador. As cenas de ação, principal atrativo dos filmes do Cameron, são rodadas por Taylor com todos os exageros do cinema atual, com a edição frenética emulando velocidade e movimentos tão estilosos quanto genéricos e esquecíveis. Peguemos, por exemplo, aquela perseguição de helicóptero. Em nome de São Michael Bay, o que acontece ali, caros amigos? Tiros, explosões, manobras impossíveis, mais tiros e explosões…. além de não acrescentar nada à história, tais cenas caem no esquecimento tão logo terminam. Nessas horas, fica difícil não ser saudosista e lembrar que foi nessa mesma série que vimos coisas conceituais como o exterminador confrontando-se com os policiais na porta da Cyberdyne sem matar ninguém devido a uma promessa.

O Exterminador do Futuro - Gênesis - Cena 4Reutilizando parte do roteiro do primeiro filme e apostando alto no poder das referências aos outros episódios da série, Gênesis inova mesmo só na mudança do plano de dominação da Skynet e no novo modelo de exterminador que é utilizado como vilão. O tal plano é bem legal e atualiza a crítica da franquia ao uso excessivo que fazemos da tecnologia, mas o novo exterminador é chatão. Também partidário de uma boa conversa, o sujeito e suas micro partículas, ainda que possua um visual bacana, não chega aos pés do letal T-1000 do Robert Patrick.

Temos, portanto, uma história que resgata muito daquilo que já vimos, excesso de piadas bobas, cenas de ação mal executadas, um vilão mequetrefe, um casal de protagonistas sem personalidade (comparar a Emilia Clarke com a Linda Hamilton chega a ser covardia), um herói quase senil, furos imperdoáveis de roteiro (que fim levou o personagem do J.K. Simmons?) e um final muito, MUITO ruim. Eu torci bastante por esse filme, acreditei de verdade que a volta do Arnold poderia devolver a qualidade da franquia que estava em queda livre desde o A Rebelião das Máquinas, mas infelizmente não foi isso que vi. Só não digo que Gênesis é o pior filme do ano porque dificilmente esse posto será retirado do O Destino de Júpiter, mas ele é seguramente o produto mais medíocre já feito até agora com o título da série e não há nada nele que me deixe esperançoso de que as próximas duas sequências já anunciadas possam ser diferentes.

O Exterminador do Futuro - Gênesis - Cena 3