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Ghost in the Shell – O Fantasma do Futuro (1995)

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A versão hollywoodiana do Ghost in the Shell, aquele clássico da animação japonesa de 1995, está disponível nos cinemas desde a semana passada, porém antes de ir assisti-lo eu achei melhor conhecer e resenhar a obra original.

*Pausa para adivinhar o pensamento do leitor* Como assim cara? Você, que se diz um cinéfilo, até hoje não havia assistido esse filme OBRIGATÓRIO?

Pois é amigos, que vergonha, né? Acontece que, mesmo sabendo da aura cult que cerca o anime (que é considerado um trabalho seminal dentro do gênero cyberpunk), até hoje eu não havia encontrado uma oportunidade para vê-lo (ainda que eu tenha tido tempo para ver esta merda aqui). Fala-se muito mal dessa “onda de remakes” de Hollywood (na maioria das vezes com razão), mas algo que eu sempre achei válido na ideia de resgatar clássicos é que, mesmo que indiretamente, essas novas roupagens acabam despertando o interesse do público pela produção original. Descobri bons filmes desse jeito, e foi assim que eu finalmente criei vergonha na cara e coloquei o Ghost in the Shell pra rodar. Nos últimos dias, aliás, eu vi ele duas vezes.

Seria bem legal dizer que realizei uma segunda sessão porque gostei demais da primeira, mas a grande verdade é que, se eu não tivesse revisto, eu não teria a mínima condição de escrever essa resenha. Resumidamente, eu não entendi patavinas da história. As cenas de ação são brutais e a mistura de computação gráfica com animação tradicional dá um visual incrível e futurista para o cenário, mas a trama envolvendo temas como terrorismo, política e existencialismo não entrou na minha cabeça de jeito nenhum. Na boa? Não fiquei nenhum pouco triste ou preocupado com isso.

Dia desses, uma amiga fez um post no Facebook dizendo que sentiu-se “tonta” por ver Donnie Darko e não “entender nada”. Antigamente eu também me sentia assim, mas com o tempo eu fui percebendo que tem obras que simplesmente não foram concebidas para serem digeridas de uma só vez. É muita pretensão, por exemplo, querer assistir algo da magnitude de um Interestelar e entender de cara todos aqueles diálogos carregados de física quântica. Independente dos temas complicados que escolher trabalhar (viagem no tempo SEMPRE dá nó na cabeça), o filme precisa funcionar, mas isso não quer dizer que o roteiro precise entregar tudo mastigadinho para o espectador. A força de filmes como Donnie Darko, por exemplo, está justamente no fator replay, ou seja, tu assisti-lo novamente utilizando informações que você não tinha da primeira vez para preencher lacunas e chegar a um novo entendimento, tal qual um quebra cabeças que vai sendo montado aos poucos. Foi mais ou menos isso que eu fiz com Ghost in the Shell. Eis o que compreendi das duas sessões.

No ano de 2029, a tecnologia permite que a consciência humana seja extraída do corpo e implantada em ciborgues. As pessoas que realizam essas modificações não tornam-se imortais, visto que seu cérebro/banco de dados pode sofrer danos permanentes  e que, regularmente, os corpos cibernéticos precisam de manutenção, mas o processo confere superforça, supervelocidade, acesso a uma infinidade de informações via download instantâneo e resistência contra doenças. No futuro sombrio dominado por megacorporações imaginado pelo escritor Shirow Masamune, ser um ciborgue é estar preparado para lidar com ataques terroristas e com a violência das grandes cidades.

A Major Motoko é uma ciborgue que trabalha para o governo utilizando força bruta quando as coisas saem do controle ou tornam-se demasiadamente complexas para a polícia comum resolver. Exemplo: um diplomata de um país vizinho quer extraditar e dar abrigo para um importante programador. Pela lei, nada poderia impedi-lo de ajudar o sujeito, então Motoko é enviada até o local e mete uma bala bem no meio das fuças do diplomata, desaparecendo logo em seguida, tal qual um fantasma, sem deixar rastros. É difícil duvidar do profissionalismo da Major após vê-la executar com frieza uma ordem sanguinária dessas, mas o surgimento de um famoso hacker trará à tona sentimentos e dúvidas que a personagem havia ocultado sob as placas de metal de seu corpo.

Da primeira vez que assisti, boiei completamente na parte “política” da historia. Os diálogos rápidos do anime e as muitas referências à personagens governamentais fictícios me confundiram bastante. Enquanto eu ainda estava tentando entender a relação do ditador exilado no Japão e o hacker, que é conhecido como Mestre dos Fantoches, a Major estava lá descendo o cacete num maluco em um laguinho, filosofando sobre sua individualidade e, finalmente, lutando contra um poderosíssimo tanque no clímax da trama. Eu respirei e o filme, que é bem curto (1h23min) acabou. Não tive nenhuma dúvida relacionada a qualidade visual do trabalho do diretor Mamoru Oshii (20 anos depois, a animação ainda é muito bonita), mas reconheci que o roteiro havia me escapado e resolvi ver outra vez.

A real é que a trama política é o que menos importa em Ghost in the Shell. O controle governamental sobre o cidadão comum é ferrenho, a politicagem come solta em negociações internacionais escusas e há brigas de hierarquia dentro dos vários setores do governo. Tudo fichinha para quem lê jornal diariamente no Brasil. O que dá sentido para o roteiro são os questionamentos de Motoko sobre sua condição de ciborgue. Se você ainda não assistiu o anime e pretende fazê-lo, aconselho-o a focar nisso. Todas as certezas que a Major tinha sobre si mesma desmoronam quando ela percebe que o tal Mestre dos Fantoches é capaz de produzir memórias e introduzi-las nos cérebros alheios. Se nossas lembranças podem ser criadas e manipuladas, o que definirá nossa individualidade? O que nos fará diferentes das máquinas? Vale a pena ser apenas um vulto dentro de um corpo metálico poderoso, um fantasma numa concha?

Esses questionamentos desenvolvem-se em cima da subtrama política citada e num cenário distópico em que a tecnologia de ponta contrasta com a pobreza absoluta. Ghost in the Shell conta ainda com pelo menos 3 cenas de ação frenéticas, com a Major e seus aliados (Batou e Togusa) fazendo sangue jorrar pra valer e, muita, muita nudez. O trailer do remake mostra a Johansson com um corpo metálico estilizado bem diferente da Motoko peladona da animação que, por fora, não tem absolutamente nenhuma diferença de uma mulher comum. Que vacilo, Hollywood! Como é certo que tornarão o material mais palatável para o público dos blockbusters, exagerando na ação e simplificando o roteiro (parece que o Mestre dos Fantoches deixou de ser um programa para ser um personagem físico), torço para que A Vigilante do Amanhã seja ao menos um filme que também dê vontade de assistir mais de uma vez, visto que Ghost in the Shell eu repeti e não veria problema algum em partir para uma terceira sessão.

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Godzilla (1954)

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Godzilla 1954Posso até demorar, mas sempre cumpro as promessas que faço por aqui. Passaram-se quase 2 anos desde que assisti o ótimo Godzilla do diretor Gareth Edwards e, na oportunidade, eu disse que começaria a resenhar os filmes clássicos do personagem. No melhor estilo “antes tarde do que nunca”, eis aqui então o texto sobre o filme que deu origem a longeva carreira cinematográfica do Rei dos Monstros.

Ao meu ver, há pelo menos duas formas de comentar uma produção com essa. A primeira, que abordarei no começo do texto, é a visão respeitosa de um clássico absoluto do cinema japonês e mundial, um filme que, além de ter realizado experiências visuais consideradas incríveis e inovadoras para a época, foi o responsável por apresentar para o público um personagem icônico que sintetizou como poucos a paranoia nuclear do período pós-Segunda Guerra Mundial. A outra forma é o relato sincero de alguém que riu muito dos efeitos especiais datados do filme e do roteiro cheio de furos e diálogos ruins. Godzilla é um filme importante e obrigatório para os fãs de cinema, mas vê-lo atualmente exige paciência e bom humor por parte do espectador.

Lançado em 1954 graças aos esforços da equipe comandada pelo diretor Ishirô Honda, Godzilla tornou-se o filme japonês mais caro produzido até então. Utilizando maquetes para simular cidades bem como efeitos e técnicas variadas para emular combates aéreos, aquáticos e terrestres, Honda contou ainda com um ator vestido com um traje de borracha para tornar-se o responsável pela popularização do Tokusatsu, ou “filme de efeitos especiais”, gênero que ao longo dos anos consagrou personagens conhecidos do público brasileiro como Kamen Rider, Ultraman e Changeman.

Godzilla 1954 - CenaInspirado na história real do incidente envolvendo o Lucky Dragon, barco que aproximou-se de uma área de testes nucleares e contaminou todos os seus tripulantes, Honda começa Godzilla mostrando como uma embarcação de pescadores japoneses foi destruída em alto mar após deparar-se com uma fonte de luz misteriosa que emanava do fundo das águas. Como um segundo barco enviado para procurar por sobreviventes é igualmente destruído, o governo entra em estado de alerta e começa a investigar o caso, mas nada poderia prepará-los para a terrível ameaça que havia despertado no fundo do oceano: devido as recentes explosões nucleares, Godzilla, tradução ocidental para Gojira, união das palavras gorira (gorila) e kujira (baleia), abandona seu esconderijo subterrâneo e começa a atacar o Japão. Enquanto o governo apela inutilmente para o poder de fogo para tentar deter o monstro, o Professor Yamane (Takashi Shimura), sua filha Emiko (Momoko Kôchi) e o valente Hideto Ogata (Akira Takarada) procuram uma forma alternativa para lidarem com a ameaça sem sacrificarem a criatura.

O rugido, grito ou “barulho dos infernos que o Godzilla faz quando abre a boca”, um dos elementos mais conhecidos da série, é realmente de arrepiar. Tão logo os créditos inicias começam, Honda já estoura nossos ouvidos com o som ameaçador do monstro em uma espécie de prelúdio para toda a destruição que virá na sequência. Eu tenho uma gatinha de 10 meses em casa e foi bem engraçado observar a expressão de pânico que ela fez quando ouviu o barulho 😀

Godzilla 1954 - Cena 2Apesar de extremamente tosca (comentarei mais sobre isso daqui a pouco), também não posso deixar de comentar o impacto que senti quando vi o monstro pela primeira vez. Honda, tal qual todo diretor esperto de filmes de terror, vai mostrando sua criatura aos poucos: primeiro vemos o rastro de destruição deixado por ela, depois suas pegadas e em seguida nossa imaginação é atiçada com relances de partes de seu corpo. De repente, quando menos esperamos, eis que o Godzilla surge de trás de um morro em toda a sua monstruosidade e magnificência para destruir um vilarejo inteiro. O “efeito amedrontador” perdeu-se com o tempo, mas, além da cena ser muito bem executada (Honda posicionou a câmera de um jeito que faz com que a gente sinta-se minúsculo diante do monstro), o momento emociona pelo marco cinematográfico que é: lá está o hoje sexagenário Godzilla em sua primeiríssima aparição. Na mesma medida que pensei “nossa, que legal!”, porém, também dei risada do efeito especial e da feiura do personagem.

Godzilla 1954 - Cena 4Aqui, não trata-se de ser anacrônico. Gosto muito de filmes antigos e tenho carinho e respeito pela obra desses profissionais que desbravaram as fronteiras técnicas do cinema. Admiro o pioneirismo do trabalho do Ishirô Honda (para vocês terem uma ideia, o George Lucas costuma citar esse filme como influência direta para a criação dos efeitos especiais do Star Wars), mas o fato é que eu não consegui tratar Godzilla com seriedade, tanto pelo design do personagem, que na maior parte do tempo parece um lagartão debiloide, quanto pelos cenários absurdamente falsos. Logo após a primeira aparição do monstro, por exemplo, o diretor nos mostra um helicóptero de brinquedo destruído. Tão claro quanto 2 e 2 são 4, aquilo É UM HELICÓPTERO DE BRINQUEDO. Na sequência, porém, falam que o Godzilla destruiu um helicóptero DE VERDADE. Não consegui segurar a risada. As ideais de Honda são majoritariamente boas (a sequência de invasão da cidade, atualmente, poderia render uma cena de ação épica), mas as limitações técnicas da época exigem que a gente veja o filme através de um viés puramente trash para aproveitá-lo.

Godzilla 1954 - Cena 3Sobre o roteiro, nada envolvendo o tal “Destruidor de Oxigênio” faz sentido. Percebe-se que o diretor quis explorar o eterno dilema moral enfrentado pelos cientistas, que precisam ser responsáveis pela aplicabilidade daquilo que eles criam/descobrem, mas os diálogos são ruins, os personagens mudam de opinião rápido demais e a atuação da atriz Momoko Kôchi é pra lá de irritante.

Visto hoje, Godzilla é praticamente impossível de ser levado a sério, uma daquelas produções que, de tão ruins que são, a gente acaba amando e cultuando. Pausei o filme várias vezes para rir das expressões engraçadíssimas do monstro e achei extremamente cômico vê-lo andando na água, quase dançando, enquanto fugia dos “mísseis” (que são feitos com fogos de artifício) disparados pelos caças japoneses (que também são aviõezinhos de brinquedo). Diante desta experiência tão singular, só resta uma coisa para ser feita: assistir TODOS os filmes do personagem rs

Godzilla 1954 - Cena 5