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Kong: A Ilha da Caveira (2017)

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Por mais que eu goste do macaco brincalhão e quebrador de mandíbulas do Peter Jackson, não dá para negar que aquele King Kong de 2005 é duro de assistir. Ontem, para resgatar a história e fazer as devidas comparações com esse lançamento, coloquei o filme para rodar e lembrei do quão equivocada, por exemplo, foi a escalação do Jack Black no papel daquele cineasta inescrupuloso. Ver o ator, que tem uma carreira sólida em filmes de humor, esforçando-se para soar sério ao dizer “Não foram os aviões, foi a bela que matou a fera” é deprimente. Contribuem ainda para o desastre o início arrastado (Kong, o protagonista, demora mais de uma hora para aparecer em seu próprio filme), os efeitos especiais capengas (o macaco é perfeito, mas aquela correria entre as pernas dos dinossauros, por exemplo, é intragável) e o final acelerado e bobão. O que foi feito daquela mocinha chorosa após a queda do Kong? Nunca saberemos.

Kong escorregando no gelo e sacudindo a neve dos pelos tem lá o seu charme, mas a real é que, quando trata-se de um macaco gigante, a gente quer ver mesmo é o estrago que ele consegue provocar. Cientes disso, os produtores decidiram reencenar a história original do personagem mostrando-o não como um macaco que ri de truques bobos com pedrinhas, mas sim como um ser ancestral gigantesco e poderoso que habita a Ilha da Caveira, território inexplorado e extremamente hostil do Pacífico Sul. Eu gostei demais.

Ambientado na década de 70, o filme do diretor Jordan Vogt-Roberts começa com o pesquisador Bill Randa (John Goodman) tentando convencer um senador americano a investir em uma arriscada missão de mapeamento de uma ilha recém descoberta no extremo oriente. O político não fica lá muito empolgado com a ideia, mas a possibilidade de realizar tal feito antes dos russos (lembrem-se da Guerra Fria) e a disponibilidade de soldados americanos na região (os EUA estavam retirando seus homens da Guerra do Vietnã) pesam a favor de Randa e a missão é autorizada. Junto com o pesquisador, partem para a chamada Ilha da Caveira uma fotógrafa (Brie Larson), um guia (Tom Hiddleston) e um grupo de soldados comandados pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson).

Tão logo chegam no local (após um dos voos de helicóptero mais irresponsáveis de todos os tempos rs), a equipe de Randa começa a disparar bombas no solo com a intenção de provocar abalos sísmicos e gerar as leituras necessárias para a pesquisa. No ar, paira uma desconfiança sobre os verdadeiros objetivos da missão. No ar, propaga-se o som da hoje clássica Paranoid do Black Sabbath, que algum soldado de bom gosto coloca para rodar numa caixa de som. No ar, avista-se uma árvore que foi arremessada violentamente de um ponto desconhecido contra um dos helicópteros. Segue-se um verdadeiro massacre das forças do Coronel Packard que, conforme bem observado por um dos poucos sobreviventes, não tinham precedente tático para enfrentar o ataque enfurecido de um macaco gigante.

Kong: A Ilha da Caveira não te faz esperar mais de uma hora para ver a sombra do macaco agarrar uma mocinha e correr com ela para dentro da selva. Ambientação feita e personagens apresentados, o diretor faz questão de deixar claro logo no início que estamos vendo um filme de monstro gigante (e não uma bizarra e trágica história de amor) e nos dá uma cena de ação violenta e empolgante, tal qual deve ser. Cerca de 4 vezes maior do que seu antecessor (31 metros contra 7 metros do Peter Jackson), Kong, que felizmente continua sem pinto e sem cu (deve ser embutido), dizima sem dificuldades os invasores da ilha, local onde ele reina, protege e é venerado pelos nativos como um deus. Coronel Packard, que não havia ficado muito satisfeito com o fim da Guerra do Vietnã, decide então reunir o que sobrou dos seus homens e equipamentos e enfrentar o monstro.

O que vemos aqui, porém, não é apenas um duelo entre homem e besta. Packard acaba recebendo sua oportunidade de ficar frente a frente com Kong, olhar no fundo dos olhos da criatura e utilizar todo o seu pesado arsenal contra ela, mas este é apenas um dos arcos da história, e não é o melhor deles. Repetindo, Kong é um filme de monstro gigante, o que quer dizer que o pacote não estaria completo sem uma boa dose de exageros. Há todo o tipo de aberrações na Ilha da Caveira, desde bisões e aranhas colossais até polvos demoníacos e, claro, os temíveis Escaladores de Esqueleto, figuras grotescas que escondem-se nas profundezas da terra aguardando o momento certo de destronar o macacão de seu posto de macho alfa do lugar. Eventualmente, os personagens humanos também envolvem-se em conflitos com essas monstruosidades (e utilizam espadas japonesas para cortá-las em slow motion no melhor estilo HELL YEAH!), mas são os confrontos devastadores e teatrais entre Kong e essas criaturas que rendem as melhores cenas do filme. O pega pra capar entre o macaco e o Escalador de Esqueleto do final é o tipo de cena que faz a gente pensar “poxa, que legal eu estar aqui, sentado, vendo esta bagaça”.

Quando não está quebrando e explodindo coisas, o diretor fala de forma simples mas correta de ecossistemas (os predadores mauzões também tem o seu papel e importância no equilíbrio das coisas) e nos faz rir. John C. Reilly, que interpreta um piloto que caiu na ilha e lá permaneceu desde a 2° Guerra Mundial, traz o melhor do humor involuntário e há uma piada sobre uma carta que um dos soldados escreveu para seu filho (o querido Billy) que é repetida várias vezes e vai tornando-se mais e mais engraçada a cada repetição. O esmero do roteiro também pode ser percebido nas citações a outros filmes e obras. Marlow e Conrad, nomes dos personagens do Reilly e do Hiddleston, certamente são referências ao escritor Joseph Conrad e seu livro O Coração das Trevas, obra que também inspirou o Apocalipse Now. A belíssima fotografia de A Ilha da Caveira, aliás, em muitos momentos lembra o trabalho monumental do Coppola naquele que ainda é um dos melhores filmes de guerra já feitos (olhem os helicópteros, o sol e o tom laranja na imagem abaixo).

Kong: A Ilha da Caveira é a segunda etapa de um projeto que, em 2020, fará o mundo tremer ao colocar King Kong e Godzilla para trocar uns sopapos no cinema. Antes disso, porém, o Rei dos Monstros japonês ainda retornará mais uma vez às telas para aumentar nossas expectativas com o embate e, conforme pode ser visto na cena pós-crédito, para trazer alguns velhos e famosos inimigos. Quebra tudo, bicharada!

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Nascido Para Matar (1987)

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Apesar de ter solicitado formalmente, não consegui ingressar no serviço militar. Apresentei-me na data marcada e fiz todos os exames necessários, mas acredito que, na época, minha aprovação no processo seletivo da faculdade somada a configuração “chassi de grilo” 1,78m x 58kg foram determinantes para a minha dispensa. Depois disso, tive oportunidades suficientes tanto para lamentar o ocorrido quanto para comemorar. Lamento pela oportunidade perdida de ingressar em uma carreira que garante uma certa estabilidade financeira e prestígio social. Comemoro porque, definitivamente, não me enquadro dentro dos padrões de rigidez moral exigidos pela corporação. Admiro a disciplina e o respeito à hierarquia na mesma medida que repudio a alienação que muitas vezes dita essas relações. Não consigo ver sentido, por exemplo, em um ambiente que te pune/exclui/discrimina devido ao uso de barba, brinco e tatuagem. A padronização que visa garantir disciplina e a organização acaba inibindo a individualidade do corpo militar e, em muitos casos, isso torna-se prejudicial não apenas pelo empobrecimento intelectual fruto dessas limitações mas, principalmente, pelo represamento de frustrações e emoções que, em casos extremos (como em situações de guerra), transformam pessoas potencialmente problemáticas em verdadeiras “bombas relógio”. Esse é o caso do Soldado Pyle.

Assim como outros grandes diretores de sua geração, Stanley Kubrick dedicou uma de suas obras para analisar a Guerra do Vietnã e seus desdobramentos morais e psicológicos sobre a vida dos envolvidos. Nascido Para Matar acompanha um grupo de soldados desde o treinamento até o momento onde eles lutam nos campos de batalha. Hilário (Matthew Modine), Animal (Adam Baldwin), Pyle (Vicent D’Onofrio), Cowboy (Arlis Howard) e outros garotos são colocados sob o comando do Sargento Hartman (R. Lee Ermey), uma máquina viva de falar palavrões que trata de adiantar para o batalhão o inferno que eles enfrentariam em combate. Findado o treinamento, Hilário e cia recebem suas respectivas missões e partem para o sudeste asiático para o evento que mudaria suas vidas.

Sargento Hartman e o pelotão

Cronologicamente, Nascido Para Matar encontra-se entre o Iluminado e o De Olhos Bem Fechados dentro da obra do Stanley Kubrick. É o penúltimo trabalho do diretor e, ao contrário do filme estrelado pelo Tom Cruise, é unanimamente aclamado como um de seus melhores trabalhos, ostentando uma respeitosa posição #82 no IMDB. Como dificilmente eu consegueria fazer uma análise técnica competente ou que trouxesse algo de novo sobre um trabalho dessa magnitude, vou contentar-me em relatar o que eu verdadeiramente senti assistindo o filme.

A famosa cena de abertura do filme, cena onde o Sgt. Hartman xinga freneticamente seu pelotão, é aquele tipo de trabalho que merece ser classificado como “genial”. Não estou falando apenas das memoráveis improvisações do R. Lee Ermey que redefiniram as formas de humilhar uma pessoa, mas sim de todo o sentimento que é trabalhado ali. Enquanto Hartman caminha pela sala proferindo suas maldições, reina o silêncio e o medo no local. Salvas as devidas proporções, lembrei exatamente do que eu senti no dia em que fui “jurar a bandeira” e os oficiais nos deixaram “em forma” esperando durante quase 2 horas sob um sol quentíssimo. “Qual a razão disso, qual a lógica em ficar aqui esperando esse tempo todo?” era a pergunta que não saía da minha cabeça. A minha vontade, assim como a de todo mundo ali (pelo menos é o que dava a entender) era de fazer algo que demonstrasse a insatisfação com a forma como estavamos sendo tratados, mas a consciência do poder da instituição manteve minha boca fechada. No filme, em um lampejo de loucura/inconsequência, o soldado Hilário faz o que eu e todos os soldados do filme desejariam ter feito: ele ZOMBA do Sargento e, surpreendentemente, ele consegue, junto com todos os tapas que recebe, algum respeito. Pode até ser o tipo de coisa que provavelmente não teria o mesmo tipo de desfecho no mundo real (rs), mas o exercício imaginativo é mais do que válido.

Soldado Pyle

Do outro lado, temos o Soldado Pyle. Fora de forma, atrapalhado e sem um pingo de bom senso, Pyle segue sendo humilhado por Hartman até o dia próximo da formação da turma. É então que, repetindo uma tradição do diretor de conduzir algum acontecimento importante dentro de um banheiro (basta lembrar da cena do machado no O Iluminado e, bem, da Nicole Kidman mijando urinando no De Olhos Bem Fechados rs), soldado e Sargento acertam as contas em uma cena kubrickiana: violenta, polêmica e tecnicamente inspirada.

Quando o filme passa para a guerra em si, ele mantêm a qualidade esperada do diretor mas passa a seguir um caminho tradicional dentro dos filmes do gênero, como Platoon e Apocalypse Now!, mostrando o soldado Hilário confrotando os horrores do conflito e, com isso, mudando significativamente sua forma de ver o mundo. O pragmatismo que o personagem apresenta durante o filme e o seu humor são abalados após a cena da sniper (outro grande momento) e vemos nos olhos trêmulos do ator que algo mudou em sua alma.

Ao meu ver, Nascido Para Matar não é o melhor filme já feito sobre o Vietnã, mas definitivamente é um dos trabalhos mais significativos já feitos sobre  as deficiências do meio militar e o é porque, através de toda a teatralidade zombadora e destrutiva, provoca reflexões que são fundamentais para a humanização desse ambiente.

Soldado Hilário – Ele pode até não ter “nascido para matar”, mas ele tem mais coragem do que eu e você juntos

Nascido em 4 de Julho (1989)

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“Estes milhões de homens praticaram, em relação uns aos outros, tão grande número de abominações, de fraudes, de traições, de roubos, de falsificações de moedas, de pilhagens, de incêndios e de morticídios como não há exemplos nos arquivos dos tribunais do mundo inteiro, funcionando há séculos, e sem que, no entanto, durante todo esse período, aqueles que cometeram tais crimes fossem considerados, realmente, criminosos.”

O texto acima, trecho retirado do Guerra e Paz do Tolstói, descreve atos praticados durante as guerras napoleônicas mas não está longe de representar um retrato fiel de conflitos mais recentes como a Guerra do Vietnã. Visto anos depois, ainda mais em um contexto onde “Guerra Fria” já não é nada mais do que um termo, o conflito parece simples de ser compreendido, é fácil ver os EUA envolvendo-se na bandeira da liberdade para justificar sua disputa ideológica contra a ex-URSS. Como explica Tostói no mesmo livro, esse pragmatismo não apenas não dá conta de fornecer explicação satisfatória para compreender aquele período quanto, em sua amplitude, desconsidera as milhares de vozes, sentimentos e vontades conflitantes que envolvem qualquer acontecimento histórico. Como justificar, por exemplo, o alistamento voluntário no exército em época de guerra usando apenas o patriotismo como motivo? O que de fato leva um jovem a querer sair do conforto de sua rotina para ir ao outro lado do mundo matar seus semelhantes?

Ron Kovic (Tom Cruise) é aquilo que podemos chamar de adolescente americano “padrão”. Branco, praticante de esportes, filho de uma família religiosa e patriota, Kovic alista-se para a Guerra do Vietnã para “combater o comunismo”, para “defender os interesses dos EUA”, para fazer sua parte e ajudar o país assim como a geração de seu pai o fez na Segunda Guerra Mundial. Por trás do discurso do governo que Kovic engoliu e vomita para quem queira escutar, está um jovem frustrado pelas poucas oportunidades que o futuro parece lhe oferecer, um atleta derrotado, um aluno medíocre e um adolescente cujo interesse amoroso escolheu outro para ir ao baile de formatura. Em sua aventra quixotesca pelo sul da Ásia, Kovic conhece os terrores da guerra e retorna para casa paraplégico. Aos poucos, ele percebe o quanto o seu amor à pátria é pouco ou nada correspondido.

Oliver Stone e Ron Kovic

  Nascido em 4 de Julho é uma extensão natural de Platoon, ambos dirigidos pelo polêmico Oliver Stone. Se Stone, que lutou na Guerra do Vietnã, mostra em Platoon o quanto o terror e o medo, não a ideologia, preencheram os campos de batalha vietnamitas, nesse filme, que é baseado na biografia do veterano Ron Kovic, ele nos conduz através do desmoronamento dessa ideologia naqueles que lutaram para defendê-la (ou que pelo menos acreditavam que o faziam). Kovic, que desde pequeno acompanhava os pais nas celebrações do dia da independência americana (04/07), considera uma honra poder lutar pelo seu país. “Não pergunte o que o seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pelo seu país”, “ame-o ou deixe-o” fazem sentido para ele até o momento onde ele descobre que, fora títulos e medalhas com os quais ninguém importa-se, ele sacrificou seu futuro em nome de uma causa sobre a qual ele pouco ou nada conhecia de fato.

Stone conduz a história mostrando a transformação do patriotismo de Kovic em ativismo antiguerra. Dois fatores são fundamentais para o sucesso da empreitada. Primeiro, o conhecimento de causa. A opinião do diretor e de Kovic, com quem Stone divide o crédito pelo roteiro, pode até ser apenas mais uma entre tantas outras possíveis para o que se passou no Vietnã, mas é uma opinião que transborda as expectativas, medos e dúvidas de alguém que esteve lá. Sempre que o diretor mostra um imagem forte ou um personagem indeciso no campo de batalha, eu pensava “será que foi assim que ele viu/sentiu aquele momento?”. Isso é e sempre será válido.

O outro ponto é o Tom Cruise. Nunca vi o ator como apenas mais um rostinho bonito de Hollywood e filmes como Magnólia, Entrevista com o Vampiro e Vanilla Sky comprovam isso. Quando a história começou, no entanto, tive a impressão que tudo encaminhava-se para uma reprise do que o Brando fez no Espíritos Indômitos visto a proximidade do tema. Cruise não apenas dá personalidade ao personagem quanto estabelece uma relação de amor e ódio com o espectador como só os grandes atores conseguem. Ele consegue transitar facilmente entre o “bom mocinho” do filho perfeito que está saindo de casa para defender o país e a escória humana, moral e intelectualmente falando (sim, estou aplicando juízo de valor) em que ele transforma-se  apóa a guerra.

As cenas da confissão de um crime de guerra por ele cometido e a discussão familiar envolvendo palavrões a blasfêmias após uma bebedeira em um bar valem o filme. Destaco ainda a bela briga de cadeiras de roda com o personagem do Willem Dafoe, que tem uma aparição breve mas marcante na história.

Nascido em 4 de Julho concorreu a 8 Oscars, levou 2 (incluido Melhor Diretor) e, assim como Platoon, é uma bela mensagem antiguerra, um filme que consegue conciliar um contexto político com uma história interessante, direção e atuações acima da média.

Na Mira da Morte (1968)

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O diretor Peter Bogdanovich conseguiu transformar em realidade o sonho de muitos cinéfilos: apaixonado por cinema, Bogdanovich aproximou-se de Hollywood escrevendo críticas de cinema e frequentando festas onde circulavam pessoas do meio. Tendo chamado a atenção do também diretor Roger Corman (Viagem ao Mundo da Alucinação), Bogdanovich recebeu a chance de dirigir seu primeiro filme quando Corman precisou de alguém para trabalhar em um projeto de baixo orçamento que envolve-se o ator Boris Karloff. Karloff, que nessa época já vivia o ostracismo de uma carreira estigmatizada por sua interpretação no Frankenstein, devia algumas horas de trabalho para Corman e então coube a Bogdanovich utilizá-lo em um filme que não ultrapassasse a quantia de $130.000,00, orçamento baixíssimo digno dos filmes B que fizeram a carreira de Corman. Desse projeto nasceu o excelente Na Mira da Morte.

Boris Karloff da vida a Byron Orlok, um ator decadente de filmes de terror (não, não é coincidência) que sente-se deslocado em um mundo onde as pessoas não sentem mais medo daquele terror clássico baseado principalmente em monstros e criaturas sobrenaturais. Disposto a se aposentar, Byron deve cumprir um último compromisso: comparecer em um drive in para a sessão de lançamento do último filme em que ele atuou, o qual, aliás, dentro da trama também foi dirigido por um diretor em início de carreira interpretado pelo próprio Bogdanovich. Enquanto isso, um cidadão aparentemente comum (Tim O’Kelly, que é a cara do Matt Damon) surta e, armado com um arsenal composto por rifles e espingardas, começa a matar pessoas aleatoriamente, começando por sua própria família.

Se o também estreante Dennis Hopper captou o clima de incerteza política e agitação social da década de 60 com o clássico Sem Destino, Bogdanovich fez de Na Mira da Morte um registro da mudança do medo no imaginário social dessa mesma década. Baseando-se na história do assassino Charles Whitman, que em 1966 matou 14 pessoas e feriu outras 32 em um tiroteio dentro de uma universidade americana, Bogdanovich aproveita ainda o eco dos assassinatos de John F. Kennedy (1963) e Martin Luther King (1968) para contar uma história de terror onde o medo desloca-se do eixo sobrenatural para as maldades cometidas pelo próprio homem, para o risco que representava o retorno de soldados traumatizados pela Guerra do Vietnã para a sociedade.

O fato do diretor ser estreante só pode ser percebido devido as influências e homenagens a outros diretores presentes ao longo do filme, algo deveras típico no trabalho de alguém que possui um vasto conhecimento e estava só esperando a oportunidade para usá-lo. O roteiro maduro (escrito com Polly Platt, com quem o diretor era casado na época) e a direção de Bogdanovich utilizaram o orçamento limitado da melhor forma possível e, além de produzir cenas memoráveis como aquela onde o atirador mata pessoas na auto-estrada do alto de um tanque de gasolina, arrancou uma atuação autobiográfica maravilhosa do Boris Karloff.

Na Mira da Morte, é um filme para ser celebrado. Além de ser uma obra emblemática de sua época, marca a estréia de um diretor que faria os ótimos A Última Sessão de Cinema e Lua de Papel e pode ser considerado como o último suspiro da carreira do lendário Boris Karloff.

Matt D… quer dizer, Tim O’Kelly