Arquivo da tag: França

A Bela e a Fera (2017)

Padrão

Apesar dos avisos do pastor Silas Malafaia, optei por correr o risco de “virar gay” e fui conferir esta nova versão do conto de fadas francês A Bela e a Fera. No vídeo que pode ser visto clicando no link acima, Malafaia acusa a Disney de “comprar a agenda gay” e de ensinar sexualidade para o público, especialmente para as crianças. Segundo o pastor, a decisão do estúdio de incluir no filme um personagem abertamente homossexual (LeFou, interpretado pelo Josh Gad) é uma tentativa “asquerosa e nojenta” de erotizar a molecada.

Malafaia gravou o tal vídeo no dia 02/03 e, segundo o IMDB, A Bela e a Fera (e o LeFou) só estreou no Brasil no dia 16/03, ou seja, é bem provável que ele emitiu aquela opinião ANTES de ver o filme. É claro que o pastor pode ter tido acesso ao material em uma pré-estreia exclusiva, mas o que me parece é que, ciente das informações que foram divulgadas sobre o personagem antes do lançamento, Malafaia adiantou-se e convidou seus seguidores a boicotarem o produto da Disney.

Faço essas considerações pois, por mais que eu preze pelo respeito às crenças alheias, não consegui encontrar em A Bela e a Fera o conteúdo preocupante apontado pelo Malafaia. É fato que o LeFou está mais purpurinado do que seu correspondente da animação de 1991, mas daí a dizer que o filme propõe-se a erotizar crianças e ensinar-lhes sexualidade é um absurdo, o tipo de erro grotesco que geralmente é cometido por quem fala de algo que não sabe (ou não viu). Tal qual fazia anteriormente, o personagem continua beijando o chão que o Gaston (Luke Evans) pisa e cantando sua canção que enaltece as “qualidades” do valentão. Os trejeitos dele não deixam dúvidas que, se pudesse, ele beberia daquela água, mas é só. Sem beijos, sem carícias, sem nada que os pais de uma família tradicional precisem tampar os olhos dos filhos por medo deles saírem do cinema arrotando arco-íris. É, portanto, no mínimo quixotesca a preocupação do pastor com o LeFou. O fato de haver revolta contra a homossexualidade do personagem e silêncio contra o machismo e a truculência de Gaston, que continua querendo obrigar Bela (Emma Watson) a casar-se com ele para massagear-lhe os pés, diz muito a respeito das prioridades e do caráter do Malafaia.

Eu, que continuo gostando de mulheres a despeito dos esforços do simpático LeFou, também sigo apreciando musicais e acredito que dificilmente veremos algo tão bom do gênero nos cinemas esse ano quanto esse A Bela e a Fera. Conta-se que, inicialmente, a intenção da Disney era refilmar a história como um longa metragem comum, sem as músicas, ao que o diretor Bill Condon (dos dançantes Dreamgirls e Chicago) respondeu “Vocês são loucos? Pretendem fazer uma adaptação enorme e bonitona e deixar ‘Be Our Guest’ de lado?”. Que bom que deram ouvidos ao diretor: a tecnologia atual e a grandiosidade dos figurinos e dos cenários, por si só, já tornariam esta versão válida e interessante, mas é na parte musical que a história continua tocando nossos corações.

Nesse conto tão velho quanto o próprio tempo (na verdade, ele foi escrito em 1740 pela francesa Gabrielle-Suzanne Babot), Bela é uma garota entediada pela vida provinciana que a cerca. Num mundo organizado para que as maiores ambições de uma mulher sejam encontrar um marido e cuidar da casa, Bela é uma inventora apaixonada por livros que espanta todos tanto por seu jeito independente quanto por resistir aos avanços do bonitão Gaston, o solteirão mais cobiçado do vilarejo. Certo dia, Maurice (Kevin Kline), o pai de Bela, é capturado por uma fera monstruosa (Dan Stevens) e preso nas masmorras de um castelo. O crime dele? Colher uma rosa do jardim da propriedade para levar para a filha. Procurando reparar a injustiça, Bela oferece para trocar de lugar na prisão com o pai, proposta que é aceita pela Fera com a condição de que a moça nunca mais abandone o local.

Quem viu a animação sabe que a Bela e a Fera irão se apaixonar (ele pelo caráter dela, ela pela intelectualidade e coragem dele) e que isso quebrará o feitiço que havia transformado o príncipe egoísta numa criatura monstruosa. Gaston, obviamente, não ficará nada feliz em ser preterido por uma bola de pelos gigante e incitará a população do vilarejo a atacar o castelo, o que provocará uma batalha épica e divertida onde relógios (Ian McKellen), candelabros (Ewan McGregor) e bules de chá (Emma Thompson) colocarão todo mundo para correr. Condon respeitou a estrutura principal da história, mas retirou os excessos (a invenção maluca de Maurice, o velho calhorda do hospício), adicionou subtramas (a mãe e a infância de Bela) e 3 novas canções (How Does a Moment Last Forever, Days in the Sun e Evermore). Essas alterações, longe de comprometerem passagens e memórias caras aos fãs, tornaram a história mais coesa, principalmente no tocante à luz que é jogada no passado trágico da protagonista.

Ainda que conserve elementos de magia e diversão comumente associados à infância, de modo geral este A Bela e Fera está um pouco mais adulto e sombrio do que seu antecessor, tanto pela forma mais incisiva de abordar temas como o machismo (Emma Watson não economizou desprezo no olhar ao encarar o tosco Gaston) quanto pelo visual: se o Fera da animação era uma espécie de cachorrão que dava vontade de fazer um cafuné, esta nova versão, com chifres de bode e tudo mais, parece o próprio filho do cramunhão. Todo caso, cumpriu-se bem a tarefa de atualizar a história atemporal do poder da beleza interior para esta geração: as reencenações da psicodélica Be Our Guest e da apaixonante Beauty and the Beast utilizaram o que há de melhor em computação gráfica para criar um espetáculo soberbo em 3D e, no fim, o prepotente e arrogante Gaston voltou a receber o que ele merece, tal qual deve ser. Acreditem, não há o que boicotar aqui: a Disney acertou em transformar um de seus maiores clássicos em um magnífico live action e continua de parabéns por, mais do que desenvolver produtos para entreter crianças, preocupar-se em levar exemplos de diversidade e respeito às diferenças para as telas de cinema. Quero mais Mickey e menos Malafaia.

Divines (2016)

Padrão

divinesA cerimônia do Globo de Ouro 2017 foi realizada no último domingo, dia 08/01. Eis alguns comentários sobre o que vi (e alguns sobre o que li no dia seguinte):

  • La La Land: Cantando Estações levou tudo. Indicado em 7 categorias, o musical terminou a noite com 7 estatuetas e transformou-se no favorito para vencer o Oscar de Melhor Filme deste ano. Moonlight: Sob a Luz do Luar (e dá-lhe subtítulo tosco!) levou o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e correrá por fora (apesar que, considerando o que houve em 2016, sempre pode surgir um azarão).
  • O Rubens Ewald Filho continua insuportável. Fora os comentários rasos sobre os concorrentes (quando perguntado sobre o Ryan Gosling, ele disse que é um ator ‘interessante’), o crítico foi grosseiro ao menosprezar a vitória do Casey Affleck, classificando-a como “uma grande bobagem”. Pessoalmente, eu também preferia o Denzel, mas daí a dizer que o Casey é um ator ruim é MUITA babaquice.
  • Que bom que a Isabelle Huppert venceu na categoria Melhor Atriz – Drama. A performance visceral dela não merecia ser eclipsada pelo fato do Elle ter sido feito fora de Hollywood.
  • A Meryl Streep foi homenageada com o prêmio Cecil B. DeMille pelo conjunto da obra e, no discurso de agradecimento, fez duras críticas ao comportamento do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, bem como às suas promessas de políticas anti-imigracionistas. No outro dia, as redes sociais estavam cheias de mensagens de apoio à atriz, mas também houve quem acusasse-a (como o próprio Trump fez) de mentir por não aceitar a derrota dos democratas na última eleição. Do ocorrido, extrai-se que, mesmo que aos trancos e barrancos, a liberdade de expressão ainda respira (ela pode acusá-lo, sem provas, de zombar da deficiência de um repórter; ele pode dizer que ela, vencedora de 3 Oscars, é uma atriz superestimada). Também conclui-se que a internet transformou-se no grande tribunal do século XXI. Eu, que também sou juiz, achei que o apelo da atriz por tolerância, respeito e paz perdeu-se um pouco na insistência sobre o caso do deficiente e na comparação infeliz entre cinema e MMA. Esses “deslizes”, porém, não invalidam o resto da mensagem, ou alguém discorda que “violência gera violência e desrespeito gera desrespeito”? As vezes, é bom analisar mais os discursos e menos os oradores.

Divines (que provavelmente sairá por aqui como Divinas – Duas Garotas da Pesada), produção original da Netflix da diretora Houda Benyamina, concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Assisti-o sem muitas expectativas (ele não entrou na lista final de produções indicadas ao Oscar e, no Globo, os favoritos eram o Elle, que ganhou, e o The Salesman) e encontrei um filmão, daqueles que tu termina e tem vontade de sair comentando e indicando para todo mundo.

divines-cena-2Dounia (Oulaya Amamra) é uma adolescente lutando para sobreviver na periferia de Paris. Filha de uma prostituta alcoólatra (!!!), Dounia pratica pequenos roubos nos supermercados locais para adquirir produtos que, posteriormente, ela e Maimouna (Déborah Lukumuena), sua amiga, venderão na escola durante os intervalos. Foi após ver uma cena ambientada nessa escola, aliás, que eu perdi o meu chão.

No que parece ser uma aula profissionalizante, uma professora tenta ensinar as atribuições de uma secretária para as alunas. “Boas secretárias”, ela diz, “sorriem, sentam com a coluna ereta e estão sempre preparadas para resolverem conflitos”. Dounia, que é literal e metaforicamente uma filha da puta, atrapalha a aula de todas as formas possíveis. Com a paciência no fim, a professora pergunta se Dounia não pensa no futuro, se ela não quer ganhar dinheiro. A resposta da menina é fulminante: “Ser secretária pra quê? Para ter a mesma vida miserável que você? Quanto você ganha? O suficiente para pagar o aluguel, água, energia, telefone e comprar essas roupas feias que você usa? Eu quero MONEY, MONEY, MONEY!”. A sala inteira ri. Irritada, a professora expulsa Dounia da sala.

divines-cena-5O incômodo com o que vi não deixa de ser uma reação natural de empatia. Eu também sou professor e, infelizmente, já vivi situações semelhantes, logo é fácil imaginar a frustração que aquela mulher passou. O vazio que senti, no entanto, vai um pouco além da empatia. Em um primeiro momento, eu até fiquei com raiva de Dounia. Vai ser grossa assim lá na puta que pariu! Na sequência, porém, eu não pude deixar de reconhecer que há uma verdade inconveniente no que ela diz. O planejamento de vida a longo prazo baseado na escola (estudar, aprender uma profissão, batalhar por alguns trocados) deixou de ser uma opção para os jovens que crescem acostumados com a velocidade da internet. Eles não querem conselhos sobre coluna ereta e nem promessas de um futuro estável, eles querem dinheiro, sexo, roupas de marca, bebidas e carros, tudo aqui e agora. Nós, um dia, também desejamos o mesmo, mas daí crescemos, apanhamos um pouco da vida e percebemos que não existem muitos atalhos: se você quer algo, você tem que esforçar-se para consegui-lo. É ruim ver que, por melhor que sejam nossos argumentos, nós não conseguimos mudar a cabeça de alguns jovens. Infelizmente, eles também precisam se ferrar para aprender, e em Divines Dounia se ferra pra valer.

divines-cenaApós virar as costas para a escola e perceber que a mãe não lhe dará nenhum futuro, Dounia e Maimouna começam a trabalhar para Rebecca (Jisca Kalvanda), uma traficante local. No início, elas realizam tarefas simples, como vigiar o quarteirão para certificar-se que a policia não aparecerá no meio de uma venda de drogas, mas logo Rebecca decide usar a inteligência e a beleza de Dounia para faturar alto. Na cidade, há um figurão que guarda 100mil dólares em casa. Caberá a Dounia seduzi-lo e rouba-lo.

Divines tem o mesmo poder de assustar/conscientizar que, em seu tempo, filmes como Eu, Christiane F., Diário de um Adolescente e Réquiem para um Sonho tiveram. A diretora Houda Benyamina construiu uma narrativa do tipo “ascensão e queda” bastante didática e atual para mostrar para os jovens (ou até mesmo para os adultos que não amadureceram) que não há como escapar das consequências de atos ilícitos. As meninas divertem-se muito antes dos problemas acontecerem (há uma cena verdadeiramente divina, tanto pela execução quanto pela atuação das atrizes, em que elas fingem dirigir uma Ferrari ), mas, no fim, a conta chega. É um filme moralista? É, mas um pouco de moralismo não faz mal para quem maltrata professores e acredita que pode sair por aí roubando, vendendo drogas e ganhando Iphone de graça, não é mesmo?

divines-cena-4A diretora não desconsidera o ambiente ruim em que Dounia cresceu (família desestruturada, vizinhança violenta). Houda parece ser partidária da ideia de que as condições influenciam, mas não determinam o destino de alguém, e por isso gasta um tempo mostrando que, apesar de tudo, há caminhos (o amor, a arte, a amizade) fora do crime para que os jovens possam escapar das armadilhas de uma sociedade em que eles valem o que consomem. Como eu concordo com ela, levarei Divines para os meus alunos verem esse ano, não para ditar caminhos, mas para dar exemplos e mostrar que sempre haverá mais de uma opção.

divines-cena-3

Elle (2016)

Padrão

elleHá 8 longas na lista do Indiewire de possíveis indicados ao Globo de Ouro/Oscar de 2017 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Dentre eles, escolhi o francês Elle para assistir primeiro tanto por acreditar que ele tem chances reais de figurar entre os cinco títulos que serão selecionados para as premiações (ele concorreu a Palma de Ouro no Festival de Cannes) quanto porque o filme foi dirigido pelo Paul Verhoeven, um sujeito que fez deste mundo um lugar melhor quando colocou a Sharon Stone para cruzar as pernas naquela cena icônica do Instinto Selvagem.

O diretor holandês é um desses caras de quem tu pode esperar sempre algo desconcertante relacionado a temas polêmicos como violência e sexualidade. Pessoalmente, nunca esqueci os banhos de sangue que ele promoveu em longas distópicos de ficção científica como Tropas Estelares e o primeiro RoboCop e sempre fui perturbado pela atração quase doentia que emanava da perigosíssima Catherine Tramell e seu picador de gelo no Instinto Selvagem, filme que transformou muita criança em adolescente na década de 90.

Mesmo sabendo onde estava pisando, devo dizer que fiquei bastante chocado com o que vi em Elle. A história que o Verhoeven conta aqui, adaptação de um romance do escritor Philippe Dijan, ofende o espectador o tempo todo pela forma banal com que atos de violência são praticados e absorvidos pelos personagens e também pela ausência quase total de amor nas muitas cenas de sexo do filme.

elle-cena-3Logo de cara, a personagem principal, Michèle (Isabelle Huppert), é estuprada em casa por um homem mascarado. A cena, como não poderia deixar de ser, é revoltante e cruel: Michèle luta e grita, mas o esforço dela, que já é uma mulher velha, não é páreo para a brutalidade do estuprador, que além de tudo espanca-a com violentos socos e tapas no rosto. Depois de uma cena dessas, o “normal” seria que, na sequência, o filme trabalhasse o dia a dia de uma mulher traumatizada pelo ocorrido, certo?

No primeiro dos muitos reveses de Michèle em Elle, a personagem toma um banho, compra um spray de pimenta, manda trocar as fechaduras das portas de sua casa, realiza um teste de DST e pronto, segue a vida. Num primeiro momento, até pensei que o fato de ela não desmoronar psicologicamente devia-se há um estado de choque ou algo do tipo, mas a explicação para o pragmatismo da personagem frente à situação revela-se um pouco mais sombria. Quando era criança, Michèle viu o pai, um católico convicto, assassinar um bocado de gente na rua em que eles moravam. Ele foi preso e os anos passaram, mas este evento parece ter contribuído significativamente para transformá-la em uma adulta amoral e apática.

elle-cena-4Na sequência, Verhoeven nos apresenta cada uma das pessoas que compõe a bizarra rede de relações da personagem. Há a mãe (Judith Magre, uma senhora que pretende casar-se com um garoto de programa), o filho (Jonas Bloque, um adolescente bobão, ex-usuário de drogas, que envolveu-se com uma trambiqueira), o ex-marido (Charles Berling, um intelectual vaidoso), um casal de amigos (Anne Consigny e Chistian Berkel, sendo ela a melhor amiga e ele o amante) e um vizinho (Laurent Lafitte, um homem misterioso e charmoso). O cenário onde esta estranha história desenrola-se conta ainda com a equipe de funcionários de Michèle, que é dona de uma empresa que produz jogos de videogame.

A aparente indiferença de Michèle para com o estupro, diagnóstico que parece ganhar força após uma cena na qual ela revela o ocorrido para os amigos com a mesma tranquilidade de alguém que relata um passeio no parque, parece diminuir quando ela começa a receber mensagens provocativas e obscenas no celular. Inicia-se então uma espécie de jogo de gato e rato entre a personagem e o estuprador, com ela tentando descobrir a identidade de seu algoz ao mesmo tempo em que fantasia com a situação. O toque bizarro do Verhoeven dá-se quando, a medida que o filme passa, a gente vai ficando cada vez mais convencido de que Michèle não será a vítima da história.

elle-cenaO diretor não relativiza o ato do estupro. Isso seria absurdo. Michèle foi abusada e, mesmo que a reação dela seja branda, trata-se de um ato monstruoso. O ponto polêmico da história é que vemos que a personagem consegue ser tão ou mais malévola do que o homem que violentou-a na abertura do filme. Em Elle, Michèle pode ser vista fazendo coisas horríveis como torturar psicologicamente a mãe e o próprio filho, transar com o marido de sua melhor amiga, humilhar um de seus funcionários, pedindo que ele mostre-lhe o pênis caso não queira ser demitido, e seduzir o vizinho na frente de sua esposa durante um jantar. Seja por traumas do passado, seja pelo abuso sofrido no presente, Michèle tornou-se uma sociopata e é impressionante a virada de jogo que ela promove nas cenas finais pra cima do estuprador. Também é perturbador, visto que a gente fica com aquela sensação incômoda de que a vida é bem mais desgraçada do que gostaríamos de acreditar.

Além de possuir uma história bastante original, que ignora qualquer noção de moralidade e de politicamente correto para explorar aspectos de nossa personalidade que muitas vezes preferimos ignorar (é difícil, por exemplo, admitir fetiches que envolvem violência), Elle conta ainda com a atuação estupenda da atriz francesa Isabelle Huppert (eu não estranharia se ela recebesse uma indicação individual pelo papel) e com a condução precisa e corajosa do Verhoeven, que consegue deixar a gente tenso durante 2 horas antes de nos entregar um final que dificilmente vemos nas produções de Hollywood. De fato, mesmo sem conhecer os outros concorrentes, não é difícil perceber o porque do Indiewire dizer que o Elle tem tudo para consagrar-se em 2017 como Melhor Filme Estrangeiro.

elle-cena-2

Love (2015)

Padrão

LoveAno passado, um burburinho nas redes sociais disse que um filme “praticamente pornô” estrearia nos cinemas nacionais. Matérias, como esta que pode ser lida clicando aqui, diziam que a produção chamaria-se Transa 3D e, entre outras coisas, traria uma polêmica cena onde um pênis ejacularia em direção ao público. Cinematograficamente falando, o sexo pelo sexo não me interessa: há milhares de sites na internet onde é possível encontrar pornografia em suas mais variadas e bizarras formas (há vídeos com pôneis, caras!), de modo que eu não assistiria Love (felizmente, o título original foi mantido) apenas para ver alguns peitinhos. Uma informação da matéria citada, porém, me fez ficar imediatamente interessado na produção:

“Com cenas quentes, o vídeo contém vários flashes de vários momentos da trama, que é dirigida pelo francês (sic) Gaspar Noé.”

Deixando de lado o erro do colunista (o diretor é argentino, e não francês), encontrei nesse trecho tudo o que eu precisava saber sobre o filme para decidir assisti-lo. A obra do Gaspar Noé (Sozinho Contra Todos, Irreversível, Viagem Alucinante) é marcada por cenas polêmicas de incesto, estupro e abuso de drogas, temas repulsivos e desagradáveis aos olhos, mas ainda assim temas que precisam ser discutidos e que o diretor explora sem preocupar-se com as amarras do politicamente correto. Assim sendo, no que diz respeito ao sexo, desconfiei que o Noé faria mais do que simplesmente mostrar closes das genitálias dos atores e, tal qual o Lars von Trier fez no Ninfomaníaca, discutiria o assunto de forma adulta e sem evitar as polêmicas inerentes ao tema. Felizmente, é exatamente isso que acontece aqui, ou seja, Love não é indicado para quem tem o Cinquenta Tons de Cinza como referência de sexo e relacionamento.

Love - Cena 3A primeira cena do longa é o tipo de material capaz de fazer com que o público desavisado desista do filme. Deitados em uma cama, Murphy (Karl Glusman) e Electra (Aomi Muyock) masturbam apaixonadamente um ao outro. Ao contrário do que geralmente acontece, a câmera do diretor não está posicionada para que você tenha apenas uma visão parcial do ato: lá está o pênis ereto do Murphy e a vagina cabeluda da Electra (rs). Na sequência, toda a química e felicidade do casal cede espaço para uma cena que acontece em outro local e num outro momento. Murphy acorda drogado e melancólico ao lado de Omi (Klara Kristin). No quarto ao lado, o bebê deles chora. O diretor então nos faz ouvir os pensamentos de Murphy e tudo o que ele faz é amaldiçoar a si mesmo e a vida que ele está levando.

O Gaspar Noé declarou que, com Love, a intenção dele era contar uma história de amor do ponto de vista sexual. Casais se conhecem, apaixonam-se, casam e separam-se pelos motivos mais variados, e aqui ele queria contar uma história em que o sexo fosse fator preponderante para os sucessos e insucessos da relação. Devido a uma gravidez indesejada, Murphy precisou casar-se com Omi, mas ele nunca superou os dias intensos vividos ao lado de Electra. Quando o telefone toca e a mãe de sua ex-namorada pede ajuda para localizá-la, visto que ela está desaparecida, o rapaz não pensa duas vezes antes de abandonar a esposa e o filho para procurar aquela que fora seu verdadeiro amor.

Love - CenaNoé ignora a ordem cronológica dos acontecimentos para nos mostrar o casal em várias etapas de uma relação que deteriorou-se ao longo do tempo pelo mesmo motivo que fizeram-na dar certo no início: a liberdade. Murphy e Electra retiram tudo o que podem um do outro, depois partem para uma ménage à trois com Omi, veem o ciúme frustrar a tentativa de levar uma relação aberta, entregam-se a curiosidade de interagir com um travesti e, por fim, procuram casas de swing para experimentarem o voyeurismo e o desprendimento de ver o parceiro transar com outra pessoa. Electra interessa-se pelo lado sonhador e artístico de Murphy, Murphy interessa-se pela inteligência e pelo espírito livre de Electra, mas a relação deles é baseada principalmente no sexo, e é sexo que vemos na maior parte do tempo de Love.

Há muitas cenas de masturbação, sexo vaginal, oral e homossexualidade no filme, tudo real, tudo filmado de forma que tu possa ver coisas como penetração e gozo. Essas cenas são “gratuitas”? Não mesmo. Além do filme possuir um roteiro sólido sobre obsessão sexual, que é filmado por Noé utilizando as mais diversas técnicas cinematográficas, como quebra da linha temporal e a inserção de textos explicativos na tela (um, por exemplo, associando o nome de Murphy com a Lei de Murphy, é bastante elucidativo), cada uma das cenas de sexo de Love tem uma razão para estarem lá e servem para reforçar a relação de dependência dos personagens com o ato sexual. Se a gente vê Murphy e Electra transando seguidamente em corredores de boate em uma determinada parte do filme, por exemplo, acredito que o diretor não está simplesmente querendo que a gente veja putaria, mas sim que entendamos que, ali, os dois estão tentando reaproximar-se depois de um período turbulento. Não dá para contar uma história de amor do ponto de vista sexual sem sexo, certo?

Love - Cena 2É claro que o diretor, depois de trabalhos como Irreversível (que traz uma longa cena onde a atriz Monica Bellucci é estuprada) sabe que está trabalhando com um tabu e que ele usa isso a seu favor, tanto para chocar o público quanto para atrair atenção do mesmo para o filme, mas não acredito que a intenção dele seja simplesmente fazer barulho. O Noé coloca-se muito em seus trabalhos (no Viagem Alucinante, por exemplo, ele fala da vida pós-morte, tema pelo qual ele sempre diz ter interesse) e aqui, além do diretor aparecer como o personagem Noe, ele ainda dá seu outro nome (Gaspar) para o bebê de Murphy e Omi, indícios de que muitas das angústias vividas na trama por seus protagonistas lhe são caras e, provavelmente, baseados em suas próprias experiências.

Love não é só um filme “praticamente pornô”. Se retirássemos dele todas as cenas de sexo, ainda assim ele chamaria a atenção por trazer uma história de amor cheia de elementos reais facilmente reconhecidos pelo público, coisas como a empolgação do início do relacionamento, as brigas (aquela do táxi me deixou bem pra baixo =/), o abuso de bebidas e drogas para mascarar uma realidade insatisfatória e o vazio que dá quando perdemos alguém que amamos devido aos nossos próprios excessos. As cenas de sexo poderiam ter ficado de fora, mas, cá entre nós, melhor com elas, não é mesmo? rs

Love - Cena 4

Désirée, O Amor de Napoleão (1954)

Padrão

Désirée - O Amor de NapoleãoTenho dado aulas sobre Revolução Francesa e notado que sei pouco sobre o período napoleônico. Pela importância ideológica do levante popular que culminou na queda do Luís XVI, na faculdade estudamos bastante os anos anteriores a 1789 e seus desdobramentos imediatos, mas o fôlego utilizado na explicação do “liberdade, igualdade e fraternidade” não foi o mesmo para discutir a ascensão e queda do Napoleão Bonaparte. Ciente dessa falha, tenho procurado reforçar meu conhecimento com outras mídias. A leitura do monumental Guerra e Paz (que rendeu esse filme fraco), por exemplo, me ajudou bastante, visto que o Tolstói descreve com habilidade a derrota do exército francês em território russo. Continuando o processo, junto agora à minha bagagem esse Désirée, O Amor de Napoleão, adaptação do diretor Henry Koster para o romance da escritora Annemarie Selinko. Mesmo que valha-se de conteúdo ficcional para contar a história do romance de Napoleão (Marlon Brando) com Désirée (Jean Simmons), o filme é bastante ilustrativo sobre a personalidade e as ambições políticas e militares do imperador.

A trama começa em 1794, período marcado pela instabilidade política que marcou os anos pós-Revolução. Désirée, filha de um comerciante da cidade de Marselha, é apresentada ao jovem e ambicioso general francês Napoleão Bonaparte. O romance entre o casal esbarra em duas dificuldades. Em um primeiro momento, a família de Désirée é contrária a união devido à falta de posses de Napoleão. Posteriormente, visando sua carreira política, o general casa-se com a aristocrata Josefina de Beauharnais (Merle Oberon). O filme segue então com os encontros e desencontros entre o casal até o ano de 1815, quando Napoleão é derrotado na famosa Batalha de Waterloo e afasta-se definitivamente do poder.

Désirée - O Amor de Napoleão - Cena 4Ver Désirée agora foi importante do ponto de vista profissional, mas não foi esse o primeiro motivo que me levou até ele. Já tem um bom tempo que tenho tentado conhecer toda a filmografia do Marlon Brando (o último título que eu havia visto e resenhado por aqui foi o Julio César) e, devido a isso, eu acabaria assistindo-o de qualquer maneira, mas acabou sendo bastante proveitoso aliar as duas atividades nesse momento: sentei para ver o meu ator favorito atuando e, de quebra, enriqueci as minhas futuras aulas com algumas imagens e fatos que, salvas as devidas “licenças poéticas” adotadas pelo diretor e pela escritora, complementam satisfatoriamente o conteúdo do livro didático.

Antes de falar sobre o Brando, vou direto as ressalvas que faço enquanto historiador. Désirée traz uma relação pouco crível entre a personagem título e o imperador francês. Ainda que eu não conheça pormenores da vida amorosa do Napoleão (o pouco que sei desse assunto INTERESSANTÍSSIMO, li aqui e aqui), é difícil acreditar que Désirée, personagem histórica, tenha tido a mesma relevância do que a Désirée, personagem fictícia, mostrada no filme. Não falo dos encontros constantes entre os dois “amantes” ao longo dos anos nas mais variadas ocasiões (o que é completamente possível se considerarmos que Désirée foi cunhada de Napoleão), mas da participação política dela em momentos chaves da história, como na decisão de Napoleão de “entregar-se” após o período que ficou conhecido como “Governo dos Cem Dias”.

Désirée - O Amor de Napoleão - CenaEsses exercícios imaginativos servem ao propósito de enriquecer o viés dramático de eventos que conhecemos principalmente através da perspectiva política e bélica. Para contar a história de um homem que ficou conhecido por façanhas militares, o diretor Henry Koster não mostra nenhuma cena de batalha, optando apenas por sugerir os conflitos por meio de sequências de imagens que evocam as lutas, como quando Désirée sonha com a derrota de Napoleão na Rússia. O “grosso” do filme, por assim dizer, é composto por diálogos entre a personagem título, o imperador e Jean-Baptiste Bernadotte (Michael Rennie), general do exército francês que desposa Désirée após ela ser preterida por Bonaparte. Não é sempre que as frivolidades do mundo aristocrático soam prazerosas aos nossos ouvidos, mas aqui a interação entre o trio é fundamental para retratar a personalidade explosiva, ciumenta e dominadora de Napoleão.

Désirée - O Amor de Napoleão - Cena 2Descrito por Dostoiévski no livro Crime e Castigo como um homem que foi capaz de realizar feitos extraordinários devido a uma visão de mundo que nem sempre levava em conta os aspectos morais da sociedade, Napoleão é mostrado aqui como uma espécie de força transformadora que não poupou esforços para alcançar o poder e aplicar seus planos expansionistas e unificadores na Europa. Interpretado por um Marlon Brando furioso no auge da forma física e artística (ele receberia o Oscar de Melhor Ator no ano seguinte pelo Sindicato de Ladrões), o personagem exala a soberba e magnanimidade que são atribuídas ao seu correspondente histórico. Naquele que é sem nenhuma dúvida o melhor momento da trama, Napoleão toma a coroa das mãos do Papa Pio VII e coroa a si mesmo diante de uma plateia atônita, gesto de autoafirmação que o diretor valoriza em uma cena grandiosa e inesquecível.

Désirée investe pesado no romance, mas ele também atenta-se para as questões políticas da época, explicando parte das alianças que foram formadas por países europeus contra a França, e mostra satisfatoriamente a escalada de Napoleão rumo ao topo (general, cônsul, imperador). A seu favor, o filme conta ainda com o talento do Brando e com a cenografia irretocável (foi indicado ao Oscar nessa categoria), mas a impressão que tive é que o valor informativo da história é bem maior do que seu poder de entretenimento. De qualquer forma, aprendi mais um pouco e é isso que importa 🙂

Désirée - O Amor de Napoleão - Cena 3

Livide (2011)

Padrão

Livide“Frustração” define bem o que senti assistindo esse filme. Antes de dizer-lhes o porquê, permitam-me esmiuçar o contexto que contribuiu para a decepção. Meu último mês foi particularmente atarefado e isso fez com que eu deixasse o blog um pouco de lado. Com a cabeça cheia de preocupações e novas perspectivas profissionais, encontrei tempo e ânimo para ir ao cinema apenas assistir os últimos lançamentos, oportunidades que aproveitei para relaxar com títulos mas alegres e divertidos. Agora que as coisas acalmaram um pouco, senti-me a vontade para retomar as atividades por aqui. Assim sendo, olhei novamente em direção as profundezas do inferno conhecido como “Nova Geração de Filmes de Terror Franceses” e, dentre toda a podreira disponível, escolhi esse Livide.

A expectativa era grande pois, fora ser uma oportunidade de voltar a ver algo grotesco (a última vez que eu havia encarado o cramunhão foi em Julho), eu sabia que o longa era assinado pela dupla Alexandre Bustillo e Julien Maury, diretores do A Invasora, que é fácil uma das coisas mais doentias que eu vi na vida. Isso posto, reconheço que as expectativas atrapalharam um pouco, mas nem isso me impedirá de dizer o óbvio: Livide é muito ruim, uma reunião destrambelhada de elementos aleatórios de outras produções de terror que em nada lembra a brutalidade e o fôlego narrativo mostrado pelos diretores em seu trabalho anterior.

Livide - Cena 3Lucie (Chloé Coulloud) está no primeiro dia de serviço como ajudante de enfermeira. Junto de sua encarregada, a falastrona Catherine (Catherine Jacob), ela visita várias casas oferecendo cuidados e um pouco de conforto aos enfermos. Em uma dessas visitas, ela conhece a decrépita Jessel (Marie-Claude Pietragalla), uma velha inválida em cuja casa Catherine diz haver um tesouro escondido. Lucie conta ao namorado e a um amigo o que ouvira e eles decidem ir até o local ganhar uma grana fácil. Obviamente a história não terminará bem para o trio de adolescentes.

Livide começa investindo no batido (apesar de incrivelmente funcional) roteiro da casa mal assombrada. A mansão de Jessel é enorme, suja, escura e cheia de objetos bizarros, como cabeças de animas empalhados, que as câmeras dos diretores capturam insistentemente em closes escandalosos. O clima de suspense é aumentado pela ambientação noturna e pelo fato de existir na casa um quarto cuja porta só pode ser aberta com uma chave que está presa ao pescoço de Jessel. O que há atrás dessa porta? O tesouro? O próprio capiroto? Um macaco gritando yeah yeah? Esse segredo consome metade do tempo de projeção e é o que há de mais sólido em Livide: o cenário, apesar de previsível, está bem executado e nos deixa curiosos para o que virá em seguida.

Livide - Cena 5Há pouco o que dizer sobre os personagens e esse pouco não é lá muito animador. O tal “amigo” está no filme apenas para aumentar a contagem de corpos e possui poucos diálogos e nenhum desenvolvimento. O “namorado” é um idiota emocionalmente descontrolado que protagoniza uma cena vergonhosa e inexplicável: diante do corpo de uma menina morta, o cara dá um grito e um socão no rosto do cadáver, assim, sem mais nem menos. Isso não se faz. Já Lucie, que é a personagem principal, recebe mais de atenção dos diretores/roteiristas, mas mesmo assim o pouco que podemos dizer sobre ela refere-se a cor de seus olhos (ela tem heterocromia) e ao formato indecente e sensual de sua boca. Contrariando uma tendência dos filmes de terror, aliás, a atriz não aparecer nua e isso é deveras decepcionante. Todo caso, deixando as brincadeiras e taradices de lado, não há nada mais complexo por aqui do que adolescentes sendo punidos por suas curiosidades desenfreadas e atos de delinquência.

Livide - CenaO mistério envolvendo Jessel e a mansão é revelado na parte final da trama e não serve nem para chocar nem para surpreender o espectador. Através de flashbacks, os diretores mostram como a velha atingiu aquele estado deplorável e em seguida trazem à tona um plano diabólico clássico envolvendo ocultismo, vampirismo e todos esses outros “ismos” relacionados ao lado ruim da vida. Daquela brutalidade visceral vista no A Invasora, restou apenas uma cena em que um sujeito tem o pescoço cortado por umas bailarinas demoníacas que lembram MUITO os personagens do game Silent Hill. Os diretores, aliás, até fazem questão de mostrar o close de uma tesoura, referência ao icônico objeto visto em seu último trabalho, mas dessa vez optam por ofender o público mais com imagens perturbadoras de crianças e mariposas (argh!) do que com violência propriamente dita. Ao meu ver, eles falharam miseravelmente. O clima onírico do final é visualmente bonito, mas nem por isso ele deixa de ser um anticlímax imperdoável que não aproveita o tempo investido no início para criar a tensão relacionada ao segredo da casa.

Livide - Cena 2Livide não assusta, não perturba, não choca e não tira as roupas de sua protagonista. Há pouco sangue, poucas mortes e o único diálogo memorável é uma referência ao Halloween 3 (Silver Shamrock!), que também é um filme ruim. Fica a pergunta honesta: Bustillo e Maury erraram feio aqui ou apenas tiveram sorte no ótimo A Invasora? Considerando que eles estão escalados para dirigir o próximo filme do Leatherface, não posso deixar de ficar preocupado.

Livide - Cena 4

Monsieur Verdoux (1947)

Padrão

Monsieur VerdouxAtores marcados por seus trabalhos em comédias costumam dar-se muitíssimo bem quando aparecem em produções mais “sérias” de drama e suspense. Acostumados que estamos a associar seus rostos à cenas cômicas, olhamos com estranhamento e surpresa quando eles aparecem na tela depressivos ou cometendo algum crime bárbaro, sendo as interpretações do Steve Carell no recente Foxcatcher e o do Robin Williams no Insônia bons exemplos de como essa discrepância pode ser utilizada para a construção de personagens controversos.

Em 1947, 7 anos depois de lançar O Grande Ditador, Charles Chaplin, seguramente um dos maiores (senão o maior) humorista de Hollywood de todos os tempos, deu um passo arriscado em sua carreira e decidiu interpretar um assassino em série. Baseado em um roteiro escrito pelo lendário Orson Welles (Cidadão Kane) sobre a vida do francês Henri Désiré Landru, o criminoso que ficou conhecido como “Barba Azul”, Chaplin dirigiu e estrelou um filme de humor negro que explora a dualidade que cada um de nós carrega dentro si. O público da época foi impiedoso com essa mudança de ares do cineasta e lhe impôs um de seus piores resultados de bilheteria até então. Escolhi-o, sem saber desse contexto, apenas porque queria ver outro filme do ator (putz, passaram-se quase 3 anos desde que vi o Em Busca do Ouro!) mas, agora que tomei conhecimento dessa rejeição, não posso deixar de usar esse texto para argumentar contra ela.

Henry Verdoux (Chaplin), mais conhecido como Monsieur Verdoux, é um ex-funcionário de banco que perdeu seu emprego após a grande depressão que marcou o início dos anos 30. Sem dinheiro e com esposa e filho para sustentar, Verdoux passa a viajar em território francês em busca de mulheres, sobretudo viúvas e velhas solteironas, com o objetivo de relacionar-se com elas e, posteriormente, assassiná-las e roubar seus bens. Denunciado pela irmã de uma das vítimas, o personagem passa a ser seguido por um inspetor de polícia enquanto tenta aplicar um novo golpe em uma ricaça.

Monsieur Verdoux - CenaMonsieur Verdoux acaba sendo uma boa oportunidade para pensarmos sobre a tal “zona de conforto”. Em um nível mais superficial, há o fato do Chaplin estar fora de seu estilo interpretando um vilão em um filme de suspensse. Acredito que, sempre que o nome do ator é citado, a primeira imagem que vem na cabeça das pessoas é a do Vagabundo que ele vive em filmes como Luzes da Cidade. Em 1947, com o cinema mudo que o consagrou praticamente morto e enterrado, era de se esperar que o cineasta apostasse nesse estereótipo para conseguir manter-se na ativa. Surpreende, portanto, pensar que ele abriu mão de sua “fórmula de sucesso” para dedicar-se a um projeto diferente e arriscado que lhe permitisse mostrar outra faceta de seu talento. Monsieur Verdoux tem algumas cenas de humor que poderiam estar em qualquer um dos clássicos do ator, momentos divertidos como aquele em que ele tenta jogar uma de suas muitas esposas em um rio, mas a maior parte da trama é dedicada a passagens em que o sorriso cínico do personagem esconde o instinto de sobrevivência de um animal acuado. O Chaplin, que sempre fez todo mundo rir, definitivamente mostrou que também era capaz de amedrontar.

Monsieur Verdoux - Cena 3Ainda sobre a “zona de conforto”, o filme trata das consequências que eventos imprevisíveis e incontroláveis podem ter na vida de um cidadão comum e o que ele está disposto a fazer para superá-los. Verdoux era um bom trabalhador e pai de família até o momento em que a crise financeira fê-lo perder o emprego. Retirado do conforto e da segurança que o trabalho lhe proporcionava, o personagem poderia muito bem buscar forças para reinventar-se e encontrar uma forma honesta de ganhar a vida e sustentar sua família, mas a raiva e a frustração por ter perdido tudo devido a um problema que ele não contribuiu diretamente para criar foi preponderante para que ele entrasse sem remorso no mundo do crime. Em tempos de crise e concorrência incessante no mercado de trabalho, quando precisamos aperfeiçoarmo-nos constantemente para mantermos nossos postos, o relato de Verdoux em que ele diz que usou sua inteligência para o bem até que o mundo obrigou-o a ser mal fizeram-me pensar no quão tênue é a linha que separa a honestidade do desespero. O discurso do personagem no final, uma relativização dos conceitos de bem e mal, é um tapa direto na cara de políticos e empresários que manipulam o sistema em benefício próprio sem preocuparem-se com as consequências nefastas que isso pode trazer para os trabalhadores. Verdoux pode até ter optado pelo caminho errado, mas é difícil deixar de reconhecer que ele também é uma vítima e um produto de erros cometidos em instâncias superiores.

Monsieur Verdoux - Cena 4Monsieur Verdoux, portanto, traz o Chaplin de um jeito que nós não estamos acostumados a ver e um roteiro que mescla o lado cômico e humanitário do ator com a visão de mundo por vezes desoladora e sombria do Orson Welles. Gostei muito da forma como utilizam a música para “contar sem mostrar” algumas passagens mais violentas, como quando Verdoux entra com uma mulher em um quarto e a melodia nos dá a certeza de que ela não sairá viva de lá, e dos bons sentimentos que exalam do encontro do assassino com a personagem da atriz Marilyn Nash, um raio de esperança e inocência no meio de todo o cinismo e frieza associado as questões financeiras colocadas pelo filme. Ótimo filme, ótima interpretação, o único motivo que me ocorre para justificar a rejeição do público na época do lançamento é o mal da mente fechada que insiste em sempre querer mais do mesmo.

Monsieur Verdoux - Cena 2