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Mulher Maravilha (2017)

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Após dividir opiniões com o tom sombrio adotado em O Homem de Aço e Batman vs Superman e ver o hiper colorido Esquadrão Suicida transformar-se em um dos maiores fiascos de 2016, o pessoal da DC certamente percebeu que não podia mais errar. Nisso, eles olharam para o lado, observaram o que a Marvel produziu nos últimos anos e decidiram tentar algo semelhante. Mulher Maravilha, filme da diretora Patty Jenkins concebido e produzido pelo onipresente Zack Snyder, traz todo o humor e ação que fizeram o Homem de Ferro e cia caírem nas graças do público. A aura mais “séria” da DC, no entanto, não foi completamente deixada de lado e continua presente graças à adição do atualíssimo tema do feminismo. O resultado dessa “mistura de fórmulas” é um filme legal, que diverte, faz pensar e que, acima de tudo, mostra o caminho que a DC pode e deve seguir daqui em diante.

Ninguém discorda que a participação da Mulher Maravilha (Gal Gadot) foi um dos pontos altos do Batman vs Superman, mas ao mesmo tempo ficou a sensação incômoda de que a personagem não rendeu tudo o que poderia render. A amazona foi fundamental para a vitória dos heróis sobre o Apocalypse, porém a falta de um longa anterior contando sua história transformou-a quase numa coadjuvante de luxo num universo em que ela é uma das principais protagonistas. Pensem aí: o que nos contaram da Diana antes de mostrarem-na saltando e golpeando ao som daquela música tribal legalzona? Que ela estava procurando uma foto? A real é que o Zack Snyder errou feio com a personagem (e, para quem acha que não é possível contar uma história bacana e apresentar muitos personagens ao mesmo tempo, basta ver o que a Marvel fez no Guerra Civil, que debutou simultaneamente gigantes como Homem Aranha e Pantera Negra).

Mulher Maravilha chega agora para contar a origem de Diana e explicar o contexto no qual aquela foto foi tirada. Ficou bom? Ficou bom demais, pena que não fizeram isso ANTES do Batman vs Superman. Se o filme da diretora Patty Jenkins preenche lacunas e responde questões anteriormente colocadas, ele pouco ou nada faz para preparar terreno para o próximo filme da DC, o aguardado Liga da Justiça (tanto que nem há cena pós-créditos). O acerto individual é inegável, mas, do ponto de vista cronológico, o Universo Estendido da DC continua estranho.

Feita esta ressalva, falemos dos muitos acertos de Mulher Maravilha. Tal qual O Homem de Aço, temos aqui um filme de origem, desses onde a história do/a personagem é explorada desde o início. Nisso, a diretora Patty Jenkins vale-se de sequências de animação e de cenas numa ilha paradisíaca para mostrar a infância de Diana, filha de Hippolyta (Connie Nielsen), uma amazona descendente do próprio Zeus que cresceu sem conhecer nenhum homem e foi treinada pela lendária guerreira Antiope (Robin Wright). Este começo, que é deveras rápido, revela-se fundamental para o funcionamento da trama: é aqui, nos diálogos entre a heroína e sua mãe, que a curiosidade, a determinação e a fé inabalável no amor da personagem ficam claros para o público. Vale destacar também a beleza onírica do cenário, que tanto faz a gente querer sair viajando por aí (as locações são italianas) quanto contrastam significativamente com os horrores da guerra que são mostrados em seguida.

O conflito começa quando, após uma briga com a mãe, Diana vê um avião cair próximo ao litoral da ilha. Naquela que talvez seja a cena mais bonita do filme (visualmente falando), a personagem salta de um penhasco e mergulha para resgatar o piloto Steve Trevor (Chris Pine) dos destroços. Tão logo salva a vida de Steve, Diana e as amazonas precisam lidar com um batalhão inteiro do exército alemão, que invade a ilha à procura do piloto. A primeira cena de ação de Mulher Maravilha é um espetáculo: mesmo que o uso excessivo do slow motion (estética visual que a diretora emula dos trabalhos do Snyder) acabe enjoando depois de um tempo, as lutas foram coreografadas para parecerem selvagens e brutais. Caem, junto com os corpos dos alemães (e o de uma importante personagem), os primeiros estereótipos: aqui, são as mulheres que salvam os homens e elas, ao contrário do que é levianamente dito, não tem nada de “sexo frágil”. Antiope bate igual uma campeã, caras.

O tema do feminismo é explorado em muitos pontos de Mulher Maravilha e a postura forte e independente de Diana certamente inspirará muitas mulheres a buscarem o próprio empoderamento. Como o debate é amplo, também não dá para desconsiderar a opinião de quem diz que, ao fazer da heroína uma mulher de corpo intangível e axilas depiladas, o filme foi superficial e até mesmo equivocado com as demandas atuais do feminismo. Independente da opinião que qualquer um possa ter sobre as questões abordadas, no entanto, não podemos abrir mão de pensar sobre elas, então deixo aqui a minha contribuição. Tão logo a batalha da praia encerra-se, Steve é interrogado pelas amazonas sobre o mundo exterior e a guerra. Quando tem oportunidade de ficar sozinha com o piloto, Diana interpela-o com uma série de perguntas que, em sua maioria, carregam algum tipo de conotação sexual. Achei particularmente interessante observar a reação do público do cinema nessa cena (e também naquela que acontece logo em seguida, num barco). Enquanto as mulheres riam o tempo todo, os homens ficavam visivelmente constrangidos. Por quê? Será que é porque o cinema costuma retratar somente o contrário (mulheres sexualizadas à serviço do humor)? Acredito que, mais do que revoltar-se quando Diana diz que “homens são necessários apenas para a reprodução”, vale a pena usar o desconforto causado por algumas cenas para repensarmos algumas atitudes e posturas.

Pelo tema da guerra, muitas pessoas apressaram-se em comparar Mulher Maravilha com o Capitão América. As semelhanças visuais são óbvias (apesar de estarmos falando de duas guerras diferentes), mas estruturalmente a trama lembra bem mais o primeiro Thor. Tão logo chega em Londres, Diana envolve-se em uma séries de situações cômicas tal qual o deus do trovão envolveu-se ao ser exilado na Terra por seu pai. Esse “meio” do filme é onde vemos com mais clareza a influência da Marvel sobre o trabalho da DC. O humor proveniente da inocência da Diana em cenas rápidas e leves como aquela da porta giratória é melhor do que tudo o que foi feito nesse sentido no Esquadrão Suicida (até hoje não acredito naquela ‘piada’ sobre apagar o histórico de busca) e é um indicativo de que a DC está no caminho certo.

Todo caso, trata-se de um filme de “super herói”, o que implica em cenas de ação grandiosas e confrontos contra vilões memoráveis. Antes de ficar cara a cara com seus antagonistas, Ludendorff (Danny Huston) e Dra. Maru (Elena Anaya), Diana (que, salvo engano, não é chamada em nenhum momento de Mulher Maravilha) enfrenta o perigo das trincheiras e luta contra um sniper nos escombros de uma cidade destruída. Fazendo uso de seu escudo, dos Braceletes Indestrutíveis, do Laço da Verdade e da Espada Matadora de Deuses, Diana toma a frente no campo de batalha e sobra sobre os soldados alemães. O que ela faz contra o sniper no campanário, aliás, é uma das maiores demonstrações de força bruta que se tem notícia em um filme de super herói.

É difícil imaginar ligações diretas entre Mulher Maravilha e o Liga da Justiça. Deveriam ter lançado este filme antes do Batman vs Superman e pronto. Como “consolação”, fica o fato de que, fora apontar um caminho, o trabalho da diretora Patty Jenkins começa, desenvolve-se e termina bem. A reviravolta do final, com o surgimento de um novo e inesperado vilão e a pancadaria brutal que segue-se é o exemplo que a DC ousa deixar para a Marvel: valorizem a luta final e façam o possível para tornarem-na épica e cheia de poderes, luzes e frases de efeito. Vencer uma guerra com amor? Gosto. Gal Gadot? Gosto também.

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Moana: Um Mar de Aventuras (2016)

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moana-um-mar-de-aventurasMinha primeira impressão sobre o Moana não foi das melhores. Sabem aqueles vídeos educativos que são exibidos antes da sessão começar? Pois bem, o Cinépolis valeu-se dos personagens da animação para pedir silêncio para os espectadores (o que é bastante válido), mas o fez de um jeito meio bosta. “Hey, desliguem seus concha-fones!”. Concha-fone é o seu celular, entendeu? Engraçado, né? Imaginei um filme inteiro com piadas desse tipo e considerei seriamente não assisti-lo.

Mudei de opinião por 2 motivos:

  1. Moana foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Animação (perdeu para o Zootopia) e também deve concorrer ao Oscar.
  2. Os primeiros comentários sobre o filme foram animadores.

Quando digo “animadores”, não me refiro a opiniões genéricas do tipo “interessante” ou “tomara que tenha continuação”. Quem comentou sobre Moana comemorou o engajamento do roteiro, que rompe com estereótipos comuns às produções do gênero ao colocar como protagonista uma menina negra cujo maior sonho nem de longe é ser princesa. Há quem ache esse tipo de iniciativa uma bobeira, mas há também quem reconhece a importância de valorizar e celebrar as diferenças da nossa espécie através da arte. Como faço parte desse segundo grupo, comprei meu ingresso (no moderno Cinemais da cidade de Araxá-MG) e entrei no cinema ansioso para saber o que a Disney tinha a dizer sobre representatividade.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-3Antes de falar do filme, porém, vale uma salva de palmas (CLAP!) para o brasileiro Leonardo Matsuda, diretor do curta-metragem Trabalho Interno que é exibido antes de Moana. Leonardo dá características humanas para os órgãos internos de um funcionário de um escritório e promove uma divertida disputa entre o cérebro (razão) e o coração (emoção). Dividido entre a necessidade de trabalhar e a vontade de divertir-se, o sujeito passa por poucas e boas até perceber que, organizando, dá pra fazer de tudo um pouco. Além do bom conselho, o diretor também nos diz que é “ok” fazer xixi no mar e que não há problemas em encher o bucho de comida. Boa, Leonardo!

Conta-se que, no início dos tempos, havia um belo e vasto oceano. Te Fiti, deusa da vida, criou os continentes, as ilhas e os seres vivos. Tudo correu relativamente bem até o dia em que Maui (voz do Dwayne Johnson), um semideus transmorfo (ser com capacidade de assumir a forma de animais), decidiu roubar o coração de Te Fiti, o que deu início a uma maldição que atravessou gerações provocando morte e destruição. Muitos anos depois, em uma ilha do Pacífico Sul, a jovem Moana (voz da Auli’i Cravalho), membra da família real e herdeira do trono, decide fazer algo para impedir que a tal maldição castigue seu povo. Contrariando a vontade do pai, Moana atende ao chamado do oceano e parte em busca de Maui para que ele devolva o coração de Te Fiti e restabeleça a paz.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-5Para contar essa história de deuses e maldições, os diretores Ron Clements e Jon Musker (de A Pequena Sereia e Aladdin) buscaram inspiração em mitos dos povos polinésios, o que por si só é bacana por demonstrar o desejo de produzir algo fora do eixo Estados Unidos/Europa. Seria uma pena, porém, se essa iniciativa ficasse restrita a explorar os elementos que nos são exóticos da cultura oriental, mas não é isso que acontece. Lê-se no IMDB que os diretores investiram meses de pesquisas e imersão na cultura polinésia de modo que o filme fosse fiel e respeitoso àquele povo. Assim sendo, Moana mostra um paraíso terreno no qual todos nós gostaríamos de passar alguns dias de férias, mas também mostra um povo politicamente organizado, dominante de técnicas avançadas de navegação e que vive em perfeita harmonia com a natureza.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-4O fato de Moana ser negra também é importante, mas não é exatamente uma novidade na história recente da Disney. Em 2009 a empresa já havia nos dado Tiana, protagonista de A Princesa e o Sapo,  e a própria Pocahontas, do filme homônimo de 1995, era uma índia morena/negra. O que merece ser comemorado é recorrência do tema (que é intercalado pelo tradicionalismo de Enrolados/Frozen e pela diversidade étnica de Lilo & Stitch/Mulan, configurando pluralidade) e, claro, a associação dele a outras causas tão válidas quanto, como a luta pela igualdade de gêneros. Em sua aventura para devolver o coração de Te Fiti, Moana caminha sempre ao lado de Maui. Nem atrás, nem a frente: ao lado. Moana nega a condição de “princesa bonitinha com um mascote” e faz questão de contribuir e arriscar o pescoço tanto quanto Maui na perigosa missão de cruzar o oceano. Naquela que talvez seja a cena mais significativa nesse sentido, a menina pede para que o semideus ensine-a fazer um laço. Diante da recusa dele, que duvida da capacidade dela, a personagem bate o pé e afirma que ela tem condições sim de aprender e de ajudar. Moana faz o laço, ensina uma ou duas coisas para Maui e juntos, como companheiros e não como concorrentes, eles triunfam. É uma bela forma de falar sobre igualdade para crianças (e para adultos que insistem em repetir comportamentos e discursos do século passado).

moana-um-mar-de-aventuras-cena-2Moana levanta bandeiras e posiciona-se sobre assuntos que são debatidos diariamente nas redes sociais, mas isso não torna-o cansativo ou contraindicado para quem não importa-se com essas discussões e deseja apenas ver uma aventura mais tradicional, com comédia e ação. Fora as 3 grandes sequências de correria/luta (navio Krakamoa, encontro com o caranguejo Tamatoa e confronto final com Te Ka), Moana conta ainda com bons personagens de apoio (o galo zureta Hei Hei e a vó malucona/bonitinha), vários eastereggs (notei o Godzilla e a lâmpada do Aladdin) e, claro, com aquelas músicas que fazem você sair do cinema querendo cantar. Linko aqui a How Far I’ll Go, que é infinitamente melhor do que a Let it Go do Frozen, e a You’re Welcome, uma ode ao egocentrismo (Eu arrasei, eu sei, de nada!), e termino este texto com uma dica valiosa: assistam em 3D. O oceano de Moana e a cena do Tamatoa, que troca de cor no escuro num dos efeitos mais bonitos que vi recentemente em uma animação, valem cada centavo pago pelo recurso.

Rua Cloverfield, 10 (2016)

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Rua Cloverfield 10Desconfio que ninguém sairá do cinema indiferente ao que é mostrado nesse Rua Cloverfield, 10. Na saída da sessão que compareci, por exemplo, ouvi muita gente reclamando do final. Eu, por outro lado, voltei para casa feliz por ter assistido um filme que não tem medo de chutar o pau da barraca em seu último ato. Minimamente, a história contada pelo diretor Dan Trachtenberg dá uma sacudida no espectador quando realiza uma inesperada troca de gêneros cinematográficos em sua conclusão e isso, somado a pontualidade do discurso de empoderamento feminino, são motivos mais do que suficientes para que eu aprove o que vi e indique o filme como uma das boas surpresas de 2016. Texto com SPOILERS.

No início, não há som nem diálogos, mas qualquer pessoa que já vivenciou um relacionamento é perfeitamente capaz de entender o que está acontecendo. Michelle (Mary Elizabeth Winstead) está terminando com o namorado. Mesmo relutante, a personagem empacota seus pertences, olha pela última vez para o apartamento onde eles viveram, entra no carro e pega a estrada. No rádio, notícias de um gigantesco blecaute que atingiu parte da cidade. O namorado liga, ela coloca o telefone no viva voz e ouvimos um homem arrependido implorando para que ela volte. Michelle chora, a ligação é encerrada e… POW! um veículo surge da escuridão, colide com o carro dela e arremessa-a para fora da estrada.

Esse começo é matador. A ideia da colisão repentina passa longe de ser algo novo, mas a ambientação majoritariamente silenciosa que o diretor cria antes do acidente gera um contraste assustador quando o som do impacto explode nos nossos ouvidos. Mesmo escolado nas técnicas de susto hollywoodianas, não pude evitar de contorcer-me na cadeira quando os carros bateram. Na sequência, a tela escurece, a adrenalina começa a diminuir e a gente vê-se completamente imerso na história, doidos para saber o que acontecerá.

Rua Cloverfield 10 - Cena 5Michelle acorda, ferida e acorrentada, dentro de um quarto pequeno. Novamente, cito os contrastes: alguém que estava dirigindo livre à noite, correndo para deixar para trás um relacionamento insatisfatório, de repente vê-se presa e limitada. Vemos então a personagem esforçar-se para conseguir alcançar seus objetos pessoais que estavam no outro canto do quarto e somos levados a acreditar que o filme contará uma dessas histórias de cativeiro, mas aí o diretor dá um jeito de jogar com a nossa imaginação. Howard (John Goodman), o dono daquele lugar, surge e explica para Michelle que o mundo tal qual ela conhecia não existe mais. Os EUA foram alvos de um ataque nuclear (ou alienígena, ele não sabe ao certo) e tudo que existia fora daquele abrigo fora destruído ou contaminado pela radiação.

Convenhamos, é muita informação para uma pessoa que acabou de acordar após um acidente processar. Michelle não acredita em Howard, ataca-o e tenta fugir do local, mas aí ela vê uma mulher morrer do lado de fora do abrigo vítima do que parece ser contaminação por radioatividade. Em seguida, a história contada por Howard ganha mais força ainda: Emmett (John Gallagher Jr.), o terceiro refugiado do abrigo que até então permanecera quieto em um quarto, surge e confirma tudo o que seu anfitrião falou sobre os ataques.

Rua Cloverfield 10 - CenaPronto, está armado o cenário de Rua Cloverfield, 10. Temos 3 personagens presos dentro de um bunker e uma dúvida: a história que foi contada por Howard (e confirmada por Emmett) é verdadeira ou não? Apesar de terem falado em um “gigantesco blecaute” no começo da trama e do espectador saber que o nome Cloverfield evoca o filme homônimo de 2008 (que é sobre uma invasão alienígena), nós, que acompanhamos a narrativa sob a perspectiva de Michelle, não conseguimos acreditar totalmente no que é dito por Howard. Nisso, o trabalho do diretor é fundamental para criar a “cortina de fumaça” que manterá todos confusos e apreensivos até o final. Ao mesmo tempo que Trachtenberg nos mostra um lado quase paternal do personagem, exaltando a preocupação dele com Michelle e Emmett e nos impressionando com todos os cuidados que ele tomou para construir aquele abrigo, o diretor também investe em cenas onde a instabilidade emocional toma conta de Howard e fazem-no parecer um homem louco e perigoso.

Rua Cloverfield 10 - Cena 3Dentre as várias cenas que trabalham a tensão entre os personagens no dia a dia do abrigo, uma é fundamental para entendermos a proposta do filme de resignificar o papel da mulher nesse tipo de produção. Em um determinado momento, Michelle diz para Emmett que, até então, ela sempre ficava paralisada diante de situações de conflito. Quando ouvi o diálogo, não dei muita importância para o que foi falado e até achei a cena meio chata, mas depois percebi que trata-se do início da mudança de um paradigma. Sai a mulher que precisa de um homem para salvá-la de situações de perigo, entra a mulher forte capaz de trilhar o próprio caminho. Tal qual Howard descreve-a no primeiro encontro entre os dois, Michelle é uma guerreira e, nas últimas cenas de Rua Cloverfield, 10, nós vemos o quão afiadas as garras dela podem ser.

Rua Cloverfield 10 - Cena 2Tal qual o Tony Stark no primeiro Homem de Ferro, Michelle constrói uma armadura (na verdade, uma roupa vermelha e amarela com uma máscara antigás rs) e consegue escapar do abrigo. A fuga acontece após uma cena gore em que Howard mata e derrete o corpo de Emmett no ácido para, posteriormente, também ser jogado no ácido pela personagem. Tivesse o filme terminado aí, teríamos uma ótima história de suspense, mas a coisa vai mais longe. De fato, Rua Cloverfield, 10 é ambientado no mesmo mundo de Cloverfield, ou seja, o planeta realmente foi atacado por alienígenas e Michelle terá que enfrentar alguns deles para sobreviver. Foi nesse momento que percebi que o público do cinema torceu o nariz. Num piscar de olhos, o que até então fora conduzido como um suspense transforma-se em uma ficção científica com monstros, naves espaciais e explosões. Numa dessas ideias tão legais quanto mirabolantes, a destemida Michelle consegue salvar-se usando um pouco de fita adesiva e uma garrafa de vinho (!!!) e, na simbólica encruzilhada do final, quando podia simplesmente continuar correndo do problema, ela decide ir atrás dos alienígenas para enfrentá-los.

Ainda que seja normal parte do público argumentar que o final “não tem nada a ver”, isso não é bem verdade. Ao longo de todo o filme, o diretor planta elementos suficientes para justificar a virada e, conforme dito, o próprio título da produção já indicava essa possibilidade. O que vi foi um longa criativo que trabalha a ideia de “monstro” dentro de dois contextos diferentes (Howard não era menos perigoso do que os aliens), acerta ao misturar gêneros e quebra com o mito da fragilidade feminina, ou seja, Rua Cloverfield, 1o é uma experiência cinematográfica completa, gratificante e inovadora.

Rua Cloverfield 10 - Cena 4

Joy: O Nome do Sucesso (2015)

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Joy - O Nome do SucessoResumir Joy: O Nome do Sucesso dizendo que ele é “o filme da mulher que ficou rica vendendo esfregões de chão” seria tão engraçado quanto inútil. Sim, Joy, a protagonista da trama vivida pela Jennifer Lawrence, utiliza sua criatividade para desenvolver um novo modelo de esfregão e, com isso, triunfa sobre uma porção de problemas familiares e financeiros, mas essa é apenas a camada mais superficial desse novo trabalho do badalado diretor David O. Russell. Resumir o filme assim, acrescento, seria o mesmo, por exemplo, do que reduzir uma mulher ao posto de “esposa do fulano”. Sim, esta hipotética mulher pode até ser casada com o fulano do exemplo, mas explicá-la e defini-la desse jeito é superficial demais, deveras inútil e não, não é nenhum um pouco engraçado.

Deixando de lado, portanto, a jocosidade e a simples descrição dos eventos que compõe a história, eu diria que Joy é mais um importante registro de um movimento mundial de afirmação das mulheres contra o machismo. O patriarcado, modelo de sociedade governado pelo homem, é colocado em xeque por O. Russell quando ele que nos fala de uma família onde o bom senso, tato para liderança e faro para os negócios estão concentrados em uma figura feminina cujos objetivos nesse mundo vão muito além de encontrar um “príncipe encantado”, casar-se, cuidar da casa e dos filhos e ser a “esposa de algum fulano”.

Quando pequena, Joy (Jennifer Lawrence) sonhava com a possibilidade de construir sua própria mansão e criar coisas que todo mundo pudesse ter em suas residências. Com o passar dos anos, porém, ela acabou conformando-se com um emprego ruim de atendente, uma casa hipotecada e uma família completamente desestruturada. Inspirada pela inocência da filha e pelas doces palavras de incentivo da avó, Joy decide correr atrás de seu antigo sonho e, colocando a cabeça pra funcionar, desenvolve um esfregão autolimpante. A comercialização do objeto, a personagem acredita, trará a realização pessoal e o dinheiro que ela precisa para encerrar de uma vez todos os conflitos familiares de seu lar.

Joy - O Nome do Sucesso - Cena“Conflitos familiares”, aliás, é praticamente um eufemismo para o inferno que o O. Russell criou para Joy. Terry (Virginia Madsen), a mãe, é uma mulher traumatizada pelo divórcio que fica o dia todo na cama assistindo novela. Rudy (Robert De Niro), o pai, é um homem machista que, após ver mais um relacionamento chegar ao fim, muda-se para o porão da casa. No porão, porém, já estava alojado (pasmem!) o ex-marido de Joy, Tony (Edgar Ramirez). Não bastasse essa combinação explosiva de pais separados e ex-marido vivendo sob o mesmo teto, Joy ainda tem que aguentar a inveja e os ataques da irmã, a peçonhenta e detestável Peggy (Elisabeth Röhm).

Esse cenário caótico, que soa tão exagerado quanto aqueles das novelas que a mãe da personagem tanto ama, garante uma ou duas risadas para o espectador, mas qualquer um com um mínimo de empatia sentirá-se sufocado pela quantidade de problemas que aquela família dá. Em um roteiro retrógrado, Joy poderia surtar, adaptar-se ou até mesmo encontrar um grande amor e partir. Tudo isso seria compreensível, mas não é fraqueza, conformismo ou subserviência que as mulheres tem demonstrado ultimamente e, portanto, não foi isso que o O.Russell decidiu expor aqui ao adaptar a história da ítalo-americana Joy Mangano: a personagem parte para a ação, primeiro impondo-se diante dos familiares (entre outras coisas, ela pede para que o pai e o ex-marido mudem-se) e depois assumindo o controle da vida financeira da família.

Joy - O Nome do Sucesso - Cena 4A mensagem que cumprimenta e incentiva a ousadia feminina é atual e importante, mas e o filme, é bom? Não há o que reclamar das atuações. Nos últimos anos, o O. Russell despontou como um ótimo diretor de atores e, pela terceira vez seguida (O Lado Bom da Vida, Trapaça e este), ele escalou a Jennifer Lawrence, o Bradley Cooper e o De Niro no mesmo filme. Essa sequência garante química entre os personagens (a cena em que Joy explica o funcionamento do esfregão para o diretor vivido pelo Bradley é um bom exemplo) e dá personalidade para a obra do diretor. Pela boa atuação, a Jennifer Lawrence ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz e agora concorre ao Oscar na mesma categoria. Não posso dizer, porém, que fiquei satisfeito com o andamento do roteiro. Joy funciona no esquema “está tudo ruim/superação/balde d’água fria/final feliz”, estrutura repetitiva que torna a história previsível para quem costuma assistir filmes regularmente.

Joy - O Nome do Sucesso - Cena 2Não há surpresas nem grandes reviravoltas no roteiro, mas nem por isso o filme deixa de ter os seus grandes momentos. É bem legal, por exemplo, ver a personagem dando tudo de si na cena onde ela aparece ao vivo em um programa de TV para vender o tal esfregão (eu sempre assistia esses programas para ver as extraordinárias Facas Ginsu rs) e é verdadeiramente inspirador que, após um revés, ela consiga manter a calma e procurar o caminho legal para conseguir o que é dela por direito. O. Russell nos deu um exemplo de uma mulher forte, criativa e perseverante que faz questão de ser ela mesma, seja onde for (adorei ela ter optado pelas próprias roupas para aparecer na TV), e é isso que Joy tem de mais precioso: o filme praticamente GRITA para que o espectador (e aqui acho que tanto faz se ele seja homem ou mulher) não deixe que nenhum tipo de problema, preconceito ou limitação impeça-o de realizar os seus sonhos. É algo fácil de ser colocado em prática? Não necessariamente, mas, como a cena final sugere, é bom que a gente vá levando um dia de cada vez, sempre com um sorriso no rosto, pois uma hora ou outra as coisas tendem a dar certo para quem corre atrás.

Joy - O Nome do Sucesso - Cena 3

Cinco Graças (2015)

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Cinco GraçasEstou procurando diariamente na internet pelas produções indicadas ao Globo de Ouro de Melhor Filme Drama/Comédia-Musical mas, como a grande maioria ainda não vazou, decidi começar a selecionar títulos de outras categorias. Cinco Graças, longa turco do diretor Deniz Gamze Ergüven, concorre a Melhor Filme Estrangeiro e, segundo essa lista do sempre confiável Indie Wire, também deve estar entre os indicados ao Oscar na mesma categoria.

Ambientado em um pequeno vilarejo da Turquia, o filme conta a história das irmãs Lale, Nur, Ece, Selma e Sonay. Sem pai nem mãe, elas moram com a avó e com o tio em uma casa que, ao longo da trama, transformará-se em uma verdadeira prisão. Em um país onde as mulheres são criadas para casarem e serem submissas aos maridos, a alegria e espontaneidade das garotas é vista pelo tio como uma ameaça à honra da família e ele fará de tudo para privá-las da convivência de terceiros e dos “perigos” do mundo exterior.

Mesmo considerando o respeito que é preciso ter às diferenças culturais quando vemos produções de outros países (principalmente daqueles feitos no Oriente), não consegui deixar de colocar aspas em “perigos” ali no finalzinho do parágrafo anterior. É difícil permanecer neutro e não ficar revoltado logo de cara com o machismo que dita as regras daquela sociedade. Peguemos, para exemplificar o que estou dizendo, a cena que abre Cinco Graças. Após despedirem-se da professora no último dia de aula do ano, as meninas vão com alguns colegas até uma praia. Lá, a turma inteira entra no mar e as garotas, montadas nos ombros dos rapazes, brincam de empurrar umas as outras. Quando voltam para casa, elas precisam enfrentar a ira da avó, que acusa-as (PASMEM!) de envergonhar a família por terem esfregado suas partes íntimas nos meninos. Antes, porém, que a gente possa ficar com raiva da velha por conta dessa reação desproporcional, o diretor nos revela o verdadeiro vilão da história.

Cinco Graças - Cena 2Mesmo que a avó contribua para perpetuar aqueles valores machistas quando os reproduz em seu discurso e práticas diárias, é fácil perceber que ela é apenas mais uma vítima daquele sistema. Ela pode até ser chata e ter conformado-se com aquela realidade, mas ao longo da história percebemos que a personagem preocupa-se genuinamente com as netas tal qual alguém que já passou pelos mesmos tipo de problemas. O grande alvo das críticas de Cinco Graças é o tio das garotas e tudo aquilo que ele representa. Truculento, intransigente e autoritário, ele também condena o episódio da praia mas, não satisfeito com a simples repreensão, leva as meninas até um médico e obriga-as a fazerem exames que comprovem suas virgindades. Inicialmente, devido as tais diferenças culturais, poderíamos até classificar o ato como um simples gesto de preocupação, visto que lá naquelas partes do mundo é importante que as mulheres “sangrem” na noite de núpcias, mas as próximas ações do sujeito só fazem revelar toda a podridão de seu caráter, mostrando-nos o quanto o machismo é algo que precisa SIM ser combatido.

Cinco Graças - Cena 4Cinco Graças traz, portanto, um discurso feminista cuja legitimidade é trabalhada principalmente em cima dos horrores da opressão masculina. A ambientação turca, assim como a figura obtusa do tio, podem até serem exemplos extremos do tema mas, no geral, o tom da trama evita o sensacionalismo e aposta mais em situações corriqueiras do cotidiano em que pequenas doses de machismo vão minando o desenvolvimento e a felicidade das mulheres. Assim sendo, o diretor cria cenas em que as personagens são obrigadas a vestirem roupas que não combinam com suas personalidades, fala sobre os perrengues dos casamentos combinados entre parentes e mostra a pequena Lale (Günes Sensoy) frustrada em sua vontade de assistir um jogo de futebol, atividade que o tio classifica como “masculina e perigosa”. Lale, aliás, protagoniza a história e é aquele tipo de personagem pela qual a gente apaixona-se imediatamente: inocente e ao mesmo tempo impulsiva, ela faz de tudo para proteger as irmãs (adorei quando ela diz que a burca de uma mulher fofoqueira é da cor de merda rs) e elabora um ousado e fantástico plano para escapar das garras do tio.

Cinco Graças - Cena 3Deniz Gamze Ergüven, em uma bela sacada, começa e termina o filme com um túnel. No início, logo após a cena do teste de virgindade, as garotas e o tio passam através da edificação e vão em direção à escuridão na qual está a casa em que elas sofrerão todos os tipos de abusos, tanto físicos quanto psicológicos. Como dito, a intenção do diretor não é chocar o espectador através de imagens fortes, mas sim de fazê-lo pensar sobre a perniciosidade do comportamento retrógrado e irracional do tipo de homem aqui personificado no tio. Dessa forma, Ergüven apenas sugere temas como suicídio e incesto, mas essas monstruosidades que nossos olhos não veem são automaticamente reproduzidas em nossas mentes como consequência diretas de todos aqueles pequenos abusos que vimos durante o filme. Quando as irmãs (ou pelo menos aquelas que sobreviveram) voltam a atravessar o túnel (dessa vez em direção à luz) e escapam, fica a sensação amarga de que não estamos vendo necessariamente um final feliz: além de não possuírem uma perspectiva clara de futuro, nota-se que elas foram marcadas para sempre por aqueles eventos sombrios. Cinco Graças, sem utilizar os neologismos e provocações recorrentes de alguns textos  feministas que são postados diariamente nas redes sociais, faz muito pela causa que defende simplesmente expondo o quão ridículo é o machismo. Só não vê, reflete e muda quem não quer.

Cinco Graças - Cena

Como Agarrar um Milionário (1953)

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Como Agarrar um MilionárioNa introdução do livro Histórias de Horror – O Mito de Cthulhu, o editor alerta os leitores sobre os elementos racistas que muitas vezes podem ser encontrados na obra do Lovercraft. Segue o trecho:

“Tendo vivido no final do século XIX e na primeira metade do século XX, Lovercraft tem sua obra marcada pelo ideário dessa época. Algumas das coisas que escreve podem ser consideradas ultrapassadas, preconceituosas e de mau gosto. Em ‘O Chamado de Cthulhu’, por exemplo, aqueles que se dedicam a cultos misteriosos de magia negra são em geral mestiços, que, por não terem ‘sangue puro’, são facilmente degeneráveis. (…) O leitor pode se incomodar com esse traço, que para nós revela um olhar ultrapassado e preconceituoso, mas é preciso levar em conta a época em que as histórias foram escritas”.

“É preciso levar em conta a época em que as histórias foram escritas”, ou seja, não seja anacrônico, não condene uma obra do passado com base nos valores do presente, não deixe de conhecer Cthulhu, Yog-Sothoth e Nyarlathotep porque os escritos de Lovercraft refletem valores da sociedade de seu tempo e também não deixe que o roteiro (e o título) deveras machista lhe impeça de aproveitar as boas piadas e personagens caricaturais desse Como Agarrar um Milionário. Nos Estados Unidos, o feminismo ganhou força e projeção nacional somente nos anos 60 embalado pelo movimento dos direitos civis, ou seja, é preciso entender o contexto que, cerca de uma década antes, permitiu que um filme sobre 3 mulheres cuja maior aspiração na vida era encontrar um marido fosse feito e aprovado pelo público.

Schatze (Lauren Bacall), Loco (Betty Grable) e Pola (Marilyn Monroe) alugam e mudam-se para um apartamento de luxo em Nova York com o objetivo de conseguirem, como o título denuncia, agarrar um milionário. Gordo, magro, alto, baixo, feio ou bonito, não importa: tudo o que o homem que elas desejam precisa ter são bolsos cheios de dinheiro para bancar seus sonhos consumistas. Cada qual a seu tempo, as três amigas conhecem potenciais candidatos ao posto de marido, mas o desenrolar da história mostrará que o poder do amor sincero é mais forte do que qualquer interesse mesquinho e financeiro. Bem, pelo menos nos filmes é assim rs

Como Agarrar um Milionário - Cena 2Fiz questão de começar esse texto falando sobre anacronismo justamente para não transformá-lo em uma defesa/crítica ao feminismo. Como Agarrar um Milionário é um produto de seu tempo, de uma época em que as relações entre homens e mulheres eram reconhecidamente diferentes das que temos hoje (as mudanças, acredito, são maiores que as permanências), portanto não cabe a mim analisá-lo com base nas discussões sobre feminismo que acompanho diariamente, por exemplo, no Facebook. Classificar Schatze, Loco e Pola como fúteis, interesseiras e superficiais, além de anacrônico, é perder duas das principais possibilidades interpretativas do filme, ou seja, 1) vê-lo como a comédia de gênero que ele é, com piadas que exploram a todo instante a guerra dos sexos e 2) enxergá-lo como um produto de uma época diferente da nossa e, na comparação com os dias atuais, mais do que julgar, perceber avanços e retrocessos. Aqui, me interessa mais o primeiro viés.

Como Agarrar um Milionário - Cena 4Com três mulheres nos papeis principais, o diretor Jean Negulesco não poderia deixar de contar a história sob uma perspectiva feminina, mas nota-se que ele também reserva espaço para construir satisfatoriamente os personagens masculinos e nos fazer rir das bobagens e idiotices que eles dizem e praticam no jogo da sedução. O ricaço enfadonho que faz par com a Loco, por exemplo, é uma graça só. Casado, o sujeito está doido para dar uma escapada rápida de um relacionamento monótono mas tudo que ele consegue é uma sucessão inacreditável de reveses nas mãos da loira, que pega caxumba, reclama das instalações da casa de inverno para a qual ele a leva, troca-o por um guarda florestal e acaba esculhambando publicamente com o seu casamento em um evento tão improvável quanto engraçado. Antes de criticar as mulheres por quererem encontrar um cara para bancar as suas contas, portanto, prefiro rir ao perceber o absurdo que consiste em um homem arriscar todo o seu bem estar em nome de uma aventura que, desde o início, mostrava-se inglória.

Como Agarrar um Milionário - Cena 3Como Agarrar um Milionário pode ser interessante para o público masculino (pessoalmente, gosto muito de ver com minha esposa esses filmes que trazem embates de gênero, como A Verdade Nua e Crua e Garota Exemplar), mas é notório que ele foi feito para agradar mais as mulheres. As preocupações das protagonistas (encontrar alguém que lhes dê estabilidade financeira), ainda que apareçam em tons exagerados e caricaturais, não estão completamente obsoletas e a forma como elas mudam completamente de ideia sobre a vida e o amor ao longo da trama, um estereotipo feminino (‘as mulheres não sabem o que querem’) é feito para gerar empatia e fazer rir (principalmente no caso da pragmática Schaltze). Há ainda a cena do desfile, momento que também acredito ter mais apelo entre o mulheril e que comento abaixo.

Como Agarrar um Milionário - Cena 6Em 1953, a Marilyn Monroe ainda era uma atriz em ascensão. Nesse filme, por exemplo, a grande estrela era a Betty Grable, cuja Loco notoriamente tem mais tempo em tela e desenvolvimento do que as outras personagens. A Pola de Marilyn é uma “loira burra” clássica que reforça o clichê com um astigmatismo embaraçoso, nada de especial, mas ainda assim tu lembrará-se para sempre dela depois que a ver em trajes de banho na cena do desfile. Vestindo um modelito vermelho, a atriz desfila o corpanzil pelo cenário enquanto olha para a câmera com seu conhecido olhar penetrante. A mágica da cena, infelizmente, é quebrada por um tropeção que ela dá devido a cegueira da personagem, mas, citando a minha própria esposa, nessa hora a gente já está mais do que convencido de que “a beleza dela era realmente diferente”.

Como Agarrar um Milionário - Cena 5Como Agarrar um Milionário é um típico filme da chamada “Época de Ouro” de Hollywood, tanto pela pompa (uma orquestra completa executa uma música na abertura do longa) quanto pela moralidade que reina no fim da história (o amor deve prevalecer). Algumas piadas envelheceram melhor do que as outras (as cenas da Loco são as melhores) e, no geral, não é um filme que faz muito para quem quer conhecer o trabalho da Marilyn (para isso, ainda indico O Pecado Mora ao Lado), mas ainda assim ele rende uma boa sessão a dois e é um bom exemplo para debater questões como anacronismo e diferenças culturais.

Como Agarrar um Milionário - Cena

Mad Max: Estrada da Fúria (2015)

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Mad Max - Estrada da FúriaJá tem uma semana que assisti Mad Max: Estrada da Fúria. Vi, aliás, TESTEMUNHEI o filme em 3D  na sala Xtreme do Cinemark local no dia da estréia e, como vocês perceberão nas linhas abaixo, eu não poderia ter ficado mais empolgado com esse novo episódio da franquia idealizada pelo australiano George Miller. Antes de compartilhar minha empolgação, porém, explico-lhes o justo motivo do atraso desse texto.

Quando escrevi sobre o primeiro Mad Max, eu disse que conhecia os outros dois filmes da série (A Caçada Continua e Além da Cúpula do Trovão) e que eu lembrava de algumas cenas deles. Não menti, mas foi só depois de assistir Estrada da Fúria, quando precisei pensar sobre a franquia como um todo para relatar o que vi, que me dei conta do quão pouco eu realmente recordava daqueles dois clássicos que foram tão presentes na minha adolescência. Assim sendo, resolvi revê-los antes de escrever esse texto para poder fazê-lo com um pouco mais de propriedade, daí o atraso. Da experiência, concluí o seguinte:

  • De fato, Estrada da Fúria não é um remake, mas sim um novo filme ambientado naquele cenário de escassez pós apocalíptico que reúne elementos de todos os seus antecessores.
  • A Caçada Continua é o melhor da trilogia original e, não por acaso, é o que tem a estrutura mais parecida com a desse novo filme.
  • Infelizmente, Além da Cúpula do Trovão é um filme ruim. Ok, ele tem uma música tema inesquecível e o começo, com aquela loucura envolvendo merda de porco e “dois homens entram, um homem sai”, é bem legal, mas pouco ou nada presta depois que Max é banido para o deserto. As cenas com as crianças parecem aquelas aventuras genéricas produzidas pelo Jerry Bruckheimer (uma amiga comparou-as acertadamente com os ‘filmes do Didi’) e a perseguição do final nada mais é do que uma reedição menos inspirada da conclusão do longa anterior.

Mad Max - Estrada da Fúria - Cena 6Isto posto, dou logo o meu veredito: Estrada da Fúria é o melhor produto que já foi feito até agora com o título Mad Max. É preciso respeito com o passado, mas também é necessário coragem para afirmar que, 30 anos após sua última investida naquele universo, o Geroge Miller reciclou e aperfeiçoou sua própria fórmula de tal modo que os fãs da série não só ficarão satisfeitos com a fidelidade e dedicação do diretor a sua obra quanto reconhecerão que, de agora em diante, Mad Max sai do campo da nostalgia para voltar a ocupar o posto de referência dentro do gênero de ação.

Mad Max - Estrada da Fúria - CenaCuriosamente, porém, as cenas de ação brutais, estilosas e extremamente bem coreografadas, grande atrativo e característica mais marcante da série, parecem ter ficado em segundo plano nas discussões que o filme provocou. Nisso, vi mais comentários sobre as questões de gênero que o roteiro explora do que sobre, por exemplo, a insanidade que é você ter um personagem que tinge os dentes com um spray antes de atacar o inimigo no melhor estilo kamikase. Entendo que a força e determinação da Furiosa (Charlize Theron), bem como os diálogos das “noivas” que esbravejam contra a objetificação sexual que lhes é imposta pelo Imortal Joe (Hugh Keays-Byrne) seja visto como “propaganda feminista”. Entendo também que o fato de Max (Tom Hardy) bater em Furiosa e atirar contra uma mulher grávida provoque desconforto e seja interpretado como machismo. Entendo tudo isso, mas não vi e não abordarei Estrada da Fúria procurando pelo em ovo. Não que eu seja avesso a análises capilares, mas acho que o filme é competente e claro ao abordar os dois lados da questão: negar um em detrimento do outro é muito mais um sinal de desonestidade intelectual de quem o fizer do que a justa defesa de uma causa.

Mad Max - Estrada da Fúria - Cena 5O que merece verdadeiramente ser comentado sobre o roteiro é a simplicidade e funcionalidade absurdas que ele atingiu. No rápido monólogo que abre o filme, Miller resume tudo o que aconteceu na vida de Max até ali: o cara perdeu a família e desde então passou a vagar no que restou do mundo lutando contra seus demônios internos e com tudo e todos que ameaçam sua sobrevivência. Trata-se de um sujeito que não tem mais nada para perder mas que nem por isso está disposto a cair diante de um idiota qualquer. Introdução feita, Max come um calango mutante (!!!), é capturado pelos capangas do Imortal Joe (adorei as cenas em que a imagem é ‘acelerada’) e pouco tempo depois já pode ser visto no meio de uma correria servindo de bolsa de sangue (!!!) para o personagem do ator Nicholas Hoult. É tudo muito rápido, doido, esquisito e incrivelmente fácil de compreender, tudo com o objetivo de nos levar para o que realmente importa aqui: as corridas/perseguições de veículos. Furiosa está fugindo através do deserto levando as noivas de Joe em um caminhão tanque. Joe reúne seus comandados e parte para capturá-la. Max escapa e decide ajudar Furiosa. Eis tudo o que você precisa saber sobre o roteiro de Estrada da Fúria antes de entregar-se as suas cenas de ação absurdamente legais.

Mad Max - Estrada da Fúria - Cena 3O Max do Mel Gibson nunca foi um falastrão. No Além da Cúpula do Trovão chegam até a chamá-lo de “homem sem nome”, referência clara aos personagens do Clint Eastwood, caladão mor do cinema. Não estranhem, portanto, o fato do Tom Hardy passar a maior parte do filme em silêncio. É até coerente que assim seja, visto que uma pessoa que perdeu tudo e vive apenas para ver o dia seguinte não deve ter lá grandes afeições por discursos e teorias. Essa ausência de diálogos reflete diretamente no ritmo do filme, que é sobretudo visual. Convenhamos, não são precisas grandes digressões quando você tem pessoas explodindo umas as outras e veículos cheios de metrancas sendo levados ao limite em batalhas intermináveis. Também não são necessárias muitas palavras para explicar um sujeito tocando uma guitarra com lança chamas em cima de um caminhão enquanto os personagens quebram o pau: é foda e pronto.

Mad Max - Estrada da Fúria - Cena 2Estrada da Fúria aproveita os eventos que traumatizaram Max e transformaram-no naquilo que ele é de Max Max, a estrutura “pouca conversa, muita ação” de A Caçada Continua e o visual punk  e o conceito de formação de uma nova sociedade em meio ao caos de Além da Cúpula do Trovão. O resultado é um clássico instantâneo do cinema de ação contemporâneo, um filme que explodirá a sua mente com sequências de pancadaria incríveis, um visual soberbo calcado em uma fotografia hiper colorida que destoa de outras produções pós apocalípticas e uma trilha sonora composta por riffs agressivos de heavy metal que poderiam estar em qualquer música do Sepultura. Partindo de uma ideia relativamente simples (jornada do herói + perseguição de veículos), Miller nos deu o filme de ação mais divertido e impressionante desse ano até o momento (desculpa, Era de Ultron, mas você já foi superado), fez justiça ao próprio legado e preparou sua expansão: Tom Hardy anunciou que deve assinar contrato para mais 3 filmes. Prevejo mais “lovely days” no horizonte para os fanáticos por ação.

Mad Max - Estrada da Fúria - Cena 4