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A Bela e a Fera (2017)

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Apesar dos avisos do pastor Silas Malafaia, optei por correr o risco de “virar gay” e fui conferir esta nova versão do conto de fadas francês A Bela e a Fera. No vídeo que pode ser visto clicando no link acima, Malafaia acusa a Disney de “comprar a agenda gay” e de ensinar sexualidade para o público, especialmente para as crianças. Segundo o pastor, a decisão do estúdio de incluir no filme um personagem abertamente homossexual (LeFou, interpretado pelo Josh Gad) é uma tentativa “asquerosa e nojenta” de erotizar a molecada.

Malafaia gravou o tal vídeo no dia 02/03 e, segundo o IMDB, A Bela e a Fera (e o LeFou) só estreou no Brasil no dia 16/03, ou seja, é bem provável que ele emitiu aquela opinião ANTES de ver o filme. É claro que o pastor pode ter tido acesso ao material em uma pré-estreia exclusiva, mas o que me parece é que, ciente das informações que foram divulgadas sobre o personagem antes do lançamento, Malafaia adiantou-se e convidou seus seguidores a boicotarem o produto da Disney.

Faço essas considerações pois, por mais que eu preze pelo respeito às crenças alheias, não consegui encontrar em A Bela e a Fera o conteúdo preocupante apontado pelo Malafaia. É fato que o LeFou está mais purpurinado do que seu correspondente da animação de 1991, mas daí a dizer que o filme propõe-se a erotizar crianças e ensinar-lhes sexualidade é um absurdo, o tipo de erro grotesco que geralmente é cometido por quem fala de algo que não sabe (ou não viu). Tal qual fazia anteriormente, o personagem continua beijando o chão que o Gaston (Luke Evans) pisa e cantando sua canção que enaltece as “qualidades” do valentão. Os trejeitos dele não deixam dúvidas que, se pudesse, ele beberia daquela água, mas é só. Sem beijos, sem carícias, sem nada que os pais de uma família tradicional precisem tampar os olhos dos filhos por medo deles saírem do cinema arrotando arco-íris. É, portanto, no mínimo quixotesca a preocupação do pastor com o LeFou. O fato de haver revolta contra a homossexualidade do personagem e silêncio contra o machismo e a truculência de Gaston, que continua querendo obrigar Bela (Emma Watson) a casar-se com ele para massagear-lhe os pés, diz muito a respeito das prioridades e do caráter do Malafaia.

Eu, que continuo gostando de mulheres a despeito dos esforços do simpático LeFou, também sigo apreciando musicais e acredito que dificilmente veremos algo tão bom do gênero nos cinemas esse ano quanto esse A Bela e a Fera. Conta-se que, inicialmente, a intenção da Disney era refilmar a história como um longa metragem comum, sem as músicas, ao que o diretor Bill Condon (dos dançantes Dreamgirls e Chicago) respondeu “Vocês são loucos? Pretendem fazer uma adaptação enorme e bonitona e deixar ‘Be Our Guest’ de lado?”. Que bom que deram ouvidos ao diretor: a tecnologia atual e a grandiosidade dos figurinos e dos cenários, por si só, já tornariam esta versão válida e interessante, mas é na parte musical que a história continua tocando nossos corações.

Nesse conto tão velho quanto o próprio tempo (na verdade, ele foi escrito em 1740 pela francesa Gabrielle-Suzanne Babot), Bela é uma garota entediada pela vida provinciana que a cerca. Num mundo organizado para que as maiores ambições de uma mulher sejam encontrar um marido e cuidar da casa, Bela é uma inventora apaixonada por livros que espanta todos tanto por seu jeito independente quanto por resistir aos avanços do bonitão Gaston, o solteirão mais cobiçado do vilarejo. Certo dia, Maurice (Kevin Kline), o pai de Bela, é capturado por uma fera monstruosa (Dan Stevens) e preso nas masmorras de um castelo. O crime dele? Colher uma rosa do jardim da propriedade para levar para a filha. Procurando reparar a injustiça, Bela oferece para trocar de lugar na prisão com o pai, proposta que é aceita pela Fera com a condição de que a moça nunca mais abandone o local.

Quem viu a animação sabe que a Bela e a Fera irão se apaixonar (ele pelo caráter dela, ela pela intelectualidade e coragem dele) e que isso quebrará o feitiço que havia transformado o príncipe egoísta numa criatura monstruosa. Gaston, obviamente, não ficará nada feliz em ser preterido por uma bola de pelos gigante e incitará a população do vilarejo a atacar o castelo, o que provocará uma batalha épica e divertida onde relógios (Ian McKellen), candelabros (Ewan McGregor) e bules de chá (Emma Thompson) colocarão todo mundo para correr. Condon respeitou a estrutura principal da história, mas retirou os excessos (a invenção maluca de Maurice, o velho calhorda do hospício), adicionou subtramas (a mãe e a infância de Bela) e 3 novas canções (How Does a Moment Last Forever, Days in the Sun e Evermore). Essas alterações, longe de comprometerem passagens e memórias caras aos fãs, tornaram a história mais coesa, principalmente no tocante à luz que é jogada no passado trágico da protagonista.

Ainda que conserve elementos de magia e diversão comumente associados à infância, de modo geral este A Bela e Fera está um pouco mais adulto e sombrio do que seu antecessor, tanto pela forma mais incisiva de abordar temas como o machismo (Emma Watson não economizou desprezo no olhar ao encarar o tosco Gaston) quanto pelo visual: se o Fera da animação era uma espécie de cachorrão que dava vontade de fazer um cafuné, esta nova versão, com chifres de bode e tudo mais, parece o próprio filho do cramunhão. Todo caso, cumpriu-se bem a tarefa de atualizar a história atemporal do poder da beleza interior para esta geração: as reencenações da psicodélica Be Our Guest e da apaixonante Beauty and the Beast utilizaram o que há de melhor em computação gráfica para criar um espetáculo soberbo em 3D e, no fim, o prepotente e arrogante Gaston voltou a receber o que ele merece, tal qual deve ser. Acreditem, não há o que boicotar aqui: a Disney acertou em transformar um de seus maiores clássicos em um magnífico live action e continua de parabéns por, mais do que desenvolver produtos para entreter crianças, preocupar-se em levar exemplos de diversidade e respeito às diferenças para as telas de cinema. Quero mais Mickey e menos Malafaia.

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É o Fim (2013)

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É o FimAssistir filmes do Seth Rogen tem todo um significado especial para mim. Há uns 7 anos, quando tomei um pé na bunda e precisei enfiar a cara em algo para sair da fossa, contei com a ajuda de um amigo que me emprestou uma tonelada de filmes para assistir. Acabei tomando gosto pela coisa, comecei a ler sobre cinema, procurar outros títulos e escrever sobre eles. O contador de resenhas por gênero ao lado não deixa dúvidas, hoje vejo majoritariamente dramas, mas no início não era assim. Emotivo que eu estava (rs), gastei várias tardes assistindo romances do tipo Um Amor Para Recordar e comédias que pudessem me fazer rir um pouco. Da experiência, levei uma certa birra do Nicholas Sparks (afinal NADA do que nós, pobres homens mortais, fizermos superará em romantismo aquele passeio na lagoa do Diário de Uma Paixão) e moldei parte do meu senso de humor com as produções irônicas e inteligentes do Monty Python e com os filmes repletos de referências do Seth Rogen. Ver esse É o Fim, de certa forma, me levou de volta para aqueles dias sombrios, mas também me fez lembrar dos motivos que me influenciaram a começar esse blog e é por isso que, empolgado e contrariando todo o corpo mole que tenho feito ultimamente, cá estou eu resenhando-o apenas um dia após tê-lo assistido (em alguns casos, levei quase duas semanas para fazê-lo rs).

 Comecei a escrever por sentir necessidade de comunicar à outrem todas aquelas coisas legais que eu estava vendo. Como eu estava solteiro e não era sempre que eu conseguia encontrar meus amigos, rolava um represamento de informações e idéias que precisavam serem escoadas de alguma forma. Imaginem a sensação de assistir um filme tipo Taxi Driver pela primeira vez e não ter com quem falar a respeito? Entre outras coisas, acredito que foram essas conversas sobre filmes e assuntos relacionados a cultura pop que me encantaram nos trabalhos do Seth Rogen. Em longas como Superbad, Segurando as Pontas e Pagando Bem, Que Mal Tem, o cara e o resto do elenco até envolvem-se nas tradicionais confusões do bagulho barulho, mas são os diálogos que tratam de coisas que eu gosto e conheço, as tais “piadas de referência”, que realmente me divertiam. É o Fim é uma nova oportunidade para experimentarmos a metalinguagem cinematográfica, de sentirmo-nos em casa vendo filmes sobre caras que falam sobre filmes mas, como certamente Rogen o diretor Evan Goldberg (produtor executivo da maioria dos trabalhos do ator) sabem que até mesmo essa divertida fórmula pode esgotar-se e tornar-se cansativa, dessa vez eles deram um jeito de tornar tudo ainda mais insano acrescentando autorreferências.

É o Fim - Cena 2Seth Rogen, portanto, é o próprio Seth Rogen, ator, diretor e escritor. O longa começa com ele em um aeroporto sendo reconhecido por um ou outro passante,enquanto aguarda a chegada de um amigo, o também ator Jay Baruchel (o dono da voz do Soluço na série Como Treinar Seu Dragão). Eles encontram-se, falam de seus projetos profissionais, fumam maconha e depois, contra a vontade de Jay, vão para uma festa na casa do James Franco, sim, o mesmo James Franco do Homem Aranha e do 127 Horas. Lá na festa, bem… lá na festa estão praticamente TODOS os atores que apareceram nos filmes anteriores do Rogen, como Jonah Hill, Danny McBride, Craig Robinson, Michael Cera, Christopher Mintz-Plasse (o imoral McLovin <3) e outros convidados ilustres, entre eles a fogosa Rihanna e a Emma “Hermione” Watson. O que acontece então? Abuso de drogas, pegação, loucura total? Sim, e da melhor qualidade, pena que a  festa é interrompida pelo próprio apocalipse bíblico. Espera aí… O quê? rs

É o Fim - Cena 4 Quando eu escrevi sobre o Ajuste de Contas, dediquei um parágrafo para falar sobre a minha dificuldade de descrever o que acho engraçado. Bem, se eu puder deixar as explicações de lado e usar um exemplo, então eu digo que acho extremamente hilária parte desse filme em que os atores, confinados na casa do Franco após a catástrofe, bolam (com trocadilhos) uma sequência para o ótimo Segurando as Pontas. A câmera amadora, as interpretações propositalmente canastronas, o resgate das roupas e dos cenários do longa de 2008… tudo, tudo mesmo é muito bem executado e reconhecer as referências é garantia certa de diversão. Certeiras também são as piadas autodepreciativas que utilizam os estereótipos comumente relacionados aos atores, seja para reforçá-los (Seth é o cara que faz sempre o mesmo personagel, Jonah é o queridinho de todos) ou para desconstruí-los (Michael Cera, que sempre interpreta caras tímidos, aqui aparece completamente surtado, com direito a tapinha na bunda da Rihanna e tudo).

É o Fim - Cena 3É o Fim é legalzão, mas é inegável que lentamente ele vai perdendo o fôlego. No começo os atores estão lá todos reunidos, depois há a loucura apocalíptica e após isso Rogen e Goldberg nos fornecem uma boa quantidade de referências de seus trabalhos anteriores e de outros filmes (ou seja, os primeiros 40min passam voando), mas aí o longa cai no lugar comum de fazer com que os personagens briguem antes da reconciliação que encerra a trama de forma mega feliz (e, se nesse sentido, o final purpurinado do O Virgem de 40 Anos parecia legal, esperem até vocês verem a aparição da maior sensação pop de todos os tempos rs) e isso acaba decepcionando um pouco. O saldo é inquestionavelmente positivo mas, mesmo que o Seth defenda-se dessa acusação de falta de criatividade rindo de si mesmo com piadas autodepreciativas, é deveras bizarro que ele, filme após filme, teime em utilizar o mesmo recurso dramático: É o Fim é construído em cima de uma idéia insana, estranho que ele não tenha encontrado uma forma menos convencional de terminá-lo. De qualquer maneira, o que vi aqui ainda é o tipo de material que representa o que há de melhor no humor hollywoodiano atual, um filme que, além de divertir, estimula o nosso gosto por cinema e nos faz ter vontade de falar sobre o assunto.

É o Fim - Cena

Noé (2014)

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NoéPerdoe-me pai, pois eu pequei e, ciente do meu erro, aceito de coração aberto essa punição que o Senhor me enviou em forma de filme. Há menos de um ano, no meu texto sobre o Guerra Mundial Z, relatei uma experiência terrível que eu tive no Cinemais em um dia de ingresso promocional. Naquela ocasião, entre brados e praguejamentos, prometi evitar o estabelecimento a todo custo nos dias de quarta feira mas, infelizmente, não consegui manter a promessa, motivo pelo qual eu me ajoelho diante de ti, ó pai, e peço-lhe: castigue-me, colocando do meu lado pessoas que fazem comentários medíocres durante todo o filme, eu mereço, mas devolva o talento do Darren Aronofsky, ó Senhor, ele é bom demais para ser punido com tamanho lapso criativo!

Rogo tão apaixonadamente pelo diretor de Pi, Fonte da Vida e Cisne Negro porque o considero um dos melhores profissionais do ramo produzindo atualmente em Hollywood e não quero acreditar que o que eu vi essa semana seja um indício de fadiga criativa. Mesmo considerando a dificuldade a priori que é adaptar a história (ou mito) de Noé devido a seus muitos absurdos, é preciso reconhecer que o trabalho do cara ficou abaixo da linha do aceitável.

Para quem não está por dentro da trama, Noé (Russell Crowe), filho de Lameque, neto de Matusalém (Anthony Hopkins) é encarregado pelo Criador, que fala-lhe através de um sonho, de construir uma arca para garantir a continuidade da vida no planeta. Em breve, lhe é revelado, um dilúvio implacável cairá dos céus, destruindo tudo e todos, como forma de punição à maldade que os homens espalharam pelo planeta. Mesmo desacreditado, Noé obedece as ordens e inicia a construção, o que lhe rende alguns inimigos e conflitos familiares.

Noé - CenaA “Arca de Noé” é uma dessas histórias que mesmo quem nunca leu a bíblia certamente já ouviu falar alguma vez na vida. Pessoalmente, e com todo o respeito que é possível um agnóstico ter para com o referido livro, eu considero-a como um dos maiores absurdos lá contidos, e olha que, avaliando o conteúdo como um todo, isso coloca-a em um patamar de bizarrice quase esquizofrênica. O meu ponto é: fé e racionalidade precisam dialogar. Olhar para a história de Noé e perceber as alegorias do discurso e tirar disso algum ensinamento é saudável, já acreditar literalmente que um homem construiu uma arca gigantesca e nela abrigou um casal de cada um dos animais do planeta é, no mínimo, preocupante. Todo caso, digo isso mais para deixar claro o que eu penso a respeito da tal história e fundamentar a minha crítica do que para zombar da crença alheia, ok?

Noé - Cena 2Dito isso, devo acrescentar que acreditei em Noé até o último minuto. Deixei de lado a minha descrença pessoal relacionada a história e a péssima impressão que o trailer me causou e fui no cinema para ver um filme da dupla Aronofsky/Crowe. Confio no poder de entrega e construção de personagens do ator desde que vi Uma Mente Brilhante e do diretor eu sempre espero uma visão complexa e desafiadora de histórias/temas já conhecidos. Em outras palavras, eu queria ver o que o Aronofsky tinha a dizer sobre Noé e como o Crowe iria representar um personagem que carrega em si uma ambiguidade tão grande. A decepção começou aqui: a adaptação do diretor é demasiadamente literal.

Introduzida por textos e imagens que retornam à Adão e Eva para explicar a origem do mal no mundo, a trama desenvolve-se posteriormente em cima dos eventos citados na bíblia: a revelação, a construção da arca, o dilúvio e o início do repovoamento. Do início ao fim, vemos Noé, sua esposa (uma Jennifer Connelly equivocadíssima no papel) e seus filhos vagando por terras arenosas e desertas buscando cumprir as ordens do Criador. O elemento fantástico, característica presente em diversas passagens da bíblia, como na Travessia do Mar Vermelho, é aproveitado por Aronofsky para criar seres gigantescos a la Transformers chamados Guardiões que auxiliam Noé em sua empreitada. É isso que vemos aqui: andanças intermináveis, a construção da arca, uma cena de batalha genérica épica (lugar comum nos filmes de ação atuais) entre Noé, os Guardiões e os chefes de tribos humanas, o dilúvio e… o repovoamento, tal qual está no livro. O tal ponto de vista diferente que eu esperava aparece, timidamente, apenas nos dilemas enfrentados pelo protagonista.

Noé - Cena 4Noé é escolhido devido a sua bondade pelo Criador (e continuo me referindo a ele dessa forma pois é assim que ele é tratado no filme; salvo engano, não falam em “Deus” em nenhum momento) para salvar os animais e a inocência do mundo. Descendente direto de Sete, um dos filhos de Adão, o personagem, contraditoriamente, acaba sendo responsável (ainda que indireto) pelo fim da humanidade tal qual ela era conhecida até então já que, avisado de que o mundo iria acabar, ele não deixa ninguém além de sua própria família entrar na arca. O peso dessa tarefa perverte a mente do homem, que vê-se em uma situação onde ele precisa deixar de lado a própria bondade que o destacou entre os demais para cumprir o plano que lhe foi revelado em sonhos. Crowe brilha no papel e constrói um personagem atormentado, por vezes até odioso, que é dobrado diante dos ditames divinos. A eterna luta entre fazer o que se deseja ou aquilo que é certo está muitíssimo bem representada aqui, mas é só isso que Noé tem a oferecer, e isso é muito pouco.

Noé - Cena 5Aronofsky fez um filme burocrático sobre uma história absurda. O que deveria ser, essencialmente, um drama sobre os conflitos morais de um homem, transformou-se em um filme de diálogos arrastados e pouco inspirados e cenas de ação meia boca cuja única passagem realmente memorável é aquela sequência que dá conta da criação do universo e da vida. Assisti esse perrengue do lado de um sujeito que narrou TODO o filme para a namorada dele. Excluindo-se a chance quase nula de a moçoila ser cega, só me resta aceitar a atitude do sujeito como uma punição por eu não ter cumprido a minha palavra. “Olha lá amor, agora ele vai morrer!” ARGH!

Noé - Cena 3

As Vantagens de Ser Invisível (2012)

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As Vantagens de Ser InvisívelO primeiro beijo, a descoberta do sexo e a formação da personalidade que definirá nossos gostos e interesses nos anos seguintes. A adolescência pode até não ser um período fácil devido aos vários problemas inerentes a transição da infância para a vida adulta, mas dificilmente encontramos alguém que não recorde-se dela com palavras nostálgicas. Eu, que hoje estou com 27 anos, não gostaria de forma alguma de voltar a ser adolescente, pois acredito que melhorei em todos os sentidos desde então, mas não posso negar que sinto-me estranho quando passo diariamente na porta da escola onde estudei. Vejo todos aqueles meninos e meninas e fico imaginando o que cada um deles está vivenciando, penso em tudo que eles ainda tem para viver e todas as escolhas que eles podem tomar. É difícil não sentir-se “velho”. Com o tempo, certamente a gente aprende a saborear melhor os pequenos prazeres da vida, porém é inegável o valor da primeira experiência, da descoberta de algo novo. As Vantagens de Ser Invisível, escrito e dirigido por Stephen Chbosky, é um filme direcionado para os espectador adolescente assim como, em suas épocas, Diário de Um Adolescente e Sociedade dos Poetas Mortos o foram. Não há dúvidas, no entanto, que o excelente texto e os ótimos personagens também oferecem um convite irresistível para os “velhos” retornarem no tempo e revisitarem alguns dos anos mais intensos de suas vidas.

Charlie, Patrick e Sam

Charlie, Patrick e Sam

Charlie (Logan Lerman) é um jovem introvertido prestes a entrar naquele que é um dos maiores pesadelos para os jovens americanos: já no primeiro dia de aula, ele inicia uma sofrida contagem regressiva para o fim do colegial. No meio de líderes de torcida esnobes, jogadores de futebol estúpidos e nerds arrogantes, Charlie conhece e faz amizade com Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson), jovens que, assim como ele, não encaixavam-se naquele ambiente, pessoas “invisíveis” em um mundo de competição constante por popularidade. Juntos, eles amam, brigam e amadurecem enquanto ouvem músicas antigas, encenam espetáculos teatrais, conhecem clássicos da literatura, usam drogas e estudam para conquistar uma vaga na faculdade.

Por mais difícil que seja estabelecer um paralelo entre a realidade das escolas americanas e as nacionais, devo dizer que vivi alguns dos problemas de Charlie no colegial e na faculdade e ainda hoje compartilho de algumas de suas paranóias. Tudo bem que nunca presenciei valentões batendo e humilhando ninguém na escola, mas não foram poucas as vezes, principalmente até o início do ensino superior, que eu me senti isolado. Eu, que nunca fui bom com esportes, dificilmente encontrava espaço para conversar com meus “coleguinhas” sobre as coisas que eu gostava, como videogames, literatura e música. Chrono Trigger, Zelda e Final Fantasy? Não, International Super Star Soccer Deluxe. Coleção Vagalume e Agatha Christie? No way, punk! Aerosmith, Guns ‘N Roses, Metallica e Linkin Park? O pessoal detestava as aulas de inglês e venerava grupos de pagode como Negritude Jr., Raça Negra e afins. Assim como Charlie, eu consegui passar por esse inferno porque tive professores que acreditaram em meu potencial e por conhecer algumas pessoas especiais com quem valia a pena conversar.

As Vantagens de Ser Invisivel - Cena

As Vantagens de Ser Invisível atualiza muito desses sentimentos para uma realidade que não é a minha mas cujos paralelos possíveis emocionam. Longe da sala de aula, onde o professor de literatura fala de Charles Dickens e Harper Lee (inveja), Charlie vai até sua primeira festa, come bolinhos de maconha e fica doidão. A “liberdade” que a droga lhe fornece permite com que ele abra-se com as pessoas a seu redor e, finalmente, fale sobre as coisas que ele realmente gostaria de falar. É nesse ponto que ele é aceito como membro daquele grupo de “pessoas invisíveis” e começa a perceber que ele não está sozinho no mundo. Salvas as devidas proporções, a cena me lembrou muito minha primeira festa da faculdade, dia em que eu bebi vinho e cerveja descontroladamente e, entre outras coisas, cantei músicas do Angra, conversei em inglês com uma amiga e desmaiei dentro do banheiro. Não que eu me orgulhe disso, mas é bom olhar para trás e ver que algumas pessoas que me ajudaram naquele momento ainda continuam na minha vida após quase 10 anos, pessoas em quem eu me espelhei e que me proporcionaram muitos momentos felizes. São essas pessoas que Charlie descobre no filme.

Patrick, que desde a primeira cena já entrega sua homossexualidade, é um dos melhores amigos que uma pessoa pode ter. Divertido, engraçado e sempre procurando deixar todos felizes, ele leva Charlie para dar voltas de carro durante a noite e compartilha com ele suas dúvidas existenciais e canções favoritas. Sam, sua meia irmã, é o interesse amoroso óbvio do personagem, uma menina frágil que busca por redenção após uma vida de excessos, uma pessoa que, de certa forma e assim como ele, só precisava de alguém que lhe desse o devido valor. O resto do grupo é composto por uma gama de personagens marginais, entre os quais destacam-se uma gótica e uma gordinha budista com quem Charlie engata um romance divertido devido a tragédia mais do que anunciada que é o seu início.

As Vantagens de Ser Invisivel - Cena 4

O tempo passa, o grupo encena uma divertida versão do The Rock Horror Picture Show, brigas acontecem, casais são formados e desfeitos e, entre um porre e outro, o ano chega ao fim e Charlie precisa despedir-se dos novos amigos que estão de malas prontas para irem para a faculdade.

As Vantagens de Ser Invisível reserva algumas revelações tristes para a parte final, explicações sobre os motivos da introversão do personagem que engrandecem o roteiro psicologicamente. No entanto, ainda entendo que a maior qualidade do trabalho do diretor Stephen Chbosky seja capturar com precisão elementos que compõe a adolescência desses jovens que tentam encontrar-se dentro de uma sociedade que os trata e fazem-nos sentir-se como estranhos, pessoas que estão tendo suas primeiras experiências em vários campos da vida e aprendendo com elas. Para quem não viveu os mesmos problemas de Charlie, o filme pode até ser apenas mais uma bobagenzinha feita para adolescentes, mas quem trilhou o mesmo caminho do personagem certamente reconhecerá em As Vantagens de Ser Invisível um retrato fiel e nostálgico de si mesmo. Somos infinitos e, dentro de nosso próprio mundo, somos todos heróis. Desculpem o texto extremamente emocional, mas esse filme realmente mexeu comigo 🙂

We can be heroes, just for one day

We can be heroes, just for one day

Harry Potter e As Relíquias da Morte Pt.2 (2011)

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Quando a primeira parte do Relíquias da Morte saiu, eu escrevi um texto criticando o fato de terem dividido o último livro da série em 2 filmes. O “começo do fim” da saga de Harry Potter revelou-se um filme longo e arrastado e na ocasião eu suspeitei (e digo suspeitei por ter deixado claro que não li os livros) que teria sido melhor fazerem apenas um filme com aproximadamente 3 horas para dar conta do clímax da história. Relíquias da Morte Pt. 2 chegou nos cinemas e confirmou minha impressão sobre a necessariedade de um oitavo filme. O “porém” da vez é que, assim que o filme termina e o nome do diretor David Yates surge na tela, sente-se um vazio pela certeza de que não haverá um HP9.

Relíquias da Morte Pt.2 começa com Voldemort (Ralph Fiennes) encontrando a Varinha das Varinhas e segue com Harry (Daniel Radcliffe), Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint) procurando as últimas Horcruxes, o que os leva de volta a uma Hogwarts dirigida pelo Professor Severo Snapes (Alan Rickman) onde uma batalha de proporções épicas os aguarda.

Pt.1 estava repleto de diálogos, citações e referências que soavam deslocados e verborrágicas para a linguagem relativamente simples dos filmes anteriores. Livre do que parece uma tentativa tardia de fazer as pazes com os fãs do livro, Pt.2 deixa de lado os diálogos intermináveis de seu antecessor e oferece a cereja do bolo pela qual todos ansiavam: as buscas pelas Horcruxes não extendem-se mais do que o necessário, a narrativa é simples e objetiva e a batalha final é digna de uma história que atravessou uma década e converteu-se em um dos maiores fenômenos da literatura mundial recente.

Após todos esses anos acompanhando os personagens crescerem, amadurecerem e lutarem contra as ameaças de Voldemort, o público criou um vínculo emocional sincero e válido com a história. Relíquias da Morte Pt.2 reservou finais tristes para vários rostos conhecidos e momentos de glória para outros que os últimos filmes haviam colocado de lado, como é o caso do simpático e engraçado Neville Longbotton (Matthew Lewis). Dentre todos os momentos onde não foi possível segurar as lágrimas, destaco o “basta” da Professora Minerva (Maggie Smith) quando ela expulsa Severo Snape de Hogwats, cena relativamente simples mas que me tocou pela explosão de raiva e angústia contida que a atriz conseguiu passar. “Eu sempre quis usar essa magia” é  outro grande momento dela.

Se for para analisar friamente, Relíquias da Morte Pt.2 vacila em alguns pontos. O destino de Draco Malfoy (Tom Felton), por exemplo, é confuso e os eventos ocorridos após a queda de Voldemort parecem excessivamente apressados. Tais detalhes são mais observações do que reclamações: é impossível “analisar friamente” esse último HP, a franquia despediu-se do cinema com batalhas épicas e momentos que transbordam emoção, acho difícil alguém ficar decepcionado. Ainda acho que poderiam ter feito apenas um filme, mas até que não foi tão ruim assim poder curtir Harry e cia. mais um pouco.