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Cinquenta Tons Mais Escuros (2017)

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Sinto-me feliz. Após um mês de muitas dificuldades e privações, cá estou eu conseguindo digitar com as duas mãos novamente. Fui ao médico ontem pela manhã e, contrariando todo o meu pessimismo, ele disse que já era hora de retirar o  gesso e a tala que eu vinha usando desde o dia do meu acidente. Ainda é preciso calma, algumas sessões de fisioterapia e tempo para as feridas da palma da mão direita fecharem, mas a felicidade de poder voltar a escrever e realizar sozinho tarefas cotidianas (tomar banho, comer, etc) é algo indescritível. Em breve, espero, este pesadelo ficará definitivamente no passado e eu poderei lembrar desses dias tenebrosos apenas para agradecer todo o carinho e apoio que recebi da minha família, amigos e da minha querida esposa.

Semana passada, tão logo eu e a Renata saímos da sessão do Logan, entramos em outra sala para assistir este Cinquenta Tons Mais Escuros. Isto foi um erro em todos os sentidos. Levando em conta nossa condição física, foi um erro porque ela precisou ficar sentada durante quase 4 horas (tempo somado dos dois filmes) num dia que o joelho dela estava bastante dolorido. Também foi um erro porque, após ver a despedida magistral do Wolverine, assistir um soft porn ruim assemelhou-se a sair dos Jardins do Éden e cair direto no Vale dos Ventos, Segundo Círculo do Inferno dantesco onde agonizam aquelas pessoas que, em vida, deixaram-se levar pela luxúria. Cinquenta Tons Mais Escuros não só repete todos os muitos erros de seu antecessor, o insosso Cinquenta Tons de Cinza, quanto volta a deixar claro que, se você tem mais de 18 anos, você não é o público alvo desta adaptação cinematográfica da obra da escritora E. L. James. Eu, que já completei 31 primaveras e não gosto de abandonar nada pelas metades, voltarei ao cinema para assistir a conclusão da história, mas o ânimo é zero depois do que vi nesta continuação.

Aqui, até mesmo para justificar o “por que raios eu fui ver este troço”, acho justo repetir algo que eu disse quando resenhei o Cinquenta Tons de Cinza. Antes de qualquer coisa, eu gosto de cinema. Mesmo que eu não tenha condições de assistir tudo que é lançado (alguém tem?), procuro ver a maior quantidade de filmes possíveis, e isso inclui desde o “novo do Scorsese” até o “blockbuster bafo sobre fodelança sadomasoquista”. É bastante confortável, principalmente devido a falta de tempo, dar atenção somente para trabalhos ligados a cineastas já consagrados e/ou para títulos que receberam boas resenhas, mas eu ainda gosto de ter uma visão ampla do que está sendo produzido atualmente e, as vezes, isso implica ir assistir algo mesmo quando todos os meus instintos me dizem para não ir.

Todo caso, eu fui e vi uma história que começa tão mal quanto a anterior havia terminado. Anastasia (Dakota Johnson), que havia afastado-se do bonitão Christian Grey (Jamie Dornan) após descobrir a extensão de suas peculiaridades sexuais, procurou superar o término do relacionamento enfiando a cara no trabalho. Agora ela é uma competente assistente numa editora de livros e, quando tem algum tempo livre, sai para beber com os amigos e para passear. Certo dia, enquanto visitava uma exposição de fotografias de um amigo, Anastasia surpreende-se não somente com o fato de que o tal amigo havia feito vários quadros com fotos dela quanto com a notícia de que um comprador havia arrematado todas as obras em que seu rosto aparecia. Não é nenhuma surpresa que o comprador é o galante Christian Grey, que surge logo em seguida pedindo para que a moçoila dê-lhe uma segunda chance.

E Anastasia dá. E Christian, que promete aceitar um “relacionamento baunilha” (menos foder, mais fazer amor) para agradar sua amada, abre a carteira e começa a mima-la com roupas caras, joias e celulares. Como pontos de conflito, a trama traz a possessividade e o ciúme de Christian atrapalhando a vida profissional de Anastasia, a eterna indecisão da moça, que ora quer experiências sadomasoquistas, ora não, e a inclusão da personagem Elena (Kim Basinger), a milf que ensinou o Sr. Grey a foder e que ainda exerce uma estranha influência sobre ele.

Dar, foder, fazer amor. Falou na série Cinquenta Tons de Cinza, falou em sexo. As pessoas postam comentários safadinhos no Facebook quando referem-se ao filme e, dentro da sala do cinema, imperam as risadinhas, suspiros e exclamações quando Anastasia e Christian começam a se pegar, mas a verdade é que o conteúdo sexual do filme é extremamente meia boca. Talvez por visar mesmo um público mais adolescente, o diretor James Foley abre mão de cenas de nudez frontal e sempre envolve o sexo e os elementos do sadomasoquismo em contextos humorísticos. Christian introduz esferas na vagina de Anastasia e, nas cenas seguintes, todo mundo ri dos closes que mostram as caras e bocas que ela faz para conter o tesão na frente de terceiros. Christian masturba Anastasia dentro de um elevador lotado e a gente ri da cara fechada de uma senhora próxima ao casal. Já tive 18 anos e sei que este tipo de conteúdo pode provocar rebuliços internos nessa fase (até porque praticamente tudo provoca rs), mas não acho que Cinquenta Tons Mais Escuros tenha algo a dizer sobre sexo para um adulto casado e com acesso à internet.

Se o sexo decepciona, não é o roteiro esquemático que salva o material. Resumidamente, Anastasia e Christian tem os mesmos problemas que eu e você, caro leitor, temos em nossos relacionamentos. A diferença é a proporção bizarra que esses problemas tomam quando há bilhões de dólares envolvidos no processo. Você sente ciúmes da sua namorada por pensar que o chefe dela está com segunda intenções mas resigna-se por saber que ela precisa do emprego. Christian também sente ciúmes, daí ele compra a empresa da namorada e manda o chefe dela embora. Sua namorada fica preocupada quando você não dá notícias. Anastasia fica preocupada porque Christian sofreu um acidente de helicóptero que está sendo transmitido ao vivo na TV. Sua namorada é independente e gosta de dividir a conta. Anastasia é independente e recusa um cheque de 24 mil dólares. Não dá para ter empatia com pessoas assim (nem com um diretor que faz de uma queda de helicóptero uma cena banal dentro de um filme).

O mistério envolta do passado e dos desejos sadomasoquistas de Christian, ponto central da trama, avança pouco em Cinquenta Tons Mais Escuros. O relacionamento entre os personagens dá o passo lógico em direção ao altar, Anastasia termina a trama um pouco mais determinada e segura de si, abandonando aquela postura passivo-confusa irritante de outrora, e um homem observa tudo das sombras, prometendo complicações futuras para a relação do casal, mas é só.  E é pouco. E é ruim. E não dá tesão. E, ainda que a trilha sonora e o figurino sejam bons e que tenham me dito que o livro é “melhor e mais quente”, não dá a MENOR vontade de conhecer o trabalho da escritora E. L. James com base nisso aqui. Felizmente, se não dividirem o último livro em 2 filmes, falta só mais um.

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Cinquenta Tons de Cinza (2015)

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Cinquenta Tons de Cinza Até onde sei, apenas uma pessoa dentre os meus conhecidos leu o best seller Cinquenta Tons de Cinza. É estranho, portanto, que eu saiba a “opinião” da maioria deles sobre o livro da escritora E. L. James. Vamos pensar um pouco sobre isso.

Acredito que, nessa época de democratização do acesso à internet em que qualquer pessoa com um smartphone está apta a emitir uma opinião sobre QUALQUER assunto, a soberba e o ódio direcionados ao Cinquenta Tons de Cinza  só pode ser comparado aos ataques igualmente infantilóides feitos contra a série Crepúsculo da Stephenie Meyer. Estou defendendo as escritoras e suas obras? De forma alguma. Eu NÃO LI o que elas escreveram e não tenho meios, portanto, para me posicionar a favor ou contra seus livros. Espanta-me, porém, a facilidade com a qual as pessoas comentam sobre aquilo que não conhecem, que não leram, que não pesquisaram. Quando trata-se de assuntos “menores”, como um livro ou um filme, essa desonestidade intelectual é quase inofensiva, mas e quando envolve temas que nos afetam diretamente, como política e economia? A argumentação baseada em achismos e embasada em figurinhas com frases irônicas típicas das redes sociais é um câncer desgraçado que alastrou-se no meio de nós e apodreceu o cérebro de muita gente bacana. Em troca de um “curtir”, o sujeito é capaz de falar mal do “filme do momento”, filme esse que ele nem se deu ao trabalho de assistir mas rotula com adjetivos pejorativos. O gesto até poderia ser encarado como um ato de fanfarronice inocente, mas, como a maioria dessas piadinhas envolve diminuir e/ou criticar quem optou por ir ao cinema, não consigo calar-me frente a tamanha prepotência. Não seja um babaca boçal, amiguinho: evite comentar o que você não leu/não assistiu/não conhece, não contribua para o aumento do preconceito e da ignorância no mundo.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 2E o que, devido a super exposição que a obra recebeu, eu sabia sobre o Cinquenta Tons de Cinza antes de assisti-lo? Apenas que ele era sobre um ricaço que seduzia uma jovem tímida e a convencia a participar de seus fetiches sadomasoquistas. É uma sinopse interessantíssima, daquelas que tu corre para comprar o ingresso antes da estreia? Não mesmo, mas, minimamente, é uma premissa pouco comum dentro do gênero romance. Algum motivo para invocar todo o panteão de bestas do apocalipse contra a autora/livro/filme? Não caras, não mesmo. Grandes clássicos do cinema mundial, como o cult e respeitado Último Tango em Paris, por exemplo, partem de premissas parecidas. A única forma real, portanto, de conferir a qualidade do conteúdo era ir no cinema e assistir o filme. Obviamente, assim como faço com vários outros títulos, eu poderia simplesmente ter optado por ignorar a produção por acreditar que ela não me agradaria devido ao tema. Por que não fiz isso? Porque, independentemente de qualquer opinião, Cinquenta Tons de Cinza tornou-se um sucesso estrondoso de público e eu, fã de cinema que sou, queria ter uma opinião sobre ele, simples assim. Falar bem ou falar mal, mas falar com propriedade, tal qual eu fiz com a série Crepúsculo.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 3O que vi foi um filme cuja parte técnica é impecável mas que tropeça miseravelmente no roteiro. Anastasia Steele (Dakota Johnson) conhece e apaixona-se pelo rico e intimidador Christian Grey (Jamie Dornan) durante uma entrevista. Christian, ou Sr. Grey, também demonstra interesse por ela, mas tenta manter distância devido a algumas “excentricidades” que ele mesmo diz possuir. Como era de se esperar, essa hesitação só faz aumentar o tesão a tensão entre os dois e, depois de algum tempo, eles iniciam um relacionamento, mas não um nos moldes tradicionais: Christian pede para que Anastasia assine um contrato autorizando-o a machucá-la em práticas sadomasoquistas. Ele não quer fazer amor, ele quer f-o-d-e-r. HELL YEAH!!!! (fazia tempo que eu não usava essa expressão rs)

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 6O tal Christian Grey é fundamental para a história, mas não precisa ser um gênio para perceber que Cinquenta Tons de Cinza, além de ter sido escrito por uma mulher, também é SOBRE uma mulher e feito PARA as mulheres. Desde a trilha sonora, que é composta majoritariamente por baladas repletas de falsetes e gemidinhos (Beyoncé quase derrete em um versão pra lá de sexy da Crazy in Love), até as piadinhas típicas das comédias românticas tão adoradas pelas moçoilas (vá lá, a cena da fila de banheiro na boate é engraçadona), o filme da diretora Sam Taylor-Johnson mostra o princípio de um relacionamento a partir dos olhos da Anastasia. Nisso, vi com desinteresse grande parte das primeiras cenas que mostram a personagem agoniada após conhecer seu interesse amoroso: Anastasia sonha acordada enquanto trabalha, não consegue prestar atenção nas aulas e morde constantemente o lábio inferior ao lembrar de Christian. Achei isso tudo extremamente chato, mas fui forçado a reconhecer que essa ambientação funciona devido a boa resposta do público presente. É um começo leve e deveras comum dentro do gênero, nada que tu vá odiar nem amar.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 4É aí que surge, por assim dizer, o diferencial de Cinquenta Tons de Cinza (a ideia do contrato e tudo aquilo que ele implica), e aí eu realmente não gostei do que vi. Não tenho absolutamente NADA contra pornografia, seja ela nos milhares sites de vídeo que existem por aí, seja na literatura (até hoje lembro com carinho da pág.369 do Se Houver Amanhã do Sidney Sheldon rs), mas não vejo porque assistir um filme teoricamente “sério” apenas para ver umas bundas brancas de fora. Eu esperava, portanto, que entre uma e outra cena de putaria desenvolvessem os personagens e explicassem o porque de eles serem tal qual o são, ele um homem com desejos sexuais excêntricos, ela uma mulher disposta a envolver-se com um cara como ele. Isso acontece? Parcialmente. Há um diálogo aqui, outro acolá, mas o que domina a tela na metade final do filme são as cenas de sexo soft porn (sem nú frontal, sem closes no nheco nheco) e as reclamações de Anastasia sobre os excessos de seu amado. Sobre o sexo, achei-o tão empolgante quanto a possibilidade de ver a minha vó de cinta liga bege imitando uma gata no cio. Conversam sobre apetrechos, mostram os apetrechos mas, no final das contas, Christian só usa uma corda e um chicotinho. As reclamações de Anastasia merecem um parágrafo à parte.

Cinquenta Tons de Cinza - CenaAnastasia conhece Christian. Christian diz para Anastasia que tem desejos estranhos. Anastasia fica curiosa e apaixona-se mais ainda. Christian revela esses desejos e pede para que ela assine um contrato concordando com eles. Anastasia aceita inicialmente a proposta e depois, como toda mulher que já colocou os pés nesse mundão velho sem fronteiras, tenta MUDAR o cara e transformá-lo em um namoradinho do tipo que vai no cinema e dorme juntinho. Isso é uma visão cômica da coisa toda, mas não deixa de conter uma triste verdade: mesmo em um filme teoricamente transgressor como Cinquenta Tons de Cinza, a ideia central parece ser identificar a fonte dos desejos sadomasoquistas do personagem e “cura-los”, assim, como se eles fossem uma doença. Não falarei das sequências porque não li e nem pretendo ler os livros, mas ficarei bem decepcionado caso o desfecho seja algo pobre do tipo “Anastasia, com todo o seu amor puro e supremo, SALVA Christian do monstro interior que ele desenvolveu devido a um trauma de infância”. Não que eu espere, com base no que vi, alguma discussão sobre sexualidade com a profundidade de um Ninfomaníaca ou de um O Império dos Sentidos, mas, para não ser marcada apenas pelo sensacionalismo que o tema sempre evoca, é bom que a série traga algo menos clichê e mais adulto em seus próximos capítulos. Por enquanto, digo que Cinquenta Tons de Cinza é sim um filme fraco e chato, mas também reconheço que ele é funcional devido ao fato gritante de ele preparar o terreno para algo maior e mais sombrio. Como eu SEMPRE torço para que os filmes sejam bons para que eu possa me divertir com eles, espero que as minhas suspeitas estejam erradas e as sequências compensem toda a falta de ritmo e profundidade desse debut.

Cinquenta Tons de Cinza - Cena 5