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T2 Trainspotting (2017)

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Quase 20 dias sem postar e só posso pensar em 2 culpados:

  • Final Fantasy Brave Exvius: Estou completamente viciado nesse jogo da Square Enix. Maldito seja o infeliz que teve a ideia de reunir, numa mesma história, personagens de todos os games da série Final Fantasy. Comecei de leve, fazendo apenas as missões diárias, e hoje, cerca de um ano depois que instalei o aplicativo, estou acordando durante a madrugada para jogar e vendo itens do mesmo aparecerem na minha fatura de cartão de crédito. Droga!
  • Final de bimestre: Nas últimas duas semanas, eu precisei dedicar grande parte do meu tempo livre para elaborar/corrigir provas, atualizar diários e ouvir as muitas e comoventes histórias dos meus alunos que, pelos mais incríveis e inacreditáveis motivos, não conseguiram apresentar os trabalhos solicitados a tempo.

O cansaço físico e mental é grande, mas as férias estão chegando e, aos poucos, eu vou conseguindo encontrar tempo para voltar a assistir filmes e atualizar o blog com regularidade.

O último título que consegui ver, aliás, foi esse T2 Trainspotting, continuação do diretor inglês Danny Boyle para o icônico trabalho que o apresentou para o mundo em 1996. Boyle imaginou como estariam Renton (Ewan McGregor), Simon (Jonny Lee Miller), Spud (Ewen Bremner) e Begbie (Robert Carlyle) 20 anos após os eventos do primeiro filme e realizou uma sequência que, mesmo sem provocar o mesmo impacto do original, certamente agrada aos fãs do clássico pela nostalgia e pela atualização do discurso irônico e afiado contra os vícios da modernidade.

Depois de roubar os amigos e fugir com o dinheiro que eles haviam ganhado numa venda de drogas, Renton escolheu viver. Ele escolheu um serviço, uma família e, muito provavelmente, ele comprou uma televisão grande pra caralho. A felicidade, no entanto, não veio. O emprego não deu certo, a família acabou e a TV de muitas polegadas continuou exibindo os mesmos e velhos programas chatos de auditório. Foi aí que Renton resolveu largar tudo (ou o pouco que havia sobrado) e retornar para a Escócia para encontrar seus velhos amigos.

T2 Trainspotting faz esse movimento legal de mostrar um personagem que conseguiu o que queria (uma vida responsável, séria e estável longe das drogas), não gostou (ou não aproveitou bem a oportunidade) e então decidiu recorrer ao passado que ele havia negado como forma de recomeçar. É como se Renton tivesse largado um relacionamento ruim, começado outro e então tivesse sentido falta da ex. E voltar com ex, meus amigos, é aquele negócio: no começo pode até ser bom, pela familiaridade e tal, mas logo logo os problemas reaparecem e você lembra do porque havia terminado.

Renton queria rever Spud, saber o que o cara havia feito com a  grana que ele havia lhe deixado, mas o encontro acontece da pior forma possível. Numa daquelas coincidências pontuais do cinema, o personagem abre a porta de um apartamento velho e sujo bem no momento em que o amigo estava tentando suicidar-se. Renton salva Spud da morte, mas, em troca, ouve uma cacetada: “Você arruinou minha vida! Você deu 4.000 libras para um viciado! O que você pensou que eu fosse fazer?”. Não era bem o que ele esperava.

Renton queria rever Simon, mas ele sabia que não seria um encontro fácil. Na última vez que estiveram juntos, Renton deixou o amigo dormindo e fugiu levando o dinheiro que eles deveriam dividir. O reencontro acontece num velho pub, local que Simon herdou do pai e que agora ele toca para ganhar uns trocados. Conversa vai, conversa vem, Simon bate com um taco de sinuca nas costelas de Renton e inicia uma briga que destrói boa parte da mobília do bar. “16 mil libras! Seu ladrão desgraçado!”. Expurgado o ressentimento, os dois personagens reatam a amizade e voltam a fazer planos juntos, mas Simon revela para sua namorada, Veronika (Anjela Nedyalkova), que ele ainda pretende vingar-se de amigo.

Renton certamente não queria rever Begbie. Um cara que não acha difícil bater com uma caneca de cerveja no rosto de um estranho pode até ser útil em determinadas situações, mas definitivamente não é alguém pra você ter como inimigo. Renton roubou Begbie e foi indiretamente responsável por sua prisão (o cara quebrou um quarto de hotel inteiro quando ficou sabendo que fora passado para trás), logo ele sabia que era bom evitar o sujeito. Tal tarefa não parecia muito difícil, visto que o cara estava preso, mas, noutra dessas coincidências pontuais do cinema, a chegada de Renton na cidade coincide com a fuga de Begbie da prisão (e a cena em que isso acontece não deve nada para as antigas loucuras do personagem) e aí o acerto de contas passa a ser apenas uma questão de tempo.

Renton é o protagonista de T2 Trainspotting e o foco aqui, tal qual foi no primeiro filme, são as relações intensas porém efêmeras do personagem com seus amigos e com o meio em que eles vivem. Danny Boyle revisita o discurso “Choose Life” para atacar os novos vícios da sociedade (redes sociais, pornô, reality shows) e vale-se de uma edição audaciosa (adorei aquele ‘elevador’ artificial no prédio do Spud) e de uma trilha sonora onipresente para dar leveza e humor a um tema que é bastante sério. Talvez os três grandes momentos do filme sejam a cantoria no clube dos patriotas, a reedição da cena do “atropelamento” do Renton e o confronto final entre os personagens e Begbie, mas o que eu mais gostei foram os arcos da história que envolvem o Spud.

Desde o primeiro Trainspotting, o Spud era aquele cara engraçadão, doido e gente boa que todo mundo gosta mas que ninguém leva muito a sério. Me assustou, portanto, ver o cara tentando cometer suicídio no início desse filme. Ao escrever para a mulher antes de enfiar a cabeça dentro de um saco e asfixiar-se, Spud diz: “Eu sei que você e nosso filho estão em um mundo melhor sem todo o meu caos”. Caralho, caras. A personalidade expansiva e o jeito brincalhão do cara, no fim, revelaram-se disfarces para um vazio existencial que ele não suportou carregar. Quando Renton encontra-o e impede que ele se mate, Spud inicia um processo difícil de tentar canalizar o vício em drogas para outras atividades. Ele tenta correr, lutar boxe… tudo sem sucesso. Finalmente, quando parecia não haver mais esperanças, Spud encontra na escrita algo que ele gosta de fazer. E Spud começa a escrever sobre seu passado insano ao lado de Renton, Simon e Begbie e, para sua própria surpresa, ele vê que é bom no que faz. E é assim, canalizando suas energias e impulsos para algo produtivo e prazeroso, que o legalzão Spud começa a reencontrar seu caminho. Eu, que também tenho meus problemas, tenho jogado bastante. Pretendo voltar a escrever com regularidade também.

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Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016)

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moonlight-sob-a-luz-do-luarQuando os créditos surgiram anunciando o final de Moonlight, fiquei com aquela incômoda sensação de não ter “entendido o filme”. Não que a trama seja complexa ou algo do tipo, mas o propósito do roteiro (mais conhecido como ‘moral da história’) me escapou. Antes de escrever esse texto, fiquei um dia pensando sobre o que vi e cheguei a conclusão que o “problema” realmente estava comigo. O recorte temporal que o diretor e roteirista Barry Jenkins faz da vida de Chiron (Alex Hibbert/Ashton Sanders/Trevante Rhodes), mostrando-o na infância, adolescência e maturidade, não parece ter a pretensão de ensinar nada pra ninguém. O que Moonlight oferece é a oportunidade do espectador bisbilhotar, do conforto de sua poltrona, numa realidade selvagem, cabendo a cada um extrair de lá o que melhor lhe aprouver.

Jenkins conta sua história em 3 capítulos que recebem os nomes/apelidos que o protagonista usou ao longo da vida. Manterei essa divisão para organizar melhor as minhas ideias sobre o que vi e farei algumas revelações importantes sobre o roteiro, ok?

1. Moleque: Chiron nasceu e foi criado em uma vizinhança violenta. Sua mãe, Paula (Naomie Harris), é uma usuária de drogas que prostitui-se dentro da própria casa para sustentar o vício. Sem nenhum tipo de carinho e proteção, o menino vira alvo fácil para os valentões da escola. No início do filme, Chiron (ou ‘Moleque’, como ele é desdenhosamente chamado) corre de um grupo de perseguidores e esconde-se em uma tapera. Juan (Mahershala Ali), um traficante local, observa a cena e afugenta os delinquentes. Este episódio aproxima homem e criança, com Juan e sua esposa, Teresa (Janelle Monáe), passando a fornecer a estrutura familiar que o personagem nunca teve.

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena2. Chiron: Juan partiu deste mundo (provavelmente vítima da vida arriscada que ele levou) e Chiron seguiu seu caminho. Às vezes ele visita Teresa e os problemas tanto com a mãe quanto com o pessoal da escola continuam, mas agora o garoto, já um adolescente, está envolvido mesmo é em seu próprio processo de autoconhecimento. Chiron, que agora faz questão de ser chamado pelo próprio nome, descobre-se gay em um final de tarde quando recebe um beijo de Kevin (Jharrel Jerome), seu amigo de infância. O relacionamento não dura: acovardado, Kevin junta-se a outros garotos e aplica uma surra em Chiron. No dia seguinte, o personagem é preso por quebrar uma cadeira nas costas de um de seus agressores.

3. “Nêgo”: Já adulto e solto da cadeia, Chiron transformou-se em um traficante de drogas e adotou o apelido de ‘Nêgo’. Quando o vemos pela primeira vez, com aquela dentadura de ouro e uma pistola na cintura, a sensação que temos é que o período encarcerado matou o resto de sua inocência. A “pose” do tipo N.W.A., porém, não dura muito: numa madrugada qualquer, Chiron recebe uma ligação de Kevin (André Holland), seu antigo amigo/amor e decide encontrá-lo.

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena-3Como vocês puderam ver, Moonlight é um prato cheio para quem gosta de temas polêmicos como violência, racismo, bullying, homossexualidade e núcleos familiares desfeitos. Como já vi muitos filmes que giram em torno dessas polêmicas, fiquei esperando por uma cena ou uma mensagem que convidasse o espectador a problematizar as questões postas, mas isso simplesmente não acontece, daí vem o nó mental relatado no primeiro parágrafo. A gente sabe que o fato de Chiron tornar-se um traficante está intimamente ligado aos problemas que ele enfrentou com a mãe e ao ambiente inóspito no qual ele cresceu, mas o diretor Barry Jenkins não nos obriga a acreditar nisso. Não há tampouco uma tentativa de explicar/justificar a homossexualidade do personagem relacionando-a à questões sociais e/ou biológicas. As coisas são como elas são, e não vi nenhum espaço para julgar as ações do personagem.

O fato do filme trazer uma história bastante hermética (fechada em si mesma), porém, não impede que a gente relacione-se com ele. Revisitando o que vi, resgatando cenas da memória e revendo alguns trechos, encontrei o seguinte diálogo:

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena-5Juan: Uma vez, eu encontrei essa senhora. Ela era muito velha, velha mesmo. E essa senhora, ela me parou e disse: correndo por aí, sob a luz do luar, garotos negros ficam azuis. Você está azul. Então vou te chamar assim: azul.

Chiron: Então seu nome é azul?

Juan: Não. Chega um momento que você precisa decidir quem você é. Ninguém pode tomar essa decisão por você.

Aí está: tomada de decisão. Não há determinismo social, você escolhe o seu próprio caminho. Estaria aí, nesse trecho que não por acaso contém o título do filme (e seu correspondente subtítulo nacional tosco), a essência de Moonlight? Sim e não. De fato, Chiron acaba tendo algumas atitudes que mudam o seu destino, como quando ele resolve abandonar o papel de vítima e chispar uma cadeira nas costas de um idiota. Por outro lado, tão logo sai da cadeia, ele segue exatamente os mesmos passos de Juan e recorre à criminalidade para ganhar a vida, logo ele, Chiron, que ainda pequeno sabia que as drogas destruíam a vida de pessoas fracas como sua mãe.

moonlight-sob-a-luz-do-luar-cena-4A gente simpatiza com Kevin por ele tratar Chiron bem mas em seguida ele junta-se a um bando de babacas e bate no personagem. A gente detesta a mãe drogadona do cara mas, no fim, ela reconhece os próprios erros e dá um conselho muito válido para ele. Perceberam o quão difícil é formar opinião sobre o conteúdo do filme? Tal qual a luz da lua, tudo nesse filme é meio acinzentado, daí nossas mentes condicionadas diariamente para ver apenas em preto e branco tem dificuldade em ler personagens e situações que parecem estar além do bem e do mal. O fim sugere uma redenção através do amor? Talvez, mas não tenho certeza rs

Moonlight concorre a 8 Oscars, dentre eles Melhor Filme, Diretor, Roteiro, Atriz e Ator Coadjuvantes, e é bastante pesado e desafiador. Só veja se você estiver disposto a deixar-se incomodar.

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Divines (2016)

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divinesA cerimônia do Globo de Ouro 2017 foi realizada no último domingo, dia 08/01. Eis alguns comentários sobre o que vi (e alguns sobre o que li no dia seguinte):

  • La La Land: Cantando Estações levou tudo. Indicado em 7 categorias, o musical terminou a noite com 7 estatuetas e transformou-se no favorito para vencer o Oscar de Melhor Filme deste ano. Moonlight: Sob a Luz do Luar (e dá-lhe subtítulo tosco!) levou o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e correrá por fora (apesar que, considerando o que houve em 2016, sempre pode surgir um azarão).
  • O Rubens Ewald Filho continua insuportável. Fora os comentários rasos sobre os concorrentes (quando perguntado sobre o Ryan Gosling, ele disse que é um ator ‘interessante’), o crítico foi grosseiro ao menosprezar a vitória do Casey Affleck, classificando-a como “uma grande bobagem”. Pessoalmente, eu também preferia o Denzel, mas daí a dizer que o Casey é um ator ruim é MUITA babaquice.
  • Que bom que a Isabelle Huppert venceu na categoria Melhor Atriz – Drama. A performance visceral dela não merecia ser eclipsada pelo fato do Elle ter sido feito fora de Hollywood.
  • A Meryl Streep foi homenageada com o prêmio Cecil B. DeMille pelo conjunto da obra e, no discurso de agradecimento, fez duras críticas ao comportamento do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, bem como às suas promessas de políticas anti-imigracionistas. No outro dia, as redes sociais estavam cheias de mensagens de apoio à atriz, mas também houve quem acusasse-a (como o próprio Trump fez) de mentir por não aceitar a derrota dos democratas na última eleição. Do ocorrido, extrai-se que, mesmo que aos trancos e barrancos, a liberdade de expressão ainda respira (ela pode acusá-lo, sem provas, de zombar da deficiência de um repórter; ele pode dizer que ela, vencedora de 3 Oscars, é uma atriz superestimada). Também conclui-se que a internet transformou-se no grande tribunal do século XXI. Eu, que também sou juiz, achei que o apelo da atriz por tolerância, respeito e paz perdeu-se um pouco na insistência sobre o caso do deficiente e na comparação infeliz entre cinema e MMA. Esses “deslizes”, porém, não invalidam o resto da mensagem, ou alguém discorda que “violência gera violência e desrespeito gera desrespeito”? As vezes, é bom analisar mais os discursos e menos os oradores.

Divines (que provavelmente sairá por aqui como Divinas – Duas Garotas da Pesada), produção original da Netflix da diretora Houda Benyamina, concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Assisti-o sem muitas expectativas (ele não entrou na lista final de produções indicadas ao Oscar e, no Globo, os favoritos eram o Elle, que ganhou, e o The Salesman) e encontrei um filmão, daqueles que tu termina e tem vontade de sair comentando e indicando para todo mundo.

divines-cena-2Dounia (Oulaya Amamra) é uma adolescente lutando para sobreviver na periferia de Paris. Filha de uma prostituta alcoólatra (!!!), Dounia pratica pequenos roubos nos supermercados locais para adquirir produtos que, posteriormente, ela e Maimouna (Déborah Lukumuena), sua amiga, venderão na escola durante os intervalos. Foi após ver uma cena ambientada nessa escola, aliás, que eu perdi o meu chão.

No que parece ser uma aula profissionalizante, uma professora tenta ensinar as atribuições de uma secretária para as alunas. “Boas secretárias”, ela diz, “sorriem, sentam com a coluna ereta e estão sempre preparadas para resolverem conflitos”. Dounia, que é literal e metaforicamente uma filha da puta, atrapalha a aula de todas as formas possíveis. Com a paciência no fim, a professora pergunta se Dounia não pensa no futuro, se ela não quer ganhar dinheiro. A resposta da menina é fulminante: “Ser secretária pra quê? Para ter a mesma vida miserável que você? Quanto você ganha? O suficiente para pagar o aluguel, água, energia, telefone e comprar essas roupas feias que você usa? Eu quero MONEY, MONEY, MONEY!”. A sala inteira ri. Irritada, a professora expulsa Dounia da sala.

divines-cena-5O incômodo com o que vi não deixa de ser uma reação natural de empatia. Eu também sou professor e, infelizmente, já vivi situações semelhantes, logo é fácil imaginar a frustração que aquela mulher passou. O vazio que senti, no entanto, vai um pouco além da empatia. Em um primeiro momento, eu até fiquei com raiva de Dounia. Vai ser grossa assim lá na puta que pariu! Na sequência, porém, eu não pude deixar de reconhecer que há uma verdade inconveniente no que ela diz. O planejamento de vida a longo prazo baseado na escola (estudar, aprender uma profissão, batalhar por alguns trocados) deixou de ser uma opção para os jovens que crescem acostumados com a velocidade da internet. Eles não querem conselhos sobre coluna ereta e nem promessas de um futuro estável, eles querem dinheiro, sexo, roupas de marca, bebidas e carros, tudo aqui e agora. Nós, um dia, também desejamos o mesmo, mas daí crescemos, apanhamos um pouco da vida e percebemos que não existem muitos atalhos: se você quer algo, você tem que esforçar-se para consegui-lo. É ruim ver que, por melhor que sejam nossos argumentos, nós não conseguimos mudar a cabeça de alguns jovens. Infelizmente, eles também precisam se ferrar para aprender, e em Divines Dounia se ferra pra valer.

divines-cenaApós virar as costas para a escola e perceber que a mãe não lhe dará nenhum futuro, Dounia e Maimouna começam a trabalhar para Rebecca (Jisca Kalvanda), uma traficante local. No início, elas realizam tarefas simples, como vigiar o quarteirão para certificar-se que a policia não aparecerá no meio de uma venda de drogas, mas logo Rebecca decide usar a inteligência e a beleza de Dounia para faturar alto. Na cidade, há um figurão que guarda 100mil dólares em casa. Caberá a Dounia seduzi-lo e rouba-lo.

Divines tem o mesmo poder de assustar/conscientizar que, em seu tempo, filmes como Eu, Christiane F., Diário de um Adolescente e Réquiem para um Sonho tiveram. A diretora Houda Benyamina construiu uma narrativa do tipo “ascensão e queda” bastante didática e atual para mostrar para os jovens (ou até mesmo para os adultos que não amadureceram) que não há como escapar das consequências de atos ilícitos. As meninas divertem-se muito antes dos problemas acontecerem (há uma cena verdadeiramente divina, tanto pela execução quanto pela atuação das atrizes, em que elas fingem dirigir uma Ferrari ), mas, no fim, a conta chega. É um filme moralista? É, mas um pouco de moralismo não faz mal para quem maltrata professores e acredita que pode sair por aí roubando, vendendo drogas e ganhando Iphone de graça, não é mesmo?

divines-cena-4A diretora não desconsidera o ambiente ruim em que Dounia cresceu (família desestruturada, vizinhança violenta). Houda parece ser partidária da ideia de que as condições influenciam, mas não determinam o destino de alguém, e por isso gasta um tempo mostrando que, apesar de tudo, há caminhos (o amor, a arte, a amizade) fora do crime para que os jovens possam escapar das armadilhas de uma sociedade em que eles valem o que consomem. Como eu concordo com ela, levarei Divines para os meus alunos verem esse ano, não para ditar caminhos, mas para dar exemplos e mostrar que sempre haverá mais de uma opção.

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Amy (2015)

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AmyTal qual tenho feito nos últimos anos, olhei a lista de indicados ao Oscar de Melhor Documentário e selecionei um para assistir e resenhar. Optei pelo Amy não por eu ter sido fã da cantora (eu só conhecia Rehab e Tears Dry on their Own, que a minha cunhada sempre cantava com a voz desafinada nas nossas sessões de karaokê rs), mas sim porque nutro um interesse um tanto quanto mórbido por histórias de autodestruição. Mesmo que eu não tenha absolutamente NENHUMA intenção de boicotar minha própria vida, acho muito válido conhecer casos de quem o fez justamente para ir tirando algumas pedras do meu caminho.

A Amy Winehouse que o diretor Asif Kapadia (o mesmo do emocionante Senna) nos apresenta foi uma mulher que não conseguiu suportar a pressão de ascender meteoricamente rumo ao sucesso. Da fase adolescente cheia de espinhas fã do Tonny Bennett quando lançou o disco Frank até transformar-se em um dos maiores nomes da música britânica contemporânea com o álbum Back to Black, foram apenas 3 anos. No mesmo corpo frágil, encontrava-se a voz poderosa de uma deusa do jazz e a alma de uma menina que sofria de amor e bulimia. Como é de conhecimento geral, Amy foi encontrada morta em casa no dia 23 de julho de 2011 vítima de intoxicação por álcool. Nesse documentário, Kapadia vale-se de arquivos de vídeo públicos e particulares para tentar entender o processo de ascensão e queda da cantora. Surpreendentemente, o diretor não furta-se de sugerir alguns culpados pelo fim trágico de Amy, mas é principalmente a possibilidade de aprender com o exemplo negativo, e não essa polêmica deveras sensacionalista, que tornam o material digno de ser apreciado e de concorrer ao Oscar.

Amy - Cena 2Kapadia, que claramente optou por explorar mais o período turbulento pós-Back to Black, acelera o início de tal forma que os mais desavisados poderão pensar que Amy fez sucesso da noite para o dia. Funciona mais ou menos assim: a cantora aparece falando de suas influências musicais, um amigo convida-a para gravar em um estúdio e pronto, o álbum Frank sai do forno e Amy assina um contrato de 6 dígitos. Fiquei com a sensação de que esse período, bem como a infância e a relação da cantora com os pais, poderia ter recebido mais atenção.

Como dito, não sou lá um grande fã do som dela (nada contra jazz, só falta de costume mesmo), mas, como sou apaixonado por música em geral, acredito que sei reconhecer quando vejo algo capaz de agradar quem é fanático por um artista. Asif Kapadia faz uso de uma edição caprichada para mostrar como deu-se o processo de composição de alguns sucessos da cantora, como Stroger Than Me e a já citada Tears Dry on Their Own, sobrepondo na tela imagens e letras, estas na própria caligrafia da Amy. À essas raridades, juntam-se ainda arquivos de vídeo filmados por amigos, onde é possível ver que ela era, de fato, uma pessoa simples e humilde, e gravações de shows do início da carreira, momentos especiais por mostrarem no palco uma artista segura de si e cheia de garra, ou seja, o oposto daquilo que ela transformou-se no final. A parte musical de Amy, ao meu ver, é sedutora: instigado pelo que vi e ouvi, providenciei os álbuns para futuras audições.

Amy - Cena 4Se o diretor não explora as raízes familiares de Amy, não podemos dizer o mesmo do conturbado relacionamento dela com Blake Fielder. O que começa naturalmente com uma conversa em um pub inglês desenvolve-se para uma relação de extrema dependência emocional que é interrompida quando ele decide voltar com a ex-namorada. Kapadia dá bastante enfoque no quanto o término da relação influenciou o processo de composição do Back to Black e depois, quando o álbum já havia estourado e elevado a carreira da cantora para um novo patamar, não priva-se de orquestrar a edição de modo a mostrar Blake como vilão da história. Não que ele não tenha tenha sido preponderante para o processo de decadência física e psicológica da cantora, visto, por exemplo, que foi com ele que ela começou a utilizar drogas pesadas como cocaína e heroína, mas retratá-lo como um parasita egoísta não diminui os erros de julgamento e escolhas equivocadas que ela, uma adulta, cometeu. O mesmo comentário vale para o retrato de um homem ganancioso que o diretor vende de Mitch Winehouse, pai de Amy: Mitch, cuja citação na letra da Rehab (And if my dad thinks I’m fine) pode ser entendida como uma denuncia de descaso com a saúde da filha, não é a figura paterna ideal, mas isso não coloca o peso da morte de Amy nas costas dele.

Amy - Cena 3Quando fala sobre o contexto que envolveu a morte prematura da cantora aos 27 anos (o que garantiu a ela uma ‘cadeira cativa’ no Clube dos 27, grupo formado por outros músicos famosos que morreram aos 27, como Janis Joplin, Kurt Cobain e Jimi Hendrix), Kapadia aponta ainda o dedo para a mídia, que acabou com a liberdade e a privacidade de Amy após ela vencer o Grammy em 2008. Novamente, não dá para discordar do diretor (ainda mais quando vemos as cenas onde ele mostra vários paparazzi fotografando-a freneticamente), mas, como dito no primeiro parágrafo, estou interessado mesmo é nas falhas individuais de Amy, não nas crueldades que o mundo cometeu com ela. Por que a bulimia? Por que uma pessoas tão talentosa entregou-se nas mãos de alguém sem maiores aptidões? Por que afundar nas drogas e na depressão quando obteve-se o sucesso profissional e financeiro pelo qual tanto lutou-se? Por que sabotar a própria carreira abandonado um palco de um festival sem cantar uma música sequer? Por que, Amy?

Incapacidade de lidar com a fama? Vontade de desaparecer? Imaturidade? Sinceramente, acredito que nem ela soubesse responder essas perguntas. Eu, que constantemente também não sei a resposta para situações semelhantes que enfrento no dia a dia, continuo servindo-me de exemplos dessa natureza para aprender a lidar melhor com os meus próprios demônios. Desistir? No, no, no!

Amy - Cena

Sicario: Terra de Ninguém (2015)

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SicarioNão gostei desse Sicario. Assim que o filme começou e eu vi o nome Denis Villeneuve nos créditos, acreditei que seria uma produção empolgante, dessas com um bom suspense e cenas perturbadoras, tal qual o foram Incêndios e Os Suspeitos, trabalhos que colocaram o diretor no mapa. É verdade que Sicario é bastante violento e sombrio, mas o fato de Villeneuve ter optado dessa vez por utilizar a própria narrativa para reforçar um dos pontos defendidos pelo roteiro (é impossível compreender completamente a realidade) transformam a experiência em um cansativo exercício ininterrupto de interpretação.

Durante a invasão de uma casa na fronteira dos Estados Unidos com o México, a equipe comandada pela agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt) descobre um cenário macabro: dezenas do corpos foram ocultados no interior das paredes do local por um cartel de drogas mexicano. Para piorar, uma armadilha explosiva é acionada no decorrer da invasão e mata vários policiais. Sabendo que está perdendo a guerra contra os criminosos, Kate aceita o convite para integrar uma equipe do governo comandada pelo eloquente Matt Graver (Josh Brolin), o qual pretende ir até o México caçar e eliminar diretamente o chefe do tráfico. Após ser apresentada à Alejandro (Benicio Del Toro), homem misterioso com quem ela deve cooperar, a agente do FBI viaja com seus novos companheiros até a cidade de Juarez, local que marcará o início de uma operação que mudará completamente a vida da personagem.

 Sicaro: Terra de Ninguém fala desses segredos e conspirações, tanto policiais quanto governamentais, que são ocultados do cidadão comum com a justificativa de que, se revelados, poderiam ocasionar a falência da sociedade civil tal qual nós a conhecemos atualmente. E se o tráfico de drogas, por exemplo, for organizado com a conivência e até mesmo com a colaboração do próprio governo? E se a polícia tiver homens andando por aí, com total liberdade para matar, visando a manutenção de um conceito de justiça questionável, porém funcional? Kate, que é uma policial idealista e uma mulher inocente, é apresentada para o lado feio do sistema, por assim dizer, quando aceita participar daquela operação. Ela vai até o México em busca de um nome, de uma pessoa para a qual ela pudesse atribuir a culpa por todas as atrocidades que ela vivenciou em sua luta contra os cartéis, mas o que ela acaba encontrando é uma realidade muito mais complexa e ameaçadora do que ela imaginara: o estado, muitas vezes, utiliza métodos tão ou mais perversos do que os dos criminosos para atingir seus objetivos.

Sicario - CenaSe Kate demora para entender o que está acontecendo, pobre do espectador, que assiste o filme através do ponto de vista dela. A personagem tem que trabalhar com homens que ela está vendo pela primeira vez, em uma cidade desconhecida e, para piorar tudo, não tem acesso a todos os detalhes da operação que será realizada. Ela certamente é uma profissional competente e bem intencionada, mas “só isso”, para desespero dela e de quem entende o mundo tal qual ele é mostrado em Sicario, acaba mostrando-se insuficiente para lidar com as questões maiores que estão em jogo. Esse sentimento de impotência é trabalhado por Villeneuve ao logo de todo o filme, mas acho que é no começo que ele mostra-se mais forte: a cara de “meu deus, não tô entendendo nada” que a Emily Blunt faz, tanto durante a primeira reunião em Juarez quanto no trajeto que o comboio policial realiza através da cidade, é impagável. Quem assiste, obviamente, não está muito melhor que a personagem, visto que Villeneuve, confirmando o que ele já havia mostrado anteriormente, é bom em ir conduzindo uma história entregando o mínimo de informação possível.

Sicario - Cena 2Os segredos por trás da estrutura do tráfico de drogas só são parcialmente revelados no final, mas a violência oriunda deles continua fácil de entender. Sicário tem 3 boas sequências de tiroteios e correria em que um monte de pessoas são mortas no conflito entre os policiais e os traficantes. Mesmo nesses momentos de ação, porém, Villeneuve insiste em povoar nossa cabeça com dúvidas: por que a polícia abriu fogo contra os bandidos em uma área repleta de civis? Eles não importam-se com a segurança da população ou matar gente inocente, nesse caso, é aceitável? Qual o verdadeiro papel de Kate na missão (visto que ela não participa das principais decisões e não é tão boa em combate quanto os outros agentes)? Quem é realmente Alejandro, um homem que age fora da lei e cuja brutalidade cada vez mais aparente não parece incomodar seus superiores?

Sicario - Cena 4Como dito no início desse texto, Villeneuve faz da própria narrativa do filme um meio de nos dizer que é difícil entender completamente a realidade. Kate é manipulada e fica a maior parte do tempo sem compreender nada porque, no fim das contas, é exatamente isso que acontece quando entramos em contato com os grandes problemas que afetam o mundo. Se a intenção de Sicário era nos fazer sentir pequenos diante da vida (e entendo que esse tipo de compreensão, mais do que impotentes, torna-nos pragmáticos), não há dúvidas de que ele é eficaz em seu propósito: é difícil assistir esse tipo de filme e continuar querendo encontrar soluções fáceis para as coisas. O sucesso dessa proposta, no entanto, é conseguindo sacrificando quase completamente o entretenimento. Mesmo em cenas que vão mais direto ao ponto, como a invasão do túnel que é mostrada através de uma “câmera noturna”, a necessidade do diretor de reforçar as dúvidas de Kate tornam tudo moroso, chato. O final, contrariando tudo que fora visto até então, é deveras didático e joga um bocado de luz no que fora apenas sugerido durante o longa, mas aí já é tarde demais: para chegar até ele, devo ter pausado o filme para matar o meu tédio fazendo outras coisas pelo menos umas 5 vezes. Entendi a proposta, mas gostar, gostar mesmo, gostei só da atuação do Del Toro, que está o diabo encarnado, da fotografia espetacular e da “cena do jantar” do final.

Sicário, que foi completamente ignorado pelo Globo de Ouro, concorrerá a 3 Oscars (Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora e Melhor Edição de Som). Assim como Syriana e A Hora Mais Escura, ele trabalha temas difíceis e importantes de forma séria, sem fazer grandes concessões para facilitar a vida do espectador. Sei da importância desse tipo de filme e, de vez em quando, acho que todo mundo deveria ver algo do tipo, mas nem por isso direi que ele é bom. Sicário é tipo tomar remédio, entendeu?

Sicario - Cena 3

Paraísos Artificiais (2012)

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Paraísos ArtificiaisEm 2012, quando Paraísos Artificiais foi lançado, não consegui encontrar motivos para assisti-lo. Pelo que entendi através do trailer, tratava-se de um longa sobre o universo das festas rave e de temas que lhes são comumente relacionados, como a juventude, drogas e música eletrônica. Como na época eu nem sonhava em frequentar esse tipo de ambiente, deixei passar a oportunidade de ver o filme no cinema e meio que acabei esquecendo dele. O tempo passou, tive minha primeira (e traumática) experiência em um desses eventos e, recentemente, reencontrei o Paraísos Artificiais dentre os títulos disponíveis no Netflix. Dessa vez, a minha indiferença foi vencida por duas curiosidades distintas:

  1. Haveria no filme algo tão bizarro quanto o que experimentei pessoalmente na festa que fui no começo desse ano?
  2. Por qual motivo os usuários do Netflix avaliaram o filme negativamente (nota 2 de 5)? Teriam eles estranhado o tema ou, de fato, a produção comandada pelo diretor Marcos Prado seria um desastre?

Antes de contar-lhes sobre a terrível noite em que paguei 5 reais para beber uma lata de cerveja Crystal quente, vamos a segunda pergunta formulada ali acima. Obviamente, não tenho como precisar o motivo de outras pessoas terem rejeitado o filme, mas arrisco dizer que a maioria delas deve ter ficado perdida com a narrativa proposta pelo diretor. Marcos Prado, que fez seu nome no mercado cinematográfico nacional produzindo os dois Tropa de Elite, dispensa a linearidade temporal para contar uma história relativamente simples de ascensão e queda que tende a tornar-se confusa depois de algum tempo devido ao uso constante de flashbacks. Nando (Luca Bianchi) e Patrick (Bernardo Melo Barreto) vão para uma rave organizada em um local paradisíaco na costa nordestina. Lá, eles planejam viver um final de semana inesquecível, expectativa semelhante as de Lara (Lívia Bueno) e Érika (Nathalia Dill), duas amigas repletas de sonhos e vontade de vivenciar novas experiências. Os desdobramentos desses dias de liberdade absoluta, infelizmente, muda para pior a vida de todos.

Paraísos Artificiais - Cena 4Se fosse necessário, de forma bastante simplória, extrair uma “lição de moral” de Paraísos Artificiais, poderíamos dizer que o filme está nos dizendo que “as drogas não compensam” ou até mesmo que “não há ação sem reação”. O roteiro, que também é assinado pelo diretor, tenta desconstruir o glamour, por assim dizer, das festas rave e suas viagens de ácido assim como os Tropa‘s o fizeram com a romantização do crime que não raramente pode ser vista nas produções nacionais. Marcos quer que o espectador saiba que o caminho das drogas, seja o do consumo ou o do tráfico, é ilegal e destrói vidas e famílias. A intenção, inquestionavelmente boa, esbarra no formato proposto pelo diretor para difundi-la: optar por um “vai-e-vem” narrativo cujo maior mérito é guardar uma revelação para o final foi uma decisão infeliz. Em produções semelhantes, como Réquiem Para um Sonho, é justamente a linearidade da história que faz com que os últimos acontecimentos da trama tenham o peso que tem. Aqui, a quebra da linha temporal me fez olhar com indiferença, por exemplo, para as cenas desconexas que falam sobre a morte do pai de Nando.

Paraísos Artificiais - Cena 3Se a história decepciona, tanto pela superficialidade quanto pela narrativa equivocada, os outros elementos que compõe o filme também não conseguem agradar. A música é boa mas nunca é tocada tempo suficiente para empolgar, as experimentações visuais que emulam o uso drogas tem pouco espaço dentro da trama (basicamente, a cena dos ‘bois’ e essa aí do pôster) e a pegação entre as delicinhas Nathalia Dill e Lívia de Bueno, apesar de “estimulante”, não deixa de soar forçada. Para não dizer que nada funciona 100%, a fotografia está acima da média, capturando com precisão tanto a melancolia e a escuridão quando os personagens estão “na pior” no estrangeiro quanto a luz, o sol e a alegria quando eles estão fritando na rave. Falando em rave, paro por aqui o meu relato sobre o filme (resumindo: é chato e mal executado) para contar-lhes a experiência que vivi.

Paraísos Artificiais - CenaQuando fui morar em São José dos Campos-SP em 2012, conheci um cara que é um frequentador apaixonado de raves. De tanto conversar com ele e ouvir maravilhas sobre as festas, decidi que um dia eu experimentaria ir em uma. Cerca de 3 anos depois, surgiu a oportunidade perfeita: o local era perto, o preço do ingresso era bom e os organizadores tinham boas referências. O que deu errado? Tudo. Como os bombeiros negaram conceder alvará para a festa ser realizada no local previsto, os organizadores improvisaram toda a estrutura que eles haviam preparado em um novo lugar, uma chácara que ficava do lado do fim do mundo. A mudança, no entanto, não foi o pior da noite: a chuva recente transformou o local em uma piscina de lama, a cerveja era ruim, quente e cara, a única opção de comida era um espetinho de carne de monstro, os banheiros estavam num estado indescritível e a música, no final das contas, foi tocada através do som de um carro. Desconfiando que nenhum tipo de droga no mundo seria capaz de mudar essa realidade decepcionante, fui embora menos de 3 horas depois de ter chegado e terminei a noite em uma sorveteria rs Sei que, devido aos imprevistos, eu nem posso falar que vivi a experiência real de uma rave, mas esse episódio e o que vi em Paraísos Artificiais (observem a cara de psicopata do ator Bernardo Melo Barreto ‘dançando’) não me deixam nenhum pouco animado em tentar uma segunda vez.

Paraísos Artificiais - Cena 2

Cássia Eller (2015)

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Cássia EllerA minha primeira lembrança da Cássia Eller não poderia ser mais estereotipada. Em 2001, quando eu era um adolescente que curtia Backstreet Boys, assisti uma edição do Jornal Nacional em que mostraram parte da apresentação da cantora no Rock in Rio. No palco, Cássia cantava, sorria e mostrava os peitos para uma platéia enlouquecida. Vendo aquilo, tudo o que meu cérebro juvenil conseguiu processar foi “Que pessoa maluca!”. Eu não conhecia o trabalho da artista, ignorava as particularidades da vida pessoal da mulher e isso, acrescido da minha imaturidade, não me permitiu vê-la além daquele gesto inesperado e transgressor.

Mudaram as estações, tudo mudou: coloquei as boybands no cantinho da nostalgia,  apaixonei-me por rock e heavy metal, saí do sofá e fui conferir o Rock in Rio ao vivo e, no meio de tudo isso, conheci a Cássia Eller. Conheci? Segundo a própria, nem mesmo quem conversou com ela ou até mesmo foi para a cama com ela conheceu-a por completo, quem dirá então alguém que leu uma ou outra matéria por aí e que passou algumas tardes ouvindo o Acústico MTV dela. Cássia Eller, documentário do diretor Paulo Henrique Fontenelle, joga uma pouco de luz tanto na carreira quanto na vida pessoal da cantora e, ainda que isso não seja suficiente para dissecá-la (se é que isso seja realmente possível), contribui para o enriquecimento do nosso olhar para o próximo e nos estimula, através do relato de uma força criativa indomável, a valorizarmos nossas particularidades e transformá-las em nosso meio de interação com o mundo.

Cássia Eller - Cena 3Fontenelle opta por iniciar sua narrativa não exatamente a partir do nascimento da Cássia mulher, que até é citado, mas sim do nascimento da Cássia como artista, que aconteceu entre seus 14 e 18 anos quando ela ganhou um violão, interessou-se por rock e iniciou sua carreira realizando apresentações em casas de show em Brasília. Através de fotos e relatos de pessoas que conviveram com ela no período, o diretor começa a construir aqui um dos principais argumentos de seu documentário: Cássia era, sobretudo, uma pessoa tímida que utilizava a arte como forma de extravasar suas emoções. Em um episódio engraçado contado pelo músico Oswaldo Montenegro, que na época comandou a cantora em um espetáculo teatral, ficamos sabendo de uma menina retraída que foi capaz de raspar as sobrancelhas e substitui-las por traços de canetinha para viver um personagem, comportamento que, antes de revelar a contradição de uma pessoa que definia-se como tímida, reforça a ideia de alguém que utilizava a extravagância como escudo contra a falta de aptidão para o convívio social.

Cássia Eller - CenaA bissexualidade de Cássia, fato de conhecimento público, poderia ser abordada pelo diretor em um tom demasiadamente respeitoso e politicamente correto, mas felizmente não é assim. Talvez naquela que seja a primeira menção do assunto no filme, Maria Eugênia, companheira com quem a cantora conviveu da adolescência até a morte, relembra e conta (da forma mais desbocada possível) do dia em que elas se conheceram. Apresentadas por amigos após o término de um show, Maria Eugênia, que então estava acompanhada por um namorado, diz que a simples presença de Cássia fez com que ela “arrepiasse até os cabelos do cu”. Palmas para o diretor, tanto por não estender-se além do necessário nessa questão da sexualidade (já que trata-se de uma decisão de fórum íntimo que DEVE ser respeitada), quanto por manter esse tom informal, por vezes até chulo, dos depoimentos. Cássia era poesia, mas também era alguém que cantava sobre um príncipe chato que “vivia dando no saco” dela, ou seja, falar sobre sua vida em tom moralista e com discursos “certinhos” soaria falso. Essa “naturalidade”, aliás, também é usada para tratar o tema das drogas, outro assunto polêmico que Fontenelle trata pragmaticamente: ela usava  e isso também dizia respeito somente a ela.

Cássia Eller - Cena 2Cassia Eller conta ainda sobre a gravação do primeiro álbum da cantora, do início das críticas positivas, da fama e seus perrengues, traz curiosidades sobre seus principais hits (Malandragem, composição de Frejat e Cazuza, foi recusada pela cantora Ângela Ro Ro para depois tornar-se o maior sucesso de Cássia) e narra sua ascensão ao estrelato que culminou na icônica apresentação no Rock in Rio e na gravação do Acústico MTV. Fontenelle é competente e inventivo para seguir a linha temporal da vida da artista, resgatando arquivos de foto e vídeo que mostram-na ora no conforto de casa cuidando de seu único filho, Chicão, ora em programas de TV morrendo de vergonha das perguntas majoritariamente boçais feitas pelos apresentadores. O diretor nos empolga com as histórias de bastidores que envolveram a execução da Smells Like Teen Spirit no Rock in Rio (o Dave gostou!) e nos faz rir com a quantidade de vezes que ela errou a letra da Vá Morar com o Diabo na gravação do Acústico mas, inevitavelmente, chega o momento em que ele precisa falar sobre o fim trágico e prematuro que ela encontrou no fim de 2001 e aí fica difícil conter as lágrimas. Antes de falar disso, porém, permitam-me um parágrafo mais pessoal.

Cássia Eller - Cena 5Não, eu ainda não posso dizer que conheci a Cássia Eller. Eu adoro o Acústico MTV do fundo do meu coração, mas ouvi pouquíssimo material dela fora desse álbum. Seria falsidade, portanto, falar-vos que sou um grande fã da cantora. O que posso dizer com toda sinceridade após assistir esse documentário é que, minimamente, ele mudou aquela visão que eu meio que encubei acriticamente lá na adolescência de que ela fosse uma doidona que mostrava os peitos no palco. Amadureci um pouquinho assistindo Cássia Eller. Entendo agora que o que vi (e o que geralmente vemos quando olhamos para o próximo), nada mais foi do que uma máscara que ela utilizava para conseguir suportar sabe-se lá quais paranoias e fobias sociais que ela carregava. Nisso, é significativo quando o Nando Reis aparece para dizer que o sucesso da parceria entre eles deu-se principalmente devido a identificação que eles sentiram com as esquisitices um do outro. Com a música, eles encontraram um meio de sobreviver e transformar essa timidez/estranheza trazidas no coração em algo belo e sincero da mesma forma que eu, que tenho uma dificuldade enorme para expressar-me pessoalmente sobre o que gosto, utilizo esse blog para sistematizar meus pensamentos sobre cinema. O que fica da “maluca de moicano” que cantava com tanta sinceridade “quem sabe eu ainda sou uma garotinha” é o exemplo de que a arte é um caminho para superarmos dificuldades e ofertarmos para o mundo o que há de melhor dentro de nós.

Cássia Eller - Cena 6Essa identificação forte e sincera com o que vi, com a pessoa humana, demasiadamente humana que ela foi (é bom que Fontenelle inclua relatos dos ataques ocasionais de raiva, medo e frustrações dela), provocaram introspecção e me fizeram chorar um bocado na parte final do documentário que trata da morte de Cássia. O enterro, com os fãs enchendo o lugar e cantando Por Enquanto, é desolador. É extremamente bom que o diretor faça justiça a família e a memória da cantora reforçando que o laudo excluiu a possibilidade da morte por overdose (Veja, eu quero é que você se top, top, top!) e que, no fim, o clima de tristeza seja substituído pela alegria da vitória revolucionária que Maria Eugênia conseguiu na justiça pela guarda de Chicão e que o menino, já um adolescente, esteja feliz e com os mesmos trejeitos da mãe, provas de que a influência de todas aquelas belezas que ela tirou do fundo do coração não foram apenas palavras pequenas ao vento. Se eu gostei? Estranho seria se eu não gostasse tanto assim 🙂

Cássia Eller - Cena 4