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Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (2017)

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Ao que tudo indica, após 14 anos e 5 filmes, a série Piratas do Caribe finalmente encontrou seu ponto final com A Vingança de Salazar. Da minha parte, Jack Sparrow (Johnny Depp) e cia não deixarão muita saudade. Sei que Hollywood tem várias franquias que já estão fazendo hora extra, mas sempre visualizo piratas tomando rum num cenário tropical quando penso numa história que passou da hora de acabar (Navegando em Águas Estranhas, o último filme lançado em 2011, foi pura enrolação). Coube a dupla de diretores noruegueses Joachim Rønning e Espen Sandberg a tarefa de conduzir este último capítulo, tarefa que eles realizaram com dignidade devido a experiências anteriores com filmagens marítimas, mas fica claro o tempo todo da projeção que não há mais nada para ser dito por aqui.

Eis o roteiro: Quando novo, Jack enfrentou e venceu o Capitão Salazar (Javier Bardem) em uma batalha marítima. Salazar desejava exterminar todos os piratas do mar mas não foi capaz de superar seu jovem adversário, que valeu-se de uma manobra arrojada para destruir a embarcação do Capitão espanhol e dizimar toda sua tripulação. Anos mais tarde, Salazar retorna do mundo dos mortos disposto a vingar-se de Jack, cuja única chance de fazer frente a seu adversário sobrenatural é encontrar o Tridente de Poseidon, um artefato mítico que, segundo a lenda, garante o controle dos mares para quem o possuir.

Tal qual sempre faço antes do lançamento de um novo filme de uma franquia, peguei todos os Piratas do Caribe para rever. Faço isso para recordar a história e os eventos que fatalmente serão citados na nova produção. Recentemente, por exemplo, revisitei todos os 7 Star Wars antes de ver o Rogue One e os 8 Harry Potter antes de ir assistir o Animais Fantásticos e Onde Habitam. Com o Piratas, eu não consegui passar do O Baú da Morte, que é o segundo numa lista de 4. Por que isso aconteceu? Eu até posso alegar falta de tempo, visto que ando numa correria danada, mas a real é que me faltou saco para ficar sentando 2h15min na frente da TV (que é a média de duração dos filmes da série) assistindo sequências intermináveis de ação e humor pastelão. Um filme assim? Ok. 5? Não, obrigado.

E foi assim, sem muitas lembranças da história, que eu entrei no cinema para ver A Vingança de Salazar. Sinceramente? Não senti muita diferença. De tudo o que foi mostrado, só fiquei perdido quanto ao fato do navio Pérola Negra estar dentro de uma garrafa (e o Wikipédia me ajudou a lembrar que isso aconteceu após uma batalha com o Barba Negra), de resto consegui acompanhar numa boa. Algumas histórias paralelas, como o arco em que o novato Henry Turner (Brenton Thwaites) tenta quebrar a maldição de seu pai (Orlando Bloom) e as cenas envolvendo o agora ricaço Capitão Barbossa (Geoffrey Rush), até exigem algum conhecimento prévio da trama, mas nada que deixe o filme incompreensível para quem estiver tendo aqui o seu primeiro contato com os piratas. Essa “leveza” do roteiro pode até ser perfeita para o o chamado público ocasional, pessoas que vão ao cinema em busca de entretenimento rápido e simples, mas torna-se insustentável e insuficiente para quem acompanhou a série desde o início.

Jack Sparrow, que não mudou praticamente nada desde que deu as caras em 2003 no ótimo A Maldição da Pérola Negra, continua enchendo a cara de rum, paquerando as mulheres alheias e correndo daqui e dali realizando façanhas aparentemente impossíveis. A abertura de A Vingança de Salazar, aquela cena do roubo do cofre, condensa todos esses elementos e apresenta novos personagens para o público, Henry e Carina Smyth (Kaya Scodelario), dupla que reedita sem muita criatividade o que outrora foi feito por Will e Elizabeth Swann (Keira Knightley). Trata-se de um correria infernal repleta de efeitos especiais e de artifícios cômicos, mas tão logo a cena termina a gente já esquece de praticamente tudo o que aconteceu. Vi o filme domingo. Lembro que Jack e sua tripulação estavam tentando roubar um cofre, mas tenho dificuldades para falar sobre detalhes do ocorrido. Como ainda não fui diagnostico com Alzheimer, fico inclinado a pensar que a confusão visual típica da série (e dos blockbusters no geral), apesar de divertida, é bastante descartável.

As coisas melhoram um pouco nas gigantescas batalhas de navio. Antes de encontrar sua inevitável derrota, Salazar realiza um estrago considerável na frota inglesa e nas embarcações do Barbossa, cenas estas que ganham um tom sombrio graças à trilha sonora forte e à hábil condução dos diretores. Também vejo qualidade nas atuações do Geoffrey Rush e do Javier Bardem e, mesmo considerando que o Jack Sparrow acabou transformando-se numa paródia de si mesmo, continuo gostando do trabalho do Johnny Depp, mas, no geral, Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar é bastante repetitivo e frustrante. Torço para que aquele final piegas seja realmente o último ato da série e para que, por mais lucrativo que seja, a Disney não invente uma nova desculpa para trazer Jack e cia de volta.

A Bela e a Fera (2017)

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Apesar dos avisos do pastor Silas Malafaia, optei por correr o risco de “virar gay” e fui conferir esta nova versão do conto de fadas francês A Bela e a Fera. No vídeo que pode ser visto clicando no link acima, Malafaia acusa a Disney de “comprar a agenda gay” e de ensinar sexualidade para o público, especialmente para as crianças. Segundo o pastor, a decisão do estúdio de incluir no filme um personagem abertamente homossexual (LeFou, interpretado pelo Josh Gad) é uma tentativa “asquerosa e nojenta” de erotizar a molecada.

Malafaia gravou o tal vídeo no dia 02/03 e, segundo o IMDB, A Bela e a Fera (e o LeFou) só estreou no Brasil no dia 16/03, ou seja, é bem provável que ele emitiu aquela opinião ANTES de ver o filme. É claro que o pastor pode ter tido acesso ao material em uma pré-estreia exclusiva, mas o que me parece é que, ciente das informações que foram divulgadas sobre o personagem antes do lançamento, Malafaia adiantou-se e convidou seus seguidores a boicotarem o produto da Disney.

Faço essas considerações pois, por mais que eu preze pelo respeito às crenças alheias, não consegui encontrar em A Bela e a Fera o conteúdo preocupante apontado pelo Malafaia. É fato que o LeFou está mais purpurinado do que seu correspondente da animação de 1991, mas daí a dizer que o filme propõe-se a erotizar crianças e ensinar-lhes sexualidade é um absurdo, o tipo de erro grotesco que geralmente é cometido por quem fala de algo que não sabe (ou não viu). Tal qual fazia anteriormente, o personagem continua beijando o chão que o Gaston (Luke Evans) pisa e cantando sua canção que enaltece as “qualidades” do valentão. Os trejeitos dele não deixam dúvidas que, se pudesse, ele beberia daquela água, mas é só. Sem beijos, sem carícias, sem nada que os pais de uma família tradicional precisem tampar os olhos dos filhos por medo deles saírem do cinema arrotando arco-íris. É, portanto, no mínimo quixotesca a preocupação do pastor com o LeFou. O fato de haver revolta contra a homossexualidade do personagem e silêncio contra o machismo e a truculência de Gaston, que continua querendo obrigar Bela (Emma Watson) a casar-se com ele para massagear-lhe os pés, diz muito a respeito das prioridades e do caráter do Malafaia.

Eu, que continuo gostando de mulheres a despeito dos esforços do simpático LeFou, também sigo apreciando musicais e acredito que dificilmente veremos algo tão bom do gênero nos cinemas esse ano quanto esse A Bela e a Fera. Conta-se que, inicialmente, a intenção da Disney era refilmar a história como um longa metragem comum, sem as músicas, ao que o diretor Bill Condon (dos dançantes Dreamgirls e Chicago) respondeu “Vocês são loucos? Pretendem fazer uma adaptação enorme e bonitona e deixar ‘Be Our Guest’ de lado?”. Que bom que deram ouvidos ao diretor: a tecnologia atual e a grandiosidade dos figurinos e dos cenários, por si só, já tornariam esta versão válida e interessante, mas é na parte musical que a história continua tocando nossos corações.

Nesse conto tão velho quanto o próprio tempo (na verdade, ele foi escrito em 1740 pela francesa Gabrielle-Suzanne Babot), Bela é uma garota entediada pela vida provinciana que a cerca. Num mundo organizado para que as maiores ambições de uma mulher sejam encontrar um marido e cuidar da casa, Bela é uma inventora apaixonada por livros que espanta todos tanto por seu jeito independente quanto por resistir aos avanços do bonitão Gaston, o solteirão mais cobiçado do vilarejo. Certo dia, Maurice (Kevin Kline), o pai de Bela, é capturado por uma fera monstruosa (Dan Stevens) e preso nas masmorras de um castelo. O crime dele? Colher uma rosa do jardim da propriedade para levar para a filha. Procurando reparar a injustiça, Bela oferece para trocar de lugar na prisão com o pai, proposta que é aceita pela Fera com a condição de que a moça nunca mais abandone o local.

Quem viu a animação sabe que a Bela e a Fera irão se apaixonar (ele pelo caráter dela, ela pela intelectualidade e coragem dele) e que isso quebrará o feitiço que havia transformado o príncipe egoísta numa criatura monstruosa. Gaston, obviamente, não ficará nada feliz em ser preterido por uma bola de pelos gigante e incitará a população do vilarejo a atacar o castelo, o que provocará uma batalha épica e divertida onde relógios (Ian McKellen), candelabros (Ewan McGregor) e bules de chá (Emma Thompson) colocarão todo mundo para correr. Condon respeitou a estrutura principal da história, mas retirou os excessos (a invenção maluca de Maurice, o velho calhorda do hospício), adicionou subtramas (a mãe e a infância de Bela) e 3 novas canções (How Does a Moment Last Forever, Days in the Sun e Evermore). Essas alterações, longe de comprometerem passagens e memórias caras aos fãs, tornaram a história mais coesa, principalmente no tocante à luz que é jogada no passado trágico da protagonista.

Ainda que conserve elementos de magia e diversão comumente associados à infância, de modo geral este A Bela e Fera está um pouco mais adulto e sombrio do que seu antecessor, tanto pela forma mais incisiva de abordar temas como o machismo (Emma Watson não economizou desprezo no olhar ao encarar o tosco Gaston) quanto pelo visual: se o Fera da animação era uma espécie de cachorrão que dava vontade de fazer um cafuné, esta nova versão, com chifres de bode e tudo mais, parece o próprio filho do cramunhão. Todo caso, cumpriu-se bem a tarefa de atualizar a história atemporal do poder da beleza interior para esta geração: as reencenações da psicodélica Be Our Guest e da apaixonante Beauty and the Beast utilizaram o que há de melhor em computação gráfica para criar um espetáculo soberbo em 3D e, no fim, o prepotente e arrogante Gaston voltou a receber o que ele merece, tal qual deve ser. Acreditem, não há o que boicotar aqui: a Disney acertou em transformar um de seus maiores clássicos em um magnífico live action e continua de parabéns por, mais do que desenvolver produtos para entreter crianças, preocupar-se em levar exemplos de diversidade e respeito às diferenças para as telas de cinema. Quero mais Mickey e menos Malafaia.

Zootopia (2016)

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zootopiaLevando em consideração a temática engajada e o visual soberbo, eu daria o Globo de Ouro de Melhor Animação de 2017 para o Moana. Não é por isso, porém, que eu começarei esta resenha dizendo que a vitória do Zootopia foi injusta. Eu ter morrido de amores pela aventura da menina que queria navegar o oceano não me impede de reconhecer os muitos predicados que este filme tem, a começar pelo roteiro. Como quero comentar alguns detalhes da história (e considerando que a animação foi lançada no início do ano passado), o texto conterá SPOILERS, capiche?

Tal qual o título sugere, Zootopia é uma utopia vivida por animais, ou seja, uma fábula onde os protagonistas habitam uma sociedade ideal e harmônica nos moldes daquela imaginada pelo escritor inglês Thomas More. Basta alguns minutos de filme, no entanto, para que a gente perceba que a perfeição daquele mundo é bastante relativa. Ainda que exista um pacto de não agressão entre presas e predadores (o que permite que espécies diferentes convivam no mesmo espaço), a cidade onde a história desenvolve-se está lotada de sujeitos de caráter duvidoso. Brigões, políticos corruptos, vendedores de drogas, mafiosos e vendedores de DVD’s piratas (!!!) misturam-se aos trabalhadores de Zootopia, o que torna a presença da polícia indispensável para manter a paz e a ordem.

Desde pequena, a coelha Judy Hopps sonhou em seguir a carreira policial. Desencorajada pelos pais e pelos amigos, que julgavam-na muito pequena e fraca para a profissão, Judy valeu-se de sua inteligência e de uma força de vontade sem igual para estudar e realizar os exames de admissão. Aprovada, a personagem muda-se para a cidade de Zootopia louca para caçar e prender alguns bandidos, mas tudo que ela consegue é um entediante cargo de agente de trânsito. Judy até tenta resignar-se e transformar-se em uma eficiente máquina de emitir multas, mas logo o misterioso desaparecimento de 8 animais dará a oportunidade perfeita para ela provar o seu valor como policial e, de quebra, livrar a cidade de uma grande ameaça.

zootopia-cena-4Antes de falar sobre a natureza moral do roteiro de Zootopia, devo dizer que gostei demais da pegada da história, que é baseada em uma investigação e lembra o que há de melhor nos filmes noir hollywoodianos da década de 40/50, com os personagens visitando toda espécie de inferninho à procura de pistas que possam levá-los até o vilão. Logicamente, o material escrito e dirigido pelos cineastas Byron Howard e Rich Moore é suavizado, logo os prostíbulos e bares copo sujo cedem espaço para ambientes menos polêmicos e potencialmente engraçados, como um clube de nudismo, mas ainda assim foi muito legal ver a Disney investir em uma narrativa menos convencional que atravessa o submundo e dá voz a personagens marginais como o malandrão Nick Wilde.

Minha memória não anda lá essas coisas (já tô do tipo que precisa anotar senhas e datas), mas lembro que os primeiros trailers de Zootopia davam a entender que o protagonista da história era o Nick, e não a Judy. Acontece que, nas audições-teste que foram realizadas antes do filme ser lançado, os produtores perceberam que o público não foi muito com a cara de Nick, logo o roteiro foi reescrito e o foco da história mudou. Não é difícil entender o porque disso ter acontecido. Eu, que sou adulto e senhor do meu próprio lar, gostei bastante do personagem, mas imagino que um pai possa ficar desconfortável ao ver no papel de protagonista um raposo que ganha a vida aplicando golpes na praça com a ajuda de um anão. Nick é um sobrevivente, descolado e inteligente, mas o esforço e a honestidade de Judy vendem mais e sintetizam melhor a reconfortante ideia de que, no fim, o bem sempre vencerá o mal.

O final de Zootopia, como o da maioria das fábulas, é moralista e didático. Crime e castigo são faces da mesma moeda, ou seja, se você fizer merda, você irá se ferrar. Antes do chinelo comer, porém, o roteiro dá um nó na cabeça de quem enxerga o mundo em preto e branco e vale-se de uma inversão de estereótipos para fazer o público pensar. Num cenário comum, ovelhas são vítimas e leões são vilões, certo? A tendência é que  torçamos sempre para o Davi, mas nossa simpatia pelo mais fraco não pode impedir-nos de ver que, as vezes, é o Golias que está sendo sacaneado. A gente acha normal quando o prefeito Lionheart é acusado de ser o responsável pelo sumiço dos 8 animais, afinal de contas ele é um predador e não seria estranho ele obedecer ao próprio instinto e quebrar o pacto de não-agressão. Grande é a nossa surpresa, portanto, quando a ovelha Bellwether, secretária do prefeito, é desmascarada no fim, revelando seu plano para amedrontar e confundir a população de modo que ela pudesse chegar ao poder. É sempre importante reforçar que, por mais tentador que seja, não devemos deixar-nos levar pelas primeiras impressões.

A ótima história de Zootopia é enriquecida pelos detalhes. Eu, que nunca me cansarei de referências ao O Poderoso Chefão, adorei o personagem Mr. Big, versão fofinha do Don Corleone que, no dia do casamento de sua filha, ajuda Judy e Nick fazendo ofertas irrecusáveis para alguns vilões. Boa também é a cena de sintetização de drogas, momento que será celebrado pelos fãs da série Breaking Bad, e a barraquinha de DVD’s pirata do loucão Duke Weaselton, na qual encontra-se versões paralelas de várias animações recentes da Disney, como Pig Hero 6 (Operação Big Hero) e Wreck-It Rhino (Detona Ralph). Por fim, apesar de ter uma pegada levemente mais sombria e adulta, Zootopia tem aquela ótima piada do bicho preguiça, que você certamente viu (e riu) nos trailers e que fica ainda melhor quando inserida dentro da história como uma (infelizmente) válida crítica ao funcionalismo público. Pessoalmente, continuo preferindo o Moana, mas Zootopia é bom o suficiente para merecer sua atenção.

Moana: Um Mar de Aventuras (2016)

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moana-um-mar-de-aventurasMinha primeira impressão sobre o Moana não foi das melhores. Sabem aqueles vídeos educativos que são exibidos antes da sessão começar? Pois bem, o Cinépolis valeu-se dos personagens da animação para pedir silêncio para os espectadores (o que é bastante válido), mas o fez de um jeito meio bosta. “Hey, desliguem seus concha-fones!”. Concha-fone é o seu celular, entendeu? Engraçado, né? Imaginei um filme inteiro com piadas desse tipo e considerei seriamente não assisti-lo.

Mudei de opinião por 2 motivos:

  1. Moana foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Animação (perdeu para o Zootopia) e também deve concorrer ao Oscar.
  2. Os primeiros comentários sobre o filme foram animadores.

Quando digo “animadores”, não me refiro a opiniões genéricas do tipo “interessante” ou “tomara que tenha continuação”. Quem comentou sobre Moana comemorou o engajamento do roteiro, que rompe com estereótipos comuns às produções do gênero ao colocar como protagonista uma menina negra cujo maior sonho nem de longe é ser princesa. Há quem ache esse tipo de iniciativa uma bobeira, mas há também quem reconhece a importância de valorizar e celebrar as diferenças da nossa espécie através da arte. Como faço parte desse segundo grupo, comprei meu ingresso (no moderno Cinemais da cidade de Araxá-MG) e entrei no cinema ansioso para saber o que a Disney tinha a dizer sobre representatividade.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-3Antes de falar do filme, porém, vale uma salva de palmas (CLAP!) para o brasileiro Leonardo Matsuda, diretor do curta-metragem Trabalho Interno que é exibido antes de Moana. Leonardo dá características humanas para os órgãos internos de um funcionário de um escritório e promove uma divertida disputa entre o cérebro (razão) e o coração (emoção). Dividido entre a necessidade de trabalhar e a vontade de divertir-se, o sujeito passa por poucas e boas até perceber que, organizando, dá pra fazer de tudo um pouco. Além do bom conselho, o diretor também nos diz que é “ok” fazer xixi no mar e que não há problemas em encher o bucho de comida. Boa, Leonardo!

Conta-se que, no início dos tempos, havia um belo e vasto oceano. Te Fiti, deusa da vida, criou os continentes, as ilhas e os seres vivos. Tudo correu relativamente bem até o dia em que Maui (voz do Dwayne Johnson), um semideus transmorfo (ser com capacidade de assumir a forma de animais), decidiu roubar o coração de Te Fiti, o que deu início a uma maldição que atravessou gerações provocando morte e destruição. Muitos anos depois, em uma ilha do Pacífico Sul, a jovem Moana (voz da Auli’i Cravalho), membra da família real e herdeira do trono, decide fazer algo para impedir que a tal maldição castigue seu povo. Contrariando a vontade do pai, Moana atende ao chamado do oceano e parte em busca de Maui para que ele devolva o coração de Te Fiti e restabeleça a paz.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-5Para contar essa história de deuses e maldições, os diretores Ron Clements e Jon Musker (de A Pequena Sereia e Aladdin) buscaram inspiração em mitos dos povos polinésios, o que por si só é bacana por demonstrar o desejo de produzir algo fora do eixo Estados Unidos/Europa. Seria uma pena, porém, se essa iniciativa ficasse restrita a explorar os elementos que nos são exóticos da cultura oriental, mas não é isso que acontece. Lê-se no IMDB que os diretores investiram meses de pesquisas e imersão na cultura polinésia de modo que o filme fosse fiel e respeitoso àquele povo. Assim sendo, Moana mostra um paraíso terreno no qual todos nós gostaríamos de passar alguns dias de férias, mas também mostra um povo politicamente organizado, dominante de técnicas avançadas de navegação e que vive em perfeita harmonia com a natureza.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-4O fato de Moana ser negra também é importante, mas não é exatamente uma novidade na história recente da Disney. Em 2009 a empresa já havia nos dado Tiana, protagonista de A Princesa e o Sapo,  e a própria Pocahontas, do filme homônimo de 1995, era uma índia morena/negra. O que merece ser comemorado é recorrência do tema (que é intercalado pelo tradicionalismo de Enrolados/Frozen e pela diversidade étnica de Lilo & Stitch/Mulan, configurando pluralidade) e, claro, a associação dele a outras causas tão válidas quanto, como a luta pela igualdade de gêneros. Em sua aventura para devolver o coração de Te Fiti, Moana caminha sempre ao lado de Maui. Nem atrás, nem a frente: ao lado. Moana nega a condição de “princesa bonitinha com um mascote” e faz questão de contribuir e arriscar o pescoço tanto quanto Maui na perigosa missão de cruzar o oceano. Naquela que talvez seja a cena mais significativa nesse sentido, a menina pede para que o semideus ensine-a fazer um laço. Diante da recusa dele, que duvida da capacidade dela, a personagem bate o pé e afirma que ela tem condições sim de aprender e de ajudar. Moana faz o laço, ensina uma ou duas coisas para Maui e juntos, como companheiros e não como concorrentes, eles triunfam. É uma bela forma de falar sobre igualdade para crianças (e para adultos que insistem em repetir comportamentos e discursos do século passado).

moana-um-mar-de-aventuras-cena-2Moana levanta bandeiras e posiciona-se sobre assuntos que são debatidos diariamente nas redes sociais, mas isso não torna-o cansativo ou contraindicado para quem não importa-se com essas discussões e deseja apenas ver uma aventura mais tradicional, com comédia e ação. Fora as 3 grandes sequências de correria/luta (navio Krakamoa, encontro com o caranguejo Tamatoa e confronto final com Te Ka), Moana conta ainda com bons personagens de apoio (o galo zureta Hei Hei e a vó malucona/bonitinha), vários eastereggs (notei o Godzilla e a lâmpada do Aladdin) e, claro, com aquelas músicas que fazem você sair do cinema querendo cantar. Linko aqui a How Far I’ll Go, que é infinitamente melhor do que a Let it Go do Frozen, e a You’re Welcome, uma ode ao egocentrismo (Eu arrasei, eu sei, de nada!), e termino este texto com uma dica valiosa: assistam em 3D. O oceano de Moana e a cena do Tamatoa, que troca de cor no escuro num dos efeitos mais bonitos que vi recentemente em uma animação, valem cada centavo pago pelo recurso.

Rogue One: Uma História Star Wars (2016)

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rogue-one-uma-historia-star-warsEste texto conterá SPOILERS e uma história sobre como o Cinépolis Uberlândia-MG me ferrou.

Eu dormi assistindo Rogue One. Por mais triste que seja, esta é a realidade e eu não pretendo fugir dela. Acredito que, após ler o próximo parágrafo, vocês acabarão entendendo que eu fui vítima de uma armação do capiroto, mas isso não diminui a minha vergonha por ter cochilado na estreia do melhor filme do ano.

Comprei ingressos para a pré-estreia de Rogue One: Uma História Star Wars com cerca de uma semana de antecedência. Na máquina de autoatendimento do Cinépolis, a sessão estava marcada para as 00:01 do dia 16/12, ou seja, madrugada de quinta para sexta-feira. Grande foi a minha surpresa quando, na quarta (14/12), eu vi um monte de gente comentando que havia chegado o dia de assistir o filme. Eu tinha CERTEZA que eu havia comprado ingresso para a PRIMEIRA sessão, e essa sessão DEFINITIVAMENTE não era na quarta. Preocupado, pedi para que a minha esposa fosse até o cinema confirmar a data da estreia e foi aí que o problema revelou-se em toda sua magnitude: o Cinépolis havia me vendido ingressos para uma sessão que não existia. Como solução, eles me deram cortesias para ver o filme naquele mesmo dia, na quarta, as 00:01.

Eu sei que esta história já está ficando longa demais, então vou resumir o que aconteceu. Caras, eu não estava NENHUM pouco preparado para ver o filme aquele dia. Eu havia trabalho dois turnos e estava morrendo de cansaço, de modo que a empolgação por estar diante de um novo Star Wars me deu forças para ver apenas os 30min iniciais do filme. Depois disso, eu cochilei pra valer. A sessão passou, fui ao banheiro, lavei o rosto e voltei para ver o final, mas basicamente foi isso que eu aproveitei: o início e o fim. Eu fiquei muito mal com isso. Pode parecer bobagem, mas senti que desrespeitei a saga. Maldito seja você, Cinépolis, por essa confusão dos infernos!

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-6No outro dia, tão logo acordei, consultei a grade de programação do GLORIOSO Cinemark, escolhi um horário, comprei um energético para garantir (rs) e entrei numa sala de cinema pela segunda vez em menos de 24 horas para ver Rogue One. Novamente, fui traído pelos meus olhos, mas dessa vez a dificuldade foi conter as lágrimas diante de um filme que não apenas confirmou o quão infinitas são as possibilidades de exploração do universo Star Wars quanto presenteou os fãs de longa data da franquia com a encenação de uma história fantástica e cheia de referências sobre o poder da Força e da resistência.

Cronologicamente, os eventos mostrados em Rogue One localizam-se entre A Vingança de Sith (Episódio 3) e Uma Nova Esperança (Episódio 4). Derrotados, os últimos Jedis partiram para o exílio e viram o Imperador Palpatine e seu aprendiz Darth Vader (James Earl Jones) derrubarem a República e estenderem a sombra do Império Galático por todo o universo. Para combater a resistência da Aliança Rebelde, o Império constrói a terrível Estrela da Morte, a arma definitiva capaz de destruir planetas inteiros com apenas um disparo. O início do Uma Nova Esperança mostrava como a Princesa Leia recebeu o plano de construção da Estrela da Morte e usou-o para dar início à derrocada do Império. Em Rogue One, o diretor Gareth Edwards (do ótimo remake do Godzilla) nos conta como esse plano foi descoberto e roubado pelos rebeldes em uma missão corajosa.

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-2Me parece que o anúncio do Rogue One despertou menos curiosidade e empolgação do que o do O Despertar da Força. Isso pode ser associado ao tempo que separa os lançamentos (do Episódio 3 até o 7 passaram-se 10 anos, e agora voltamos ao cinema apenas um ano depois para ver outro filme da série), mas também acredito que muita gente não confiou no potencial da trama. Não raramente, spin offs (obras derivadas de outras obras) como o Rogue One são vistos como meros caça-níqueis, produtos de qualidade inferior ao original pensados para gerar lucro, e a ideia de que poderiam dar este tratamento desrespeitoso para algo relacionado a franquia Star Wars não era lá das mais animadoras (o The Clone Wars de 2008, por exemplo, beirou o fiasco). Nesse sentido, Rogue One tem tudo para transformar-se um divisor de águas para os spin offs: ele não é apenas um derivado, ele é TÃO BOM QUANTO alguns dos filmes originais (pra mim, tá pau a pau com O Retorno de Jedi) e aumenta significativamente a expectativa para os futuros projetos da franquia (Episódio 8 em 2017, Han Solo em 2018).

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-5Como esperado, Rogue One apoia-se bastante na nostalgia, recriando cenas conhecidas do público e fazendo links e referências à outros filmes da série, mas ele também possui muito material original para ser amado por seus próprios méritos, a começar pelos personagens principais e suas motivações. Jyn Erso (Felicity Jones) e Cassian Andor (Diego Luna), uma criminosa e um líder da Aliança, não tem a mesma força, habilidade ou convicções morais de heróis como Obi-Wan e Mestre Yoda. Eles são pessoas comuns, com defeitos e qualidades (o que dá um tom mais cinza e adulto para o filme), que lutam como podem contra o domínio do Império. A beleza do roteiro de Rogue One está em desconstruir a figura do herói clássico (o exército de um homem só cheio de virtudes que enfrenta sozinho uma grande dificuldade) e mostrar a importância que ações individuais, ainda que pequenas, tem para os grandes feitos e realizações. Não fossem os sacrifícios de Jyn, Cassian e de outras centenas de desconhecidos, por exemplo, provavelmente o Luke não teria conseguido disparar o tiro que detonou a Estrela da Morte. Cada ação conta, mas nem por isso a trama deixa de criticar o extremismo, mesmo que veladamente. Notem a oposição que é feita entre a paranoia do líder Saw Gerrera (Forest Whitaker), um homem de métodos violentos, com a resiliência e a frieza do Galen Erso (Mads Mikkelsen), o cientista que é submetido à tirania do Diretor Orson Krennic (Ben Mendelsohn).

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-4A luta contra o Império vista em Rogue One é colorida por elementos que conhecemos e amamos, dentre os quais destaco:

  • As batalhas grandiosas envolvendo X-Wings, AT-ATs, Tie Fighers e Stormtroopers (que melhoraram consideravelmente para atirar rs), a Estrela da Morte sendo acionada duas vezes (é assustador vê-la surgir no horizonte antes dos disparos) e as cenas furtivas de sabotagem, resgate e roubo de dados.
  • O robô autista K-S2O, que preenche o espaço deixado pelo R2-D2 e pelo C-3PO (que aparecem em uma cena rápida) e é o responsável pelas melhores piadas do filme.
  • A base rebelde de Yavin IV, um dos cenários mais legais do Uma Nova Esperança, que é recriada com perfeição. Ver as X-Wings decolando de lá pilotadas por personagens antigos, como o Líder Vermelho e o Líder Dourado é algo inexplicável. É ali que também está um dos links mais diretos com o Episódio 3: Bail Organa (Jimmy Smits) pode ser visto entre os rebeldes.

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-3Ainda sobre a nostalgia, é óbvio que o ponto alto de Rogue One é a participação do Darth Vader. O personagem, que talvez seja o vilão mais icônico de todos os tempos, aparece em cenas curtas mas absurdamente fantásticas. Tem estrangulamento pela força, tem sombra do capacete projetada na parede, tem tanque de recuperação e, claro, tem a invasão da nave da Princesa Leia. Meus amigos, QUE CENA DO CARALHO! Naturalmente, a gente torce pela Aliança, mas é impossível ser politicamente correto quando o Wader saca o sabre de luz e começa a detonar os rebeldes. Nesta cena, recriação do início do Uma Nova Esperança, o Gareth Edwards vale-se de suas experiências anteriores em filmes de terror e apresenta uma sequência tenebrosa em que um monte de soldados caem diante o avanço implacável do Wader. Em seguida, a Leia (criada digitalmente, numa das maiores surpresas da trama) aparece e enche o coração de todo mundo de esperança, mas a real é que quando os créditos surgem a gente ainda está meio atordoado por ter presenciado uma das maiores carnificinas de toda a série. Hail, Disney!

rogue-one-uma-historia-star-wars-cenaPra finalizar, há a cena em que o Chirrut (Donnie Yen), um monge cego, marcha através de uma zona de guerra para pressionar uma alavanca. O universo tornou-se um lugar sombrio após os Jedis terem sido derrotados, mas nem por isso Chirrut deixou de acreditar no poder da Força. Inicialmente, o mantra que ele entoa (I’m one with the Force, and the Force is with me) é usado em cenas cômicas, mas aí o personagem demonstra todo o poder de sua fé ao avançar contra os temíveis Death Troopers e faz a gente dar aquele nó na garganta. Pra mim, esta cena junta-se a queda do Han Solo no Despertar da Força e ao “Você era meu irmão, Anakin” do A Vingança dos Sith como um dos momentos mais tristes e emocionantes da série. Lá no começo do texto eu disse que chorei vendo Rogue One e foi exatamente nesta cena que as lágrimas caíram. Não é só um filme, não é só um personagem: é Star Wars ❤

Eu já paguei 2 vezes para ver Rogue One: Uma História Star Wars e certamente pagarei uma terceira. É lógico que não verei no Cinépolis, que além de tudo o que foi falado ainda está vendendo um combo caro (53 reais) contendo um balde de plástico vagabundo no formato da Estrela da Morte. Verei no Cinemark, e verei com a mesma empolgação porque, num ano de ótimos blockbusters, Rogue One foi o melhor disparado. Que venha o Episódio 8 e que a Força esteja com vocês!

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Procurando Dory (2016)

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Procurando DoryEm se tratando de animações, não é exatamente uma novidade que personagens secundários roubem a cena, conquistem o público e ganhem suas próprias aventuras. Recentemente, por exemplo, Os Pinguins de Madagascar e os Minions chegaram aos cinemas para fornecer uma dose extra de piadas, fofura e insanidade para quem havia divertido-se com eles no Madagascar e no Meu Malvado Favorito. O que faz Procurando Dory destacar-se nessa maré de spin-offs (obra derivada de outra obra), ao meu ver, é a ligação emocional singular que o público estabeleceu com a Dory e, de maneira geral, com Procurando Nemo: tal qual O Rei Leão foi o favorito da garotada que cresceu nos anos 90, Procurando Nemo é constantemente apontado como a produção que marcou a infância do pessoal que veio depois da virada do século.

Ir ao cinema assistir essa sequência, portanto, é uma experiência que vai um pouco além de pagar para ver “mais do que já deu certo”. Como é de praxe nas animações da Pixar, Procurando Nemo tinha personagens fofinhos, cenários super coloridos e muitas cenas de ação, mas o que encantava ali eram coisas mais emocionais como o amor do Marlin pelo Nemo (era um pai superprotetor mas, ainda sim, era um pai capaz de atravessar todo o oceano para salvar o filho) e a força de vontade inabalável da Dory, cujo bordão “continue a nadar” transformou-se no lema de vida de muita gente, inclusive desse que vos fala. Sou da geração O Rei Leão (Scar miserável!), mas entendo perfeitamente o porquê de Procurando Nemo ter conquistado o coração das pessoas.

A Pixar demorou 13 anos para fazer esta continuação (o primeiro é de 2003). Considerando a celeridade do mercado cinematográfico atual, no qual a maioria das produções já chegam aos cinemas com suas sequências garantidas, essa “demora” precisa ser entendida como uma demonstração de carinho da empresa para com sua própria obra. Seguramente, qualquer coisa relacionada a franquia que fosse lançada faria sucesso, mas vejo que eles não quiseram lançar QUALQUER coisa. Para respeitar a ligação emocional que a obra estabeleceu com o público, era preciso criar um filme que fosse tão bom quanto ou melhor ainda do que o original. A solução do diretor e roteirista Andrew Stanton foi simples e eficaz: invertendo a história original, dessa vez ele colocou a filha (Dory) para procurar os pais (Jenny e Charlie). Deu muito certo.

Procurando Dory - Cena 5A famosa “perda de memória recente” da Dory era, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição. Se ela não sofria por lembrar-se dos erros e sofrimentos do passado, ela também não conseguia alegrar-se com as lembranças dos momentos felizes vividos. O peixe-fêmea divertido que falava baleiês que conhecemos anteriormente (exemplar dos belos cirurgiões-patela) era um personagem legal, mas também era alguém unilateral que ainda precisava ser explorado. Ninguém é feliz o tempo todo, nem a Dory.

Antes do filme propriamente dito, a Pixar nos presenteia com mais um daqueles curtas maravilhosos que servem para aquecer nossos corações e nos preparar para o que será visto em seguida. Piper: Descobrindo o Mundo mostra um passarinho aprendendo que a vida, ainda que perigosa, está cheia de oportunidades para aqueles que enfrentam-na de cabeça erguida. A qualidade da animação impressiona (prestem atenção na movimentação da água do mar) e a historinha, que é mais direcionada para as crianças do que para os pais, é bonitinha e inovadora.

Procurando Dory - Cena 4Procurando Dory abre com a personagem que dá nome ao filme, ainda filhotinha, desfrutando da companhia dos pais. Cientes do problema de memória da filha, Jenny e Charlie tentam ensinar para Dory formas alternativas de interagir com os outros peixes. Mesmo que ela tenha dificuldade para concentrar-se a longo prazo (1, 2, 3, 4, areia fofinha! rs), Dory consegue aprender e decorar a fala que seria fundamental para ajudar-lhe a sobreviver. “Oi, meu nome é Dory e eu sofro de perda de memória recente”.

O diretor Andrew Stanton deixa então a infância de Dory momentaneamente de lado para ligar a história com os eventos do primeiro filme. Uma recapitulação rápida mostra como o Marlin perdeu e encontrou Nemo e pronto, lá estão os personagens, um ano após toda aquela confusão, vivendo tranquilamente no coral. É aí que, num movimento que repetirá-se várias vezes ao longo do filme, Dory lembra do passado. Sim, amigos, Dory, a esquecida, começa visualizar pequenos flashs de seu passado e, neles, descobre que ela já teve um pai e uma mãe que a amaram. Empolgada com a possibilidade de reencontrá-los, a personagem inicia uma viagem ao lado de Marlin e Nemo para procurar pelos pais.

Procurando Dory - Cena 2O título da animação dá a entender que, tal qual no primeiro filme, Dory perderá-se e alguém irá procurar por ela, mas não é bem isso que acontece. Em um determinado momento, os personagens separam-se devido a um infortúnio e Marlin e Nemo precisam esforçar-se para reencontrar a amiga, mas não é essa procura que dita o ritmo da narrativa. Procurando Dory é sobre Dory reencontrar suas próprias memórias e, consequentemente, localizar o paradeiro dois pais. A aventura passa por locais conhecidos do público, como o coral, o fundo do mar repleto de monstro marinhos e as correntezas oceânicas onde as tartarugas “surfam”, mas a maior parte da história desenvolve-se em um gigantesco parque aquático no qual os personagens embrenham-se à procura dos pais de Dory.

Novamente, a ação é muito boa e variada. Uma ameaçadora lula gigante põe os personagens para “correr”, Nemo e Marlin viajam dentro de um balde carregado por um passarinho loucão e Dory e Hank, um polvo misantropo de 7 pernas (!!!), colocam o local de cabeça pra baixo, chegando, inclusive (numa das cenas mais improváveis de todos os tempos), a pilotar um caminhão (!!!²). Tudo isso, somado ao humor afiado (ri pra valer das broncas que aos leões marinhos dão no Geraldo rs) e ao visual impecável (não vi em 3D), fazem de Procurando Dory uma animação obrigatória, dessas que tu sai do cinema verdadeiramente feliz por tê-la assistido. Isso, no entanto, não é tudo que eu tenho para dizer-lhes sobre o que vi.

Procurando Dory - CenaEstruturalmente, as animações feitas pelos grandes estúdios americanos, como a Pixar, Disney e Dreamworks, são muito parecidas. Sempre temos um protagonista que passará por um processo de aprendizado, personagens secundários engraçadinhos, muita cor, muita ação, algumas músicas e uma lição de moral para os pais e para as crianças amarrando a história toda. O que difere essas animações uma da outra e que faz com que a gente goste de umas e esqueça de outras são os detalhes. Procurando Dory tem o “pacote diversão” completo, mas ele também tem um pai reconhecendo um erro para o filho. Ele tem um personagem principal cujo principal lema é seguir em frente/continuar a nadar, ideia aparentemente simples mas que, se aplicada nos momentos certos, tem o poder de salvar vidas e mudar existências. Ele tem uma personagem de coração bondoso transformando a vida de um personagem ranzinza e pessimista não com palavras, mas com o exemplo. Procurando Dory tem, acima de tudo, um roteiro que utiliza conchas (mamãe gosta de conchas!) para ilustrar o amor e a confiança absoluta que deve existir na relação entre pais e filhos e tem a Dory, em um momento onde ela poderia ceder ao desespero, dando um passo de cada vez (algas, pedras, conchas) rumo a própria salvação. Novamente, o tal “elemento emocional” fez-se presente e o filme falou diretamente com o meu coração.

Ri bastante, fiquei empolgado, chorei e saí da sala do cinema um pouco mais leve do que entrei: é esse tipo de conexão que, ao meu ver, faz com que um filme destaque-se dos demais e, vários anos após o seu lançamento, garante que ele seja lembrado com nostalgia pelo público. Procurando Dory é a continuação perfeita, produção que já nasce clássica e que um dia eu certamente terei o prazer de mostrar para meus filhos e dizer “esse eu vi no cinema” 🙂

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Alice Através do Espelho (2016)

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Alice Através do EspelhoÉ estranho que esse Alice Através do Espelho tenha demorado tanto para sair. Continuação direta do blockbuster Alice no País das Maravilhas, filme que ultrapassou a marca de 1 bilhão de dólares na bilheteria, essa nova adaptação do mundo concebido pelo doidão Lewis Carroll sai incríveis 6 anos depois do longa do Tim Burton.

Essa demora é curiosa porque, além de ter sido aprovado pelo público, o sucesso do primeiro Alice gerou uma espécie de “mini-gênero” em Hollywood que consiste em readaptar clássicos infantis em grandes produções repletas de efeitos especiais (Branca de Neve e o Caçador, Jack, o Caçador de Gigantes, Caminho da Floresta), ou seja, o cenário sempre foi favorável para que houvesse um segundo filme.

Estranho a demora, mas não posso dizer que eu estava ansioso por esse lançamento. Fiquei bastante decepcionado com o Alice no País das Maravilhas. Revi ele antes de ir ao cinema assistir esta sequência apenas para confirmar a impressão que tive na época: quando analisada atém do incrível e inquestionável espetáculo visual, a adaptação do Tim Burton é “certinha demais”, “Disney demais”, e o foco no Chapeleiro do Johnny Depp desagradou.

Comprei o ingresso esperando pouco e, até a metade da projeção, fiquei entediado por ver o diretor James Bobin (que sobrenome!) repetir cada um dos equívocos cometidos pelo Burton no filme anterior: novamente, os efeitos especiais sobrepõe a insanidade do conteúdo fantástico imaginado pelo Carroll. No fim, mesmo que Alice Através do Espelho termine de forma emocionante e bonitinha, a impressão que fica é que desperdiçaram outra chance de fazer algo realmente legal sobre o País das Maravilhas.

O filme anterior terminava mostrando Alice (Mia Wasikowska) decidindo navegar pelo mundo a bordo do barco do pai. Aqui, no início, vemos a personagem retornando dessa viagem. Atacada por navios inimigos, ela comanda a tripulação através de uma terrível tempestade e consegue chegar no porto inglês graças ao seu talento e capacidade de acreditar e realizar o impossível. Em terra firme, Alice descobre que seu antigo pretendente armou para tirar-lhe o barco e, enquanto pensa no que fazer a respeito, ela acaba retornando para o País das Maravilhas após atravessar um antigo espelho de uma mansão. Lá, ela encontra velhos conhecidos, como o Coelho Branco e o Gato de Cheshire, e descobre que o Chapeleiro (Depp) está deprimido devido a um episódio do passado envolvendo sua família. Para ajudá-lo, Alice precisará encontrar um artefato chamado Giro Esfera, retornar no tempo e tentar mudar o passado.

Antes de mais nada, vale uma observação: pesquisei um pouco antes de escrever a resenha e, pelo que li, essa história aí não tem praticamente nada a ver com a obra homônima escrita pelo Carroll. No livro, Alice precisa vencer uma série de desafios, que são apresentados em forma de um jogo de xadrez, para tornar-se rainha. Aqui, ela embrenha-se através dos corredores do passado para salvar a alegria do Chapeleiro. Pessoalmente, visto que não li o livro, essas alterações não me incomodaram tanto durante a sessão, mas não deixa de ser irritante pensar que, novamente, resolveram investir no Chapeleiro (que, pelo menos naquela animação da Disney de 1951, nem é lá um GRANDE personagem) em detrimento da história original.

Alice Através do Espelho - Cena 2Quando eu disse que o Bobin (rs) repete os mesmos erros do Burton, eu estava me referindo principalmente a estrutura e aos diálogos do filme. Alice Através do Espelho, tal qual o seu antecessor, começa mostrando Alice em um ambiente aristocrático pouco interessante (a pincelada sobre feminismo não é levada adiante), leva-a através de uma jornada visualmente estonteante (o 3D está muito bom) e termina em um final mega feliz onde a personagem aprende uma lição. Infelizmente, o nonsense não é valorizado. Aqueles diálogos loucos, rápidos e repletos de referências que escapam ao senso comum, grande trunfo do Carroll, aparecem aqui e ali, mas não são eles que ditam o ritmo da narrativa. Para contar uma história deveras convencional (aventurar-se no desconhecido para ajudar um amigo), Através do Espelho opta por simplificar o discurso e focar no visual. Bobin seguiu direitinho a cartilha timburtiana e, tal qual aconteceu no Alice no País das Maravilhas, entregou um daqueles filmes de “encher os olhos”, mas nem mesmo cenários esplendorosos como aquele do interior do relógio conseguem suprir a superficialidade do roteiro. Bobin, Bobin…

Alice Através do Espelho - CenaCom o Depp burocrático, fazendo as mesmas caras e bocas, e Anne Hathaway perdidíssima, sobra para a Helena Bonham Carter o papel de introduzir um pouco de loucura na trama com a sua Rainha de Copas. A gritaria e a imperatividade da personagem continuam bastante divertidas e é legal que o roteiro dedique espaço para contar o passado dela, revelando, por exemplo, como ela adquiriu aquela cabeçona ridícula. Outro que está bem é o Sacha Baron Cohen, que interpreta o Tempo, um cara para o qual a gente torce o nariz no começo mas que acaba sendo fundamental para que o conteúdo emocional do filme exploda no final.

Com um roteiro raso e uma tonelada de efeitos especiais, Alice Através do Espelho revelou-se apenas mais uma produção esquecível voltada para um público pouco exigente. A sessão, com seus altos e baixos, não chega a ser maçante, mas vislumbrar tudo o que poderia ter sido feito a partir de um material tão rico e inconvencional me fazem acreditar que, novamente, a Disney errou feio a mão.

Alice Através do Espelho - Cena 4