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Mulher Maravilha (2017)

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Após dividir opiniões com o tom sombrio adotado em O Homem de Aço e Batman vs Superman e ver o hiper colorido Esquadrão Suicida transformar-se em um dos maiores fiascos de 2016, o pessoal da DC certamente percebeu que não podia mais errar. Nisso, eles olharam para o lado, observaram o que a Marvel produziu nos últimos anos e decidiram tentar algo semelhante. Mulher Maravilha, filme da diretora Patty Jenkins concebido e produzido pelo onipresente Zack Snyder, traz todo o humor e ação que fizeram o Homem de Ferro e cia caírem nas graças do público. A aura mais “séria” da DC, no entanto, não foi completamente deixada de lado e continua presente graças à adição do atualíssimo tema do feminismo. O resultado dessa “mistura de fórmulas” é um filme legal, que diverte, faz pensar e que, acima de tudo, mostra o caminho que a DC pode e deve seguir daqui em diante.

Ninguém discorda que a participação da Mulher Maravilha (Gal Gadot) foi um dos pontos altos do Batman vs Superman, mas ao mesmo tempo ficou a sensação incômoda de que a personagem não rendeu tudo o que poderia render. A amazona foi fundamental para a vitória dos heróis sobre o Apocalypse, porém a falta de um longa anterior contando sua história transformou-a quase numa coadjuvante de luxo num universo em que ela é uma das principais protagonistas. Pensem aí: o que nos contaram da Diana antes de mostrarem-na saltando e golpeando ao som daquela música tribal legalzona? Que ela estava procurando uma foto? A real é que o Zack Snyder errou feio com a personagem (e, para quem acha que não é possível contar uma história bacana e apresentar muitos personagens ao mesmo tempo, basta ver o que a Marvel fez no Guerra Civil, que debutou simultaneamente gigantes como Homem Aranha e Pantera Negra).

Mulher Maravilha chega agora para contar a origem de Diana e explicar o contexto no qual aquela foto foi tirada. Ficou bom? Ficou bom demais, pena que não fizeram isso ANTES do Batman vs Superman. Se o filme da diretora Patty Jenkins preenche lacunas e responde questões anteriormente colocadas, ele pouco ou nada faz para preparar terreno para o próximo filme da DC, o aguardado Liga da Justiça (tanto que nem há cena pós-créditos). O acerto individual é inegável, mas, do ponto de vista cronológico, o Universo Estendido da DC continua estranho.

Feita esta ressalva, falemos dos muitos acertos de Mulher Maravilha. Tal qual O Homem de Aço, temos aqui um filme de origem, desses onde a história do/a personagem é explorada desde o início. Nisso, a diretora Patty Jenkins vale-se de sequências de animação e de cenas numa ilha paradisíaca para mostrar a infância de Diana, filha de Hippolyta (Connie Nielsen), uma amazona descendente do próprio Zeus que cresceu sem conhecer nenhum homem e foi treinada pela lendária guerreira Antiope (Robin Wright). Este começo, que é deveras rápido, revela-se fundamental para o funcionamento da trama: é aqui, nos diálogos entre a heroína e sua mãe, que a curiosidade, a determinação e a fé inabalável no amor da personagem ficam claros para o público. Vale destacar também a beleza onírica do cenário, que tanto faz a gente querer sair viajando por aí (as locações são italianas) quanto contrastam significativamente com os horrores da guerra que são mostrados em seguida.

O conflito começa quando, após uma briga com a mãe, Diana vê um avião cair próximo ao litoral da ilha. Naquela que talvez seja a cena mais bonita do filme (visualmente falando), a personagem salta de um penhasco e mergulha para resgatar o piloto Steve Trevor (Chris Pine) dos destroços. Tão logo salva a vida de Steve, Diana e as amazonas precisam lidar com um batalhão inteiro do exército alemão, que invade a ilha à procura do piloto. A primeira cena de ação de Mulher Maravilha é um espetáculo: mesmo que o uso excessivo do slow motion (estética visual que a diretora emula dos trabalhos do Snyder) acabe enjoando depois de um tempo, as lutas foram coreografadas para parecerem selvagens e brutais. Caem, junto com os corpos dos alemães (e o de uma importante personagem), os primeiros estereótipos: aqui, são as mulheres que salvam os homens e elas, ao contrário do que é levianamente dito, não tem nada de “sexo frágil”. Antiope bate igual uma campeã, caras.

O tema do feminismo é explorado em muitos pontos de Mulher Maravilha e a postura forte e independente de Diana certamente inspirará muitas mulheres a buscarem o próprio empoderamento. Como o debate é amplo, também não dá para desconsiderar a opinião de quem diz que, ao fazer da heroína uma mulher de corpo intangível e axilas depiladas, o filme foi superficial e até mesmo equivocado com as demandas atuais do feminismo. Independente da opinião que qualquer um possa ter sobre as questões abordadas, no entanto, não podemos abrir mão de pensar sobre elas, então deixo aqui a minha contribuição. Tão logo a batalha da praia encerra-se, Steve é interrogado pelas amazonas sobre o mundo exterior e a guerra. Quando tem oportunidade de ficar sozinha com o piloto, Diana interpela-o com uma série de perguntas que, em sua maioria, carregam algum tipo de conotação sexual. Achei particularmente interessante observar a reação do público do cinema nessa cena (e também naquela que acontece logo em seguida, num barco). Enquanto as mulheres riam o tempo todo, os homens ficavam visivelmente constrangidos. Por quê? Será que é porque o cinema costuma retratar somente o contrário (mulheres sexualizadas à serviço do humor)? Acredito que, mais do que revoltar-se quando Diana diz que “homens são necessários apenas para a reprodução”, vale a pena usar o desconforto causado por algumas cenas para repensarmos algumas atitudes e posturas.

Pelo tema da guerra, muitas pessoas apressaram-se em comparar Mulher Maravilha com o Capitão América. As semelhanças visuais são óbvias (apesar de estarmos falando de duas guerras diferentes), mas estruturalmente a trama lembra bem mais o primeiro Thor. Tão logo chega em Londres, Diana envolve-se em uma séries de situações cômicas tal qual o deus do trovão envolveu-se ao ser exilado na Terra por seu pai. Esse “meio” do filme é onde vemos com mais clareza a influência da Marvel sobre o trabalho da DC. O humor proveniente da inocência da Diana em cenas rápidas e leves como aquela da porta giratória é melhor do que tudo o que foi feito nesse sentido no Esquadrão Suicida (até hoje não acredito naquela ‘piada’ sobre apagar o histórico de busca) e é um indicativo de que a DC está no caminho certo.

Todo caso, trata-se de um filme de “super herói”, o que implica em cenas de ação grandiosas e confrontos contra vilões memoráveis. Antes de ficar cara a cara com seus antagonistas, Ludendorff (Danny Huston) e Dra. Maru (Elena Anaya), Diana (que, salvo engano, não é chamada em nenhum momento de Mulher Maravilha) enfrenta o perigo das trincheiras e luta contra um sniper nos escombros de uma cidade destruída. Fazendo uso de seu escudo, dos Braceletes Indestrutíveis, do Laço da Verdade e da Espada Matadora de Deuses, Diana toma a frente no campo de batalha e sobra sobre os soldados alemães. O que ela faz contra o sniper no campanário, aliás, é uma das maiores demonstrações de força bruta que se tem notícia em um filme de super herói.

É difícil imaginar ligações diretas entre Mulher Maravilha e o Liga da Justiça. Deveriam ter lançado este filme antes do Batman vs Superman e pronto. Como “consolação”, fica o fato de que, fora apontar um caminho, o trabalho da diretora Patty Jenkins começa, desenvolve-se e termina bem. A reviravolta do final, com o surgimento de um novo e inesperado vilão e a pancadaria brutal que segue-se é o exemplo que a DC ousa deixar para a Marvel: valorizem a luta final e façam o possível para tornarem-na épica e cheia de poderes, luzes e frases de efeito. Vencer uma guerra com amor? Gosto. Gal Gadot? Gosto também.

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