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T2 Trainspotting (2017)

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Quase 20 dias sem postar e só posso pensar em 2 culpados:

  • Final Fantasy Brave Exvius: Estou completamente viciado nesse jogo da Square Enix. Maldito seja o infeliz que teve a ideia de reunir, numa mesma história, personagens de todos os games da série Final Fantasy. Comecei de leve, fazendo apenas as missões diárias, e hoje, cerca de um ano depois que instalei o aplicativo, estou acordando durante a madrugada para jogar e vendo itens do mesmo aparecerem na minha fatura de cartão de crédito. Droga!
  • Final de bimestre: Nas últimas duas semanas, eu precisei dedicar grande parte do meu tempo livre para elaborar/corrigir provas, atualizar diários e ouvir as muitas e comoventes histórias dos meus alunos que, pelos mais incríveis e inacreditáveis motivos, não conseguiram apresentar os trabalhos solicitados a tempo.

O cansaço físico e mental é grande, mas as férias estão chegando e, aos poucos, eu vou conseguindo encontrar tempo para voltar a assistir filmes e atualizar o blog com regularidade.

O último título que consegui ver, aliás, foi esse T2 Trainspotting, continuação do diretor inglês Danny Boyle para o icônico trabalho que o apresentou para o mundo em 1996. Boyle imaginou como estariam Renton (Ewan McGregor), Simon (Jonny Lee Miller), Spud (Ewen Bremner) e Begbie (Robert Carlyle) 20 anos após os eventos do primeiro filme e realizou uma sequência que, mesmo sem provocar o mesmo impacto do original, certamente agrada aos fãs do clássico pela nostalgia e pela atualização do discurso irônico e afiado contra os vícios da modernidade.

Depois de roubar os amigos e fugir com o dinheiro que eles haviam ganhado numa venda de drogas, Renton escolheu viver. Ele escolheu um serviço, uma família e, muito provavelmente, ele comprou uma televisão grande pra caralho. A felicidade, no entanto, não veio. O emprego não deu certo, a família acabou e a TV de muitas polegadas continuou exibindo os mesmos e velhos programas chatos de auditório. Foi aí que Renton resolveu largar tudo (ou o pouco que havia sobrado) e retornar para a Escócia para encontrar seus velhos amigos.

T2 Trainspotting faz esse movimento legal de mostrar um personagem que conseguiu o que queria (uma vida responsável, séria e estável longe das drogas), não gostou (ou não aproveitou bem a oportunidade) e então decidiu recorrer ao passado que ele havia negado como forma de recomeçar. É como se Renton tivesse largado um relacionamento ruim, começado outro e então tivesse sentido falta da ex. E voltar com ex, meus amigos, é aquele negócio: no começo pode até ser bom, pela familiaridade e tal, mas logo logo os problemas reaparecem e você lembra do porque havia terminado.

Renton queria rever Spud, saber o que o cara havia feito com a  grana que ele havia lhe deixado, mas o encontro acontece da pior forma possível. Numa daquelas coincidências pontuais do cinema, o personagem abre a porta de um apartamento velho e sujo bem no momento em que o amigo estava tentando suicidar-se. Renton salva Spud da morte, mas, em troca, ouve uma cacetada: “Você arruinou minha vida! Você deu 4.000 libras para um viciado! O que você pensou que eu fosse fazer?”. Não era bem o que ele esperava.

Renton queria rever Simon, mas ele sabia que não seria um encontro fácil. Na última vez que estiveram juntos, Renton deixou o amigo dormindo e fugiu levando o dinheiro que eles deveriam dividir. O reencontro acontece num velho pub, local que Simon herdou do pai e que agora ele toca para ganhar uns trocados. Conversa vai, conversa vem, Simon bate com um taco de sinuca nas costelas de Renton e inicia uma briga que destrói boa parte da mobília do bar. “16 mil libras! Seu ladrão desgraçado!”. Expurgado o ressentimento, os dois personagens reatam a amizade e voltam a fazer planos juntos, mas Simon revela para sua namorada, Veronika (Anjela Nedyalkova), que ele ainda pretende vingar-se de amigo.

Renton certamente não queria rever Begbie. Um cara que não acha difícil bater com uma caneca de cerveja no rosto de um estranho pode até ser útil em determinadas situações, mas definitivamente não é alguém pra você ter como inimigo. Renton roubou Begbie e foi indiretamente responsável por sua prisão (o cara quebrou um quarto de hotel inteiro quando ficou sabendo que fora passado para trás), logo ele sabia que era bom evitar o sujeito. Tal tarefa não parecia muito difícil, visto que o cara estava preso, mas, noutra dessas coincidências pontuais do cinema, a chegada de Renton na cidade coincide com a fuga de Begbie da prisão (e a cena em que isso acontece não deve nada para as antigas loucuras do personagem) e aí o acerto de contas passa a ser apenas uma questão de tempo.

Renton é o protagonista de T2 Trainspotting e o foco aqui, tal qual foi no primeiro filme, são as relações intensas porém efêmeras do personagem com seus amigos e com o meio em que eles vivem. Danny Boyle revisita o discurso “Choose Life” para atacar os novos vícios da sociedade (redes sociais, pornô, reality shows) e vale-se de uma edição audaciosa (adorei aquele ‘elevador’ artificial no prédio do Spud) e de uma trilha sonora onipresente para dar leveza e humor a um tema que é bastante sério. Talvez os três grandes momentos do filme sejam a cantoria no clube dos patriotas, a reedição da cena do “atropelamento” do Renton e o confronto final entre os personagens e Begbie, mas o que eu mais gostei foram os arcos da história que envolvem o Spud.

Desde o primeiro Trainspotting, o Spud era aquele cara engraçadão, doido e gente boa que todo mundo gosta mas que ninguém leva muito a sério. Me assustou, portanto, ver o cara tentando cometer suicídio no início desse filme. Ao escrever para a mulher antes de enfiar a cabeça dentro de um saco e asfixiar-se, Spud diz: “Eu sei que você e nosso filho estão em um mundo melhor sem todo o meu caos”. Caralho, caras. A personalidade expansiva e o jeito brincalhão do cara, no fim, revelaram-se disfarces para um vazio existencial que ele não suportou carregar. Quando Renton encontra-o e impede que ele se mate, Spud inicia um processo difícil de tentar canalizar o vício em drogas para outras atividades. Ele tenta correr, lutar boxe… tudo sem sucesso. Finalmente, quando parecia não haver mais esperanças, Spud encontra na escrita algo que ele gosta de fazer. E Spud começa a escrever sobre seu passado insano ao lado de Renton, Simon e Begbie e, para sua própria surpresa, ele vê que é bom no que faz. E é assim, canalizando suas energias e impulsos para algo produtivo e prazeroso, que o legalzão Spud começa a reencontrar seu caminho. Eu, que também tenho meus problemas, tenho jogado bastante. Pretendo voltar a escrever com regularidade também.

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Steve Jobs (2015)

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Se você, assim como eu, não tem um iPhone e nem interessa-se demasiadamente por tecnologia, é bem provável que tu também não tenha ficado muito empolgado para assistir esse Steve Jobs. Permitam-me, portanto, começar esse texto apresentando-lhes três motivos que fazem o filme valer a pena independentemente da marca dos produtos eletrônicos que você usa.

  1. Além de ter vencido o Globo de Ouro de Melhor Roteiro, a produção concorre a 2 Oscars (Melhor Ator para o Fassbender e Melhor Atriz Coadjuvante para a Kate Winslet, que tem chances reais de vencer).
  2. O filme é do diretor Danny Boyle, o mesmo cara que arrancou o braço do James Franco e nos mostrou a DEUSA Rosario Dawson tal qual ela veio ao mundo. Por isso e por filmes como Trainspotting Boyle merece o meu e o seu respeito.
  3. A tecnologia desempenha apenas um papel secundário em Steve Jobs, cabendo o protagonismo aos diálogos rápidos que mostram as contradições da personalidade do ex-presidente da Apple.

Lembro que, em 2011, pouco tempo depois de eu entrar no Facebook, quase todo mundo postou algo relacionado à morte do Steve Jobs, que faleceu prematuramente aos 56 anos de idade vítima do câncer. A maioria das pessoas agradeceram-no por suas contribuições à informática, mas também houveram aqueles que preferiram utilizar a oportunidade para criticá-lo. Se não me falha a memória, a frase “Jobs era um gênio, mas era chato pra caralho” foi dita mais de uma vez naquele dia. É essa dicotomia entre o profissional brilhante e o homem “ruim” que o Danny Boyle explora em Steve Jobs para nos dizer que, por mais excêntrico e “difícil” que o sujeito possa ter sido, ele não foi lá tão diferente assim de cada um de nós: todos temos defeitos e qualidades.

O roteiro, que é assinado pelo escritor Aaron Sorkin (A Rede Social), acompanha os momentos que antecederam o lançamento de três grandes produtos desenvolvidos por Jobs (Michael Fassbender): Macintosh, em 1984, NeXT, em 1988 e o iMac, em 1998. Nos bastidores das apresentações, vemos o inventor lidando com todos os tipos de conflitos pessoais e profissionais antes de subir no palco para apresentar suas inovações ao mundo.

Boyle, que entre outras coisas é conhecido por suas experimentações visuais, optou por algo mais tradicional em Steve Jobs, limitando-se a ir “modernizando” a fotografia ao longo do filme para mostrar a passagem do tempo. Desta vez, o que deixa evidente que estamos vendo um trabalho de um dos diretores mais interessantes da atualidade é a própria narrativa que, além de não tornar-se mais complicada do que o necessário em nenhum momento, faz da relação do Jobs com a filha um ótimo meio para desnudar a alma do protagonista.

Na abordagem proposta por Boyle, Jobs só consegue alcançar o verdadeiro sucesso profissional quando encontra uma ponte para o coração de Lisa, filha de seu relacionamento tempestuoso com Chrisann (Katherine Waterston). Em 1984, quando nega a paternidade da menina e acusa Chrisann publicamente de ter traído-o, Jobs vê o Macintosh transformar-se em um fracasso e é despedido da Apple, empresa que ele ajudara a fundar. Já em 1988, o lançamento promissor do NeXT coincide com uma aproximação entre o personagem e a filha, visto que Lisa, enfrentando dificuldades com a mãe, pede (sem sucesso) para morar junto com ele. Finalmente, no momento decisivo da trama, Jobs consegue ter um diálogo aberto e sincero com a filha, sendo que a conexão que estabelece-se entre eles é mostrada como algo preponderante para a consagração definitiva do inventor na apresentação do iMac.

Não pensem, porém, que Steve Jobs mostra um homem que chega no final do filme livre de seus demônios internos. Boyle sugere que, devido à problemas vividos na infância, Jobs desenvolveu uma capacidade extraordinária de entender o que os usuários de seus produtos necessitam, mas esses mesmos problemas também tornaram-no uma pessoa autocentrada e difícil de se conviver. Em momentos alternados, o Fassbender empresta sua conhecida eloquência e tom autoritário para que o personagem discuta e grite com praticamente todos os seus sócios e funcionários. Assim, Joanna Hoffman (Kate Winslet) é chamada de incompetente, John Scully (Jeff Daniels) é acusado de sabotagem, Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg) tem sua carreira ameaçada e, naquela que talvez seja a cena mais impactante do filme, Steve Wozniak (Seth Rogen) e suas inquestionáveis contribuições para a Apple são desprezados por Jobs na frente de um auditório cheio.

Steve Jobs - CenaBoyle escancara, portanto, o tal “gênio ruim” do protagonista e, por mais que seja difícil vê-lo humilhando desnecessariamente outras pessoas (minha esposas toda hora chamava-o de ridículo rs), é sempre bom ter acesso a esse tipo de exemplo para refletirmos sobre os perigos de deixarmo-nos seduzir pelas tentações do ego. Apesar de ser bilionário e inteligentíssimo, Steve Jobs não conseguia relacionar-se com amigos e parentes: ele sabia como atender e prever a vontade dos outros (gostei da deixa para o desenvolvimento do iPod), mas não conseguia utilizar essa inteligência para agradar a si próprio. Jobs compara a si mesmo com um maestro, mas ele não parece conduzir uma música que lhe agrade. Convenhamos, isso não é exatamente um exemplo de vida feliz.

Lá no primeiro motivo que eu dei-lhes para assistir Steve Jobs, eu disse que a Kate Winslet tem grandes chances de levar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, mas isso deve-se principalmente ao fato de ela ter vencido o Globo de Ouro na mesma categoria: não acho que ela tenha feito nada demais aqui e há outras atrizes em papéis mais interessantes na disputa, como a Alicia Vikander. Fora isso, Steve Jobs foi uma grata surpresa: eu, que não esperava absolutamente nada do filme antes de saber que ele era do Danny Boyle, deparei-me com uma boa história, boas atuações (continuo amando o Seth Rogen; o Fassbender dispensa comentários) e uma direção enxuta e eficiente.

Steve Jobs - Cena 2

Em Transe (2013)

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Em TranseNesse texto, comentarei sobre algumas experiências pessoais que tenho relacionadas ao tema do filme, a psicologia. Falarei ainda sobre seu engenhoso roteiro, uma espécie de “quebra-cabeças” no melhor estilo A Origem. Começo, no entanto, por aquilo que é inquestionavelmente o ponto forte de Em Transe, uma cena, verdadeiro presente dos deuses cinematográficos, que nunca mais será esquecida pelo autor desse blog. Como trata-se de um revelação sobre o roteiro, coloco antes o alerta de SPOILER e, aviso dado, compartilho com vocês o meu êxtase pelo vislumbre do corpo nú da Rosario Dawson. Eu, apaixonado que sou pela cor de pele morena (tanto que, há 6 meses, coloquei uma aliança dourada no dedo da mão esquerda de uma bela representante da raça), já havia reparado nas curvas da atriz desde o Alexandre, longa onde ela exibe toda a exuberância de suas glândulas mamárias para um desinteressado Colin Farrell que, imperdoavelmente, preferiu continuar pensando nas partes baixas do Jared Leto. Cada um, cada um. O fato é que, após o filme do Oliver Stone, passei a relacionar a Rosario dentre as mais belas beldades de Hollywood e foi com o entusiasmo de um criança que ganha exatamente aquilo que pediu para o Papai Noel que eu assisti a cena onde o Simon, personagem do James McAvoy, observa-a adentrar o recinto logo após… (respira, concentra, recorda, agradece e descreve) depilar a pepeca. APARECE A PEPECA DELA, CARAS, LISINHA! Foi lindo, mágico e perturbador. Não acreditando no que vi, voltei a cena várias vezes, acabei com paciência da minha tolerante esposa e quase precisei dormir no sofá. Todo caso, dormi feliz e, mesmo sabendo que ele nunca lerá isso aqui, dirijo-me agora especificamente ao Danny Boyle, com Caps Lock e tudo, para dizer-lhe: OBRIGADO, CARA!

Tributo pago as morenas, hormônios controlados, digo-lhes que Em Transe, com ou sem pelos pubianos, é um filmão, um desses trabalhos que, além de ser prazeroso (com ou sem trocadilhos) comentar, é muito bacana ajudar a divulgar e tornar mais conhecido. Digo isso porque, se não me falha a memória, por aqui o filme só ficou uma semana em cartaz e muita gente, inclusive eu, não teve a oportunidade de assistí-lo no cinema. Reparemos, pois, esta falha enaltecendo-o tal qual ele merece.

Em Transe - Cena 2Simon (McAvoy) trabalha em um local onde objetos de arte caríssimos são leiloados. Um dia, durante a venda de um quadro estimado em 25 milhões de dólares, assaltantes invadem o leilão e Simon, responsável pela segurança das peças, tenta escapar do local levando o quadro consigo. Interceptado por Franck (Vincent Cassel), um dos assaltantes, o personagem recebe uma tremenda pancada na cabeça e é enviado para o hospital. Posteriormente, descobre-se que o tal quadro desaparecera e que Simon, que também estava envolvido no esquema do roubo, era o único que sabia o paradeiro da peça. O problema é que, devido ao golpe que recebeu do ladrão, ele esqueceu onde o escondeu. Para recuperar a memória e, posteriormente, o objeto do roubo, Simon é forçado por Franck e seus capangas a consultar uma técnica em hipnose, a Dra. Elizabeth (Rosario Dawson).

Trance-movie-imageComo convivo há um bom tempo com vários psicólogos, não possuo o tal preconceito que muita gente confessadamente nutre contra a profissão. Em outras palavras, não acho que “psicólogo é coisa de doido”. Já relatei aqui vários dos problemas, ansiedades e frustrações que carrego comigo e, visto que não consegui superá-los sozinho, procurei um profissional para contar minhas chorumelas. O que eu tenho percebido é que falar abertamente com alguém sobre as coisas que nos incomodam, de fato, nos ajuda a reorganizar nossos pensamentos. Também é verdade que, por estarmos ali dispostos a reavaliar nossos comportamentos, podemos facilmente ser induzidos a acreditar em algo sobre nós mesmos ou sobre qualquer outro tema. Em outras palavras, a possibilidade de um especialista inserir uma idéia na mente alheia, teoria que é muitíssimo bem explorada no já citado A Origem, não é somente ficção.

Em Transe - Cena 5A vida de Simon depende de ele conseguir lembrar-se do paradeiro da obra de arte. Elizabeth utiliza a técnica da hipnose para fazê-lo recordar-se do local onde o quadro foi escondido, mas durante as sessões começamos a perceber que, junto com as memórias desejadas, Simon também está recobrando alguns detalhes de seu passado, qualquer coisa ligada a um vício com jogo, que a trama até então não havia explorado. Chega um momento em que, inevitavelmente, começamos a nos perguntar se aquilo que estamos vendo é, de fato, o que aconteceu ou se tudo não passa de um mundo imaginário que Elizabeth, com sua técnica e sugestões, criou dentro da mente de Simon.

Em Transe - CenaEu, que não sabia da cena da Rosario comentada no primeiro parágrafo, peguei esse filme para assistir pela admiração que nutro pelo trabalho do Danny Boyle. Desde que vi o Trainspotting, associo o nome do diretor a edição inovadora, diálogos rápidos e cenas de violência memoráveis (ainda hoje o insano Begbie é um dos meus personagens favoritos e, claro, não podemos esquecer aqui a conclusão macabra do 127 Horas). Além de trazer uma reedição da ‘cena do extintor’ mostrada no Irreversível, referência ao trabalho do Cassel (que aqui interpreta o Franck) e homenagem a um dos momentos mais macabros do cinema recente voltado para o público adulto, Em Transe conta com um desses roteiros que jogam com nossas mentes e nos confundem o máximo possível antes da “verdade” ser revelada e explicada (sutilmente, sem entregar tudo mastigado) em um final surpreendente. Entre o início misterioso e esse desfecho empolgante, Boyle nos entretêm com uma ótima fotografia (outra característica de seus trabalhos), uma trilha sonora envolvente composta basicamente por músicas eletrônicas, cenas inesperadas (nudez da Dawson), engraçadas (morango!) e violentas (calculem aí a dor provocada por um tiro no bilau) e, de quebra, oferece outra oportunidade para o James McAvoy demonstrar o porque de ele ser um dos atores mais promissores trabalhando atualmente em Hollywood. Não tenham dúvidas de que, por mais que tenha sido pouco comentado, Em Transe é um dos melhores filmes americanos do ano passado.

Sugestão para o Danny Boyle: Zoe Saldana

Presente para o leitor tarado preguiçoso: Alegria!

Declaração para a minha esposa: Te amo! rs

Em Transe - Cena 3

Extermínio 2 (2007)

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Extermínio 2Antes do texto, permitam-me compartilhar duas coisas com vocês:

  1. Minha empolgação: QUE FILME FODA DO CARALHO!
  2. Minha frustração: Assisti Extermínio 2 antes de ontem. Esse texto era para ter saído ontem, no máximo, hoje a tarde, repleto daquelas palavras empolgadas típicas de alguém que ainda está sobre o efeito de algo que o agradou muito. O problema é que o sistema de post do blog simplesmente TRAVOU, eu não conseguia nem acrescentar textos novos nem editar os antigos. Passei toda a tarde de hoje pensando em teorias da conspiração, ataques de hackers e coisas do tipo. Verifiquei TODAS as configurações do blog. Nada. No final do dia, já disposto a desistir da WordPress, resolvi limpar o histórico de navegação e os cookies. Adivinhem o que aconteceu?

O primeiro Extermínio é um filme sensacional. Um vírus extramemente contagioso espalha-se por Londres sem maiores explicações e um sujeito acorda em um hospital 28 dias depois sem saber absolutamente nada do que aconteceu. Antes das respostas, uma multidão sem fim de zumbis e uma correria infernal. Mortes, mortes e mais mortes capturadas pela câmera esperta do Danny Boyle em um cenário de desespero e sobrevivência. Repetindo: sensacional. Cinco anos depois, o diretor Juan Carlos Fresnadillo (sob o olhar atento de Boyle, que produziu a sequência) retomou a história para nos contar o que aconteceu em terras britânicas 28 meses após a infecção original.

Corre, moço!

Corre, moço!

Don (Robert Carlyle, o eterno Begbie do Trainspotting) é um dos pouquíssimo sobreviventes da tragédia. Resumindo, o exército americano entrou na Inglaterra, limpou a bagunça toda e agora os ingleses estão aos retornando aos poucos para a capital de seu país para repovoarem o local. Naquela que ainda é considerada a única área totalmente livre de riscos de infecção, Don espera pelos filhos (que estavam na Espanha durante o ocorrido) em uma estação de trem. O abraço paterno não supre a falta da mãe (Catherine McCormack) e Don revela para os filhos o trágico destino que ela encontrou nas mãos (e muitos dentes) dos zumbis. Os dias passam, o soldado Doyle (Jeremy Renner) vigia entediado os topos dos prédios de Londres e uma pesquisadora do exército (Rose Byrne) questiona sem sucesso o fato de terem levado crianças para uma cidade que ainda encontrava-se ameaçada. É então que os dois filhos de Don tem a idéia de irem sozinhos até sua antiga casa. O que já seria algo idiota e imprudente em condições normais agrava-se pelo fato da casa ficar FORA da zona de segurança. Lá eles encontram uma surpresa e o início de um novo inferno para londrinos e americanos.

Não sei vocês, mas eu gosto de filmes de terror onde as coisas acontecem. Explico: em um roteiro Hollywoodiano “tradicional”, os protagonistas enfrentam aquilo que lhes ameaça durante a trama e sempre vencem no final. Um ou outro personagem secundário legal morre durante o processo para garantir a tensão e os machucados e enrascadas são livres, mas é praticamente uma obrigação o “bem” vencer o “mal” no fim e muito, muito raramente, crianças são enviadas para o além. Não sou sádico e nem misógino, mas também não sou burro, não gosto de ver milhares de soldados, policiais e homens sendo mortos por assassinos nesses filmes enquantos frágeis donzelas e tenros molecotes sempre escapam dos mesmo perigos. Em Extermínio 2, as “coisas” acontecem, e como acontecem!

Quem será o próximo?

Quem será o próximo?

O fato de eu não ter conseguido postar sobre o filme ontem, de certa forma, foi bom. Acreditem, eu colocaria um aviso de SPOILERS no começo do texto e comentaria TODAS as cenas de morte conduzidas por Fernadillo. Já que não é o caso, contentarei-me em dizer-lhes que, mesmo com todo o repertório de filmes de terror que eu julgo ter, fiquei impressionado com a crueza e violência de algumas passagens. O diretor aproveita bem o fato de estarmos condicionados a esperar sempre pelo melhor e nos garante várias surpresas ao longo do filme. O rosto vira para o lado, dá aquele frio na barriga e o choque é tão inevitável quanto as palmas para a coragem que Fernadillo teve de levar até as últimas consequências questões como sobrevivência e tensões familiares.

É difícil aceitar alguns pontos do roteiro, certas soluções encontradas por seus responsáveis chegam a serem simplórias. Dentre todas as casas do mundo, não dá para acreditar que o menino da cena inicial fosse bater logo naquela onde Don estava escondido. Também não dá para engolir que nenhum soldado estaria vigiando a sala que continha um risco potencial para todos. Esses detalhes, bobos, felizmente não comprometem e são citados apenas pelo exercício da análise cinematográfica. Extermínio 2 é bem sucedido na difícil tarefa de manter a qualidade de seu antecessor e, em certos pontos, chega até a superá-lo. Fica a dica certa de uma angustiante e excelente sessão e um conselho: de vez em quando, limpem o histórico de navegação, ok? rs

Entre outras coisas, ele também não lembrou dos cookies...

Entre outras coisas, ele também não lembrou dos cookies…

Extermínio (2002)

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ExtermínioDos milhares de títulos que existem a respeito (vai lá, nem são tantos assim), lembro agora de dois trabalhos do Frank Darabont como bons exemplos de análises do comportamento humano em situações extremas, a saber o excelente O Nevoeiro e a popular série The Walking Dead. Dirigindo o primeiro e produzindo o segundo, Darabont utiliza sua experiência com histórias sobre superação vista em filmes como Um Sonho de Liberdade e À Espera de Um Milagre para mostrar um lado um tanto quanto mais sombrio de um cenário onde a reclusão ou a extinção da lei e da ordem obrigou seres humanos a posicionarem-se instintivamente uns contra os outros. Além das tradicionais (e bacanudas) cenas de mortes envolvendo decapitações, tiros e ferroadas de insetos gigantes, discute-se nessas histórias questões para as quais nossa filosofia ainda não conseguiu respostas definitivas. Existe mesmo algo que possamos chamar de “natureza humana”? Causa e efeito? O extinto de sobrevivência, em momentos críticos, falará mais alto do que nossos valores morais?

Imagine o seguinte: você sai para trabalhar, sofre um acidente e é levado em coma para o hospital. Acorda alguns dias depois em um lugar completamente abandonado e, antes mesmo que você tenha tempo para pensar a respeito, tu é obrigado a lutar para salvar sua vida contra “pessoas” que, sabe-se lá porque, parecem ter como único objetivo matarem umas as outras. Essa premissa instigante e assustadora foi utilizada na abertura do The Walking Dead e tambémno início do ótimo Extermínio para nos jogar para dentro de um mundo onde tudo aquilo que conhecemos não tem mais validade.

Extermínio - Cena

Jim (Cillian Murphy), o azarado da vez, acorda em um hospital de Londres 28 dias após uma ação de ativistas pró-direto dos animais dar errada. Contaminados, os animais libertos na ação espalharam um vírus extremamente contagioso que em poucos dias praticamente dizimou a população da capital inglesa. Enquanto vaga pelas ruas de uma cidade deserta, o personagem encontra 2 sobreviventes e, juntos e sem muitas esperança de êxito, eles dirigem-se para a casa de Jim para tentar encontrar seus pais.

Nas primeiras duas temporadas de The Walking Dead, a tensão residia principalmente na diferença de opiniões de Rick e Shane sobre os rumos que o grupo de sobreviventes liderados por eles deveria seguir. Enquanto um procurava conservar valores como solidariedade e amizade para com aqueles que eram encontrados durante o caminho (Rick), o outro (Shane) dizia que era necessário uma nova mentalidade para sobreviver naquele mundo, uma mentalidade voltada principalmente para a auto-preservação. Em Extermínio, filme dirigido pelo cult Danny Boyle (72 Horas, Quem Quer Ser Um Milionário?) esses conflitos são personificados e vividos por Jim e pela valente Selena (Naomie Harris). Tendo acompanhado todo o processo de falência pública provocado pelo vírus, Selena “endureceu” rapidamente e assumiu uma postura pragmática frente a situação: ela mata qualquer um suspeito de infecção e não pensa duas vezes antes de abandonar alguém que coloque sua segurança em risco. Jim, por outro lado, recém apresentado aquela nova configuração social e ainda atordoado, sofre para viver em um mundo onde nenhuma regra anterior de convivência, respeito ou moral é válida.

Extermínio - Cena 2

Selena e Jim

Vale a pena sobreviver a qualquer custo? Abandonar alguém para morte certa em nome da própria sobrevivência é um indicativo de força e de adaptação ou um sinal de que a humanidade e todos aqueles valores que esperam-se de nós já morreram? Quando aquilo que temos de mais primitivo, que aqui aparece sobre a alegoria dos “macacos” e da “raiva” é liberado, todos esses questionamentos são feitos e, enquanto conduz sua história repleta de perseguições e fugas alucinantes, Danny Boyle tenta nos convencer de que a tal “natureza humana” não está fundamentada apenas na sobrevivência da espécie, mas também em valores e sentimentos como honra, amor e amizade. Nesse sentido. Extermínio está muito mais para Um Sonho de Liberdade do que para O Nevoeiro.

Eu já havia assistido esse filme e voltei a fazê-lo pela indicação de um amigo. Trocando em miúdos, eu conhecia o filme mas não lembrava do título dele. Fiquei feliz tanto por rever cenas maravilhosas como o despertar de Jim ao som da atmosférica East Hastingsquanto por poder analisá-lo em um outro momento de minha vida, com outras leituras e outros pontos de vista. Extermínio é um excelente filme que alia entretenimento e conteúdo de forma poucas vezes vistas dentro de filmes de terror, um trabalho para ser visto, revisto e celebrado.

A mentalidade que transforma-se sem perder sua essência é um dos pontos discutidos pelo roteiro

A mentalidade que transforma-se sem perder sua essência é um dos pontos discutidos pelo roteiro