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Mulher Maravilha (2017)

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Após dividir opiniões com o tom sombrio adotado em O Homem de Aço e Batman vs Superman e ver o hiper colorido Esquadrão Suicida transformar-se em um dos maiores fiascos de 2016, o pessoal da DC certamente percebeu que não podia mais errar. Nisso, eles olharam para o lado, observaram o que a Marvel produziu nos últimos anos e decidiram tentar algo semelhante. Mulher Maravilha, filme da diretora Patty Jenkins concebido e produzido pelo onipresente Zack Snyder, traz todo o humor e ação que fizeram o Homem de Ferro e cia caírem nas graças do público. A aura mais “séria” da DC, no entanto, não foi completamente deixada de lado e continua presente graças à adição do atualíssimo tema do feminismo. O resultado dessa “mistura de fórmulas” é um filme legal, que diverte, faz pensar e que, acima de tudo, mostra o caminho que a DC pode e deve seguir daqui em diante.

Ninguém discorda que a participação da Mulher Maravilha (Gal Gadot) foi um dos pontos altos do Batman vs Superman, mas ao mesmo tempo ficou a sensação incômoda de que a personagem não rendeu tudo o que poderia render. A amazona foi fundamental para a vitória dos heróis sobre o Apocalypse, porém a falta de um longa anterior contando sua história transformou-a quase numa coadjuvante de luxo num universo em que ela é uma das principais protagonistas. Pensem aí: o que nos contaram da Diana antes de mostrarem-na saltando e golpeando ao som daquela música tribal legalzona? Que ela estava procurando uma foto? A real é que o Zack Snyder errou feio com a personagem (e, para quem acha que não é possível contar uma história bacana e apresentar muitos personagens ao mesmo tempo, basta ver o que a Marvel fez no Guerra Civil, que debutou simultaneamente gigantes como Homem Aranha e Pantera Negra).

Mulher Maravilha chega agora para contar a origem de Diana e explicar o contexto no qual aquela foto foi tirada. Ficou bom? Ficou bom demais, pena que não fizeram isso ANTES do Batman vs Superman. Se o filme da diretora Patty Jenkins preenche lacunas e responde questões anteriormente colocadas, ele pouco ou nada faz para preparar terreno para o próximo filme da DC, o aguardado Liga da Justiça (tanto que nem há cena pós-créditos). O acerto individual é inegável, mas, do ponto de vista cronológico, o Universo Estendido da DC continua estranho.

Feita esta ressalva, falemos dos muitos acertos de Mulher Maravilha. Tal qual O Homem de Aço, temos aqui um filme de origem, desses onde a história do/a personagem é explorada desde o início. Nisso, a diretora Patty Jenkins vale-se de sequências de animação e de cenas numa ilha paradisíaca para mostrar a infância de Diana, filha de Hippolyta (Connie Nielsen), uma amazona descendente do próprio Zeus que cresceu sem conhecer nenhum homem e foi treinada pela lendária guerreira Antiope (Robin Wright). Este começo, que é deveras rápido, revela-se fundamental para o funcionamento da trama: é aqui, nos diálogos entre a heroína e sua mãe, que a curiosidade, a determinação e a fé inabalável no amor da personagem ficam claros para o público. Vale destacar também a beleza onírica do cenário, que tanto faz a gente querer sair viajando por aí (as locações são italianas) quanto contrastam significativamente com os horrores da guerra que são mostrados em seguida.

O conflito começa quando, após uma briga com a mãe, Diana vê um avião cair próximo ao litoral da ilha. Naquela que talvez seja a cena mais bonita do filme (visualmente falando), a personagem salta de um penhasco e mergulha para resgatar o piloto Steve Trevor (Chris Pine) dos destroços. Tão logo salva a vida de Steve, Diana e as amazonas precisam lidar com um batalhão inteiro do exército alemão, que invade a ilha à procura do piloto. A primeira cena de ação de Mulher Maravilha é um espetáculo: mesmo que o uso excessivo do slow motion (estética visual que a diretora emula dos trabalhos do Snyder) acabe enjoando depois de um tempo, as lutas foram coreografadas para parecerem selvagens e brutais. Caem, junto com os corpos dos alemães (e o de uma importante personagem), os primeiros estereótipos: aqui, são as mulheres que salvam os homens e elas, ao contrário do que é levianamente dito, não tem nada de “sexo frágil”. Antiope bate igual uma campeã, caras.

O tema do feminismo é explorado em muitos pontos de Mulher Maravilha e a postura forte e independente de Diana certamente inspirará muitas mulheres a buscarem o próprio empoderamento. Como o debate é amplo, também não dá para desconsiderar a opinião de quem diz que, ao fazer da heroína uma mulher de corpo intangível e axilas depiladas, o filme foi superficial e até mesmo equivocado com as demandas atuais do feminismo. Independente da opinião que qualquer um possa ter sobre as questões abordadas, no entanto, não podemos abrir mão de pensar sobre elas, então deixo aqui a minha contribuição. Tão logo a batalha da praia encerra-se, Steve é interrogado pelas amazonas sobre o mundo exterior e a guerra. Quando tem oportunidade de ficar sozinha com o piloto, Diana interpela-o com uma série de perguntas que, em sua maioria, carregam algum tipo de conotação sexual. Achei particularmente interessante observar a reação do público do cinema nessa cena (e também naquela que acontece logo em seguida, num barco). Enquanto as mulheres riam o tempo todo, os homens ficavam visivelmente constrangidos. Por quê? Será que é porque o cinema costuma retratar somente o contrário (mulheres sexualizadas à serviço do humor)? Acredito que, mais do que revoltar-se quando Diana diz que “homens são necessários apenas para a reprodução”, vale a pena usar o desconforto causado por algumas cenas para repensarmos algumas atitudes e posturas.

Pelo tema da guerra, muitas pessoas apressaram-se em comparar Mulher Maravilha com o Capitão América. As semelhanças visuais são óbvias (apesar de estarmos falando de duas guerras diferentes), mas estruturalmente a trama lembra bem mais o primeiro Thor. Tão logo chega em Londres, Diana envolve-se em uma séries de situações cômicas tal qual o deus do trovão envolveu-se ao ser exilado na Terra por seu pai. Esse “meio” do filme é onde vemos com mais clareza a influência da Marvel sobre o trabalho da DC. O humor proveniente da inocência da Diana em cenas rápidas e leves como aquela da porta giratória é melhor do que tudo o que foi feito nesse sentido no Esquadrão Suicida (até hoje não acredito naquela ‘piada’ sobre apagar o histórico de busca) e é um indicativo de que a DC está no caminho certo.

Todo caso, trata-se de um filme de “super herói”, o que implica em cenas de ação grandiosas e confrontos contra vilões memoráveis. Antes de ficar cara a cara com seus antagonistas, Ludendorff (Danny Huston) e Dra. Maru (Elena Anaya), Diana (que, salvo engano, não é chamada em nenhum momento de Mulher Maravilha) enfrenta o perigo das trincheiras e luta contra um sniper nos escombros de uma cidade destruída. Fazendo uso de seu escudo, dos Braceletes Indestrutíveis, do Laço da Verdade e da Espada Matadora de Deuses, Diana toma a frente no campo de batalha e sobra sobre os soldados alemães. O que ela faz contra o sniper no campanário, aliás, é uma das maiores demonstrações de força bruta que se tem notícia em um filme de super herói.

É difícil imaginar ligações diretas entre Mulher Maravilha e o Liga da Justiça. Deveriam ter lançado este filme antes do Batman vs Superman e pronto. Como “consolação”, fica o fato de que, fora apontar um caminho, o trabalho da diretora Patty Jenkins começa, desenvolve-se e termina bem. A reviravolta do final, com o surgimento de um novo e inesperado vilão e a pancadaria brutal que segue-se é o exemplo que a DC ousa deixar para a Marvel: valorizem a luta final e façam o possível para tornarem-na épica e cheia de poderes, luzes e frases de efeito. Vencer uma guerra com amor? Gosto. Gal Gadot? Gosto também.

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A Qualquer Custo (2016)

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a-qualquer-custoA Qualquer Custo, produção do diretor David Mackenzie cotada para figurar entre os concorrentes ao Globo de Ouro/Oscar de 2017, retrata sentimentos e problemas contemporâneos dos norte americanos que nós, brasileiros, não deveremos ter muitas dificuldades para identificar e estabelecer paralelos com nossa própria realidade.

Vive-se no país um período de desilusão política provocado por denúncias diárias de corrupção. Tanto os partidos de esquerda quanto os de direita tiveram alguns de seus principais líderes presos e/ou denunciados em esquemas de recebimento de propina e de desvio de verba, de modo que a desconfiança da população nas instituições públicas está cada vez maior. Nesse cenário de apatia onde reina a sensação de que “todos políticos são iguais (ladõres)”, a tendência é que líderes com discursos extremos e nacionalistas despontem como opção à democracia fragilizada. Salvas as devidas proporções, foi isso que aconteceu na Itália e na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e é isso que tanto explica o resultado da última eleição presidencial dos Estados Unidos quanto desenha um futuro sombrio para o Brasil em 2018.

No caso específico dos EUA, o desencantamento político ainda vem acompanhado pela crise do liberalismo enquanto sistema econômico. Entre outras coisas, Donald Trump ganhou porque conseguiu falar direto no coração daqueles americanos que, desde 2008, amargam a recessão econômica provocada pelas especulações no mercado imobiliário (tema que é trabalhado neste filme aqui). Trump propôs medidas protecionistas e nacionalistas (rever acordos internacionais, taxar importações, expulsar imigrantes ilegais do país) e mostrou-se disposto a enfrentar o poderio de Wall Street para proteger os trabalhadores. Trump falou o que os americanos desiludidos com o governo democrata queriam ouvir, e nisso o fato de ele ser um bilionário xenófobo, misógino e homofóbico acabou não importando muito. Para salvarem seus próprios pescoços, os eleitores mostraram-se dispostos a pagar qualquer preço, e é sobre esse tipo de guinada radical que A Qualquer Custo trata.

a-qualquer-custo-cena-4Os irmãos Toby (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster) estão assaltando bancos em cidadezinhas do interior do estado do Texas. O esquema é simples: eles entram nas agências armados e usando capuzes, anunciam o assalto, rendem os funcionários, limpam os caixas e os cofres e depois fogem em um carro levando o dinheiro. Para prendê-los, a polícia designa os oficiais Marcus (Jeff Bridges) e Alberto (Gil Birmingham). Marcus está prestes a aposentar-se e quer levar os assaltantes à justiça para coroar sua longa carreira, mas de alguma forma ele não consegue deixar de ficar intrigado pelo padrão dos crimes que está investigando: além das ações de Toby e Tanner restringem-se a apenas uma rede bancária, eles não saem das agências levando quantias significativas de dinheiro. Por que alguém arriscaria a ser preso por tão pouco?

Essencialmente, o filme do diretor David Mackenzie fala de um cidadão que decidiu chutar o pau da barraca e usar o sistema contra o próprio sistema para resolver os problemas provocados pela crise econômica. Toby está na merda. Sem estudo e profissão, ele separou-se da mulher e perdeu a mãe, da qual ele herdou apenas um rancho no meio do nada. O terreno pode até ser explorado (há jazidas de petróleo no subsolo), mas o banco ameaça tomá-lo caso o pagamento de uma hipoteca não seja executado. Sem muito o que fazer, Toby convence seu irmão a ajudá-lo em alguns assaltos para levantar o dinheiro necessário para quitar a dívida. Tanner, que acabou de sair da prisão e não demonstra nenhum receio em voltar para lá, topa a ideia na hora.

a-qualquer-custo-cenaEscrevi ali no último parágrafo que Toby “não tinha muito o que fazer”, mas é claro que ele poderia utilizar outros meios que não fossem o do crime para resolver seus problemas. A grande questão de A Qualquer Custo é que Toby, conscientemente, não quer trilhar o caminho mais longo e difícil. Quando olha ao redor, o personagem só vê pobreza e morte (a edição mostra muitos locais sucateados e cidades desertas, dando um ar desesperador para as terras áridas do Texas), e ele não quer que seus filhos amarguem o mesmo tipo de vida miserável que ele levou. Toby não quer um emprego em uma lanchonete (como uma funcionária lhe sugere) e não quer fazer um empréstimo (como as várias placas na estrada oferecem): ele quer uma solução imediata e eficaz, e se isso significa ir contra a lei, então que assim seja. Toby votaria em Trump sem pestanejar.

A Qualquer Custo trata das consequências diretas da falta de credibilidade do governo para resolver os problemas dos cidadãos, mas não vi uma tentativa deliberada de legitimar atos extremos e/ou criminosos. O discurso de Toby sobre acabar definitivamente com a pobreza impregnada em sua família é tocante e convincente, mas ele não vê-se como um herói e o filme não tenta mostrá-lo como tal. A decisão do personagem de reivindicar seu “espaço vital”, aliás, tem consequências diretas e negativas na vida de muitas pessoas. A lei, que não por acaso é personificada em um Jeff Bridges velho e cansado, pode até estar enfraquecida e desacreditada em um cenário onde as instituições defendidas por ela não passam confiança, mas ainda assim é a ordem que prevalece no final.

a-qualquer-custo-cena-2Além de tratar de temas atuais, A Qualquer Custo é relevante por trazer mais de um ponto de vista sobre o papel do cidadão comum nos tempos de crise, apontando o caráter pernicioso das instituições financeiras e políticas mas também condenando os rampantes de violência individual, e funciona como uma atualização do gênero western, visto que os assaltos a banco e o confronto entre bandidos e mocinhos são os elementos ao redor dos quais a trama é construída. Gostei bastante da condução do Mackenzie, que valoriza os pequenos momentos (é muito bacana ver o Jeff Bridges bater o chapéu naquela luminária do motel) sem abrir mão da dramaticidade e da emoção das grandes sequências de ação (como o inevitável acerto de contras entre os irmãos Howard e a polícia), e da atuação tresloucada do Ben Foster, que ficou legalzão atirando na galera enquanto reivindica para si o título de “Senhor das Planícies”. De fato, este filme tem tudo para ser indicado e destacar-se na próxima temporada de premiações.

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Star Trek: Sem Fronteiras (2016)

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star-trek-sem-fronteirasJá em seu terceiro filme, a vida do reboot da série Star Trek iniciada em 2009 (e seguido em 2013 pelo Além da Escuridão) já pode ser considerada “longa”, mas o que vi nesse Sem Fronteiras me fez questionar sobre o quesito “prosperidade”. Agora comandada pelo diretor Justin Lin, mais conhecido por seu trabalho na série Velozes & Furiosos (o J. J. Abrams, diretor dos dois primeiros, abriu mão dessa sequência para fazer O Despertar da Força), a franquia praticamente não sai do lugar nesse novo episódio, que pode ser resumido como uma sucessão quase ininterrupta de cenas de ação absurdas (no pior sentido da palavra) que faz pouquíssimas adições à história que foi contada até aqui.

Capitão Kirk (Chris Pine) e o Comandante Spock (Zachary Quinto) querem encerrar as atividades à bordo da USS Enterprise. O primeiro, após mais de 2 anos no espaço comandando a espaçonave nas mais variadas missões diplomáticas, sente que perdeu o “senso de propósito” e por isso quer sair. Já o vulcano, que continua brigando com a Tenente Uhura (Zoe Saldana), planeja encontrar uma fêmea para reproduzir e garantir a continuidade da sua espécie após a destruição de seu planeta natal. Sim, REPRODUZIR, porque o Spock continua frio e chatão. Antes de sair, no entanto, a dupla desembarca na impressionante Estação Yorktown e recebe uma última tarefa: acompanhar uma sobrevivente de uma batalha estelar até um planeta distante onde supostamente toda a tripulação de uma nave foi feita refém. Esta missão reafirmará junto aos membros da Enterprise o poder da união e do trabalho em equipe e fará Kirk e Spock repensarem seus desejos de partir.

Desconfiei que esse filme fosse ser ruim (ou pelo menos inferir aos anteriores) desde que vi o nome Justin Lin nos trailers. É certo que resgataram a série Star Trek para transformá-la em um blockbuster para as massas, mas há diferenças conceituais quase inconciliáveis entre o público da ficção científica e aquelas pessoas que pagam para assistir carecas bombados acelerando carros velozes. Temi por essa mistura e pelo direcionamento que seria dado à franquia e, infelizmente, desta vez eu não estava errado: há pouco cérebro em Sem Fronteira.

star-trek-sem-fronteiras-cena-2O roteiro, que é assinado pelo ator Simon Pegg (que interpreta o Scotty aqui), é uma reedição sem brilho daquilo que já havia sido feito no Além da Escuridão. Esquematizando:

  • AdE: Kirk é acusado de irresponsabilidade e quase perde o controle da USS Enterprise/ SF: Kirk cogita deixar o comando da Enterprise.
  • AdE: Spock e Uhura brigam e fazem as pazes no final/ SF: Spock e Uhura… fazem as pazes no final após brigarem.
  • AdE: Sulu (John Cho) assume a Enterprise interinamente (sem golpe) e mostra-se um capitão badass/ SF: Sulu, que revela-se homossexual, continua mais macho do que muito homem quando senta na cadeira de comando.
  • AdE: Doutor McCoy, o Magro (Karl Urban), mete-se em uma enrascada e fica preso numa bomba/ SF: Doutor McCoy fica sozinho com o Spock.
  • AdE: Surge Khan, um antigo membro da Federação que sentiu-se traído pela mesma e transformou-se em um inimigo/ SF: Aparece Krall (Idris Elba), antigo Capitão da Federação que…

… bem, acho que vocês entenderam. Acreditem, as semelhanças não param por aí. Sem pensar muito, ainda dá para falar da adição de uma personagem feminina para a tripulação (antes Carol, agora Jaylah) e, claro, o ataque maciço sofrido pela Enterprise.

star-trek-sem-fronteiras-cena-4Sem Fronteiras tem muitas cenas de ação e a maioria é genérica até não poder mais (tenho certeza que, por exemplo, daqui um mês não lembrarei de nenhum detalhe do confronto Kirk x Krall), mas é preciso render-se à beleza quase operística da queda da USS Enterprise. Atacada por uma legião de aeronaves semelhantes a um enxame de abelhas, a Enterprise desfaz-se diante dos nossos olhos em uma cena impensável, triste e extremamente emocional. É uma pena que, na sequência, o diretor Justin Lin opte por abandonar esse tipo de grandeza característica da série para investir na adrenalina tosca que dita o ritmo da maioria dos Velozes & Furiosos. Kirk acelerando uma moto através de um terreno pedregoso com a mesma facilidade de quem passeia por uma avenida no final de semana? Façam-me o favor… (observem também o PÉSSIMO efeito especial utilizado nessa cena, vergonha total)

star-trek-sem-fronteiras-cena-3Em suas lamentações sobre ter distanciado-se dos motivos que levaram-no a ingressar na Federação, Kirk diz que a vida no espaço tornou-se “episódica”, como se tudo fosse previsível e até mesmo entediante. Eu te entendo, Kirk. Foi exatamente assim, aliás, que me senti enquanto assistia Sem Fronteiras, como alguém que vê um episódio de uma série qualquer onde um vilão é derrotado sem que nada de muito relevante ocorra para mudar o curso geral da história (dentre os fã de anime, tais episódios até receberam um termo: filler). Gosto demais de Star Trek para encará-lo assim, como mero entretenimento descartável conduzido por um diretor de testosteronas totais. Espero sinceramente que o J. J. Abrams retorne ao comando da franquia e aproveito a oportunidade para deixar aqui meu pesar pela morte prematura do ator Anton Yelchin, que faleceu aos 27 anos vítima de um acidente de carro. Nasdrovia, pequeno grande Chekov!

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Caminhos da Floresta (2014)

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Caminhos da FlorestaE agora que praticamente todos os clássicos infantis foram revisitados por Hollywood em megaproduções repletas de efeitos especiais, nada mais natural do que juntar todas elas (ou quase todas) em um único longa, não é mesmo?$?$? Caminhos da Floresta, no original Into the Woods, é a adaptação do diretor Rob Marshall da peça homônima da Broadway escrita pelo Stephen Sondheim. A história é uma mistura sarcástica e sombria dos contos da Cinderella, João e o Pé de Feijão, Chapeuzinho Vermelho e Rapunzel. Olhando dessa forma, considerando o elenco grandioso (Meryl Streep, Johnny Depp) e levando em conta outros títulos que vão na mesma linha (como Deu a Louca na Chapeuzinho), era de se esperar um filme revisionista e audacioso, mais voltado para os adultos do que para as crianças, que nos fizesse olhar com outros olhos as histórias com as quais crescemos, certo? Seria uma injustiça dizer que o Marshall sequer tentou, mas nota-se a todo momento que ele esbarrou no famoso “padrão Disney” durante o processo e que isso foi preponderante para que a produção, tal qual aberrações como Branca de Neve e o Caçador, transformasse-se em um grandioso e insosso filme nada.

Estamos diante de um desastre total? Nem tanto. Caminhos da Floresta começa empolgante, com os personagens sendo apresentados enquanto cantam suas canções. Ah sim, o filme é um musical. Nisso, lá está o João (Daniel Huttlestone) levando a vaca para ser vendida no mercado da cidade, a Cinderella (Anna Kendrick) sendo maltratada pela madrasta e suas filhas chatas e a Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford) na padaria tentando conseguir alguns doces e pães para levar para a vovozinha, todos cantarolando. Os cenários são fantásticos, o figurino impecável e acredito que até mesmo quem não é lá muito fã de musicais reconhecerá a grandiosidade das músicas e da edição que permite que as vozes de todos os personagens sejam intercaladas e sobrepostas para formarem belas melodias. Amarrando todas as tramas, está o perrengue do Padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt), um casal que deve reunir quatro itens (uma capa vermelha, um cabelo dourado, uma vaca branca e um sapato de ouro) para quebrar a maldição de uma bruxa (Streep) que os impede de terem filhos.

Caminhos da Floresta - CenaConfesso-vos duas coisas: 1) não faço a mínima ideia se o Padeiro e sua mulher apareciam em algum conto ou se eles são invenções do Sondheim e 2) eu asssiti o filme todo pensando que ele era dirigido pelo Tim Burton rs Os cenários escuros, a floresta gótica, as canções cheias de ironia e, principalmente, a presença do Jhonny Depp… tudo remetia ao trabalho do diretor. Caminhos da Floresta é do Rob Marshall, mas nota-se que, pressionado ou não pela Disney, o resultado final aproximasse mais da versão sofrível do Burton para Alice no País das Maravilhas do que de trabalhos anteriores do diretor, como o excelente Chicago: o começo deveras legal, com todo o impacto do cenário e das músicas, acaba cedendo lugar para canções pouco inspiradas e uma trama arrastada, o que também acontece no chatíssimo Sweeney Todd.

Caminhos da Floresta - Cena 3E qual é exatamente o ponto onde isso acontece? Após a canção insinuante que o Lobo canta para a Chapeuzinho Vermelho? Não. Após o príncipe (Chris Pine) cantar em uma cachoeira exibindo seu tórax malhado (rs)? Claro que não, amiguinho! Caminhos da Floresta fica sofrível após a cena final que, bem… não era exatamente a cena final. Lá pela metade do longa, após o Padeiro e sua mulher quebrarem a tal maldição e tudo indicar um final feliz, o filme simplesmente apresenta uma nova trama e a qualidade de tudo que fora feito até ali despenca vertiginosamente até que o verdadeiro final acontece. As músicas divertidas e irônicas cheias de coros dão lugar a lamurias sem fim e a caça ao gigante não empolga em nenhum momento.

Caminhos da Floresta - Cena 2Caminhos da Floresta concorre a 3 Oscars, dentre eles o de Melhor Atriz Coadjuvante para a Meryl Streep, prêmio que, ao que tudo indica, ela deve perder (e isso seria bastante justo) para a Patricia Arquette. Comecei assistindo-o empolgado, curtindo o visual e as músicas, mas no final eu já não via a hora de ele acabar. Tivesse o diretor prolongado a parte da coleta dos itens, encurtado a caçada ao gigante e tornado a ligação entre essas duas partes menos brusca, o resultado poderia ter sido um pouco melhor e menos sonolento. Tal qual as outras revisitações de clássicos infantis que chegaram no cinema depois do sucesso comercial do Alice, Caminhos da Floresta tem uma grande chance de agradar as crianças, visto que ele é coloridão e a maioria das músicas tem refrões pegajosos, mas acho difícil acreditar que um adulto consiga ser guiado pela mesma inocência e não perceber que os defeitos do roteiro superam as qualidades do visual e deixam a sessão tediosa.

INTO THE WOODS

Além da Escuridão – Star Trek (2013)

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Além da Escuridão - Star TrekTenho um carinho especial pelo Star Trek de 2009. Eu, que até então conhecia os personagens apenas através de imagens e citações em revistas e outros filmes, saí da sala de cinema verdadeiramente feliz, desejando vida longa e próspera para o J. J Abrams e para a franquia que ele ajudara a resgatar. Entre todos os motivos que levaram-me a considerá-lo um dos meus filmes favoritos até então, cito:

  • O roteiro: Apoiando-se inteligentemente no recurso da viagem no tempo, Star Trek conseguiu ser, ao mesmo tempo, um reboot e uma sequência, o que permitiu ao diretor explorar novos elementos dentro do vasto universo da série sem a necessidade de abrir mão de personagens e eventos do passado. Entre outras coisas, isso permitiu que o Leonard Nimoy retornasse ao papel de Dr. Spock em um dos momentos mais emocionantes do longa 🙂
  • Os efeitos especiais: Uau, olhem aquele ataque inicial dos Romulanos contra a U.S.S. Kelvin! Além de todas as excelentes cenas de batalha envolvendo as espaçonaves, o filme ainda trazia cenas conceituais belíssimas, como o ataque ao planeta Vulcano e, principalmente, a missão para neutralizar a escavadeira alienígena. Quatro anos depois e muitos filmes assistidos, ainda digo que o mergulho de Kirk (Chris Pine) e Sulu (John Cho) até o equipamento (uma queda livre direta do espaço que tem o pôr do sol ao fundo e o silêncio como trilha sonora) é um dos momentos mais mágicos que eu já presenciei olhando para a tela grande.
  • O “clima”: Esse é mais difícil de explicar. Há ali uma conexão entre personagens, música e cenários, enfim, um “clima”, que conquistam instantaneamente o espectador. A identidade visual criada para o filme e o carisma da tripulação da Enterprise é comparável ao que é visto em outras grandes franquias de nosso tempo, como O Senhor dos Anéis e Matrix. Peço ao leitor que recorde-se da cena em que o Kirk resolve alistar-se na Frota Estelar. Chegando até o local ao entardecer, ele para sua potente moto e observa, de longe, a Enterprise recebendo os últimos ajustes. Eu ACREDITEI naquele mundo naquele momento e só saí dele quando o filme acabou.

Além da Escuridão - Star Trek - Cena 2

Por esses motivos e pela vontade de voltar a ver um bom filme de ficção científica no cinema, minha expectativa para a estréia do Além da Escuridão – Star Trek era gigantesca e isso me deixou com medo. As chances do filme não ser tão bom quanto o primeiro eram enormes e a de ele ser ruim, apesar de pequenas, eram reais. Chegou o dia e lá estava eu na estréia, com meu óculos 3D e meu medo, é verdade, mas também com a esperança de voltar a sentir o que eu sentira em 2009.

Após bater Nero e os Romulanos, Kirk firmou-se como o capitão da U.S.S. Enterprise e comanda sua tripulação em missões de reconhecimento através do vasto e desconhecido espaço. Uma falha durante uma dessas missões coloca em risco seu cargo e sua amizade com Spock (Zachary Quinto), mas antes que a situação possa ser resolvida surge uma nova ameça, um antigo inimigo da Federação (Benedict Cumberbatch) que ataca nosso planeta e foge para o espaço, o que cria um estado de guerra e obriga a tripulação da Enterprise a ignorar as tensões internas e ir atrás do criminoso para resolver o conflito.

Além da Escuridão - Star Trek - Cena 5

Digo-vos, sem nenhuma tristeza, que Além da Escuridão NÃO é melhor que Star Trek. A falta de pesar ou de decepção nesta constatação deve-se ao fato de que, após refletir um pouco, percebi que esta continuação nunca poderia repetir alguns dos méritos de seu antecessor e que, excluindo-se esses méritos, Além da Escuridão é o melhor filme que ele poderia ser. Explico.

Star Trek, além de todas as qualidades que foram citadas no início do texto, tem algo contra o qual esse filme não poderia concorrer: o fator novidade. Lá, a apresentação dos personagens, o desenvolvimento do relacionamento entre eles e as muitas “primeiras vezes” que o longa contém, como a primeira batalha na Enterprise, a primeira união de forças entre Spock e Kirk e a primeira aparição do Nimoy constituem pontos altíssimos do filme. Não era possível repetir aqui esses momentos, pelo menos não com o mesmo efeito nostálgico. Ciente disso, J. J. Abrams inicia Além da Escuridão com tudo, mostrando os personagens no meio de uma missão arriscada em um planeta primitivo e exótico. Se não causa a mesma surpresa acompanharmos Kirk e Spock em ação, é magnífico ver a equipe novamente reunida (e ver que todos recebem a devida atenção) e os efeitos especiais soberbos apresentados logo no início, como na estupenda cena do vulcão, que jogam facilmente o espectador para dentro da trama.

Além da Escuridão - Star Trek - Cena 4

Como não era possível superar a nostalgia do primeiro, os roteiristas esforçaram-se para que a trama, que apoia-se em um roteiro inteligente e sombrio, suprisse essa lacuna. Kirk revela-se um capitão impulsivo e irresponsável, Spock continua afastando as pessoas que ama com sua lógica fria e irredutível e a Federação parece mentir para a tripulação da Enterprise quando a designa para a missão no planeta Kronos. A ótima reviravolta de Star Trek, que era baseada em em uma viagem temporal, aqui advém da necessidade de confiar no próximo mesmo quando isso não parece ser a melhor opção. Amizades são desfeitas, ordens diretas são desacatadas e um passado sombrio volta a assombrar a Federação, o que gera um clima de desconfiança e mistério para a trama que casa muitíssimo bem com a pegada de aventura da série. Quando menos percebemos, passaram-se as 2h10min do filme.

Além da Escuridão - Star Trek - Cena 3

Visualmente, não há nada aqui tão significativo quanto a já descrita cena da furadeira, mas de modo geral Além da Escuridão é mais dinâmico e grandioso em suas cenas de ação do que seu antecessor. Além da divertida correria da abertura, o filme ainda reserva ótimos momentos para os fãs de ação com tiroteios espetaculares, combates corpo a corpo violentos e, principalmente, momentos épicos envolvendo a Enterprise. Praticamente um personagem à parte, a espaçonave serve de palco para a missão impossível que Kirk empreende quando salta dela até a nave Vengeance e protagoniza o clímax da aventura, uma sequência emocionante onde a tripulação tenta salvá-la daquilo que parece ser a destruição certa.

Além da Escuridão é, portanto, o melhor filme que ele poderia ser, a tal “continuação natural” que a história pedia e, sobretudo, merecia. Estendo o carinho que tenho pelo primeiro à ele e recomendo-lhes que assistam-no no cinema, tanto para os vossos benefícios, visto tratar-se de um excelente filme, quanto para o da série, que para continuar necessita apenas de público, já que o espaço é gigantesco e cheio de aventuras para Kirk e cia enfrentar. Reforço os desejos de vida longa e próspera ao J. J. Abrams e a franquia.

Além da Escuridão - Star Trek - Cena

Incontrolável (2010)

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Um diretor que possui no currículo um filme ultra violento e divertido como o Amor à Queima Roupa não pode ser taxado apenas como o “irmão de alguém”. Digo isso porque, apesar do Tony Scott ter dirigido filmaços como Top Gun – Ases Indomáveis, Chamas da Vingança e Deja Vú, ele é mais conhecido por ser “o irmão do Riddley Scott”. Pode-se dizer que os dois irmãos produzem blockbusters repletos de cenas de ação grandiosas, mas enquanto o Riddley costuma dar espaço para o desenvolvimento psicológico dos personagens, o Tony opta por focar a história em sequências de ação tensas que mantém a atenção do espectador do começo ao fim do filme como acontece nesse Incontrolável.

Os filmes do Tony tendem a mostrar personagens que valorizam um trabalho bem feito e mostra a execução desse trabalho e, ao que tudo indica, o diretor vê no Denzel Washington a figura do funcionário exemplar. Incontrolável é o quinto filme em que os dois trabalham juntos e novamente o Denzel interpreta um funcionário que deve lidar com alguma ameaça, no caso um trem que devido a um ato de gordisse acabou perdendo o controle e está indo rumo a uma cidade carregado material tóxico.

O filme não dava margem para tal porque é baseado em fatos reais, mas fiquei feliz de ver que em nenhum momento disseram que o episódio era “um ataque terrorista” e também por nenhum dos personagens empunhar um revólver em alguma cena. Ficou muito legal e realista a forma como a história é contada, com repórteres acompanhando o episódio e com imagens sendo transmitidas ao vivo, é praticamente impossível não entrar na torcida para que os personagens tenham sucesso na tarefa de parar o trem. Também é impossível não perceber os zooms usados pelo diretor em 60% das cenas que são mostradas. Toda imagem que ele joga na tela é aumentada em seguida e isso é muito, MUITO chato. Acompanha uma narração cheia de humor negro do comentarista de televisão que transmite a matéria e duas historinhas sem importância dos personagens principais (para quem não lembra, o mano Chris Pine é o Capitão Kirk do novo Star Trek ). Não é um filme que vai mudar a vida de ninguém, mas mesmo assim é  divertido e vale o ingresso.