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Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017)

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O primeiro Guardiões da Galáxia foi muito bom. Apoiado num visual hiper colorido, numa trilha sonora onipresente e saudosista e abraçando o humor sem medo de ser feliz, o filme do diretor James Gunn conquistou vários fãs com seu roteiro leve e ritmo frenético. Esta continuação, como não poderia deixar de ser, retoma e amplia esta fórmula, mas desta vez, principalmente na segunda metade do longa, o diretor resolveu incorporar elementos dramáticos à história, o que deixou o filme um pouco mais “adulto” do que seu antecessor. O resultado é inquestionavelmente bom, mas confesso que foi meio estranho entrar no cinema felizão, ansioso para dar boas risadas, e sair de lá meio cabisbaixo e pensativo.

Foi na gloriosa e mágica década de 80 que Meredith Quill (Laura Haddock) conheceu e apaixonou-se por uma criatura topetuda do espaço (Kurt Russell). Do amor deles, nasceu Peter Quill (Chris Pratt), o homem que anos mais tarde ganharia notoriedade por conseguir segurar uma das Joias do Infinito e sobreviver. Peter, que nunca conheceu o pai e que viu a mãe morrer ainda criança, cresceu e tornou-se o Senhor das Estrelas, um caçador de recompensas que lidera o grupo Guardiões da Galáxia em missões através de todo o universo.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 começa ao som de Brandy, do Looking Glass, com Meredith passeando num conversível estiloso junto de seu amado. Tão logo fica claro que os dois são os pais de Peter, porém, a cena muda para o longínquo planeta dos Soberanos onde os Guardiões aguardam pela chegada de uma besta interdimensional. Ayesha (Elizabeth Debicki), a rainha do local, contratou Peter, Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (voz do Bradley Cooper) e o Bebê Groot (voz do Vin Diesel) para protegerem uma preciosa carga de baterias inflamáveis do monstro. A luta que se segue é, sem sombra de dúvidas, a melhor sequência de abertura de um filme da Marvel até o momento. Fazendo um belo uso do 3D, James Gunn coloca Peter e cia para quebrarem o pau com o bichão enquanto mostra o simpático Bebê Groot dançando com a Mr. Blue Sky do Eletric Light Orchestra. Ver esse começo, que tem coisas bacanas como o Peter e o Rocket discutindo, o Drax vigiando o Bebê Groot e a Gamora desferindo alguns golpes estilosos de espada, é como abrir um presente no dia das crianças e encontrar exatamente aquilo que a gente queria ganhar. É familiar e surpreendente ao mesmo tempo.

Após ganhar nossa atenção com esse início divertidíssimo, o diretor introduz os elementos que compõe a história de Vol. 2. Por pura sacanagem, Rocket rouba algumas das baterias dos Soberanos e Ayesha ordena que seus comandados capturem os Guardiões. Rola uma cena frenética de perseguição no espaço, daquelas que parecem ter saído direto de um videogame, a qual é interrompida pela aparição já anunciada de Ego, o topetudo pai de Peter Quill. Nisso, o grupo divide-se em 2: Peter, Gamora e Drax acompanham Ego e Mantis (Pom Klementieff), sua auxilar, até um planeta distante, e Rocket e Bebê Groot ficam responsáveis por reparar a nave e vigiar Nebulosa (Karen Gillian), a filha de Thanos que havia sido entregue aos personagens como recompensa por protegerem as baterias. Paralelamente, o pirata Yondu (Michael Rooker) é contratatado por Ayesha para localizar os Guardiões.

Sobre esses eventos que constituem o “meio do filme”, por assim dizer, vale a pena realizar comentários separados para cada um deles:

Ego e Peter Quill: O esperado encontro entre o Senhor das Estrelas e seu pai responde muitas perguntas deixadas pelo primeiro Guardiões da Galáxia e é o principal acontecimento deste filme, mas todas as cenas que envolvem esse arco da história são chatas de doer. Eu entendo que até mesmo uma bomba de diversão como essas precise de algumas partes mais “sérias” para que os personagens sejam desenvolvidos, porém não posso negar que fiquei extremamente entediado enquanto Peter e Ego falavam do passado e do futuro naqueles cenários oníricos.

Rocket: Tanto por seu mau humor quanto por sua insanidade nas batalhas (adoro quando ele fala aquele HELL YEAH!), o guaxinim antropomórfico permanece como meu personagem favorito dentre todos os Guardiões. O Rocket continua legalzão e o James Gunn deu uma cena na floresta para ele brilhar sozinho com todos os seus equipamentos e metrancas, no entanto a imagem que eu levei dele desta vez foi a da criatura triste e solitária que maltrata todos, até os próprios amigos, pela inabilidade de ser amado. As cenas que nos levam a essa conclusão, principalmente aquele diálogo com o Yondu no final, são verdadeiramente tristes e destoam de tudo o que fora feito na série até aqui. Isso não é necessariamente ruim, mas confesso que fui surpreendido pela bad vibe.

Yondu: Lembram daquele sujeito risonho e seguro de si que dizimava grupos inteiros de inimigos com uma flecha voadora? Restou pouco dele em Vol. 2. Yondu não só enfrenta um motim de sua tripulação quanto é desprezado por Stakar Ogord (Sylvester Stallone), o líder dos piratas espaciais. Yondu também ganha espaço para exibir suas habilidades (a batalha contra o Taserface) e protagoniza um dos momentos mais engraçados do longa (Mary Poppins!), mas no geral a participação dele nesta continuação é bem melancólica. A cena em que a Father & Son do Cat Stevens é executada é de cortar o coração.

Resumindo, é muita tristeza e seriedade em um filme que é a continuação de um dos longas mais divertidos dos últimos anos. Vol. 2 ainda tem MUITO humor e inocência (conforme pode ser visto em praticamente todas as cenas do Bebê Groot e do Drax e em pérolas como o ‘Pac Man gigante’) repete aquele clima descolado proporcionado por músicas bacanas como The Chain do Fleetwood Mac e está cheio de easter eggs (Howard, o Pato está de volta e há incríveis 5 cenas após os créditos rs), mas no geral a investida do James Gunn no desenvolvimento dos personagens levou a história para rumos bastante sombrios (observem a Nebulosa falando sobre o que ela deseja fazer com o Thanos). Gostei do filme, tanto que vi ele duas vezes antes de escrever essa resenha (uma foi dublado: a voz do Yondu ficou HORRÍVEL na versão nacional), mas não gostei de ver o Rocket chorando. Tadinho.

Joy: O Nome do Sucesso (2015)

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Joy - O Nome do SucessoResumir Joy: O Nome do Sucesso dizendo que ele é “o filme da mulher que ficou rica vendendo esfregões de chão” seria tão engraçado quanto inútil. Sim, Joy, a protagonista da trama vivida pela Jennifer Lawrence, utiliza sua criatividade para desenvolver um novo modelo de esfregão e, com isso, triunfa sobre uma porção de problemas familiares e financeiros, mas essa é apenas a camada mais superficial desse novo trabalho do badalado diretor David O. Russell. Resumir o filme assim, acrescento, seria o mesmo, por exemplo, do que reduzir uma mulher ao posto de “esposa do fulano”. Sim, esta hipotética mulher pode até ser casada com o fulano do exemplo, mas explicá-la e defini-la desse jeito é superficial demais, deveras inútil e não, não é nenhum um pouco engraçado.

Deixando de lado, portanto, a jocosidade e a simples descrição dos eventos que compõe a história, eu diria que Joy é mais um importante registro de um movimento mundial de afirmação das mulheres contra o machismo. O patriarcado, modelo de sociedade governado pelo homem, é colocado em xeque por O. Russell quando ele que nos fala de uma família onde o bom senso, tato para liderança e faro para os negócios estão concentrados em uma figura feminina cujos objetivos nesse mundo vão muito além de encontrar um “príncipe encantado”, casar-se, cuidar da casa e dos filhos e ser a “esposa de algum fulano”.

Quando pequena, Joy (Jennifer Lawrence) sonhava com a possibilidade de construir sua própria mansão e criar coisas que todo mundo pudesse ter em suas residências. Com o passar dos anos, porém, ela acabou conformando-se com um emprego ruim de atendente, uma casa hipotecada e uma família completamente desestruturada. Inspirada pela inocência da filha e pelas doces palavras de incentivo da avó, Joy decide correr atrás de seu antigo sonho e, colocando a cabeça pra funcionar, desenvolve um esfregão autolimpante. A comercialização do objeto, a personagem acredita, trará a realização pessoal e o dinheiro que ela precisa para encerrar de uma vez todos os conflitos familiares de seu lar.

Joy - O Nome do Sucesso - Cena“Conflitos familiares”, aliás, é praticamente um eufemismo para o inferno que o O. Russell criou para Joy. Terry (Virginia Madsen), a mãe, é uma mulher traumatizada pelo divórcio que fica o dia todo na cama assistindo novela. Rudy (Robert De Niro), o pai, é um homem machista que, após ver mais um relacionamento chegar ao fim, muda-se para o porão da casa. No porão, porém, já estava alojado (pasmem!) o ex-marido de Joy, Tony (Edgar Ramirez). Não bastasse essa combinação explosiva de pais separados e ex-marido vivendo sob o mesmo teto, Joy ainda tem que aguentar a inveja e os ataques da irmã, a peçonhenta e detestável Peggy (Elisabeth Röhm).

Esse cenário caótico, que soa tão exagerado quanto aqueles das novelas que a mãe da personagem tanto ama, garante uma ou duas risadas para o espectador, mas qualquer um com um mínimo de empatia sentirá-se sufocado pela quantidade de problemas que aquela família dá. Em um roteiro retrógrado, Joy poderia surtar, adaptar-se ou até mesmo encontrar um grande amor e partir. Tudo isso seria compreensível, mas não é fraqueza, conformismo ou subserviência que as mulheres tem demonstrado ultimamente e, portanto, não foi isso que o O.Russell decidiu expor aqui ao adaptar a história da ítalo-americana Joy Mangano: a personagem parte para a ação, primeiro impondo-se diante dos familiares (entre outras coisas, ela pede para que o pai e o ex-marido mudem-se) e depois assumindo o controle da vida financeira da família.

Joy - O Nome do Sucesso - Cena 4A mensagem que cumprimenta e incentiva a ousadia feminina é atual e importante, mas e o filme, é bom? Não há o que reclamar das atuações. Nos últimos anos, o O. Russell despontou como um ótimo diretor de atores e, pela terceira vez seguida (O Lado Bom da Vida, Trapaça e este), ele escalou a Jennifer Lawrence, o Bradley Cooper e o De Niro no mesmo filme. Essa sequência garante química entre os personagens (a cena em que Joy explica o funcionamento do esfregão para o diretor vivido pelo Bradley é um bom exemplo) e dá personalidade para a obra do diretor. Pela boa atuação, a Jennifer Lawrence ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz e agora concorre ao Oscar na mesma categoria. Não posso dizer, porém, que fiquei satisfeito com o andamento do roteiro. Joy funciona no esquema “está tudo ruim/superação/balde d’água fria/final feliz”, estrutura repetitiva que torna a história previsível para quem costuma assistir filmes regularmente.

Joy - O Nome do Sucesso - Cena 2Não há surpresas nem grandes reviravoltas no roteiro, mas nem por isso o filme deixa de ter os seus grandes momentos. É bem legal, por exemplo, ver a personagem dando tudo de si na cena onde ela aparece ao vivo em um programa de TV para vender o tal esfregão (eu sempre assistia esses programas para ver as extraordinárias Facas Ginsu rs) e é verdadeiramente inspirador que, após um revés, ela consiga manter a calma e procurar o caminho legal para conseguir o que é dela por direito. O. Russell nos deu um exemplo de uma mulher forte, criativa e perseverante que faz questão de ser ela mesma, seja onde for (adorei ela ter optado pelas próprias roupas para aparecer na TV), e é isso que Joy tem de mais precioso: o filme praticamente GRITA para que o espectador (e aqui acho que tanto faz se ele seja homem ou mulher) não deixe que nenhum tipo de problema, preconceito ou limitação impeça-o de realizar os seus sonhos. É algo fácil de ser colocado em prática? Não necessariamente, mas, como a cena final sugere, é bom que a gente vá levando um dia de cada vez, sempre com um sorriso no rosto, pois uma hora ou outra as coisas tendem a dar certo para quem corre atrás.

Joy - O Nome do Sucesso - Cena 3

Sniper Americano (2014)

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Sniper AmericanoSnipers são chatos. No período nerd da minha vida que eu virava as noites em lan houses jogando Counter Strike, eu simplesmente detestava quem ia para a pauleira com aqueles rifles de longo alcance. Você estava lá, com sua AK47 andando furtivamente pelo cenário quando…. POW!!! Um tiro vindo de um lugar qualquer explodia sua cabeça e lhe tirava da partida. Vez ou outra a gente tinha felicidade de surpreender os desgraçados em seus esconderijos e humilha-los cortando-lhes a garganta, mas no geral um bom jogador conseguia matar pelo menos uns 3 inimigos antes de ser descoberto. Chatos mas estrategicamente importantes dentro do jogo, os Snipers são fundamentais na vida real para o sucesso das operações militares justamente por utilizarem sua capacidade de atacarem a distância e em segurança para protegerem os soldados que operam na linha de frente dos combates. Em Sniper Americano, produção que concorre ao Oscar de Melhor Filme, Clint Eastwood conta a história de Chris Kyle (Bradley Cooper), soldado que atuou na Guerra do Iraque e que é considerado o maior sniper da história do exército americano.

Há alguns dias, um amigo que também é apaixonado por cinema me disse que não tem o menor interesse de assistir os filmes indicados ao Oscar. Segundo ele, as produções são sempre burocráticas e previsíveis, como se existisse uma espécie de “fórmula” que os diretores/produtores precisassem seguir para que seus trabalhos sejam indicados. Trata-se de um comentário injusto pelo tom generalizador (olhando apenas para os concorrentes desse ano, temos o insano Grande Hotel Budapeste para invalidar a ‘teoria’), mas eu entendo os motivos da descrença dele. De fato, olhando para o histórico de vencedores e indicados, nota-se um grande número de biografias e dramas que abordam temas políticos e sociais. Ficções científicas, comédias e filmes de terror raramente caem nas graças da Academia (que prefere trabalhos que são teoricamente ‘mais sérios’) e isso pode sim ser compreendido como uma padronização. Todo caso, voltando a conversa que tive com o meu amigo, devo dizer que o que ouvi influenciou a forma como assisti esse Sniper Americano. Vi o filme procurando elementos que me fizessem discordar do que ele disse (discordar sempre é mais divertido) mas encontrei exatamente o contrário: longe de seus melhores momentos, Clint Eastwood produziu um filme que não arrisca absolutamente nada, um trabalho burocrático e formuláico que, ainda que não seja de todo ruim, não pode, de maneira alguma, ser considerado o melhor filme do ano. Explico-lhes os meus motivos.

Sniper Americano - Cena 5Conforme dito no primeiro parágrafo, Sniper Americano é uma biografia. Eastwood abre o filme mostrando Kyle no meio da guerra, prestes decidir se atira ou não em uma criança, mas logo a tensão é suspensa para mostrar a tradicional reconstituição da infância do personagem. O que inspirou um cidadão texano comum a alistar-se no exército e tornar-se uma lenda do gatilho? Segundo o que podemos ver aqui, Kyle foi criado em um rígido ambiente religioso. O pai ensinou-lhe a política do “olho por olho, dente por dente” e disse-lhe, em um daqueles momentos que parecem definir a futura personalidade de alguém, que existem três tipos de pessoas na vida: os cordeiros, os lobos e os cães pastores. Resumidamente, a teoria do sujeito diz que os primeiros, por sua inocência, sofrem na mão dos segundos e que cabe aos últimos protegê-los do mal, custe o que custar. Já adulto, Kyle abandona uma improvável carreira como caubói para tornar-se um cão pastor: diante de um ataque terrorista contra uma embaixada americana, o personagem entra para o exército disposto a proteger os Estados Unidos da América contra as forças do mal. Treinamento, casamento, atentado de 11 de setembro e pronto, Kyle é enviado para o Iraque e enfim recebe sua oportunidade de defender sua nação. É aí que o reencontramos lá no topo daquele prédio prestes a decidir o destino de um menino que carrega um objeto suspeito. Ele atira e dá início a uma lenda.

Sniper Americano - Cena 4 Ao meu ver, Eastwood tentou mostrar tanto o homem quanto o mito que formou-se ao redor dele mas, no final das contas, ele não obteve êxito em nenhuma das duas propostas. Quando mostra Kyle, o esposo, filho e cidadão texano, o diretor dá a entender que o soldado acabou tornando-se obcecado pelo conflito tal qual o personagem principal do vencedor do Oscar Guerra ao Terror. Ele briga com a mulher, que reclama constantemente de sua ausência, discute com outros soldados quando eles demonstram falta de fé ou de comprometimento com a missão, e retorna para a guerra mesmo após esgotar seu tempo de serviço obrigatório para enfrentar aquele que é considerado o melhor sniper do lado inimigo. As cenas com a mulher falham porque não há a menor química entre o Bradley Cooper e a Sienna Miller. A atriz, aliás, não poderia estar mais equivocada: a personagem dela, que é apresentada em uma cena que transborda arrogância feminina em um bar, não transmite emoção nem quando dá à luz. No que diz respeito ao relacionamento de Kyle com seus amigos, nunca fica claro se ele gosta ou não da bajulação que recebe. Essa indiferença, porém, não casa nenhum pouco com os discursos inflamados sobre religião e patriotismo que ele profere mais de uma vez. Ele é obcecado por ser o melhor, ele realmente acha que está defendendo seu país? Quais as motivações de Kyle? Eastwood nos dá pouco para entender a obsessão do personagem e, por ele ser um herói nacional, parece tratá-lo com um respeito exagerado.

Sniper Americano - Cena 2Quando trabalha a criação do mito, o diretor também não convence. Eastwood abre mão de cenas de ação fantásticas, que poderiam nos convencer facilmente das peripécias do personagem, para realizar uma abordagem mais realista. Isso quer dizer que tu não verá Kyle dando tiros impossíveis ou matando soldados inimigos tal qual o Fredrick Zoller do Bastardos Inglórios. Tratando-se de uma biografia, a decisão é acertada, mas esse filme possui apenas uma cena (a emboscada que termina com um homem matando um menino com uma furadeira) que está a altura do Cartas de Iwo Jima,  que ao meu ver é o que o diretor fez de melhor no campo da violência real. Sniper Americano nem abraça a ação fácil típica do cinema blockbuster nem exibe vísceras e sangue para lhe dar um choque de realidade. Novamente, o tom é respeitoso, um meio termo insosso que muitas vezes dá a entender que Kyle chegou onde chegou apenas por não ter recebido um tiro enquanto aumentava sua contagem de corpos. Tratar os iraquianos simplesmente como “selvagens” e “força do mal”, aliás, não tem nada de real.

Sniper Americano - CenaÉ essa a receita do Oscar? Biografia superficial sobre alguma celebridade construída com tons realistas? Aparentemente sim, já que o filme concorre em 6 categorias (dentre elas, Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Roteiro Adaptado).  Essa é a receita de um filme bom, daqueles que tu escolhe para ver independente de premiações? Não mesmo. Sniper Americano é um filme que tem poucas cenas memoráveis (aquele treinamento molenga? apresentem o Capitão Nascimento para os americanos) e que não desenvolve satisfatoriamente nenhum dos conflitos psicológicos que apresenta. Provavelmente eu o veria de qualquer forma, já que sou fã do diretor (o que torna uma tortura escrever essa resenha negativa), mas nem de longe esse formato padronizado é o que a Academia pode oferecer de melhor e/ou consagrar como tal.

Sniper Americano - Cena 3

Guardiões da Galáxia (2014)

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Guardiões da GaláxiaOhhhh yeahhhh!!!!! Quando assisti a infeliz adaptação do A Bússola de Ouro para a telona, fiquei com a impressão que nada, absolutamente NADA poderia ser mais legal do que um urso da Coca-Cola polar falante vestido com uma armadura dourada. Sinto muito, Iorek, mas você não é mais o meu favorito: além de conter boas piadas e cenas de ação frenéticas, o novo filme da Marvel, Guardiões da Galáxia, traz um desses baixinhos ranzinzas pelos quais todos nós apaixonamo-nos imediatamente. Rocket, o guaxinim antropomórfico que funciona como o cérebro do grupo de super heróis apresentado aqui, é o responsável pelas melhores e mais engraçadas cenas do filme. Dublado pelo Bradley Copper, o bichinho feito em CGI é uma mistura da violência e atitude do Wolverine com as ironias e a insanidade do Tommy DeVito, o baixinho invocado interpretado pelo Joe Pesci no Os Bons Companheiros. Declarado o meu amor pelo sujeito, conto-lhes agora as minhas impressões sobre o longa.

Guardiões da Galáxia é e não é apenas mais um filme de super heróis. É porque ele claramente segue fórmulas que já foram testadas em outras produções da Marvel. Não é porque, devido ao sucesso dessas fórmulas, percebo que deram tanta liberdade criativa ao diretor James Gunn e sua equipe, principalmente no que diz respeito ao visual dos personagens, que esse longa pode significar o início de uma nova fase nas adaptações dos quadrinhos da empresa para o cinema.

Lembram daquele primeiro filme dos X-Men do Bryan Singer? Na época do lançamento, um dos pontos mais comentados da produção foram os uniformes dos personagens. De um lado, alguns fãs praguejaram contra as roupas pretas realistas utilizadas por Singer. Do outro, argumentou-se que a mudança era compreensível, visto que nem tudo que funciona na HQ fica legal quando transposto para o formato cinematográfico. Ainda que os dois pontos de vista sejam válidos, a impressão que ficou foi a de que os produtores estavam sondando o terreno tal qual quem não confia no material que tem nas mãos. Certamente eles não devem ter duvidado da popularidade e do apelo comercial dos discípulos do Professor Xavier, mas nem por isso eles colocaram o Hugh Jackman na tela vestido com um collant amarelo.

Guardiões da Galáxia - Cena 3Na sequência, grandes campeões de bilheteria do gênero, como a trilogia do Batman do Nolan, seguiram com a proposta de modernizar e aproximar da realidade o visual dos super-heróis mas, no mesmo período, os filmes do Homem de Ferro e do Thor vieram e agradaram mesmo trazendo modificações mínimas na caracterização vistosa de seus personagens. Notei, já no X-Men – Primeira Classe, que as coisas começavam a mudar: lá estava o uniforme amarelo, mutantes voando com asas naturais e sintéticas impulsionados por super gritos (rs) … Paulatinamente (eu sempre quis usar essa palavra), comprovou-se que o público estava disposto SIM a pagar para ver atores vestidos com roupas super coloridas quebrando o pau contra super vilões. A prova? Basta olhar o sucesso estrondoso do Os Vingadores, filme que, nessa mesma pegada fantasiosa, abriu as portas para que parte da Guerra Infinita seja contada nos cinemas.

Guardiões da Galáxia - Cena 2E agora, que não há absolutamente mais NENHUMA dúvida de que todos nós gostamos de ver seres super poderosos e seus uniformes bufantes, Guardiões da Galáxia chega para mostrar que a Marvel perdeu a vergonha de mostrar seus personagens tal qual eles são nos quadrinhos. No universo desenvolvido pelo diretor James Gunn, além de guaxinins bacanudos e todo o tipo de alienígenas coloridos, temos um protagonista que é personificação do inconvencional. Peter Quill (Chris Pratt), o Star Lord, é o anti-herói por excelência, um cara que coloca uma missão em risco para resgatar um walkman (ele tem um walkman!) e que, após uma ação heróica, profere um dos discursos mais canastrões de que se tem notícia. Ao lado dos igualmente inconvencionais e excêntricos Groot (voz e cérebro do Vin Diesel), Rocket, Gomorra (a musa nerd Zoe Saldana) e Drax (Dave Bautista), Peter viaja pela galáxia tentando vender um cobiçado objeto que ele roubou de um planeta longínquo. Enquanto eles escapam de prisões espaciais e tentam negociar com o Colecionador (Benicio del Toro), arma-se uma guerra entre o conquistador Ronan (Lee Pace) e o povo de Nova.

Guardiões da Galáxia - Cena 4Guardiões da Galáxia é composto de 3 impressionantes cenas de ação (fuga da prisão, invasão da estação Knowhere e batalha aérea do Planeta Nova) e muitas, muitas piadas. Não há dúvidas que o vasto vocabulário do Groot e o humor ácido do Rocket sejam o que há de melhor por aqui, mas o filme também agrada pela atenção dada aos detalhes. Fora a trilha sonora repleta daqueles clássicos trash das décadas de 70/80 que tanto amamos, o diretor recheou o longa de referências e ganchos para outras produções da Marvel. O Thanos, que até agora havia feito apenas uma ponta no Os Vingadores, aparece em toda sua magnificência (felizmente, com sua roupa dourada e queixo largo, tal qual deve ser) e, acreditem, será preciso ver o filme mais de uma vez para conseguir apreciar toda a beleza do estoque do Colecionador.

Guardiões da Galáxia - Cena 5Infelizmente, a produção não escapa de alguns clichês do gênero, as já comentadas “fórmulas” que a Marvel tem trabalhado nos últimos anos. Nisso, esperem pelos inevitáveis diálogos excessivamente didáticos, personagens que “morrem” só para reaparecerem vivos na cena seguinte e, claro, o maior lugar comum do cinema de ação contemporâneo: alguém dependurado em um abismo após uma batalha. Resta-nos ignorar essas repetições, apreciar o desfecho incomum da relação entre o Star Lord e a Gomorra e celebrar o “escancaramento” que a Marvel faz de seu universo com Guardiões da Galáxia que, além de ser um filme divertidíssimo, merece ser venerado por apresentar o épico Rocket e por resgatar para essa geração o Howard, o Pato imoral e transante daquele clássico injustiçado da Sessão da Tarde.

Guardiões da Galáxia - Cena

Trapaça (2013)

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TrapaçaCom Trapaça, David O. Russel firma-se como um dos diretores mais proeminentes da atualidade. O filme, que concorre na categoria de Melhor Filme esse ano, é a terceira indicação seguida de um trabalho do diretor ao Oscar e, tal qual aconteceu nos anos anteriores com O Vencedor e O Lado Bom da Vida, também garantiu indicações para todos os seus atores em suas respectivas categorias. Ainda que o talento de Russel para extrair atuações magníficas de seu elenco confirme-se aqui  e que esses trabalhos individuais justifiquem a atenção dada ao longa, Trapaça não é nem o melhor trabalho do diretor quanto menos um filme digno de levar o principal prêmio da academia.

Dessa vez, Russel, que também assina o roteiro, nos conta a história de uma dupla de vigaristas, Irving (Christian Bale) e Sydney (Amy Adams), que é forçada a colaborar com a polícia após terem suas operações ilegais descobertas pelo agente Richie DiMaso (Bradley Cooper). DiMaso planeja desbaratar um esquema de corrupção envolvendo políticos e mafiosos e oferece a liberdade para a dupla caso eles disponham-se a ajudá-lo com seus conhecimentos sobre o mundo do crime.

O embuste, conto do vigário ou qualquer outro termo que possa ser relacionado a trapaça é uma constante dentro das vidas dos personagens do filme. O roteiro de Russel repete mais de uma vez que as pessoas escolhem mentiras convenientes para passarem pela vida e é essa premissa que os atores utilizam para desenvolverem a personalidade das pessoas que eles interpretam na trama. A caracterização mais impressionante, fácil, é a do Christian Bale. Acostumado a perder e ganhar peso para dar vida a seus personagens, Bale aparece na primeira cena ostentando uma barriga generosa. Posteriormente, conhecemos as origens de sua vida de vigarista, que remontam à infância, mas já nesse primeiro momento o visual do personagem revela para de suas características. Irving usa uma peruca horrorosa para esconder a careca, indicativo gráfico de uma personalidade de alguém que procura ocultar aquilo que há de mais desagradável em si. Bale garantiu sua indicação não apenas pela barriguinha de chopp cultivada (fosse assim, eu também poderia concorrer rs), mas também pela interpretação que transpira insegurança e medo, sentimentos que ele canaliza mais de uma vez para ataques de raiva e frustração, como acontece na ótima cena da discussão com a ex-mulher, Rosalyn (Jennifer Lawrence).

Trapaça - Cena 4Lawrence, aliás, justifica aqui não apenas a sua indicação (e não há dúvidas de que ela seja a favorita), mas também o porque de ela ser a atual queridinha de Hollywood. Eita moça simpática! Rosalyn, sua personagem, é uma mulher verdadeiramente detestável, cuja relação com a mentira reside no uso que ela faz do filho para manter seu relacionamento mequetrefe com Irving. Disparando críticas intermináveis contra o ex-marido e agindo sempre de forma impulsiva e irresponsável (observem o que ela faz, por pura pirraça, com o microondas), Rosalyn coloca os planos dele em risco e faz de tudo para infernizar seu relacionamento com Sydney. Mesmo com todos esses contras, ela acaba sendo a personagem mais divertida da trama (que nem por isso é uma comédia, como andam dizendo por aí), ofuscando, com seu sorriso e loucuras, um talento do porte da Amy Adams, a qual, apesar de ter um ótimo pano de fundo (nome falso, sentimento de que nada na vida é real), destaca-se mais pelos decotes generosos que utiliza e pelo beijo lésbico que recebe da Jennifer ❤

Trapaça - Cena 3Completando o time, temos o Bradley Cooper com um visual horrível e uma vida pessoal que ele nega e tenta superar a todo custo, o Jeremy Renner como um prefeito topetudo bem intencionado que aceita participar de uma negociata para promover o desenvolvimento de sua cidade e uma pequena mas marcante participação do Robert De Niro que, para variar, interpreta um mafioso ameaçador. Todos os diálogos são muito bem executados e, ao que parece, grande parte deles foi improvisado pelos atores, que receberam grande liberdade do diretor para criar. Ainda na parte dos méritos, vale a pena cumprimentar o diretor pela escolha da trilha sonora repleta de clássicos, como a ótima Goodbye Yellow Brick Road, do Elton John e Live and Let Die, do Paul McCartney, essa última rendendo uma cena engraçadíssima com a Rosaly.

Trapaça - Cena 2O grande “porém” aqui diz respeito ao roteiro. A história do golpe, além de simplista em todos os seus aspectos (inclusive na reviravolta do final), serve única e exclusivamente para servir de palco para as atuações do elenco. Pessoalmente, só comecei a me interessar por ela lá pelos 50min de projeção quando DiMaso e Sydney vão para uma boate dançar, cena que contém ecos muitos bons daquele que é o momento mais lembrado do Pulp Fiction. Como o filme não possui um personagem principal e o que vai acontecer (a tentativa do golpe) já é anunciado logo de cara, fica difícil torcer por alguém e/ou envolver-se com a história. Não que a trama seja ruim, mas para mim é muito claro que Trapaça é um filme no máximo mediano com atuações boas. Olhando para os outros trabalho do diretor, eles também não possuíam histórias geniais, mas o simples fato de as mesmas desenvolverem-se satisfatoriamente, aliado as interpretações acima da média dos atores, fizeram deles filmes inquestionáveis. Vale lembrar que outros diretores conhecidos por sua habilidade de conduzir o elenco, como o Elia Kazan, não abriam mão de um bom enredo. Trapaça concorre a 10 Oscars, e, fora os prêmios técnicos e os individuais para os atores, será um absurdo se ele vencer em qualquer categoria (Direção, Roteiro e Melhor Filme). Vou secar MESMO.

E o meu coração vai para...

E o meu coração vai para…

Se Beber, Não Case! Parte II (2011)

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Se Beber, Não Case - Parte IIAssisti Se Beber, Não Case!, o primeiro, bem depois de todo mundo. Não tenho o hábito de ver comédias no cinema e, na época, eu estava com vários filmes acumulados para assistir, de modo que fui deixando-o de lado até que um amigo com quem eu costumava conversar sobre cinema praticamente me obrigou a assistí-lo. “Vê, é SUPER engraçado, estão falando que é uma das melhores comédias dos últimos anos”. O tal amigo era dono de gostos no mínimo suspeitos (um dos filmes favoritos dele é o Tróia com o Brad Pitt e ele não gosta de Pulp Fiction), mas a curiosidade acabou me vencendo e eu dei uma chance para a tal melhor comédia dos últimos anos. Ri pouco. O filme, que era assinado pelo diretor Todd Phillips, até trazia algumas inovações na narrativa, uma ou outra piada bacana e ainda teve o mérito de apresentar o ótimo Zach Galifianakis para o público, mas acredito que o sucesso que ele experimentou nas bilheterias deve-se principalmente a estagnação do gênero que ele representa, o qual nos últimos anos tem sofrido com piadas escatológicas e de cunho sexual extremamente batidas. Tendo isso em vista, ignorei as filas enormes que formaram-se no cinema local de pessoas ansiosas para verem a continuação com a certeza de que eu não estaria perdendo muita coisa.

Quase 2 anos depois, o Carlos, que é um leitor que acompanha esse blog desde o início e cuja opinião eu respeito muito, me pediu para assistir a continuação. “Cara, muito bom, apesar de alguns exageros aqui e ali, o filme tem um humor muito bom, que vale a pena. To ansioso pra ver sua opinião.” Pois bem, Carlos, eu vi o filme e … (PAUSA) Primeiro, a sinopse! rs

Se Beber Não Case - Parte II - Cena 2

Stu (Ed Helms) está noivo novamente e, meio que a contragosto, convida os amigos Phil (Bradley Cooper), Doug (Justin Bartha) e Alan (Galifianakis) para o casamento que será realizado na Tailândia. Nada de despedida de solteiro dessa vez, diz ele lembrando-se da noite insana que viveu ao lado dos amigos em Las Vegas. O grupo então viaja para o sudeste asiático e, após algumas poucas cervejas na noite que antecederia o casamento, envolve-se misteriosamente em outra noite épica de loucuras que os leva até a cidade de Bangkok. Além de encontrar o cunhado de Stu, que perdeu-se no meio da confusão, eles precisam conseguir retornar a tempo para o casamento.

… (CONTINUANDO), novamente, não vi nada demais. Infelizmente, Se Beber, Não Case! Parte II é a típica continuação que aposta todas as fichas nos elementos que deram certo no original sem preocupar-se minimamente em oferecer algo novo para o público. Por mais que o roteiro do primeiro filme não merecesse nem um prêmio de originalidade, a idéia de um grupo de amigos quebrando tudo em Las Vegas na despedida de solteiro de um deles é um ponto de partida interessante para uma comédia. A forma como a história foi contada, acredito, foi um dos grandes trunfos do longa, onde os detalhes da farra iam sendo revelados aos poucos para, no final, garantirem boas risadas nos créditos com as fotos dos momentos que geraram todos os embaraços vistos durante o filme. Essa continuação simplesmente repete tudo isso com pequenas alterações: Las Vegas da lugar a Bangkok, os personagens que funcionaram no debut (o japonês louco e Alan) ganham mais espaço, os chatos são jogados para escanteio (Doug) e o Mike Tyson, presença ilustre e bizarra que marcou o primeiro longa, volta a dar as caras. Até o macaco, que garante algumas das melhores piadas, é uma reedição do bebê carregado anteriormente pelo personagem do Galifianakis.

Oi, aconteceu denovo! É, EXATAMENTE do mesmo jeito.

Oi, aconteceu denovo! É, EXATAMENTE do mesmo jeito.

Tudo isso, é claro, poderia ser deixado de lado se as piadas fossem boas. Ri poucas vezes enquanto assistia o filme. Reconheço, não é lá o meu tipo de humor favorito, mas já vi uma quantidade considerável de filmes que apoiam-se em piadas sexuais (e gostei deles) e acho que a série Se Beber, Não Case!, até agora, está, no máximo, no mesmo nível deles. “Uma das melhores comédias dos últimos anos”? Os fãs (Carlos =/) que me desculpem, mas a minha resposta é não, mesmo considerando toda a subjetividade que envolve o humor. Ah, antes que eu me esqueça, aquele Stu é INSUPORTÁVEL.

Só para ficar claro: INSUPORTÁVEL

Só para ficar claro: INSUPORTÁVEL

O Lado Bom da Vida (2012)

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O Lado Bom da VidaSempre desconfiei de pessoas que dizem que estão com depressão ou que surtaram, mas ultimamente eu estou tendo muitos motivos para acreditar que isso não é mera fraqueza ou falta de vontade de resolver os próprios problemas. Isso é algo que pode acontecer comigo. 2012 foi um ano onde eu cresci muito pessoal e profissionalmente e o preço que eu paguei pelo progresso foi um acúmulo de stress e responsabilidades em um nível que até então eu ainda não havia experimentado. Preparativos para casamento, compra de casa, pedido de demissão de dois empregos para assumir vaga de concurso público, mudar de cidade para ficar 9 meses morando com desconhecidos enquanto fazia curso de formação em ambiente militar, perder a habilitação, considerar abandonar meu principal passatempo (o blog), voltar para casa e encontrar um ambiente completamente diferente (e pior) do que aquele que eu havia deixado. Muita mudança, muita informação para ser processada em pouco espaço de tempo, muitos testes de paciência e muitas frustrações. Em um cenário desses, não é de se estranhar que uma pessoa volte-se para si mesma e isole-se em uma bolha de pessimismo onde é difícil enxergar o lado bom da vida. Uns conseguem seguir matando um leão por dia enquanto sentem o fantasma do desânimo tocar-lhes os calcanhares, outros simplesmente desabam pelo caminho e precisam de ajuda profissional (e de um amor) para reerguê-los.

Onde está o problema também está a solução: Pat busca apoio nos amigos...

Onde está o problema também está a solução: Pat busca apoio nos amigos…

Pat (Bradley Cooper) era um gordinho sem talento para o romantismo que um dia encontrou a esposa fazendo sexo com um homem mais velho no chuveiro de sua casa. Logicamente, o homem surtou, bateu no velho até quase matá-lo e por isso precisou ser internado. Os meses passam, Pat recebe autorização para deixar a clínica de tratamento e inicia um projeto pessoal para reconquistar a mulher: a corrida diária fará com que ele elimine o peso extra e a leitura de clássicos da literatura com os quais a esposa trabalha mostrarão que ele é um cara romântico que interessa-se pelo mundo dela. O problema é que, apesar de ter sido liberado, Pat não está completamente saudável e seus ataques de ansiedade não só deixam seus pais (Robert De Niro e Jacki Weaver) preocupados quanto impedem-no legalmente de aproximar-se da mulher. É aí que surgem a víuva Tiffany (Jennifer Lawrence), uma aposta em um jogo de futebol americano e um concurso de dança para mudarem a vida desse homem atormentado.

O Lado Bom da Vida, produção que concorre ao Oscar de Melhor Filme esse ano, é dirigido pelo David O. Russel (de O Vencedor) com base em um roteiro que ele mesmo adaptou de um romance do escritor Matthew Quick. Dificilmente ganhará alguma das estatuetas que concorre nas principais categorias (Filme, Diretor, Ator, Atriz) e, para falar a verdade, não é lá um grande filme, mas assistí-lo e deixar-se levar por sua mensagem simplista de superação e felicidade tem lá o seu valor.

... na família...

… na família…

Russel nos leva novamente para o seio de uma família de subúrbio deveras problemática que poderia perfeitamente ser a sua ou a minha (certamente poderia ser a minha). O pai está desempregado e apostando as economias em um negócio de retorno incerto, a mãe mente para o marido sobre questões importantes e sempre tem uma visita em casa. Pat, que acabara de sair da clínica, tenta reencontrar sua saúde mental nesse ambiente tumultuado e caminha sistematicamente para um novo surto (uma pessoa que acorda a família de madrugada para discutir um livro do Hemingway DEFINITIVAMENTE não está melhorando) quando conhece Tiffany na casa de um amigo. Tão ou mais “louca” que ele, a moça também teve seu momento de insanidade quando perdeu o marido e canalizou sua depressão para o sexo, transando com todas as 11 pessoas de seu local de trabalho (uma delas era uma mulher). Inicialmente, ela quer transar com ele e ele quer afastá-la como mais uma prova de amor para a esposa. O tempo e as coincidências deliciosas de Hollywood oferecem ao casal a possibilidade de conhecer-se melhor e, mais do que usar um ao outro, eles passam a se ajudar (ela dá sorte no futebol e “entrega” as cartas dele para a esposa, ele fará par com ela em um concurso de dança).

O Lado Bom da Vida funciona como aquele amigo que fica lhe dando conselhos genéricos quando tu está para baixo, ele lhe diz coisas óbvias (Está com problemas? Siga em frente, oras! Só um novo amor poder curar o amor perdido! Não é sobre o quão forte tu pode bater, mas sim o quanto tu consegue apanhar e seguir em frente!), coisas que tu está cansado de saber mas que sempre é bom ter alguém para te lembrar. Russel olha do problema de fora pra dentro e isso faz com que ele gaste mais tempo com soluções do que com a compreensão do lamento. Apesar de utilizar o stress emocional como ponta-pé, o diretor não faz do filme um estudo do problema, o que vemos aqui é uma tentativa clara de mostrar que a calma após a tempestade está ao alcance de todos. Divertido e bem executado, conta com cenas legais como o primeiro encontro do casal e o concuro de dança e é muito legal para ser visto com aquela pessoa que, apesar de todas as pedras no caminho, continua ao seu lado lhe dando forças para seguir em frente.

... e em um novo amor.

… e em um novo amor.