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A Bela e a Fera (2017)

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Apesar dos avisos do pastor Silas Malafaia, optei por correr o risco de “virar gay” e fui conferir esta nova versão do conto de fadas francês A Bela e a Fera. No vídeo que pode ser visto clicando no link acima, Malafaia acusa a Disney de “comprar a agenda gay” e de ensinar sexualidade para o público, especialmente para as crianças. Segundo o pastor, a decisão do estúdio de incluir no filme um personagem abertamente homossexual (LeFou, interpretado pelo Josh Gad) é uma tentativa “asquerosa e nojenta” de erotizar a molecada.

Malafaia gravou o tal vídeo no dia 02/03 e, segundo o IMDB, A Bela e a Fera (e o LeFou) só estreou no Brasil no dia 16/03, ou seja, é bem provável que ele emitiu aquela opinião ANTES de ver o filme. É claro que o pastor pode ter tido acesso ao material em uma pré-estreia exclusiva, mas o que me parece é que, ciente das informações que foram divulgadas sobre o personagem antes do lançamento, Malafaia adiantou-se e convidou seus seguidores a boicotarem o produto da Disney.

Faço essas considerações pois, por mais que eu preze pelo respeito às crenças alheias, não consegui encontrar em A Bela e a Fera o conteúdo preocupante apontado pelo Malafaia. É fato que o LeFou está mais purpurinado do que seu correspondente da animação de 1991, mas daí a dizer que o filme propõe-se a erotizar crianças e ensinar-lhes sexualidade é um absurdo, o tipo de erro grotesco que geralmente é cometido por quem fala de algo que não sabe (ou não viu). Tal qual fazia anteriormente, o personagem continua beijando o chão que o Gaston (Luke Evans) pisa e cantando sua canção que enaltece as “qualidades” do valentão. Os trejeitos dele não deixam dúvidas que, se pudesse, ele beberia daquela água, mas é só. Sem beijos, sem carícias, sem nada que os pais de uma família tradicional precisem tampar os olhos dos filhos por medo deles saírem do cinema arrotando arco-íris. É, portanto, no mínimo quixotesca a preocupação do pastor com o LeFou. O fato de haver revolta contra a homossexualidade do personagem e silêncio contra o machismo e a truculência de Gaston, que continua querendo obrigar Bela (Emma Watson) a casar-se com ele para massagear-lhe os pés, diz muito a respeito das prioridades e do caráter do Malafaia.

Eu, que continuo gostando de mulheres a despeito dos esforços do simpático LeFou, também sigo apreciando musicais e acredito que dificilmente veremos algo tão bom do gênero nos cinemas esse ano quanto esse A Bela e a Fera. Conta-se que, inicialmente, a intenção da Disney era refilmar a história como um longa metragem comum, sem as músicas, ao que o diretor Bill Condon (dos dançantes Dreamgirls e Chicago) respondeu “Vocês são loucos? Pretendem fazer uma adaptação enorme e bonitona e deixar ‘Be Our Guest’ de lado?”. Que bom que deram ouvidos ao diretor: a tecnologia atual e a grandiosidade dos figurinos e dos cenários, por si só, já tornariam esta versão válida e interessante, mas é na parte musical que a história continua tocando nossos corações.

Nesse conto tão velho quanto o próprio tempo (na verdade, ele foi escrito em 1740 pela francesa Gabrielle-Suzanne Babot), Bela é uma garota entediada pela vida provinciana que a cerca. Num mundo organizado para que as maiores ambições de uma mulher sejam encontrar um marido e cuidar da casa, Bela é uma inventora apaixonada por livros que espanta todos tanto por seu jeito independente quanto por resistir aos avanços do bonitão Gaston, o solteirão mais cobiçado do vilarejo. Certo dia, Maurice (Kevin Kline), o pai de Bela, é capturado por uma fera monstruosa (Dan Stevens) e preso nas masmorras de um castelo. O crime dele? Colher uma rosa do jardim da propriedade para levar para a filha. Procurando reparar a injustiça, Bela oferece para trocar de lugar na prisão com o pai, proposta que é aceita pela Fera com a condição de que a moça nunca mais abandone o local.

Quem viu a animação sabe que a Bela e a Fera irão se apaixonar (ele pelo caráter dela, ela pela intelectualidade e coragem dele) e que isso quebrará o feitiço que havia transformado o príncipe egoísta numa criatura monstruosa. Gaston, obviamente, não ficará nada feliz em ser preterido por uma bola de pelos gigante e incitará a população do vilarejo a atacar o castelo, o que provocará uma batalha épica e divertida onde relógios (Ian McKellen), candelabros (Ewan McGregor) e bules de chá (Emma Thompson) colocarão todo mundo para correr. Condon respeitou a estrutura principal da história, mas retirou os excessos (a invenção maluca de Maurice, o velho calhorda do hospício), adicionou subtramas (a mãe e a infância de Bela) e 3 novas canções (How Does a Moment Last Forever, Days in the Sun e Evermore). Essas alterações, longe de comprometerem passagens e memórias caras aos fãs, tornaram a história mais coesa, principalmente no tocante à luz que é jogada no passado trágico da protagonista.

Ainda que conserve elementos de magia e diversão comumente associados à infância, de modo geral este A Bela e Fera está um pouco mais adulto e sombrio do que seu antecessor, tanto pela forma mais incisiva de abordar temas como o machismo (Emma Watson não economizou desprezo no olhar ao encarar o tosco Gaston) quanto pelo visual: se o Fera da animação era uma espécie de cachorrão que dava vontade de fazer um cafuné, esta nova versão, com chifres de bode e tudo mais, parece o próprio filho do cramunhão. Todo caso, cumpriu-se bem a tarefa de atualizar a história atemporal do poder da beleza interior para esta geração: as reencenações da psicodélica Be Our Guest e da apaixonante Beauty and the Beast utilizaram o que há de melhor em computação gráfica para criar um espetáculo soberbo em 3D e, no fim, o prepotente e arrogante Gaston voltou a receber o que ele merece, tal qual deve ser. Acreditem, não há o que boicotar aqui: a Disney acertou em transformar um de seus maiores clássicos em um magnífico live action e continua de parabéns por, mais do que desenvolver produtos para entreter crianças, preocupar-se em levar exemplos de diversidade e respeito às diferenças para as telas de cinema. Quero mais Mickey e menos Malafaia.

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A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2, O Final

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Acabou, acabou! Foram 4 livros que transformaram-se em 5 filmes ao longo de 5 anos. A Saga Crepúsculo da escritora Stephenie Meyer chega ao final de sua carreira cinematográfica praticamente da mesma forma que começou, ou seja, com uma legião de fãs apaixonadas e uma quantidade igual ou superior de pessoas que odeiam o filme com todas as suas forças, argumentos e xingamentos. Como expliquei no texto do Amanhecer – Parte 1, eu até consegui ficar indiferente (não gostei, mas também não odiei) durante os dois primeiros filmes, mas os 2 últimos me colocaram do lado da galera que passou a utilizar a saga para fazer piadas e referências ao que há de pior no cinema atual. “O final que viverá para sempre”, como era de se esperar, não arrisca em nenhum sentido e tem no fato de colocar um ponto final na história de Bella e Edward o seu único mérito.

Amanhecer – Parte 1 é, basicamente, um filme de uma única cena, a saber o casamento de seus protagonistas. Bella (Kristen Stewart) e Edward (Robert Pattinson) partem para os finalmente, a moçoila fica grávida e, para salvá-la da morte certa durante o parto, o vampirão morde seu pescoço magricelo. Renesmee nasce, Jacob (Taylor Lautner) apaixona-se por ela e pronto, tu perdeu duas horas de sua vida e um livro que poderia ter rendido apenas um filme foi divido em dois para colocar alguns dólares a mais nos cofres da Lionsgate e da Summit Entertainment. Parte 2, O Final gasta quase o mesmo tempo para mostrar Bella adaptando-se a sua nova vida de vampira e os problemas que o nascimento de Renesmee causa para os Cullens perante os poderosos Volturi. Sério, nada tira da minha mente de que toda essa embromação poderia ter rendido apenas um longa.

Edward ensina bela a procurar viadinhos na floresta

A série acabou agora, mas há muito tempo acabou a paciência para com os seus defeitos e furos de roteiro, de modo que praticamente não há novos praguejamentos para articular. Os vampiros da S. Meyer continuam sendo uma das piores representações da espécie que já chegaram as telas do cinema, os efeitos especiais são ridiculamente ruins (como uma pessoa em sã consciência autorizou aquelas cenas onde eles correm no meio da floresta?) e os conflitos emocionais e psicológicos da história fazem os Teletubbies parecerem personagens do Dostoiévski. Perceberam? Os argumentos e as ironias contra a série caíram no lugar comum, então vamos tentar algo diferente.

Parte 2 – O Final tem algo legal! La pelas tantas, os Cullens e os Volturi deixam as gentilezas e frescurites de lado e caem na pancada para decidir o futuro de Renesmee. Toda aquela melosidade e poesia de porta de banheiro dão lugar a uma batalha trash onde cabeças rolam e alguns dos personagens mais importantes da história encontram seu fim. Eu, que fui no cinema basicamente para acompanhar minha noiva e para assistir a conclusão da história, saí do meu estado de sonolência e comecei a me divertir de verdade com o show de decapitações até que… PEGADINHA DO MALANDRO! Não convém revelar o que acontece, mas a minha revolta foi monstruosa por tirarem de mim a única e verdadeira diversão que eu consegui ter com a série após 5 filmes.

As fãs que me desculpem, mas tirando o lado sobrenatural, A Saga Crepúsculo não é uma história de amor bonita. A história cheia de puritanismo da Stephenie Meyer fala de amor para quem sonha com ele, não para quem o vive no dia-a-dia e sabe que um relacionamento é feito muito mais de dificuldades superadas pela vontade de ficar junto do que de juras infinitas e suspiros. Parte 2, O Final põe fim a um dos maiores lenga-lengas da história recente do cinema e, mesmo que o clipe exibido próximo ao final com imagens de Bella e Edward emocione, deixa como contribuição (?) para o mundo apenas uma geração inteira de potenciais autoras de livros de auto-ajuda. Meninas, acreditem, homens não brilham no sol.

Lobo pedófilo e vampiros caçadores de viadinhos: Obrigado, Stephenie Meyer

A Saga Crepúsculo – Amanhecer – Parte 1 (2011)

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Convenhamos, todo mundo tem uma opinião sobre a “Saga Crepúsculo“, mesmo aqueles que não leram os livros e nem assistiram os filmes costumam fazer piadinhas sobre a abordagem que a escritora Stephenie Meyer fez do universo vampiresco. Não li os livros e nem pretendo fazê-lo, mas assisti todos os filmes e também formei uma opinião sobre a saga, pelo menos sobre aquela que pode ser vista nas telas dos cinemas. Mesmo com todas as escolhas altamente questionáveis feitas para adaptar o tema dos vampiros para o público adolescente (principalmente para aquelas garotas que ainda sonham com o príncipe encantado), eu gosto do Crepúsculo, há ali um clima de “sessão da tarde”, algo de nostálgico que nem mesmo o excesso de frases de efeito e o vampiro que brilha tal qual purpurina consegue estragar. O Lua Nova já é um filme de gênero: se você é homem não irá gostar, se tu é mulher há o Taylor Lautner sem camisa o tempo todo (até na chuva fria). O Eclipse, além de demonstrar que a história já não tinha mais fôlego e cansar qualquer um com mais de 15 anos com o lenga-lega morde/não morde, trouxe uma das cenas mais vergonhosas da história do cinema, à saber aquela onde Bella, Jacob e Edward dividem uma barraca. A melhoria considerável dos efeitos especiais e as coreografias das lutas não tornavam a experiência menos tediosa.

Bem, o filme em questão é o A Saga Crepúsculo – Amanhecer – Parte 1, mas achei importante fazer essa espécie de recapitulação sobre minha experiência com a série tanto para que o leitor saiba o que eu penso sobre ela quanto para ficar claro que o que será dito não é mera implicância do tipo “maria-vai-com-as-outras”. Fui para o cinema desconfiado, o que não quer dizer que eu estava disposto a odiar o filme. Dito isso, o veredito: Amanhecer é uma merda.

Sim, eu sei que essa é uma afirmação forte e mal educada, mas é a forma mais sincera e direta de definir o que eu senti assistindo. Quem acompanhou a história sabia que, depois de todas as juras de amor possíveis e imagináveis, Edward Cullen (Robert Pattinson) e Bella Swan (Kristen Stewart) finalmente iram transar casar. Esqueça toda a história que foi desenvolvida nos 3 primeiros filmes: Amanhecer é sobre o casamento e lua-de-mel de Edward e Bella, uma espécie de spin off  que a ganância por dinheiro dos produtores hollywoodianos (desculpem-me pelo lugar comum) permitiu para os fãs do casal ao dividir o último livro em 2 filmes.

De positivo, vejo apenas a captura do nervosismo de uma adolescente diante do casamento e da primeira vez. O texto com pretensões poéticas que abre a trama é fraco. Jacob (Taylor Lautner) surgindo sem camisa 5 segundos depois é ridículo. Edward tentando ser Dexter Morgan não faz nenhum sentido no flashback que aparece na sequência. Há mais baladas mela cueca no filme do que em toda a discografia do Whitesnake e do Elton John juntas. E, claro, não dá para deixar de lado toda a sequência  bizarra da gravidez, as cenas de luta mal coreografadas (um retrocesso em  relação ao Eclipse) e o fato de o diretor Bill Condon (putz, esse cara dirigiu o Deuses e Monstro!) ter transformado algo com a profundidade de uma frase de embalagem de ice kiss em um filme com mais de 2 horas.

Não há porque dizer “pessoas que gostam desse tipo de filme são assim e assim e blablabla”, posso falar apenas por mim e não tenho interesse de julgar os outros. Tendo isso bem claro, digo que Amanhecer não é apenas um filme ruim, ele é uma merda no sentido de não ter acrescentado nada na minha vida, de possuir um texto pobre e de abusar do seu poder de levar o público ao cinema, público esse que, como eu, quer minimamente ver a conclusão da história, mas sai da sala de exibição desrespeitado, quase ofendido por um filme que não acrescenta nada na saga (e olha que já não havia muito para ser apreciado). O pior de tudo? Pensar que a parte 2 pode ser pior ainda, pensar que, de qualquer forma, ainda retornarei ao cinema para ver Bella e Edward (e Renesmee).