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Cinquenta Tons Mais Escuros (2017)

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Sinto-me feliz. Após um mês de muitas dificuldades e privações, cá estou eu conseguindo digitar com as duas mãos novamente. Fui ao médico ontem pela manhã e, contrariando todo o meu pessimismo, ele disse que já era hora de retirar o  gesso e a tala que eu vinha usando desde o dia do meu acidente. Ainda é preciso calma, algumas sessões de fisioterapia e tempo para as feridas da palma da mão direita fecharem, mas a felicidade de poder voltar a escrever e realizar sozinho tarefas cotidianas (tomar banho, comer, etc) é algo indescritível. Em breve, espero, este pesadelo ficará definitivamente no passado e eu poderei lembrar desses dias tenebrosos apenas para agradecer todo o carinho e apoio que recebi da minha família, amigos e da minha querida esposa.

Semana passada, tão logo eu e a Renata saímos da sessão do Logan, entramos em outra sala para assistir este Cinquenta Tons Mais Escuros. Isto foi um erro em todos os sentidos. Levando em conta nossa condição física, foi um erro porque ela precisou ficar sentada durante quase 4 horas (tempo somado dos dois filmes) num dia que o joelho dela estava bastante dolorido. Também foi um erro porque, após ver a despedida magistral do Wolverine, assistir um soft porn ruim assemelhou-se a sair dos Jardins do Éden e cair direto no Vale dos Ventos, Segundo Círculo do Inferno dantesco onde agonizam aquelas pessoas que, em vida, deixaram-se levar pela luxúria. Cinquenta Tons Mais Escuros não só repete todos os muitos erros de seu antecessor, o insosso Cinquenta Tons de Cinza, quanto volta a deixar claro que, se você tem mais de 18 anos, você não é o público alvo desta adaptação cinematográfica da obra da escritora E. L. James. Eu, que já completei 31 primaveras e não gosto de abandonar nada pelas metades, voltarei ao cinema para assistir a conclusão da história, mas o ânimo é zero depois do que vi nesta continuação.

Aqui, até mesmo para justificar o “por que raios eu fui ver este troço”, acho justo repetir algo que eu disse quando resenhei o Cinquenta Tons de Cinza. Antes de qualquer coisa, eu gosto de cinema. Mesmo que eu não tenha condições de assistir tudo que é lançado (alguém tem?), procuro ver a maior quantidade de filmes possíveis, e isso inclui desde o “novo do Scorsese” até o “blockbuster bafo sobre fodelança sadomasoquista”. É bastante confortável, principalmente devido a falta de tempo, dar atenção somente para trabalhos ligados a cineastas já consagrados e/ou para títulos que receberam boas resenhas, mas eu ainda gosto de ter uma visão ampla do que está sendo produzido atualmente e, as vezes, isso implica ir assistir algo mesmo quando todos os meus instintos me dizem para não ir.

Todo caso, eu fui e vi uma história que começa tão mal quanto a anterior havia terminado. Anastasia (Dakota Johnson), que havia afastado-se do bonitão Christian Grey (Jamie Dornan) após descobrir a extensão de suas peculiaridades sexuais, procurou superar o término do relacionamento enfiando a cara no trabalho. Agora ela é uma competente assistente numa editora de livros e, quando tem algum tempo livre, sai para beber com os amigos e para passear. Certo dia, enquanto visitava uma exposição de fotografias de um amigo, Anastasia surpreende-se não somente com o fato de que o tal amigo havia feito vários quadros com fotos dela quanto com a notícia de que um comprador havia arrematado todas as obras em que seu rosto aparecia. Não é nenhuma surpresa que o comprador é o galante Christian Grey, que surge logo em seguida pedindo para que a moçoila dê-lhe uma segunda chance.

E Anastasia dá. E Christian, que promete aceitar um “relacionamento baunilha” (menos foder, mais fazer amor) para agradar sua amada, abre a carteira e começa a mima-la com roupas caras, joias e celulares. Como pontos de conflito, a trama traz a possessividade e o ciúme de Christian atrapalhando a vida profissional de Anastasia, a eterna indecisão da moça, que ora quer experiências sadomasoquistas, ora não, e a inclusão da personagem Elena (Kim Basinger), a milf que ensinou o Sr. Grey a foder e que ainda exerce uma estranha influência sobre ele.

Dar, foder, fazer amor. Falou na série Cinquenta Tons de Cinza, falou em sexo. As pessoas postam comentários safadinhos no Facebook quando referem-se ao filme e, dentro da sala do cinema, imperam as risadinhas, suspiros e exclamações quando Anastasia e Christian começam a se pegar, mas a verdade é que o conteúdo sexual do filme é extremamente meia boca. Talvez por visar mesmo um público mais adolescente, o diretor James Foley abre mão de cenas de nudez frontal e sempre envolve o sexo e os elementos do sadomasoquismo em contextos humorísticos. Christian introduz esferas na vagina de Anastasia e, nas cenas seguintes, todo mundo ri dos closes que mostram as caras e bocas que ela faz para conter o tesão na frente de terceiros. Christian masturba Anastasia dentro de um elevador lotado e a gente ri da cara fechada de uma senhora próxima ao casal. Já tive 18 anos e sei que este tipo de conteúdo pode provocar rebuliços internos nessa fase (até porque praticamente tudo provoca rs), mas não acho que Cinquenta Tons Mais Escuros tenha algo a dizer sobre sexo para um adulto casado e com acesso à internet.

Se o sexo decepciona, não é o roteiro esquemático que salva o material. Resumidamente, Anastasia e Christian tem os mesmos problemas que eu e você, caro leitor, temos em nossos relacionamentos. A diferença é a proporção bizarra que esses problemas tomam quando há bilhões de dólares envolvidos no processo. Você sente ciúmes da sua namorada por pensar que o chefe dela está com segunda intenções mas resigna-se por saber que ela precisa do emprego. Christian também sente ciúmes, daí ele compra a empresa da namorada e manda o chefe dela embora. Sua namorada fica preocupada quando você não dá notícias. Anastasia fica preocupada porque Christian sofreu um acidente de helicóptero que está sendo transmitido ao vivo na TV. Sua namorada é independente e gosta de dividir a conta. Anastasia é independente e recusa um cheque de 24 mil dólares. Não dá para ter empatia com pessoas assim (nem com um diretor que faz de uma queda de helicóptero uma cena banal dentro de um filme).

O mistério envolta do passado e dos desejos sadomasoquistas de Christian, ponto central da trama, avança pouco em Cinquenta Tons Mais Escuros. O relacionamento entre os personagens dá o passo lógico em direção ao altar, Anastasia termina a trama um pouco mais determinada e segura de si, abandonando aquela postura passivo-confusa irritante de outrora, e um homem observa tudo das sombras, prometendo complicações futuras para a relação do casal, mas é só.  E é pouco. E é ruim. E não dá tesão. E, ainda que a trilha sonora e o figurino sejam bons e que tenham me dito que o livro é “melhor e mais quente”, não dá a MENOR vontade de conhecer o trabalho da escritora E. L. James com base nisso aqui. Felizmente, se não dividirem o último livro em 2 filmes, falta só mais um.

Precisamos Falar Sobre Kevin (2011)

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Precisamos Falar Sobre KevinRecentemente, li o Fédon do Platão, livro onde o filósofo utiliza as últimas horas de vida e diálogos de seu mestre, Sócrates, para desenvolver suas próprias teorias sobre a imortalidade da alma e transcendência. A  leitura é pesada, ocasionalmente maçante e não foram poucas as vezes que eu permiti-me discordar dos raciocínios desenvolvidos (entre outras coisas, Platão utiliza analogias para “provar” temas como reencarnação :S), mas há ali uma discussão sobre essência e “verdade” que me agradou bastante. Tentarei, sem estender-me demais no assunto, explicar o que eu entendi dessa teoria e como isso aplica-se a questão da maldade absoluta que Precisamos Falar Sobre Kevin aborda.

Antes de tirar a própria vida bebendo cicuta, Sócrates utilizou o exemplo do número 3 para convencer seus discípulos de que algumas idéias são absolutas e eternas enquanto outras, apesar de remeterem as mesma idéias, permitem variações e relativizações. O 3 seria uma idéia fechada em si mesma, inquestionável enquanto representante do conceito da trindade. O “ímpar”, por sua vez, pode ser associado ao três, mas não podemos dizer que o 3 É ímpar, uma vez que esta é apenas uma de suas CARACTERÍSTICAS e não a sua essência, já que essa mesma divisão/classificação/CARACTERÍSTICA também aplica-se ao 1, 5, 7, etc e, portanto, não configura unidade.

Precisamos Falar Sobre Kevin - Cena 4

Dito isso, vamos a questão da maldade. O desenvolvimento das ciências humanas nos últimos séculos contribuiu significativamente para flexibilizar certas questões morais que, em determinados períodos da história, foram analisados (e julgados)  através da dicotomia bem/mal. O dinheiro, é claro, financiou a construção do meio tom chamado purgatório durante a Idade Média mas, no geral, o moralismo católico daquela época oferecia o céu com uma mão e o inferno com a outra. Atualmente, o mundo já não é mais tão preto e branco assim e, não raramente, vemos pessoas defendendo assassinos e assaltantes argumentando que eles são resultados do meio pobre e violento onde nasceram (o estereótipo frequente é o morador da favela filho de um traficante com uma prostituta) e que, portanto, não podem ser classificados ou julgados da mesma forma que alguém nascido em berço de ouro ou, para atualizar o termo, como um “filhinho de papai”.

Precisamos Falar Sobre Kevin - Cena 3

Mesmo reconhecendo que o meio influencia, mas não determina, o conceito de livre arbítrio cambaleia frente à luta pela sobrevivência. O mal saiu do colo do capeta para transformar-se na sujeira que Deus varreu para debaixo do tapete após um trabalho feito nas coxas. Desse ponto de vista relativizado, o assassinato cometido pelo “favelado filho de/da puta” está para a maldade assim como o ímpar está para o 3, ou seja, é sim algo que pode ser caracterizado como “errado” (considerando que bem=certo e mal=errado) mas que não é errado em absoluto. Saber que há um “motivo” por trás de um ato de crueldade não diminui nossa indignação nem justifica a ação, mas nos tranquiliza, de certa forma, porque a explicação nos fornece uma sensação de que há uma certa lógica no mundo, algo que podemos controlar e, quem sabe, mudar. Precisamos Falar Sobre Kevin é um pouco mais “conservador” sobre essa questão e, com uma história verdadeiramente desoladora, parece sugerir que esse controle que julgamos ter sobre a maldade não passa de mera ilusão devido ao fato de que, tal qual o 3, às vezes ela aparece em sua forma absoluta e inflexível. Isso dá medo, muito medo.

Precisamos Falar Sobre Kevin - Cena

Eva (Tilda Swinton) é uma mulher comum, que transa com um cara comum (Franklin, interpretado pelo John C. Reilly) em uma situação comum (pós-festa, embriaguês, foda-se a camisinha). O trivial dá mais um passo à frente quando ela descobre-se grávida e casada com Franklin. Kevin (Jasper Newell/ Ezra Miller), o resultado visto após o nono mês, é tão fruto do capeta quanto músicas de axé com refrões demoniacamente pegajosos.

Agora vai uma analogia do tipo Platão: Se você está lendo isso, você está vivo e, se você está vivo, você já presenciou alguma criança dando birra. Confessemos, juntos: a nossa primeira reação SEMPRE é atribuir a culpa aos pais. CLARO que aquela coisinha linda guti-guti está chorando e esperneando devido a alguma coisa que o pai fez ou, na maioria dos casos, deixou de fazer, como comprar um doce, fazer uma brincadeira ou, principalmente, educar corretamente. Bater, então, é assinar atestado de incompetência e reservar com antecedência um lugar no inferno. Não será eu quem dirá que quem pensa assim está errado, mas aqui, nesse filme da diretora Lynne Ramsay, adaptação do livro escrito pelo Lionel Shriver, encontramos argumentos assustadores para acreditarmos que nem sempre a culpa é dos pais.

Precisamos Falar Sobre Kevin - Cena 6

Kevin simplesmente odeia a mãe. E quando eu digo odeio, eu não estou me referindo a fazer beicinhos e coisas do tipo. Tendo desenvolvido precocemente um raciocínio aguçado, o garoto pragueja contra sua progenitora, manipula o pai contra ela e faz de tudo, inclusive cagar propositalmente na fralda que acabara de ser trocada, para irritar e testar os limites de Eva.

A narrativa em Precisamos Falar Sobre Kevin não é linear, o que significa que passado e presente alternam-se na tela constantemente para lançar questões e problemas que só serão respondidos após longos e reveladores flashbacks. A Eva das primeiras cenas, uma mulher psicologicamente destruída, por exemplo, não lembra em nada a personagem vigorosa, paciente e racional que vai para a cama com Franklin em uma cena posterior. Essa quebra cronológica, engenhosa e muito bem executada, coloca-nos uma questão que remete as divagações do início do texto: O que Eva fez com o filho para que ele se comportasse daquela maneira? O assustador aqui é que, quando as peças do quebra-cabeças vão sendo colocadas em seus devidos lugares, a história revela apenas os motivos da decadência da sanidade mental da personagem, que enfrentou uma luta inglória contra um adversário que nunca poderia ser vencido.

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O mito grego diz que Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, cedeu a curiosidade e, contrariando um conselho, abriu uma caixa e espalhou o mal pelo mundo. Da mesma forma, Eva (coincidência ou não), o nome da primeira mulher da teologia cristã e da personagem desse filme, tentada pela serpente (sem camisinha rs) acaba sendo a responsável por trazer o mundo a sementinha do mal chamada Kevin. Podemos atribuir o comportamento do garoto a problemas psicológicos? Sim, já que desde pequeno ele apresenta características psicopatas (matar animais, etc) que, de certa forma, adiantam no imaginário do espectador àquela ação macabra que ele comete no último ato. Podemos sim tentar entender e relativizar a maldade do personagem mas, pessoalmente, eu o vi como a expressão absoluta do mal, algo que não poderia ser mudado de forma alguma, algo que precisa ser reconhecido como tal e, como o título convida, algo sobre o qual precisamos conversar, por mais que dê medo olhar diretamente nos olhos do caramunhão.

Como essas divagações já denunciam que eu adorei o filme e recomendo-o fortemente, acrescento para fechar que esse Ezra Miller é um ator que merece ser observado de perto. A caracterização sofisticada e cínica que ele imprime ao personagem e o ótimo trabalho que ele realizou como o purpurinado Patrick no As Vantagens de Ser Invisível sugerem que estamos diante do início de uma carreira promissora.

Precisamos Falar Sobre Kevin - Cena 2

O Homem de Aço (2013)

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O Homem de AçoEu gostei do Superman – O Retorno. Adoro a cena do salvamento do avião e, mesmo depois de 7 anos e muito títulos de ação semelhantes assistidos, ainda a considero como um dos feitos mais impressionantes/cool já realizados por um herói na telona. Não serei eu a discordar, no entanto, da principal crítica feita na época ao trabalho do Bryan Singer: excluindo a cena citada, faltou ação no filme. O Lex Luthor, inimigo clássico do herói, apesar de muitíssimo bem interpretado pelo Kevin Spacey, não conseguiu fornecer um desafio físico à altura dos poderes do azulão. Optando por uma continuação direta dos filmes estrelados pelo Christopher Reeve, Singer e sua equipe realizaram um trabalho tão nostálgico quanto repetitivo para quem conhecia os longas antigos e, ao que tudo indica, também não agradaram o público atual de filmes de ação, pessoas acostumadas a sequências de pancadaria frenéticas com cortes constantes e efeitos especiais exagerados. Com uma bilheteria que mau pagou os custos de produção, O Retorno, que tinha tudo para resgatar as aventuras do personagem em uma época onde as pessoas mostram-se interessadas em filmes de super-heróis, acabou transformando-se no ponto final da cine-série iniciada em 1978 pelo diretor Richard Donner.

Obviamente, o personagem, um dos mais conhecidos e rentáveis da DC Comics, não ficaria esquecido muito tempo pela indústria hollywoodiana. Dentre todas as especulações que surgiram sobre o projeto de levar o Super Homem de volta às telas, a que mais me agradou foi a possibilidade do Zack Snyder ser convidado para a direção. Para dizer pouco, o cara é um dos diretores mais criativos, se não o mais, que debutou em terras americanas nesse século. Para escancarar a minha admiração, Watchmen é um dos meus filmes favoritos e considero-o como uma das melhores adaptações de HQ’s já feitas para o cinema. O que era boato foi anunciado oficialmente e a expectativa, que à partir desse momento era gigantesca, foi alçada ao status de “monstruosa” quando Christopher Nolan, o responsável pela trilogia do Cavaleiro das Trevas, foi confirmado como um dos roteirista do reboot. Sim, reboot, pois também ficou decidido que O Homem de Aço desconsideraria os filmes anteriores do personagem para contar sua história desde o início.

O Homem de Aço - Cena 4

Essa história, caros leitores, começa no longínquo planeta Krypton, lar de uma sociedade avançadíssima porém condenada a extinção devido a exploração indevida de recursos naturais. Jor-El (Russell Crowe) sugere que os anciões do planeta procurem a salvação dos kryptonianos explorando outros planetas mas, antes mesmo que a proposta possa ser seriamente discutida, o General Zod (Michael Shannon) toma o poder com a ajuda de um golpe militar. Temendo a segurança do filho recém nascido, Jor-El envia-o em uma cápsula para a Terra, onde ele é encontrado e adotado pelo casal Martha (Diane Lane) e Jonathan Kent (Kevin Costner). Batizado Clark Kent (Henry Cavill), o extraterrestre cresce em nosso planeta procurando manter sua identidade e seus poderes escondidos, tarefa na qual ele é bem sucedido durante os primeiros 33 anos de sua vida errante, no final dos quais o mesmo Zod localiza-o e exige que nossas autoridades entreguem-no. Clark, cuja verdadeira história havia sido parcialmente descoberta pela repórter Lois Lane (Amy Adams), vê-se então dividido entre juntar-se ao que sobrou da sua raça, já que Krypton fora destruída logo após sua partida, ou usar seus poderes e lutar para proteger a Terra dos invasores.

O Homem de Aço - Cena 5

Quando finalmente falou como diretor oficial do longa, o Zack Snyder fez questão de dizer que sempre vira o Super Homem como um herói de grande força física e que era assim que ele o mostraria na tela. Logo após, surgiu uma imagem do personagem próximo a um caixa-forte todo retorcido. O recado era claro: O Homem de Aço, ao contrário de O Retorno, teria MUITA ação. Na época, lembro de ler comentários de fãs temerosos de que o diretor transformasse o filme em outro Sucker Punch, ou seja, que a forma suprimisse o conteúdo, que a ação espetacular, que o diretor inquestionavelmente sabe como fazer, não viesse acompanhada de um bom roteiro que a justificasse e complementasse. Regozijem-se, desconfiados, o que os aguarda no próximo dia 12 é um épico de 2h30min que não apenas cumpre a promessa de batalhas grandiosas como reserva tempo suficiente para diálogos e passagens que desenvolvem muitíssimo bem o personagem e o mundo no qual ele está inserido.

O Homem de Aço - Cena 2

Ao lado da pancadaria frenética, que comento no próximo parágrafo, acredito que o principal mérito de O Homem de Aço seja sua narrativa. O filme começa, Krypton e o núcleo envolvendo o ator Russell Crowe desaparecem rapidamente e, mais rápido ainda, ficamos sabendo que Jonathan Kent morreu, motivo que levou Clark a vagar pelo mundo. Aquela sensação incômoda de que estão correndo com a história para irem direto para a ação, felizmente, não dura muito: a medida que Clark vai enfrentando algumas provações, flashbacks vão sendo introduzidos para contextualizarem as cenas. É aí que atores como Kevin Costner e Diane Lane tem a chance de mostrarem seu talento, emocionando com suas performances seguras e discursos inspiradores, e é aí também que o Zack Snyder começa a provar que sua escolha não foi um equívoco. Extremamente sensível ao poder dos detalhes e da trilha sonora, como pode ser visto no já citado Watchmen, o diretor cria imagens lindas em meio as cenas de batalha, como aquela que pode ser vista no trailer quando o pequeno Clark brinca em seu quintal acompanhado  por um cachorro. A capa vermelha, o sol, a borboleta pendurada no balanço… Snyder faz poesia com imagens.

O Homem de Aço - Cena 6

Sobre a ação, na impossibilidade de descrevê-la com palavras que mostrem a minha empolgação sem revelar o que será visto, contentarei-me em dizer que eu não consigo imaginar como poderia ser melhor. Desde a furtividade adotada nas cenas do Jor-El e da Lois Lane, passando pela aprendizagem dos poderes (ah, aquele primeiro voô!) até a mega, hiPER, ULTRA sequência de luta entre o Super Homem e os kryptonianos, Snyder oferece aqui o que há de melhor no estilo. Barras de aço são retorcidas, caminhões são arremessados e corpos atravessam edifícios como consequência dos combates épicos entre os personagens. Os cortes são rápidos quando precisam ser, mas na maioria do tempo ele permite que o espectador veja, de fato, o que está acontecendo na tela. O uso do slow motion, talvez a característica mais marcante do estilo do diretor desde o 300, é reduzido mas feito com muito bom gosto, como quando finalmente Zod e Super Homem encontram-se no campo de batalha para a esperada e inevitável troca de sopapos. Durante o primeiro soco cruzado, o recurso torna possível ver detalhes dos uniformes (aliás, que seja dado um prêmio para quem teve a idéia de excluir a cuequinha do uniforme do herói), suor em suas faces e raiva, medo e esperança nos olhos de ambos.

O Homem de Aço - Cena 3

Como não conheço a HQ, não pude notar referências as mesmas, mas o pessoal do IMDB afirma que algumas das melhores histórias do azulão ganharam citações no longa. O que vi sem muito esforço foi a comparação do personagem com Jesus Cristo. A metáfora, aparentemente inocente, tendo em vista que os dois seriam figuras messiânicas responsáveis pela salvação da humanidade, esconde uma provocação religiosa sobre a origem de nossos deuses que, assim como no Prometheus, teriam origem extraterrestre e provocariam a adoração das pessoas não por sua qualidade divina, mas sim por serem diferentes e mais poderosos do que as pessoas de nosso planeta.

Assim como recomendo que vocês assistam O Homem de Aço no cinema, preferencialmente em 3D, já que o recurso foi bem empregado, também recomendo que vocês não o façam do lado de vossas namoradas. Caso isso não seja possível, levem-nas, mas mandem-nas comprar pipoca logo após a cena do salvamento no petroleiro. O ator Henry Cavill malhou durante 8 meses para o papel com o mesmo cara que conduziu os treinamentos físicos do 300. No momento citado, ele aparece sem camisa (e em 3D). Não é o tipo de coisa que uma namorada precisa ver, acreditem.

Obs.: Impressão minha ou o primeiro combate do filme acontece exatamente no mesmo posto de gasolina usado no Superman – O Filme?

O Homem de Aço - Cena

Era Uma Vez na América (1984)

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Era Uma Vez na AméricaReza a lenda que um dos maiores arrependimentos do diretor italiano Sérgio Leone (Trilogia dos Dólares, Era Uma Vez no Oeste) foi ter recusado o convite para adaptar para as telas o livro O Poderoso Chefão do escritor Mario Puzo. Fã de filmes de gângster que era, Leone percebeu a grande oportunidade que perdeu e procurou remediar a situação garantindo os direitos de adaptação do romance The Hood, uma história baseada em fatos reais sobre um judeu que cresceu no mundo do crime para tornar-se um figurão do comércio ilegal de bebidas durante o vigor da Lei Seca americana. Último filme da relativamente curta filmografia do diretor, Era Uma Vez na América estreou em 1984 e, apesar de todo o amor investido por Leone no projeto e do elenco grandioso que contava com nomes como Robert De Niro, Joe Pesci e James Woods, transformou-se em um dos grandes fracassos comerciais do ano. A rejeição do material, algo impensável se considerarmos o talento dos envolvidos, ocorreu principalmente, conta-se, devido a uma batalha que o diretor perdeu para os produtores do longa, um dos maiores exemplos conhecidos de desrespeito já sofridos por um artista e sua arte na história do cinema.

O Era Uma Vez na América que eu vi é um épico de quase 4 horas que mostra Noodles (De Niro) e seus amigos em três fases diferentes de suas vidas. O filme começa pelo final, há vários flashbacks e até mesmo uma possibilidade de que tudo o que vemos seja fruto da mente de uma pessoa drogada. O que as pessoas assistiram em 1984 foi uma tentativa de tornar esse material mais acessível e comercial: reduziram a história para meras 2h25min (1h30min de corte, que é a duração da maioria dos títulos que inundam as salas de cinema atualmente), mudaram o final enigmático e “organizaram” a complexa linha temporal da trama, excluindo o sistema dos flashbacks para apresentar o conteúdo em ordem cronológica. O público odiou, o filme “afundou” nas bilheterias e a crítica, compreensivelmente, ficou do lado de Leone: não é possível cortar partes de um filme assim como não o é fazer com uma ópera, disseram. Tempos depois, quando pôde ser apreciado em sua totalidade, Era Uma Vez no Oeste recebeu o reconhecimento que merecia (nota 8.4 em 11/06/13 no IMDB, posição #78 no Top 250 do site) e provou que Leone, além de reinventar o faroeste, também conseguiu êxito dirigindo uma produção de um gênero que lhe era caro.

Era Uma Vez na América - Cena 3

Noodles cresceu em um ambiente onde miséria e riqueza, inocência e perversão misturavam-se constantemente. Cartões postais, como a Ponte de Manhattan, compunham o cenário juntamente com bares, casas e ruas sujas e os pequenos roubos surgiam como alternativa para as crianças conseguirem dinheiro para financiarem a entrada precoce no mundo adulto, pagando por sexo e ostentando itens que lhe conferiam respeito perante os demais. O que inicialmente era feito quase que como uma brincadeira começa a tornar-se algo sério quando Noodles, Max, Patsy e Cockeye fazem um pacto de amizade que prevê o acúmulo do dinheiro roubado para garantir-lhes um futuro melhor. A inteligência dos garotos sobressai-se naquele meio onde prevalecia a força física e, em uma briga com uma gangue rival, Noodles é detido e enviado para a cadeia, da qual ele sai apenas 12 anos depois. Max, Patsy e Cockeye fizeram vários progressos e tornaram-se criminosos respeitados no ramo das bebidas, mas o fim próximo e inevitável da Lei Seca provocaria abalos profundos no relacionamento dos quatro amigos.

Era Uma Vez na América - Cena 4

Para quem estava acostumado com os cenários majoritariamente desertos e até mesmo minimalistas dos faroestes do Leone, a primeira coisa que chama a atenção aqui é a grandiosidade do mundo criado e conduzido pelo diretor. Nos núcleos pobres, impressiona o número gigantesco de figurantes e a reconstituição de época que recria a longínqua e agitada infância que o escritor Harry Grey descreve em The Hood. Já adultos, Noodles e cia desfilam seu poder econômico em festas e ambientes luxuosos onde novamente destacam-se a preocupação com detalhes cenográficos e com o figurino. A cidade de Nova York, vista pelos olhos de Leone, é uma mistura caótica de riqueza e desespero que dá prazer aos olhos, tendo ficado a responsabilidade de agradar aos ouvidos novamente ao cargo do compositor Ennio Morricone, que compôs para o longa algumas de suas mais belas melodias, Childhood Memories (que o Tarantino reaproveitou em Django Livre) e Poverty, temas tristes que tocam em vários momentos da trama e sensibilizam todas as vezes que são executados.

Era Uma Vez na América - Cena 6

Há humor, romance e amizade durante as quatro horas do épico, mas o que verdadeiramente dá o tom aqui é a violência oriunda da luta pela sobrevivência. Noodles, criança, brinca com Max enganando a polícia e deleita-se tendo sua primeira vez com uma prostituta em cenas que nada devem a diversão encontradas em clássicos como Conta Comigo e Cinema Paradiso, mas a inocência e a romantização do crime caem no esquecimento quando os meninos apanham tal qual adultos dos rivais, tomando chutes no rosto e “no meio das pernas”, e quando Noodles, ameaçado pela polícia, não pensa duas vezes antes de enterrar seu canivete nas entranhas do sujeito. Leone, claro, não nos polpa dos detalhes e mostra sangue e vísceras em closes quase escandalosos. Concorrendo com essa violência física, a violência sexual surge como o último ato do complicado romance entre Noodles e Deborah (Elizabeth McGovern), musa e vínculo do personagem com o que há de bom e correto no mundo. Sabe aquele tipo de cena que lhe faz prender a respiração e lhe deixa sem reação? Leone dirigiu uma exemplar, a sequência transborda frustração, medo e agonia.

Era Uma Vez na América - Cena 8

Filmes longos costumam ficar chatos em um ou outro ponto. Não vou dizer que a história não torna-se cansativa e até mesmo previsível em alguns momentos, principalmente nas cenas que passam-se no presente e no que diz respeito a reviravolta que ocorre na parte final, mas no geral os flashbacks e os diferentes gêneros que o filme comporta tornam a projeção agradável e rápida. A parte da infância, que compreende os primeiros 50 minutos, eu assisti duas vezes, tanto para compreender melhor alguns detalhes quanto porque eu gostei do que vi. Com um ótimo roteiro, boas atuações e uma trilha sonora inesquecível, eu não pensaria muito antes de colocar Era Uma Vez na América ao lado de clássicos do estilo, como o próprio O Poderoso Chefão e Os Bons Companheiros. Espero que o peso dessa afirmação não passe desapercebido pelo leitor e que o texto, simples mas sincero, contribua, mesmo que minimamente, na tarefa de tornar o filme mais conhecido, diminuindo assim a injustiça cometida contra o Leone e seu épico urbano.

Era Uma Vez na América - Cena 9

Era Uma Vez na América - Cena 7

Era Uma Vez na América - Cena 5

O Mensageiro (1997)

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The Postman - O MensageiroResenha feita para atender o pedido do leitor Felipe, morador da saudosa e nostálgica São José dos Campos-SP.

Eu sempre me pergunto qual critério os escritores de ficção científica usam na hora de escolherem o ano em que suas histórias sobre o futuro acontecerão. Eles usam um número aleatório, fazem algum tipo de previsão ou elegem um ano baseados em alguma data do passado que, de alguma forma, relaciona-se com os eventos que eles querem contar? 2074 pra cá, 3115 pra lá, geralmente os autores optam por datas distantes para poderem exercitar livremente suas ideias sobre novas tecnologias e eventos catastróficos, mas não são raros os exemplos de histórias que utilizam futuros imediatos como cenários e permitem ao público viver até aquela data para dizer “Hey, isso não aconteceu!”. 2013 ainda não acabou, mas a não ser que até o fim do ano o mundo seja varrido por uma guerra nuclear, os eventos de O Mensageiro entram para a lista de ficções não concretizadas e o filme perde um de seus poucos (para não dizer que é o único) atrativos.

Na trama idealizada pelo escritor David Brin, que foi adaptada para as telas pelo roteirista Eric Roth e dirigida pelo vencedor do Oscar (!) Kevin Costner, a sociedade que conhecemos foi devastada pela ativação de armas nucleares. Em 2013, um homem sem nome (Clint Eastwood Kevin Costner) percorre o território americano vivendo um dia de cada vez, vagando através de desertos e cidades destruídas à procura de alimento e abrigo. Como companheiro, o personagem têm apenas o burro Bill, o amigo que escuta sem reclamar todas as sandices esperadas de alguém que está há muito tempo isolado do convívio com seus semelhantes. A peregrinação termina quando o personagem, agora chamado de Shakespeare devido as suas habilidades como ator, é coagido a ingressar no grupo conhecido como Holnistas, uma gangue que utiliza o terror e táticas de guerra para explorar os poucos sobreviventes daquele mundo.

O Mensageiro 1997 - Cena

Uma das vantagens de criar um filme de 3 horas é poder desenvolver bem os personagens fazendo-os passar por numerosas e variadas situações de forma que o público possa entender melhor suas motivações e identificar-se com o que é mostrado. Uma das desvantagens é entediar esse mesmo público com cenas longas e desnecessárias de acréscimo duvidoso para a trama.

Felipe, você comentou que encontrou O Mensageiro em uma lista de filmes que não deveriam ser assistidos. Não sei quais os argumentos que o autor da tal lista usou para incluí-lo lá, mas apresentarei-lhe os que eu usaria para listá-lo em um grupo semelhante.

O Mensageiro 1997 - Cena 3

O Mensageiro trabalha com a ideia de que qualquer um, inclusive eu e você, pode transformar-se em um herói. Para tanto, não é necessário matar bandidos, pular de montanhas ou saber voar, basta ter coragem e determinação para enfrentar aquilo que está errado no mundo de modo que suas ações inspirem outras pessoas. O personagem do Kevin Costner sabia citar Shakespeare como ninguém, mas nem de longe ele poderia ser usado como um exemplo de coragem, já que ele foge quando encontra os Holnistas pela primeira vez e não ousa desafiar o chefe do grupo, que o humilha na frente de todos constantemente. Após os eventos que levam-no a escapar da gangue, o personagem encontra um cadáver que usava uma roupa de carteiro e resolve assumir a sua identidade, visando com isso conseguir comida e as vantagens que o respeito pela profissão evocaria. A habilidade de interpretação transforma a mentira em verdade e esperança, já que a população acredita que a presença do carteiro em suas cidades significa que o governo dos Estados Unidos estava sendo restaurado e que os Holnistas seriam finalmente derrotados. Shakespeare transforma-se no Mensageiro e começa a percorrer o país levando cartas e mensagens de fé no futuro, embuste que desperta o espírito americano adormecido após a guerra e garante-lhe alguns seguidores, muitos inimigos e uma quantidade sem fim de clichês, cenas bizarras e previsíveis.

O Mensageiro 1997 - Cena 2

Não é difícil notar que um dos pontos fracos do cinema americano é desenvolver inimigos à altura de seus heróis perspicazes e bem intencionados. Nazistas, comunistas e terroristas foram e são usados exaustivamente para moldar vilões e suas pretensões, o que é chato pela propaganda política alienante mas que incomoda esse que vos fala principalmente pela falta de criatividade. Os Holnistas não passam de nazistas pós-apocalípticos com suas teorias furadas sobre melhoramento racial com a eliminação dos fracos e doentes. Ocupando o posto de chefe dos desajustados, está o General Bethlehem (Will Patton), um homem cujos discursos, táticas e aspectos pessoais remetem diretamente ao Fuhrer alemão. Em uma cena sintomática, criticam-no pela seu desejo de erudição e por sua pobreza enquanto pintor.

O que inicialmente é apresentado como um filme de ação/ficção científica, transforma-se então em um drama após Shakespeare conseguir fugir das garras de Bethlehem, um drama arrastado, chato e cheio de patriotismo barato. Personagens desconfiam do Mensageiro, outros tratam-no como um messias e um sujeito pede para que ele transe e engravide sua mulher. Repetindo: um sujeito pede para que ele transe e engravide sua mulher. Isso dá início a parte do romance da trama e desemboca em duas cenas terríveis, uma por ser desnecessária e longa (o inverno na cabana) e outra por não fazer o mínimo sentido dentro da história (a dança estilo video-clipe). Faz-se necessário ainda a crítica a trilha sonora pomposa e exagerada que soa deslocada na maioria das cenas e que alcança um nível de cretinice inimaginável em um momento onde uma bandeira dos EUA é queimada.

O Mensageiro 1997 - Cena 4

Lá pelo começo do longa, um pouco antes da cena onde o roteiro critica abertamente filmes violentos como O Soldado Universal, os recrutas são apresentados as 8 regras dos Holnistas, sendo que uma delas dizia que qualquer membro do grupo poderia desafiar o chefe (Bethlehem) pelo comando da gangue. Não sei vocês, mas pra mim ficou óbvio desde então que esse seria o desfecho da trama e não é feito nada para superar essa entrega prematura do clímax. Assiste-se 3 horas de um vai e vem repleto de crianças com cara de feliz aniversário, personagens esteriotipados, cornos conformados e patriotismo para ver algo que é anunciado logo nos primeiros minutos.

Esses, Felipe, são os meus argumentos. Também gosto do Kevin Costner como ator, mas como diretor ele errou feio na edição deste filme, já que uma ideia relativamente simples que poderia ser apresentada com dignidade em no máximo 2 horas transformou-se em uma epopéia longa, óbvia e cansativa. Todo caso, obrigado pela indicação, espero que a resenha negativa não lhe impeça de sugerir outros títulos. Abraço.

O Mensageiro 1997 - Cena 5

Caça aos Gângsters (2013)

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Caça aos GângstersEste texto contêm SPOILERS.

Se não me engano, tive duas oportunidades de assistir Caça aos Gângsters no cinema e deixei passar para ver outros filmes. Não faltaram atrativos: li comentários empolgados feitos por alguns amigos no Facebook e o elenco era magnífico. O problema foi o pé atrás, a desconfiança e a incômoda sensação de déjà vu provocada pelo pôster e pelo trailer. Mas deixemos o sentido aranha de lado e passemos a leitura de duas pequenas sinopses, as quais posto em inglês por preguiça e por confiar no alto gabarito dos leitores do blog:

  1. Los Antgeles, 1949: A secret crew of police officers led by two determined sergeans work together in an effort to take down the ruthless mob king *** who runs the city.
  2. Federal Agent *** sets out to stop ***; because of rampant corruption, he assembles a small, hand-picked team.

Substituindo os astericos do primeiro texto pelo nome do personagem do Sean Penn, colocados ali para reforçar as semelhanças entre os roteiros, temos o resumo de Caça aos Gângsters. Já o segundo trata-se da sinopse do Os Intocáveis, filme de 1987 dirigido pelo Brian De Palma, estrelado por Kevin Costner, Sean Connery, Andy Garcia e Robert De Niro, um clássico dentro do gênero que Ruben Fleischer (Zumbilândia), em 2013 e adaptando um romance do escritor Paul Lieberman, tomou emprestado (para usarmos um eufemismo) na hora de moldar sua aventura de gângsters.

Caça aos Gângsters - Cena

Recentemente, tive duas experiências distintas com filmes que usam elementos de outros longas. A primeira, sofrível, foi com o Oblivion. A outra, recente e que também envolve o mundo do crime, foi com o Os Infratores. O resumo das resenhas é que não importa quanto um filme seja parecido com outro desde que ele não prenda-se somente a emulação. Nada se cria, tudo se copia, mas reorganizar as peças e acrescentar uma ou outra delas ao longo do processo é fundamental para que um filme não seja lembrado apenas por reaproveitar material de outras produções. Caça aos Gângsters, na minha opinião, tem pouquíssimas cenas que se destacam por algum motivo que não seja a semelhança com outros longas, o que é uma pena, porque o que se vê no início é deveras empolgante.

Fleischer, que no Zumbilândia já demonstrara sua simpatia por cenas em câmera lenta, inicia o filme compondo o mito sobre Mickey Cohen. O bombadão Sean Penn pode ser visto, de vários ângulos diferentes, esmurrando um saco de treinamento de boxe. As lentes do diretor captam detalhes impressionantes, como a movimentação dos músculos do braço do ator durante os socos e as gotas de suor que escorrem em seu rosto. Josh Brolin nos conta como Cohen deixou a carreira de boxeador para tornar-se um dos gângsters mais temidos do país e como ele, um policial honesto, planejava pará-lo. Visualmente, é um dos momentos mais bonitos do filme, o Penn está assustadoramente ameaçador e o discurso intimidante nos faz indagar o que o vilão seria capaz de fazer para manter-se no topo.

A melhor cena do filme

A melhor cena do filme

Pois bem, na sequência vemos o vilão agindo. Partir um cidadão ao meio com a ajuda de dois carros não é exatamente algo sútil, mas foi ali que a minha decepção começou. O homem que Brolin descrevera como “um judeu que conseguiu o respeito dos italianos por causa de sua fúria homicida” está lá, de terno e chapéu dando ordens. A minha esperança de ver algo mais físico, uma linha de ação mais Luca Brasi, menos Don Corleone, não vingou. Cohen é um figurão que pagava aulas de etiqueta e dava ordens, não o assassino enfurecido vendido na abertura.

Do lado dos heróis, temos o Josh Brolin interpretando exatamente o mesmo papel que o Kevin Costner viveu no Os Intocáveis. Cansado de ver suas ações contra o crime esbarrarem na corrupção e no medo promovidos por Cohen, o Sargento John O’Mara recorre ao Chefe Parker (o veterano Nick Nolte) para conseguir formar um grupo secreto de policiais que estaria autorizado a dispensar a burocracia imposta pela lei na missão de esmagar os gângsters. A convocação dos “especialistas”, com pequenas cenas apresentando cada um deles e suas habilidades, é um dos maiores lugares comuns do gênero, um clichê que Fleischer não faz questão de evitar ou reelaborar e que ainda nos leva a reciclagem de outro clássico. Em uma cena completamente desnecessária e artificial, os personagens vão para um local praticar tiro ao alvo. Isso mesmo, com tudo que eles poderiam fazer e planejar, decidem por praticar tiro ao alvo. Fazendo uso de sua lendária habilidade com o revólver, o Oficial Max Kennard (Robert Patrick) joga uma lata para o ar e acerta-a com vários tiros antes que ela caia no chão. A cena é divertida, mas é uma pena que ela seja TÃO parecida com um dos melhores momentos do Por uns Dólares a Mais do Leone.

Gosling e Stone

Gosling e Stone

Os clichê de filmes noir seguem com o casal formado por Ryan Gosling e Emma Stone, ele um policial indiferente que junta-se a missão após ver uma criança inocente (tadinha!) ser assassinada e ela o troféu que Cohen ostenta socialmente, uma mulher que sofre por ter-se transformado em um objeto e que arrisca a vida em nome do verdadeiro amor. Seguindo a cartilha, Fleischer ainda mata um personagem bonzinho do grupo e então nos leva para o confronto final, um tiroteio que acontece em uma escadaria. Bem, não sei se o leitor realmente viu Os Intocáveis, então cabe dizer aqui que o tiroteio na escadaria é exatamente a cena mais famosa do filme, a primeira imagem que vem na cabeça quando pensamos no filme do De Palma.

Não duvido que Fleischer seja fã dos filmes que ele utiliza como referência e que, com Caça aos Gângsters, ele tenha tencionado homenageá-los. O resultado final, no entanto, soa oportunista demais e mais cansa, pela repetição, do que impressiona pelas “citações” que faz. Não há nada, nada mesmo que foi feito aqui que já não tenha sido feito antes e o desenvolvimento do personagem do Sean Penn é broxante.

Ladra, ladra, mas...

Ladra, ladra, mas…

Os Infratores (2012)

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Os InfratoresA espécie humana, de formas um tanto quanto subjetivas e inconscientes, move-se através da história impulsionada por atos que visam sua autopreservação e perpetuação. No livro Leviatã, o autor Thomas Hobbes defende a idéia de que a vida em sociedade nasceu principalmente da necessidade de garantir-se condições para essa perpetuação. Para evitarmos um cenário onde todos guerreariam contra todos, abrimos mão da liberdade total e transferimos o poder de legislação para o ser artificial chamado Estado. O contrato social imaginário que, teoricamente, todos endossamos quando estamos dentro dos limites geográficos desse estado, é materializado na forma de leis, leis que sacrificam liberdades individuais em nome do bem comum. Os conflitos entre Estado e cidadão surgem principalmente quando esse “bem comum” não existe (ou não está suficientemente claro) ou quando o cidadão não está disposto a deixar o Estado interferir em suas decisões pessoais.

Entre os anos de 1920 e 1933, os Estados Unidos adotaram a Lei Seca Total, o que significa que ficou proibido a fabricação, transporte e venda de bebidas alcoólicas no país. Dentre os motivos conhecidos, atribui-se à lei a um movimento moralizante que considerava que o alcool, além de prejudicar a saúde física e psicológica, era socialmente degradante. Como essa opinião não era compartilhada por todos, em pouco tempo estabeleceu-se um gigantesco sistema de comércio ilegal de bebidas e o crime organizado instalou-se no país. O Estado, na ocasião diretamente representado pela polícia, primeiro combateu e depois passou a participar do esquema, cobrando propina para fazer “vista grossa”. É claro que nem todos os traficantes estavam dispostos a pagar pela proteção, afinal de contas eles eram o que eram justamente pela coragem de burlar a lei. Algumas pessoas, meus amigos, não se curvam para ninguém.

Os Bondurant

Os Bondurant

Jack (Shia LaBeouf), Forrest (Tom Hardy) e Howard (Jason Clarke), os irmãos Bondurant, fazem parte de uma família sobre a qual conta-se uma lenda de imortalidade. Tendo sobrevivido a afogamentos e até mesmo a terrível gripe espanhola, os Bondurant estabaleceram-se em uma pequena cidade do estado da Virgínia apoiados por sua resputação e pelo lucrativo comércio ilegal de bebidas caseiras. Diposto a controlar o contrabando, o violento capitão Rakes (Guy Pearce) chega na cidade e inicia uma “limpeza” que inclui a taxação das atividades e a eliminação dos descontentes. Os Bondurant, #chateados, optam por enfrentar as consequências.

Recordo-me de um monólogo no filme O Curioso Caso de Benjamin Button onde o personagem do Brad Pitt dizia que havia estado em vários lugares do mundo e que, independente das diferenças geográficas e culturais, todos os povos celebravam suas alegrias e tristezas bebendo. Degradante ou não, prejudicando ou não a saúde, embriagar-se para relaxar ou para fugir momentaneamente da realidade é uma opção cuja decisão, acredito, cabe tão e somente ao cidadão. Em um dos cartazes de Os Infratores, lê-se que “quando a lei torna-se corrupta, os fora-da-lei tornam-se heróis”. No caso, inverte-se a questão do mocinho x bandido não somente pelo policial interpretado brilhantemente pelo Guy Pearce ser o diabo em pessoa, mas também porque o estado americano, contrariando a máxima “it’s a free country” pelo qual o país é conhecido, tentou retirar um direito legítimo de seus cidadãos. O crime, então, assume contornos de uma genuína revolta contra o estado.

Forrest e Jack

Forrest e Jack

Os Infratores, filme comandado pelo diretor John Hillcoat e baseado em um livro escrito por um descendente da família Bondurant (Matt Bondurant), é um desses trabalhos que romantizam e tornam convidativa a vida vivida às margens da sociedade. Bebendo, acredito, na fonte chamada O Poderoso Chefão, Hillcoat caracteriza seus personagens e conduz a história aproveitando os caminhos trilhados pelo lendário Francis Coppola. Jack, com sua vontade de ingressar nos negócio da família eclipsada apenas por sua falta de coragem e decisão, é uma mistura de Michael e Fredo. Howard, assim como Sonny, é a brutalidade aliada a falta de bom senso. Forrest, por sua vez, tal qual o Don Corleone, é o cérebro da família, o sujeito forte e inteligente que, mesmo debilitado, consegue comandar os negócios e inspirar medo nos adversários. As semelhanças não param por aí: Jack compartilha o mesmo destino do personagem do Al Pacino quando recebe uma surra de um chefe de polícia e ainda é o membro da família responsável pelo romance da história. Forrest também recria a cena das laranjas do Marlon Brando quando é surpreendido em um bar por dois bêbados. Acreditem se quiserem, o que acontece com ele é ainda mais brutal do que a saraivada de tiros recebida pelo Don.

Argh!

Argh!

Particularmente, esses paralelos com o Chefão não me incomodaram. Ao contrário do que acontece em outros filmes que baseiam-se em clássicos de seu gênero, como o recente Oblivion, Os Infratores possui uma excelente história e não depende unicamente dessas referências para sustentar-se. Tom Hardy, que vem firmando-se como um dos grandes nomes dos atores de sua geração, está nada menos do que sensacional no papel de Forrest Bondurant, um sujeito frio e calculista que não admite precisar da ajuda de ninguém mas que durante a trama acaba dependendo da frágil personagem da Jessica Chastain para sustentar uma das muitas lendas que contam sobre si. Chama atenção ainda a participação do veterano Gary Oldman como o gangster Floyd Banner, praticamente um semi-deus dentro do mundo do crime que surge diante dos olhos espantados de Jack Bondurant metralhando um carro e, principalmente, a covardia desse último, algo que, de tão real, chega a dar raiva.

Os Infratores, além de trazer referências ao maior de todos os filmes de crime já feitos, tem uma narrativa fluída, que mistura bem cenas de violência (o ataque sofrido por Forrest) e humor (Jack e o amigo usando bebidas como combustível para o carro) e, definitivamente, coloca o nome Bondurant no hall de personagens cool dos filmes de gângster. Se, assim como eu, tu não conseguiu assistir esse no cinema, recomendo que tu procure por ele o quanto antes.

You're a Bondurant, and tou lay down for everybody

You’re a Bondurant, and you lay down for everybody