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A Bela e a Fera (2017)

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Apesar dos avisos do pastor Silas Malafaia, optei por correr o risco de “virar gay” e fui conferir esta nova versão do conto de fadas francês A Bela e a Fera. No vídeo que pode ser visto clicando no link acima, Malafaia acusa a Disney de “comprar a agenda gay” e de ensinar sexualidade para o público, especialmente para as crianças. Segundo o pastor, a decisão do estúdio de incluir no filme um personagem abertamente homossexual (LeFou, interpretado pelo Josh Gad) é uma tentativa “asquerosa e nojenta” de erotizar a molecada.

Malafaia gravou o tal vídeo no dia 02/03 e, segundo o IMDB, A Bela e a Fera (e o LeFou) só estreou no Brasil no dia 16/03, ou seja, é bem provável que ele emitiu aquela opinião ANTES de ver o filme. É claro que o pastor pode ter tido acesso ao material em uma pré-estreia exclusiva, mas o que me parece é que, ciente das informações que foram divulgadas sobre o personagem antes do lançamento, Malafaia adiantou-se e convidou seus seguidores a boicotarem o produto da Disney.

Faço essas considerações pois, por mais que eu preze pelo respeito às crenças alheias, não consegui encontrar em A Bela e a Fera o conteúdo preocupante apontado pelo Malafaia. É fato que o LeFou está mais purpurinado do que seu correspondente da animação de 1991, mas daí a dizer que o filme propõe-se a erotizar crianças e ensinar-lhes sexualidade é um absurdo, o tipo de erro grotesco que geralmente é cometido por quem fala de algo que não sabe (ou não viu). Tal qual fazia anteriormente, o personagem continua beijando o chão que o Gaston (Luke Evans) pisa e cantando sua canção que enaltece as “qualidades” do valentão. Os trejeitos dele não deixam dúvidas que, se pudesse, ele beberia daquela água, mas é só. Sem beijos, sem carícias, sem nada que os pais de uma família tradicional precisem tampar os olhos dos filhos por medo deles saírem do cinema arrotando arco-íris. É, portanto, no mínimo quixotesca a preocupação do pastor com o LeFou. O fato de haver revolta contra a homossexualidade do personagem e silêncio contra o machismo e a truculência de Gaston, que continua querendo obrigar Bela (Emma Watson) a casar-se com ele para massagear-lhe os pés, diz muito a respeito das prioridades e do caráter do Malafaia.

Eu, que continuo gostando de mulheres a despeito dos esforços do simpático LeFou, também sigo apreciando musicais e acredito que dificilmente veremos algo tão bom do gênero nos cinemas esse ano quanto esse A Bela e a Fera. Conta-se que, inicialmente, a intenção da Disney era refilmar a história como um longa metragem comum, sem as músicas, ao que o diretor Bill Condon (dos dançantes Dreamgirls e Chicago) respondeu “Vocês são loucos? Pretendem fazer uma adaptação enorme e bonitona e deixar ‘Be Our Guest’ de lado?”. Que bom que deram ouvidos ao diretor: a tecnologia atual e a grandiosidade dos figurinos e dos cenários, por si só, já tornariam esta versão válida e interessante, mas é na parte musical que a história continua tocando nossos corações.

Nesse conto tão velho quanto o próprio tempo (na verdade, ele foi escrito em 1740 pela francesa Gabrielle-Suzanne Babot), Bela é uma garota entediada pela vida provinciana que a cerca. Num mundo organizado para que as maiores ambições de uma mulher sejam encontrar um marido e cuidar da casa, Bela é uma inventora apaixonada por livros que espanta todos tanto por seu jeito independente quanto por resistir aos avanços do bonitão Gaston, o solteirão mais cobiçado do vilarejo. Certo dia, Maurice (Kevin Kline), o pai de Bela, é capturado por uma fera monstruosa (Dan Stevens) e preso nas masmorras de um castelo. O crime dele? Colher uma rosa do jardim da propriedade para levar para a filha. Procurando reparar a injustiça, Bela oferece para trocar de lugar na prisão com o pai, proposta que é aceita pela Fera com a condição de que a moça nunca mais abandone o local.

Quem viu a animação sabe que a Bela e a Fera irão se apaixonar (ele pelo caráter dela, ela pela intelectualidade e coragem dele) e que isso quebrará o feitiço que havia transformado o príncipe egoísta numa criatura monstruosa. Gaston, obviamente, não ficará nada feliz em ser preterido por uma bola de pelos gigante e incitará a população do vilarejo a atacar o castelo, o que provocará uma batalha épica e divertida onde relógios (Ian McKellen), candelabros (Ewan McGregor) e bules de chá (Emma Thompson) colocarão todo mundo para correr. Condon respeitou a estrutura principal da história, mas retirou os excessos (a invenção maluca de Maurice, o velho calhorda do hospício), adicionou subtramas (a mãe e a infância de Bela) e 3 novas canções (How Does a Moment Last Forever, Days in the Sun e Evermore). Essas alterações, longe de comprometerem passagens e memórias caras aos fãs, tornaram a história mais coesa, principalmente no tocante à luz que é jogada no passado trágico da protagonista.

Ainda que conserve elementos de magia e diversão comumente associados à infância, de modo geral este A Bela e Fera está um pouco mais adulto e sombrio do que seu antecessor, tanto pela forma mais incisiva de abordar temas como o machismo (Emma Watson não economizou desprezo no olhar ao encarar o tosco Gaston) quanto pelo visual: se o Fera da animação era uma espécie de cachorrão que dava vontade de fazer um cafuné, esta nova versão, com chifres de bode e tudo mais, parece o próprio filho do cramunhão. Todo caso, cumpriu-se bem a tarefa de atualizar a história atemporal do poder da beleza interior para esta geração: as reencenações da psicodélica Be Our Guest e da apaixonante Beauty and the Beast utilizaram o que há de melhor em computação gráfica para criar um espetáculo soberbo em 3D e, no fim, o prepotente e arrogante Gaston voltou a receber o que ele merece, tal qual deve ser. Acreditem, não há o que boicotar aqui: a Disney acertou em transformar um de seus maiores clássicos em um magnífico live action e continua de parabéns por, mais do que desenvolver produtos para entreter crianças, preocupar-se em levar exemplos de diversidade e respeito às diferenças para as telas de cinema. Quero mais Mickey e menos Malafaia.

Moana: Um Mar de Aventuras (2016)

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moana-um-mar-de-aventurasMinha primeira impressão sobre o Moana não foi das melhores. Sabem aqueles vídeos educativos que são exibidos antes da sessão começar? Pois bem, o Cinépolis valeu-se dos personagens da animação para pedir silêncio para os espectadores (o que é bastante válido), mas o fez de um jeito meio bosta. “Hey, desliguem seus concha-fones!”. Concha-fone é o seu celular, entendeu? Engraçado, né? Imaginei um filme inteiro com piadas desse tipo e considerei seriamente não assisti-lo.

Mudei de opinião por 2 motivos:

  1. Moana foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Animação (perdeu para o Zootopia) e também deve concorrer ao Oscar.
  2. Os primeiros comentários sobre o filme foram animadores.

Quando digo “animadores”, não me refiro a opiniões genéricas do tipo “interessante” ou “tomara que tenha continuação”. Quem comentou sobre Moana comemorou o engajamento do roteiro, que rompe com estereótipos comuns às produções do gênero ao colocar como protagonista uma menina negra cujo maior sonho nem de longe é ser princesa. Há quem ache esse tipo de iniciativa uma bobeira, mas há também quem reconhece a importância de valorizar e celebrar as diferenças da nossa espécie através da arte. Como faço parte desse segundo grupo, comprei meu ingresso (no moderno Cinemais da cidade de Araxá-MG) e entrei no cinema ansioso para saber o que a Disney tinha a dizer sobre representatividade.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-3Antes de falar do filme, porém, vale uma salva de palmas (CLAP!) para o brasileiro Leonardo Matsuda, diretor do curta-metragem Trabalho Interno que é exibido antes de Moana. Leonardo dá características humanas para os órgãos internos de um funcionário de um escritório e promove uma divertida disputa entre o cérebro (razão) e o coração (emoção). Dividido entre a necessidade de trabalhar e a vontade de divertir-se, o sujeito passa por poucas e boas até perceber que, organizando, dá pra fazer de tudo um pouco. Além do bom conselho, o diretor também nos diz que é “ok” fazer xixi no mar e que não há problemas em encher o bucho de comida. Boa, Leonardo!

Conta-se que, no início dos tempos, havia um belo e vasto oceano. Te Fiti, deusa da vida, criou os continentes, as ilhas e os seres vivos. Tudo correu relativamente bem até o dia em que Maui (voz do Dwayne Johnson), um semideus transmorfo (ser com capacidade de assumir a forma de animais), decidiu roubar o coração de Te Fiti, o que deu início a uma maldição que atravessou gerações provocando morte e destruição. Muitos anos depois, em uma ilha do Pacífico Sul, a jovem Moana (voz da Auli’i Cravalho), membra da família real e herdeira do trono, decide fazer algo para impedir que a tal maldição castigue seu povo. Contrariando a vontade do pai, Moana atende ao chamado do oceano e parte em busca de Maui para que ele devolva o coração de Te Fiti e restabeleça a paz.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-5Para contar essa história de deuses e maldições, os diretores Ron Clements e Jon Musker (de A Pequena Sereia e Aladdin) buscaram inspiração em mitos dos povos polinésios, o que por si só é bacana por demonstrar o desejo de produzir algo fora do eixo Estados Unidos/Europa. Seria uma pena, porém, se essa iniciativa ficasse restrita a explorar os elementos que nos são exóticos da cultura oriental, mas não é isso que acontece. Lê-se no IMDB que os diretores investiram meses de pesquisas e imersão na cultura polinésia de modo que o filme fosse fiel e respeitoso àquele povo. Assim sendo, Moana mostra um paraíso terreno no qual todos nós gostaríamos de passar alguns dias de férias, mas também mostra um povo politicamente organizado, dominante de técnicas avançadas de navegação e que vive em perfeita harmonia com a natureza.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-4O fato de Moana ser negra também é importante, mas não é exatamente uma novidade na história recente da Disney. Em 2009 a empresa já havia nos dado Tiana, protagonista de A Princesa e o Sapo,  e a própria Pocahontas, do filme homônimo de 1995, era uma índia morena/negra. O que merece ser comemorado é recorrência do tema (que é intercalado pelo tradicionalismo de Enrolados/Frozen e pela diversidade étnica de Lilo & Stitch/Mulan, configurando pluralidade) e, claro, a associação dele a outras causas tão válidas quanto, como a luta pela igualdade de gêneros. Em sua aventura para devolver o coração de Te Fiti, Moana caminha sempre ao lado de Maui. Nem atrás, nem a frente: ao lado. Moana nega a condição de “princesa bonitinha com um mascote” e faz questão de contribuir e arriscar o pescoço tanto quanto Maui na perigosa missão de cruzar o oceano. Naquela que talvez seja a cena mais significativa nesse sentido, a menina pede para que o semideus ensine-a fazer um laço. Diante da recusa dele, que duvida da capacidade dela, a personagem bate o pé e afirma que ela tem condições sim de aprender e de ajudar. Moana faz o laço, ensina uma ou duas coisas para Maui e juntos, como companheiros e não como concorrentes, eles triunfam. É uma bela forma de falar sobre igualdade para crianças (e para adultos que insistem em repetir comportamentos e discursos do século passado).

moana-um-mar-de-aventuras-cena-2Moana levanta bandeiras e posiciona-se sobre assuntos que são debatidos diariamente nas redes sociais, mas isso não torna-o cansativo ou contraindicado para quem não importa-se com essas discussões e deseja apenas ver uma aventura mais tradicional, com comédia e ação. Fora as 3 grandes sequências de correria/luta (navio Krakamoa, encontro com o caranguejo Tamatoa e confronto final com Te Ka), Moana conta ainda com bons personagens de apoio (o galo zureta Hei Hei e a vó malucona/bonitinha), vários eastereggs (notei o Godzilla e a lâmpada do Aladdin) e, claro, com aquelas músicas que fazem você sair do cinema querendo cantar. Linko aqui a How Far I’ll Go, que é infinitamente melhor do que a Let it Go do Frozen, e a You’re Welcome, uma ode ao egocentrismo (Eu arrasei, eu sei, de nada!), e termino este texto com uma dica valiosa: assistam em 3D. O oceano de Moana e a cena do Tamatoa, que troca de cor no escuro num dos efeitos mais bonitos que vi recentemente em uma animação, valem cada centavo pago pelo recurso.

Rogue One: Uma História Star Wars (2016)

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rogue-one-uma-historia-star-warsEste texto conterá SPOILERS e uma história sobre como o Cinépolis Uberlândia-MG me ferrou.

Eu dormi assistindo Rogue One. Por mais triste que seja, esta é a realidade e eu não pretendo fugir dela. Acredito que, após ler o próximo parágrafo, vocês acabarão entendendo que eu fui vítima de uma armação do capiroto, mas isso não diminui a minha vergonha por ter cochilado na estreia do melhor filme do ano.

Comprei ingressos para a pré-estreia de Rogue One: Uma História Star Wars com cerca de uma semana de antecedência. Na máquina de autoatendimento do Cinépolis, a sessão estava marcada para as 00:01 do dia 16/12, ou seja, madrugada de quinta para sexta-feira. Grande foi a minha surpresa quando, na quarta (14/12), eu vi um monte de gente comentando que havia chegado o dia de assistir o filme. Eu tinha CERTEZA que eu havia comprado ingresso para a PRIMEIRA sessão, e essa sessão DEFINITIVAMENTE não era na quarta. Preocupado, pedi para que a minha esposa fosse até o cinema confirmar a data da estreia e foi aí que o problema revelou-se em toda sua magnitude: o Cinépolis havia me vendido ingressos para uma sessão que não existia. Como solução, eles me deram cortesias para ver o filme naquele mesmo dia, na quarta, as 00:01.

Eu sei que esta história já está ficando longa demais, então vou resumir o que aconteceu. Caras, eu não estava NENHUM pouco preparado para ver o filme aquele dia. Eu havia trabalho dois turnos e estava morrendo de cansaço, de modo que a empolgação por estar diante de um novo Star Wars me deu forças para ver apenas os 30min iniciais do filme. Depois disso, eu cochilei pra valer. A sessão passou, fui ao banheiro, lavei o rosto e voltei para ver o final, mas basicamente foi isso que eu aproveitei: o início e o fim. Eu fiquei muito mal com isso. Pode parecer bobagem, mas senti que desrespeitei a saga. Maldito seja você, Cinépolis, por essa confusão dos infernos!

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-6No outro dia, tão logo acordei, consultei a grade de programação do GLORIOSO Cinemark, escolhi um horário, comprei um energético para garantir (rs) e entrei numa sala de cinema pela segunda vez em menos de 24 horas para ver Rogue One. Novamente, fui traído pelos meus olhos, mas dessa vez a dificuldade foi conter as lágrimas diante de um filme que não apenas confirmou o quão infinitas são as possibilidades de exploração do universo Star Wars quanto presenteou os fãs de longa data da franquia com a encenação de uma história fantástica e cheia de referências sobre o poder da Força e da resistência.

Cronologicamente, os eventos mostrados em Rogue One localizam-se entre A Vingança de Sith (Episódio 3) e Uma Nova Esperança (Episódio 4). Derrotados, os últimos Jedis partiram para o exílio e viram o Imperador Palpatine e seu aprendiz Darth Vader (James Earl Jones) derrubarem a República e estenderem a sombra do Império Galático por todo o universo. Para combater a resistência da Aliança Rebelde, o Império constrói a terrível Estrela da Morte, a arma definitiva capaz de destruir planetas inteiros com apenas um disparo. O início do Uma Nova Esperança mostrava como a Princesa Leia recebeu o plano de construção da Estrela da Morte e usou-o para dar início à derrocada do Império. Em Rogue One, o diretor Gareth Edwards (do ótimo remake do Godzilla) nos conta como esse plano foi descoberto e roubado pelos rebeldes em uma missão corajosa.

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-2Me parece que o anúncio do Rogue One despertou menos curiosidade e empolgação do que o do O Despertar da Força. Isso pode ser associado ao tempo que separa os lançamentos (do Episódio 3 até o 7 passaram-se 10 anos, e agora voltamos ao cinema apenas um ano depois para ver outro filme da série), mas também acredito que muita gente não confiou no potencial da trama. Não raramente, spin offs (obras derivadas de outras obras) como o Rogue One são vistos como meros caça-níqueis, produtos de qualidade inferior ao original pensados para gerar lucro, e a ideia de que poderiam dar este tratamento desrespeitoso para algo relacionado a franquia Star Wars não era lá das mais animadoras (o The Clone Wars de 2008, por exemplo, beirou o fiasco). Nesse sentido, Rogue One tem tudo para transformar-se um divisor de águas para os spin offs: ele não é apenas um derivado, ele é TÃO BOM QUANTO alguns dos filmes originais (pra mim, tá pau a pau com O Retorno de Jedi) e aumenta significativamente a expectativa para os futuros projetos da franquia (Episódio 8 em 2017, Han Solo em 2018).

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-5Como esperado, Rogue One apoia-se bastante na nostalgia, recriando cenas conhecidas do público e fazendo links e referências à outros filmes da série, mas ele também possui muito material original para ser amado por seus próprios méritos, a começar pelos personagens principais e suas motivações. Jyn Erso (Felicity Jones) e Cassian Andor (Diego Luna), uma criminosa e um líder da Aliança, não tem a mesma força, habilidade ou convicções morais de heróis como Obi-Wan e Mestre Yoda. Eles são pessoas comuns, com defeitos e qualidades (o que dá um tom mais cinza e adulto para o filme), que lutam como podem contra o domínio do Império. A beleza do roteiro de Rogue One está em desconstruir a figura do herói clássico (o exército de um homem só cheio de virtudes que enfrenta sozinho uma grande dificuldade) e mostrar a importância que ações individuais, ainda que pequenas, tem para os grandes feitos e realizações. Não fossem os sacrifícios de Jyn, Cassian e de outras centenas de desconhecidos, por exemplo, provavelmente o Luke não teria conseguido disparar o tiro que detonou a Estrela da Morte. Cada ação conta, mas nem por isso a trama deixa de criticar o extremismo, mesmo que veladamente. Notem a oposição que é feita entre a paranoia do líder Saw Gerrera (Forest Whitaker), um homem de métodos violentos, com a resiliência e a frieza do Galen Erso (Mads Mikkelsen), o cientista que é submetido à tirania do Diretor Orson Krennic (Ben Mendelsohn).

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-4A luta contra o Império vista em Rogue One é colorida por elementos que conhecemos e amamos, dentre os quais destaco:

  • As batalhas grandiosas envolvendo X-Wings, AT-ATs, Tie Fighers e Stormtroopers (que melhoraram consideravelmente para atirar rs), a Estrela da Morte sendo acionada duas vezes (é assustador vê-la surgir no horizonte antes dos disparos) e as cenas furtivas de sabotagem, resgate e roubo de dados.
  • O robô autista K-S2O, que preenche o espaço deixado pelo R2-D2 e pelo C-3PO (que aparecem em uma cena rápida) e é o responsável pelas melhores piadas do filme.
  • A base rebelde de Yavin IV, um dos cenários mais legais do Uma Nova Esperança, que é recriada com perfeição. Ver as X-Wings decolando de lá pilotadas por personagens antigos, como o Líder Vermelho e o Líder Dourado é algo inexplicável. É ali que também está um dos links mais diretos com o Episódio 3: Bail Organa (Jimmy Smits) pode ser visto entre os rebeldes.

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-3Ainda sobre a nostalgia, é óbvio que o ponto alto de Rogue One é a participação do Darth Vader. O personagem, que talvez seja o vilão mais icônico de todos os tempos, aparece em cenas curtas mas absurdamente fantásticas. Tem estrangulamento pela força, tem sombra do capacete projetada na parede, tem tanque de recuperação e, claro, tem a invasão da nave da Princesa Leia. Meus amigos, QUE CENA DO CARALHO! Naturalmente, a gente torce pela Aliança, mas é impossível ser politicamente correto quando o Wader saca o sabre de luz e começa a detonar os rebeldes. Nesta cena, recriação do início do Uma Nova Esperança, o Gareth Edwards vale-se de suas experiências anteriores em filmes de terror e apresenta uma sequência tenebrosa em que um monte de soldados caem diante o avanço implacável do Wader. Em seguida, a Leia (criada digitalmente, numa das maiores surpresas da trama) aparece e enche o coração de todo mundo de esperança, mas a real é que quando os créditos surgem a gente ainda está meio atordoado por ter presenciado uma das maiores carnificinas de toda a série. Hail, Disney!

rogue-one-uma-historia-star-wars-cenaPra finalizar, há a cena em que o Chirrut (Donnie Yen), um monge cego, marcha através de uma zona de guerra para pressionar uma alavanca. O universo tornou-se um lugar sombrio após os Jedis terem sido derrotados, mas nem por isso Chirrut deixou de acreditar no poder da Força. Inicialmente, o mantra que ele entoa (I’m one with the Force, and the Force is with me) é usado em cenas cômicas, mas aí o personagem demonstra todo o poder de sua fé ao avançar contra os temíveis Death Troopers e faz a gente dar aquele nó na garganta. Pra mim, esta cena junta-se a queda do Han Solo no Despertar da Força e ao “Você era meu irmão, Anakin” do A Vingança dos Sith como um dos momentos mais tristes e emocionantes da série. Lá no começo do texto eu disse que chorei vendo Rogue One e foi exatamente nesta cena que as lágrimas caíram. Não é só um filme, não é só um personagem: é Star Wars ❤

Eu já paguei 2 vezes para ver Rogue One: Uma História Star Wars e certamente pagarei uma terceira. É lógico que não verei no Cinépolis, que além de tudo o que foi falado ainda está vendendo um combo caro (53 reais) contendo um balde de plástico vagabundo no formato da Estrela da Morte. Verei no Cinemark, e verei com a mesma empolgação porque, num ano de ótimos blockbusters, Rogue One foi o melhor disparado. Que venha o Episódio 8 e que a Força esteja com vocês!

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Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016)

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animais-fantasticos-e-onde-vivem Nos 2 meses que antecederam a estreia de Animais Fantásticos e Onde Habitam, revi todos os 8 filmes da série Harry Potter. Não me considero um fã hardcore da franquia (nunca li nada escrito pela J. K. Rowling), mas eu queria relembrar a trama visto que, conforme anunciaram, este lançamento seria ambientado no mesmo universo de bruxos e magia em que Harry e Voldemort duelaram.

Completada a maratona (o As Relíquias da Morte – Parte 1 continua sendo um dos meus soníferos favoritos), acessei o site do cinema para comprar ingressos para a pré-estreia, que ocorreria numa sessão durante a madrugada. Foi aí que as coisas começaram a dar errado. Tal qual um velho gaga, eu confundi a data da sessão e, por muito pouco, não gastei dinheiro à toa e perdi a viagem até o shopping. Fiquei meio chateado com isso. Antigamente, eu não costumava fazer esse tipo de confusão.

Todo caso, escolhi uma data posterior, comprei os ingressos e, chegado o dia, saí de casa 1h30min antes do horário marcado para o início da sessão. Foi aí que começou a chover. Detalhe: eu estava de moto. No prazo de uns 3 minutos, eu e minha esposa ficamos completamente encharcados e, para não piorar a situação, entramos no estacionamento de um supermercado com a esperança de que a chuva parasse. Cerca de uma hora depois, ainda molhados e morrendo de frio, decidimos voltar para casa. Fim da história? Não para um homem determinado! Observando que a chuva estava parando, resolvi deixar toda a minha dignidade de lado e ir ao cinema daquele jeito mesmo, todo zoado. Para não perder os ingressos, atravessei a cidade acelerado e entrei na sala do cinema, minutos antes dos trailers começarem, com o tênis fazendo *plec plec* e a roupa pingando água. Foi uma experiência horrorosa e eu teria ficado muito puto se, depois de todo esses infortúnios, o filme fosse ruim. Felizmente, porém, não foi o caso: Animais Fantásticos e Onde Habitam é um ótimo início de franquia (já anunciaram mais 4 sequências rs) e sua dinâmica, que mistura piadas, cenas de ação grandiosas e referências aos longas anteriores, foi boa o suficiente para me fez esquecer que eu estava molhado dentro de uma sala de cinema com ar condicionado rs

animais-fantasticos-e-onde-vivem-cena-3Ambientada nos Estados Unidos do início do século passado, a história conta como o bruxo inglês Newt Scamander (Eddie Redmayne) chegou em Nova York levando uma mala mágica repleta de criaturas extraordinárias. Devido a uma confusão envolvendo o simpático padeiro Kowalski (Dan Fogler), algumas dessas criaturas escapam e Newt precisa recuperá-las antes que elas denunciem para os trouxas (ou No-Maj) a existência da comunidade de bruxos norte americana.

Em sua aventura, Newt recebe ajuda de Tina (Katherine Waterston), uma Auror do Congresso Mágico dos EUA, e acaba envolvendo-se em uma trama muito mais séria e sombria do que a fuga dos animais que ele trazia em sua mala: Gellert Grindelwald, um terrível feiticeiro negro, pode ter refugiado-se em território americano após espalhar o pânico no continente europeu.

animais-fantasticos-e-onde-vivem-cena-4Em Animais Fantásticos e Onde Habitam, o diretor David Yates (que também dirigiu os últimos 4 filmes da saga Harry Potter) cumpre muitíssimo bem a delicada tarefa de resgatar o interesse do público por uma das franquias mais amadas da história recente do cinema (vale lembrar que já passaram-se 5 anos desde As Relíquias da Morte – Parte 2), e o faz principalmente através da manipulação de alguns elementos que já haviam sido testados e aprovados anteriormente. Fora o fato de, essencialmente, Newt, Tina e Kowalski serem reedições mais maduras de Harry, Hermione e Rony, não passam despercebidas as semelhanças entre Graves (Colin Farrell) e o Professor Snape (dois personagens poderosos envoltos em algum tipo de mistério), bem como o mecanismo do roteiro que, tal qual o da Pedra Filosofal, prepara o terreno para a chegada de um terrível inimigo nos longas posteriores. Essas paridades, que vem acompanhadas de citações à personagens conhecidos (Dumbledore e Bellatrix Lestrange) e do uso de seres e encantamentos próprios da série, imprimem à trama uma necessária e aconchegante sensação de familiaridade.

FANTASTIC BEASTS AND WHERE TO FIND THEMPara si, estava nova incursão no universo criado pela escritora J. K. Rowling pode reivindicar uma mistura de gêneros mais coesa do que havia sido feita na série anterior. Animais Fantásticos e Onde Habitam equilibra satisfatoriamente cenas de ação, aventura, comédia, romance e drama, oferecendo uma gama variada de sentimentos ao longo de suas pouco mais de 2 horas. Se a correria e as espetaculares batalhas de magia fazem valer à pena investir num ingresso mais caro para assistir em 3D, o romance entre Kowalski e Queenie (Alison Sudol, que é a cara do Redmayne no A Garota Dinamarquesa rs) e o tema do preconceito/tolerância trabalhado no núcleo da Família Barebone atendem as necessidades de quem procura um filme mais intimista. Se você, por outro lado, está se sentindo velho e/ou teve um péssimo dia correndo de moto sob um temporal, desafio-lhe a continuar mal-humorado após ver o simpático Niffler coletando todo e qualquer objeto brilhante que ele encontra pela frente. É de rir alto, igual criança feliz.

Tomando por base esse incrível debute, acredito que Animais Fantásticos e Onde Habitam tem tudo para ser lembrado como o início de mais uma franquia de sucesso, fornecendo para os fãs de fantasia toda a emoção que a adaptação do O Hobbit, por exemplo, prometeu e não cumpriu (por mais difícil que seja, é necessário reconhecer que A Batalha dos Cinco Exércitos foi um fiasco). A julgar pela revelação bombástica do final, a sequência, que está programada para 2018, será um filmão.

FANTASTIC BEASTS AND WHERE TO FIND THEM

Doutor Estranho (2016)

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doutor-estranho2016 foi um ano de reafirmação para a Marvel. Por mais que, desde 2008, a empresa tenha feito a alegria da comunidade nerd com os muitos lançamentos do MCU (Marvel Cinematic Universe ou Universo Cinematográfico Marvel), a verdade é que a abordagem mais psicológica (e ruim) do Homem de Ferro 3, bem como as recepções mornas do público a grandes apostas do estúdio (como Vingadores: Era de Ultron e Homem-Formiga) fizeram com que muita gente questionasse se a fórmula dos filmes de super-heróis não havia se esgotado.

A resposta da Marvel foi rápida e eficaz. Primeiro, a empresa nos deu o ótimo Guerra Civil, produção que não só mostrou sua superioridade em relação à DC, sua concorrente direta, quanto resgatou o querido Homem Aranha das garras da Sony (isso sem falar na apresentação pra lá de promissora do Pantera Negra). Agora, com o lançamento do Doutor Estranho, ela mostra que é possível expandir a fórmula do MCU (cenas de ação fantásticas e muito humor) conciliando-a com a atuação de um dos maiores atores da atualidade e com um visual soberbo e conceitual.

Dr. Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um respeitado neurocirurgião que entra em desespero após perder sua capacidade de operar devido a um acidente de carro que esmaga suas mãos. Strange passa por uma série de procedimentos cirúrgicos para tentar restabelecer suas habilidades mas, como não obtém sucesso em nenhum deles, acaba viajando para a Ásia atrás de uma promessa de cura que, disseram-lhe, poderia ser encontrada em um antigo e misterioso monastério. É então que, sob a tutela do Ancião (Tilda Swinton), Strange aprende os segredos da magia e vê-se repentinamente no meio de uma batalha milenar contra Dormammu, entidade ancestral que planeja anexar a Terra aos seus domínios.

doutor-estranho-cena-3Aproveitei o feriado de finados para assistir Doutor Estranho na pré-estreia, algo que eu não fazia desde o começo do ano. Comprei o combo de bugigangas do Cinépolis (balde de pipoca personalizado + chaveiro do Olho de Agamotto) e sentei na poltrona horrorosa do cinema as 00:15 (dia 01 para 02) impressionado com a quantidade de pessoas que resolveram fazer o mesmo. Considerando que trata-se de um “filme de origem”, desses que apresentam o personagem e sua história, e que o Doutro Estranho não é lá um dos heróis mais conhecidos da Marvel (não tanto como o Hulk ou o Thor, por exemplo), a sala estava bem cheia. Para alegria geral, o que foi mostrado na tela fez valer a pena passar parte da madrugada acordado.

De cara, me chamou a atenção o fato da Marvel ter mudado a apresentação do logo da empresa. Sabe aquela sequência onde são exibidos algumas páginas das HQ’s antes que a palavra “MARVEL” surja? Colocaram no lugar uma sucessão de pequenos clipes das versões cinematográficas dos heróis retirados dos filmes anteriores. Ao meu ver, esta alteração (que ficou bem legal) é um sinal positivo de que a empresa tem consciência e orgulho da solidez do material que ela produziu ao longo dos últimos 8 anos. “O MCU deu certo e está na hora de elevá-lo a um novo patamar”, eis o recado.

doutor-estranho-cenaAcabou, portanto, aquele tempo em que falar de universos paralelos, magias e entidades ancestrais era algo arriscado. O começo de Doutor Estranho é frenético e diferente de tudo aquilo que havíamos visto no MCU até agora. O vilão Kaecilius (Mads Mikkelsen), um dos seguidores de Dormammu, rouba a página de um livro de magias proibidas e o Ancião utiliza seus poderes para impedi-lo. Fora a pancadaria tradicional, que é muitíssimo bem coreografada pelo diretor Scott Derrickson (um cara que fez o nome no gênero de terror com títulos como O Exorcismo de Emily Rose e A Entidade), salta aos olhos os efeitos especiais utilizados na alteração da realidade física dos ambientes provocadas pelas habilidades dos personagens. Peguem os melhores e mais insanos momentos do conceitual A Origem, adicionem algumas magias que são conjuradas em meio a uma infinidade de runas e deem a tudo isso a profundidade de um 3D pelo qual vale a pena pagar: eis a receita que fará tua mente explodir nos primeiros minutos do filme.

doutor-estranho-cena-5A calmaria que se segue, momento onde o Doutor Stephen Strange é apresentado em seu local de trabalho antes do acidente que levaria-o para o olho do furacão, é o tipo de cena que tinha tudo para ser banal devido a previsibilidade do conteúdo. Um sujeito, que conhece uma garota legal (Rachel McAdams), passa por alguns problemas, ganha habilidades, treina e enfrenta uma grande ameaça: com uma ou outra variação, eis o resumo do “filme de origem”, e é a sétima vez que vemos isso dentro do MCU. Doutor Estranho não foge muito deste esquema, mas o talento do Benedict Cumberbatch revigora a fórmula e torna a parte de drama do roteiro tão interessantes quanto as cenas de ação. Com sua voz dracônica, o ator brilha em diálogos repletos de arrogância e citações à cultura pop (atenção à referência ao Máquina de Guerra) e os ensinamentos que ele aprende, principalmente nos diálogos com o Ancião (Não é sobre você, Strange), são o tipo de coisa que dá para levar para fora da sala do cinema.

doutor-estranho-cena-2Doutor Estranho tem seus problemas. As cenas do treinamento, aquelas onde o herói desenvolve suas habilidades com Mordo (Chiwetel Ejiofor), poderiam durar mais. A edição sugere passagens de tempo e o fato do Strange ser muito inteligente pode até justificar a rapidez com que ele domina algumas técnicas, mas ainda assim fiquei com a impressão de que o cara já estava preparado demais quando enfrentou o Kaecilius pela primeira vez. Não ficou natural eles lutando de igual para igual. Também achei que poderiam ter caprichado mais no clímax do filme, velha pedra no sapato da Marvel (desta vez, o conflito é mais ‘cerebral’, por assim dizer, do que físico), e nas piadas. Beyoncé, Adele e Eminem? Haha. Senha de Wi-fi? Nem Esbocei.

doutor-estranho-cena-4Feitas essas considerações, digo que o saldo de Doutor Estranho é MUITO positivo. A caracterização do personagem (Olho de Agamotto + Capa de Levitação + cavanhaque do Cumberbatch) também deve ser citada como ponto alto da produção (aprende, Fox) e o espetáculo visual criado pelo diretor Scott Derrickson, principalmente na cena de abertura e quando o Strange conhece o “multiverso”, é o tipo de coisa que faz a gente ter certeza que valeu a pena comprar um ingresso e ir ao cinema (já há quem diga, aliás, que os efeitos especiais do filme são tão bons que não será surpresa se eles renderem para a Marvel seu primeiro Oscar).

Doutro Estranho é mais de um mesmo que a gente aprendeu a amar. A Marvel continua de parabéns por respeitar o desenvolvimento de seus personagens (aprende, DC) e por conseguir corrigir seus erros e criar novos atrativos dentro da fórmula que ela mesmo desenvolveu. Fica agora a expectativa para sabermos como o Doutor Estranho irá interagir com os Vingadores (um das duas cenas pós-crédito dá uma dica) e como os eventos desse filme afetarão as outras produções do MCU.

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Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (2016)

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Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois MundosAdentrei os sombrios corredores da minha memória e concluí, com muito pesar, que passaram-se cerca de 10 anos desde a última vez que joguei Warcraft. Não cheguei a explorar o vasto mundo do World of Warcraft (WoW), mas virei muitas madrugadas dos meus 20 e poucos anos comandando a Priestess of the Moon no modo campanha do The Frozen Throne e despachei um monte de adversários com o Assassinate do Kardel Sharpeye no Defense of the Ancients, mais conhecido como DotA. Parei de jogar por falta de tempo e pela conhecida falta de educação dos jogadores brasileiros, que costumeiramente transformavam as partidas online em verdadeiros festivais de ofensas gratuitas, coisas impossíveis de tolerar quando você já passou dos 15 anos e paga as próprias contas.

O fato é que, como já fazia bastante tempo que eu não entrava no reino de Azeroth, mundo fictício do Warcraft, acreditei que eu conseguiria assistir e comentar a adaptação do jogo para o cinema livre de qualquer tipo de nostalgia. Bobinho! Tão logo o símbolo da Blizzard apareceu na tela, tive duas certezas:

  1. Eu preciso reinstalar o jogo e terminar a campanha dos Night Elves.
  2. Não dá para ser racional com esse tipo de material. Warriors of the Night, Assemble! rs

Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos conta como os orcs, liderados pelo poderoso Gul’Dan (Daniel Wu), utilizaram um portal para abandonar seu mundo decadente e invadir o reino de Azeroth.

Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois Mundos - Cena“Quer dizer então que trata-se da clássica história homens (bem) x orcs (mal)?” Sim e não. De fato, as duas raças mais clássicas do jogo encontram-se e lutam uma contra a outra, mas o diretor e roteirista Duncan Jones esforçou-se ao máximo para nos mostrar os dois lados da história. Assim sendo, acompanhamos não um, mas dois protagonistas que, cada um a sua maneira, lutam para proteger sua raça, família e amigos: Lothar (Travis Fimmel), herói e comandante dos humanos, e Durotan (Toby Kebbell), líder do clã orc Lobos de Gelo. Lutando ao lado deles, estão personagens igualmente interessantes e multilaterais: Medivh (David Guetta Ben Foster), o Guardião, é um mago que vê-se tentado pelo poder da Vileza, magia nefasta usada por Gul’dan, e Garona (Paula Patton) é uma orquisa que, capturada pelos humanos, descobre ter mais afinidades com o inimigo do que com os seus semelhantes. De todos os muitos elogios que O Primeiro Encontro de Dois Mundos merece, o que faço com mais prazer é esse para o roteiro: vi uma história que evita simplificações narrativas, que tem personagens balanceados e que confia no próprio taco para ser o início de uma franquia, visto que o final prepara o terreno para novas aventuras. Na boa? O roteiro de Warcraft é melhor e mais surpreendente do que os de muitos dramas “sérios” por aí (esperem até vocês verem todas as reviravoltas das últimas cenas).

Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois Mundos - Cena 3Celebro também a coragem dos produtores de transporem para a tela o visual fantástico dos games. A impressão que fica é a de que Duncan Jones e sua equipe fizeram um filme pensando exclusivamente nos fãs, de modo que as escolhas visuais procuram reproduzir fielmente o mundo de Azeroth e sua mitologia. Colocando de outra forma, não há em Warcraft aquelas alterações estéticas que procuram deixar os personagens mais acessíveis para o público leigo (como acontece, por exemplo, na franquia dos X-Men): aqui, os orcs são feios, sujos e brutais, os magos conjuram suas magias envoltos em runas e seres fantásticos como os grifos caminham naturalmente entre os humanos, tal qual deve ser. Detalhes como o acabamento primoroso das armas e a personalização de cada uma das armaduras também chamam a atenção e revelam a preocupação dos produtores em agradar o público que conhece os muitos itens do jogo. Finalmente, o esmero estende-se até os efeitos especiais incríveis, que aliados ao bom 3D nos fazem acreditar em seres espetaculares como um golem gigante, e às referências/easter eggs, que vão desde citações de personagens conhecidos (Go’el) até a inclusão cuidadosa de alguns deles em cenas diveras, como quando Lothar cruza uma ponte e, no cantinho da tela, vemos um daqueles NPC’s anfíbios que usam um tridente do início do jogo.

Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois Mundos - Cena 4Com o roteiro e o visual certo, não seria na ação que Warcraft decepcionaria. Duncan filmou lutas mano-a-mano (a pancadaria entre Durotan e Gul’dan é desgraçada de boa), emboscadas em florestas e em perigosos desfiladeiros, disputas de magias poderosíssimas entre magos e, claro, as emocionantes e tradicionais batalhas campais que ditam o ritmo do modo campanha dos jogos. Há sangue, decapitações e toda série de mortes violentas e realistas, mas também há aquele maravilhoso plano geral (que nos permite olhar a ação de cima, tal qual se estivéssemos em casa vendo a tela do PC) que mostra o acampamento dos orcs, com todas suas construções típicas.

Gostei tanto de Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos que, hoje mesmo, já cumpri o que disse no começo dessa resenha (instalei o The Frozen Throne e joguei uma partida de DotA com o Kardel). Precisa dizer mais? Palmas para a Blizzard que, mais do que uma simples adaptação de um jogo para o formato cinematográfico, fez um épico de fantasia maiúsculo.

Warcraft - O Primeiro Encontro de Dois Mundos - Cena 2

Alice Através do Espelho (2016)

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Alice Através do EspelhoÉ estranho que esse Alice Através do Espelho tenha demorado tanto para sair. Continuação direta do blockbuster Alice no País das Maravilhas, filme que ultrapassou a marca de 1 bilhão de dólares na bilheteria, essa nova adaptação do mundo concebido pelo doidão Lewis Carroll sai incríveis 6 anos depois do longa do Tim Burton.

Essa demora é curiosa porque, além de ter sido aprovado pelo público, o sucesso do primeiro Alice gerou uma espécie de “mini-gênero” em Hollywood que consiste em readaptar clássicos infantis em grandes produções repletas de efeitos especiais (Branca de Neve e o Caçador, Jack, o Caçador de Gigantes, Caminho da Floresta), ou seja, o cenário sempre foi favorável para que houvesse um segundo filme.

Estranho a demora, mas não posso dizer que eu estava ansioso por esse lançamento. Fiquei bastante decepcionado com o Alice no País das Maravilhas. Revi ele antes de ir ao cinema assistir esta sequência apenas para confirmar a impressão que tive na época: quando analisada atém do incrível e inquestionável espetáculo visual, a adaptação do Tim Burton é “certinha demais”, “Disney demais”, e o foco no Chapeleiro do Johnny Depp desagradou.

Comprei o ingresso esperando pouco e, até a metade da projeção, fiquei entediado por ver o diretor James Bobin (que sobrenome!) repetir cada um dos equívocos cometidos pelo Burton no filme anterior: novamente, os efeitos especiais sobrepõe a insanidade do conteúdo fantástico imaginado pelo Carroll. No fim, mesmo que Alice Através do Espelho termine de forma emocionante e bonitinha, a impressão que fica é que desperdiçaram outra chance de fazer algo realmente legal sobre o País das Maravilhas.

O filme anterior terminava mostrando Alice (Mia Wasikowska) decidindo navegar pelo mundo a bordo do barco do pai. Aqui, no início, vemos a personagem retornando dessa viagem. Atacada por navios inimigos, ela comanda a tripulação através de uma terrível tempestade e consegue chegar no porto inglês graças ao seu talento e capacidade de acreditar e realizar o impossível. Em terra firme, Alice descobre que seu antigo pretendente armou para tirar-lhe o barco e, enquanto pensa no que fazer a respeito, ela acaba retornando para o País das Maravilhas após atravessar um antigo espelho de uma mansão. Lá, ela encontra velhos conhecidos, como o Coelho Branco e o Gato de Cheshire, e descobre que o Chapeleiro (Depp) está deprimido devido a um episódio do passado envolvendo sua família. Para ajudá-lo, Alice precisará encontrar um artefato chamado Giro Esfera, retornar no tempo e tentar mudar o passado.

Antes de mais nada, vale uma observação: pesquisei um pouco antes de escrever a resenha e, pelo que li, essa história aí não tem praticamente nada a ver com a obra homônima escrita pelo Carroll. No livro, Alice precisa vencer uma série de desafios, que são apresentados em forma de um jogo de xadrez, para tornar-se rainha. Aqui, ela embrenha-se através dos corredores do passado para salvar a alegria do Chapeleiro. Pessoalmente, visto que não li o livro, essas alterações não me incomodaram tanto durante a sessão, mas não deixa de ser irritante pensar que, novamente, resolveram investir no Chapeleiro (que, pelo menos naquela animação da Disney de 1951, nem é lá um GRANDE personagem) em detrimento da história original.

Alice Através do Espelho - Cena 2Quando eu disse que o Bobin (rs) repete os mesmos erros do Burton, eu estava me referindo principalmente a estrutura e aos diálogos do filme. Alice Através do Espelho, tal qual o seu antecessor, começa mostrando Alice em um ambiente aristocrático pouco interessante (a pincelada sobre feminismo não é levada adiante), leva-a através de uma jornada visualmente estonteante (o 3D está muito bom) e termina em um final mega feliz onde a personagem aprende uma lição. Infelizmente, o nonsense não é valorizado. Aqueles diálogos loucos, rápidos e repletos de referências que escapam ao senso comum, grande trunfo do Carroll, aparecem aqui e ali, mas não são eles que ditam o ritmo da narrativa. Para contar uma história deveras convencional (aventurar-se no desconhecido para ajudar um amigo), Através do Espelho opta por simplificar o discurso e focar no visual. Bobin seguiu direitinho a cartilha timburtiana e, tal qual aconteceu no Alice no País das Maravilhas, entregou um daqueles filmes de “encher os olhos”, mas nem mesmo cenários esplendorosos como aquele do interior do relógio conseguem suprir a superficialidade do roteiro. Bobin, Bobin…

Alice Através do Espelho - CenaCom o Depp burocrático, fazendo as mesmas caras e bocas, e Anne Hathaway perdidíssima, sobra para a Helena Bonham Carter o papel de introduzir um pouco de loucura na trama com a sua Rainha de Copas. A gritaria e a imperatividade da personagem continuam bastante divertidas e é legal que o roteiro dedique espaço para contar o passado dela, revelando, por exemplo, como ela adquiriu aquela cabeçona ridícula. Outro que está bem é o Sacha Baron Cohen, que interpreta o Tempo, um cara para o qual a gente torce o nariz no começo mas que acaba sendo fundamental para que o conteúdo emocional do filme exploda no final.

Com um roteiro raso e uma tonelada de efeitos especiais, Alice Através do Espelho revelou-se apenas mais uma produção esquecível voltada para um público pouco exigente. A sessão, com seus altos e baixos, não chega a ser maçante, mas vislumbrar tudo o que poderia ter sido feito a partir de um material tão rico e inconvencional me fazem acreditar que, novamente, a Disney errou feio a mão.

Alice Através do Espelho - Cena 4