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A Qualquer Custo (2016)

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a-qualquer-custoA Qualquer Custo, produção do diretor David Mackenzie cotada para figurar entre os concorrentes ao Globo de Ouro/Oscar de 2017, retrata sentimentos e problemas contemporâneos dos norte americanos que nós, brasileiros, não deveremos ter muitas dificuldades para identificar e estabelecer paralelos com nossa própria realidade.

Vive-se no país um período de desilusão política provocado por denúncias diárias de corrupção. Tanto os partidos de esquerda quanto os de direita tiveram alguns de seus principais líderes presos e/ou denunciados em esquemas de recebimento de propina e de desvio de verba, de modo que a desconfiança da população nas instituições públicas está cada vez maior. Nesse cenário de apatia onde reina a sensação de que “todos políticos são iguais (ladõres)”, a tendência é que líderes com discursos extremos e nacionalistas despontem como opção à democracia fragilizada. Salvas as devidas proporções, foi isso que aconteceu na Itália e na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e é isso que tanto explica o resultado da última eleição presidencial dos Estados Unidos quanto desenha um futuro sombrio para o Brasil em 2018.

No caso específico dos EUA, o desencantamento político ainda vem acompanhado pela crise do liberalismo enquanto sistema econômico. Entre outras coisas, Donald Trump ganhou porque conseguiu falar direto no coração daqueles americanos que, desde 2008, amargam a recessão econômica provocada pelas especulações no mercado imobiliário (tema que é trabalhado neste filme aqui). Trump propôs medidas protecionistas e nacionalistas (rever acordos internacionais, taxar importações, expulsar imigrantes ilegais do país) e mostrou-se disposto a enfrentar o poderio de Wall Street para proteger os trabalhadores. Trump falou o que os americanos desiludidos com o governo democrata queriam ouvir, e nisso o fato de ele ser um bilionário xenófobo, misógino e homofóbico acabou não importando muito. Para salvarem seus próprios pescoços, os eleitores mostraram-se dispostos a pagar qualquer preço, e é sobre esse tipo de guinada radical que A Qualquer Custo trata.

a-qualquer-custo-cena-4Os irmãos Toby (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster) estão assaltando bancos em cidadezinhas do interior do estado do Texas. O esquema é simples: eles entram nas agências armados e usando capuzes, anunciam o assalto, rendem os funcionários, limpam os caixas e os cofres e depois fogem em um carro levando o dinheiro. Para prendê-los, a polícia designa os oficiais Marcus (Jeff Bridges) e Alberto (Gil Birmingham). Marcus está prestes a aposentar-se e quer levar os assaltantes à justiça para coroar sua longa carreira, mas de alguma forma ele não consegue deixar de ficar intrigado pelo padrão dos crimes que está investigando: além das ações de Toby e Tanner restringem-se a apenas uma rede bancária, eles não saem das agências levando quantias significativas de dinheiro. Por que alguém arriscaria a ser preso por tão pouco?

Essencialmente, o filme do diretor David Mackenzie fala de um cidadão que decidiu chutar o pau da barraca e usar o sistema contra o próprio sistema para resolver os problemas provocados pela crise econômica. Toby está na merda. Sem estudo e profissão, ele separou-se da mulher e perdeu a mãe, da qual ele herdou apenas um rancho no meio do nada. O terreno pode até ser explorado (há jazidas de petróleo no subsolo), mas o banco ameaça tomá-lo caso o pagamento de uma hipoteca não seja executado. Sem muito o que fazer, Toby convence seu irmão a ajudá-lo em alguns assaltos para levantar o dinheiro necessário para quitar a dívida. Tanner, que acabou de sair da prisão e não demonstra nenhum receio em voltar para lá, topa a ideia na hora.

a-qualquer-custo-cenaEscrevi ali no último parágrafo que Toby “não tinha muito o que fazer”, mas é claro que ele poderia utilizar outros meios que não fossem o do crime para resolver seus problemas. A grande questão de A Qualquer Custo é que Toby, conscientemente, não quer trilhar o caminho mais longo e difícil. Quando olha ao redor, o personagem só vê pobreza e morte (a edição mostra muitos locais sucateados e cidades desertas, dando um ar desesperador para as terras áridas do Texas), e ele não quer que seus filhos amarguem o mesmo tipo de vida miserável que ele levou. Toby não quer um emprego em uma lanchonete (como uma funcionária lhe sugere) e não quer fazer um empréstimo (como as várias placas na estrada oferecem): ele quer uma solução imediata e eficaz, e se isso significa ir contra a lei, então que assim seja. Toby votaria em Trump sem pestanejar.

A Qualquer Custo trata das consequências diretas da falta de credibilidade do governo para resolver os problemas dos cidadãos, mas não vi uma tentativa deliberada de legitimar atos extremos e/ou criminosos. O discurso de Toby sobre acabar definitivamente com a pobreza impregnada em sua família é tocante e convincente, mas ele não vê-se como um herói e o filme não tenta mostrá-lo como tal. A decisão do personagem de reivindicar seu “espaço vital”, aliás, tem consequências diretas e negativas na vida de muitas pessoas. A lei, que não por acaso é personificada em um Jeff Bridges velho e cansado, pode até estar enfraquecida e desacreditada em um cenário onde as instituições defendidas por ela não passam confiança, mas ainda assim é a ordem que prevalece no final.

a-qualquer-custo-cena-2Além de tratar de temas atuais, A Qualquer Custo é relevante por trazer mais de um ponto de vista sobre o papel do cidadão comum nos tempos de crise, apontando o caráter pernicioso das instituições financeiras e políticas mas também condenando os rampantes de violência individual, e funciona como uma atualização do gênero western, visto que os assaltos a banco e o confronto entre bandidos e mocinhos são os elementos ao redor dos quais a trama é construída. Gostei bastante da condução do Mackenzie, que valoriza os pequenos momentos (é muito bacana ver o Jeff Bridges bater o chapéu naquela luminária do motel) sem abrir mão da dramaticidade e da emoção das grandes sequências de ação (como o inevitável acerto de contras entre os irmãos Howard e a polícia), e da atuação tresloucada do Ben Foster, que ficou legalzão atirando na galera enquanto reivindica para si o título de “Senhor das Planícies”. De fato, este filme tem tudo para ser indicado e destacar-se na próxima temporada de premiações.

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Onde Começa o Inferno (1959)

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Onde Começa o InfernoDentre os fãs de faroeste, é conhecida a história de como diretores italianos como Sergio Leone e Sergio Corbucci reformularam o gênero durante as décadas de 60 e 70 dando origem ao chamado Spaghetti Western, que consistia em produções rodadas majoritariamente com baixo orçamento e que, em relação a seus contra pontos americanos, destacavam-se pelos malabarismos visuais (planos abertos, closes escandalosos) e pelo excesso de violência.

Eu conhecia a teoria, mas até hoje eu ainda não tinha tido oportunidade de verificar essas informações na prática. Salvo engano, o único filme de faroeste anterior a esse período que eu havia assistido foi o Sete Homens e um Destino, porém ele é um remake de um clássico japonês, ou seja, não é um produto genuinamente hollywoodiano. Trocando em miúdos, eu sabia que os italianos haviam MUDADO o gênero, mas eu não sabia O QUE eles haviam mudado, visto que eu não conhecia nada do faroeste americano pré-Spaghetti Western. Para aumentar o meu conhecimento sobre o assunto, escolhi esse Onde Começa o Inferno, filme do respeitado diretor Howard Hawks (de Os Homens Preferem as Loiras) e estrelado pelo mítico John Wayne, duas figuras cujas histórias confundem-se com a do gênero em questão.

John T. Chance (Wayne), o xerife de uma cidadezinha qualquer do interior dos Estados Unidos, prende Joe Burdette (Claude Akins) sob acusação de assassinato. Ciente da péssima reputação do irmão do criminoso, Nathan Burdette (John Russell), Chance prepara-se para defender sua cidade de um provável ataque. Acontece que, para proteger o local do bando de Burdette, o xerife conta com a ajuda de apenas três homens, sendo um bêbado (Dean Martin), um aleijado (Walter Brennan) e um adolescente (Ricky Nelson).

Onde Começa o Inferno - CenaConta-se que o diretor Quentin Tarantino, um fã declarado de faroeste (tanto que seus dois últimos trabalhos, Django Livre e Os Oito Odiados, foram produções do gênero), sempre mostra Onde Começa o Inferno para as garotas com as quais ele sai. Se elas não gostam do filme, ele termina o relacionamento. Pesado, né? rs Junte a isso o fato do título ostentar uma respeitosa nota 8.1 no IMDB (acesso em 17/06/16) e pronto, temos um daqueles longas que a gente já começa a assistir predispostos a gostar, certo? Bem, como não tenho nenhum interesse de sair com o Tarantino e sempre procuro ser honesto em meus textos mesmo quando isso significa nadar contra a corrente, devo dizer que achei o filme bastante monótono e entediante. Eis os meus motivos.

“A história principal não é das melhores” Chance prende Joe logo na primeira cena. Ele leva uns 5min pra executar a ação. Depois disso, até o clímax onde o xerife e seus amigos enfrentam o grupo de Burdette, passam-se mais de duas horas onde pouca coisa acontece. Sei que, fora trabalhos revisionistas como Os Imperdoáveis, os roteiros de faroeste primam pela simplicidade de histórias funcionais como “um homem precisa defender uma cidade de um bando de forasteiros”, mas não consegui achar graça na morosidade cotidiana que o diretor mostra-nos enquanto nos faz aguardar pelo confronto que ele anuncia logo de saída.

Onde Começa o Inferno - Cena 4“A maioria das subtramas são ruins ou não funcionam” Para ocupar o imenso espaço de tempo entre os dois eventos mais significativos da trama, Hawks preenche a história com personagens secundários chatos, como um casal estereotipado de mexicanos que escorregam miseravelmente na tarefa de serem alívios cômicos, e arcos de histórias que parecem estar lá apenas para cumprir as exigências do gênero. A atriz Angie Dickson, que interpreta o interesse romântico do xerife, está lindíssima naquele corpete com meia calça arrastão, mas química entre ela e o John Wayne (na época, um senhor de 51 anos -ela 26- com uma pancinha sobressalente) é zero. Também não senti empatia pelo fato de Chance ser um homem solitário que precisa aprender a confiar nos outros, mas gostei do desenvolvimento do Dude (personagem do Dean Martin), um bêbado que recupera a confiança em si mesmo quando o perigo força-o a redescobrir suas habilidades.

Onde Começa o Inferno - Cena 3“Falta ação” Quando eu disse acima que “pouca coisa acontece” durante Onde Começa o Inferno (aliás, que título bizarro – o original é Rio Bravo), eu estava me referindo principalmente a falta de ação. No papel do aleijado, o ator Walter Brennan até entretêm a gente com suas loucuras e a cena onde o Dude e Colorado cantam a baladinha “My Rifle, My Pony and Me” é bem legal, mas falta ação no filme. Excluindo um ou outro tiro e soco que aparecem aqui e ali, há apenas 3 grandes sequências de ação em todo o longa, que tem quase 2h30min. É muito pouco. Mesmo que essas cenas sejam, cada uma a sua maneira, bem executadas e divertidas (destaco o ‘silêncio’ da primeira, o domínio do Dean Martin na ‘cena do copo’ e os explosivos da última), elas não foram suficientes para satisfazer o meu desejo por tiroteios insanos cheios de efeitos sonoros toscos. Fiquei mal acostumado após ver filmes do Spaghetti Western como Por Uns Dólares a Mais e os trabalhos influenciados por eles, como Meu Ódio Será Sua Herança? Provavelmente, mas, mesmo que isso não constitua necessariamente um defeito para Onde Começa o Inferno, não posso esconder que eu esperava ver um John Wayne mais efetivo no cumprimento de seus deveres.

Eu estava com vontade de ver um western e de conhecer um pouco mais a história do cinema. Alcancei esses dois objetivos com Onde Começa o Inferno? Sim. Diverti-me durante o processo? Nem tanto.

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Os Oito Odiados (2015)

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Os Oito OdiadosO momento é de empolgação. O Globo de Ouro está próximo (10/01), a maioria dos indicados já encontra-se disponível na internet e, no último mês, vivi duas experiências completamente diferentes (e igualmente satisfatórias) dentro das salas dos cinemas locais. Da sensação de ter retornado à infância com O Despertar da Força no final do ano passado, fui arremessado agora até os confins obscuros do universo adulto por essa nova obra de arte do Tarantino. Como cinéfilo apaixonado que sou, eu não poderia estar mais feliz ❤

“Obra de arte?” Sim, caras, ele conseguiu de novo. Sei que sou suspeito para falar (quando escrevi sobre o Django Livre, revelei que o Tarantino é ‘o meu herói’), mas continuo impressionado com a capacidade do diretor de transitar entre gêneros, os quais ele continua mesclando e subvertendo para fornecer ao espectador experiências multifacetadas difíceis até mesmo de classificar. Os Oito Odiados é um suspense? Drama? Faroeste? Comédia? O “Oitavo filme do Quentin Tarantino” (e que outro diretor tem a audácia/capacidade de nos fazer contar seus trabalhos? rs) é tudo isso misturado, um conto épico de mais de 3 horas no qual você será levado a desconfiar das intenções de cada um dos personagens, será abordado por questões morais envolvendo justiça e violência, espantará-se com o quão frio o tradicionalmente quente Oeste americano pode ser e pegará-se rindo de piadas sobre homens com paus pretos na boca 😀

Castigada por uma nevasca infernal, a carruagem fretada por John ‘O Carrasco’ Huth (Kurt Russell) atravessa o cenário montanhoso do estado de Wyoming. Consigo, Huth leva Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), uma criminosa por cuja cabeça ele espera receber um prêmio de 10 mil dólares na cidade de Red Rock. No caminho, em momentos alternados, a trajetória da diligência é interrompida pelo Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e pelo Xerife Chris Mannix (Walton Goggins), sujeitos que estavam perdidos no meio da tempestade de neve e que Huth, mesmo relutante, resolve levar consigo.

Os Oito Odiados - Cena 6Durante os dois primeiros capítulos de Os Oito Odiados (adoro essa divisão por capítulos), Tarantino coloca os personagens para conversar e já nos dá algumas pistas de que o filme não é sobre gente que merece ir para o céu. Daisy pode até ser a única procurada pela justiça ali dentro daquela carruagem, mas os outros passageiros também estão bem longe de serem pessoas confiáveis. O xerife é um homem racista que adora fomentar intrigas e tanto John quanto o Major são conhecidos por suas reputações violentas: um por seu prazer confesso em ver pessoas sendo enforcadas, o outro por um episódio macabro da Guerra de Secessão em que ele ateou fogo em inimigos e aliados para salvar a própria pele. Tarantino, cujo trabalho sempre destacou-se pelo desenvolvimento dos personagens (basta lembrar-se, por exemplo, de toda a história que ele criou para a O-Ren Ishii da Lucy Liu no Kill Bill), não decepciona quem esperava por toda uma nova gama de sujeitos ruins e seus diálogos memoráveis: quando as condições climáticas deterioram e o grupo precisa parar na estalagem chamada “Armarinhos da Minnie”, nós já estamos simpatizando com cada um daqueles marginais filhos da puta.

Os Oito Odiados - Cena 4 Os 4 personagens (excluindo o cocheiro O. B), juntam-se então a outros 4 homens misteriosos e a matemática básica nos faz entender o motivo do título: Oswaldo Mobray (Tim Roth), Joe Gage (Michael Madsen), Bob (Demián Bichir) e o General Sandy Smithers (Bruce Dern) também estavam hospedados no “Armarinhos da Minnie” devido a nevasca. Calma lá. Eles estavam hospedados ou estavam lá aguardando a diligência? Algum daqueles homens está ali para resgatar/raptar Daisy? Onde está Minnie, a dona do local? Todos eles são realmente quem dizem que são? Com bons e longos diálogos e planos sequência, Tarantino passa então a conduzir uma trama de mistério que resgata e homenageia clássicos do cinema (o Festim Diabólico, do Hitchcock, não saiu da minha cabeça durante a sessão) e da literatura (a sensação de estar vendo uma versão filmada de algum livro da Agatha Christie é constante, principalmente na narração do próprio Tarantino na cena do café). Há um aspecto “teatral” em Os Oito Odiados, aliás, que remete diretamente ao primeiro trabalho do diretor, o elogiadíssimo Cães de Aluguel: cenário reduzido, poucos personagens, alguém fingindo ser o que não é, Tim Roth e Michael Madsen… está tudo lá. Autocitações? Gosto.

Os Oito Odiados - Cena 5Como eu optei por não utilizar spoilers neste texto, não convém revelar mais detalhes da trama, mas o leitor antenado deve desconfiar que a possibilidade de oito sujeitos armados e trancados dentro de um mesmo local durante uma nevasca dar certo é ínfima, não é mesmo? O climão de “isso vai dar merda” construído desde o início, com aquela imagem de Jesus congelando e a música tenebrosa do Ennio Morricone tocando alto (achei o tema tão bom quanto o do Arraste-me Para o Inferno, umas das minhas trilhas sonoras de terror favoritas), explode então no final e nos dá uma boa dose da violência explícita extremamente gráfica e exagerada que sempre esperamos dos filmes do Tarantino. Cabeças estouram, testículos explodem e a branquíssima neve de Wyoming é pintada de vermelho em cenas que nos chocam e fazem-nos rir ao mesmo tempo: o absurdo e o exagero, denúncia do efeito cinematográfico, continuam sendo a melhor defesa do diretor contra os seus costumazes críticos que acusam-no levianamente de fazer apologia à violência. É apenas ficção, caras.

Os Oito Odiados - CenaNo campo dos diálogos, o “arroz de festa” Samuel L. Jackson e o Bruce Dern protagonizam o momento mais memorável do filme. Assim como Pulp Fiction tem os diálogo do “Quarteirão com queijo/Silêncios confortáveis” e assim como o Bastardos Inglórios tem o Christoph Waltz comparando judeus e ratos, Os Oito Odiados tem o Major provocando o general com a história sobre o cara que chupou um pau preto para ganhar um cobertor. Sabe aquele tipo de coisa que, quando começa a acontecer ali, na sua frente, tu simplesmente não consegue acreditar? “Sério que ele teve coragem de fazer isso?”. É exatamente assim que eu desconfio que todo mundo sentirá-se quando o Samuel L. Jackson começar a falar sobre o dia em que um homem tentou capturá-lo. *Pausa para uma pergunta para quem já viu o filme e está lendo o texto: Como falei sobre o Waltz ali em cima, vocês também não tiveram a impressão de que o Tim Roth tentou emular a atuação dele no Django Livre o tempo todo?*

Os Oito Odiados - Cena 3Para parecer imparcial, eu poderia fechar esse texto dizendo que o filme deveria ter sido melhor editado, de modo que tornassem-no mais curto, mas a grande verdade é que eu amei cada minuto que permaneci dentro daquela sala de cinema. Quando resenhei o Transformes: A Era da Extinção, escrevi: “Entrei no cinema para assistir esse filme em um domingo, as 22hrs, e só saí na segunda, uma hora da manhã, após muitos bocejos e desejos de que ele acabasse logo”. Bem, no que diz respeito ao horário, dessa vez aconteceu EXATAMENTE a mesma coisa, mas eu não passei nem perto de ficar com sono, sinal de que, quando há qualidade, o tempo realmente não importa.

Sei que o ano promete como nunca, com várias produções de super-heróis a caminho, mas desconfio que já vi meu filmes favorito de 2016 (a produção, todo caso, é de 2015). Os Oito Odiados concorre a 3 Globos de Ouro (Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro) e a minha torcida vai toda para ele. Novamente, muito obrigado, Tarantino, você faz desse cinéfilo um sujeito muito feliz 🙂

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Sete Homens e um Destino (1960)

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Sete Homens e um DestinoOlhando o contador de posts do blog (localizado ali no canto inferior direito da página), dei-me conta de que não tenho dado a devida atenção aos westerns. Como a produção hollywoodiana atual praticamente ignora o estilo, restou-me recorrer ao passado para encontrar um bom filme de pistoleiros malvadões que pudesse por fim a lacuna de quase 1 ano sem títulos do gênero por aqui. Aproveitei então a oportunidade para conferir o gabaritado Sete Homens e um Destino, remake do diretor John Sturges para o longa Os Sete Samurais do Akira Kurosawa, clássico dentre os clássicos do cinema japonês.

Em um vilarejo paupérrimo localizado na fronteira dos Estados Unidos com o México, um grupo de aldeões tenta sobreviver com o pouco que eles conseguem extrair do cultivo da terra. Não bastassem todas as dificuldades impostas pelo sol escaldante, um bando liderado pelo insano Calvera (Eli Wallach) saqueia o lugar regularmente, aterrorizando a população e tirando deles o alimento e o dinheiro sem os quais eles não tem a menor chance de resistir. Dispostos a defenderem-se de Calvera, os aldeões organizam uma expedição e partem rumo a cidade mais próxima com o intuito de contratarem pistoleiros que possam enfrentar o bandido e seu bando. Mesmo podendo pagar apenas 20 dólares pelo serviço, eles conseguem convencer o destemido Chris Larabee (Yul Brynner) a juntar-se a comissão, cabendo a este a difícil tarefa de escolher os homens certos para a missão.

Para tirar logo a comparação inevitável entre o original e o remake do caminho, digo-vos (sem nenhuma surpresa, aliás) que gostei mais do Os Sete Samurais. Além de não poder ser superado na questão originalidade (já que ele apresenta a ideia), o filme do Kurosawa, até por ter quase o dobro do tempo (3h30min contra as 2h dessa versão), desenvolve melhor os personagens e explora muitíssimo bem a teatralidade das mortes e dos atos heroicos que compõe a última cena. Sete Homens e um Destino tem seus méritos e é principalmente neles que eu focarei abaixo, mas não há dúvidas que ele não atinge todo o brilhantismo do original japonês.

Sete Homens e um Destino - Cena 2Sturges organizou seu filme em 3 blocos. No primeiro deles, Chris conhece e reúne os homens que enfrentarão Calavera. Em seguida, eles treinam junto aos aldeões e preparam o vilarejo para o combate que se aproxima. Finalmente, o conflito explode em uma sangrenta batalha de 2 atos. Trata-se de uma narrativa clássica (com começo, meio e fim muito bem definidos e sem grandes reviravoltas) que cresce graças ao apelo da ideia de um grupo de desajustados rendendo-se a grandeza de uma causa e, claro, devido as interpretações poderosas, quase canastronas, dos protagonistas.

Eu não conhecia o ator Yul Brynner, mas comprei imediatamente a imagem dele como Chris, um badass careca disposto a arriscar a própria vida em troca de 20 dólares. Ao lado de Vin, sujeito deveras genérico interpretado pelo Steve McQueen, ele passa o início da trama selecionando os caras que o ajudarão a defender o vilarejo. Esse começo, que acaba pendendo involuntariamente para o humor devido ao excesso de “macheza” de Yul e cia, é a melhor parte do filme. Nem todos os pistoleiros dos “sete” são dignos de nota, mas Bernardo (Charles Bronson) e Britt (James Coburn) são nada menos do que memoráveis. A cena em que Britt é convocado, aliás, tornou-se a minha favorita do filme, um divertido duelo de canivete (!!!) contra revólver muitíssimo bem coreografado por Sturges que, tal qual acontece tradicionalmente nos westerns, sugere a superioridade do ato e da técnica sobre a teoria e a arrogância.

Sete Homens e um Destino - CenaJá o treinamento dos aldeões e os preparativos dos “sete” para a batalha contra Calvera não são tão legais assim. Com mais tempo e mais talento a disposição, Kurosawa utilizou a parte intermediária de sua trama para nos fazer conhecer cada um de seus personagens, revelando detalhes de seus passados, mostrando suas habilidades e fazendo-os interagir com as pessoas do vilarejo em situações graves e cômicas. Como resultado, chegávamos ao clímax “íntimos” de cada um dos samurais e isso valorizava suas ações e mortes. Sturges ignora 2 de seus pistoleiros (Lee e Harry Luck praticamente não tem diálogos), investe mais em cenas rápidas de humor do que na construção da história dos protagonistas e dá atenção demais para o chatíssimo Chico (Host Buchholz), um cara novo e inexperiente que, além de passar todo o filme fazendo merda dando trabalho para os mais velhos, ainda engata um romance mequetrefe com uma nativa, arco de história que destoa totalmente do restante da trama.

Sete Homens e um Destino - Cena 3Quando finalmente os sinos tocam anunciando a chegada de Calvera e seu bando, o filme volta a melhorar e Sturges nos entrega uma boa dose do velho e bom bang bang que fundou as bases do oeste americano. Chris e Vin demonstram habilidades sobrenaturais no gatilho e os bandidos são obrigados a recuar, mas o clima de felicidade dos aldeões dura pouco: Calvera reorganiza seus homens e retorna para a segunda parte do confronto. Novamente, não há paralelos possíveis entre o remake e o original. A conclusão de Sete Homens e um Destino é violenta e possui momentos verdadeiramente empolgantes, como a sequência de tiros destruidores de espingarda que o Charles Bronson dá nos invasores, mas Sturges, além de não contar com a dramaticidade e beleza da chuva usada pelo Kurosawa, não valoriza devidamente as mortes de seus personagens. Alguns deles, aliás, morrem devido a tiros aleatórios vindos de lugares desconhecidos. Sabe aquele barulhinho típico de tiro usado nos westerns? Pois é, o cara tá lá, tu ouve o barulho, surge uma mancha vermelha no peito dele e pronto, um dos protagonistas da trama foi eliminado.

Sete Homens e um Destino - Cena 4Tendo em mãos uma história cuja qualidade já havia sido comprovada, Sturge limitou-se a adaptá-la para o cenário americano e, apoiado por um bom elenco e uma música tema inesquecível, fez um filme divertido e agradável de ser assistido. É visível, porém, que ele não atentou-se aos detalhes que contribuíram para a canonização do original. Sete Homens e um Destino é um bom western? Sem dúvidas, mas, considerando a fonte em que ele bebeu, poderia ser BEM melhor.

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Yojimbo – O Guarda-Costas (1961)

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Yojimbo - o Guarda CostasFalar sobre o método da escrita e comentar quais ideias me motivaram a escrever e o que foi mais ou menos importante para escolher o filme criticado, atualmente, é uma das minhas abordagens favoritas na hora de produzir textos para o blog. A metalinguística, o escrever sobre o ato de escrever, permite-me avaliar e criticar minhas resenhas, como se eu estivesse escrevendo-as e lendo-as ao mesmo tempo, escolhendo, simultaneamente,  o que gosto e o que preciso eliminar nas minhas abordagens.

No caso de Yojimbo, a minha intenção inicial era fazer a ligação entre o filme e seu “remake” hollywoodiano, o Por um Punhado de Dólares do Leone/Eastwood, comentando a grandeza do trabalho do Kurosawa tendo em vista tudo aquilo que ele influenciou. É um caminho que eu costumeiramente trilho por aqui quando vou falar sobre algum clássico, mas pensar sobre ele me fez querer ir em outra direção dessa vez. Ok, influenciar um filme que é considerado um dos pilares do western norte americano é um fato digno de nota, mas não foi por isso que eu decidi assistir Yojimbo: o que, verdadeiramente, me trouxe até aqui e o que eu gostaria de comentar com vocês é o processo pessoal que hoje me permite sentar para ver um filme antigo da mesma forma que eu sento para ver um lançamento repleto de efeitos especiais. Considerando os benefícios que tiro disso, acho que vale a pena compartilhar a experiência.

 Quando escrevi sobre o Os Sete Samurais, que também é do Kurosawa, gastei algumas linhas do texto para falar sobre como conheci e reagi inicialmente ao trabalho do diretor. Estranhei, ri e critiquei o Rashomon, que é um filme preto e branco japonês de 1950. Os meus argumentos eram justamente esses: filme preto e branco japonês de 1950. Até onde a minha mente adolescente conseguia ir, a simples combinação dessas palavras/características já era suficiente para condenar uma obra. É bom lembrar disso porque, mais do que sentir vergonha de mim mesmo, consigo ver que os anos livraram-me de alguns preconceitos e ajudaram-me a encarar o cinema de forma mais madura, menos óbvia, e isso tem me ajudado a apreciar alguns clássicos não somente por tudo aquilo que eles representam historicamente, mas sim porque eles, de fato, são bons e divertidos.

Yojimbo - O Guarda-Costas - CenaQuando dei o play no Yojimbo, fiz questão de perguntar à minha esposa o que ela esperava dele que, jocosamente, eu defini como um “filme preto e branco japonês de 1961”. A resposta dela, com a qual eu tive de concordar imediatamente, foi a de que esses filmes apresentam relações e sentimentos que, muitas vezes, não nos são contemporâneos. Esse olhar para o passado, juntamente com as diferenças culturais típicas da cultura japonesa, por si só, já seriam motivos suficientes para ela dedicar um pedaço do dia para assistir um filme. Bingo, casei com a mulher certa! O filme antigo, portanto, atrai por ser um produto de um período em que as pessoas tinham preocupações e sonhos diferentes daqueles que temos atualmente. Reconheço que, quando tu começa a assistí-los frequentemente, é possível perceber que eles também encaixam-se dentro de algumas padronizações e, depois de um tempo, tornam-se tão previsíveis quanto as produções atuais, mas balancear a apreciação deles com a de filmes novos, até o momento, foi uma das formas que encontrei para continuar descobrindo coisas novas dentro do mundo por vezes formulaico do cinema.

Yojimbo - O Guarda-Costas - Cena 2Yojimbo influenciou Por um Punhado de Dólares (experimentem ler o texto e compará-lo com a sinopse abaixo) mas, como não posso (ou quero) rastrear a origem da idéia, vamos deixar esses enigmas do tipo “ovo-galinha” de lado e concentrarmo-nos naquilo que ele traz de melhor, que é diversão que os elementos que nos parecem exóticos e o roteiro engenhoso são capazes de oferecer. No século XIX, os samurais, outrora defensores da realeza, viram seu estilo de vida cair em desuso e passaram a vagar procurando por alguém que estivesse disposto a pagar por seus serviços. Sanjuro (Toshirô Mifune), um desses guerreiros, chega com sua espada em uma cidade que vive ameaçada por duas gangues. Após matar rapidamente 3 sujeitos que o provocam e desrespeitam, o samurai recebe e recusa propostas para servir dos dois lados. Mais do que associar-se a uma das famílias que oprimem os trabalhadores da cidade, ele deseja acabar com todos os degenerados do local e, claro, lucrar em cima disso.

Yojimbo - O Guarda-Costas - Cena 3Temos aqui, deste modo, o roteiro tradicional do filme de western em que um estrangeiro desconhecido chega em uma cidade corrompida para resolver seus problemas. Vê-se também o confronto entre o conservadorismo e o progresso, em que os novos tempos (o liberalismo, o capitalismo, as gangues) são apresentadas como uma forma de vida degenerada quando comparados com o modelo anterior, o tempo dos samurais, tempo da honra e do respeito. Logo no começo da trama, por exemplo, Sanjuro presencia uma briga entre pai e filho em que o garoto diz que prefere morrer vivendo uma vida de aventuras do que sobreviver através dos anos comendo mingau de arroz. No final, após espalhar sangue por toda a cidade, Sanjuro deixa claro para o garoto o quão errado ele estava. Tradicionalista, a mensagem de Kurosawa caiu como uma luva para aquele é o mais americano dos gêneros cinematográficos.

Yojimbo, até mesmo pela proposta de seu personagem principal de não entrar em conflito direto com seus inimigos, é um filme mais cadenciado, que privilegia mais os diálogos do que as cenas de ação. É engraçado ver como Sanjuro utiliza sua inteligência para colocar as gangues para lutar entre si, poupando-lhe o trabalho de matar um por um. No entanto, quando a estratégia é descoberta e o combate torna-se inevitável, Kurosawa não decepciona e nos dá uma boa dose de pancadaria samurai. Eu, que assisti esse filme com o ótimo Os Sete Samurais em mente (talvez o maior de todos os longas do estilo já feitos), fiquei satisfeitíssimo com o que vi, principalmente quando ele enfrenta os “6 da cabana”, cena brutal e sanguinolenta que, filmada por Kurosawa, consegue expressar uma forma estranha e sutil de beleza.

Yojimbo - O Guarda-Costas - Cena 4Tudo o que vi e gostei certamente não teria o mesmo efeito se eu o fizesse através do prisma “filme japonês preto e branco de 1961”. Yojimbo, mais do que um clássico que qualquer fã, estudioso ou interessado por cinema deve conhecer e respeitar, é um filme divertido, com piadas atemporais (a covardia das duas gangues, que fazem de tudo para não brigarem, é impagável), humor negro (reparem naquele cachorro que anda tranquilo carregando uma mão no início), cenas muitíssimo bem coreografadas (observem a qualidade da movimentação dos atores antes dos duelos e as escolhas pontuais de ângulos que o Kurosawa faz), ótimas sequências de ação e uma atuação memorável do monstro Toshirô Mifune, ou seja, tudo que um filme precisa ter, seja ele novo ou antigo. Sinto-me feliz por, hoje, poder assistir uma obra dessas tal qual deve ser, sem preconceitos com a imagem e o som e tirando proveito do distanciamento temporal que, mais do que deixar os filmes “estranhos”, os tornam interessantes e prazerosos justamente por suas linguagens e valores que são diferentes daquilo que temos nas produções atuais.

Yojimbo - O Guarda-Costas - Cena 5

Cimarron (1931)

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CimarronHá algumas curiosidades sobre Cimarron, terceiro vencedor do Oscar de Melhor Filme, que merecem serem citadas antes de falarmos sobre ele. Além de ser o primeiro western a conquistar o prêmio principal da Academia, ele também foi o primeiro filme a concorrer em todas as principais categorias, levando 3 estatuetas na ocasião (Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção de Arte). É estranho notar, porém, que tal consagração contrasta significativamente com a recepção que o longa teve junto ao público, tanto na época de seu lançamento quanto na avaliação final que o tempo lhe garantiu em sites especializados. Se a baixa arrecadação na bilheteria pode e deve ser relacionada com os perrengues econômicos da Grande Depressão que coincidiram com  a data de sua estréia, não podemos dizer o mesmo da baixíssima nota 6 que o filme sustenta no IMDB, a menor dentre todos os vencedores do Oscar naquele site. Quais os motivos levaram o público a rejeitar uma produção tão premiada? Abaixo, apresento-lhes algumas suposições e, claro, a minha própria opinião sobre o filme, o qual, aliás, eu não achei tão ruim assim.

Em um dos vários episódios que compuseram a Marcha para o Oeste norte-americana, o governo “liberou” para colonização as terras que hoje compõe o estado de Oklahoma. Na ocasião, o editor e aventureiro Yancey Cravat (Richard Dix) avançou para os limites da fronteira desejoso de conseguir um território para chamar de seu. Enganado durante a marcação dos terrennos pela oportunista Dixie Lee (Estelle Taylor), ele volta para o seio de sua família sem sequer um único hectare de terra. Disposto a não desistir, Yancey, junto com sua esposa Sabra (Irene Dunne) e Cima, seu filho recém nascido, muda-se para a nova cidade de Osage, abre um Jornal e, dia após dia, cresce em popularidade e fortuna enquanto aguarda outra oportunidade de participar da corrida expansionista.

Cimarron - Cena 3Yancey é um desses personagens que nos conquistam tão logo aparece na tela. O ator Richard Dix interpreta um desses caras hiper carismáticos que parecem ser bons em tudo o que fazem. Quando muda para Osage, Yancey não apenas constrói um império pessoal com seu jornal (transformando-se em um típico representante do conceito de self-made man), quanto assume ares de herói ao livrar a cidade da escória criminosa que lá havia instalado-se. Fiel à esposa, temente a Deus, implacável no gatilho e com um topete estiloso, o sujeito é um desses cidadãos modelo estereotipados que poderiam facilmente causar repulsa em um público menos tolerante com a propagação da ideologia americana, mas é difícil imaginar que alguém deixará de torcer por ele devido a isso. Corajoso, louco e determinado, o cara atira na orelha dos inimigos, mata-os dentro de uma igreja durante um sermão que ele mesmo conduzia e é o único com culhões suficientes para enfrentar a gangue de arruaceiros que tenta roubar o banco da cidade.

Cimarron - Cena 2O que, então, há de errado com o Cimarron? Infelizmente, o filme conduzido pelo diretor Wesley Ruggles envelheceu mal, muito mal. Não pensem, no entanto, que digo isso me referindo a fatores audio/visuais. Apesar de já ter soprado mais de 80 velinhas, Cimarron ainda é perfeitamente “assistível” mesmo com sua fotografia preto-e-branco. Há sequências de ação grandiosas e empolgantes, como por exemplo a corrida dos desbravadores que abre o filme, e elas não devem nada para outros westerns que foram feitos anos depois. O que espanta negativamente na trama, que é adaptada de uma novela da escritora Edna Ferber, são os temas ligados ao preconceito racial e sexismo, temas esses que não desenvolvem-se de forma a oferecer soluções e exemplos para o combate de tais problemas na vida real. Obviamente, nenhum filme, para ser bom, é obrigado a levantar bandeiras de lutas sociais e políticas, a ficção é livre, mas ainda assim é difícil ficar indiferente, por exemplo, ao tratamento que dão a um dos únicos negros da trama, um menino que é visto por seus donos empregadores como uma espécie de animal de estimação. Quando o mesmo morre, vítima de um tiroteio, não há absolutamente nenhum tipo de comoção. Bizarro.

Cimarron - Cena 4A situação piora ainda mais quando trata-se do sexismo. Conforme pode ser percebido na sinopse, a história é centrada em Yancey Cravat, um personagem masculino. Até aí tudo bem, o problema aqui é que, para engrandecer os atos de coragem e inteligênca do protagonista, o roteiro retrata as mulheres da trama de forma fútil (é o caso de Sabra e das outras moradoras de Osage) ou como pessoas incapazes de protegerem a si mesmas (Dixie Lee). Isso pode ter atrapalhado na recepção do filme junto ao público contemporâneo que o classificou no IMDB? Talvez. Isso torna o filme ruim? Ao meu ver, não. Por mais que os pontos comentados (somados a forma como os índios são mencionados no longa) incomodem, eles devem ser entendidos mais como produtos/representações da mentalidade da época do que como uma posição política esdrúxula da escritora/diretor. Todo caso, trata-se de um bom filme (que na verdade é bem mais um drama de época do que um western), cujo ator principal (Richard Dix), ao lado do Danny Trejo, provavelmente seja um dos sujeitos mais feios que já protagonizaram um longa.

Cimarron - Cena

O Estranho Sem Nome (1973)

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O Estranho Sem NomeApesar de esse não ser o debut do Eastwood na direção (que aconteceu cerca de 2 anos antes com o Perversa Paixão), O Estranho Sem Nome é um filme essencial para os interessados pelo trabalho do diretor/ator por se tratar do primeiro trabalho que ele conduziu dentro do gênero que o consagrou. Carregado de influências dos faroestes do Leone e trabalhando temas comuns aos filmes violentos do Don Siegel (com quem Eastwood trabalhou em Perseguidor Implacável, entre outros), O Estranho Sem Nome é, ao mesmo tempo, conservador e revisionista, característica típica daquelas primeiras obras em que o artista deseja tanto mostrar de onde veio quanto propor novos caminhos.

O Homem Sem Nome, personagem, já havia ligado-se a imagem do ator na época após o trabalho dele com o Leone na Trilogia dos Dólares durante a década de 60. Com uma ou outra variação, o estereótipo do homem durão sem passado que fala pouco e briga bem tornou-se uma constante na filmografia do artista e aqui ele é evocado com ares sobrenaturais para levar justiça a cidadezinha de Lago. O local, uma currutela poeirenta típica dos faroestes americanos, foi o palco no passado do assassinato covarde de um xerife sério e honesto. Os bandidos foram presos e o tempo passou, mas no coração e na memória de alguns moradores a sensação de culpa e a lembrança das últimas palavras do homem (Vocês queimarão no inferno por isso!) permanecem amedrontadoras. Alguns anos depois, o Estranho (Eastwood) recém chegado na cidade é contratado pela população para defendê-los da vingança dos mesmos bandidos que haviam acabado de serem soltos da prisão. Percebe-se nas ações do personagem, no entanto, que ele não parece muito preocupado com o destino da cidade de Lago.

O Estranho Sem Nome - Cena 3O Estranho Sem Nome é uma história clássica de faroeste em que um pistoleiro chega a uma cidade para resolver na base da bala os problemas do local. Percebo que, em linhas gerais, o que se vê nesses filmes são representações do conflito velho x novo que marcou a história da expansão rumo ao oeste americano durante o século XIX. Dependendo da visão de mundo do diretor/roteirista, o que vem “de fora”, ou seja, a novidade e o progresso, pode ser bom ou ruim, daí o mocinho combate o bandido que vem invadir a cidade ou chega ele mesmo para varrer os trastes que lá estavam. Eastwood, comandando um roteiro do escritor Ernest Tidyman (Operação França, Shaft) trabalha os dois pontos, já que o Estranho tanto combate bandidos que vem de fora quanto varre algumas bagaceiras da cidade. Não é por comportar essas duas possibilidades narrativas, porém, que O Estranho Sem Nome pode ser considerado um filme revisionista.

O Estranho Sem Nome - CenaA primeira coisa que me chamou a atenção aqui foi o lago enorme que circunda a cidade onde a história acontece. Ainda que a idéia não seja exclusividade ou cria de Eastwood, não é comum vermos tanta água assim em faroestes. Na sequência, a frieza e aparente falta de empatia do Homem Sem Nome alcançam patamares nunca vistos anteriormente em um filme do ator: após despachar para o além 3 bandidos genéricos, o Estranho estupra uma mulher. Ok, apesar de insinuar-se escandalosamente para o personagem, ela #nãomereceserestuprada e, mesmo que depois a personagem procure os braços dele por conta própria, é chocante ver o ator, protagonista (e herói) por natureza de seus longas, envolvido em uma cena assim. Aqui eu vejo a influência que Eastwood provavelmente herdou de seus trabalhos com o Don Siegel que exploram as mazelas da violência urbana, um especialista nesse tipo de discussão e na construção de anti heróis.

O Estranho Sem Nome - Cena 4Outro ponto pouco comum ao gênero abordado pelo cineasta é o sobrenatural. O Estranho vai para  a cidade do Lago não para salvar seus habitantes, mas para lhes oferecer o inferno que o xerife morto lhes prometera. Por mais que isso não apareça de forma explícita na trama, o que entende-se é que o personagem é um espírito, a própria reencarnação do xerife que voltara anos depois para certificar-se de que o peso de sua maldição cairia em cima de cada um dos moradores da cidade que assistiram, omissos, o espancamento que causou sua morte. Eastwood, um conhecido conservador que amadureceu enquanto homem dentro de uma época onde o jargão “bandido bom é bandido morto” era uma constante dentro da literatura, filmes e discussões políticas de seu país, parece dizer que, onde os cidadãos abrem mão de praticarem a justiça por medo, imperará a decadência moral (retratada na promiscuidade, desonestidade, hipocrisia religiosa e covardia dos moradores de Lago). Nesses casos, ele diz, é compreensível (e até mesmo justo), que a justiça seja aplicada com as próprias mãos ou por forças divinas, sobrenaturais, que condenarão ao inferno os transgressores. Adorei essa idéia aplicada na forma de uma cidade toda pintada de vermelho e rebatizada de HELL (Inferno) pelo personagem.

O Estranho Sem Nome - Cena 2Já nos enquadramentos, close-up‘s, trilha sonora, figurino e violência dos tiroteios, O Homem Sem Nome deve bastante a outro revisor do gênero, o italiano Sergio Leone. Pela segunda vez atrás das câmeras, Eastwood pouco ousou e apostou tudo na receita do polêmico e renovador trabalho do diretor da Trilogia dos Dólares. Apostou certo: em um formato já conhecido e aprovado pelo público, ele desconstruiu seu principal personagem, sem, no entanto, abrir mão do senso de justiça, mistério e da competência épica com um revólver pelos quais ele tornou-se caro ao telespectador.

NOTA 1: Usaram um anão engraçadíssimo como alívio cômico na trama. Também não lembro de ver outros anões em faroestes.

NOTA 2: Uma chicotada no rosto é algo que, definitivamente, deve dor MUITO.

O Estranho Sem Nome - Cena 5