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Halloween H20 – Vinte Anos Depois (1998)

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halloween-h20-vinte-anos-depoisQuando a série Halloween completou 20 anos em 1998 (o primeiro é de 1978), os produtores aproveitaram a data para revitalizar a franquia convidando a atriz Jamie Lee Curtis para voltar ao papel da icônica Laurie Strode.

Laurie, irmã de Michael Myers que acreditava-se ter morrido após o segundo filme, foi retirada do limbo pelos roteiristas de Hollywood que criaram para esta continuação uma história onde a personagem fingiu a própria morte para escapar do insistente assassino de Haddonfield. Com o nome de Keri Tate, ela mudou-se para a California, teve um filho (Josh Hartnett) e tentou continuar a vida, mas dia após dia as lembranças de Myers e sua faca gigante continuavam a atormentá-la. Laurie sabia que, mais cedo ou mais tarde, seu irmão apareceria para um acerto de contas definitivo com ela. A abertura de H20 mostra que esse momento chegou.

Como não poderia deixar de ser, o filme começa numa véspera de feriado de Halloween. As crianças estão correndo nas ruas, as abóboras estão sendo esculpidas e uma velha enfermeira, antiga colega de trabalho do finado Dr. Loomis no sanatório Smith’s Groove, está voltando para casa após um dia de trabalho. Na porta, ela encontra sinais de um possível arrombamento e chama a polícia. Diante da demora da viatura, a enfermeira pede para que alguns garotos da vizinhança (dentre eles, o ator Joseph Gordon-Levitt) ajudem-na a vistoriar a casa. Péssima escolha. Poucos minutos depois, Michael Myers sai do local com as informações que ele procurava sobre o paradeiro de sua irmã e com algumas mortes a mais no currículo.

halloween-h20-vinte-anos-depois-cenaEm H20, vemos como o Myers foi para a Califórnia atormentar um pouco mais a pobre Laurie Stroder. Para tanto, o roteiro comandado pelo diretor Steve Miner ignora todas as loucuras que aconteceram do terceiro ao sexto filme da série (fábricas de máscaras assassinas, rituais celtas, etc) para concentrar-se no elemento familiar básico que ditou o ritmo dos dois primeiros títulos: Myers quer matar sua irmãzinha. Essa simplicidade, aliada ao retorno da Jamie Lee Curtis, poderia ter feito a série renascer após uma sequências de filmes ruins e inexpressivos, mas não foi bem isso que aconteceu. H20 é ruim demais e percorrer seus parcos 86min foi chatíssimo.

Para um filme que se propôs a celebrar os 20 anos do lançamento do original, é estranho notar o desapego do diretor e do roteiro por certas tradições da franquia. Abertura com a abóbora? Não. Música tema da série tocando insistentemente até quase explodir nossas cabeças? Não. Peitinhos? Não (e olha que a Michelle Williams está no elenco). Sequência rodada com uma câmera em primeira pessoa? Não. Cidade de Haddonfield? Também não. H20 tem o nome Halloween, mas, tirando o Myers e a Stroder, ele também poderia ter qualquer outro título que a gente não ligaria muito.

halloween-h20-vinte-anos-depois-cena-3O retorno da Jamie Lee Curtis é outro ponto que não funcionou como esperado. A atriz, que debutou nos cinemas no A Noite do Terror, retornou para a série já consagrada após trabalhar com diretores importantes como o James Cameron, mas a real é que a nostalgia que a presença dela deveria provocar não dura mais do que uma cena. Além de não ter deixado o cabelo crescer para o papel (a Stroder original tinha o cabelo grande), a atriz parece estar atuando no automático, com má vontade. As discussões dela com o filho, por exemplo, cenas que poderiam ter uma carga emocional maior, são todas sofríveis.

H20 também peca muito no quesito violência. Seja por opção do diretor ou por censura, a maioria das mortes acontece fora das câmeras. Myers avista uma vítima, caminha em direção a ela, a cena é cortada e, em seguida, vemos um corpo ensanguentado caído no chão. A contagem de corpos também não ajuda: o assassino só começa a trabalhar pra valer depois de uma hora de filme e o rastro deixado por ele é deveras pequeno.

halloween-h20-vinte-anos-depois-cena-4O último e inevitável confronto entre os irmãos não é dos piores. A forma como ele termina, aliás, é bem legal (e dolorosa), mas há tanta coisa ruim antes da Stroder entrar naquela ambulância que nem mesmo o final brutal salva o pacote. Eu já tinha ficado chateado com o Myers ladrão de carros. Eu já tinha torcido o nariz para a cena em que ele corta a perna de uma menina e a mesma foge sem nenhum pingo de emoção. Eu não gostei do humor bobo do zelador da escola. Mas nada, nada mesmo superou a frustração de ver o Myers tentando usar uma chave para abrir um portão. Isto é o tipo de coisa que você não deve colocar um dos maiores slashers da história do cinema para fazer.

Com 3 filmes bons (os dois primeiros e o quarto) e quatro ruins, o saldo da série volta a ficar negativo. O ponto bom é que agora faltam apenas mais 3 longas (não pretendo rever o remake de 2007 do Rob Zombie). O ruim é que o próximo, Halloween – Ressurreição, é o que tem a nota mais baixa dentre todos os títulos da franquia no IMDB (4.1) 😀

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A Possessão do Mal (2014)

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a-possessao-do-malA morte do ator global Domingos Montagner no último dia 15/09 tocou o coração das pessoas de formas diferentes. Houve quem lamentasse a tragédia, houve quem criticasse a superexposição dada ao assunto pela mídia, houve quem tratasse com ironia e soberba os sentimentos alheios e houve até mesmo a galera da teoria da conspiração dizendo que o ator foi assassinado (!!!) por motivos políticos. No geral, nós (sociedade) somos muito ruins e imaturos para lidar com sentimentos negativos. Todo caso, há sempre aqueles que conseguem ir um pouco além nessa ruindade e realizar comentários que desprezam qualquer noção de bom senso e dignidade. Segue abaixo a transcrição exata (preservei os erros de português) de uma mensagem que li no Facebook:

“A morte do ator Domingos mostra mais uma vez que *com Deus não se Brinca* a globo exibi uma novela espirita que exalta a yeshu, e em toda historia coloca satanas como Deus destorcendo palavras. No caso desse ator, cujo nome era SANTO,em varias cenas eram feitos rituais de magia negra, enclusive ouve um momento na novela em que *ele desapareceu* no rio SAO FANCISCO e foi dado como morto, *exatamente como como aconteceu na vida real* afogado pelo msm rio ,chamado na novela como VELHO CHICO conhecidencia? no mesmo rio que em uma cena ele disse *_no rio eu nasci, no rio eu me criei, e no eu vou morrer!_*.COM DEUS NÃO SE BRINCA, e vc que assiste ta participando dando audiencia a algo que não exalta o Deus que servimos ,e dando brechas para que satanas faça o msm que fez com ator, por isso divulguem esse texto e alerte seu irmão que pode nem saber disso assim como vc não sabia!”

Resumindo, o Domingos faleceu porque “brincou com Deus” ao interpretar um personagem que, segundo o autor da mensagem, enganava a audiência com uma alegoria do diabo. CUIDADO: Você pode ter o mesmo destino do Montagner caso continue vendo a novela e dando brecha para o tinhoso agir na sua vida!

a-possessao-do-mal-cena-3Sinto minhas entranhas contorcerem quando leio este tipo de mensagem. Por trás deste tipo de discurso rasteiro, alarmista e maldoso não existe um coração verdadeiramente interessado em viver segundo os ensinamentos de alguma religião, existe apenas um(a) babaca querendo aproveitar-se de uma tragédia para engrossar o chorume diário das redes sociais. Essa ideia absurda de que deus e o diabo estão travando uma batalha por nossas almas, de modo que cada um encontrará aquilo que procurar, só serve mesmo para inspirar roteiros de filmes de terror ruins para adolescentes, como é o caso desse A Possessão do Mal.

Escrito e dirigido pelo cineasta David Jung, o longa conta a história de Michael King (Shane Johnson), um sujeito que vivia uma vida pacata e feliz ao lado da filha e da esposa, Ellie King (Ella Anderson), até o dia em que um acidente de carro deixa-o viúvo. Desesperado, Michael atribui a culpa da tragédia à uma cartomante que havia convencido Ellie a cancelar uma viagem. Segundo ele, se eles tivessem viajado, o acidente não teria ocorrido e sua mulher ainda estaria viva. Para lidar com sua dor, Michael, que é um homem cético e aparentemente ateu, decide gravar um documentário para provar para o mundo que o misticismo ligado ao trabalho das cartomantes, bem como à rituais de magia negra e similares, não passa de uma grande bobagem.

a-possessao-do-mal-cena-2O título original da produção (A Possessão de Michael King), bem como sua tradução infeliz para o mercado nacional, já entregam que Michael “encontra aquilo que ele estava procurando”, ou seja, ele acaba possuído pelas forças obscuras com as quais ele “brincou”. Imaginem a felicidade do autor da mensagem citada acima caso ele assista esse filme e veja confirmadas na tela todas suas teorias espirituais sobre ação e reação rs O fato, porém, é que os eventos mostrados em A Possessão do Mal são pouco conclusivos e dependem bastante das crenças pessoais do espectador para funcionarem ou não.

Sim, Michael acaba “possuído” e faz todas as coisas que Hollywood nos ensinou que pessoas tocadas pelo Belza fazem, como conversar em linguagens desconhecidas, movimentar-se de forma estranha (spider walk!), usar moletom com capuz e automutilar-se. A questão é que ele só faz isso tudo após ingerir uma droga retirada das vísceras de um sapo. Na primeira parte do filme, TODOS os métodos que o personagem testa para comunicar-se com o além acabam falhando e o tom cômico e irônico dessas cenas não deixam de demonstrar um certo desprezo do diretor por coisas como invocações demoníacas, rituais de exorcismo, etc. Para vocês terem uma ideia, Michael paga para um casal de satanistas para que eles mostrem para ele como a doutrina funciona e tudo que ele consegue é ser abusado por dois velhos tarados.

a-possessao-do-mal-cena-4Num segundo momento, o protagonista procura um necromante e é aí que o festival de horrores começa. Além de consumir a tal droga retirada do sapo, Michael tem uns dentes costurados na sua barriga e participa de um ritual de invocação no meio de um cemitério. A polícia invade o local e acaba com a brincadeira, mas aí Michael começa a pirar. Atormentado por um “barulho dentro de sua cabeça”, o personagem vai definhando psicologicamente até o ponto de atentar contra a vida da própria filha. Cenas fortíssimas como uma agulha sendo enfiada debaixo de uma unha e um pentagrama que é desenhado no peito com um pedaço de vidro quebrado completam o pacote podreira de A Possessão do Mal.

Aqui, o diretor David Jung faz dois movimentos. Primeiro ele sugere que forças espirituais (não necessariamente só as demoníacas) não existem, que é tudo bobagem. Depois ele nos mostra que o preço desse ceticismo absoluto pode ser caro demais, mas em momento algum ele é CONCLUSIVO em afirmar que essas forças existem ou não. TUDO que Michael faz na segunda metade do filme pode ser resultado de uma possessão mas também pode ser consequência direta do uso da droga e do estado emocional deplorável em que ele se encontra. O filme em si não é dos melhores: a câmera em primeira pessoa e o tom documental são interessantes, mas a trasheira demoníaca tende a tornar-se cansativa no final.

Pessoalmente, continuo duvidando da existência de um deus vingativo e de um diabo coletor de almas. A única certeza que tenho após ver A Possessão do Mal é que eu nunca deixarei de pagar o parquímetro (quem viu ou for ver o filme entenderá o motivo) rs

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Celular (2016)

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CelularPronto, voltei! 🙂

Depois de um cansativo primeiro semestre trabalhando em dois empregos, pude finalmente sair de férias e descansar. Aproveitei a oportunidade para realizar um sonho antigo: após 30 anos de existência nesse mundão velho, finalmente consegui transcender os limites territoriais do nosso querido Brasil e, junto da minha esposa, passei uma semana incrível sob o calor escaldante do México.

Programei a viagem de modo que, entre tacos, ruínas maias e praias paradisíacas, sobrasse uma tarde livre para ir ao cinema. Sei que, como um amigo brincou em uma foto que postei no Facebook, “ninguém vai para Cancún para assistir filmes”, mas, cinéfilo que sou, não pude resistir à vontade de conhecer uma sala de projeção de outro país. Na minha bagagem, mais do que as tradicionais bugigangas (eu comprei um apito de coruja, caras rs), eu queria trazer experiências, e consegui uma bem interessante vendo esse Celular por lá.

O áudio do filme estava no idioma original, em inglês, e as legendas estavam em espanhol. Mesmo sem dominar a língua, não é difícil extrair o significado geral, por assim dizer, de uma frase escrita em espanhol, certo? Muitas palavras são iguais ou parecidas. O que pega mesmo, principalmente para a leitura dinâmica que precisa ser feita para as legendas (acompanhando simultaneamente a imagem e o texto) são os falso cognatos. Basta confundir uma palavra e pronto, tu perde um diálogo inteiro. A solução que encontrei para esse “problema” foi confiar no meu inglês e concentrar a atenção nos diálogos, deixando as legendas como último recurso para compreender o que estava sendo falado. Até que deu certo: fiquei perdido em pouquíssimos momentos, de modo que considerei a experiência bastante positiva. Sobre o cinema em si (rede Cinépolis), acrescento ainda que fiquei impressionado com a estrutura do mesmo (cadeiras hiper confortáveis, tela gigante) e satisfeito com o valor do ingresso: num baita de um domingão, paguei 44 pesos (cerca de 11 reais) por um ingresso, sendo que por aqui costuma ser pelo menos o dobro disso.

Celular - CenaFeitas estas considerações, vamos ao filme. Num episódio da segunda temporada do Family Guy, o MacFarlane brincou com o fato do Stephen King utilizar premissas bizarras para seus livros (o trecho pode ser visto clicando aqui). Não pude deixar de lembrar dessa piada após ver os primeiros 10min de Celular, que é baseado em um romance do escritor. Eis o que acontece: Clay Riddell (John Cusack) desembarca de um avião e vai para o saguão do aeroporto. O personagem, que é uma espécie de artista gráfico, está feliz por ter conseguido fechar um bom contrato com uma empresa de jogos. Clay liga para a ex-mulher para contar as novidades e para falar com o filho, mas o celular dele acaba a bateria e a ligação cai. Eis então que surge um forte zunido e …. TODO MUNDO QUE ESTÁ FALANDO NO CELULAR TRANSFORMA-SE EM ZUMBI!

Assim, sem mais nem menos. É meio que uma tradição de histórias de zumbi não revelar a origem do problema e, sinceramente, eu até acho isso legal, mas não deixa de ser bizarro e até mesmo engraçado a forma abrupta como as coisas acontecem por aqui. O figurante está lá, falando tranquilamente no celular, aí rola o barulho, ele começa a ter umas convulsões, coloca sangue pela boca e pelos olhos e já sai mordendo e matando outras pessoas. Esse começo, aliás, lembra as grandes obras do chamado terrir de diretores como o Sam Raimi, filmes de terror onde o exagero do gore acaba ganhando traços cômicos: tão logo fiquei chocado com a exibição de vísceras e ossos quebrados, comecei a dar risada da ferocidade animalesca dos zumbis e das caras de susto do Cusack.

Celular - Cena 2Na sequência, Clay une-se a outros sobreviventes, dentre eles Tom McCourt (Samuel L. Jackson) e foge do aeroporto. Os zumbis, que são bastante rápidos, perseguem o grupo e continuam fazendo vítimas. Clay convence Tom a ajudá-lo a procurar por seu filho e sua ex-mulher e então os personagens começam a peregrinar através dos destroços do que outrora fora uma cidade civilizada. O perigo constante obriga os personagens a esconderem-se em vários locais e fazerem alianças com outros sobreviventes, como a Órfã feiosa Alice (Isabelle Fuhrman).

Acredito que a intenção do King com esse Celular seja criticar o uso exacerbado que fazemos do aparelho nos dias de hoje. Para comprovar a força da analogia do escritor que compara os usuários a zumbis, basta sair na rua e observar as pessoas andando e/ou dirigindo completamente imersas nos conteúdos exibidos na tela de seus smartphones. Eu, que me considero bastante viciado em redes sociais e outros aplicativos, não deixei de fazer a auto crítica que a história estimula e estou tentando diminuir progressivamente o uso do aparelho e dar mais atenção para as pessoas e coisas ao meu redor. Não quero ser visto como um zumbi cultuador de uma antena de companhia telefônica rs

Celular - Cena 4O começo de Celular é estranho mas bom, a ideia de um apocalipse zumbi provocado por telefones é divertida e há umas duas cenas realmente legais aqui (estou pensando na queima de zumbis no estádio e no sujeito paranoico cheio de explosivos), mas no geral eu achei o filme bastante cansativo. O diretor Tod Williams gasta muito tempo com diálogos e divagações pouco interessantes (cala a boca, Samuel! rs) e não preocupa-se em explicar melhor aspectos importantes da história, como a relação do personagem fictício criado por Clay com os eventos do filme. Quando Celular termina, com AQUELA música tornando AQUELE final ainda mais bizarro, fiquei com a sensação de ter visto algo bastante diferente, mas não necessariamente algo bom.

Es una película extraña rs

Celular - Cena 3

Halloween 6: A Última Vingança (1995)

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Halloween 6 - A Última VingançaAntes do texto, seguem algumas “curiosidades” sobre a produção desse Halloween 6: A Última Vingança que julguei interessante compartilhar com vocês para reforçar o que será dito na sequência.

Obs.: As informações foram retiradas da página do filme no IMDB e a tradução, não necessariamente literal, fui eu mesmo que fiz.

  • A maioria do elenco e da equipe de produção renegaram o filme. Em entrevistas, eles declararam que o estúdio, os produtores e o diretor interferiram de forma ridícula no processo, o que resultou em um filme com edição e direção medíocres.
  • De acordo com a Daniella Harris (Nota: atriz que aparece no Halloween 4 e 5), a plateia do cinema estava vaiando quando a mãe dela foi assistir o filme.
  • Provocando raiva na maioria do elenco e da equipe de produção, várias refilmagens e edições foram feitas. Devido a essas mudanças, muitos deles juraram nunca mais participar de outro filme da série Halloween.
  • Muitas das cenas do Donald Pleasence (Nota: o protagonista) foram cortadas do filme porque o diretor Joe Chappelle achou-o “tedioso”.
  • O roteiro teve 11 versões diferentes.
  • Muitos membros da equipe de produção disseram que o diretor Joe Chappelle declarou desde o início que ele não gostava dos filmes da série Halloween. Segundo ele, o único motivo para ele ter envolvido-se com o projeto era conseguir um contrato de mais 3 filmes com a produtora (Miramax).

Fiz questão de procurar o contexto em que o filme foi produzido e transcrever aqui as informações que encontrei para que vocês, ao lerem a resenha, não fiquem com a impressão que estou exagerando nas críticas ou que estou de mau humor. Halloween 6: A Última Vingança é uma bosta completa. Só não digo que ele é o pior filme da série que vi até agora porque esse posto permanece sendo do Halloween 3 (um longa que, além de não ter o Michael Myers, tem aquela musiquinha irritante da Silver Shamrock), mas ainda sim trata-se de um derivado extremamente dispensável da história criada pelo John Carpenter.

Halloween 6 - A Última Vingança - CenaAqui, conforme o título original sugere (The Curse of Michael Myers ou A Maldição de Michael Myers), a proposta era contar uma história que fizesse os tradicionais links com os filmes anteriores e, ao mesmo tempo, explicasse como o assassino de Haddonfield adquiriu seus “poderes”. Sabe aquelas habilidades legais como teletransporte, localização aprimorada, imunidade e regeneração infinita que todo vilão de filme de terror possui? O Myers conseguiu as dele após ser amaldiçoado pela Maldição de Thorn, um ritual milenar celta (!!!) que visa oferecer sacrifícios de sangue para garantir a paz na sociedade (!!!²). A única forma de ele ficar livre da maldição é matar todos os membros de sua família (!!!³).

E, fazendo uma rápida recapitulação mental, quem sobrou vivo da família do Myers após 5 filmes? Só a sobrinha dele, Jamie (J.C. Brandy) aquele menininha que termina o Halloween 5 gritando por saber que, mais cedo ou mais tarde, o titio voltaria com sua faca gigante para atormentá-la. Teoricamente, portanto, bastaria o Myers matá-la para ficar livre da maldição, certo? Calma lá, não é tão simples assim. Eis o que acontece:

Halloween 6 - A Última Vingança - Cena 2

  • Jamie é sequestrada, ainda criança, pelo misterioso homem da capa preta do filme anterior. Esse homem tem poderes sobre o Myers. Anos depois. esse homem faz com que o Myers estupre e engravide Jamie em um ritual demoníaco. Dessa perversão, nasce o bebê Steven.
  • Jamie foge do cativeiro levando Steven. Ela liga para uma estação de rádio de Haddonfield e avisa que Myers está voltando. Movimento natural, ninguém acredita nela. Antes de ser localizada e atacada por Myers, ela esconde Steven dentro do banheiro de uma estação de ônibus.
  • O homem da capa preta precisa de Steven para realizar o ritual no qual ele passaria os poderes de Myers para outra pessoa. Junto com o assassino, ele vai para Haddonfield no dia de Halloween procurar pela criança, mas o bebê é encontrado primeiro por Doyle (Paul Rudd, o Homem Formiga, em seu debut cinematográfico), um homem que tornou-se obcecado por Myers após sobreviver a um ataque dele no passado.
  • No meio dessa confusão toda, está um cansado Dr. Loomis (Donald Pleasence) em sua eterna e inglória tentativa de conter Myers e Kara (Marianne Hagan), uma mulher que mora na antiga casa do assassino e cujo filho, Danny, é o escolhido do homem da capa preta para receber a maldição.

Halloween 6 - A Última Vingança - Cena 3Achou confuso? Acredite, eu me esforcei bastante para sintetizar da forma mais simples e direta possível o que vi, mas a grande verdade é que o roteiro de A Última Vingança é um desastre completo. Não por acaso, como listado lá no começo da resenha, reescreveram a história incríveis 11 vezes na tentativa de dar coerência para o material, mas ainda assim o resultado é um filme caótico no sentido mais pejorativo da palavra. A relação do culto celta com o Sanatório Smith’s Grove é forçada, as ligações com os filmes anteriores (feitas principalmente com os personagens Kara e Doyle) não são suficientemente explicadas e a sequência final, além de praticamente ininteligível (como o Donald Pleasence morreu após o término da produção, as tais refilmagens feitas sem ele ficam bizarras), é ruim, frouxa. Dá vontade de vaiar mesmo.

Mesmo com todos os buracos do roteiro e problemas da produção, Halloween 6: A Última Vingança poderia ter dado certo. Sendo bem sincero, os slasher movies (gênero do qual a série faz parte) não são conhecidos por seus roteiros complexos e/ou coerentes. O Halloween 4, por exemplo, tem uma história extremamente básica e é um bom filme. Não dá para esperar algo legal, porém, de um diretor que não gosta da franquia e que trabalhou apenas por obrigação, desrespeitando tanto a equipe de produção como os fãs. Não se faz um Halloween sem a tradicional e divertida abertura com a abóbora. Não se faz um Halloween achando o Donald Pleasence “tedioso”. Não se faz um Halloween com várias mortes (talvez seja o filme que o Myers mais trabalhou até agora), porém todas genéricas e esquecíveis.

Depois desse filme, o diretor Joe Chappelle assinou o contrato que ele queria, dirigiu alguns filmes irrelevantes (ou será que alguém aí é fã do CONHECIDÍSSIMO Caçada Virtual?) e acabou terminando no semi anonimato das séries de TV. Bem feito.

Halloween 6 - A Última Vingança - Cena 4AVISO AOS LEITORES: Pessoal, depois de um semestre bastante cansativo, estou finalmente saindo de férias. Viajo amanhã e volto só no começo de agosto, de modo que o blog deve ficar pelo menos uns 15 dias sem atualizações. Não desistam de mim rs

Abraços

O Cemitério Maldito (1989)

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O Cemitério MalditoTerminei há umas duas semanas as 395 páginas do O Cemitério, livro do escritor Stephen King que ganhei de aniversário de um amigo que prezo muito. Já vi muitas adaptações cinematográficas da obra do King (Um Sonho de Liberdade, Tempestade do Século, Carrie, etc), mas esse foi o primeiro romance dele que li (também conheço o Dança Macabra, mas esse é um estudo sobre gêneros literários, então não conta). O cara é mesmo muito bom naquilo que ele faz. King descreve ambientes sem tornar-se enfadonho, faz-nos constantemente ouvir a voz interna de seus personagens (o que sempre rende divertidos comentários sarcásticos), demonstra um bom conhecimento da cultura pop e narra uma trama de mortes, maldições indígenas e blasfêmias com a naturalidade de alguém que está sentado em uma mesa de bar tomando uma cerveja e contando uma história. De fato, ele merece o posto de “Mestre do Horror e da Fantasia” que consta na capa da edição que ganhei.

Movimento natural, terminei o livro e procurei o filme baseado nele para assistir. O Cemitério Maldito, produção que inspirou o clássico Pet Sematary dos Ramones, foi dirigido pela diretora Mary Lambert e contou com um roteiro adaptado pelo próprio Stephen King, que ainda supervisionou as filmagens e interpretou um personagem na trama. O que conclui-se a priori à partir dessas informações é que esta versão cinematográfica é o produto mais próximo do livro que o leitor poderia esperar, certo? Ainda que, no geral, o filme seja competente em recriar os cenários e acontecimentos descritos pelo escritor, devo dizer que não fiquei muito empolgado com o que vi. Abaixo, colocarei os meus motivos sem preocupar-me em soar pedante, visto que senti falta no filme justamente de alguns detalhes que, ao meu ver, fazem o livro brilhar. Texto com SPOILERS.

O Cemitério Maldito - CenaLouis Creed (Dale Midkiff) é um médico que muda-se de Chicago para Ludlow, uma cidadezinha no interior do Maine, para assumir a vaga no hospital da universidade local. Junto com ele, vai a esposa, Rachel (Denise Crosby), os dois filhos, Ellie (Blaze Berdahl) e Gage (Miko Hughes), e o gato da família, Church. Logo em seu primeiro dia em Ludlow, Louis conhece Jud Crandall (Fred Gwynne), um velhinho simpático e um tanto quanto misterioso que aconselha-o a manter os filhos longe da estrada que passa nas proximidades de sua nova casa. Ali, Jud diz, muitos animais já morreram atropelados pelos carros e caminhões que sempre trafegam em alta velocidade. Para comprovar o que disse, o velho conduz Louis e sua família por um caminho que adentra uma floresta próxima até o “Simitério de Bichos”, (assim, com a grafia errada mesmo), local onde as crianças de Ludlow habituaram-se a enterrar seus animaizinhos de estimação mortos na estrada.

No livro, o simples fato de Louis levar sua família até o Simitério de Bichos já torna-se motivo de discussão entre ele e a esposa, que tem dificuldade e resistência para lidar com o tema da morte. No filme, essa tensão entre o casal é deixada de lado para que a história siga com o primeiro dia de serviço do médio na universidade, no qual ele presencia a morte violenta do jovem Victor Pascow (Brad Greensquist). Essa abordagem mais “direta ao ponto” do filme, na minha opinião, deixa de lado um dos melhores aspectos do livro, que é o desenvolvimento do personagem principal, Louis Creed.

O Cemitério Maldito - Cena 3Nas páginas de O Cemitério, Louis é um cara normal, com defeitos e qualidades (ele, por exemplo, xinga mentalmente os filhos e a esposa quando eles lhe dão trabalho mas nem por isso deixa de tratar-lhes com carinho), que acaba experimentando o gosto amargo da hipocrisia quando abandona seu discurso racional de médico para ceder ao misticismo frente à morte. A ladeira emocional que o personagem percorre no livro, passando de um homem seguro de si para uma figura histérica e paranoica, é praticamente toda ignorada pelo roteiro do filme, que concentra seus esforços em mostrar os principais momentos da história sem levar em consideração seus aspectos psicológicos. A reconstrução do Simitério de Bichos, bem como a maioria dos cenários (a casa dos Creed, a estrada, o cemitério MicMac), ficou perfeita, mas a ausência da voz interna de Louis para exemplificar sua caminhada rumo à loucura realmente fez falta. O Louis do livro é um cara que xinga os filhos (rs), o do filme é só um almofadinha de topete sem nenhuma personalidade.

O Cemitério Maldito - Cena 2Sem a parte da trama em que o Stephen King valia-se da mente perturbada de Louis para destilar sarcasmo e humor negro, resta uma história regular de suspense/terror em que uma família é acometida por acontecimentos fantásticos. Tal qual Jud havia avisado, era bom evitar a estrada que ficava próxima da casa, e o descumprimento desse aviso mata, em momentos alternados, Church e Gage. Dilacerado pela dor, Louis enterra o filho e o gato no Cemitério Micmac, um antigo cemitério indígena escondido no coração da mesma floresta onde estava o Simitério de Bichos. Os poderes do local fazem com que os mortos retornem à vida, mas também os transforma em criaturas malignas capazes de matar e de falar palavrões. A cena mais importante da história, o confronto final entre Louis e suas seringas mortais e Gage, ficou bem legal, mas momentos igualmente bacanas como a briga no velório e a incursão noturna no cemitério de Ludlow ficaram muito apagadas.

O Cemitério é um desses livros que fazem a gente apaixonar-se por um escritor e querer ler mais e mais de suas obras (em breve começarei a série A Torre Negra), já O Cemitério Maldito, mesmo perdoando-se as perdas necessárias para adaptar-se um livro para o cinema, é só um desses filmes de terror comum com crianças falando coisas esquisitas.

O Cemitério Maldito - Cena 4

Boa Noite, Mamãe (2014)

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Boa Noite MamãeNos comentários do meu texto sobre o Halloween 5, o leitor Bryan M. apontou o fato de que eu não vejo filmes de terror com tanta frequência e indicou 3 títulos do gênero para que eu resenhasse. A minha primeira reação foi pensar que ele estava errado, visto que eu adoro filmes de terror, mas tive que dar-lhe razão quando olhei o contador de posts por categoria ali do lado direito da página. Os números apontam que, desde que comecei o blog, vi praticamente a mesma quantidade de longas de terror e de romance (gênero que raramente desperta minha atenção), ou seja, o Bryan M. está certo rs Assim sendo, escolhi esse Boa Noite, Mamãe dentre as indicações feitas pelo leitor e decidi fazer dele um primeiro passo para corrigir essa “falha” do blog.

Dirigida e escrita pela dupla Severin Fiala e Veronika Franz, esta recente produção alemã explora a relação tempestuosa entre os gêmeos Elias (Elias Schwarz) e Lukas (Lukas Schwarz) com a “mamãe”, personagem interpretada pela atriz Susanne Wuest. Logo após a exibição de um vídeo antigo onde uma mãe e seus filhos cantam uma música sobre amor, vemos Elias e Lukas perambulando por uma propriedade rural. Os lugares pelos quais eles passam (um milharal, uma lagoa silenciosa e uma gruta) são sombrios e há qualquer coisa de estranho nos diálogos deles, mas logo os diretores dão um jeito de nos fazer deixar essas desconfianças de lado para nos apresentar a controversa figura da mãe dos garotos.

Boa Noite Mamãe - Cena 4Recém operada, a personagem aparece na tela com o rosto todo enfaixado. Sobre essa situação, somos informados apenas que ela sofreu um acidente. A mamãe, como os gêmeos a chamam, está visivelmente irritada e sem paciência com os filhos. Ela repreende Elias o tempo todo e parece não dar muita atenção para o que Lukas diz. O que começa com atritos familiares corriqueiros logo evolui para uma situação insustentável de medo e insegurança: as crianças não acreditam que aquela mulher seja sua verdadeira mãe e passam a conspirar contra ela.

A narrativa de Boa Noite, Mamãe é construída em cima de um suspense crescente que desemboca em uma sequência de puro terror no final. Ao meu ver, os diretores dão dicas demais e entregam muito cedo o “segredo” relacionado aos gêmeos, mas isso não estraga a tensão que eles conseguem criar entre a mãe e os filhos durante todo o filme. Não sei se consegui compreender completamente a metáfora contida no vídeo que abre a trama (recurso que lembra as produções de outra dupla de diretores, os irmãos Coen), mas o longa parece abordar as dificuldades inerentes ao processo de educação e os lugares obscuros que a mente humana pode ir após sofrer um grande trauma.

Boa Noite Mamãe - CenaÉ claro que a mamãe não deixou de amar os filhos após o acidente, mas as dores físicas que ela sofre devido a cirurgia e a falta de alguém para ajudá-la a cuidar das crianças tornam suas tarefas maternas estressantes e penosas. Elias e Lukas, por outro lado, estão fragilizados e parecem carregar um sentimento de culpa. Todas essas dificuldades poderiam aproximar a família e uni-la em torno de um objetivo comum (superação), mas acaba acontecendo exatamente o contrário. Antes de apresentar o perturbador ato final, os diretores fazem com que mãe e filhos sabotem-se de todas as formas possíveis, coisas terríveis que vão desde matar animais de estimação até sonhos bizarros, que envolvem fazer o outro comer baratas gigantes.

Boa Noite Mamãe - Cena 2Quando essas implicâncias finalmente chegam as vias de fato, o filme transforma-se em uma experiência de terror psicológico capaz de acabar com o dia de qualquer um. As imagens de violência explícita, que envolvem cortes e queimaduras, não são das mais fortes e gráficas, mas a IDEIA que é trabalhada ao longo do filme e que ganha vida no final é das mais assustadoras. Pensem bem: temos duas crianças e uma adulta, todos com os corações cheios de medo, ódio e ressentimento, trancados em uma casa isolada no meio do nada. A chance de um cenário desses dar errado bate na casa dos 100% e os diretores não decepcionam quem quer ver o inferno de perto. O frenesi de loucura entre o trio até é interrompido pela visita repentina de um casal de velhinhos (o que não deixa de ser um clichê, mas que funciona muitíssimo bem), mas após isso o pior acontece e a gente fica sem reação ao ver que, ao contrário do que rola em outros filmes, aqui não houve medo de levar o conflito entre os personagens até as últimas consequências.

Boa Noite, Mamãe começa com todo o tipo de filme de terror genérico, apoiando-se num segredo previsível e com crianças falando coisas esquisitas, mas o desenvolvimento da história e o final são muito bons e surpreendem positivamente. A última cena (a do milharal) é o tipo de coisa que a gente não esquece fácil. Fica a indicação e o agradecimento ao Bryan M. pela excelente indicação.

Boa Noite Mamãe - Cena 3

A Bruxa (2015)

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A BruxaTodo mês estreia pelo menos um “filme mais assustador dos últimos anos”. Não é sempre, porém, que vemos um cara como o Stephen King dizendo que foi ao cinema e ficou “assustado pra caralho”. O fato aqui é que esse A Bruxa recebeu uma campanha de marketing fortíssima e criou uma grande expectativa nos fãs de filmes de terror. A boa notícia é que, desta vez, ao contrário do que acontece corriqueiramente, o público não sairá do cinema decepcionado com outro festival infantil de sustos bobos. Com uma história sólida, repleta de simbolismos e imagens perturbadoras, o diretor e roteirista Robert Eggers nos leva até o fundo do inferno para dar uma voltinha nas costas do bode Black Phillip. Texto com SPOILERS.

Na Nova Inglaterra do século XVII, os camponeses William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie), bem como seus quatro filhos, são expulsos de uma comunidade devido à divergências religiosas. Dispostos a dedicarem suas vidas à contemplação de Deus e de sua obra, eles mudam-se para um território distante, localizado às margens de uma floresta, e iniciam a construção de um rancho. Tudo caminha relativamente bem até o dia em que o bebezinho da família desaparece bem na frente de Thomasin (Anya Taylor-Joy), a filha mais velha do casal.

Dentre as muitas frases de efeito utilizadas no trailer de A Bruxa, esta não saiu da minha cabeça: “é como se estivéssemos assistindo algo que não deveríamos ver”. Ponto para quem definiu o filme dessa forma e ponto para o diretor, que combinou uma fotografia cheia de tons escuros e músicas agoniantes para criar uma experiência intimista e assombrosa. De fato, acompanhar a história dá uma sensação constante de estarmos presenciando algo proibido, tanto que, durante a sessão, não ouvi nenhuma das costumazes (e irritantes) risadinhas que predominam nas exibições de filmes de terror. A impressão que tive é que todo mundo ali estava vivenciando o mesmo pesadelo.

E o que o filme tem de tão “pesado” assim? Pra começar, a ambientação dele reúne uma quantidade enorme de elementos capazes de arrebentar com o psicológico de qualquer um. Vejam só: além da questão religiosa, que evoca a sempre polêmica dicotomia entre o bem e o mal (falarei disso abaixo), há ainda o tenebroso cenário da floresta. William muda-se com a sua família para o meio do nada e constrói uma casa frágil em um lugar hostil. Ali, além de estarem expostos aos perigos da natureza (mudanças climáticas, ataques de animais silvestres, doenças) os personagens estão abandonados à própria sorte, já que não há outros humanos por perto. Durante o dia, a sombra ameaçadora da floresta domina tudo. À noite, a escuridão reina absoluta. Sinceramente, não é o tipo de lugar que uma pessoa mentalmente sã escolheria para criar os filhos.

A Bruxa - Cena 2William, no entanto, não tem nada de insano. Podemos dizer até que ele é um sujeito bem ponderado. A “questão” aqui é que ele também é um homem de pensamento ortodoxo, alguém que não está disposto a desviar-se um passo sequer do caminho que ele acredita que garantirá-lhe a salvação eterna. Firme com a esposa e disciplinador com as crianças, o personagem tenta viver em retidão, mas não é exatamente isso que percebemos quando olhamos com atenção para ele e para cada um dos membros de sua família. William é orgulhoso e mentiroso, Katherine é rancorosa e apegada à bens materiais, Caleb (Harvey Scrimshaw) tem pensamentos pecaminosos envolvendo a irmã mais velha e os gêmeos… bem, os gêmeos são feios, chatos e maldosos. Por último, temos Thomasin, uma menina que vemos pedindo perdão por “pecados “bobos no começo da história e que, à medida que o filme avança, vai contaminando-se por todo o mal que a cerca e transformando-se na protagonista da trama.

A Bruxa - Cena 4Temos, portanto, uma família vivendo em um ambiente medonho e lutando ao mesmo tempo contra perigos reais e contra o mal que habita o coração de cada um deles. É claro que isso não iria acabar bem. O diretor Robert Eggers dá tempo para que cada um dos personagens demonstre suas fraquezas, nos leva para um primeiro passeio dentro da floresta, revela (através de imagens doentias de seres deformados vivendo dentro de uma cabana) que o mal aqui não será tratado apenas como uma força metafórica e, com o cenário armado para nos fazer gritar e encolher na cadeira em posição fetal, ele finalmente revela o plano maligno do bode Black Philip. Colocado dessa forma, pode até parecer exagerado e engraçado (plano maligno do bode Black Philip!), mas duvido que alguém dará risada quando o bode conversar com Thomasin. Sabe quando a gente sente aquele frio na barriga, como se todo o nosso sangue tivesse abandonado o corpo? Foi exatamente assim que eu me senti na cena em que o Black Philip revela sua intenção de comprar a alma de Thomasin. Depois disso, tal qual alguém que entra em estado de choque, observei atônito a garota adentrar a floresta à noite seguida pelo bode e transformar-se na tal bruxa do título. Esse cena, aliás, é algo que eu tenho certeza que nunca esquecerei, tanto por ser extremamente bem executada quanto por ser uma das coisas mais aterrorizantes que já vi em um filme.

A Bruxa - Cena 3A Bruxa mergulha no sempre complicado tema da religião e, como não poderia deixar de ser, posiciona-se sobre o mesmo. Vejo que o diretor não deixa de “demonizar” o ortodoxismo, retratando de forma pejorativa a rigidez das regras e apontando a hipocrisia de seus praticantes. Não podemos deixar de notar, porém, que o filme mostra as consequências diretas para quem desvia-se do caminho do bem, ou seja, corromper-se pelo mal, no fim das contas, ainda é uma escolha que pode ser evitada. De certa forma, é como se Eggers nos dissesse: religião é uma droga, mas se você for mauzinho tu receberá a visita do Black Philip. Melhor não arriscar.

Por último mas não menos importante, A Bruxa ataca o nosso psicológico, não a nossa inteligência. Ver um bode rasgando o ventre de um homem e um corvo “mamando” no seio de uma mulher é muito mais bizarro e perturbador do que todos os sustinhos bobos típicos dos filmes de terror atuais reunidos. Aqui você não ficará assustado por conta de um gato passando na janela ou alguém aparecendo do nada e colocando a mão no ombro de outra pessoa, aqui tu morrerá de medo porque tudo o que você teme relacionado aqueles personagens acontecerá MESMO, bem diante dos seus olhos. Ao meu ver, A Bruxa já nasce clássico. Mais do que sequências, porém, torço para que o que vi aqui vire tendência dentro do gênero terror: chega de filmes para casais adolescentes abraçarem-se mais forte, eu quero mesmo é chegar em casa depois do cinema e perder o sono.

A Bruxa - Cena