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Alien: Covenant (2017)

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Eu gostei MUITO do Prometheus. Já passaram-se 5 anos desde que o Ridley Scott resolveu revisitar a franquia Alien e explorar as origens daquele universo, mas ainda lembro como se fosse ontem do quão empolgado eu fiquei quando saí do cinema após ver aquela história sobre Arquitetos, androides e a busca pela origem da vida.

Aparentemente, porém, nem todo mundo gostou do que viu. Clicando aqui, você lê uma nota sobre as mudanças que o diretor precisou fazer nessa sequência devido a rejeição de boa parte do público ao que foi mostrado no Prometheus. Nunca saberemos se Paradise Lost (Paraíso Perdido), a ideia que ele planejou originalmente para a sequência, calaria a boca dos críticos, mas é fato consumado que Alien: Covenant, com seus cenários equivocados e repetições, representa um passo atrás para a franquia.

A resenha conterá SPOILERS do Prometheus, ok?

É no espaço, aquele lugar onde ninguém te ouvirá gritar, que começa Covenant. Responsável pela nave cujo nome dá título ao filme, o androide Walter (Michael Fassbender) cuida para que a tripulação permaneça no sono criogênico até que o destino, um planeta distante que apresenta características semelhantes as da Terra, seja alcançado. Um incidente coloca em risco a integridade da nave e obriga Walter a acordar o pessoal antes da hora. Mesmo abalados pelas severas avarias e pela perda de seu capitão (participação relâmpago do James Franco), os membros da tripulação decidem interromper a viagem para checar um sinal de vida captado pela Covenant durante o tumulto. Daniels (Katherine Waterson) é a única que opõe-se a ideia de abandonar a missão original, mas seus argumentos são vencidos pela determinação do novo capitão, Oram (Billy Crudup), um homem de fé que acredita estar diante de uma oportunidade única de visitar e colonizar um novo planeta.

Quando assisti o trailer do Covenant, fiquei curioso para ver como todos aqueles cenários abertos seriam usados em uma franquia que, no princípio, valeu-se dos corredores escuros da nave Nostromo para criar uma ambientação claustrofóbica. Campos de trigo e florestas certamente ficam muito bonitos numa tela grande de alta definição, mas desconfiei que essas locações não funcionariam para o filme. E não funcionaram. O Alien não é o Predador, Ridley Scott. Não foi legal (e não deu medo) ver o xenomorfo esgueirando-se no meio daquele matagal e, na segunda metade da trama, toda aquela sequência na cidade abandonada (outro lugar enorme e aberto) foi apenas tediosa.

Se, ao tentar inovar, o diretor errou a mão, ele também não teve muita sorte quando apegou-se aos elementos clássicos da série. Estão lá a tradicional cena do peito explodindo de dentro pra fora, a protagonista seminua de cabelo curto, o androide traíra e o confronto final entre humanos e criatura. Não que essas cenas sejam ruins, mas a proximidade delas com o que já foi usado nos longas anteriores torna o material pra lá de previsível. Comparem a “batalha final” de Covenant com o clímax do Oitavo Passageiro. É praticamente a mesma coisa.

“Ah, mas você reclama quando o cara muda os cenários e também reclama quando ele repete certos elementos. Incoerência”. Reclamo mesmo. Não é incoerência. O problema aqui não é a mudança e/ou a repetição em si, mas a qualidade do que foi feito. A nova ambientação é ruim (botaram o alien no meio de um matinho, caras) e não foi lá muito surpreendente o fato de, mais uma vez, utilizarem o espaço como esquife para o xenomorfo.

A parte boa de Covenant acaba sendo justamente o desenvolvimento das teorias sobre a criação que foram mostradas no Prometheus. David e Elizabeth “retornam” à trama para reforçar a ideia de que a vida na Terra foi criada não pelo Deus bíblico, mas sim por viajantes espaciais que, aparentemente, não ficaram muito satisfeitos com sua criação e preparam-se para elimina-la. A primeira cena do filme, aquela que mostra David conversando sobre a essência da vida com seu criador, Peter Weyland (Guy Pearce), é disparado o momento mais inspirado de Covenant. O diálogo, que traz reminiscências do clássico Frankenstein (a criatura que levante-se contra o próprio criador) é bastante útil para entender a mudança de comportamento de David ao longo de Prometheus e contribui significativamente para que, no fim deste filme, a gente entenda com alguma antecedência o que acontecerá.

Alien: Covenant era uma das produções que eu mais queria assistir em 2017. Sabe quando anunciam aquelas listas de lançamentos do ano seguinte? Pois é, eu estava doido para ver este filme. Reservei uma tarde de sexta da minha semana, que é sempre muito corrida, só para ir ao cinema. Vibrei com a cena inicial que comentei no parágrafo anterior, mas após isso vi o Alien ser transformado em coadjuvante dentro de sua própria franquia e não gostei nenhum pouco disso. Nem o enorme talento do Fassbender justifica tamanho sacrilégio. A parte da ficção científica de Covenant é muito bem feita, com todos aqueles equipamentos high tech e naves espaciais enchendo a tela, mas há pouco terror, sangue e ácido alienígena aqui. Não deu certo, Ridley Scott. Da próxima vez, segue o plano original.

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Corra! (2017)

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Querido leitor: dentre as situações abaixo, qual tu considera mais assustadora?

  1. Programar uma ida ao cinema na única noite livre que você tem na semana e, chegando lá, descobrir que o filme que você quer assistir (no caso, o Alien: Covenant) só está disponível na versão dublada.
  2. Acordar no meio da madrugada, durante uma  viagem de ônibus interestadual, com o passageiro ao lado passando a mão nas suas partes íntimas.
  3. Acordar no meio da madrugada com o próprio capiroto gritando dentro da sua casa. Após sair da cama e ir verificar o que aconteceu, você descobre que um gato preto pulou a janela e tentou atacar sua gatinha, que defendeu-se como pode.
  4. Um filme de terror que desperdiça uma ideia bacana ao quebrar constantemente o clima de suspense com piadas bobas .

1) Continuo morrendo de medo dessa preferência que redes de cinema como o Cinépolis tem dado para os filmes dublados. 2) Antes de conseguir soltar um “AÍ NÃO, CAMARADA!”, fiquei momentaneamente paralisado quando acordei e percebi que havia um cara me bolinando. Filho da puta! 3) No dia do gato preto, quando ouvi o barulho dos bichos se enroscando, eu gritei de medo. Sinceramente? O som foi tão alto e demoníaco que eu achei que alguém estava sendo assassinado dentro da minha casa. 4) Corra!, longa que muita gente apressou-se em classificar como “um dos filmes mais assustadores dos últimos anos”, só me deu sono. Não raramente, a vida real é bem mais assustadora do que a ficção.

Eu não havia planejado assistir  esse filme e não o fiz por acreditar que ele tinha alguma chance de ser o “mais assustador e blablabla”. Fui ao cinema ver o Alien: Covenant, mas como não animei pagar por uma sessão dublada, acabei optando pelo Corra! mesmo.

Na minha cabeça, o debut cinematográfico do diretor Jordan Peele, mesmo que não fosse algo revolucionário, seria um filme de terror podreira decente, ou seja, o tipo de material legal para assistir numa quinta feira à noite. O começo, aliás, é deveras promissor. Andando sozinho à noite numa rua mal iluminada (que cenário perfeito, não?) um jovem negro percebe que está sendo seguido por um carro branco. O rapaz até tenta fugir, mas acaba sendo imobilizado por seu perseguidor e jogado no porta malas do carro. O veículo acelera e a música “Run, Rabbit Run” é executada. O contraste entre a violência mostrada e a melodia alegre geram um clima macabro e a gente fica doido para saber o que acontecerá a seguir.

Rosquinhas. É isso que aparece na sequência: uma mulher comprando rosquinhas. Rose (Allison Williams) pega os quitutes em uma padaria e vai até a casa de seu namorado, Chris (Daniel Kaluuya), para tomar o café da manhã. Após 4 meses de relacionamento, Rose quer levar Chris para conhecer os pais, mas há um “problema” nisso: ela é branca e ele é negro. Somando isso ao fato de, na cena inicial, um negro ser perseguido por um carro branco, entendi que o filme seria uma espécie Adivinhe Quem Vem Para Jantar versão terror, ou seja, o diretor Jordan Peele valeria-se de um pouco de sangue para falar sobre racismo e temas correlatos.

Não utilizarei SPOILERS, portanto não aprofundarei na forma como a questão racial é trabalhada dentro do filme (o tal Projeto Coagula). Fazê-lo implicaria, por exemplo, dar detalhes da “revelação” que é feita no final e certamente estragaria a surpresa para quem ainda for assistir. Posso dizer, porém, que Peele fala de apropriação cultural e utiliza ironias e metáforas (a cena do algodão) para explicitar os conflitos históricos entre brancos e negros. Essa parte da trama, principalmente pela atualidade do tema, é irretocável, mas ainda assim eu queria ver um filme de terror, e nisso Corra! peca bastante.

A mistura entre terror e humor é antiga e tem até um gênero cinematográfico próprio. Não há nada de errado com o chamado terrir: filmes como A Morte do Demônio e Tucker e Dale Contra o Mal são bem divertidos. O que acontece aqui, porém, é que Peele foi ambicioso demais. Ele quis fazer um filme sério (vide as questões raciais abordadas), assustar e divertir ao mesmo tempo. É difícil manter o foco com tanta informação. Ao mesmo tempo que está nos mostrando a falsidade impregnada na postura liberal e progressista dos pais de Rose (Catherine Kenner e Bradley Whitford), o diretor tenta nos assustar com coisas estranhas (um maluco correndo durante a noite, uma mulher que conversa fazendo caretas bizarras) e nos fazer rir com Rod (LilRel Howery), o colega falastrão de Chris. Peele faz uso de uma trilha sonora poderosa, da ambientação majoritariamente noturna e de alguns clichês (o acidente na estrada) para criar um clima de suspense, mas ele sabota o próprio trabalho quando interrompe a tensão com alguma piadinha cretina.

Corra! tem pouquíssimo sangue, um desfecho pouco original (um personagem até brinca com isso citando o De Olhos Bem Fechados) e essa alternância constante (e ruim) entre o humor e o terror como pontos negativos. Não tenho dúvidas que o filme pode encontrar mais aceitação junto de quem estiver diretamente envolvido nas questões raciais apresentadas, mas fiquei com a impressão que o diretor Jordan Peele errou feio em sua tentativa de misturar gêneros. Quem sabe em seu próximo trabalho ele entenda que, algumas vezes, tudo que um filme de terror precisa para dar certo é um assassino em série e adolescentes desmiolados. Ou um gato preto demoníaco. Ou um tarado em um ônibus.

Halloween H20 – Vinte Anos Depois (1998)

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halloween-h20-vinte-anos-depoisQuando a série Halloween completou 20 anos em 1998 (o primeiro é de 1978), os produtores aproveitaram a data para revitalizar a franquia convidando a atriz Jamie Lee Curtis para voltar ao papel da icônica Laurie Strode.

Laurie, irmã de Michael Myers que acreditava-se ter morrido após o segundo filme, foi retirada do limbo pelos roteiristas de Hollywood que criaram para esta continuação uma história onde a personagem fingiu a própria morte para escapar do insistente assassino de Haddonfield. Com o nome de Keri Tate, ela mudou-se para a California, teve um filho (Josh Hartnett) e tentou continuar a vida, mas dia após dia as lembranças de Myers e sua faca gigante continuavam a atormentá-la. Laurie sabia que, mais cedo ou mais tarde, seu irmão apareceria para um acerto de contas definitivo com ela. A abertura de H20 mostra que esse momento chegou.

Como não poderia deixar de ser, o filme começa numa véspera de feriado de Halloween. As crianças estão correndo nas ruas, as abóboras estão sendo esculpidas e uma velha enfermeira, antiga colega de trabalho do finado Dr. Loomis no sanatório Smith’s Groove, está voltando para casa após um dia de trabalho. Na porta, ela encontra sinais de um possível arrombamento e chama a polícia. Diante da demora da viatura, a enfermeira pede para que alguns garotos da vizinhança (dentre eles, o ator Joseph Gordon-Levitt) ajudem-na a vistoriar a casa. Péssima escolha. Poucos minutos depois, Michael Myers sai do local com as informações que ele procurava sobre o paradeiro de sua irmã e com algumas mortes a mais no currículo.

halloween-h20-vinte-anos-depois-cenaEm H20, vemos como o Myers foi para a Califórnia atormentar um pouco mais a pobre Laurie Stroder. Para tanto, o roteiro comandado pelo diretor Steve Miner ignora todas as loucuras que aconteceram do terceiro ao sexto filme da série (fábricas de máscaras assassinas, rituais celtas, etc) para concentrar-se no elemento familiar básico que ditou o ritmo dos dois primeiros títulos: Myers quer matar sua irmãzinha. Essa simplicidade, aliada ao retorno da Jamie Lee Curtis, poderia ter feito a série renascer após uma sequências de filmes ruins e inexpressivos, mas não foi bem isso que aconteceu. H20 é ruim demais e percorrer seus parcos 86min foi chatíssimo.

Para um filme que se propôs a celebrar os 20 anos do lançamento do original, é estranho notar o desapego do diretor e do roteiro por certas tradições da franquia. Abertura com a abóbora? Não. Música tema da série tocando insistentemente até quase explodir nossas cabeças? Não. Peitinhos? Não (e olha que a Michelle Williams está no elenco). Sequência rodada com uma câmera em primeira pessoa? Não. Cidade de Haddonfield? Também não. H20 tem o nome Halloween, mas, tirando o Myers e a Stroder, ele também poderia ter qualquer outro título que a gente não ligaria muito.

halloween-h20-vinte-anos-depois-cena-3O retorno da Jamie Lee Curtis é outro ponto que não funcionou como esperado. A atriz, que debutou nos cinemas no A Noite do Terror, retornou para a série já consagrada após trabalhar com diretores importantes como o James Cameron, mas a real é que a nostalgia que a presença dela deveria provocar não dura mais do que uma cena. Além de não ter deixado o cabelo crescer para o papel (a Stroder original tinha o cabelo grande), a atriz parece estar atuando no automático, com má vontade. As discussões dela com o filho, por exemplo, cenas que poderiam ter uma carga emocional maior, são todas sofríveis.

H20 também peca muito no quesito violência. Seja por opção do diretor ou por censura, a maioria das mortes acontece fora das câmeras. Myers avista uma vítima, caminha em direção a ela, a cena é cortada e, em seguida, vemos um corpo ensanguentado caído no chão. A contagem de corpos também não ajuda: o assassino só começa a trabalhar pra valer depois de uma hora de filme e o rastro deixado por ele é deveras pequeno.

halloween-h20-vinte-anos-depois-cena-4O último e inevitável confronto entre os irmãos não é dos piores. A forma como ele termina, aliás, é bem legal (e dolorosa), mas há tanta coisa ruim antes da Stroder entrar naquela ambulância que nem mesmo o final brutal salva o pacote. Eu já tinha ficado chateado com o Myers ladrão de carros. Eu já tinha torcido o nariz para a cena em que ele corta a perna de uma menina e a mesma foge sem nenhum pingo de emoção. Eu não gostei do humor bobo do zelador da escola. Mas nada, nada mesmo superou a frustração de ver o Myers tentando usar uma chave para abrir um portão. Isto é o tipo de coisa que você não deve colocar um dos maiores slashers da história do cinema para fazer.

Com 3 filmes bons (os dois primeiros e o quarto) e quatro ruins, o saldo da série volta a ficar negativo. O ponto bom é que agora faltam apenas mais 3 longas (não pretendo rever o remake de 2007 do Rob Zombie). O ruim é que o próximo, Halloween – Ressurreição, é o que tem a nota mais baixa dentre todos os títulos da franquia no IMDB (4.1) 😀

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A Possessão do Mal (2014)

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a-possessao-do-malA morte do ator global Domingos Montagner no último dia 15/09 tocou o coração das pessoas de formas diferentes. Houve quem lamentasse a tragédia, houve quem criticasse a superexposição dada ao assunto pela mídia, houve quem tratasse com ironia e soberba os sentimentos alheios e houve até mesmo a galera da teoria da conspiração dizendo que o ator foi assassinado (!!!) por motivos políticos. No geral, nós (sociedade) somos muito ruins e imaturos para lidar com sentimentos negativos. Todo caso, há sempre aqueles que conseguem ir um pouco além nessa ruindade e realizar comentários que desprezam qualquer noção de bom senso e dignidade. Segue abaixo a transcrição exata (preservei os erros de português) de uma mensagem que li no Facebook:

“A morte do ator Domingos mostra mais uma vez que *com Deus não se Brinca* a globo exibi uma novela espirita que exalta a yeshu, e em toda historia coloca satanas como Deus destorcendo palavras. No caso desse ator, cujo nome era SANTO,em varias cenas eram feitos rituais de magia negra, enclusive ouve um momento na novela em que *ele desapareceu* no rio SAO FANCISCO e foi dado como morto, *exatamente como como aconteceu na vida real* afogado pelo msm rio ,chamado na novela como VELHO CHICO conhecidencia? no mesmo rio que em uma cena ele disse *_no rio eu nasci, no rio eu me criei, e no eu vou morrer!_*.COM DEUS NÃO SE BRINCA, e vc que assiste ta participando dando audiencia a algo que não exalta o Deus que servimos ,e dando brechas para que satanas faça o msm que fez com ator, por isso divulguem esse texto e alerte seu irmão que pode nem saber disso assim como vc não sabia!”

Resumindo, o Domingos faleceu porque “brincou com Deus” ao interpretar um personagem que, segundo o autor da mensagem, enganava a audiência com uma alegoria do diabo. CUIDADO: Você pode ter o mesmo destino do Montagner caso continue vendo a novela e dando brecha para o tinhoso agir na sua vida!

a-possessao-do-mal-cena-3Sinto minhas entranhas contorcerem quando leio este tipo de mensagem. Por trás deste tipo de discurso rasteiro, alarmista e maldoso não existe um coração verdadeiramente interessado em viver segundo os ensinamentos de alguma religião, existe apenas um(a) babaca querendo aproveitar-se de uma tragédia para engrossar o chorume diário das redes sociais. Essa ideia absurda de que deus e o diabo estão travando uma batalha por nossas almas, de modo que cada um encontrará aquilo que procurar, só serve mesmo para inspirar roteiros de filmes de terror ruins para adolescentes, como é o caso desse A Possessão do Mal.

Escrito e dirigido pelo cineasta David Jung, o longa conta a história de Michael King (Shane Johnson), um sujeito que vivia uma vida pacata e feliz ao lado da filha e da esposa, Ellie King (Ella Anderson), até o dia em que um acidente de carro deixa-o viúvo. Desesperado, Michael atribui a culpa da tragédia à uma cartomante que havia convencido Ellie a cancelar uma viagem. Segundo ele, se eles tivessem viajado, o acidente não teria ocorrido e sua mulher ainda estaria viva. Para lidar com sua dor, Michael, que é um homem cético e aparentemente ateu, decide gravar um documentário para provar para o mundo que o misticismo ligado ao trabalho das cartomantes, bem como à rituais de magia negra e similares, não passa de uma grande bobagem.

a-possessao-do-mal-cena-2O título original da produção (A Possessão de Michael King), bem como sua tradução infeliz para o mercado nacional, já entregam que Michael “encontra aquilo que ele estava procurando”, ou seja, ele acaba possuído pelas forças obscuras com as quais ele “brincou”. Imaginem a felicidade do autor da mensagem citada acima caso ele assista esse filme e veja confirmadas na tela todas suas teorias espirituais sobre ação e reação rs O fato, porém, é que os eventos mostrados em A Possessão do Mal são pouco conclusivos e dependem bastante das crenças pessoais do espectador para funcionarem ou não.

Sim, Michael acaba “possuído” e faz todas as coisas que Hollywood nos ensinou que pessoas tocadas pelo Belza fazem, como conversar em linguagens desconhecidas, movimentar-se de forma estranha (spider walk!), usar moletom com capuz e automutilar-se. A questão é que ele só faz isso tudo após ingerir uma droga retirada das vísceras de um sapo. Na primeira parte do filme, TODOS os métodos que o personagem testa para comunicar-se com o além acabam falhando e o tom cômico e irônico dessas cenas não deixam de demonstrar um certo desprezo do diretor por coisas como invocações demoníacas, rituais de exorcismo, etc. Para vocês terem uma ideia, Michael paga para um casal de satanistas para que eles mostrem para ele como a doutrina funciona e tudo que ele consegue é ser abusado por dois velhos tarados.

a-possessao-do-mal-cena-4Num segundo momento, o protagonista procura um necromante e é aí que o festival de horrores começa. Além de consumir a tal droga retirada do sapo, Michael tem uns dentes costurados na sua barriga e participa de um ritual de invocação no meio de um cemitério. A polícia invade o local e acaba com a brincadeira, mas aí Michael começa a pirar. Atormentado por um “barulho dentro de sua cabeça”, o personagem vai definhando psicologicamente até o ponto de atentar contra a vida da própria filha. Cenas fortíssimas como uma agulha sendo enfiada debaixo de uma unha e um pentagrama que é desenhado no peito com um pedaço de vidro quebrado completam o pacote podreira de A Possessão do Mal.

Aqui, o diretor David Jung faz dois movimentos. Primeiro ele sugere que forças espirituais (não necessariamente só as demoníacas) não existem, que é tudo bobagem. Depois ele nos mostra que o preço desse ceticismo absoluto pode ser caro demais, mas em momento algum ele é CONCLUSIVO em afirmar que essas forças existem ou não. TUDO que Michael faz na segunda metade do filme pode ser resultado de uma possessão mas também pode ser consequência direta do uso da droga e do estado emocional deplorável em que ele se encontra. O filme em si não é dos melhores: a câmera em primeira pessoa e o tom documental são interessantes, mas a trasheira demoníaca tende a tornar-se cansativa no final.

Pessoalmente, continuo duvidando da existência de um deus vingativo e de um diabo coletor de almas. A única certeza que tenho após ver A Possessão do Mal é que eu nunca deixarei de pagar o parquímetro (quem viu ou for ver o filme entenderá o motivo) rs

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Celular (2016)

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CelularPronto, voltei! 🙂

Depois de um cansativo primeiro semestre trabalhando em dois empregos, pude finalmente sair de férias e descansar. Aproveitei a oportunidade para realizar um sonho antigo: após 30 anos de existência nesse mundão velho, finalmente consegui transcender os limites territoriais do nosso querido Brasil e, junto da minha esposa, passei uma semana incrível sob o calor escaldante do México.

Programei a viagem de modo que, entre tacos, ruínas maias e praias paradisíacas, sobrasse uma tarde livre para ir ao cinema. Sei que, como um amigo brincou em uma foto que postei no Facebook, “ninguém vai para Cancún para assistir filmes”, mas, cinéfilo que sou, não pude resistir à vontade de conhecer uma sala de projeção de outro país. Na minha bagagem, mais do que as tradicionais bugigangas (eu comprei um apito de coruja, caras rs), eu queria trazer experiências, e consegui uma bem interessante vendo esse Celular por lá.

O áudio do filme estava no idioma original, em inglês, e as legendas estavam em espanhol. Mesmo sem dominar a língua, não é difícil extrair o significado geral, por assim dizer, de uma frase escrita em espanhol, certo? Muitas palavras são iguais ou parecidas. O que pega mesmo, principalmente para a leitura dinâmica que precisa ser feita para as legendas (acompanhando simultaneamente a imagem e o texto) são os falso cognatos. Basta confundir uma palavra e pronto, tu perde um diálogo inteiro. A solução que encontrei para esse “problema” foi confiar no meu inglês e concentrar a atenção nos diálogos, deixando as legendas como último recurso para compreender o que estava sendo falado. Até que deu certo: fiquei perdido em pouquíssimos momentos, de modo que considerei a experiência bastante positiva. Sobre o cinema em si (rede Cinépolis), acrescento ainda que fiquei impressionado com a estrutura do mesmo (cadeiras hiper confortáveis, tela gigante) e satisfeito com o valor do ingresso: num baita de um domingão, paguei 44 pesos (cerca de 11 reais) por um ingresso, sendo que por aqui costuma ser pelo menos o dobro disso.

Celular - CenaFeitas estas considerações, vamos ao filme. Num episódio da segunda temporada do Family Guy, o MacFarlane brincou com o fato do Stephen King utilizar premissas bizarras para seus livros (o trecho pode ser visto clicando aqui). Não pude deixar de lembrar dessa piada após ver os primeiros 10min de Celular, que é baseado em um romance do escritor. Eis o que acontece: Clay Riddell (John Cusack) desembarca de um avião e vai para o saguão do aeroporto. O personagem, que é uma espécie de artista gráfico, está feliz por ter conseguido fechar um bom contrato com uma empresa de jogos. Clay liga para a ex-mulher para contar as novidades e para falar com o filho, mas o celular dele acaba a bateria e a ligação cai. Eis então que surge um forte zunido e …. TODO MUNDO QUE ESTÁ FALANDO NO CELULAR TRANSFORMA-SE EM ZUMBI!

Assim, sem mais nem menos. É meio que uma tradição de histórias de zumbi não revelar a origem do problema e, sinceramente, eu até acho isso legal, mas não deixa de ser bizarro e até mesmo engraçado a forma abrupta como as coisas acontecem por aqui. O figurante está lá, falando tranquilamente no celular, aí rola o barulho, ele começa a ter umas convulsões, coloca sangue pela boca e pelos olhos e já sai mordendo e matando outras pessoas. Esse começo, aliás, lembra as grandes obras do chamado terrir de diretores como o Sam Raimi, filmes de terror onde o exagero do gore acaba ganhando traços cômicos: tão logo fiquei chocado com a exibição de vísceras e ossos quebrados, comecei a dar risada da ferocidade animalesca dos zumbis e das caras de susto do Cusack.

Celular - Cena 2Na sequência, Clay une-se a outros sobreviventes, dentre eles Tom McCourt (Samuel L. Jackson) e foge do aeroporto. Os zumbis, que são bastante rápidos, perseguem o grupo e continuam fazendo vítimas. Clay convence Tom a ajudá-lo a procurar por seu filho e sua ex-mulher e então os personagens começam a peregrinar através dos destroços do que outrora fora uma cidade civilizada. O perigo constante obriga os personagens a esconderem-se em vários locais e fazerem alianças com outros sobreviventes, como a Órfã feiosa Alice (Isabelle Fuhrman).

Acredito que a intenção do King com esse Celular seja criticar o uso exacerbado que fazemos do aparelho nos dias de hoje. Para comprovar a força da analogia do escritor que compara os usuários a zumbis, basta sair na rua e observar as pessoas andando e/ou dirigindo completamente imersas nos conteúdos exibidos na tela de seus smartphones. Eu, que me considero bastante viciado em redes sociais e outros aplicativos, não deixei de fazer a auto crítica que a história estimula e estou tentando diminuir progressivamente o uso do aparelho e dar mais atenção para as pessoas e coisas ao meu redor. Não quero ser visto como um zumbi cultuador de uma antena de companhia telefônica rs

Celular - Cena 4O começo de Celular é estranho mas bom, a ideia de um apocalipse zumbi provocado por telefones é divertida e há umas duas cenas realmente legais aqui (estou pensando na queima de zumbis no estádio e no sujeito paranoico cheio de explosivos), mas no geral eu achei o filme bastante cansativo. O diretor Tod Williams gasta muito tempo com diálogos e divagações pouco interessantes (cala a boca, Samuel! rs) e não preocupa-se em explicar melhor aspectos importantes da história, como a relação do personagem fictício criado por Clay com os eventos do filme. Quando Celular termina, com AQUELA música tornando AQUELE final ainda mais bizarro, fiquei com a sensação de ter visto algo bastante diferente, mas não necessariamente algo bom.

Es una película extraña rs

Celular - Cena 3

Halloween 6: A Última Vingança (1995)

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Halloween 6 - A Última VingançaAntes do texto, seguem algumas “curiosidades” sobre a produção desse Halloween 6: A Última Vingança que julguei interessante compartilhar com vocês para reforçar o que será dito na sequência.

Obs.: As informações foram retiradas da página do filme no IMDB e a tradução, não necessariamente literal, fui eu mesmo que fiz.

  • A maioria do elenco e da equipe de produção renegaram o filme. Em entrevistas, eles declararam que o estúdio, os produtores e o diretor interferiram de forma ridícula no processo, o que resultou em um filme com edição e direção medíocres.
  • De acordo com a Daniella Harris (Nota: atriz que aparece no Halloween 4 e 5), a plateia do cinema estava vaiando quando a mãe dela foi assistir o filme.
  • Provocando raiva na maioria do elenco e da equipe de produção, várias refilmagens e edições foram feitas. Devido a essas mudanças, muitos deles juraram nunca mais participar de outro filme da série Halloween.
  • Muitas das cenas do Donald Pleasence (Nota: o protagonista) foram cortadas do filme porque o diretor Joe Chappelle achou-o “tedioso”.
  • O roteiro teve 11 versões diferentes.
  • Muitos membros da equipe de produção disseram que o diretor Joe Chappelle declarou desde o início que ele não gostava dos filmes da série Halloween. Segundo ele, o único motivo para ele ter envolvido-se com o projeto era conseguir um contrato de mais 3 filmes com a produtora (Miramax).

Fiz questão de procurar o contexto em que o filme foi produzido e transcrever aqui as informações que encontrei para que vocês, ao lerem a resenha, não fiquem com a impressão que estou exagerando nas críticas ou que estou de mau humor. Halloween 6: A Última Vingança é uma bosta completa. Só não digo que ele é o pior filme da série que vi até agora porque esse posto permanece sendo do Halloween 3 (um longa que, além de não ter o Michael Myers, tem aquela musiquinha irritante da Silver Shamrock), mas ainda sim trata-se de um derivado extremamente dispensável da história criada pelo John Carpenter.

Halloween 6 - A Última Vingança - CenaAqui, conforme o título original sugere (The Curse of Michael Myers ou A Maldição de Michael Myers), a proposta era contar uma história que fizesse os tradicionais links com os filmes anteriores e, ao mesmo tempo, explicasse como o assassino de Haddonfield adquiriu seus “poderes”. Sabe aquelas habilidades legais como teletransporte, localização aprimorada, imunidade e regeneração infinita que todo vilão de filme de terror possui? O Myers conseguiu as dele após ser amaldiçoado pela Maldição de Thorn, um ritual milenar celta (!!!) que visa oferecer sacrifícios de sangue para garantir a paz na sociedade (!!!²). A única forma de ele ficar livre da maldição é matar todos os membros de sua família (!!!³).

E, fazendo uma rápida recapitulação mental, quem sobrou vivo da família do Myers após 5 filmes? Só a sobrinha dele, Jamie (J.C. Brandy) aquele menininha que termina o Halloween 5 gritando por saber que, mais cedo ou mais tarde, o titio voltaria com sua faca gigante para atormentá-la. Teoricamente, portanto, bastaria o Myers matá-la para ficar livre da maldição, certo? Calma lá, não é tão simples assim. Eis o que acontece:

Halloween 6 - A Última Vingança - Cena 2

  • Jamie é sequestrada, ainda criança, pelo misterioso homem da capa preta do filme anterior. Esse homem tem poderes sobre o Myers. Anos depois. esse homem faz com que o Myers estupre e engravide Jamie em um ritual demoníaco. Dessa perversão, nasce o bebê Steven.
  • Jamie foge do cativeiro levando Steven. Ela liga para uma estação de rádio de Haddonfield e avisa que Myers está voltando. Movimento natural, ninguém acredita nela. Antes de ser localizada e atacada por Myers, ela esconde Steven dentro do banheiro de uma estação de ônibus.
  • O homem da capa preta precisa de Steven para realizar o ritual no qual ele passaria os poderes de Myers para outra pessoa. Junto com o assassino, ele vai para Haddonfield no dia de Halloween procurar pela criança, mas o bebê é encontrado primeiro por Doyle (Paul Rudd, o Homem Formiga, em seu debut cinematográfico), um homem que tornou-se obcecado por Myers após sobreviver a um ataque dele no passado.
  • No meio dessa confusão toda, está um cansado Dr. Loomis (Donald Pleasence) em sua eterna e inglória tentativa de conter Myers e Kara (Marianne Hagan), uma mulher que mora na antiga casa do assassino e cujo filho, Danny, é o escolhido do homem da capa preta para receber a maldição.

Halloween 6 - A Última Vingança - Cena 3Achou confuso? Acredite, eu me esforcei bastante para sintetizar da forma mais simples e direta possível o que vi, mas a grande verdade é que o roteiro de A Última Vingança é um desastre completo. Não por acaso, como listado lá no começo da resenha, reescreveram a história incríveis 11 vezes na tentativa de dar coerência para o material, mas ainda assim o resultado é um filme caótico no sentido mais pejorativo da palavra. A relação do culto celta com o Sanatório Smith’s Grove é forçada, as ligações com os filmes anteriores (feitas principalmente com os personagens Kara e Doyle) não são suficientemente explicadas e a sequência final, além de praticamente ininteligível (como o Donald Pleasence morreu após o término da produção, as tais refilmagens feitas sem ele ficam bizarras), é ruim, frouxa. Dá vontade de vaiar mesmo.

Mesmo com todos os buracos do roteiro e problemas da produção, Halloween 6: A Última Vingança poderia ter dado certo. Sendo bem sincero, os slasher movies (gênero do qual a série faz parte) não são conhecidos por seus roteiros complexos e/ou coerentes. O Halloween 4, por exemplo, tem uma história extremamente básica e é um bom filme. Não dá para esperar algo legal, porém, de um diretor que não gosta da franquia e que trabalhou apenas por obrigação, desrespeitando tanto a equipe de produção como os fãs. Não se faz um Halloween sem a tradicional e divertida abertura com a abóbora. Não se faz um Halloween achando o Donald Pleasence “tedioso”. Não se faz um Halloween com várias mortes (talvez seja o filme que o Myers mais trabalhou até agora), porém todas genéricas e esquecíveis.

Depois desse filme, o diretor Joe Chappelle assinou o contrato que ele queria, dirigiu alguns filmes irrelevantes (ou será que alguém aí é fã do CONHECIDÍSSIMO Caçada Virtual?) e acabou terminando no semi anonimato das séries de TV. Bem feito.

Halloween 6 - A Última Vingança - Cena 4AVISO AOS LEITORES: Pessoal, depois de um semestre bastante cansativo, estou finalmente saindo de férias. Viajo amanhã e volto só no começo de agosto, de modo que o blog deve ficar pelo menos uns 15 dias sem atualizações. Não desistam de mim rs

Abraços

O Cemitério Maldito (1989)

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O Cemitério MalditoTerminei há umas duas semanas as 395 páginas do O Cemitério, livro do escritor Stephen King que ganhei de aniversário de um amigo que prezo muito. Já vi muitas adaptações cinematográficas da obra do King (Um Sonho de Liberdade, Tempestade do Século, Carrie, etc), mas esse foi o primeiro romance dele que li (também conheço o Dança Macabra, mas esse é um estudo sobre gêneros literários, então não conta). O cara é mesmo muito bom naquilo que ele faz. King descreve ambientes sem tornar-se enfadonho, faz-nos constantemente ouvir a voz interna de seus personagens (o que sempre rende divertidos comentários sarcásticos), demonstra um bom conhecimento da cultura pop e narra uma trama de mortes, maldições indígenas e blasfêmias com a naturalidade de alguém que está sentado em uma mesa de bar tomando uma cerveja e contando uma história. De fato, ele merece o posto de “Mestre do Horror e da Fantasia” que consta na capa da edição que ganhei.

Movimento natural, terminei o livro e procurei o filme baseado nele para assistir. O Cemitério Maldito, produção que inspirou o clássico Pet Sematary dos Ramones, foi dirigido pela diretora Mary Lambert e contou com um roteiro adaptado pelo próprio Stephen King, que ainda supervisionou as filmagens e interpretou um personagem na trama. O que conclui-se a priori à partir dessas informações é que esta versão cinematográfica é o produto mais próximo do livro que o leitor poderia esperar, certo? Ainda que, no geral, o filme seja competente em recriar os cenários e acontecimentos descritos pelo escritor, devo dizer que não fiquei muito empolgado com o que vi. Abaixo, colocarei os meus motivos sem preocupar-me em soar pedante, visto que senti falta no filme justamente de alguns detalhes que, ao meu ver, fazem o livro brilhar. Texto com SPOILERS.

O Cemitério Maldito - CenaLouis Creed (Dale Midkiff) é um médico que muda-se de Chicago para Ludlow, uma cidadezinha no interior do Maine, para assumir a vaga no hospital da universidade local. Junto com ele, vai a esposa, Rachel (Denise Crosby), os dois filhos, Ellie (Blaze Berdahl) e Gage (Miko Hughes), e o gato da família, Church. Logo em seu primeiro dia em Ludlow, Louis conhece Jud Crandall (Fred Gwynne), um velhinho simpático e um tanto quanto misterioso que aconselha-o a manter os filhos longe da estrada que passa nas proximidades de sua nova casa. Ali, Jud diz, muitos animais já morreram atropelados pelos carros e caminhões que sempre trafegam em alta velocidade. Para comprovar o que disse, o velho conduz Louis e sua família por um caminho que adentra uma floresta próxima até o “Simitério de Bichos”, (assim, com a grafia errada mesmo), local onde as crianças de Ludlow habituaram-se a enterrar seus animaizinhos de estimação mortos na estrada.

No livro, o simples fato de Louis levar sua família até o Simitério de Bichos já torna-se motivo de discussão entre ele e a esposa, que tem dificuldade e resistência para lidar com o tema da morte. No filme, essa tensão entre o casal é deixada de lado para que a história siga com o primeiro dia de serviço do médio na universidade, no qual ele presencia a morte violenta do jovem Victor Pascow (Brad Greensquist). Essa abordagem mais “direta ao ponto” do filme, na minha opinião, deixa de lado um dos melhores aspectos do livro, que é o desenvolvimento do personagem principal, Louis Creed.

O Cemitério Maldito - Cena 3Nas páginas de O Cemitério, Louis é um cara normal, com defeitos e qualidades (ele, por exemplo, xinga mentalmente os filhos e a esposa quando eles lhe dão trabalho mas nem por isso deixa de tratar-lhes com carinho), que acaba experimentando o gosto amargo da hipocrisia quando abandona seu discurso racional de médico para ceder ao misticismo frente à morte. A ladeira emocional que o personagem percorre no livro, passando de um homem seguro de si para uma figura histérica e paranoica, é praticamente toda ignorada pelo roteiro do filme, que concentra seus esforços em mostrar os principais momentos da história sem levar em consideração seus aspectos psicológicos. A reconstrução do Simitério de Bichos, bem como a maioria dos cenários (a casa dos Creed, a estrada, o cemitério MicMac), ficou perfeita, mas a ausência da voz interna de Louis para exemplificar sua caminhada rumo à loucura realmente fez falta. O Louis do livro é um cara que xinga os filhos (rs), o do filme é só um almofadinha de topete sem nenhuma personalidade.

O Cemitério Maldito - Cena 2Sem a parte da trama em que o Stephen King valia-se da mente perturbada de Louis para destilar sarcasmo e humor negro, resta uma história regular de suspense/terror em que uma família é acometida por acontecimentos fantásticos. Tal qual Jud havia avisado, era bom evitar a estrada que ficava próxima da casa, e o descumprimento desse aviso mata, em momentos alternados, Church e Gage. Dilacerado pela dor, Louis enterra o filho e o gato no Cemitério Micmac, um antigo cemitério indígena escondido no coração da mesma floresta onde estava o Simitério de Bichos. Os poderes do local fazem com que os mortos retornem à vida, mas também os transforma em criaturas malignas capazes de matar e de falar palavrões. A cena mais importante da história, o confronto final entre Louis e suas seringas mortais e Gage, ficou bem legal, mas momentos igualmente bacanas como a briga no velório e a incursão noturna no cemitério de Ludlow ficaram muito apagadas.

O Cemitério é um desses livros que fazem a gente apaixonar-se por um escritor e querer ler mais e mais de suas obras (em breve começarei a série A Torre Negra), já O Cemitério Maldito, mesmo perdoando-se as perdas necessárias para adaptar-se um livro para o cinema, é só um desses filmes de terror comum com crianças falando coisas esquisitas.

O Cemitério Maldito - Cena 4