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Corra! (2017)

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Querido leitor: dentre as situações abaixo, qual tu considera mais assustadora?

  1. Programar uma ida ao cinema na única noite livre que você tem na semana e, chegando lá, descobrir que o filme que você quer assistir (no caso, o Alien: Covenant) só está disponível na versão dublada.
  2. Acordar no meio da madrugada, durante uma  viagem de ônibus interestadual, com o passageiro ao lado passando a mão nas suas partes íntimas.
  3. Acordar no meio da madrugada com o próprio capiroto gritando dentro da sua casa. Após sair da cama e ir verificar o que aconteceu, você descobre que um gato preto pulou a janela e tentou atacar sua gatinha, que defendeu-se como pode.
  4. Um filme de terror que desperdiça uma ideia bacana ao quebrar constantemente o clima de suspense com piadas bobas .

1) Continuo morrendo de medo dessa preferência que redes de cinema como o Cinépolis tem dado para os filmes dublados. 2) Antes de conseguir soltar um “AÍ NÃO, CAMARADA!”, fiquei momentaneamente paralisado quando acordei e percebi que havia um cara me bolinando. Filho da puta! 3) No dia do gato preto, quando ouvi o barulho dos bichos se enroscando, eu gritei de medo. Sinceramente? O som foi tão alto e demoníaco que eu achei que alguém estava sendo assassinado dentro da minha casa. 4) Corra!, longa que muita gente apressou-se em classificar como “um dos filmes mais assustadores dos últimos anos”, só me deu sono. Não raramente, a vida real é bem mais assustadora do que a ficção.

Eu não havia planejado assistir  esse filme e não o fiz por acreditar que ele tinha alguma chance de ser o “mais assustador e blablabla”. Fui ao cinema ver o Alien: Covenant, mas como não animei pagar por uma sessão dublada, acabei optando pelo Corra! mesmo.

Na minha cabeça, o debut cinematográfico do diretor Jordan Peele, mesmo que não fosse algo revolucionário, seria um filme de terror podreira decente, ou seja, o tipo de material legal para assistir numa quinta feira à noite. O começo, aliás, é deveras promissor. Andando sozinho à noite numa rua mal iluminada (que cenário perfeito, não?) um jovem negro percebe que está sendo seguido por um carro branco. O rapaz até tenta fugir, mas acaba sendo imobilizado por seu perseguidor e jogado no porta malas do carro. O veículo acelera e a música “Run, Rabbit Run” é executada. O contraste entre a violência mostrada e a melodia alegre geram um clima macabro e a gente fica doido para saber o que acontecerá a seguir.

Rosquinhas. É isso que aparece na sequência: uma mulher comprando rosquinhas. Rose (Allison Williams) pega os quitutes em uma padaria e vai até a casa de seu namorado, Chris (Daniel Kaluuya), para tomar o café da manhã. Após 4 meses de relacionamento, Rose quer levar Chris para conhecer os pais, mas há um “problema” nisso: ela é branca e ele é negro. Somando isso ao fato de, na cena inicial, um negro ser perseguido por um carro branco, entendi que o filme seria uma espécie Adivinhe Quem Vem Para Jantar versão terror, ou seja, o diretor Jordan Peele valeria-se de um pouco de sangue para falar sobre racismo e temas correlatos.

Não utilizarei SPOILERS, portanto não aprofundarei na forma como a questão racial é trabalhada dentro do filme (o tal Projeto Coagula). Fazê-lo implicaria, por exemplo, dar detalhes da “revelação” que é feita no final e certamente estragaria a surpresa para quem ainda for assistir. Posso dizer, porém, que Peele fala de apropriação cultural e utiliza ironias e metáforas (a cena do algodão) para explicitar os conflitos históricos entre brancos e negros. Essa parte da trama, principalmente pela atualidade do tema, é irretocável, mas ainda assim eu queria ver um filme de terror, e nisso Corra! peca bastante.

A mistura entre terror e humor é antiga e tem até um gênero cinematográfico próprio. Não há nada de errado com o chamado terrir: filmes como A Morte do Demônio e Tucker e Dale Contra o Mal são bem divertidos. O que acontece aqui, porém, é que Peele foi ambicioso demais. Ele quis fazer um filme sério (vide as questões raciais abordadas), assustar e divertir ao mesmo tempo. É difícil manter o foco com tanta informação. Ao mesmo tempo que está nos mostrando a falsidade impregnada na postura liberal e progressista dos pais de Rose (Catherine Kenner e Bradley Whitford), o diretor tenta nos assustar com coisas estranhas (um maluco correndo durante a noite, uma mulher que conversa fazendo caretas bizarras) e nos fazer rir com Rod (LilRel Howery), o colega falastrão de Chris. Peele faz uso de uma trilha sonora poderosa, da ambientação majoritariamente noturna e de alguns clichês (o acidente na estrada) para criar um clima de suspense, mas ele sabota o próprio trabalho quando interrompe a tensão com alguma piadinha cretina.

Corra! tem pouquíssimo sangue, um desfecho pouco original (um personagem até brinca com isso citando o De Olhos Bem Fechados) e essa alternância constante (e ruim) entre o humor e o terror como pontos negativos. Não tenho dúvidas que o filme pode encontrar mais aceitação junto de quem estiver diretamente envolvido nas questões raciais apresentadas, mas fiquei com a impressão que o diretor Jordan Peele errou feio em sua tentativa de misturar gêneros. Quem sabe em seu próximo trabalho ele entenda que, algumas vezes, tudo que um filme de terror precisa para dar certo é um assassino em série e adolescentes desmiolados. Ou um gato preto demoníaco. Ou um tarado em um ônibus.

Animais Noturnos (2016)

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animais-noturnosFaltando pouco mais de 2 semanas para a cerimônia de premiação do Oscar, finalizei a cobertura dos indicados a Melhor Filme com o Lion e agora pretendo focar nas produções que concorrem a Melhor Filme Estrangeiro. Antes, porém, tirei um tempo para ver esse Animais Noturnos, filme que está indicado em apenas uma categoria (Melhor Ator Coadjuvante), mas que uma ou duas pessoas me disseram que foi feito para quem “realmente gosta de cinema”, seja lá o que isso signifique.

Dirigido e adaptado para a tela pelo diretor Tom Ford (o estilista da Gucci que aventurou-se pela primeira vez no cinema com o longa Direito de Amar), Animais Noturnos conta duas histórias paralelas que complementam-se e dão sentido uma para a outra. O tom é sombrio, há experimentações visuais e narrativas e o final é aberto, exigindo que o espectador interprete o que viu e complemente a lacuna deixada pela última cena com suas próprias impressões. Resumindo, não é um filme que o diretor pega na sua mão, mastiga tudo e te conduz através da trama. Ford dá muito (sem trocadilhos), mas exige toda a sua atenção em troca. Eu, que “realmente gosto de cinema”, assisti o filme, fiz o meu dever de casa (busquei informações e pensei sobre o que vi) e agora compartilharei com vocês as minhas conclusões. O texto conterá SPOILERS.

Susan (Amy Adams) está um tanto quanto entediada e solitária no topo do mundo. Ela é casada com um bonitão do queixo quadrado (Armie Hammer), mora numa mansão e é reconhecida e elogiada por seu trabalho como artista plástica, mas a gente olha para ela e não vê exatamente uma mulher feliz. De cara, o diretor nos mostra que Susan sabe que está sendo traída pelo marido, porém o enfeite de testa não parece ser o maior dos problemas aqui.

animais-norturnos-cena-4Certo dia, junto da correspondência matinal, Susan recebe o manuscrito de um livro. Grande é a surpresa da personagem quando, ao verificar o autor da obra, ela descobre o nome de seu ex-marido, Edward Sheffield (Jake Gyllenhaal). Como o marido atual  está viajando “a trabalho”, Susan começa a ler o manuscrito imediatamente e encontra em suas páginas uma história incrivelmente familiar.

Animais Noturnos, o livro escrito por Sheffield, começa com uma família viajando de carro à noite numa estrada deserta. Num determinado ponto do caminho, Tony (também interpretado pelo Gyllenhaal), que está acompanhado pela esposa (Isla Fisher) e pela filha (Ellie Bamber), depara-se com outros dois carros bloqueando o trajeto. Ele buzina e tenta ultrapassa-los, tudo em vão. Após um período de incerteza, os carros misteriosos cedem passagem, mas em seguida eles começam a pressionar para que Tony vá para o acostamento. Bate daqui, acelera dali, Tony tem seu veículo fechado e é obrigado a parar. Das sombras, surgem Ray (Aaron Taylor-Johnson) e seus dois comparsas, animais norturnos travestidos de gente que atormentarão aquela família de todas as formas possíveis antes de realizarem seu último ato de covardia: após abandonarem Tony no meio do nada, Ray e sua turma estupram e matam mãe e filha com requintes de crueldade.

animais-norturnos-cena-3Chocada, Susan interrompe a leitura várias vezes. A primeira impressão que tive é que ela estava compreensivelmente enojada com a violência do livro, mas há mais. Susan tem dificuldade para encarar Animais Noturnos porque ela reconhece a si mesma nas páginas do livro escrito por seu ex-marido. Pior, ela vê-se no papel de vilã. Não que ela tenha matado ou estuprado alguém, mas o passado de Susan junto de Edward não foi dos melhores. Ao longo do filme, o diretor Tom Ford introduz alguns flashbacks para mostrar como Susan dispensou Edward porque ele não parecia ser um cara arrojado e promissor. Edward até tentou salvar o casamento, mas as coisas degringolaram de vez quando ele flagrou Susan traindo-o com o bonitão do queixo quadrado (pasmem!) logo após realizar um aborto. É ou não é uma danadinha essa Susan?

animais-norturnos-cena-2E por que Susan vê-se como a vilã do livro escrito por seu ex-marido? O que significa aquele final seco e abrupto? Eis as minhas teorias. De certa forma, Susan destruiu a vida de Edward ao trocá-lo por um homem mais rico e viril. Edward teve a sua masculinidade ferida da mesma forma que Tony também teve quando viu sua mulher e sua filha serem levadas por estranhos. Assim sendo, Susan compara sua traição com a brutalidade de Ray e sente vergonha de si mesma. A leitura de Animais Noturnos transforma-se então numa espécie de catarse para a personagem, que estava presa em um casamento bosta e que via o mundo de uma forma grotesca e deformada (o que fica patente nas obras de arte que ela produz). Susan entende o envio do manuscrito como uma possibilidade de reaproximar-se de Edward, reparar o mal que ela lhe fez e, de quebra, livrar-se daquela vida artificial que ela levava, mas não é bem isso que acontece. Na última cena de Animais Noturnos, Susan enche a cara sozinha em um restaurante após Edward não aparecer no encontro marcado entre os dois. Ao meu ver, trata-se de um filme de vingança: Edward transformou toda a raiva que sua ex-mulher lhe passou para produzir sua obra prima, esfregou esse trabalho na cara dela e, no último momento, encontrou forças para fazer o que deveria ser feito, que era dispensá-la de vez de sua vida. Este raciocínio é reforçado pela conclusão do livro, no qual Tony, após uma série de indecisões, descarrega uma arma no peito de Ray.

animais-norturnos-cenaQuem “realmente gosta de cinema” encontrará em Animais Noturnos muitos motivos para apaixonar-se ainda mais pela sétima arte, como a bela fotografia noturna e o poder do diretor de fazer a gente prender a respiração na cena absurdamente tensa da estrada, mas o filme não é indicado apenas para quem curte “filmes cult”. Não tenho dúvidas de que trata-se de um material denso e sombrio e que a sessão exige um pouco de reflexão no fim, porém a qualidade das atuações (o Michael Shannon, que interpreta um delegado no fim da carreira, concorre a Melhor Ator Coadjuvante), bem como a história fluída e os temas humanos que ela aborda (arrependimento e superação), são atrativos que estão ao alcance de todos.

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Zootopia (2016)

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zootopiaLevando em consideração a temática engajada e o visual soberbo, eu daria o Globo de Ouro de Melhor Animação de 2017 para o Moana. Não é por isso, porém, que eu começarei esta resenha dizendo que a vitória do Zootopia foi injusta. Eu ter morrido de amores pela aventura da menina que queria navegar o oceano não me impede de reconhecer os muitos predicados que este filme tem, a começar pelo roteiro. Como quero comentar alguns detalhes da história (e considerando que a animação foi lançada no início do ano passado), o texto conterá SPOILERS, capiche?

Tal qual o título sugere, Zootopia é uma utopia vivida por animais, ou seja, uma fábula onde os protagonistas habitam uma sociedade ideal e harmônica nos moldes daquela imaginada pelo escritor inglês Thomas More. Basta alguns minutos de filme, no entanto, para que a gente perceba que a perfeição daquele mundo é bastante relativa. Ainda que exista um pacto de não agressão entre presas e predadores (o que permite que espécies diferentes convivam no mesmo espaço), a cidade onde a história desenvolve-se está lotada de sujeitos de caráter duvidoso. Brigões, políticos corruptos, vendedores de drogas, mafiosos e vendedores de DVD’s piratas (!!!) misturam-se aos trabalhadores de Zootopia, o que torna a presença da polícia indispensável para manter a paz e a ordem.

Desde pequena, a coelha Judy Hopps sonhou em seguir a carreira policial. Desencorajada pelos pais e pelos amigos, que julgavam-na muito pequena e fraca para a profissão, Judy valeu-se de sua inteligência e de uma força de vontade sem igual para estudar e realizar os exames de admissão. Aprovada, a personagem muda-se para a cidade de Zootopia louca para caçar e prender alguns bandidos, mas tudo que ela consegue é um entediante cargo de agente de trânsito. Judy até tenta resignar-se e transformar-se em uma eficiente máquina de emitir multas, mas logo o misterioso desaparecimento de 8 animais dará a oportunidade perfeita para ela provar o seu valor como policial e, de quebra, livrar a cidade de uma grande ameaça.

zootopia-cena-4Antes de falar sobre a natureza moral do roteiro de Zootopia, devo dizer que gostei demais da pegada da história, que é baseada em uma investigação e lembra o que há de melhor nos filmes noir hollywoodianos da década de 40/50, com os personagens visitando toda espécie de inferninho à procura de pistas que possam levá-los até o vilão. Logicamente, o material escrito e dirigido pelos cineastas Byron Howard e Rich Moore é suavizado, logo os prostíbulos e bares copo sujo cedem espaço para ambientes menos polêmicos e potencialmente engraçados, como um clube de nudismo, mas ainda assim foi muito legal ver a Disney investir em uma narrativa menos convencional que atravessa o submundo e dá voz a personagens marginais como o malandrão Nick Wilde.

Minha memória não anda lá essas coisas (já tô do tipo que precisa anotar senhas e datas), mas lembro que os primeiros trailers de Zootopia davam a entender que o protagonista da história era o Nick, e não a Judy. Acontece que, nas audições-teste que foram realizadas antes do filme ser lançado, os produtores perceberam que o público não foi muito com a cara de Nick, logo o roteiro foi reescrito e o foco da história mudou. Não é difícil entender o porque disso ter acontecido. Eu, que sou adulto e senhor do meu próprio lar, gostei bastante do personagem, mas imagino que um pai possa ficar desconfortável ao ver no papel de protagonista um raposo que ganha a vida aplicando golpes na praça com a ajuda de um anão. Nick é um sobrevivente, descolado e inteligente, mas o esforço e a honestidade de Judy vendem mais e sintetizam melhor a reconfortante ideia de que, no fim, o bem sempre vencerá o mal.

O final de Zootopia, como o da maioria das fábulas, é moralista e didático. Crime e castigo são faces da mesma moeda, ou seja, se você fizer merda, você irá se ferrar. Antes do chinelo comer, porém, o roteiro dá um nó na cabeça de quem enxerga o mundo em preto e branco e vale-se de uma inversão de estereótipos para fazer o público pensar. Num cenário comum, ovelhas são vítimas e leões são vilões, certo? A tendência é que  torçamos sempre para o Davi, mas nossa simpatia pelo mais fraco não pode impedir-nos de ver que, as vezes, é o Golias que está sendo sacaneado. A gente acha normal quando o prefeito Lionheart é acusado de ser o responsável pelo sumiço dos 8 animais, afinal de contas ele é um predador e não seria estranho ele obedecer ao próprio instinto e quebrar o pacto de não-agressão. Grande é a nossa surpresa, portanto, quando a ovelha Bellwether, secretária do prefeito, é desmascarada no fim, revelando seu plano para amedrontar e confundir a população de modo que ela pudesse chegar ao poder. É sempre importante reforçar que, por mais tentador que seja, não devemos deixar-nos levar pelas primeiras impressões.

A ótima história de Zootopia é enriquecida pelos detalhes. Eu, que nunca me cansarei de referências ao O Poderoso Chefão, adorei o personagem Mr. Big, versão fofinha do Don Corleone que, no dia do casamento de sua filha, ajuda Judy e Nick fazendo ofertas irrecusáveis para alguns vilões. Boa também é a cena de sintetização de drogas, momento que será celebrado pelos fãs da série Breaking Bad, e a barraquinha de DVD’s pirata do loucão Duke Weaselton, na qual encontra-se versões paralelas de várias animações recentes da Disney, como Pig Hero 6 (Operação Big Hero) e Wreck-It Rhino (Detona Ralph). Por fim, apesar de ter uma pegada levemente mais sombria e adulta, Zootopia tem aquela ótima piada do bicho preguiça, que você certamente viu (e riu) nos trailers e que fica ainda melhor quando inserida dentro da história como uma (infelizmente) válida crítica ao funcionalismo público. Pessoalmente, continuo preferindo o Moana, mas Zootopia é bom o suficiente para merecer sua atenção.

A Chegada (2016)

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a-chegadaSaiu a lista oficial dos indicados ao Globo de Ouro de 2017. Novamente, a maioria das apostas do Indiewire confirmaram-se e filmes como Manchester À Beira-Mar, Moonlight e La La Land despontaram como favoritos, recebendo indicações nas principais categorias. Estou bastante empolgado para procurar, ver e resenhar os concorrentes e, por ora, faço os seguintes comentários sobre a lista:

  • Fiquei bastante surpreso com a indicação do Deadpool à Melhor Filme – Musical ou Comédia. A produção da Fox quebrou vários recordes de bilheteria e tornou-se uma das sensações do ano, mas há uma conhecida implicância da crítica especializada de Hollywood com os filmes de super herói. Não deve ganhar (é provável que o La La Land leve), mas trata-se de um passo importante no reconhecimento de um gênero que, fora o apelo popular, está numa crescente de qualidade e criatividade.
  • Estranhei a ausência do Sully, versão do veterano Clint Eastwood para o incidente do Rio Hudson. Acredito, porém, que o filme terá mais sorte no Oscar, tal qual aconteceu em 2015 com o Whiplash.
  • Julieta, filme que estava cotado para Melhor Filme Estrangeiro, acabou ficando de fora. Outro que também não chegou lá foi o brasileiro Pequeno Segredo, que não deve ter melhor desempenho no Oscar.

a-chegada-cena-2A Chegada, filme do canadense Denis Villeneuve, chegou a ser cotado pelo Indiewire como provável indicado à Melhor Filme, mas acabou sendo lembrado apenas para Melhor Trilha Sonora e Melhor Atriz (Amy Adams). Assisti-o semana passada (a resenha está atrasada devido à correria de final de ano no meu trabalho) e tenho plena convicção de que, não fosse a resistência dos críticos com a ficção científica, ele poderia destacar-se mais no Globo de Ouro. Sabe quando saímos da sala de cinema com a certeza de que o filme valeu cada centavo pago para vê-lo? A Chegada é assim, um clássico instantâneo de seu gênero que vale-se de uma alegoria envolvendo alienígenas para nos fazer pensar sobre um problema bastante atual da humanidade: a comunicação.

Num dia qualquer, 12 espaçonaves de origem desconhecida adentram nossa atmosfera e posicionam-se em diferentes locais do planeta. Como elas adotam uma atitude pacífica, os governantes entendem que os alienígenas desejam fazer contato e montam equipes para iniciar uma aproximação. Encarregado de conduzir a operação nos Estados Unidos, o Coronel Weber (Forest Whitaker) escolhe Louise Banks (Amy Adams) e Ian Donnely (Jeremy Renner), dois dos melhores especialistas em línguas e cálculo do país, para tentar decodificar a linguagem dos visitantes.

a-chegada-cena-3Antes de ser convocada, porém, Louise nos é apresentada pelo diretor na abertura do filme como uma mulher solitária que perdeu uma filha para uma doença rara. Melancólica, ela teoriza sobre a relatividade do tempo enquanto flashbacks de sua curta experiência como mãe são exibidos. Dentre as muitas coisas que ela fala, algo que revelaria-se de grande importância para o roteiro me chamou a atenção. Balbuciando, Louise diz não ter mais certeza quando tudo aquilo começou. Num monólogo que relativiza o tempo, não dá para deixar uma informação dessas passar despercebida.

Sobre a invasão, Villeneuve oferece um feijão com arroz bem feito. A histeria coletiva inicial é seguida pela corrida em massa do povão até os supermercados para estocar alimentos. Na TV, notícias sobre seitas religiosas com interpretações bizarras sobre o acontecimento são transmitidas e, como não poderia deixar de ser, milhares de vídeos amadores mostrando as espaçonaves são postados nas redes sociais. Preparado o terreno, o diretor nos coloca em contato com os alienígenas, e quando eu digo “nos coloca”, eu realmente estou querendo dizer que ele põe a gente pra dentro do filme.

a-chegada-cena-4A espaçonave visitada pelos personagens é uma estrutura gigantesca de formato oval que permanece suspensa alguns metros sobre o solo. Elevados por uma máquina, Louise, Ian e Weber entram na mesma numa cena absurdamente claustrofóbica a agoniante. Esqueçam qualquer tipo de maravilhamento infantil diante do desconhecido. Dentro de um macacão, Louise está ofegante, suando e com medo, muito medo. Eu achei esta cena absolutamente sensacional. É lógico que os personagens, pessoas ligadas à ciência e ao mundo acadêmico, estão curiosos para conhecerem os alienígenas, mas o que transborda nessa cena é o cagaço de alguém que está desafiando as leis da gravidade dentro de um trambolho de outro mundo. Pessoalmente, eu consegui sentir cada uma das sensações de medo e ansiedade demonstradas pela Amy Adams e é exatamente esse tipo de experiência que eu quero viver quando assisto um filme. Achei do caralho mesmo.

a-chegada-cena-5A técnica do Villeneuve para criar suspense e apreensão faz sentir-se em outros momentos da trama, como na correria que marca as cenas finais, mas A Chegada também destaca-se por sua parte mais fria e cerebral, que envolve a discussão referente à linguagem e comunicação proposta pelo roteiro. O que os alienígenas vieram fazer aqui? Tão logo Louise e Ian acostumam-se com a ideia de estarem frente a frente com seres de outro planeta, eles precisam decifrar a língua extremamente complexa de seus interlocutores, que comunicam-se usando símbolos que meio que são pintados no ar com uma fumaça que sai da mão deles. O trabalho árduo e metódico da dupla revela uma mensagem envolvendo uma arma, o que levanta uma série de questões (eles querem uma arma ou estão oferecendo uma?) e estimula outros países a optarem por uma postura agressiva contra os visitantes.

Baseado no conto The Story of your Life do escritor Ted Chiang, A Chegada é um filme pacifista que associa os conflitos humanos, sejam eles militares ou não, a nossa dificuldade de nos fazermos entender e de ouvirmos uns aos outros. A conclusão, que está diretamente ligada ao monólogo do início, é surpreendente (daquelas que a gente diz AH, ENTENDI!) e os muitos detalhes do roteiro, como os apelidos dados por Ian aos alienígenas (Abbott e Costello, referência a dupla de comediantes cuja principal piada era justamente sobre um mal entendido), tornam a sessão prazerosa para quem gosta de pensar um pouquinho sobre o que está vendo. Depois de realizar um filme deveras verborrágico, o diretor Denis Villeneuve volta a produzir uma narrativa atraente com um visual poderoso e será bastante justo caso ele consiga arrematar algum prêmio por com esta pepita.

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Elle (2016)

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elleHá 8 longas na lista do Indiewire de possíveis indicados ao Globo de Ouro/Oscar de 2017 na categoria Melhor Filme Estrangeiro. Dentre eles, escolhi o francês Elle para assistir primeiro tanto por acreditar que ele tem chances reais de figurar entre os cinco títulos que serão selecionados para as premiações (ele concorreu a Palma de Ouro no Festival de Cannes) quanto porque o filme foi dirigido pelo Paul Verhoeven, um sujeito que fez deste mundo um lugar melhor quando colocou a Sharon Stone para cruzar as pernas naquela cena icônica do Instinto Selvagem.

O diretor holandês é um desses caras de quem tu pode esperar sempre algo desconcertante relacionado a temas polêmicos como violência e sexualidade. Pessoalmente, nunca esqueci os banhos de sangue que ele promoveu em longas distópicos de ficção científica como Tropas Estelares e o primeiro RoboCop e sempre fui perturbado pela atração quase doentia que emanava da perigosíssima Catherine Tramell e seu picador de gelo no Instinto Selvagem, filme que transformou muita criança em adolescente na década de 90.

Mesmo sabendo onde estava pisando, devo dizer que fiquei bastante chocado com o que vi em Elle. A história que o Verhoeven conta aqui, adaptação de um romance do escritor Philippe Dijan, ofende o espectador o tempo todo pela forma banal com que atos de violência são praticados e absorvidos pelos personagens e também pela ausência quase total de amor nas muitas cenas de sexo do filme.

elle-cena-3Logo de cara, a personagem principal, Michèle (Isabelle Huppert), é estuprada em casa por um homem mascarado. A cena, como não poderia deixar de ser, é revoltante e cruel: Michèle luta e grita, mas o esforço dela, que já é uma mulher velha, não é páreo para a brutalidade do estuprador, que além de tudo espanca-a com violentos socos e tapas no rosto. Depois de uma cena dessas, o “normal” seria que, na sequência, o filme trabalhasse o dia a dia de uma mulher traumatizada pelo ocorrido, certo?

No primeiro dos muitos reveses de Michèle em Elle, a personagem toma um banho, compra um spray de pimenta, manda trocar as fechaduras das portas de sua casa, realiza um teste de DST e pronto, segue a vida. Num primeiro momento, até pensei que o fato de ela não desmoronar psicologicamente devia-se há um estado de choque ou algo do tipo, mas a explicação para o pragmatismo da personagem frente à situação revela-se um pouco mais sombria. Quando era criança, Michèle viu o pai, um católico convicto, assassinar um bocado de gente na rua em que eles moravam. Ele foi preso e os anos passaram, mas este evento parece ter contribuído significativamente para transformá-la em uma adulta amoral e apática.

elle-cena-4Na sequência, Verhoeven nos apresenta cada uma das pessoas que compõe a bizarra rede de relações da personagem. Há a mãe (Judith Magre, uma senhora que pretende casar-se com um garoto de programa), o filho (Jonas Bloque, um adolescente bobão, ex-usuário de drogas, que envolveu-se com uma trambiqueira), o ex-marido (Charles Berling, um intelectual vaidoso), um casal de amigos (Anne Consigny e Chistian Berkel, sendo ela a melhor amiga e ele o amante) e um vizinho (Laurent Lafitte, um homem misterioso e charmoso). O cenário onde esta estranha história desenrola-se conta ainda com a equipe de funcionários de Michèle, que é dona de uma empresa que produz jogos de videogame.

A aparente indiferença de Michèle para com o estupro, diagnóstico que parece ganhar força após uma cena na qual ela revela o ocorrido para os amigos com a mesma tranquilidade de alguém que relata um passeio no parque, parece diminuir quando ela começa a receber mensagens provocativas e obscenas no celular. Inicia-se então uma espécie de jogo de gato e rato entre a personagem e o estuprador, com ela tentando descobrir a identidade de seu algoz ao mesmo tempo em que fantasia com a situação. O toque bizarro do Verhoeven dá-se quando, a medida que o filme passa, a gente vai ficando cada vez mais convencido de que Michèle não será a vítima da história.

elle-cenaO diretor não relativiza o ato do estupro. Isso seria absurdo. Michèle foi abusada e, mesmo que a reação dela seja branda, trata-se de um ato monstruoso. O ponto polêmico da história é que vemos que a personagem consegue ser tão ou mais malévola do que o homem que violentou-a na abertura do filme. Em Elle, Michèle pode ser vista fazendo coisas horríveis como torturar psicologicamente a mãe e o próprio filho, transar com o marido de sua melhor amiga, humilhar um de seus funcionários, pedindo que ele mostre-lhe o pênis caso não queira ser demitido, e seduzir o vizinho na frente de sua esposa durante um jantar. Seja por traumas do passado, seja pelo abuso sofrido no presente, Michèle tornou-se uma sociopata e é impressionante a virada de jogo que ela promove nas cenas finais pra cima do estuprador. Também é perturbador, visto que a gente fica com aquela sensação incômoda de que a vida é bem mais desgraçada do que gostaríamos de acreditar.

Além de possuir uma história bastante original, que ignora qualquer noção de moralidade e de politicamente correto para explorar aspectos de nossa personalidade que muitas vezes preferimos ignorar (é difícil, por exemplo, admitir fetiches que envolvem violência), Elle conta ainda com a atuação estupenda da atriz francesa Isabelle Huppert (eu não estranharia se ela recebesse uma indicação individual pelo papel) e com a condução precisa e corajosa do Verhoeven, que consegue deixar a gente tenso durante 2 horas antes de nos entregar um final que dificilmente vemos nas produções de Hollywood. De fato, mesmo sem conhecer os outros concorrentes, não é difícil perceber o porque do Indiewire dizer que o Elle tem tudo para consagrar-se em 2017 como Melhor Filme Estrangeiro.

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Celular (2016)

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CelularPronto, voltei! 🙂

Depois de um cansativo primeiro semestre trabalhando em dois empregos, pude finalmente sair de férias e descansar. Aproveitei a oportunidade para realizar um sonho antigo: após 30 anos de existência nesse mundão velho, finalmente consegui transcender os limites territoriais do nosso querido Brasil e, junto da minha esposa, passei uma semana incrível sob o calor escaldante do México.

Programei a viagem de modo que, entre tacos, ruínas maias e praias paradisíacas, sobrasse uma tarde livre para ir ao cinema. Sei que, como um amigo brincou em uma foto que postei no Facebook, “ninguém vai para Cancún para assistir filmes”, mas, cinéfilo que sou, não pude resistir à vontade de conhecer uma sala de projeção de outro país. Na minha bagagem, mais do que as tradicionais bugigangas (eu comprei um apito de coruja, caras rs), eu queria trazer experiências, e consegui uma bem interessante vendo esse Celular por lá.

O áudio do filme estava no idioma original, em inglês, e as legendas estavam em espanhol. Mesmo sem dominar a língua, não é difícil extrair o significado geral, por assim dizer, de uma frase escrita em espanhol, certo? Muitas palavras são iguais ou parecidas. O que pega mesmo, principalmente para a leitura dinâmica que precisa ser feita para as legendas (acompanhando simultaneamente a imagem e o texto) são os falso cognatos. Basta confundir uma palavra e pronto, tu perde um diálogo inteiro. A solução que encontrei para esse “problema” foi confiar no meu inglês e concentrar a atenção nos diálogos, deixando as legendas como último recurso para compreender o que estava sendo falado. Até que deu certo: fiquei perdido em pouquíssimos momentos, de modo que considerei a experiência bastante positiva. Sobre o cinema em si (rede Cinépolis), acrescento ainda que fiquei impressionado com a estrutura do mesmo (cadeiras hiper confortáveis, tela gigante) e satisfeito com o valor do ingresso: num baita de um domingão, paguei 44 pesos (cerca de 11 reais) por um ingresso, sendo que por aqui costuma ser pelo menos o dobro disso.

Celular - CenaFeitas estas considerações, vamos ao filme. Num episódio da segunda temporada do Family Guy, o MacFarlane brincou com o fato do Stephen King utilizar premissas bizarras para seus livros (o trecho pode ser visto clicando aqui). Não pude deixar de lembrar dessa piada após ver os primeiros 10min de Celular, que é baseado em um romance do escritor. Eis o que acontece: Clay Riddell (John Cusack) desembarca de um avião e vai para o saguão do aeroporto. O personagem, que é uma espécie de artista gráfico, está feliz por ter conseguido fechar um bom contrato com uma empresa de jogos. Clay liga para a ex-mulher para contar as novidades e para falar com o filho, mas o celular dele acaba a bateria e a ligação cai. Eis então que surge um forte zunido e …. TODO MUNDO QUE ESTÁ FALANDO NO CELULAR TRANSFORMA-SE EM ZUMBI!

Assim, sem mais nem menos. É meio que uma tradição de histórias de zumbi não revelar a origem do problema e, sinceramente, eu até acho isso legal, mas não deixa de ser bizarro e até mesmo engraçado a forma abrupta como as coisas acontecem por aqui. O figurante está lá, falando tranquilamente no celular, aí rola o barulho, ele começa a ter umas convulsões, coloca sangue pela boca e pelos olhos e já sai mordendo e matando outras pessoas. Esse começo, aliás, lembra as grandes obras do chamado terrir de diretores como o Sam Raimi, filmes de terror onde o exagero do gore acaba ganhando traços cômicos: tão logo fiquei chocado com a exibição de vísceras e ossos quebrados, comecei a dar risada da ferocidade animalesca dos zumbis e das caras de susto do Cusack.

Celular - Cena 2Na sequência, Clay une-se a outros sobreviventes, dentre eles Tom McCourt (Samuel L. Jackson) e foge do aeroporto. Os zumbis, que são bastante rápidos, perseguem o grupo e continuam fazendo vítimas. Clay convence Tom a ajudá-lo a procurar por seu filho e sua ex-mulher e então os personagens começam a peregrinar através dos destroços do que outrora fora uma cidade civilizada. O perigo constante obriga os personagens a esconderem-se em vários locais e fazerem alianças com outros sobreviventes, como a Órfã feiosa Alice (Isabelle Fuhrman).

Acredito que a intenção do King com esse Celular seja criticar o uso exacerbado que fazemos do aparelho nos dias de hoje. Para comprovar a força da analogia do escritor que compara os usuários a zumbis, basta sair na rua e observar as pessoas andando e/ou dirigindo completamente imersas nos conteúdos exibidos na tela de seus smartphones. Eu, que me considero bastante viciado em redes sociais e outros aplicativos, não deixei de fazer a auto crítica que a história estimula e estou tentando diminuir progressivamente o uso do aparelho e dar mais atenção para as pessoas e coisas ao meu redor. Não quero ser visto como um zumbi cultuador de uma antena de companhia telefônica rs

Celular - Cena 4O começo de Celular é estranho mas bom, a ideia de um apocalipse zumbi provocado por telefones é divertida e há umas duas cenas realmente legais aqui (estou pensando na queima de zumbis no estádio e no sujeito paranoico cheio de explosivos), mas no geral eu achei o filme bastante cansativo. O diretor Tod Williams gasta muito tempo com diálogos e divagações pouco interessantes (cala a boca, Samuel! rs) e não preocupa-se em explicar melhor aspectos importantes da história, como a relação do personagem fictício criado por Clay com os eventos do filme. Quando Celular termina, com AQUELA música tornando AQUELE final ainda mais bizarro, fiquei com a sensação de ter visto algo bastante diferente, mas não necessariamente algo bom.

Es una película extraña rs

Celular - Cena 3

O Cemitério Maldito (1989)

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O Cemitério MalditoTerminei há umas duas semanas as 395 páginas do O Cemitério, livro do escritor Stephen King que ganhei de aniversário de um amigo que prezo muito. Já vi muitas adaptações cinematográficas da obra do King (Um Sonho de Liberdade, Tempestade do Século, Carrie, etc), mas esse foi o primeiro romance dele que li (também conheço o Dança Macabra, mas esse é um estudo sobre gêneros literários, então não conta). O cara é mesmo muito bom naquilo que ele faz. King descreve ambientes sem tornar-se enfadonho, faz-nos constantemente ouvir a voz interna de seus personagens (o que sempre rende divertidos comentários sarcásticos), demonstra um bom conhecimento da cultura pop e narra uma trama de mortes, maldições indígenas e blasfêmias com a naturalidade de alguém que está sentado em uma mesa de bar tomando uma cerveja e contando uma história. De fato, ele merece o posto de “Mestre do Horror e da Fantasia” que consta na capa da edição que ganhei.

Movimento natural, terminei o livro e procurei o filme baseado nele para assistir. O Cemitério Maldito, produção que inspirou o clássico Pet Sematary dos Ramones, foi dirigido pela diretora Mary Lambert e contou com um roteiro adaptado pelo próprio Stephen King, que ainda supervisionou as filmagens e interpretou um personagem na trama. O que conclui-se a priori à partir dessas informações é que esta versão cinematográfica é o produto mais próximo do livro que o leitor poderia esperar, certo? Ainda que, no geral, o filme seja competente em recriar os cenários e acontecimentos descritos pelo escritor, devo dizer que não fiquei muito empolgado com o que vi. Abaixo, colocarei os meus motivos sem preocupar-me em soar pedante, visto que senti falta no filme justamente de alguns detalhes que, ao meu ver, fazem o livro brilhar. Texto com SPOILERS.

O Cemitério Maldito - CenaLouis Creed (Dale Midkiff) é um médico que muda-se de Chicago para Ludlow, uma cidadezinha no interior do Maine, para assumir a vaga no hospital da universidade local. Junto com ele, vai a esposa, Rachel (Denise Crosby), os dois filhos, Ellie (Blaze Berdahl) e Gage (Miko Hughes), e o gato da família, Church. Logo em seu primeiro dia em Ludlow, Louis conhece Jud Crandall (Fred Gwynne), um velhinho simpático e um tanto quanto misterioso que aconselha-o a manter os filhos longe da estrada que passa nas proximidades de sua nova casa. Ali, Jud diz, muitos animais já morreram atropelados pelos carros e caminhões que sempre trafegam em alta velocidade. Para comprovar o que disse, o velho conduz Louis e sua família por um caminho que adentra uma floresta próxima até o “Simitério de Bichos”, (assim, com a grafia errada mesmo), local onde as crianças de Ludlow habituaram-se a enterrar seus animaizinhos de estimação mortos na estrada.

No livro, o simples fato de Louis levar sua família até o Simitério de Bichos já torna-se motivo de discussão entre ele e a esposa, que tem dificuldade e resistência para lidar com o tema da morte. No filme, essa tensão entre o casal é deixada de lado para que a história siga com o primeiro dia de serviço do médio na universidade, no qual ele presencia a morte violenta do jovem Victor Pascow (Brad Greensquist). Essa abordagem mais “direta ao ponto” do filme, na minha opinião, deixa de lado um dos melhores aspectos do livro, que é o desenvolvimento do personagem principal, Louis Creed.

O Cemitério Maldito - Cena 3Nas páginas de O Cemitério, Louis é um cara normal, com defeitos e qualidades (ele, por exemplo, xinga mentalmente os filhos e a esposa quando eles lhe dão trabalho mas nem por isso deixa de tratar-lhes com carinho), que acaba experimentando o gosto amargo da hipocrisia quando abandona seu discurso racional de médico para ceder ao misticismo frente à morte. A ladeira emocional que o personagem percorre no livro, passando de um homem seguro de si para uma figura histérica e paranoica, é praticamente toda ignorada pelo roteiro do filme, que concentra seus esforços em mostrar os principais momentos da história sem levar em consideração seus aspectos psicológicos. A reconstrução do Simitério de Bichos, bem como a maioria dos cenários (a casa dos Creed, a estrada, o cemitério MicMac), ficou perfeita, mas a ausência da voz interna de Louis para exemplificar sua caminhada rumo à loucura realmente fez falta. O Louis do livro é um cara que xinga os filhos (rs), o do filme é só um almofadinha de topete sem nenhuma personalidade.

O Cemitério Maldito - Cena 2Sem a parte da trama em que o Stephen King valia-se da mente perturbada de Louis para destilar sarcasmo e humor negro, resta uma história regular de suspense/terror em que uma família é acometida por acontecimentos fantásticos. Tal qual Jud havia avisado, era bom evitar a estrada que ficava próxima da casa, e o descumprimento desse aviso mata, em momentos alternados, Church e Gage. Dilacerado pela dor, Louis enterra o filho e o gato no Cemitério Micmac, um antigo cemitério indígena escondido no coração da mesma floresta onde estava o Simitério de Bichos. Os poderes do local fazem com que os mortos retornem à vida, mas também os transforma em criaturas malignas capazes de matar e de falar palavrões. A cena mais importante da história, o confronto final entre Louis e suas seringas mortais e Gage, ficou bem legal, mas momentos igualmente bacanas como a briga no velório e a incursão noturna no cemitério de Ludlow ficaram muito apagadas.

O Cemitério é um desses livros que fazem a gente apaixonar-se por um escritor e querer ler mais e mais de suas obras (em breve começarei a série A Torre Negra), já O Cemitério Maldito, mesmo perdoando-se as perdas necessárias para adaptar-se um livro para o cinema, é só um desses filmes de terror comum com crianças falando coisas esquisitas.

O Cemitério Maldito - Cena 4