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A Bela e a Fera (2017)

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Apesar dos avisos do pastor Silas Malafaia, optei por correr o risco de “virar gay” e fui conferir esta nova versão do conto de fadas francês A Bela e a Fera. No vídeo que pode ser visto clicando no link acima, Malafaia acusa a Disney de “comprar a agenda gay” e de ensinar sexualidade para o público, especialmente para as crianças. Segundo o pastor, a decisão do estúdio de incluir no filme um personagem abertamente homossexual (LeFou, interpretado pelo Josh Gad) é uma tentativa “asquerosa e nojenta” de erotizar a molecada.

Malafaia gravou o tal vídeo no dia 02/03 e, segundo o IMDB, A Bela e a Fera (e o LeFou) só estreou no Brasil no dia 16/03, ou seja, é bem provável que ele emitiu aquela opinião ANTES de ver o filme. É claro que o pastor pode ter tido acesso ao material em uma pré-estreia exclusiva, mas o que me parece é que, ciente das informações que foram divulgadas sobre o personagem antes do lançamento, Malafaia adiantou-se e convidou seus seguidores a boicotarem o produto da Disney.

Faço essas considerações pois, por mais que eu preze pelo respeito às crenças alheias, não consegui encontrar em A Bela e a Fera o conteúdo preocupante apontado pelo Malafaia. É fato que o LeFou está mais purpurinado do que seu correspondente da animação de 1991, mas daí a dizer que o filme propõe-se a erotizar crianças e ensinar-lhes sexualidade é um absurdo, o tipo de erro grotesco que geralmente é cometido por quem fala de algo que não sabe (ou não viu). Tal qual fazia anteriormente, o personagem continua beijando o chão que o Gaston (Luke Evans) pisa e cantando sua canção que enaltece as “qualidades” do valentão. Os trejeitos dele não deixam dúvidas que, se pudesse, ele beberia daquela água, mas é só. Sem beijos, sem carícias, sem nada que os pais de uma família tradicional precisem tampar os olhos dos filhos por medo deles saírem do cinema arrotando arco-íris. É, portanto, no mínimo quixotesca a preocupação do pastor com o LeFou. O fato de haver revolta contra a homossexualidade do personagem e silêncio contra o machismo e a truculência de Gaston, que continua querendo obrigar Bela (Emma Watson) a casar-se com ele para massagear-lhe os pés, diz muito a respeito das prioridades e do caráter do Malafaia.

Eu, que continuo gostando de mulheres a despeito dos esforços do simpático LeFou, também sigo apreciando musicais e acredito que dificilmente veremos algo tão bom do gênero nos cinemas esse ano quanto esse A Bela e a Fera. Conta-se que, inicialmente, a intenção da Disney era refilmar a história como um longa metragem comum, sem as músicas, ao que o diretor Bill Condon (dos dançantes Dreamgirls e Chicago) respondeu “Vocês são loucos? Pretendem fazer uma adaptação enorme e bonitona e deixar ‘Be Our Guest’ de lado?”. Que bom que deram ouvidos ao diretor: a tecnologia atual e a grandiosidade dos figurinos e dos cenários, por si só, já tornariam esta versão válida e interessante, mas é na parte musical que a história continua tocando nossos corações.

Nesse conto tão velho quanto o próprio tempo (na verdade, ele foi escrito em 1740 pela francesa Gabrielle-Suzanne Babot), Bela é uma garota entediada pela vida provinciana que a cerca. Num mundo organizado para que as maiores ambições de uma mulher sejam encontrar um marido e cuidar da casa, Bela é uma inventora apaixonada por livros que espanta todos tanto por seu jeito independente quanto por resistir aos avanços do bonitão Gaston, o solteirão mais cobiçado do vilarejo. Certo dia, Maurice (Kevin Kline), o pai de Bela, é capturado por uma fera monstruosa (Dan Stevens) e preso nas masmorras de um castelo. O crime dele? Colher uma rosa do jardim da propriedade para levar para a filha. Procurando reparar a injustiça, Bela oferece para trocar de lugar na prisão com o pai, proposta que é aceita pela Fera com a condição de que a moça nunca mais abandone o local.

Quem viu a animação sabe que a Bela e a Fera irão se apaixonar (ele pelo caráter dela, ela pela intelectualidade e coragem dele) e que isso quebrará o feitiço que havia transformado o príncipe egoísta numa criatura monstruosa. Gaston, obviamente, não ficará nada feliz em ser preterido por uma bola de pelos gigante e incitará a população do vilarejo a atacar o castelo, o que provocará uma batalha épica e divertida onde relógios (Ian McKellen), candelabros (Ewan McGregor) e bules de chá (Emma Thompson) colocarão todo mundo para correr. Condon respeitou a estrutura principal da história, mas retirou os excessos (a invenção maluca de Maurice, o velho calhorda do hospício), adicionou subtramas (a mãe e a infância de Bela) e 3 novas canções (How Does a Moment Last Forever, Days in the Sun e Evermore). Essas alterações, longe de comprometerem passagens e memórias caras aos fãs, tornaram a história mais coesa, principalmente no tocante à luz que é jogada no passado trágico da protagonista.

Ainda que conserve elementos de magia e diversão comumente associados à infância, de modo geral este A Bela e Fera está um pouco mais adulto e sombrio do que seu antecessor, tanto pela forma mais incisiva de abordar temas como o machismo (Emma Watson não economizou desprezo no olhar ao encarar o tosco Gaston) quanto pelo visual: se o Fera da animação era uma espécie de cachorrão que dava vontade de fazer um cafuné, esta nova versão, com chifres de bode e tudo mais, parece o próprio filho do cramunhão. Todo caso, cumpriu-se bem a tarefa de atualizar a história atemporal do poder da beleza interior para esta geração: as reencenações da psicodélica Be Our Guest e da apaixonante Beauty and the Beast utilizaram o que há de melhor em computação gráfica para criar um espetáculo soberbo em 3D e, no fim, o prepotente e arrogante Gaston voltou a receber o que ele merece, tal qual deve ser. Acreditem, não há o que boicotar aqui: a Disney acertou em transformar um de seus maiores clássicos em um magnífico live action e continua de parabéns por, mais do que desenvolver produtos para entreter crianças, preocupar-se em levar exemplos de diversidade e respeito às diferenças para as telas de cinema. Quero mais Mickey e menos Malafaia.

Cinquenta Tons Mais Escuros (2017)

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Sinto-me feliz. Após um mês de muitas dificuldades e privações, cá estou eu conseguindo digitar com as duas mãos novamente. Fui ao médico ontem pela manhã e, contrariando todo o meu pessimismo, ele disse que já era hora de retirar o  gesso e a tala que eu vinha usando desde o dia do meu acidente. Ainda é preciso calma, algumas sessões de fisioterapia e tempo para as feridas da palma da mão direita fecharem, mas a felicidade de poder voltar a escrever e realizar sozinho tarefas cotidianas (tomar banho, comer, etc) é algo indescritível. Em breve, espero, este pesadelo ficará definitivamente no passado e eu poderei lembrar desses dias tenebrosos apenas para agradecer todo o carinho e apoio que recebi da minha família, amigos e da minha querida esposa.

Semana passada, tão logo eu e a Renata saímos da sessão do Logan, entramos em outra sala para assistir este Cinquenta Tons Mais Escuros. Isto foi um erro em todos os sentidos. Levando em conta nossa condição física, foi um erro porque ela precisou ficar sentada durante quase 4 horas (tempo somado dos dois filmes) num dia que o joelho dela estava bastante dolorido. Também foi um erro porque, após ver a despedida magistral do Wolverine, assistir um soft porn ruim assemelhou-se a sair dos Jardins do Éden e cair direto no Vale dos Ventos, Segundo Círculo do Inferno dantesco onde agonizam aquelas pessoas que, em vida, deixaram-se levar pela luxúria. Cinquenta Tons Mais Escuros não só repete todos os muitos erros de seu antecessor, o insosso Cinquenta Tons de Cinza, quanto volta a deixar claro que, se você tem mais de 18 anos, você não é o público alvo desta adaptação cinematográfica da obra da escritora E. L. James. Eu, que já completei 31 primaveras e não gosto de abandonar nada pelas metades, voltarei ao cinema para assistir a conclusão da história, mas o ânimo é zero depois do que vi nesta continuação.

Aqui, até mesmo para justificar o “por que raios eu fui ver este troço”, acho justo repetir algo que eu disse quando resenhei o Cinquenta Tons de Cinza. Antes de qualquer coisa, eu gosto de cinema. Mesmo que eu não tenha condições de assistir tudo que é lançado (alguém tem?), procuro ver a maior quantidade de filmes possíveis, e isso inclui desde o “novo do Scorsese” até o “blockbuster bafo sobre fodelança sadomasoquista”. É bastante confortável, principalmente devido a falta de tempo, dar atenção somente para trabalhos ligados a cineastas já consagrados e/ou para títulos que receberam boas resenhas, mas eu ainda gosto de ter uma visão ampla do que está sendo produzido atualmente e, as vezes, isso implica ir assistir algo mesmo quando todos os meus instintos me dizem para não ir.

Todo caso, eu fui e vi uma história que começa tão mal quanto a anterior havia terminado. Anastasia (Dakota Johnson), que havia afastado-se do bonitão Christian Grey (Jamie Dornan) após descobrir a extensão de suas peculiaridades sexuais, procurou superar o término do relacionamento enfiando a cara no trabalho. Agora ela é uma competente assistente numa editora de livros e, quando tem algum tempo livre, sai para beber com os amigos e para passear. Certo dia, enquanto visitava uma exposição de fotografias de um amigo, Anastasia surpreende-se não somente com o fato de que o tal amigo havia feito vários quadros com fotos dela quanto com a notícia de que um comprador havia arrematado todas as obras em que seu rosto aparecia. Não é nenhuma surpresa que o comprador é o galante Christian Grey, que surge logo em seguida pedindo para que a moçoila dê-lhe uma segunda chance.

E Anastasia dá. E Christian, que promete aceitar um “relacionamento baunilha” (menos foder, mais fazer amor) para agradar sua amada, abre a carteira e começa a mima-la com roupas caras, joias e celulares. Como pontos de conflito, a trama traz a possessividade e o ciúme de Christian atrapalhando a vida profissional de Anastasia, a eterna indecisão da moça, que ora quer experiências sadomasoquistas, ora não, e a inclusão da personagem Elena (Kim Basinger), a milf que ensinou o Sr. Grey a foder e que ainda exerce uma estranha influência sobre ele.

Dar, foder, fazer amor. Falou na série Cinquenta Tons de Cinza, falou em sexo. As pessoas postam comentários safadinhos no Facebook quando referem-se ao filme e, dentro da sala do cinema, imperam as risadinhas, suspiros e exclamações quando Anastasia e Christian começam a se pegar, mas a verdade é que o conteúdo sexual do filme é extremamente meia boca. Talvez por visar mesmo um público mais adolescente, o diretor James Foley abre mão de cenas de nudez frontal e sempre envolve o sexo e os elementos do sadomasoquismo em contextos humorísticos. Christian introduz esferas na vagina de Anastasia e, nas cenas seguintes, todo mundo ri dos closes que mostram as caras e bocas que ela faz para conter o tesão na frente de terceiros. Christian masturba Anastasia dentro de um elevador lotado e a gente ri da cara fechada de uma senhora próxima ao casal. Já tive 18 anos e sei que este tipo de conteúdo pode provocar rebuliços internos nessa fase (até porque praticamente tudo provoca rs), mas não acho que Cinquenta Tons Mais Escuros tenha algo a dizer sobre sexo para um adulto casado e com acesso à internet.

Se o sexo decepciona, não é o roteiro esquemático que salva o material. Resumidamente, Anastasia e Christian tem os mesmos problemas que eu e você, caro leitor, temos em nossos relacionamentos. A diferença é a proporção bizarra que esses problemas tomam quando há bilhões de dólares envolvidos no processo. Você sente ciúmes da sua namorada por pensar que o chefe dela está com segunda intenções mas resigna-se por saber que ela precisa do emprego. Christian também sente ciúmes, daí ele compra a empresa da namorada e manda o chefe dela embora. Sua namorada fica preocupada quando você não dá notícias. Anastasia fica preocupada porque Christian sofreu um acidente de helicóptero que está sendo transmitido ao vivo na TV. Sua namorada é independente e gosta de dividir a conta. Anastasia é independente e recusa um cheque de 24 mil dólares. Não dá para ter empatia com pessoas assim (nem com um diretor que faz de uma queda de helicóptero uma cena banal dentro de um filme).

O mistério envolta do passado e dos desejos sadomasoquistas de Christian, ponto central da trama, avança pouco em Cinquenta Tons Mais Escuros. O relacionamento entre os personagens dá o passo lógico em direção ao altar, Anastasia termina a trama um pouco mais determinada e segura de si, abandonando aquela postura passivo-confusa irritante de outrora, e um homem observa tudo das sombras, prometendo complicações futuras para a relação do casal, mas é só.  E é pouco. E é ruim. E não dá tesão. E, ainda que a trilha sonora e o figurino sejam bons e que tenham me dito que o livro é “melhor e mais quente”, não dá a MENOR vontade de conhecer o trabalho da escritora E. L. James com base nisso aqui. Felizmente, se não dividirem o último livro em 2 filmes, falta só mais um.

La La Land: Cantando Estações (2016)

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Ontem, 24/01, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou os indicados ao Oscar de 2017 (clicando aqui você vê a lista completa dos concorrentes). Seguem alguns comentários sobre os selecionados:

  •  A despeito de ter disputado apenas prêmios secundários no Globo de Ouro, o drama racial Estrelas Além do Tempo arrancou uma surpreendente indicação a Melhor Filme. O ocorrido parece ser uma resposta da Academia às críticas sofridas em 2016, quando praticamente nenhum ator/atriz negro(a), bem como as produções voltadas para eles, tiveram espaço na cerimônia. Olhando para cada categoria, percebe-se que esse ano houve uma preocupação com a diversidade, o que é bastante positivo.
  • Outra surpresa em relação ao Globo de Ouro foi a performance do ótimo A Chegada, que passou de 2 para 8 indicações, incluindo Melhor Filme. Os fãs de ficção científica agradecem o/
  • Eu não esperava o Mel Gibson na lista para Melhor Diretor, não por ter alguma crítica negativa ao que ele fez no Até o Último Homem, que ainda não vi, mas pela recente trajetória polêmica dele fora das telas.
  • Bizarro o Elle vencer o Globo de Melhor Filme Estrangeiro e não ser sequer indicado na mesma categoria do Oscar, ainda mais porque que sua protagonista, a Isabelle Huppert, concorrerá a Melhor Atriz. Alguém em Hollywood não gosta do Verhoeven.

Anúncio feito, agora é esperar até o dia 26/02 para assistir a cerimônia de premiação e conhecer os vencedores. Ficarei feliz comigo mesmo se, até lá, eu conseguir ver e resenhar pelo menos mais 12 filmes, o que cobrirá todos os indicados nas principais categorias e ainda me permitirá ver ao menos um documentário. I am one with the force and the force is with me! Bora!

la-la-land-cena-3La La Land ainda está nos cinemas e uma forma bem fácil de vendê-lo é dizer que o filme concorre em incríveis 14 categorias, o que coloca-o ao lado do Titanic e do A Malvada como recordista de indicações. A outra forma é defini-lo pelo que ele é, um musical que aquecerá o seu coração e fará com que você recorde cada um dos pequenos e belos momentos que marcaram o início da sua relação com aquela pessoa especial. Prefiro essa segunda abordagem, mas reconheço que ela esbarra em um problema: o musical, apesar de ser um gênero queridinho da Academia, não tem muito apelo junto ao público ocasional. Minha esposa mesmo, antes do filme começar, reconheceu que estava curiosa, mas que não gosta “quando aquele povo começa a cantar e dançar”. Nesse texto, contarei-lhes como o La La Land venceu a resistência dela à musicais e explicarei-lhes porque o filme tem tudo para ser o grande vencedor do Oscar de 2017.

la-la-land-cena-2É apenas mais um dia ensolarado em que dois jovens tentam sobreviver na mágica porém cruel cidade de Los Angeles. Mia (Emma Stone) trabalha como atendente na lanchonete de um estúdio e sonha com a possibilidade de tornar-se uma estrela de cinema. O pianista Sebastian (Ryan Gosling) toca músicas chatas em bandas ruins enquanto planeja abrir o seu próprio bar de jazz. O amor pela arte e o desejo de uma vida melhor unirá os personagens em uma história cheia de altos e baixo e muitas, muitas cenas onde o “povo começa a cantar e dançar”.

É claro que a cantoria causa estranhamento. Não é todo dia que você está em um engarrafamento e, do nada, alguém salta de um carro e começa um coro sobre o poder da perseverança. Superado esse “choque” inicial, porém, a qualidade do material fala mais alto do que qualquer desconfiança. La La Land foi escrito e dirigido pelo Damien Chazelle (o responsável pelo conceitual Whiplash) e, cena após cena, fica patente o esmero do diretor na coreografia das danças e na manipulação da câmera para que o espectador experimente algo arrebatador. Da parte técnica, chamo a atenção para o seguinte:

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  • Plano-sequência: Seja nas passagens grandiosas como a dança na ponte que abre o filme, seja em cenas mais intimistas como a do planetário ou ainda nas apresentações solo dos protagonistas, Chazelle praticamente não utiliza cortes, filmando tudo em incríveis tomadas contínuas.
  • Experimentação: Tradicionalmente, musicais costumam utilizar suntuosos cenários de estúdio para os personagens executarem suas performances. O diretor vale-se desse recurso (principalmente no final, com as muitas transições entre ambientes), mas ele também leva a dança para lugares pouco comuns. Gostei de ouvir os TIC PLEC dos sapatos de Sebastian e Mia no asfalto e achei a sequência abstrata do planetário, com o casal flutuando e movendo-se no infinito, o ponto alto do filme.
  • Repertório: La La Land é uma defesa apaixonada do jazz e do musical, dois formatos que Chazelle considera ameaçados atualmente. O diretor as vezes soa amargo (Sebastian diz que Los Angeles venera tudo mas não valoriza nada), mas a argumentação dele concentra-se mais em enaltecer o que ele ama através de citações dos grandes clássicos do estilo. Sou leigo em jazz, mas notei a frequência com que nomes de músicos são citados (bem como suas fotos nos cenários) e vi referências ao Cantando na Chuva (Sebastian rodopiando no poste), Cinderela em Paris (os balões), Sinfonia de Paris (toda a sequência final) e ao próprio Whiplash, com o J. K. Simmons fazendo uma divertida inversão de seu papel naquele filme (agora ele não gosta de jazz).

la-la-land-cena-5O espetáculo técnico, porém, pouco valeria se não viesse acompanhado de bons sentimentos. Palavras do Stephen King no Sobre a Escrita, “é menos sobre estilo e mais sobre contar uma boa história”. Sebastian e Mia são sonhadores, pessoas como eu e você que acordam todos os dias querendo uma oportunidade de mostrar ao mundo quem eles realmente são. Após um começo difícil (no engarrafamento, ele buzina e manda ela ir tomar um suco), eles encontram o caminho até o coração um do outro e, juntos, buscam forças para viverem seus sonhos. La La Land traz uma visão bem adulta sobre projetos de realização pessoal, mostrando que, as vezes, é necessário saber aceitar menos do que a gente merece antes da vitória chegar, mas ele também tem espaço para a inocência do amor adolescente. A química entre o Ryan Gosling e a Emma Stone, ambos indicados ao Oscar, me lembrou da primeira vez que saí com a minha (hoje) esposa, da primeira cerveja dividida em um bar barulhento, da primeira sessão de cinema juntos e, claro, do primeiro beijo. Durante a execução da linda City of Stars (concorre a Melhor Canção Original) eu olhei para o lado e vi ela me olhando de volta, sorrindo. Naquele momento, tive duas certezas: 1) ela gostou do filme que “o povo canta e dança”  tanto quanto eu 2) sou sortudo pra caralho.

La La Land foi o grande vencedor do Globo de Ouro e tem tudo para repetir o desempenho no Oscar. Vi um filme cult, que celebra o jazz e a história de Hollywood com uma técnica primorosa, mas também vi uma história de amor que faz qualquer um querer voltar a viver um namorinho de portão. Seu trabalho, Damien Chazelle, merece ser venerado pela Academia (com o Oscar) e valorizado pelo público (com o ingresso). Parabéns e obrigado ❤

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Sing Street (2016)

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sing-streetUma das diferenças mais interessantes do Globo de Ouro em relação ao Oscar é a existência da categoria “Melhor Filme – Comédia/Musical”. A divisão confere personalidade para a premiação e até dá para entender que filmes leves e menos pretensiosos concorram separadamente daquelas produções mais sérias e politicamente engajadas, mas ao mesmo tempo não deixar de ser estranho que a qualidade de um longa seja julgada por gênero, como se um drama, por exemplo, fosse necessariamente “superior” a uma comédia. Outro ponto questionável dessa divisão é o critério utilizado para determinar em qual categoria os filmes concorrerão. Em 2015, o Birdman, que é um drama, concorreu como “Comédia/Musical”, mesma coisa que aconteceu na última edição com o Joy e o A Grande Aposta. Mais do que simples erros, essas trocas de categorias são frequentemente atribuídas à politicagem que envolve as premiações, com alguns filmes “trocando” de gênero para terem mais chances de vencerem.

Levando isso em consideração e analisando o histórico das edições do Globo de Ouro que acompanhei, não consigo levar a sério a categoria Melhor Filme – Comédia/Musical. Fora o aspecto político, sempre há um ou dois candidatos que estão bem abaixo dos outros em termos de qualidade e que, posteriormente, são ignorados pelo Oscar. Foi assim em 2015 com o Pride (Orgulho e Esperança) e o Um Santo Vizinho, já este ano os esquecidos foram o A Espiã que Sabia de Menos e o Descompensada, produções que eu nem me dei ao trabalho de ver. Eu não tenho a menor dúvida de que este Sing Street, concorrente a Melhor Comédia/Musical, seguirá o mesmo caminho do “esquecimento”, mas decidi assisti-lo tanto porque os outros indicados ainda não estão disponíveis quanto porque a sinopse é uma das coisas mais maluquetes que li nos últimos tempos. Observem só.

sing-street-cena-3É 1985 na Irlanda e uma crise econômica obrigou os pais de Conor (Ferdia Walsh-Peelo) a tirá-lo de um colégio particular e colocá-lo na rede pública. Enquanto lida com as costumeiras dificuldades de um novato (valentões e diretor autoritário), o personagem conhece e apaixona-se por Raphina (Lucy Boynton), uma garota descolada e independente. Para impressioná-la, ele monta uma banda de rock.

É isso aí mesmo. Como está bem resumido ali no pôster, “Garoto conhece garota, a garota não fica impressionada, o garoto monta uma banda”. É simples, funcional e gostoso de assistir, daqueles filmes que ficariam muitíssimo bem na grade de programas como Sessão da Tarde, mas não é uma produção para concorrer a Melhor Filme do ano. Todo caso, chega de questionar os critérios do Globo de Ouro: deixem-me contar pra vocês porque Sing Street (ainda sem título nacional) merece uma chance.

sing-street-cena-2Quem gosta e conhece um pouco da história do rock sabe que a década de 80 foi no mínimo especial para o estilo. O visual glam, a bateria eletrônica e os teclados onipresentes marcaram os principais grupos e hits do período, e esse filme capta com perfeição a essência dessa época ao mesmo tempo mágica e trash. A trilha sonora está repleta de clássicos de bandas como Motorhead , Genesis e Duran Duran, e tanto o visual quanto o estilo do som da banda de Conor (a Sing Street, daí o nome do filme) remetem diretamente ao que estava sendo produzido na época. As cenas que homenageiam o David Bowie e o A-ha devem agradar geral.

John Carney, o diretor e roteirista de Sing Street, também foi feliz em escolher o videoclipe como elemento importante de sua narrativa. A década de 80 produziu uma porção de pérolas audiovisuais (esse é DE LONGE o meu favorito) e, ciente disso, o diretor faz com que os personagens passem a maior parte do filme gravando clipes para as músicas dançantes da banda. É impossível não rir: Raphina, a musa de Conor, aparece em TODOS os clipes enquanto os garotos, vestidos com roupas engraçadíssimas, fingem que tocam seus instrumentos e fazem caras e bocas.

singstreetimage3-1024x576Sing Street concentra praticamente todas suas forças na parte musical (as músicas da banda são muito boas, do tipo de que dá vontade de ouvir em casa) e nas citações à outras obras (há um baile com referências ao De Volta Para o Futuro e ao Juventude Transviada). Como dito, isso torna o filme simpático e fácil de ser assistido, mas há pouco para ser absorvido além da diversão pura e simples. Atores veteranos como Aidan Gillen (do Game of Thrones) e Maria Doyle Kennedy até tentam dar alguma profundidade ao roteiro com uma trama sobre traição e divórcio e Brendan (Jack Reynor), irmão de Conor, tem uma ótima cena de desabafo, porém não há desenvolvimento dos outros membros da banda e conflitos sociais (preconceito, bullying, abuso de autoridade) são apenas sugeridos, de modo que fica patente que a mecânica aqui é realmente a do videoclipe: som, imagem e uma história de amor, rápido e direto ao ponto. É um ótimo filme para tu assistir depois de um dia exaustivo de trabalho, mas não é o tipo de produção que mereça ser consagrada em uma premiação.

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Love (2015)

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LoveAno passado, um burburinho nas redes sociais disse que um filme “praticamente pornô” estrearia nos cinemas nacionais. Matérias, como esta que pode ser lida clicando aqui, diziam que a produção chamaria-se Transa 3D e, entre outras coisas, traria uma polêmica cena onde um pênis ejacularia em direção ao público. Cinematograficamente falando, o sexo pelo sexo não me interessa: há milhares de sites na internet onde é possível encontrar pornografia em suas mais variadas e bizarras formas (há vídeos com pôneis, caras!), de modo que eu não assistiria Love (felizmente, o título original foi mantido) apenas para ver alguns peitinhos. Uma informação da matéria citada, porém, me fez ficar imediatamente interessado na produção:

“Com cenas quentes, o vídeo contém vários flashes de vários momentos da trama, que é dirigida pelo francês (sic) Gaspar Noé.”

Deixando de lado o erro do colunista (o diretor é argentino, e não francês), encontrei nesse trecho tudo o que eu precisava saber sobre o filme para decidir assisti-lo. A obra do Gaspar Noé (Sozinho Contra Todos, Irreversível, Viagem Alucinante) é marcada por cenas polêmicas de incesto, estupro e abuso de drogas, temas repulsivos e desagradáveis aos olhos, mas ainda assim temas que precisam ser discutidos e que o diretor explora sem preocupar-se com as amarras do politicamente correto. Assim sendo, no que diz respeito ao sexo, desconfiei que o Noé faria mais do que simplesmente mostrar closes das genitálias dos atores e, tal qual o Lars von Trier fez no Ninfomaníaca, discutiria o assunto de forma adulta e sem evitar as polêmicas inerentes ao tema. Felizmente, é exatamente isso que acontece aqui, ou seja, Love não é indicado para quem tem o Cinquenta Tons de Cinza como referência de sexo e relacionamento.

Love - Cena 3A primeira cena do longa é o tipo de material capaz de fazer com que o público desavisado desista do filme. Deitados em uma cama, Murphy (Karl Glusman) e Electra (Aomi Muyock) masturbam apaixonadamente um ao outro. Ao contrário do que geralmente acontece, a câmera do diretor não está posicionada para que você tenha apenas uma visão parcial do ato: lá está o pênis ereto do Murphy e a vagina cabeluda da Electra (rs). Na sequência, toda a química e felicidade do casal cede espaço para uma cena que acontece em outro local e num outro momento. Murphy acorda drogado e melancólico ao lado de Omi (Klara Kristin). No quarto ao lado, o bebê deles chora. O diretor então nos faz ouvir os pensamentos de Murphy e tudo o que ele faz é amaldiçoar a si mesmo e a vida que ele está levando.

O Gaspar Noé declarou que, com Love, a intenção dele era contar uma história de amor do ponto de vista sexual. Casais se conhecem, apaixonam-se, casam e separam-se pelos motivos mais variados, e aqui ele queria contar uma história em que o sexo fosse fator preponderante para os sucessos e insucessos da relação. Devido a uma gravidez indesejada, Murphy precisou casar-se com Omi, mas ele nunca superou os dias intensos vividos ao lado de Electra. Quando o telefone toca e a mãe de sua ex-namorada pede ajuda para localizá-la, visto que ela está desaparecida, o rapaz não pensa duas vezes antes de abandonar a esposa e o filho para procurar aquela que fora seu verdadeiro amor.

Love - CenaNoé ignora a ordem cronológica dos acontecimentos para nos mostrar o casal em várias etapas de uma relação que deteriorou-se ao longo do tempo pelo mesmo motivo que fizeram-na dar certo no início: a liberdade. Murphy e Electra retiram tudo o que podem um do outro, depois partem para uma ménage à trois com Omi, veem o ciúme frustrar a tentativa de levar uma relação aberta, entregam-se a curiosidade de interagir com um travesti e, por fim, procuram casas de swing para experimentarem o voyeurismo e o desprendimento de ver o parceiro transar com outra pessoa. Electra interessa-se pelo lado sonhador e artístico de Murphy, Murphy interessa-se pela inteligência e pelo espírito livre de Electra, mas a relação deles é baseada principalmente no sexo, e é sexo que vemos na maior parte do tempo de Love.

Há muitas cenas de masturbação, sexo vaginal, oral e homossexualidade no filme, tudo real, tudo filmado de forma que tu possa ver coisas como penetração e gozo. Essas cenas são “gratuitas”? Não mesmo. Além do filme possuir um roteiro sólido sobre obsessão sexual, que é filmado por Noé utilizando as mais diversas técnicas cinematográficas, como quebra da linha temporal e a inserção de textos explicativos na tela (um, por exemplo, associando o nome de Murphy com a Lei de Murphy, é bastante elucidativo), cada uma das cenas de sexo de Love tem uma razão para estarem lá e servem para reforçar a relação de dependência dos personagens com o ato sexual. Se a gente vê Murphy e Electra transando seguidamente em corredores de boate em uma determinada parte do filme, por exemplo, acredito que o diretor não está simplesmente querendo que a gente veja putaria, mas sim que entendamos que, ali, os dois estão tentando reaproximar-se depois de um período turbulento. Não dá para contar uma história de amor do ponto de vista sexual sem sexo, certo?

Love - Cena 2É claro que o diretor, depois de trabalhos como Irreversível (que traz uma longa cena onde a atriz Monica Bellucci é estuprada) sabe que está trabalhando com um tabu e que ele usa isso a seu favor, tanto para chocar o público quanto para atrair atenção do mesmo para o filme, mas não acredito que a intenção dele seja simplesmente fazer barulho. O Noé coloca-se muito em seus trabalhos (no Viagem Alucinante, por exemplo, ele fala da vida pós-morte, tema pelo qual ele sempre diz ter interesse) e aqui, além do diretor aparecer como o personagem Noe, ele ainda dá seu outro nome (Gaspar) para o bebê de Murphy e Omi, indícios de que muitas das angústias vividas na trama por seus protagonistas lhe são caras e, provavelmente, baseados em suas próprias experiências.

Love não é só um filme “praticamente pornô”. Se retirássemos dele todas as cenas de sexo, ainda assim ele chamaria a atenção por trazer uma história de amor cheia de elementos reais facilmente reconhecidos pelo público, coisas como a empolgação do início do relacionamento, as brigas (aquela do táxi me deixou bem pra baixo =/), o abuso de bebidas e drogas para mascarar uma realidade insatisfatória e o vazio que dá quando perdemos alguém que amamos devido aos nossos próprios excessos. As cenas de sexo poderiam ter ficado de fora, mas, cá entre nós, melhor com elas, não é mesmo? rs

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Aconteceu Naquela Noite (1934)

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Aconteceu Naquela NoiteDescansei do tema “Oscar” por 2 meses, de modo que agora sinto-me novamente disposto à continuar explorando a história da maior premiação do cinema norte americano.

Aconteceu Naquela Noite é um filme que (perdoem o trocadilho tosco) quase não aconteceu. Além do roteiro ter sido recusado por vários atores, que acusaram-no de ser “a pior coisa que eles já haviam lido”, o diretor Frank Capra teve que lidar nos sets de filmagens com a indiferença de seus dois protagonistas, Clark Gable e Claudette Colbert, que não demostraram nenhuma empolgação pelo projeto. Foi então que, numa dessas ironias do destino, a produção (que pelo exposto tinha tudo para dar errado) acabou sagrando-se a grande campeã do Oscar de 1935, entrando para a história como a primeira a vencer nas 5 principais categorias da premiação (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Ator e Melhor Atriz). Curiosamente, Aconteceu Naquela Noite fala de uma divertida história de amor que, mesmo com todos os contras, também acaba conseguindo encontrar um final feliz.

Para o desgosto do pai milionário (Walter Connolly), Ellie (Colbert) casou-se secretamente com um famoso aviador. Pressionada para desfazer a união, a personagem foge e embarca em um ônibus com destino a Nova York para encontrar o marido. Enquanto o pai inicia uma investigação nacional para localizá-la, Ellie conhece Peter (Gable), um boêmio que lhe fará companhia durante a viagem e que será o responsável por ela repensar várias coisas, inclusive o casamento.

Aconteceu Naquela Noite - Cena 3De fato, há algumas coisas “estranhas” no roteiro de Aconteceu Naquela Noite, nada que possamos dizer que é “a pior coisa que já lemos/vimos”, mas ainda assim estranhas. A ideia relativamente complexa do “casamento secreto”, por exemplo, soa deslocada dentro de uma trama que, essencialmente, é bastante simples. Para si, Ellie não quer a vida segura que o pai planejou para ela. Mais do que o prazer superficial que pode ser obtido com joias e vestidos caros, a personagem quer experimentar a felicidade de um amor verdadeiro. A mudança de perspectiva pela qual Ellie passa, dá-se aqui não no sentido de que ela era uma patricinha fútil que descobre o verdadeiro significado da vida (o que sempre rende uma boa história), mas sim sob a perspectiva “esquisita” e pouco empática de alguém que, só após ter agido por impulso (casar secretamente para afrontar o pai), descobriu o amor. Acho que isso poderia ter sido melhor trabalhado.

It Happened One Night (1934)  Directed by Frank Capra Shown from left: Clark Gable, Claudette Colbert, Roscoe Karns

Feita essa consideração, resta um divertido road movie (ou filme de estrada) que traz uma série de cenas cômicas provenientes da tensão entre o casal principal. Clark Gable, ator conhecido por seus tipos cínicos e auto suficientes, interpreta Peter, sujeito que acabou de ser demitido pelo telefone. Puto da vida, ele compra uma passagem de ônibus para ir até Nova York conversar pessoalmente com o chefe e é aí que ele conhece Ellie. O estilo seco e indiferente de Peter desperta imediatamente a atenção da moça, que até então vivera acostumada com todos desdobrando-se para realizarem suas vontades. O primeiro diálogo entre eles é marcado pela troca de farpas e grosserias, mas a convivência forçada no longo trajeto que o veículo percorre permite que eles se conheçam melhor e passem a se interessar um pelo outro.

Aconteceu Naquela Noite - Cena 2Gosto das mudanças de paradigma trazidas pelos road movies. É bom ver o homem embrutecido dando uma nova chance para o amor e acompanhar a evolução da noção de felicidade de Ellie, mas o legal mesmo de Aconteceu Naquela Noite é aquele humor deveras inocente das produções da chamada Era de Ouro de Hollywood. Mesmo que não tenham gostado de trabalhar no filme, a dupla Gable e Colbert demonstra uma química impressionante na tela e protagoniza cenas engraçadíssimas, como o diálogo rápido e absurdo que eles improvisam para enganar a polícia que está procurando por Ellie. Bom também é o trabalho do diretor Frank Capra, que até hoje eu conhecia apenas pelo nome. Capra conduz os atores por cenários variados (um quarto de hotel, zona rural, uma festa de casamento) e faz com que eles funcionem bem em todos eles, tendo na cena da cantoria do ônibus o ápice da trama, tanto pela empolgação geral dos passageiros quanto por sua conclusão divertida e inesperada.

Como dito, Aconteceu Naquela Noite venceu o Oscar de Melhor Filme de 1935 e vê-lo, hoje, mais do que satisfazer a minha curiosidade pela história da premiação, foi uma boa oportunidade de dar algumas risadas sinceras e ficar um pouco mais leve vendo aquelas pessoas tão diferentes entre si encontrando o caminho até o coração uma da outra. Quando tem que dar certo, nenhum obstáculo (nem mesmo as Muralhas de Jericó rs) consegue impedir ❤

Aconteceu Naquela Noite - Cena

Désirée, O Amor de Napoleão (1954)

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Désirée - O Amor de NapoleãoTenho dado aulas sobre Revolução Francesa e notado que sei pouco sobre o período napoleônico. Pela importância ideológica do levante popular que culminou na queda do Luís XVI, na faculdade estudamos bastante os anos anteriores a 1789 e seus desdobramentos imediatos, mas o fôlego utilizado na explicação do “liberdade, igualdade e fraternidade” não foi o mesmo para discutir a ascensão e queda do Napoleão Bonaparte. Ciente dessa falha, tenho procurado reforçar meu conhecimento com outras mídias. A leitura do monumental Guerra e Paz (que rendeu esse filme fraco), por exemplo, me ajudou bastante, visto que o Tolstói descreve com habilidade a derrota do exército francês em território russo. Continuando o processo, junto agora à minha bagagem esse Désirée, O Amor de Napoleão, adaptação do diretor Henry Koster para o romance da escritora Annemarie Selinko. Mesmo que valha-se de conteúdo ficcional para contar a história do romance de Napoleão (Marlon Brando) com Désirée (Jean Simmons), o filme é bastante ilustrativo sobre a personalidade e as ambições políticas e militares do imperador.

A trama começa em 1794, período marcado pela instabilidade política que marcou os anos pós-Revolução. Désirée, filha de um comerciante da cidade de Marselha, é apresentada ao jovem e ambicioso general francês Napoleão Bonaparte. O romance entre o casal esbarra em duas dificuldades. Em um primeiro momento, a família de Désirée é contrária a união devido à falta de posses de Napoleão. Posteriormente, visando sua carreira política, o general casa-se com a aristocrata Josefina de Beauharnais (Merle Oberon). O filme segue então com os encontros e desencontros entre o casal até o ano de 1815, quando Napoleão é derrotado na famosa Batalha de Waterloo e afasta-se definitivamente do poder.

Désirée - O Amor de Napoleão - Cena 4Ver Désirée agora foi importante do ponto de vista profissional, mas não foi esse o primeiro motivo que me levou até ele. Já tem um bom tempo que tenho tentado conhecer toda a filmografia do Marlon Brando (o último título que eu havia visto e resenhado por aqui foi o Julio César) e, devido a isso, eu acabaria assistindo-o de qualquer maneira, mas acabou sendo bastante proveitoso aliar as duas atividades nesse momento: sentei para ver o meu ator favorito atuando e, de quebra, enriqueci as minhas futuras aulas com algumas imagens e fatos que, salvas as devidas “licenças poéticas” adotadas pelo diretor e pela escritora, complementam satisfatoriamente o conteúdo do livro didático.

Antes de falar sobre o Brando, vou direto as ressalvas que faço enquanto historiador. Désirée traz uma relação pouco crível entre a personagem título e o imperador francês. Ainda que eu não conheça pormenores da vida amorosa do Napoleão (o pouco que sei desse assunto INTERESSANTÍSSIMO, li aqui e aqui), é difícil acreditar que Désirée, personagem histórica, tenha tido a mesma relevância do que a Désirée, personagem fictícia, mostrada no filme. Não falo dos encontros constantes entre os dois “amantes” ao longo dos anos nas mais variadas ocasiões (o que é completamente possível se considerarmos que Désirée foi cunhada de Napoleão), mas da participação política dela em momentos chaves da história, como na decisão de Napoleão de “entregar-se” após o período que ficou conhecido como “Governo dos Cem Dias”.

Désirée - O Amor de Napoleão - CenaEsses exercícios imaginativos servem ao propósito de enriquecer o viés dramático de eventos que conhecemos principalmente através da perspectiva política e bélica. Para contar a história de um homem que ficou conhecido por façanhas militares, o diretor Henry Koster não mostra nenhuma cena de batalha, optando apenas por sugerir os conflitos por meio de sequências de imagens que evocam as lutas, como quando Désirée sonha com a derrota de Napoleão na Rússia. O “grosso” do filme, por assim dizer, é composto por diálogos entre a personagem título, o imperador e Jean-Baptiste Bernadotte (Michael Rennie), general do exército francês que desposa Désirée após ela ser preterida por Bonaparte. Não é sempre que as frivolidades do mundo aristocrático soam prazerosas aos nossos ouvidos, mas aqui a interação entre o trio é fundamental para retratar a personalidade explosiva, ciumenta e dominadora de Napoleão.

Désirée - O Amor de Napoleão - Cena 2Descrito por Dostoiévski no livro Crime e Castigo como um homem que foi capaz de realizar feitos extraordinários devido a uma visão de mundo que nem sempre levava em conta os aspectos morais da sociedade, Napoleão é mostrado aqui como uma espécie de força transformadora que não poupou esforços para alcançar o poder e aplicar seus planos expansionistas e unificadores na Europa. Interpretado por um Marlon Brando furioso no auge da forma física e artística (ele receberia o Oscar de Melhor Ator no ano seguinte pelo Sindicato de Ladrões), o personagem exala a soberba e magnanimidade que são atribuídas ao seu correspondente histórico. Naquele que é sem nenhuma dúvida o melhor momento da trama, Napoleão toma a coroa das mãos do Papa Pio VII e coroa a si mesmo diante de uma plateia atônita, gesto de autoafirmação que o diretor valoriza em uma cena grandiosa e inesquecível.

Désirée investe pesado no romance, mas ele também atenta-se para as questões políticas da época, explicando parte das alianças que foram formadas por países europeus contra a França, e mostra satisfatoriamente a escalada de Napoleão rumo ao topo (general, cônsul, imperador). A seu favor, o filme conta ainda com o talento do Brando e com a cenografia irretocável (foi indicado ao Oscar nessa categoria), mas a impressão que tive é que o valor informativo da história é bem maior do que seu poder de entretenimento. De qualquer forma, aprendi mais um pouco e é isso que importa 🙂

Désirée - O Amor de Napoleão - Cena 3