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A Bela e a Fera (2017)

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Apesar dos avisos do pastor Silas Malafaia, optei por correr o risco de “virar gay” e fui conferir esta nova versão do conto de fadas francês A Bela e a Fera. No vídeo que pode ser visto clicando no link acima, Malafaia acusa a Disney de “comprar a agenda gay” e de ensinar sexualidade para o público, especialmente para as crianças. Segundo o pastor, a decisão do estúdio de incluir no filme um personagem abertamente homossexual (LeFou, interpretado pelo Josh Gad) é uma tentativa “asquerosa e nojenta” de erotizar a molecada.

Malafaia gravou o tal vídeo no dia 02/03 e, segundo o IMDB, A Bela e a Fera (e o LeFou) só estreou no Brasil no dia 16/03, ou seja, é bem provável que ele emitiu aquela opinião ANTES de ver o filme. É claro que o pastor pode ter tido acesso ao material em uma pré-estreia exclusiva, mas o que me parece é que, ciente das informações que foram divulgadas sobre o personagem antes do lançamento, Malafaia adiantou-se e convidou seus seguidores a boicotarem o produto da Disney.

Faço essas considerações pois, por mais que eu preze pelo respeito às crenças alheias, não consegui encontrar em A Bela e a Fera o conteúdo preocupante apontado pelo Malafaia. É fato que o LeFou está mais purpurinado do que seu correspondente da animação de 1991, mas daí a dizer que o filme propõe-se a erotizar crianças e ensinar-lhes sexualidade é um absurdo, o tipo de erro grotesco que geralmente é cometido por quem fala de algo que não sabe (ou não viu). Tal qual fazia anteriormente, o personagem continua beijando o chão que o Gaston (Luke Evans) pisa e cantando sua canção que enaltece as “qualidades” do valentão. Os trejeitos dele não deixam dúvidas que, se pudesse, ele beberia daquela água, mas é só. Sem beijos, sem carícias, sem nada que os pais de uma família tradicional precisem tampar os olhos dos filhos por medo deles saírem do cinema arrotando arco-íris. É, portanto, no mínimo quixotesca a preocupação do pastor com o LeFou. O fato de haver revolta contra a homossexualidade do personagem e silêncio contra o machismo e a truculência de Gaston, que continua querendo obrigar Bela (Emma Watson) a casar-se com ele para massagear-lhe os pés, diz muito a respeito das prioridades e do caráter do Malafaia.

Eu, que continuo gostando de mulheres a despeito dos esforços do simpático LeFou, também sigo apreciando musicais e acredito que dificilmente veremos algo tão bom do gênero nos cinemas esse ano quanto esse A Bela e a Fera. Conta-se que, inicialmente, a intenção da Disney era refilmar a história como um longa metragem comum, sem as músicas, ao que o diretor Bill Condon (dos dançantes Dreamgirls e Chicago) respondeu “Vocês são loucos? Pretendem fazer uma adaptação enorme e bonitona e deixar ‘Be Our Guest’ de lado?”. Que bom que deram ouvidos ao diretor: a tecnologia atual e a grandiosidade dos figurinos e dos cenários, por si só, já tornariam esta versão válida e interessante, mas é na parte musical que a história continua tocando nossos corações.

Nesse conto tão velho quanto o próprio tempo (na verdade, ele foi escrito em 1740 pela francesa Gabrielle-Suzanne Babot), Bela é uma garota entediada pela vida provinciana que a cerca. Num mundo organizado para que as maiores ambições de uma mulher sejam encontrar um marido e cuidar da casa, Bela é uma inventora apaixonada por livros que espanta todos tanto por seu jeito independente quanto por resistir aos avanços do bonitão Gaston, o solteirão mais cobiçado do vilarejo. Certo dia, Maurice (Kevin Kline), o pai de Bela, é capturado por uma fera monstruosa (Dan Stevens) e preso nas masmorras de um castelo. O crime dele? Colher uma rosa do jardim da propriedade para levar para a filha. Procurando reparar a injustiça, Bela oferece para trocar de lugar na prisão com o pai, proposta que é aceita pela Fera com a condição de que a moça nunca mais abandone o local.

Quem viu a animação sabe que a Bela e a Fera irão se apaixonar (ele pelo caráter dela, ela pela intelectualidade e coragem dele) e que isso quebrará o feitiço que havia transformado o príncipe egoísta numa criatura monstruosa. Gaston, obviamente, não ficará nada feliz em ser preterido por uma bola de pelos gigante e incitará a população do vilarejo a atacar o castelo, o que provocará uma batalha épica e divertida onde relógios (Ian McKellen), candelabros (Ewan McGregor) e bules de chá (Emma Thompson) colocarão todo mundo para correr. Condon respeitou a estrutura principal da história, mas retirou os excessos (a invenção maluca de Maurice, o velho calhorda do hospício), adicionou subtramas (a mãe e a infância de Bela) e 3 novas canções (How Does a Moment Last Forever, Days in the Sun e Evermore). Essas alterações, longe de comprometerem passagens e memórias caras aos fãs, tornaram a história mais coesa, principalmente no tocante à luz que é jogada no passado trágico da protagonista.

Ainda que conserve elementos de magia e diversão comumente associados à infância, de modo geral este A Bela e Fera está um pouco mais adulto e sombrio do que seu antecessor, tanto pela forma mais incisiva de abordar temas como o machismo (Emma Watson não economizou desprezo no olhar ao encarar o tosco Gaston) quanto pelo visual: se o Fera da animação era uma espécie de cachorrão que dava vontade de fazer um cafuné, esta nova versão, com chifres de bode e tudo mais, parece o próprio filho do cramunhão. Todo caso, cumpriu-se bem a tarefa de atualizar a história atemporal do poder da beleza interior para esta geração: as reencenações da psicodélica Be Our Guest e da apaixonante Beauty and the Beast utilizaram o que há de melhor em computação gráfica para criar um espetáculo soberbo em 3D e, no fim, o prepotente e arrogante Gaston voltou a receber o que ele merece, tal qual deve ser. Acreditem, não há o que boicotar aqui: a Disney acertou em transformar um de seus maiores clássicos em um magnífico live action e continua de parabéns por, mais do que desenvolver produtos para entreter crianças, preocupar-se em levar exemplos de diversidade e respeito às diferenças para as telas de cinema. Quero mais Mickey e menos Malafaia.

La La Land: Cantando Estações (2016)

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Ontem, 24/01, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou os indicados ao Oscar de 2017 (clicando aqui você vê a lista completa dos concorrentes). Seguem alguns comentários sobre os selecionados:

  •  A despeito de ter disputado apenas prêmios secundários no Globo de Ouro, o drama racial Estrelas Além do Tempo arrancou uma surpreendente indicação a Melhor Filme. O ocorrido parece ser uma resposta da Academia às críticas sofridas em 2016, quando praticamente nenhum ator/atriz negro(a), bem como as produções voltadas para eles, tiveram espaço na cerimônia. Olhando para cada categoria, percebe-se que esse ano houve uma preocupação com a diversidade, o que é bastante positivo.
  • Outra surpresa em relação ao Globo de Ouro foi a performance do ótimo A Chegada, que passou de 2 para 8 indicações, incluindo Melhor Filme. Os fãs de ficção científica agradecem o/
  • Eu não esperava o Mel Gibson na lista para Melhor Diretor, não por ter alguma crítica negativa ao que ele fez no Até o Último Homem, que ainda não vi, mas pela recente trajetória polêmica dele fora das telas.
  • Bizarro o Elle vencer o Globo de Melhor Filme Estrangeiro e não ser sequer indicado na mesma categoria do Oscar, ainda mais porque que sua protagonista, a Isabelle Huppert, concorrerá a Melhor Atriz. Alguém em Hollywood não gosta do Verhoeven.

Anúncio feito, agora é esperar até o dia 26/02 para assistir a cerimônia de premiação e conhecer os vencedores. Ficarei feliz comigo mesmo se, até lá, eu conseguir ver e resenhar pelo menos mais 12 filmes, o que cobrirá todos os indicados nas principais categorias e ainda me permitirá ver ao menos um documentário. I am one with the force and the force is with me! Bora!

la-la-land-cena-3La La Land ainda está nos cinemas e uma forma bem fácil de vendê-lo é dizer que o filme concorre em incríveis 14 categorias, o que coloca-o ao lado do Titanic e do A Malvada como recordista de indicações. A outra forma é defini-lo pelo que ele é, um musical que aquecerá o seu coração e fará com que você recorde cada um dos pequenos e belos momentos que marcaram o início da sua relação com aquela pessoa especial. Prefiro essa segunda abordagem, mas reconheço que ela esbarra em um problema: o musical, apesar de ser um gênero queridinho da Academia, não tem muito apelo junto ao público ocasional. Minha esposa mesmo, antes do filme começar, reconheceu que estava curiosa, mas que não gosta “quando aquele povo começa a cantar e dançar”. Nesse texto, contarei-lhes como o La La Land venceu a resistência dela à musicais e explicarei-lhes porque o filme tem tudo para ser o grande vencedor do Oscar de 2017.

la-la-land-cena-2É apenas mais um dia ensolarado em que dois jovens tentam sobreviver na mágica porém cruel cidade de Los Angeles. Mia (Emma Stone) trabalha como atendente na lanchonete de um estúdio e sonha com a possibilidade de tornar-se uma estrela de cinema. O pianista Sebastian (Ryan Gosling) toca músicas chatas em bandas ruins enquanto planeja abrir o seu próprio bar de jazz. O amor pela arte e o desejo de uma vida melhor unirá os personagens em uma história cheia de altos e baixo e muitas, muitas cenas onde o “povo começa a cantar e dançar”.

É claro que a cantoria causa estranhamento. Não é todo dia que você está em um engarrafamento e, do nada, alguém salta de um carro e começa um coro sobre o poder da perseverança. Superado esse “choque” inicial, porém, a qualidade do material fala mais alto do que qualquer desconfiança. La La Land foi escrito e dirigido pelo Damien Chazelle (o responsável pelo conceitual Whiplash) e, cena após cena, fica patente o esmero do diretor na coreografia das danças e na manipulação da câmera para que o espectador experimente algo arrebatador. Da parte técnica, chamo a atenção para o seguinte:

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  • Plano-sequência: Seja nas passagens grandiosas como a dança na ponte que abre o filme, seja em cenas mais intimistas como a do planetário ou ainda nas apresentações solo dos protagonistas, Chazelle praticamente não utiliza cortes, filmando tudo em incríveis tomadas contínuas.
  • Experimentação: Tradicionalmente, musicais costumam utilizar suntuosos cenários de estúdio para os personagens executarem suas performances. O diretor vale-se desse recurso (principalmente no final, com as muitas transições entre ambientes), mas ele também leva a dança para lugares pouco comuns. Gostei de ouvir os TIC PLEC dos sapatos de Sebastian e Mia no asfalto e achei a sequência abstrata do planetário, com o casal flutuando e movendo-se no infinito, o ponto alto do filme.
  • Repertório: La La Land é uma defesa apaixonada do jazz e do musical, dois formatos que Chazelle considera ameaçados atualmente. O diretor as vezes soa amargo (Sebastian diz que Los Angeles venera tudo mas não valoriza nada), mas a argumentação dele concentra-se mais em enaltecer o que ele ama através de citações dos grandes clássicos do estilo. Sou leigo em jazz, mas notei a frequência com que nomes de músicos são citados (bem como suas fotos nos cenários) e vi referências ao Cantando na Chuva (Sebastian rodopiando no poste), Cinderela em Paris (os balões), Sinfonia de Paris (toda a sequência final) e ao próprio Whiplash, com o J. K. Simmons fazendo uma divertida inversão de seu papel naquele filme (agora ele não gosta de jazz).

la-la-land-cena-5O espetáculo técnico, porém, pouco valeria se não viesse acompanhado de bons sentimentos. Palavras do Stephen King no Sobre a Escrita, “é menos sobre estilo e mais sobre contar uma boa história”. Sebastian e Mia são sonhadores, pessoas como eu e você que acordam todos os dias querendo uma oportunidade de mostrar ao mundo quem eles realmente são. Após um começo difícil (no engarrafamento, ele buzina e manda ela ir tomar um suco), eles encontram o caminho até o coração um do outro e, juntos, buscam forças para viverem seus sonhos. La La Land traz uma visão bem adulta sobre projetos de realização pessoal, mostrando que, as vezes, é necessário saber aceitar menos do que a gente merece antes da vitória chegar, mas ele também tem espaço para a inocência do amor adolescente. A química entre o Ryan Gosling e a Emma Stone, ambos indicados ao Oscar, me lembrou da primeira vez que saí com a minha (hoje) esposa, da primeira cerveja dividida em um bar barulhento, da primeira sessão de cinema juntos e, claro, do primeiro beijo. Durante a execução da linda City of Stars (concorre a Melhor Canção Original) eu olhei para o lado e vi ela me olhando de volta, sorrindo. Naquele momento, tive duas certezas: 1) ela gostou do filme que “o povo canta e dança”  tanto quanto eu 2) sou sortudo pra caralho.

La La Land foi o grande vencedor do Globo de Ouro e tem tudo para repetir o desempenho no Oscar. Vi um filme cult, que celebra o jazz e a história de Hollywood com uma técnica primorosa, mas também vi uma história de amor que faz qualquer um querer voltar a viver um namorinho de portão. Seu trabalho, Damien Chazelle, merece ser venerado pela Academia (com o Oscar) e valorizado pelo público (com o ingresso). Parabéns e obrigado ❤

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Sing (2016)

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singAno novo, vida nova, velhos problemas e muitas, muitas expectativas. Para tirar logo a parte ruim do caminho, fica aqui mais uma reclamação sobre a bizarrice dos subtítulos nacionais. Sing, produção indicada ao Globo de Ouro de Melhor Animação e Melhor Canção Original, saiu por aqui como Sing: Quem Canta Seus Males Espanta. É o humor tipo “tio do pavê” saindo da ceia de natal direto para o seu ingresso, caro leitor!

Leitor? Você está aí? Cadê você?

Tenho notado que o número de acessos do blog está caindo significativamente. No último semestre, a média de visitantes diários passou de 200 para algo em torno de 100-130. Em alguns dias, não chegou nem a 100. Escrevo porque gosto e continuarei escrevendo mesmo que os acessos caiam para 3 (um meu, um da minha mãe e um da minha esposa), mas não nego que quero mais do que isso. Quem escreve quer ser lido. Sei, porém, que não será através de reclamações e/ou pedidos de cliques que mudarei esse quadro. O caminho é persistir e melhorar, e começo o ano bastante animado para sacudir as coisas por aqui.

2017 promete ser um ano muito bom para os fãs de cinema. Teremos um novo Alien, um novo Star Wars, produções da Marvel e da DC e toda uma série de blockbusters testosterônicos como Velozes e Furiosos, Transformers e King Kong. Fora isso, a cerimônia do Globo de Ouro é este fim de semana (08/01) e o Oscar já tem data marcada (26/02). Terei muito material para ver e resenhar, e estou cuidando para que o formato dos textos seja cada vez mais agradável. Livre de uma série de problemas pessoais que estavam minando o meu tempo e criatividade, redescobri o prazer pela leitura e estou encontrando dicas preciosas (e ótimas histórias) nas páginas do Sobre a Escrita do Stephen King. Reclamações feitas, ânimo renovado, bora começar o ano? Hey! Ho! Let’s Go!

sing-cena-4Não lembro quando fui “seduzido” pela arte. Eu poderia até dizer que foi quando minha mãe me levou ao cinema pela primeira vez (vi Os Trapalhões e a Árvora da Juventude e, quando cheguei em casa, tentei montar a minha própria tela de projeção com uns brinquedos velhos), mas não tenho certeza. Já o Buster Moon, coala protagonista de Sing, nunca esqueceu o dia em que a arte fisgou seu coração. Acompanhado do pai, ele assistiu uma montagem teatral da música Golden Slumbers (que cena fantástica!), dos Beatles, e apaixonou-se. Anos depois da apresentação, vemos que Buster comprou o seu próprio teatro e transformou-se em um empresário do show business. O que deveria ser uma vida de sonhos, porém, não está lá tão legal assim.

Endividado, Buster corre o risco de perder o teatro. Os últimos espetáculos que ele produziu fracassaram e o banco ameaça tomar o prédio caso as dívidas acumuladas não sejam pagas. Para atrair novamente o público, o personagem decide organizar um concurso de música, formato sempre popular e rentável que poderia resolver definitivamente seus problemas de grana. O prêmio? A intenção de Buster era pagar apenas 1.000 dólares para o vencedor, mas uma trapalhada de sua secretária faz com que o anúncio diga 100.000. No dia seguinte, vendo que a fila para audição está dobrando a esquina, Buster decide levar a mentira adiante para salvar o teatro.

sing-cena-2Em Sing, a música é tratada pelo diretor e roteirista Garth Jennings como um caminho para a salvação/redenção. Dentre os selecionados para o concurso, há um gorila que prefere cantar a roubar, uma porquinha dona de casa que quer ser mais do que uma dona de casa,  uma ouriço fêmea que escreverá uma canção para curar seu coração partido e uma elefanta que precisará vencer a timidez antes de brilhar no palco. As histórias desses personagens somam-se a luta do protagonista para manter o teatro e mostram para o público que sempre é possível recomeçar e que a música tem o poder de nos dar forças mesmo nas horas mais difíceis. É um bom roteiro: fácil para as crianças e sucinto para os pais, que precisam prestar atenção no filme E nas crianças, esses anjinhos que ficam conversando o tempo todo e chutando a cadeira da frente. Gracinha!

sing-cena-3A grande atração de Sing, porém, é mesmo a música. As cantorias, que são bem legais, estão satisfatoriamente espalhadas dentro do filme, mas é notório que concentraram as melhores cenas no início e no final, deixando a metade para o desenvolvimento dos personagens. Durante a audição, há versões divertidas de artistas como Lady Gaga, Seal e Nicki Minaj e até mesmo uma piada sobre a extravagância do J-pop (Japanese Pop). No fim, após vermos cada um dos personagens lutando para superarem uma porção de obstáculos, as apresentações individuais (e longas) deles soam estrondosas. Não sei se o leitor acompanha programas como American Idol e The Voice (ou seus correspondentes nacionais), mas é válido dizer que a última cena de Sing ficou tão boa quanto as apresentações mais emocionantes vistas nesses shows (esta é a minha favorita). Empolgados, alguns dos anjinhos “sentados” atrás de mim chegaram até a bater palmas. Lindinhos!

Pra fechar, um comentário rápido sobre o rato Mike. Pensa num sujeito filho da puta. Enquanto todos os personagens estão transbordando bons sentimentos, o cara humilha todo mundo, participa de jogatinas, gasta o que não tem, faz dívidas com bandidos e usa o dinheiro para conquistar uma ratinha. Numa animação moralista, Mike daria-se mal, muito mal. O que acontece? O cara sai de cena por cima após cantar uma versão maravilhosa da My Way do Sinatra. Que belo exemplo para a criançada! Parabéns, Illumination!

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Florence Foster Jenkins (2016)

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florence-foster-jenkins Eu sempre mantenho os títulos e subtítulos nacionais dos filmes aqui no blog. Faço isso não porque eu concordo com eles (acho estranho, por exemplo, que o Concussion tenha saído por aqui como Um Homem Entre Gigantes), mas sim para facilitar a busca dos leitores e para alinhar dados com o IMDB, que seguramente é um dos maiores portais sobre cinema da internet. Desta vez, porém, optei por manter o título original. Porquê? Porque o nacional é uma bosta. Desculpem a sinceridade, mas transformar Florence Foster Jenkins em Florence: Quem é Essa Mulher? é a atitude de uma pessoa retardada visando entreter e criar mais pessoas retardas. No pôster, você tem atores consagradíssimos como a Meryl Streep e o Hugh Grant, mas mesmo assim algum espertinho achou necessário fazer suspense através de um jogo de palavras óbvio no título para atrair o público. Sim, óbvio, porque acredito que a primeira coisa que passa na cabeça de alguém que não conhece a personagem-título é exatamente “Quem é essa mulher?”, mas nem esse raciocínio simplório o pessoal do marketing deixa o público realizar sozinho. Por mais irrelevante que seja esse apelo, não furtarei-me de fazê-lo: pessoal, parecem de subestimar nossa inteligência!

Mas e aí, quem é Florence Foster Jenkins (Meryl Streep)? Este filme, que é baseado em fatos reais e conduzido pelo diretor Stephen Frears (de Philomena), fala de uma milionária excêntrica que, na Nova York da década de 40, gastou uma fortuna para realizar o sonho de apresentar-se como cantora de ópera no Carnegie Hall, uma das salas de espetáculo mais famosas dos Estados Unidos. Essa descrição/sinopse não deixa de responder a pergunta infeliz do subtítulo nacional (Quem é essa mulher?), mas, conforme eu havia desconfiado, o filme não resume-se a reproduzir os fatos de forma wikipediana. Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia/Musical, Florence Foster Jenkins, doravante apenas Foster, é divertido e informativo, mas também é eficiente em analisar a personalidade da protagonista e de seu marido, oferecendo uma sessão multifacetada onde o grotesco e o sublime misturam-se constantemente.

florence-foster-jenkins-cenaA primeira impressão que o Stephen Frears nos vende de Florence é a de uma mulher espirituosa e alegre, mas também mimada e sem um pingo de senso crítico. Amantes da música, ela e o marido, St Clair Bayfield (Hugh Grant), organizam encontros regulares entre a burguesia nova-iorquina, nos quais há declamações de poemas e apresentações de curtas teatrais que homenageiam e celebram a música clássica. Florence desempenha bem o papel de patrona das artes, investindo pesado nestes espetáculos e em eventuais artistas que precisam de ajuda financeira, mas desde a primeira cena fica claro que ela não possui nenhum pingo de talento, seja para cantar, seja para interpretar. Fora um grupo de senhorinhas simpáticas (e surdas rs), as pessoas comparecem em suas reuniões pomposas porque foram convidadas (e devidamente pagas) por Bayfield. Nesse ponto, é inevitável perguntar-se sobre a postura de Florence frente ao público: ela sabe (e ignora conscientemente) que todos são interesseiros ou ela realmente acredita na admiração da plateia?

florence-foster-jenkins-cena-2Certo dia, Florence vai com Bayfield até uma apresentação de ópera e seu coração é tocado novamente pela beleza da música. Com muito dinheiro e tempo à disposição, ela decide procurar um professor de canto para tornar-se ela mesma uma soprano. Cosmé McMoon (Simon Helberg), um jovem e ambicioso pianista, é contratado para acompanhá-la nas aulas e é aí que o show de horrores começa. Dá um grito aí. É, você mesmo, leitor: grita aí, de qualquer jeito que você conseguir. Gritou? Pronto, você produziu um som mais agradável aos ouvidos do que as tentativas de Florence de cantar. Sério, ela é MUITO ruim. Enquanto todo mundo (marido, professor de canto, empregada) opta por ignorar os ruídos demoníacos produzidos pela personagem, encorajando-a com elogios mentirosos, o pianista Cosmé funciona como um termômetro do espectador. O cara simplesmente não consegue acreditar no que está ouvindo (vocês também não acreditarão) e usa todas as forças para não gargalhar na frente de todos (eu, em casa, não consegui me conter).

florence-foster-jenkins-cena-5Florence segue com a personagem registrando suas “músicas” em vinil e, por fim, apresentando-se no auge da trama no Carnegie Hall para uma plateia selvagem. No geral, o filme, que tem quase 2 horas, faz a gente rir bastante (continuo achando monstruosa a capacidade da Meryl Streep de transitar entre gêneros), mas não pude deixar de pensar em algumas questões mais espinhosas que o roteiro coloca. Peguemos, por exemplo, o personagem Bayfield, marido de Florence. A primeira vista, ele parece um gigolô: casou-se com uma mulher mais velha por interesse e faz tudo o que ela quer para não perder a mamata. Pra piorar a situação, Bayfield tem uma amante, que ele visita quase todos os dias após colocar Florence para dormir. A nossa tendência natural é odiar o personagem, mas aí a gente vai vendo que, apesar dos pesares, ele dedica-se à Florence mais do que qualquer outra pessoa, fazendo de tudo para protegê-la das críticas e da ridicularização. Bayfield apoia tudo que a esposa deseja fazer, e esta devoção revela-se maior do que qualquer interesse financeiro (como pode ser visto na cena do bar, onde ele briga com alguns soldados que estavam rindo da voz de Florence). Vendo este tipo de relação, que prova-se bem sucedida e vantajosa para ambos, a gente fica menos inclinado a rotular a vida alheia.

florence-foster-jenkins-cena-3Por mais difícil que seja ouvir Florence cantando, algo que ela diz em determinado momento me fez pensar. “Eles podem até dizer que eu não sabia cantar, mas eles não podem dizer que eu não cantei”. De fato, pode-se criticar o egoísmo e o uso do dinheiro para comprar uma plateia e um espaço de apresentação que outros artistas só alcançaram com muito talento e trabalho duro, mas a coragem de Florence para driblar a falta de talento e viver o seu sonho não deixa de ser inspiradora.

Florence concorre a 4 Globos de Ouro (Melhor Filme, Atriz, Ator e Ator Coadjuvante) e, apesar de ser bastante leve e acessível, é uma boa oportunidade para quebrar alguns paradigmas sobre relacionamentos. Sim, só sobre relacionamentos, porque nem a simpatia e nem a força de vontade da protagonista foram suficiente para conter meus risos na última cena. Eu rolei no sofá de tanto rir. Literalmente.

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Sing Street (2016)

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sing-streetUma das diferenças mais interessantes do Globo de Ouro em relação ao Oscar é a existência da categoria “Melhor Filme – Comédia/Musical”. A divisão confere personalidade para a premiação e até dá para entender que filmes leves e menos pretensiosos concorram separadamente daquelas produções mais sérias e politicamente engajadas, mas ao mesmo tempo não deixar de ser estranho que a qualidade de um longa seja julgada por gênero, como se um drama, por exemplo, fosse necessariamente “superior” a uma comédia. Outro ponto questionável dessa divisão é o critério utilizado para determinar em qual categoria os filmes concorrerão. Em 2015, o Birdman, que é um drama, concorreu como “Comédia/Musical”, mesma coisa que aconteceu na última edição com o Joy e o A Grande Aposta. Mais do que simples erros, essas trocas de categorias são frequentemente atribuídas à politicagem que envolve as premiações, com alguns filmes “trocando” de gênero para terem mais chances de vencerem.

Levando isso em consideração e analisando o histórico das edições do Globo de Ouro que acompanhei, não consigo levar a sério a categoria Melhor Filme – Comédia/Musical. Fora o aspecto político, sempre há um ou dois candidatos que estão bem abaixo dos outros em termos de qualidade e que, posteriormente, são ignorados pelo Oscar. Foi assim em 2015 com o Pride (Orgulho e Esperança) e o Um Santo Vizinho, já este ano os esquecidos foram o A Espiã que Sabia de Menos e o Descompensada, produções que eu nem me dei ao trabalho de ver. Eu não tenho a menor dúvida de que este Sing Street, concorrente a Melhor Comédia/Musical, seguirá o mesmo caminho do “esquecimento”, mas decidi assisti-lo tanto porque os outros indicados ainda não estão disponíveis quanto porque a sinopse é uma das coisas mais maluquetes que li nos últimos tempos. Observem só.

sing-street-cena-3É 1985 na Irlanda e uma crise econômica obrigou os pais de Conor (Ferdia Walsh-Peelo) a tirá-lo de um colégio particular e colocá-lo na rede pública. Enquanto lida com as costumeiras dificuldades de um novato (valentões e diretor autoritário), o personagem conhece e apaixona-se por Raphina (Lucy Boynton), uma garota descolada e independente. Para impressioná-la, ele monta uma banda de rock.

É isso aí mesmo. Como está bem resumido ali no pôster, “Garoto conhece garota, a garota não fica impressionada, o garoto monta uma banda”. É simples, funcional e gostoso de assistir, daqueles filmes que ficariam muitíssimo bem na grade de programas como Sessão da Tarde, mas não é uma produção para concorrer a Melhor Filme do ano. Todo caso, chega de questionar os critérios do Globo de Ouro: deixem-me contar pra vocês porque Sing Street (ainda sem título nacional) merece uma chance.

sing-street-cena-2Quem gosta e conhece um pouco da história do rock sabe que a década de 80 foi no mínimo especial para o estilo. O visual glam, a bateria eletrônica e os teclados onipresentes marcaram os principais grupos e hits do período, e esse filme capta com perfeição a essência dessa época ao mesmo tempo mágica e trash. A trilha sonora está repleta de clássicos de bandas como Motorhead , Genesis e Duran Duran, e tanto o visual quanto o estilo do som da banda de Conor (a Sing Street, daí o nome do filme) remetem diretamente ao que estava sendo produzido na época. As cenas que homenageiam o David Bowie e o A-ha devem agradar geral.

John Carney, o diretor e roteirista de Sing Street, também foi feliz em escolher o videoclipe como elemento importante de sua narrativa. A década de 80 produziu uma porção de pérolas audiovisuais (esse é DE LONGE o meu favorito) e, ciente disso, o diretor faz com que os personagens passem a maior parte do filme gravando clipes para as músicas dançantes da banda. É impossível não rir: Raphina, a musa de Conor, aparece em TODOS os clipes enquanto os garotos, vestidos com roupas engraçadíssimas, fingem que tocam seus instrumentos e fazem caras e bocas.

singstreetimage3-1024x576Sing Street concentra praticamente todas suas forças na parte musical (as músicas da banda são muito boas, do tipo de que dá vontade de ouvir em casa) e nas citações à outras obras (há um baile com referências ao De Volta Para o Futuro e ao Juventude Transviada). Como dito, isso torna o filme simpático e fácil de ser assistido, mas há pouco para ser absorvido além da diversão pura e simples. Atores veteranos como Aidan Gillen (do Game of Thrones) e Maria Doyle Kennedy até tentam dar alguma profundidade ao roteiro com uma trama sobre traição e divórcio e Brendan (Jack Reynor), irmão de Conor, tem uma ótima cena de desabafo, porém não há desenvolvimento dos outros membros da banda e conflitos sociais (preconceito, bullying, abuso de autoridade) são apenas sugeridos, de modo que fica patente que a mecânica aqui é realmente a do videoclipe: som, imagem e uma história de amor, rápido e direto ao ponto. É um ótimo filme para tu assistir depois de um dia exaustivo de trabalho, mas não é o tipo de produção que mereça ser consagrada em uma premiação.

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Cássia Eller (2015)

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Cássia EllerA minha primeira lembrança da Cássia Eller não poderia ser mais estereotipada. Em 2001, quando eu era um adolescente que curtia Backstreet Boys, assisti uma edição do Jornal Nacional em que mostraram parte da apresentação da cantora no Rock in Rio. No palco, Cássia cantava, sorria e mostrava os peitos para uma platéia enlouquecida. Vendo aquilo, tudo o que meu cérebro juvenil conseguiu processar foi “Que pessoa maluca!”. Eu não conhecia o trabalho da artista, ignorava as particularidades da vida pessoal da mulher e isso, acrescido da minha imaturidade, não me permitiu vê-la além daquele gesto inesperado e transgressor.

Mudaram as estações, tudo mudou: coloquei as boybands no cantinho da nostalgia,  apaixonei-me por rock e heavy metal, saí do sofá e fui conferir o Rock in Rio ao vivo e, no meio de tudo isso, conheci a Cássia Eller. Conheci? Segundo a própria, nem mesmo quem conversou com ela ou até mesmo foi para a cama com ela conheceu-a por completo, quem dirá então alguém que leu uma ou outra matéria por aí e que passou algumas tardes ouvindo o Acústico MTV dela. Cássia Eller, documentário do diretor Paulo Henrique Fontenelle, joga uma pouco de luz tanto na carreira quanto na vida pessoal da cantora e, ainda que isso não seja suficiente para dissecá-la (se é que isso seja realmente possível), contribui para o enriquecimento do nosso olhar para o próximo e nos estimula, através do relato de uma força criativa indomável, a valorizarmos nossas particularidades e transformá-las em nosso meio de interação com o mundo.

Cássia Eller - Cena 3Fontenelle opta por iniciar sua narrativa não exatamente a partir do nascimento da Cássia mulher, que até é citado, mas sim do nascimento da Cássia como artista, que aconteceu entre seus 14 e 18 anos quando ela ganhou um violão, interessou-se por rock e iniciou sua carreira realizando apresentações em casas de show em Brasília. Através de fotos e relatos de pessoas que conviveram com ela no período, o diretor começa a construir aqui um dos principais argumentos de seu documentário: Cássia era, sobretudo, uma pessoa tímida que utilizava a arte como forma de extravasar suas emoções. Em um episódio engraçado contado pelo músico Oswaldo Montenegro, que na época comandou a cantora em um espetáculo teatral, ficamos sabendo de uma menina retraída que foi capaz de raspar as sobrancelhas e substitui-las por traços de canetinha para viver um personagem, comportamento que, antes de revelar a contradição de uma pessoa que definia-se como tímida, reforça a ideia de alguém que utilizava a extravagância como escudo contra a falta de aptidão para o convívio social.

Cássia Eller - CenaA bissexualidade de Cássia, fato de conhecimento público, poderia ser abordada pelo diretor em um tom demasiadamente respeitoso e politicamente correto, mas felizmente não é assim. Talvez naquela que seja a primeira menção do assunto no filme, Maria Eugênia, companheira com quem a cantora conviveu da adolescência até a morte, relembra e conta (da forma mais desbocada possível) do dia em que elas se conheceram. Apresentadas por amigos após o término de um show, Maria Eugênia, que então estava acompanhada por um namorado, diz que a simples presença de Cássia fez com que ela “arrepiasse até os cabelos do cu”. Palmas para o diretor, tanto por não estender-se além do necessário nessa questão da sexualidade (já que trata-se de uma decisão de fórum íntimo que DEVE ser respeitada), quanto por manter esse tom informal, por vezes até chulo, dos depoimentos. Cássia era poesia, mas também era alguém que cantava sobre um príncipe chato que “vivia dando no saco” dela, ou seja, falar sobre sua vida em tom moralista e com discursos “certinhos” soaria falso. Essa “naturalidade”, aliás, também é usada para tratar o tema das drogas, outro assunto polêmico que Fontenelle trata pragmaticamente: ela usava  e isso também dizia respeito somente a ela.

Cássia Eller - Cena 2Cassia Eller conta ainda sobre a gravação do primeiro álbum da cantora, do início das críticas positivas, da fama e seus perrengues, traz curiosidades sobre seus principais hits (Malandragem, composição de Frejat e Cazuza, foi recusada pela cantora Ângela Ro Ro para depois tornar-se o maior sucesso de Cássia) e narra sua ascensão ao estrelato que culminou na icônica apresentação no Rock in Rio e na gravação do Acústico MTV. Fontenelle é competente e inventivo para seguir a linha temporal da vida da artista, resgatando arquivos de foto e vídeo que mostram-na ora no conforto de casa cuidando de seu único filho, Chicão, ora em programas de TV morrendo de vergonha das perguntas majoritariamente boçais feitas pelos apresentadores. O diretor nos empolga com as histórias de bastidores que envolveram a execução da Smells Like Teen Spirit no Rock in Rio (o Dave gostou!) e nos faz rir com a quantidade de vezes que ela errou a letra da Vá Morar com o Diabo na gravação do Acústico mas, inevitavelmente, chega o momento em que ele precisa falar sobre o fim trágico e prematuro que ela encontrou no fim de 2001 e aí fica difícil conter as lágrimas. Antes de falar disso, porém, permitam-me um parágrafo mais pessoal.

Cássia Eller - Cena 5Não, eu ainda não posso dizer que conheci a Cássia Eller. Eu adoro o Acústico MTV do fundo do meu coração, mas ouvi pouquíssimo material dela fora desse álbum. Seria falsidade, portanto, falar-vos que sou um grande fã da cantora. O que posso dizer com toda sinceridade após assistir esse documentário é que, minimamente, ele mudou aquela visão que eu meio que encubei acriticamente lá na adolescência de que ela fosse uma doidona que mostrava os peitos no palco. Amadureci um pouquinho assistindo Cássia Eller. Entendo agora que o que vi (e o que geralmente vemos quando olhamos para o próximo), nada mais foi do que uma máscara que ela utilizava para conseguir suportar sabe-se lá quais paranoias e fobias sociais que ela carregava. Nisso, é significativo quando o Nando Reis aparece para dizer que o sucesso da parceria entre eles deu-se principalmente devido a identificação que eles sentiram com as esquisitices um do outro. Com a música, eles encontraram um meio de sobreviver e transformar essa timidez/estranheza trazidas no coração em algo belo e sincero da mesma forma que eu, que tenho uma dificuldade enorme para expressar-me pessoalmente sobre o que gosto, utilizo esse blog para sistematizar meus pensamentos sobre cinema. O que fica da “maluca de moicano” que cantava com tanta sinceridade “quem sabe eu ainda sou uma garotinha” é o exemplo de que a arte é um caminho para superarmos dificuldades e ofertarmos para o mundo o que há de melhor dentro de nós.

Cássia Eller - Cena 6Essa identificação forte e sincera com o que vi, com a pessoa humana, demasiadamente humana que ela foi (é bom que Fontenelle inclua relatos dos ataques ocasionais de raiva, medo e frustrações dela), provocaram introspecção e me fizeram chorar um bocado na parte final do documentário que trata da morte de Cássia. O enterro, com os fãs enchendo o lugar e cantando Por Enquanto, é desolador. É extremamente bom que o diretor faça justiça a família e a memória da cantora reforçando que o laudo excluiu a possibilidade da morte por overdose (Veja, eu quero é que você se top, top, top!) e que, no fim, o clima de tristeza seja substituído pela alegria da vitória revolucionária que Maria Eugênia conseguiu na justiça pela guarda de Chicão e que o menino, já um adolescente, esteja feliz e com os mesmos trejeitos da mãe, provas de que a influência de todas aquelas belezas que ela tirou do fundo do coração não foram apenas palavras pequenas ao vento. Se eu gostei? Estranho seria se eu não gostasse tanto assim 🙂

Cássia Eller - Cena 4

Cinderela em Paris (1957)

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Cinderela em ParisQuando estamos com a mente e o coração abertos para aproveitarmos a vida, a diversão e o aprendizado podem ser encontrados nos locais mais inusitados. Outro dia, eu estava sentado de bobeira no sofá enquanto minha esposa via um programa de moda no canal GNT. Andando pelas ruas do Rio de Janeiro, a atriz Sophie Charlotte falava para a apresentadora Lilian Pacce sobre seu estilo e influências na hora de se vestir. É o tipo de programa que, teoricamente, eu nunca acompanharia por vontade própria (visto que o assunto não me interessa diretamente), mas que aprendi a assistir de vez em quando pois sei o quanto é saudável dentro de uma relação compartilhar gostos e conhecimentos. Sinceramente, não lembro de muita coisa do programa (rs), mas achei bem legal quando a atriz revelou seu amor pelo filme Cinderela em Paris e cantou uma de suas músicas. Segundo Sophie, a produção é um clássico dentre aquelas voltadas para o mundo da moda e a Hepburn é uma de suas referências de como se vestir bem. Não gosto de moda, mas gosto de filmes e de agradar a minha esposa, logo procurei o dito cujo para assistir e tive uma sessão surpreendentemente divertida e prazerosa.

 A editora Maggie Prescott (Kay Thompson) está procurando um novo rosto para estampar a capa de sua revista, a Quality Magazine. Durante uma atrapalhada sessão de fotos em uma livraria, ela e o fotógrafo Dick Avery (Fred Astaire) percebem o potencial de Jo Stockton (Audrey Hepburn) e convidam-na para realizar uma viagem para Paris onde ela desfilaria uma nova coleção de roupas e seria apresentada para o mundo da moda. Jo, que é uma moça tímida fã de filosofia, aceita o convite na esperança de encontrar em território francês o famoso filósofo Emile Flostre (Michel Auclair).

Cinderela em Paris é uma mistura de musical com comédia romântica comandado pelo diretor Stanley Donen, o mesmo do clássico Cantando na Chuva. Como não nutri a mesma empolgação da Sophie pela música Funny Face e como meu conhecimento de moda só foi suficiente para que eu percebesse que o padrão de sobrancelhas mudou muito nos últimos anos (as da Hepburn estão mais grossas do que as minhas), opto por comentar nessa resenha o que realmente chamou a minha atenção no filme. Ao falar de moda, um assunto que muita gente considera fútil, Cinderela em Paris usa do humor para criticar o outro lado da moeda e dispara contra o pedantismo e a hipocrisia que impera em certos círculos de produção intelectual.

Cinderela em Paris - Cena 2Não sou eu quem dirá que Jo vestia-se mal antes de conhecer Maggie e Dick, mas também não posso dizer o contrário. Funcionária solitária de uma livraria, a personagem demonstra desejo e curiosidade pelo mundo para ela até então desconhecido do amor e da moda (tema de sua primeira canção), mas ela não parece estar disposta a romper a bolha da intelectualidade para viver esse sonho. Jo ataca o comportamento espontâneo da editora e do fotógrafo e utiliza toda uma gama de teorias para dizer que eles estão desrespeitando-a quando invadem seu local de trabalho, mas logo esse comportamento ranzinza cede lugar para o deslumbramento da possibilidade de ela ser a estrela daquele espetáculo que até então ela vira com maus olhos. Além de mostrar esse comportamento hipócrita de alguém que criticava algo que não conhecia (e que até mesmo desejava) típico dos pseudo intelectuais (tema, aliás, central no livro Anna Karenina, que é citado aqui em uma ótima cena) , o diretor Stanley Doney nos dá um visão deveras sarcástica da capital parisiense, onde as pessoas estão dispostas a conversarem sobre filosofia apenas para beberem de graça, as danças beiram o bizarro (a apresentação hilária da Hepburn dentro do bar renovará seu conceito de ‘esquisito’) e o discurso masculino, ainda que cheio de floreios e travestido de intelectualidade, visa de uma mulher o mesmo que qualquer cantada barata visa em todos os cantos do mundo.

Cinderela em Paris - Cena 3Cinderela em Paris fala ainda sobre empatia. Jo admira e diz ser uma praticante de uma teoria sobre empatia desenvolvida pelo filósofo Emile Flostre, mas durante a projeção vai ficando bem claro as contradições do discurso da personagem. Para poder ficar em um bar tagarelando com alguns boêmios parisienses, por exemplo, ela deixa de comparecer em um compromisso e prejudica todos os envolvidos. Convenhamos, essa não é uma atitude de alguém que se coloca no lugar dos outros antes de agir. O que é possível extrair disso daí, e que trata-se de algo bom para se pensar mesmo vindo de uma produção que já soma quase 60 anos, é a limitação castradora que constitui viver a teoria desassociada da prática. Como eu disse no início do texto, eu não sou fã de programas de moda. Fosse eu agir a ferro e fogo com isso, eu não teria assistido o quadro da GNT e, além de ter perdido uma oportunidade de fazer algo com minha esposa, eu também não teria conhecido esse filme. O conhecimento, a teoria e as opiniões que nos engessam podem e devem sempre serem repensados.

Cinderela em Paris - CenaSobre o que está em primeiro plano, só posso comentar o que vi com o olhar sincero de um leigo no assunto. O figurino de Cinderela em Paris é majoritariamente bonito e as cores vivas e gritantes dos vestidos chamam bastante atenção. Nisso, o desfile de Jo rivaliza com a dança do lago e com a sequência da canção “Bonjour, Paris” como melhores momentos do filme, arrisco a dizer até que mesmo quem não é fã de moda e/ou musicais renderá-se a qualidade dessas cenas. Sobre a parte musical, aliás, valem todos os elogios do mundo para as performances do Fred Astaire, reconhecidamente um dos grandes nomes da história do gênero. Apesar de estar um pouco velho e de não apresentar nenhuma química com a Hepburn, ele destaca-se em todas as cenas que participa com seu sapateado preciso e criativo (a minha favorita é a da sala escura). Fica a dica para as meninas que interessam-se por moda e para os marmanjos que estão dispostos a sair um pouco da zona de conforto.

Cinderela em Paris - Cena 4