Arquivo da categoria: Ficção Científica

Power Rangers (2017)

Padrão

Vamos encarar a realidade? Power Rangers É ruim. Não concordam? Experimentem rever a série (tem no Netflix) e percebam o quão zoado era tudo aquilo. Já no primeiro episódio, em menos de 5min, a Rita Repulsa e seu exército são libertados de uma prisão lunar, Zordon convoca os Rangers e lhes dá a missão de proteger os EUA a Terra e o Alpha já soltou vários AI AI AIAIAI . Sim, também tem a Amy Jo Johnson, primeira namoradinha de muita gente, fazendo ginástica com uma calça suplex rosa, mas no geral o seriado era bem bobão e previsível. Com raríssimas exceções, todos os episódios seguiam o esquema:

  1. Rangers na lanchonete + piadinhas do Bulk e Skull
  2. Rita conspirando contra o sossego alheio
  3. Bonequinhos de massa (PRULULULU!) e monstro
  4. Rita faz o monstro crescer
  5. Megazord destrói o monstro (e toda a cidade de Angel Grove junto)
  6. Rangers na lanchonete tomando milk shake, lição de moral e Rita com dor de cabeça pedindo aspirina

Todo caso, em 1995, quando o seriado estreou no Brasil, eu era apenas um garoto de 10 anos que saía da escola e ia correndo para casa ver Power Rangers na TV Colosso. Naquela época, eu tinha medo do Roberval, O Ladrão de Chocolates e gostava muito, muito de do seriado. Eu não tava nem aí para o roteiro capenga e para o fato de que a Ranger amarela tinha um volume estranho no meio das pernas. Para falar a verdade, eu nem sabia o que era roteiro. Quando eu sentava no sofá de casa na hora do almoço, as únicas coisas que importavam eram o purê de batata da minha mãe e a sequência animal de transformação do Megazord.

Com o exposto, sei que constato o óbvio – nem tudo que a gente gosta quando é criança continua nos agradando quando crescemos – mas é bom deixar isso claro para que nenhum fã da série apareça por aqui pra me xingar pelo que vou dizer. Acho difícil gostar de Power Rangers hoje em dia. Por mais que eles tenham feito parte da minha infância (eu tinha vários daqueles bonequinhos trash que giravam a cabeça; o meu favorito era o Billy/Triceratops) e que eu me sinta nostálgico em relação ao seriado, o tempo passou e agora eu me interesso por outras coisas. Nisso, fica a pergunta: faço parte do público alvo desse novo Power Rangers? A intenção dos produtores era conquistar uma nova leva de fãs ou fornecer um produto saudosista para a galera da década de 90? As duas coisas? É certo que esse filme do diretor Dean Israelite, com todos os seus efeitos especiais e linguagem atual, abre as portas dos anos 2000 para os Rangers, mas também é patente que o longa foi construído buscando proporcionar uma válvula de escape para o passado ao custo de um ingresso. Não sei se a molecada gostou do que viu, mas o tiozão aqui não ficou nenhum pouco empolgado.

O começo até que não é dos piores. Ao contrário do que acontece no seriado, reservaram um bom tempo para apresentar os personagens e dar sentido para uma história em que monstros gigantes tentam destruir o mundo. Há cerca de 65 milhões de anos, Rita Repulsa (Elizabeth Banks) e Zordon (Bryan Cranston) duelaram pelo destino da Terra. Zordon, que então era o Power Ranger vermelho, conseguiu vencer e selar Rita em uma prisão, mas a vitória custou a vida de todos os seus companheiros e sua própria liberdade, visto que seu corpo também ficou preso em uma dimensão paralela. Muitos anos depois, os colegiais Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cyler), Kimberly (Naomi Scott), Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.) encontram Zordon enterrado em uma pedreira e são encarregados por ele de protegerem o planeta da vingança iminente de Rita, que fugiu da prisão e iniciou o processo para invocar seu poderoso Goldar.

Como todo bom filme de origem, Power Rangers foca primeiro nos personagens e depois na ação. Jason é um líder irresponsável com problemas com o pai, Billy é autista, Kimberly espalhou nudes na escola, a mãe de Zack está doente e a família de Trini não aceita sua sexualidade. De suas 2 horas de duração, o filme investe pelo menos metade do tempo na apresentação do lado humano dos heróis antes que eles transformem-se em guerreiros que saltam sobre penhascos e lutam fazendo poses engraçadas. Disso eu gostei: como o desenvolvimento de personagens é bem feito, a gente sempre sabe, por exemplo, que o Zack fará alguma coisa doidona e que a Trini estará de mau humor.

A qualidade, no entanto, cai vertiginosamente quando o conteúdo “Ranger” é adicionado ao filme. Desde que saíram os primeiros trailers, eu torci o nariz para o visual dos personagens. Sei que seria impraticável repetir os pijamas de latex de outrora, mas essas roupas novas, que mais parecem trajes de motoqueiros, ficaram feias demais. A “modernização” também escorregou nos bonequinhos de massa, cujos atores foram substituídos por um CGI horroroso, e na aparência da Rita, que lembra muito mais a saudosa Scorpina do que aquela velha maluca do cabelo branco. Nenhum desses equívocos, porém, compara-se com o que foi feito com os Dinozords e com o Goldar. Para falar pouco, os veículos de batalha dos Rangers estão irreconhecíveis (aquilo lá NÃO É um mastodonte) e o monstro, que era uma espécie de macacão demoníaco, transformou-se em uma massa tosca de ouro ambulante.

Diante de todas essas apostas visuais bizarras, a minha animação foi zero quando a batalha final começou. Pra falar a verdade, fiquei até com um pouco de vergonha quando tocou o tema clássico da série (Go Go Power Rangers). No dia eu estava acompanhado da minha mãe, que vai pouquíssimo ao cinema, e fiquei bastante arrependido por ter escolhido esse filme para ver. A transformação do Megazord, que deveria ser o ponto alto do filme, apenas revelou outro amontado de efeitos especiais ruins e nem mesmo as boas piadas e referências a filmes como Transformers, Duro de Matar e Vingadores tornaram a sessão menos penosa. Power Rangers era ruim mas a gente era criança e gostava. Power Rangers é muito ruim e já fazem incríveis 20 anos que a TV Colosso acabou. Não dá mais.

Obs.: Durante os créditos, uma cena extra revela planos para uma continuação. Haim Saban, o criador dos personagens, quer mais 5 filmes. Única reação possível? AI AI AIAI!

Ghost in the Shell – O Fantasma do Futuro (1995)

Padrão

A versão hollywoodiana do Ghost in the Shell, aquele clássico da animação japonesa de 1995, está disponível nos cinemas desde a semana passada, porém antes de ir assisti-lo eu achei melhor conhecer e resenhar a obra original.

*Pausa para adivinhar o pensamento do leitor* Como assim cara? Você, que se diz um cinéfilo, até hoje não havia assistido esse filme OBRIGATÓRIO?

Pois é amigos, que vergonha, né? Acontece que, mesmo sabendo da aura cult que cerca o anime (que é considerado um trabalho seminal dentro do gênero cyberpunk), até hoje eu não havia encontrado uma oportunidade para vê-lo (ainda que eu tenha tido tempo para ver esta merda aqui). Fala-se muito mal dessa “onda de remakes” de Hollywood (na maioria das vezes com razão), mas algo que eu sempre achei válido na ideia de resgatar clássicos é que, mesmo que indiretamente, essas novas roupagens acabam despertando o interesse do público pela produção original. Descobri bons filmes desse jeito, e foi assim que eu finalmente criei vergonha na cara e coloquei o Ghost in the Shell pra rodar. Nos últimos dias, aliás, eu vi ele duas vezes.

Seria bem legal dizer que realizei uma segunda sessão porque gostei demais da primeira, mas a grande verdade é que, se eu não tivesse revisto, eu não teria a mínima condição de escrever essa resenha. Resumidamente, eu não entendi patavinas da história. As cenas de ação são brutais e a mistura de computação gráfica com animação tradicional dá um visual incrível e futurista para o cenário, mas a trama envolvendo temas como terrorismo, política e existencialismo não entrou na minha cabeça de jeito nenhum. Na boa? Não fiquei nenhum pouco triste ou preocupado com isso.

Dia desses, uma amiga fez um post no Facebook dizendo que sentiu-se “tonta” por ver Donnie Darko e não “entender nada”. Antigamente eu também me sentia assim, mas com o tempo eu fui percebendo que tem obras que simplesmente não foram concebidas para serem digeridas de uma só vez. É muita pretensão, por exemplo, querer assistir algo da magnitude de um Interestelar e entender de cara todos aqueles diálogos carregados de física quântica. Independente dos temas complicados que escolher trabalhar (viagem no tempo SEMPRE dá nó na cabeça), o filme precisa funcionar, mas isso não quer dizer que o roteiro precise entregar tudo mastigadinho para o espectador. A força de filmes como Donnie Darko, por exemplo, está justamente no fator replay, ou seja, tu assisti-lo novamente utilizando informações que você não tinha da primeira vez para preencher lacunas e chegar a um novo entendimento, tal qual um quebra cabeças que vai sendo montado aos poucos. Foi mais ou menos isso que eu fiz com Ghost in the Shell. Eis o que compreendi das duas sessões.

No ano de 2029, a tecnologia permite que a consciência humana seja extraída do corpo e implantada em ciborgues. As pessoas que realizam essas modificações não tornam-se imortais, visto que seu cérebro/banco de dados pode sofrer danos permanentes  e que, regularmente, os corpos cibernéticos precisam de manutenção, mas o processo confere superforça, supervelocidade, acesso a uma infinidade de informações via download instantâneo e resistência contra doenças. No futuro sombrio dominado por megacorporações imaginado pelo escritor Shirow Masamune, ser um ciborgue é estar preparado para lidar com ataques terroristas e com a violência das grandes cidades.

A Major Motoko é uma ciborgue que trabalha para o governo utilizando força bruta quando as coisas saem do controle ou tornam-se demasiadamente complexas para a polícia comum resolver. Exemplo: um diplomata de um país vizinho quer extraditar e dar abrigo para um importante programador. Pela lei, nada poderia impedi-lo de ajudar o sujeito, então Motoko é enviada até o local e mete uma bala bem no meio das fuças do diplomata, desaparecendo logo em seguida, tal qual um fantasma, sem deixar rastros. É difícil duvidar do profissionalismo da Major após vê-la executar com frieza uma ordem sanguinária dessas, mas o surgimento de um famoso hacker trará à tona sentimentos e dúvidas que a personagem havia ocultado sob as placas de metal de seu corpo.

Da primeira vez que assisti, boiei completamente na parte “política” da historia. Os diálogos rápidos do anime e as muitas referências à personagens governamentais fictícios me confundiram bastante. Enquanto eu ainda estava tentando entender a relação do ditador exilado no Japão e o hacker, que é conhecido como Mestre dos Fantoches, a Major estava lá descendo o cacete num maluco em um laguinho, filosofando sobre sua individualidade e, finalmente, lutando contra um poderosíssimo tanque no clímax da trama. Eu respirei e o filme, que é bem curto (1h23min) acabou. Não tive nenhuma dúvida relacionada a qualidade visual do trabalho do diretor Mamoru Oshii (20 anos depois, a animação ainda é muito bonita), mas reconheci que o roteiro havia me escapado e resolvi ver outra vez.

A real é que a trama política é o que menos importa em Ghost in the Shell. O controle governamental sobre o cidadão comum é ferrenho, a politicagem come solta em negociações internacionais escusas e há brigas de hierarquia dentro dos vários setores do governo. Tudo fichinha para quem lê jornal diariamente no Brasil. O que dá sentido para o roteiro são os questionamentos de Motoko sobre sua condição de ciborgue. Se você ainda não assistiu o anime e pretende fazê-lo, aconselho-o a focar nisso. Todas as certezas que a Major tinha sobre si mesma desmoronam quando ela percebe que o tal Mestre dos Fantoches é capaz de produzir memórias e introduzi-las nos cérebros alheios. Se nossas lembranças podem ser criadas e manipuladas, o que definirá nossa individualidade? O que nos fará diferentes das máquinas? Vale a pena ser apenas um vulto dentro de um corpo metálico poderoso, um fantasma numa concha?

Esses questionamentos desenvolvem-se em cima da subtrama política citada e num cenário distópico em que a tecnologia de ponta contrasta com a pobreza absoluta. Ghost in the Shell conta ainda com pelo menos 3 cenas de ação frenéticas, com a Major e seus aliados (Batou e Togusa) fazendo sangue jorrar pra valer e, muita, muita nudez. O trailer do remake mostra a Johansson com um corpo metálico estilizado bem diferente da Motoko peladona da animação que, por fora, não tem absolutamente nenhuma diferença de uma mulher comum. Que vacilo, Hollywood! Como é certo que tornarão o material mais palatável para o público dos blockbusters, exagerando na ação e simplificando o roteiro (parece que o Mestre dos Fantoches deixou de ser um programa para ser um personagem físico), torço para que A Vigilante do Amanhã seja ao menos um filme que também dê vontade de assistir mais de uma vez, visto que Ghost in the Shell eu repeti e não veria problema algum em partir para uma terceira sessão.

Rogue One: Uma História Star Wars (2016)

Padrão

rogue-one-uma-historia-star-warsEste texto conterá SPOILERS e uma história sobre como o Cinépolis Uberlândia-MG me ferrou.

Eu dormi assistindo Rogue One. Por mais triste que seja, esta é a realidade e eu não pretendo fugir dela. Acredito que, após ler o próximo parágrafo, vocês acabarão entendendo que eu fui vítima de uma armação do capiroto, mas isso não diminui a minha vergonha por ter cochilado na estreia do melhor filme do ano.

Comprei ingressos para a pré-estreia de Rogue One: Uma História Star Wars com cerca de uma semana de antecedência. Na máquina de autoatendimento do Cinépolis, a sessão estava marcada para as 00:01 do dia 16/12, ou seja, madrugada de quinta para sexta-feira. Grande foi a minha surpresa quando, na quarta (14/12), eu vi um monte de gente comentando que havia chegado o dia de assistir o filme. Eu tinha CERTEZA que eu havia comprado ingresso para a PRIMEIRA sessão, e essa sessão DEFINITIVAMENTE não era na quarta. Preocupado, pedi para que a minha esposa fosse até o cinema confirmar a data da estreia e foi aí que o problema revelou-se em toda sua magnitude: o Cinépolis havia me vendido ingressos para uma sessão que não existia. Como solução, eles me deram cortesias para ver o filme naquele mesmo dia, na quarta, as 00:01.

Eu sei que esta história já está ficando longa demais, então vou resumir o que aconteceu. Caras, eu não estava NENHUM pouco preparado para ver o filme aquele dia. Eu havia trabalho dois turnos e estava morrendo de cansaço, de modo que a empolgação por estar diante de um novo Star Wars me deu forças para ver apenas os 30min iniciais do filme. Depois disso, eu cochilei pra valer. A sessão passou, fui ao banheiro, lavei o rosto e voltei para ver o final, mas basicamente foi isso que eu aproveitei: o início e o fim. Eu fiquei muito mal com isso. Pode parecer bobagem, mas senti que desrespeitei a saga. Maldito seja você, Cinépolis, por essa confusão dos infernos!

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-6No outro dia, tão logo acordei, consultei a grade de programação do GLORIOSO Cinemark, escolhi um horário, comprei um energético para garantir (rs) e entrei numa sala de cinema pela segunda vez em menos de 24 horas para ver Rogue One. Novamente, fui traído pelos meus olhos, mas dessa vez a dificuldade foi conter as lágrimas diante de um filme que não apenas confirmou o quão infinitas são as possibilidades de exploração do universo Star Wars quanto presenteou os fãs de longa data da franquia com a encenação de uma história fantástica e cheia de referências sobre o poder da Força e da resistência.

Cronologicamente, os eventos mostrados em Rogue One localizam-se entre A Vingança de Sith (Episódio 3) e Uma Nova Esperança (Episódio 4). Derrotados, os últimos Jedis partiram para o exílio e viram o Imperador Palpatine e seu aprendiz Darth Vader (James Earl Jones) derrubarem a República e estenderem a sombra do Império Galático por todo o universo. Para combater a resistência da Aliança Rebelde, o Império constrói a terrível Estrela da Morte, a arma definitiva capaz de destruir planetas inteiros com apenas um disparo. O início do Uma Nova Esperança mostrava como a Princesa Leia recebeu o plano de construção da Estrela da Morte e usou-o para dar início à derrocada do Império. Em Rogue One, o diretor Gareth Edwards (do ótimo remake do Godzilla) nos conta como esse plano foi descoberto e roubado pelos rebeldes em uma missão corajosa.

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-2Me parece que o anúncio do Rogue One despertou menos curiosidade e empolgação do que o do O Despertar da Força. Isso pode ser associado ao tempo que separa os lançamentos (do Episódio 3 até o 7 passaram-se 10 anos, e agora voltamos ao cinema apenas um ano depois para ver outro filme da série), mas também acredito que muita gente não confiou no potencial da trama. Não raramente, spin offs (obras derivadas de outras obras) como o Rogue One são vistos como meros caça-níqueis, produtos de qualidade inferior ao original pensados para gerar lucro, e a ideia de que poderiam dar este tratamento desrespeitoso para algo relacionado a franquia Star Wars não era lá das mais animadoras (o The Clone Wars de 2008, por exemplo, beirou o fiasco). Nesse sentido, Rogue One tem tudo para transformar-se um divisor de águas para os spin offs: ele não é apenas um derivado, ele é TÃO BOM QUANTO alguns dos filmes originais (pra mim, tá pau a pau com O Retorno de Jedi) e aumenta significativamente a expectativa para os futuros projetos da franquia (Episódio 8 em 2017, Han Solo em 2018).

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-5Como esperado, Rogue One apoia-se bastante na nostalgia, recriando cenas conhecidas do público e fazendo links e referências à outros filmes da série, mas ele também possui muito material original para ser amado por seus próprios méritos, a começar pelos personagens principais e suas motivações. Jyn Erso (Felicity Jones) e Cassian Andor (Diego Luna), uma criminosa e um líder da Aliança, não tem a mesma força, habilidade ou convicções morais de heróis como Obi-Wan e Mestre Yoda. Eles são pessoas comuns, com defeitos e qualidades (o que dá um tom mais cinza e adulto para o filme), que lutam como podem contra o domínio do Império. A beleza do roteiro de Rogue One está em desconstruir a figura do herói clássico (o exército de um homem só cheio de virtudes que enfrenta sozinho uma grande dificuldade) e mostrar a importância que ações individuais, ainda que pequenas, tem para os grandes feitos e realizações. Não fossem os sacrifícios de Jyn, Cassian e de outras centenas de desconhecidos, por exemplo, provavelmente o Luke não teria conseguido disparar o tiro que detonou a Estrela da Morte. Cada ação conta, mas nem por isso a trama deixa de criticar o extremismo, mesmo que veladamente. Notem a oposição que é feita entre a paranoia do líder Saw Gerrera (Forest Whitaker), um homem de métodos violentos, com a resiliência e a frieza do Galen Erso (Mads Mikkelsen), o cientista que é submetido à tirania do Diretor Orson Krennic (Ben Mendelsohn).

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-4A luta contra o Império vista em Rogue One é colorida por elementos que conhecemos e amamos, dentre os quais destaco:

  • As batalhas grandiosas envolvendo X-Wings, AT-ATs, Tie Fighers e Stormtroopers (que melhoraram consideravelmente para atirar rs), a Estrela da Morte sendo acionada duas vezes (é assustador vê-la surgir no horizonte antes dos disparos) e as cenas furtivas de sabotagem, resgate e roubo de dados.
  • O robô autista K-S2O, que preenche o espaço deixado pelo R2-D2 e pelo C-3PO (que aparecem em uma cena rápida) e é o responsável pelas melhores piadas do filme.
  • A base rebelde de Yavin IV, um dos cenários mais legais do Uma Nova Esperança, que é recriada com perfeição. Ver as X-Wings decolando de lá pilotadas por personagens antigos, como o Líder Vermelho e o Líder Dourado é algo inexplicável. É ali que também está um dos links mais diretos com o Episódio 3: Bail Organa (Jimmy Smits) pode ser visto entre os rebeldes.

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-3Ainda sobre a nostalgia, é óbvio que o ponto alto de Rogue One é a participação do Darth Vader. O personagem, que talvez seja o vilão mais icônico de todos os tempos, aparece em cenas curtas mas absurdamente fantásticas. Tem estrangulamento pela força, tem sombra do capacete projetada na parede, tem tanque de recuperação e, claro, tem a invasão da nave da Princesa Leia. Meus amigos, QUE CENA DO CARALHO! Naturalmente, a gente torce pela Aliança, mas é impossível ser politicamente correto quando o Wader saca o sabre de luz e começa a detonar os rebeldes. Nesta cena, recriação do início do Uma Nova Esperança, o Gareth Edwards vale-se de suas experiências anteriores em filmes de terror e apresenta uma sequência tenebrosa em que um monte de soldados caem diante o avanço implacável do Wader. Em seguida, a Leia (criada digitalmente, numa das maiores surpresas da trama) aparece e enche o coração de todo mundo de esperança, mas a real é que quando os créditos surgem a gente ainda está meio atordoado por ter presenciado uma das maiores carnificinas de toda a série. Hail, Disney!

rogue-one-uma-historia-star-wars-cenaPra finalizar, há a cena em que o Chirrut (Donnie Yen), um monge cego, marcha através de uma zona de guerra para pressionar uma alavanca. O universo tornou-se um lugar sombrio após os Jedis terem sido derrotados, mas nem por isso Chirrut deixou de acreditar no poder da Força. Inicialmente, o mantra que ele entoa (I’m one with the Force, and the Force is with me) é usado em cenas cômicas, mas aí o personagem demonstra todo o poder de sua fé ao avançar contra os temíveis Death Troopers e faz a gente dar aquele nó na garganta. Pra mim, esta cena junta-se a queda do Han Solo no Despertar da Força e ao “Você era meu irmão, Anakin” do A Vingança dos Sith como um dos momentos mais tristes e emocionantes da série. Lá no começo do texto eu disse que chorei vendo Rogue One e foi exatamente nesta cena que as lágrimas caíram. Não é só um filme, não é só um personagem: é Star Wars ❤

Eu já paguei 2 vezes para ver Rogue One: Uma História Star Wars e certamente pagarei uma terceira. É lógico que não verei no Cinépolis, que além de tudo o que foi falado ainda está vendendo um combo caro (53 reais) contendo um balde de plástico vagabundo no formato da Estrela da Morte. Verei no Cinemark, e verei com a mesma empolgação porque, num ano de ótimos blockbusters, Rogue One foi o melhor disparado. Que venha o Episódio 8 e que a Força esteja com vocês!

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-7

A Chegada (2016)

Padrão

a-chegadaSaiu a lista oficial dos indicados ao Globo de Ouro de 2017. Novamente, a maioria das apostas do Indiewire confirmaram-se e filmes como Manchester À Beira-Mar, Moonlight e La La Land despontaram como favoritos, recebendo indicações nas principais categorias. Estou bastante empolgado para procurar, ver e resenhar os concorrentes e, por ora, faço os seguintes comentários sobre a lista:

  • Fiquei bastante surpreso com a indicação do Deadpool à Melhor Filme – Musical ou Comédia. A produção da Fox quebrou vários recordes de bilheteria e tornou-se uma das sensações do ano, mas há uma conhecida implicância da crítica especializada de Hollywood com os filmes de super herói. Não deve ganhar (é provável que o La La Land leve), mas trata-se de um passo importante no reconhecimento de um gênero que, fora o apelo popular, está numa crescente de qualidade e criatividade.
  • Estranhei a ausência do Sully, versão do veterano Clint Eastwood para o incidente do Rio Hudson. Acredito, porém, que o filme terá mais sorte no Oscar, tal qual aconteceu em 2015 com o Whiplash.
  • Julieta, filme que estava cotado para Melhor Filme Estrangeiro, acabou ficando de fora. Outro que também não chegou lá foi o brasileiro Pequeno Segredo, que não deve ter melhor desempenho no Oscar.

a-chegada-cena-2A Chegada, filme do canadense Denis Villeneuve, chegou a ser cotado pelo Indiewire como provável indicado à Melhor Filme, mas acabou sendo lembrado apenas para Melhor Trilha Sonora e Melhor Atriz (Amy Adams). Assisti-o semana passada (a resenha está atrasada devido à correria de final de ano no meu trabalho) e tenho plena convicção de que, não fosse a resistência dos críticos com a ficção científica, ele poderia destacar-se mais no Globo de Ouro. Sabe quando saímos da sala de cinema com a certeza de que o filme valeu cada centavo pago para vê-lo? A Chegada é assim, um clássico instantâneo de seu gênero que vale-se de uma alegoria envolvendo alienígenas para nos fazer pensar sobre um problema bastante atual da humanidade: a comunicação.

Num dia qualquer, 12 espaçonaves de origem desconhecida adentram nossa atmosfera e posicionam-se em diferentes locais do planeta. Como elas adotam uma atitude pacífica, os governantes entendem que os alienígenas desejam fazer contato e montam equipes para iniciar uma aproximação. Encarregado de conduzir a operação nos Estados Unidos, o Coronel Weber (Forest Whitaker) escolhe Louise Banks (Amy Adams) e Ian Donnely (Jeremy Renner), dois dos melhores especialistas em línguas e cálculo do país, para tentar decodificar a linguagem dos visitantes.

a-chegada-cena-3Antes de ser convocada, porém, Louise nos é apresentada pelo diretor na abertura do filme como uma mulher solitária que perdeu uma filha para uma doença rara. Melancólica, ela teoriza sobre a relatividade do tempo enquanto flashbacks de sua curta experiência como mãe são exibidos. Dentre as muitas coisas que ela fala, algo que revelaria-se de grande importância para o roteiro me chamou a atenção. Balbuciando, Louise diz não ter mais certeza quando tudo aquilo começou. Num monólogo que relativiza o tempo, não dá para deixar uma informação dessas passar despercebida.

Sobre a invasão, Villeneuve oferece um feijão com arroz bem feito. A histeria coletiva inicial é seguida pela corrida em massa do povão até os supermercados para estocar alimentos. Na TV, notícias sobre seitas religiosas com interpretações bizarras sobre o acontecimento são transmitidas e, como não poderia deixar de ser, milhares de vídeos amadores mostrando as espaçonaves são postados nas redes sociais. Preparado o terreno, o diretor nos coloca em contato com os alienígenas, e quando eu digo “nos coloca”, eu realmente estou querendo dizer que ele põe a gente pra dentro do filme.

a-chegada-cena-4A espaçonave visitada pelos personagens é uma estrutura gigantesca de formato oval que permanece suspensa alguns metros sobre o solo. Elevados por uma máquina, Louise, Ian e Weber entram na mesma numa cena absurdamente claustrofóbica a agoniante. Esqueçam qualquer tipo de maravilhamento infantil diante do desconhecido. Dentro de um macacão, Louise está ofegante, suando e com medo, muito medo. Eu achei esta cena absolutamente sensacional. É lógico que os personagens, pessoas ligadas à ciência e ao mundo acadêmico, estão curiosos para conhecerem os alienígenas, mas o que transborda nessa cena é o cagaço de alguém que está desafiando as leis da gravidade dentro de um trambolho de outro mundo. Pessoalmente, eu consegui sentir cada uma das sensações de medo e ansiedade demonstradas pela Amy Adams e é exatamente esse tipo de experiência que eu quero viver quando assisto um filme. Achei do caralho mesmo.

a-chegada-cena-5A técnica do Villeneuve para criar suspense e apreensão faz sentir-se em outros momentos da trama, como na correria que marca as cenas finais, mas A Chegada também destaca-se por sua parte mais fria e cerebral, que envolve a discussão referente à linguagem e comunicação proposta pelo roteiro. O que os alienígenas vieram fazer aqui? Tão logo Louise e Ian acostumam-se com a ideia de estarem frente a frente com seres de outro planeta, eles precisam decifrar a língua extremamente complexa de seus interlocutores, que comunicam-se usando símbolos que meio que são pintados no ar com uma fumaça que sai da mão deles. O trabalho árduo e metódico da dupla revela uma mensagem envolvendo uma arma, o que levanta uma série de questões (eles querem uma arma ou estão oferecendo uma?) e estimula outros países a optarem por uma postura agressiva contra os visitantes.

Baseado no conto The Story of your Life do escritor Ted Chiang, A Chegada é um filme pacifista que associa os conflitos humanos, sejam eles militares ou não, a nossa dificuldade de nos fazermos entender e de ouvirmos uns aos outros. A conclusão, que está diretamente ligada ao monólogo do início, é surpreendente (daquelas que a gente diz AH, ENTENDI!) e os muitos detalhes do roteiro, como os apelidos dados por Ian aos alienígenas (Abbott e Costello, referência a dupla de comediantes cuja principal piada era justamente sobre um mal entendido), tornam a sessão prazerosa para quem gosta de pensar um pouquinho sobre o que está vendo. Depois de realizar um filme deveras verborrágico, o diretor Denis Villeneuve volta a produzir uma narrativa atraente com um visual poderoso e será bastante justo caso ele consiga arrematar algum prêmio por com esta pepita.

a-chegada-cena

Star Trek: Sem Fronteiras (2016)

Padrão

star-trek-sem-fronteirasJá em seu terceiro filme, a vida do reboot da série Star Trek iniciada em 2009 (e seguido em 2013 pelo Além da Escuridão) já pode ser considerada “longa”, mas o que vi nesse Sem Fronteiras me fez questionar sobre o quesito “prosperidade”. Agora comandada pelo diretor Justin Lin, mais conhecido por seu trabalho na série Velozes & Furiosos (o J. J. Abrams, diretor dos dois primeiros, abriu mão dessa sequência para fazer O Despertar da Força), a franquia praticamente não sai do lugar nesse novo episódio, que pode ser resumido como uma sucessão quase ininterrupta de cenas de ação absurdas (no pior sentido da palavra) que faz pouquíssimas adições à história que foi contada até aqui.

Capitão Kirk (Chris Pine) e o Comandante Spock (Zachary Quinto) querem encerrar as atividades à bordo da USS Enterprise. O primeiro, após mais de 2 anos no espaço comandando a espaçonave nas mais variadas missões diplomáticas, sente que perdeu o “senso de propósito” e por isso quer sair. Já o vulcano, que continua brigando com a Tenente Uhura (Zoe Saldana), planeja encontrar uma fêmea para reproduzir e garantir a continuidade da sua espécie após a destruição de seu planeta natal. Sim, REPRODUZIR, porque o Spock continua frio e chatão. Antes de sair, no entanto, a dupla desembarca na impressionante Estação Yorktown e recebe uma última tarefa: acompanhar uma sobrevivente de uma batalha estelar até um planeta distante onde supostamente toda a tripulação de uma nave foi feita refém. Esta missão reafirmará junto aos membros da Enterprise o poder da união e do trabalho em equipe e fará Kirk e Spock repensarem seus desejos de partir.

Desconfiei que esse filme fosse ser ruim (ou pelo menos inferir aos anteriores) desde que vi o nome Justin Lin nos trailers. É certo que resgataram a série Star Trek para transformá-la em um blockbuster para as massas, mas há diferenças conceituais quase inconciliáveis entre o público da ficção científica e aquelas pessoas que pagam para assistir carecas bombados acelerando carros velozes. Temi por essa mistura e pelo direcionamento que seria dado à franquia e, infelizmente, desta vez eu não estava errado: há pouco cérebro em Sem Fronteira.

star-trek-sem-fronteiras-cena-2O roteiro, que é assinado pelo ator Simon Pegg (que interpreta o Scotty aqui), é uma reedição sem brilho daquilo que já havia sido feito no Além da Escuridão. Esquematizando:

  • AdE: Kirk é acusado de irresponsabilidade e quase perde o controle da USS Enterprise/ SF: Kirk cogita deixar o comando da Enterprise.
  • AdE: Spock e Uhura brigam e fazem as pazes no final/ SF: Spock e Uhura… fazem as pazes no final após brigarem.
  • AdE: Sulu (John Cho) assume a Enterprise interinamente (sem golpe) e mostra-se um capitão badass/ SF: Sulu, que revela-se homossexual, continua mais macho do que muito homem quando senta na cadeira de comando.
  • AdE: Doutor McCoy, o Magro (Karl Urban), mete-se em uma enrascada e fica preso numa bomba/ SF: Doutor McCoy fica sozinho com o Spock.
  • AdE: Surge Khan, um antigo membro da Federação que sentiu-se traído pela mesma e transformou-se em um inimigo/ SF: Aparece Krall (Idris Elba), antigo Capitão da Federação que…

… bem, acho que vocês entenderam. Acreditem, as semelhanças não param por aí. Sem pensar muito, ainda dá para falar da adição de uma personagem feminina para a tripulação (antes Carol, agora Jaylah) e, claro, o ataque maciço sofrido pela Enterprise.

star-trek-sem-fronteiras-cena-4Sem Fronteiras tem muitas cenas de ação e a maioria é genérica até não poder mais (tenho certeza que, por exemplo, daqui um mês não lembrarei de nenhum detalhe do confronto Kirk x Krall), mas é preciso render-se à beleza quase operística da queda da USS Enterprise. Atacada por uma legião de aeronaves semelhantes a um enxame de abelhas, a Enterprise desfaz-se diante dos nossos olhos em uma cena impensável, triste e extremamente emocional. É uma pena que, na sequência, o diretor Justin Lin opte por abandonar esse tipo de grandeza característica da série para investir na adrenalina tosca que dita o ritmo da maioria dos Velozes & Furiosos. Kirk acelerando uma moto através de um terreno pedregoso com a mesma facilidade de quem passeia por uma avenida no final de semana? Façam-me o favor… (observem também o PÉSSIMO efeito especial utilizado nessa cena, vergonha total)

star-trek-sem-fronteiras-cena-3Em suas lamentações sobre ter distanciado-se dos motivos que levaram-no a ingressar na Federação, Kirk diz que a vida no espaço tornou-se “episódica”, como se tudo fosse previsível e até mesmo entediante. Eu te entendo, Kirk. Foi exatamente assim, aliás, que me senti enquanto assistia Sem Fronteiras, como alguém que vê um episódio de uma série qualquer onde um vilão é derrotado sem que nada de muito relevante ocorra para mudar o curso geral da história (dentre os fã de anime, tais episódios até receberam um termo: filler). Gosto demais de Star Trek para encará-lo assim, como mero entretenimento descartável conduzido por um diretor de testosteronas totais. Espero sinceramente que o J. J. Abrams retorne ao comando da franquia e aproveito a oportunidade para deixar aqui meu pesar pela morte prematura do ator Anton Yelchin, que faleceu aos 27 anos vítima de um acidente de carro. Nasdrovia, pequeno grande Chekov!

star-trek-sem-fronteiras-cena

Celular (2016)

Padrão

CelularPronto, voltei! 🙂

Depois de um cansativo primeiro semestre trabalhando em dois empregos, pude finalmente sair de férias e descansar. Aproveitei a oportunidade para realizar um sonho antigo: após 30 anos de existência nesse mundão velho, finalmente consegui transcender os limites territoriais do nosso querido Brasil e, junto da minha esposa, passei uma semana incrível sob o calor escaldante do México.

Programei a viagem de modo que, entre tacos, ruínas maias e praias paradisíacas, sobrasse uma tarde livre para ir ao cinema. Sei que, como um amigo brincou em uma foto que postei no Facebook, “ninguém vai para Cancún para assistir filmes”, mas, cinéfilo que sou, não pude resistir à vontade de conhecer uma sala de projeção de outro país. Na minha bagagem, mais do que as tradicionais bugigangas (eu comprei um apito de coruja, caras rs), eu queria trazer experiências, e consegui uma bem interessante vendo esse Celular por lá.

O áudio do filme estava no idioma original, em inglês, e as legendas estavam em espanhol. Mesmo sem dominar a língua, não é difícil extrair o significado geral, por assim dizer, de uma frase escrita em espanhol, certo? Muitas palavras são iguais ou parecidas. O que pega mesmo, principalmente para a leitura dinâmica que precisa ser feita para as legendas (acompanhando simultaneamente a imagem e o texto) são os falso cognatos. Basta confundir uma palavra e pronto, tu perde um diálogo inteiro. A solução que encontrei para esse “problema” foi confiar no meu inglês e concentrar a atenção nos diálogos, deixando as legendas como último recurso para compreender o que estava sendo falado. Até que deu certo: fiquei perdido em pouquíssimos momentos, de modo que considerei a experiência bastante positiva. Sobre o cinema em si (rede Cinépolis), acrescento ainda que fiquei impressionado com a estrutura do mesmo (cadeiras hiper confortáveis, tela gigante) e satisfeito com o valor do ingresso: num baita de um domingão, paguei 44 pesos (cerca de 11 reais) por um ingresso, sendo que por aqui costuma ser pelo menos o dobro disso.

Celular - CenaFeitas estas considerações, vamos ao filme. Num episódio da segunda temporada do Family Guy, o MacFarlane brincou com o fato do Stephen King utilizar premissas bizarras para seus livros (o trecho pode ser visto clicando aqui). Não pude deixar de lembrar dessa piada após ver os primeiros 10min de Celular, que é baseado em um romance do escritor. Eis o que acontece: Clay Riddell (John Cusack) desembarca de um avião e vai para o saguão do aeroporto. O personagem, que é uma espécie de artista gráfico, está feliz por ter conseguido fechar um bom contrato com uma empresa de jogos. Clay liga para a ex-mulher para contar as novidades e para falar com o filho, mas o celular dele acaba a bateria e a ligação cai. Eis então que surge um forte zunido e …. TODO MUNDO QUE ESTÁ FALANDO NO CELULAR TRANSFORMA-SE EM ZUMBI!

Assim, sem mais nem menos. É meio que uma tradição de histórias de zumbi não revelar a origem do problema e, sinceramente, eu até acho isso legal, mas não deixa de ser bizarro e até mesmo engraçado a forma abrupta como as coisas acontecem por aqui. O figurante está lá, falando tranquilamente no celular, aí rola o barulho, ele começa a ter umas convulsões, coloca sangue pela boca e pelos olhos e já sai mordendo e matando outras pessoas. Esse começo, aliás, lembra as grandes obras do chamado terrir de diretores como o Sam Raimi, filmes de terror onde o exagero do gore acaba ganhando traços cômicos: tão logo fiquei chocado com a exibição de vísceras e ossos quebrados, comecei a dar risada da ferocidade animalesca dos zumbis e das caras de susto do Cusack.

Celular - Cena 2Na sequência, Clay une-se a outros sobreviventes, dentre eles Tom McCourt (Samuel L. Jackson) e foge do aeroporto. Os zumbis, que são bastante rápidos, perseguem o grupo e continuam fazendo vítimas. Clay convence Tom a ajudá-lo a procurar por seu filho e sua ex-mulher e então os personagens começam a peregrinar através dos destroços do que outrora fora uma cidade civilizada. O perigo constante obriga os personagens a esconderem-se em vários locais e fazerem alianças com outros sobreviventes, como a Órfã feiosa Alice (Isabelle Fuhrman).

Acredito que a intenção do King com esse Celular seja criticar o uso exacerbado que fazemos do aparelho nos dias de hoje. Para comprovar a força da analogia do escritor que compara os usuários a zumbis, basta sair na rua e observar as pessoas andando e/ou dirigindo completamente imersas nos conteúdos exibidos na tela de seus smartphones. Eu, que me considero bastante viciado em redes sociais e outros aplicativos, não deixei de fazer a auto crítica que a história estimula e estou tentando diminuir progressivamente o uso do aparelho e dar mais atenção para as pessoas e coisas ao meu redor. Não quero ser visto como um zumbi cultuador de uma antena de companhia telefônica rs

Celular - Cena 4O começo de Celular é estranho mas bom, a ideia de um apocalipse zumbi provocado por telefones é divertida e há umas duas cenas realmente legais aqui (estou pensando na queima de zumbis no estádio e no sujeito paranoico cheio de explosivos), mas no geral eu achei o filme bastante cansativo. O diretor Tod Williams gasta muito tempo com diálogos e divagações pouco interessantes (cala a boca, Samuel! rs) e não preocupa-se em explicar melhor aspectos importantes da história, como a relação do personagem fictício criado por Clay com os eventos do filme. Quando Celular termina, com AQUELA música tornando AQUELE final ainda mais bizarro, fiquei com a sensação de ter visto algo bastante diferente, mas não necessariamente algo bom.

Es una película extraña rs

Celular - Cena 3

Rua Cloverfield, 10 (2016)

Padrão

Rua Cloverfield 10Desconfio que ninguém sairá do cinema indiferente ao que é mostrado nesse Rua Cloverfield, 10. Na saída da sessão que compareci, por exemplo, ouvi muita gente reclamando do final. Eu, por outro lado, voltei para casa feliz por ter assistido um filme que não tem medo de chutar o pau da barraca em seu último ato. Minimamente, a história contada pelo diretor Dan Trachtenberg dá uma sacudida no espectador quando realiza uma inesperada troca de gêneros cinematográficos em sua conclusão e isso, somado a pontualidade do discurso de empoderamento feminino, são motivos mais do que suficientes para que eu aprove o que vi e indique o filme como uma das boas surpresas de 2016. Texto com SPOILERS.

No início, não há som nem diálogos, mas qualquer pessoa que já vivenciou um relacionamento é perfeitamente capaz de entender o que está acontecendo. Michelle (Mary Elizabeth Winstead) está terminando com o namorado. Mesmo relutante, a personagem empacota seus pertences, olha pela última vez para o apartamento onde eles viveram, entra no carro e pega a estrada. No rádio, notícias de um gigantesco blecaute que atingiu parte da cidade. O namorado liga, ela coloca o telefone no viva voz e ouvimos um homem arrependido implorando para que ela volte. Michelle chora, a ligação é encerrada e… POW! um veículo surge da escuridão, colide com o carro dela e arremessa-a para fora da estrada.

Esse começo é matador. A ideia da colisão repentina passa longe de ser algo novo, mas a ambientação majoritariamente silenciosa que o diretor cria antes do acidente gera um contraste assustador quando o som do impacto explode nos nossos ouvidos. Mesmo escolado nas técnicas de susto hollywoodianas, não pude evitar de contorcer-me na cadeira quando os carros bateram. Na sequência, a tela escurece, a adrenalina começa a diminuir e a gente vê-se completamente imerso na história, doidos para saber o que acontecerá.

Rua Cloverfield 10 - Cena 5Michelle acorda, ferida e acorrentada, dentro de um quarto pequeno. Novamente, cito os contrastes: alguém que estava dirigindo livre à noite, correndo para deixar para trás um relacionamento insatisfatório, de repente vê-se presa e limitada. Vemos então a personagem esforçar-se para conseguir alcançar seus objetos pessoais que estavam no outro canto do quarto e somos levados a acreditar que o filme contará uma dessas histórias de cativeiro, mas aí o diretor dá um jeito de jogar com a nossa imaginação. Howard (John Goodman), o dono daquele lugar, surge e explica para Michelle que o mundo tal qual ela conhecia não existe mais. Os EUA foram alvos de um ataque nuclear (ou alienígena, ele não sabe ao certo) e tudo que existia fora daquele abrigo fora destruído ou contaminado pela radiação.

Convenhamos, é muita informação para uma pessoa que acabou de acordar após um acidente processar. Michelle não acredita em Howard, ataca-o e tenta fugir do local, mas aí ela vê uma mulher morrer do lado de fora do abrigo vítima do que parece ser contaminação por radioatividade. Em seguida, a história contada por Howard ganha mais força ainda: Emmett (John Gallagher Jr.), o terceiro refugiado do abrigo que até então permanecera quieto em um quarto, surge e confirma tudo o que seu anfitrião falou sobre os ataques.

Rua Cloverfield 10 - CenaPronto, está armado o cenário de Rua Cloverfield, 10. Temos 3 personagens presos dentro de um bunker e uma dúvida: a história que foi contada por Howard (e confirmada por Emmett) é verdadeira ou não? Apesar de terem falado em um “gigantesco blecaute” no começo da trama e do espectador saber que o nome Cloverfield evoca o filme homônimo de 2008 (que é sobre uma invasão alienígena), nós, que acompanhamos a narrativa sob a perspectiva de Michelle, não conseguimos acreditar totalmente no que é dito por Howard. Nisso, o trabalho do diretor é fundamental para criar a “cortina de fumaça” que manterá todos confusos e apreensivos até o final. Ao mesmo tempo que Trachtenberg nos mostra um lado quase paternal do personagem, exaltando a preocupação dele com Michelle e Emmett e nos impressionando com todos os cuidados que ele tomou para construir aquele abrigo, o diretor também investe em cenas onde a instabilidade emocional toma conta de Howard e fazem-no parecer um homem louco e perigoso.

Rua Cloverfield 10 - Cena 3Dentre as várias cenas que trabalham a tensão entre os personagens no dia a dia do abrigo, uma é fundamental para entendermos a proposta do filme de resignificar o papel da mulher nesse tipo de produção. Em um determinado momento, Michelle diz para Emmett que, até então, ela sempre ficava paralisada diante de situações de conflito. Quando ouvi o diálogo, não dei muita importância para o que foi falado e até achei a cena meio chata, mas depois percebi que trata-se do início da mudança de um paradigma. Sai a mulher que precisa de um homem para salvá-la de situações de perigo, entra a mulher forte capaz de trilhar o próprio caminho. Tal qual Howard descreve-a no primeiro encontro entre os dois, Michelle é uma guerreira e, nas últimas cenas de Rua Cloverfield, 10, nós vemos o quão afiadas as garras dela podem ser.

Rua Cloverfield 10 - Cena 2Tal qual o Tony Stark no primeiro Homem de Ferro, Michelle constrói uma armadura (na verdade, uma roupa vermelha e amarela com uma máscara antigás rs) e consegue escapar do abrigo. A fuga acontece após uma cena gore em que Howard mata e derrete o corpo de Emmett no ácido para, posteriormente, também ser jogado no ácido pela personagem. Tivesse o filme terminado aí, teríamos uma ótima história de suspense, mas a coisa vai mais longe. De fato, Rua Cloverfield, 10 é ambientado no mesmo mundo de Cloverfield, ou seja, o planeta realmente foi atacado por alienígenas e Michelle terá que enfrentar alguns deles para sobreviver. Foi nesse momento que percebi que o público do cinema torceu o nariz. Num piscar de olhos, o que até então fora conduzido como um suspense transforma-se em uma ficção científica com monstros, naves espaciais e explosões. Numa dessas ideias tão legais quanto mirabolantes, a destemida Michelle consegue salvar-se usando um pouco de fita adesiva e uma garrafa de vinho (!!!) e, na simbólica encruzilhada do final, quando podia simplesmente continuar correndo do problema, ela decide ir atrás dos alienígenas para enfrentá-los.

Ainda que seja normal parte do público argumentar que o final “não tem nada a ver”, isso não é bem verdade. Ao longo de todo o filme, o diretor planta elementos suficientes para justificar a virada e, conforme dito, o próprio título da produção já indicava essa possibilidade. O que vi foi um longa criativo que trabalha a ideia de “monstro” dentro de dois contextos diferentes (Howard não era menos perigoso do que os aliens), acerta ao misturar gêneros e quebra com o mito da fragilidade feminina, ou seja, Rua Cloverfield, 1o é uma experiência cinematográfica completa, gratificante e inovadora.

Rua Cloverfield 10 - Cena 4