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Mulher Maravilha (2017)

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Após dividir opiniões com o tom sombrio adotado em O Homem de Aço e Batman vs Superman e ver o hiper colorido Esquadrão Suicida transformar-se em um dos maiores fiascos de 2016, o pessoal da DC certamente percebeu que não podia mais errar. Nisso, eles olharam para o lado, observaram o que a Marvel produziu nos últimos anos e decidiram tentar algo semelhante. Mulher Maravilha, filme da diretora Patty Jenkins concebido e produzido pelo onipresente Zack Snyder, traz todo o humor e ação que fizeram o Homem de Ferro e cia caírem nas graças do público. A aura mais “séria” da DC, no entanto, não foi completamente deixada de lado e continua presente graças à adição do atualíssimo tema do feminismo. O resultado dessa “mistura de fórmulas” é um filme legal, que diverte, faz pensar e que, acima de tudo, mostra o caminho que a DC pode e deve seguir daqui em diante.

Ninguém discorda que a participação da Mulher Maravilha (Gal Gadot) foi um dos pontos altos do Batman vs Superman, mas ao mesmo tempo ficou a sensação incômoda de que a personagem não rendeu tudo o que poderia render. A amazona foi fundamental para a vitória dos heróis sobre o Apocalypse, porém a falta de um longa anterior contando sua história transformou-a quase numa coadjuvante de luxo num universo em que ela é uma das principais protagonistas. Pensem aí: o que nos contaram da Diana antes de mostrarem-na saltando e golpeando ao som daquela música tribal legalzona? Que ela estava procurando uma foto? A real é que o Zack Snyder errou feio com a personagem (e, para quem acha que não é possível contar uma história bacana e apresentar muitos personagens ao mesmo tempo, basta ver o que a Marvel fez no Guerra Civil, que debutou simultaneamente gigantes como Homem Aranha e Pantera Negra).

Mulher Maravilha chega agora para contar a origem de Diana e explicar o contexto no qual aquela foto foi tirada. Ficou bom? Ficou bom demais, pena que não fizeram isso ANTES do Batman vs Superman. Se o filme da diretora Patty Jenkins preenche lacunas e responde questões anteriormente colocadas, ele pouco ou nada faz para preparar terreno para o próximo filme da DC, o aguardado Liga da Justiça (tanto que nem há cena pós-créditos). O acerto individual é inegável, mas, do ponto de vista cronológico, o Universo Estendido da DC continua estranho.

Feita esta ressalva, falemos dos muitos acertos de Mulher Maravilha. Tal qual O Homem de Aço, temos aqui um filme de origem, desses onde a história do/a personagem é explorada desde o início. Nisso, a diretora Patty Jenkins vale-se de sequências de animação e de cenas numa ilha paradisíaca para mostrar a infância de Diana, filha de Hippolyta (Connie Nielsen), uma amazona descendente do próprio Zeus que cresceu sem conhecer nenhum homem e foi treinada pela lendária guerreira Antiope (Robin Wright). Este começo, que é deveras rápido, revela-se fundamental para o funcionamento da trama: é aqui, nos diálogos entre a heroína e sua mãe, que a curiosidade, a determinação e a fé inabalável no amor da personagem ficam claros para o público. Vale destacar também a beleza onírica do cenário, que tanto faz a gente querer sair viajando por aí (as locações são italianas) quanto contrastam significativamente com os horrores da guerra que são mostrados em seguida.

O conflito começa quando, após uma briga com a mãe, Diana vê um avião cair próximo ao litoral da ilha. Naquela que talvez seja a cena mais bonita do filme (visualmente falando), a personagem salta de um penhasco e mergulha para resgatar o piloto Steve Trevor (Chris Pine) dos destroços. Tão logo salva a vida de Steve, Diana e as amazonas precisam lidar com um batalhão inteiro do exército alemão, que invade a ilha à procura do piloto. A primeira cena de ação de Mulher Maravilha é um espetáculo: mesmo que o uso excessivo do slow motion (estética visual que a diretora emula dos trabalhos do Snyder) acabe enjoando depois de um tempo, as lutas foram coreografadas para parecerem selvagens e brutais. Caem, junto com os corpos dos alemães (e o de uma importante personagem), os primeiros estereótipos: aqui, são as mulheres que salvam os homens e elas, ao contrário do que é levianamente dito, não tem nada de “sexo frágil”. Antiope bate igual uma campeã, caras.

O tema do feminismo é explorado em muitos pontos de Mulher Maravilha e a postura forte e independente de Diana certamente inspirará muitas mulheres a buscarem o próprio empoderamento. Como o debate é amplo, também não dá para desconsiderar a opinião de quem diz que, ao fazer da heroína uma mulher de corpo intangível e axilas depiladas, o filme foi superficial e até mesmo equivocado com as demandas atuais do feminismo. Independente da opinião que qualquer um possa ter sobre as questões abordadas, no entanto, não podemos abrir mão de pensar sobre elas, então deixo aqui a minha contribuição. Tão logo a batalha da praia encerra-se, Steve é interrogado pelas amazonas sobre o mundo exterior e a guerra. Quando tem oportunidade de ficar sozinha com o piloto, Diana interpela-o com uma série de perguntas que, em sua maioria, carregam algum tipo de conotação sexual. Achei particularmente interessante observar a reação do público do cinema nessa cena (e também naquela que acontece logo em seguida, num barco). Enquanto as mulheres riam o tempo todo, os homens ficavam visivelmente constrangidos. Por quê? Será que é porque o cinema costuma retratar somente o contrário (mulheres sexualizadas à serviço do humor)? Acredito que, mais do que revoltar-se quando Diana diz que “homens são necessários apenas para a reprodução”, vale a pena usar o desconforto causado por algumas cenas para repensarmos algumas atitudes e posturas.

Pelo tema da guerra, muitas pessoas apressaram-se em comparar Mulher Maravilha com o Capitão América. As semelhanças visuais são óbvias (apesar de estarmos falando de duas guerras diferentes), mas estruturalmente a trama lembra bem mais o primeiro Thor. Tão logo chega em Londres, Diana envolve-se em uma séries de situações cômicas tal qual o deus do trovão envolveu-se ao ser exilado na Terra por seu pai. Esse “meio” do filme é onde vemos com mais clareza a influência da Marvel sobre o trabalho da DC. O humor proveniente da inocência da Diana em cenas rápidas e leves como aquela da porta giratória é melhor do que tudo o que foi feito nesse sentido no Esquadrão Suicida (até hoje não acredito naquela ‘piada’ sobre apagar o histórico de busca) e é um indicativo de que a DC está no caminho certo.

Todo caso, trata-se de um filme de “super herói”, o que implica em cenas de ação grandiosas e confrontos contra vilões memoráveis. Antes de ficar cara a cara com seus antagonistas, Ludendorff (Danny Huston) e Dra. Maru (Elena Anaya), Diana (que, salvo engano, não é chamada em nenhum momento de Mulher Maravilha) enfrenta o perigo das trincheiras e luta contra um sniper nos escombros de uma cidade destruída. Fazendo uso de seu escudo, dos Braceletes Indestrutíveis, do Laço da Verdade e da Espada Matadora de Deuses, Diana toma a frente no campo de batalha e sobra sobre os soldados alemães. O que ela faz contra o sniper no campanário, aliás, é uma das maiores demonstrações de força bruta que se tem notícia em um filme de super herói.

É difícil imaginar ligações diretas entre Mulher Maravilha e o Liga da Justiça. Deveriam ter lançado este filme antes do Batman vs Superman e pronto. Como “consolação”, fica o fato de que, fora apontar um caminho, o trabalho da diretora Patty Jenkins começa, desenvolve-se e termina bem. A reviravolta do final, com o surgimento de um novo e inesperado vilão e a pancadaria brutal que segue-se é o exemplo que a DC ousa deixar para a Marvel: valorizem a luta final e façam o possível para tornarem-na épica e cheia de poderes, luzes e frases de efeito. Vencer uma guerra com amor? Gosto. Gal Gadot? Gosto também.

Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (2017)

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Ao que tudo indica, após 14 anos e 5 filmes, a série Piratas do Caribe finalmente encontrou seu ponto final com A Vingança de Salazar. Da minha parte, Jack Sparrow (Johnny Depp) e cia não deixarão muita saudade. Sei que Hollywood tem várias franquias que já estão fazendo hora extra, mas sempre visualizo piratas tomando rum num cenário tropical quando penso numa história que passou da hora de acabar (Navegando em Águas Estranhas, o último filme lançado em 2011, foi pura enrolação). Coube a dupla de diretores noruegueses Joachim Rønning e Espen Sandberg a tarefa de conduzir este último capítulo, tarefa que eles realizaram com dignidade devido a experiências anteriores com filmagens marítimas, mas fica claro o tempo todo da projeção que não há mais nada para ser dito por aqui.

Eis o roteiro: Quando novo, Jack enfrentou e venceu o Capitão Salazar (Javier Bardem) em uma batalha marítima. Salazar desejava exterminar todos os piratas do mar mas não foi capaz de superar seu jovem adversário, que valeu-se de uma manobra arrojada para destruir a embarcação do Capitão espanhol e dizimar toda sua tripulação. Anos mais tarde, Salazar retorna do mundo dos mortos disposto a vingar-se de Jack, cuja única chance de fazer frente a seu adversário sobrenatural é encontrar o Tridente de Poseidon, um artefato mítico que, segundo a lenda, garante o controle dos mares para quem o possuir.

Tal qual sempre faço antes do lançamento de um novo filme de uma franquia, peguei todos os Piratas do Caribe para rever. Faço isso para recordar a história e os eventos que fatalmente serão citados na nova produção. Recentemente, por exemplo, revisitei todos os 7 Star Wars antes de ver o Rogue One e os 8 Harry Potter antes de ir assistir o Animais Fantásticos e Onde Habitam. Com o Piratas, eu não consegui passar do O Baú da Morte, que é o segundo numa lista de 4. Por que isso aconteceu? Eu até posso alegar falta de tempo, visto que ando numa correria danada, mas a real é que me faltou saco para ficar sentando 2h15min na frente da TV (que é a média de duração dos filmes da série) assistindo sequências intermináveis de ação e humor pastelão. Um filme assim? Ok. 5? Não, obrigado.

E foi assim, sem muitas lembranças da história, que eu entrei no cinema para ver A Vingança de Salazar. Sinceramente? Não senti muita diferença. De tudo o que foi mostrado, só fiquei perdido quanto ao fato do navio Pérola Negra estar dentro de uma garrafa (e o Wikipédia me ajudou a lembrar que isso aconteceu após uma batalha com o Barba Negra), de resto consegui acompanhar numa boa. Algumas histórias paralelas, como o arco em que o novato Henry Turner (Brenton Thwaites) tenta quebrar a maldição de seu pai (Orlando Bloom) e as cenas envolvendo o agora ricaço Capitão Barbossa (Geoffrey Rush), até exigem algum conhecimento prévio da trama, mas nada que deixe o filme incompreensível para quem estiver tendo aqui o seu primeiro contato com os piratas. Essa “leveza” do roteiro pode até ser perfeita para o o chamado público ocasional, pessoas que vão ao cinema em busca de entretenimento rápido e simples, mas torna-se insustentável e insuficiente para quem acompanhou a série desde o início.

Jack Sparrow, que não mudou praticamente nada desde que deu as caras em 2003 no ótimo A Maldição da Pérola Negra, continua enchendo a cara de rum, paquerando as mulheres alheias e correndo daqui e dali realizando façanhas aparentemente impossíveis. A abertura de A Vingança de Salazar, aquela cena do roubo do cofre, condensa todos esses elementos e apresenta novos personagens para o público, Henry e Carina Smyth (Kaya Scodelario), dupla que reedita sem muita criatividade o que outrora foi feito por Will e Elizabeth Swann (Keira Knightley). Trata-se de um correria infernal repleta de efeitos especiais e de artifícios cômicos, mas tão logo a cena termina a gente já esquece de praticamente tudo o que aconteceu. Vi o filme domingo. Lembro que Jack e sua tripulação estavam tentando roubar um cofre, mas tenho dificuldades para falar sobre detalhes do ocorrido. Como ainda não fui diagnostico com Alzheimer, fico inclinado a pensar que a confusão visual típica da série (e dos blockbusters no geral), apesar de divertida, é bastante descartável.

As coisas melhoram um pouco nas gigantescas batalhas de navio. Antes de encontrar sua inevitável derrota, Salazar realiza um estrago considerável na frota inglesa e nas embarcações do Barbossa, cenas estas que ganham um tom sombrio graças à trilha sonora forte e à hábil condução dos diretores. Também vejo qualidade nas atuações do Geoffrey Rush e do Javier Bardem e, mesmo considerando que o Jack Sparrow acabou transformando-se numa paródia de si mesmo, continuo gostando do trabalho do Johnny Depp, mas, no geral, Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar é bastante repetitivo e frustrante. Torço para que aquele final piegas seja realmente o último ato da série e para que, por mais lucrativo que seja, a Disney não invente uma nova desculpa para trazer Jack e cia de volta.

A Bela e a Fera (2017)

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Apesar dos avisos do pastor Silas Malafaia, optei por correr o risco de “virar gay” e fui conferir esta nova versão do conto de fadas francês A Bela e a Fera. No vídeo que pode ser visto clicando no link acima, Malafaia acusa a Disney de “comprar a agenda gay” e de ensinar sexualidade para o público, especialmente para as crianças. Segundo o pastor, a decisão do estúdio de incluir no filme um personagem abertamente homossexual (LeFou, interpretado pelo Josh Gad) é uma tentativa “asquerosa e nojenta” de erotizar a molecada.

Malafaia gravou o tal vídeo no dia 02/03 e, segundo o IMDB, A Bela e a Fera (e o LeFou) só estreou no Brasil no dia 16/03, ou seja, é bem provável que ele emitiu aquela opinião ANTES de ver o filme. É claro que o pastor pode ter tido acesso ao material em uma pré-estreia exclusiva, mas o que me parece é que, ciente das informações que foram divulgadas sobre o personagem antes do lançamento, Malafaia adiantou-se e convidou seus seguidores a boicotarem o produto da Disney.

Faço essas considerações pois, por mais que eu preze pelo respeito às crenças alheias, não consegui encontrar em A Bela e a Fera o conteúdo preocupante apontado pelo Malafaia. É fato que o LeFou está mais purpurinado do que seu correspondente da animação de 1991, mas daí a dizer que o filme propõe-se a erotizar crianças e ensinar-lhes sexualidade é um absurdo, o tipo de erro grotesco que geralmente é cometido por quem fala de algo que não sabe (ou não viu). Tal qual fazia anteriormente, o personagem continua beijando o chão que o Gaston (Luke Evans) pisa e cantando sua canção que enaltece as “qualidades” do valentão. Os trejeitos dele não deixam dúvidas que, se pudesse, ele beberia daquela água, mas é só. Sem beijos, sem carícias, sem nada que os pais de uma família tradicional precisem tampar os olhos dos filhos por medo deles saírem do cinema arrotando arco-íris. É, portanto, no mínimo quixotesca a preocupação do pastor com o LeFou. O fato de haver revolta contra a homossexualidade do personagem e silêncio contra o machismo e a truculência de Gaston, que continua querendo obrigar Bela (Emma Watson) a casar-se com ele para massagear-lhe os pés, diz muito a respeito das prioridades e do caráter do Malafaia.

Eu, que continuo gostando de mulheres a despeito dos esforços do simpático LeFou, também sigo apreciando musicais e acredito que dificilmente veremos algo tão bom do gênero nos cinemas esse ano quanto esse A Bela e a Fera. Conta-se que, inicialmente, a intenção da Disney era refilmar a história como um longa metragem comum, sem as músicas, ao que o diretor Bill Condon (dos dançantes Dreamgirls e Chicago) respondeu “Vocês são loucos? Pretendem fazer uma adaptação enorme e bonitona e deixar ‘Be Our Guest’ de lado?”. Que bom que deram ouvidos ao diretor: a tecnologia atual e a grandiosidade dos figurinos e dos cenários, por si só, já tornariam esta versão válida e interessante, mas é na parte musical que a história continua tocando nossos corações.

Nesse conto tão velho quanto o próprio tempo (na verdade, ele foi escrito em 1740 pela francesa Gabrielle-Suzanne Babot), Bela é uma garota entediada pela vida provinciana que a cerca. Num mundo organizado para que as maiores ambições de uma mulher sejam encontrar um marido e cuidar da casa, Bela é uma inventora apaixonada por livros que espanta todos tanto por seu jeito independente quanto por resistir aos avanços do bonitão Gaston, o solteirão mais cobiçado do vilarejo. Certo dia, Maurice (Kevin Kline), o pai de Bela, é capturado por uma fera monstruosa (Dan Stevens) e preso nas masmorras de um castelo. O crime dele? Colher uma rosa do jardim da propriedade para levar para a filha. Procurando reparar a injustiça, Bela oferece para trocar de lugar na prisão com o pai, proposta que é aceita pela Fera com a condição de que a moça nunca mais abandone o local.

Quem viu a animação sabe que a Bela e a Fera irão se apaixonar (ele pelo caráter dela, ela pela intelectualidade e coragem dele) e que isso quebrará o feitiço que havia transformado o príncipe egoísta numa criatura monstruosa. Gaston, obviamente, não ficará nada feliz em ser preterido por uma bola de pelos gigante e incitará a população do vilarejo a atacar o castelo, o que provocará uma batalha épica e divertida onde relógios (Ian McKellen), candelabros (Ewan McGregor) e bules de chá (Emma Thompson) colocarão todo mundo para correr. Condon respeitou a estrutura principal da história, mas retirou os excessos (a invenção maluca de Maurice, o velho calhorda do hospício), adicionou subtramas (a mãe e a infância de Bela) e 3 novas canções (How Does a Moment Last Forever, Days in the Sun e Evermore). Essas alterações, longe de comprometerem passagens e memórias caras aos fãs, tornaram a história mais coesa, principalmente no tocante à luz que é jogada no passado trágico da protagonista.

Ainda que conserve elementos de magia e diversão comumente associados à infância, de modo geral este A Bela e Fera está um pouco mais adulto e sombrio do que seu antecessor, tanto pela forma mais incisiva de abordar temas como o machismo (Emma Watson não economizou desprezo no olhar ao encarar o tosco Gaston) quanto pelo visual: se o Fera da animação era uma espécie de cachorrão que dava vontade de fazer um cafuné, esta nova versão, com chifres de bode e tudo mais, parece o próprio filho do cramunhão. Todo caso, cumpriu-se bem a tarefa de atualizar a história atemporal do poder da beleza interior para esta geração: as reencenações da psicodélica Be Our Guest e da apaixonante Beauty and the Beast utilizaram o que há de melhor em computação gráfica para criar um espetáculo soberbo em 3D e, no fim, o prepotente e arrogante Gaston voltou a receber o que ele merece, tal qual deve ser. Acreditem, não há o que boicotar aqui: a Disney acertou em transformar um de seus maiores clássicos em um magnífico live action e continua de parabéns por, mais do que desenvolver produtos para entreter crianças, preocupar-se em levar exemplos de diversidade e respeito às diferenças para as telas de cinema. Quero mais Mickey e menos Malafaia.

Kong: A Ilha da Caveira (2017)

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Por mais que eu goste do macaco brincalhão e quebrador de mandíbulas do Peter Jackson, não dá para negar que aquele King Kong de 2005 é duro de assistir. Ontem, para resgatar a história e fazer as devidas comparações com esse lançamento, coloquei o filme para rodar e lembrei do quão equivocada, por exemplo, foi a escalação do Jack Black no papel daquele cineasta inescrupuloso. Ver o ator, que tem uma carreira sólida em filmes de humor, esforçando-se para soar sério ao dizer “Não foram os aviões, foi a bela que matou a fera” é deprimente. Contribuem ainda para o desastre o início arrastado (Kong, o protagonista, demora mais de uma hora para aparecer em seu próprio filme), os efeitos especiais capengas (o macaco é perfeito, mas aquela correria entre as pernas dos dinossauros, por exemplo, é intragável) e o final acelerado e bobão. O que foi feito daquela mocinha chorosa após a queda do Kong? Nunca saberemos.

Kong escorregando no gelo e sacudindo a neve dos pelos tem lá o seu charme, mas a real é que, quando trata-se de um macaco gigante, a gente quer ver mesmo é o estrago que ele consegue provocar. Cientes disso, os produtores decidiram reencenar a história original do personagem mostrando-o não como um macaco que ri de truques bobos com pedrinhas, mas sim como um ser ancestral gigantesco e poderoso que habita a Ilha da Caveira, território inexplorado e extremamente hostil do Pacífico Sul. Eu gostei demais.

Ambientado na década de 70, o filme do diretor Jordan Vogt-Roberts começa com o pesquisador Bill Randa (John Goodman) tentando convencer um senador americano a investir em uma arriscada missão de mapeamento de uma ilha recém descoberta no extremo oriente. O político não fica lá muito empolgado com a ideia, mas a possibilidade de realizar tal feito antes dos russos (lembrem-se da Guerra Fria) e a disponibilidade de soldados americanos na região (os EUA estavam retirando seus homens da Guerra do Vietnã) pesam a favor de Randa e a missão é autorizada. Junto com o pesquisador, partem para a chamada Ilha da Caveira uma fotógrafa (Brie Larson), um guia (Tom Hiddleston) e um grupo de soldados comandados pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson).

Tão logo chegam no local (após um dos voos de helicóptero mais irresponsáveis de todos os tempos rs), a equipe de Randa começa a disparar bombas no solo com a intenção de provocar abalos sísmicos e gerar as leituras necessárias para a pesquisa. No ar, paira uma desconfiança sobre os verdadeiros objetivos da missão. No ar, propaga-se o som da hoje clássica Paranoid do Black Sabbath, que algum soldado de bom gosto coloca para rodar numa caixa de som. No ar, avista-se uma árvore que foi arremessada violentamente de um ponto desconhecido contra um dos helicópteros. Segue-se um verdadeiro massacre das forças do Coronel Packard que, conforme bem observado por um dos poucos sobreviventes, não tinham precedente tático para enfrentar o ataque enfurecido de um macaco gigante.

Kong: A Ilha da Caveira não te faz esperar mais de uma hora para ver a sombra do macaco agarrar uma mocinha e correr com ela para dentro da selva. Ambientação feita e personagens apresentados, o diretor faz questão de deixar claro logo no início que estamos vendo um filme de monstro gigante (e não uma bizarra e trágica história de amor) e nos dá uma cena de ação violenta e empolgante, tal qual deve ser. Cerca de 4 vezes maior do que seu antecessor (31 metros contra 7 metros do Peter Jackson), Kong, que felizmente continua sem pinto e sem cu (deve ser embutido), dizima sem dificuldades os invasores da ilha, local onde ele reina, protege e é venerado pelos nativos como um deus. Coronel Packard, que não havia ficado muito satisfeito com o fim da Guerra do Vietnã, decide então reunir o que sobrou dos seus homens e equipamentos e enfrentar o monstro.

O que vemos aqui, porém, não é apenas um duelo entre homem e besta. Packard acaba recebendo sua oportunidade de ficar frente a frente com Kong, olhar no fundo dos olhos da criatura e utilizar todo o seu pesado arsenal contra ela, mas este é apenas um dos arcos da história, e não é o melhor deles. Repetindo, Kong é um filme de monstro gigante, o que quer dizer que o pacote não estaria completo sem uma boa dose de exageros. Há todo o tipo de aberrações na Ilha da Caveira, desde bisões e aranhas colossais até polvos demoníacos e, claro, os temíveis Escaladores de Esqueleto, figuras grotescas que escondem-se nas profundezas da terra aguardando o momento certo de destronar o macacão de seu posto de macho alfa do lugar. Eventualmente, os personagens humanos também envolvem-se em conflitos com essas monstruosidades (e utilizam espadas japonesas para cortá-las em slow motion no melhor estilo HELL YEAH!), mas são os confrontos devastadores e teatrais entre Kong e essas criaturas que rendem as melhores cenas do filme. O pega pra capar entre o macaco e o Escalador de Esqueleto do final é o tipo de cena que faz a gente pensar “poxa, que legal eu estar aqui, sentado, vendo esta bagaça”.

Quando não está quebrando e explodindo coisas, o diretor fala de forma simples mas correta de ecossistemas (os predadores mauzões também tem o seu papel e importância no equilíbrio das coisas) e nos faz rir. John C. Reilly, que interpreta um piloto que caiu na ilha e lá permaneceu desde a 2° Guerra Mundial, traz o melhor do humor involuntário e há uma piada sobre uma carta que um dos soldados escreveu para seu filho (o querido Billy) que é repetida várias vezes e vai tornando-se mais e mais engraçada a cada repetição. O esmero do roteiro também pode ser percebido nas citações a outros filmes e obras. Marlow e Conrad, nomes dos personagens do Reilly e do Hiddleston, certamente são referências ao escritor Joseph Conrad e seu livro O Coração das Trevas, obra que também inspirou o Apocalipse Now. A belíssima fotografia de A Ilha da Caveira, aliás, em muitos momentos lembra o trabalho monumental do Coppola naquele que ainda é um dos melhores filmes de guerra já feitos (olhem os helicópteros, o sol e o tom laranja na imagem abaixo).

Kong: A Ilha da Caveira é a segunda etapa de um projeto que, em 2020, fará o mundo tremer ao colocar King Kong e Godzilla para trocar uns sopapos no cinema. Antes disso, porém, o Rei dos Monstros japonês ainda retornará mais uma vez às telas para aumentar nossas expectativas com o embate e, conforme pode ser visto na cena pós-crédito, para trazer alguns velhos e famosos inimigos. Quebra tudo, bicharada!

Assassin’s Creed (2016)

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assassins-creedDescobri que, fora o branco dos olhos, eu tenho algo em comum com o ator Michael Fassbender: assim como ele, eu nunca joguei um game da franquia Assassin’s Creed. Isso, no entanto, não impediu-o de protagonizar a primeira versão cinematográfica do jogo e nem me deixou indiferente ao lançamento. Já passei muitas horas na frente da TV apertando x, quadrado, bolinha e triângulo e entendo perfeitamente o frisson causado pelo anuncio de adaptações de sucessos do videogame para o cinema.

Assim sendo, pausei (sem apertar Start) minha cobertura do Oscar e reservei um dia para assistir o filme. Motivos para desconfiar da qualidade de Assassin’s Creed não faltaram (alguns sites classificaram-no como ‘decepcionante’ e aquele trailer com uma música de hip hop foi um equívoco só), mas ainda sim eu honrei minha trajetória nerd e comprei o ingresso. Não me arrependi. O que vi não é tão empolgante quanto outras adaptações de jogos recentes (sinceramente, não acredito que o filme tenha forças para gerar a continuação que o final promete), mas as cenas de ação acabam compensando o roteiro capenga e, todo caso, sempre haverá a interminável série Resident Evil para ser o fundo do poço do gênero.

Entre os séculos XV e XIX, o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, também conhecido como Inquisição Espanhola, perseguiu e matou judeus e muçulmanos que recusavam-se a converter-se à religião católica. É neste contexto que Aguilar (Fassbender) ingressa numa sociedade secreta de assassinos árabes para fazer frente aos templários, os quais estão varrendo o território espanhol em busca de um item precioso, a Maçã do Éden. Segundo a tradição, o artefato contem um segredo capaz de mudar o destino de toda a humanidade, e Aguilar e seus companheiros devem impedir que ele vá parar nas mãos da igreja.

assassins-creed-cena-4Católicos colocando fogo nos hereges, assassinos esfaqueando católicos, artefatos milenares… O cenário de Assassin’s Creed é bastante rico e convidativo, mas ao que parece os produtores não acreditaram que essa treta religiosa seria o suficiente para segurar o roteiro. Paralelamente à Inquisição, o diretor Justin Kurzel narra uma trama atual em que o detento Cal Lynch é salvo da morte por Sofia (Marion Cottilard), cientista que trabalha para uma organização misteriosa. Sofia é a mente por trás do projeto Animus, uma máquina que coloca Cal Lynch em contato com seu antepassado, o assassino Aguilar sobre o qual você leu ali no parágrafo anterior.

Vou tentar resumir. Cal Lynch é (foi) Aguilar, assassino do credo árabe. A organização de Sofia está ligada aos templários. Os conflitos entre os dois grupos repetem-se no presente, com Sofia manipulando Cal para que ele resgate as memórias de seu antepassado e descubra o paradeiro da Maçã do Éden. Entenderam? Não? Credo, uai! O modus operandi de Assassin’s Creed consiste numa série de flashbacks em que Cal usa o Animus para conectar-se à Aguilar e voltar para a Inquisição Espanhola em busca de informações. Suas habilidades vão aumentado à medida que o filme vai passando e, progressivamente, ele vai tomando partido no conflito entre muçulmanos e católicos. No meio de tudo, rola umas explicações meio O Código da Vinci, mas nada digno de nota.

assassins-creed-cenaHá uma discrepância gritante entre as cenas do passado e as do presente. Aguilar corre, pula, esfaqueia e despenca de lugares altíssimos no melhor estilo “X + -> + quadrado + bolinha”, tudo muito legal, mas aí na sequência seguinte você precisa ver o Fassbender lutando contra um roteiro ruim para tentar dar alguma profundidade a Cal, um personagem clichê que não aceita o seu destino. Aguilar foge da fogueira da inquisição e enfrenta uma série de inimigos em lutas muitíssimo bem coreografadas. Cal chora a morte da mãe e fica de birra com o pai. Aguilar pode até ser uma máquina de matar sem praticamente nenhum background, mas a gente acaba gostando muito mais dele do Cal. Adivinhem? As cenas de Cal duram muito mais que as do Aguilar.

Como não joguei Assassin’s Creed, não sei até que ponto essa dinâmica funciona (ou até mesmo existe) nos jogos, mas, enquanto filme, a alternância entre cenários de ação (passado) e drama (presente) é a grande vilã da história. A cena final até tenta unir os dois arcos (e não por acaso ela é melhor do que todo o lenga lenga sobre o lado violento do caráter humano), mas cá com os meus botões eu fico pensando no quanto o longa poderia ter sido melhor caso a trama inteira fosse ambientada na Inquisição, com o Aguilar tendo motivações mais claras e o conflito moral do presente sobre o livre arbítrio sendo adaptado para o século XV.

assassins-creed-cena-3Assassin’s Creed poderia ser melhor, mas certamente não é decepcionante. Acredito que o fato de eu não ter ligações emocionais com o jogo pode até ter ajudado na avaliação positiva, porém a qualidade das cenas de ação me impressionou de verdade. Caso vocês assistam, procurem reparar nos detalhes dos trajes dos personagens, na movimentação dos atores (que visivelmente abriram mão de dublês na maioria das cenas) e nas sequências criativas de pancadaria. É ou não é um material de primeira, desses que ficam bem legais na tela grande? Por cenas como aquele “salto da fé” (que foi filmado na marra), vale a pena deixar um pouco a história de lado.

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Kubo e as Cordas Mágicas (2016)

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kubo-e-as-cordas-magicasDepois de um ano letivo de muito trabalho e aprendizado, finalmente estou de férias do meu cargo de professor de História na rede estadual. Sei que a saudade da sala de aula não tardará (como minha sogra diz bem, ensinar é uma ‘cachaça’ viciante rs), mas por ora sinto-me feliz por poder descansar a cabeça e o corpo fazendo outras coisas que gosto, como assistir filmes e escrever.

Para comemorar o início dessa pausa, abri uma cerveja escura e escolhi esse Kubo e as Cordas Mágicas para ver, concorrente ao Globo de Ouro de Melhor Animação que prometia uma sessão leve e descompromissada, exatamente o tipo de material que eu precisava para me afastar da correria que foram os 200 dias letivos de 2016. De fato, encontrei um filme bastante dinâmico e divertido, propriedades quase indissociáveis das animações, mas também encontrei uma história tocante sobre a beleza da essência falha da condição humana, tema que não é lá muito leve mas que é sempre bom apreciar para continuarmos mantendo nossos pés no chão.

Num mar bravio castigado por uma tempestade incessante, uma mulher (voz da Charlize Theron) luta em um barco para sobreviver. Num movimento que faria o próprio Moisés morrer de inveja, ela escapa de uma onda gigantesca abrindo-a ao meio com o poder de um instrumento musical mágico, mas logo em seguida a embarcação é engolida pelas águas.

kubo-e-as-cordas-magicas-cena-3Antes de ver o filme, eu havia checado as informações sobre ele e sabia que tratava-se de uma produção da Laika Entertainment, mesma companhia responsável pelos góticos Coraline, ParaNorman e Os Boxtrolls, ou seja, certamente haveria uma ou duas bizarrices na trama, mas nem de longe eu imaginei que o pau da barraca seria chutado logo de cara. Tão logo cai na água, a mulher é arrastada até o fundo do oceano e POW! bate com o rosto em uma pedra, perdendo o olho esmagado em meio a uma bolha de sangue. Na sequência, levada pelas ondas até a praia, a personagem abre um pacote que ela trazia preso nas costas e POW! lá está um BEBÊ CAOLHO chorando.

Se você, pai matador de bichos-papões, decidir retirar seu filho da sala após esse início violento, saiba que tu perderá uma boa oportunidade de colocar seu pimpolho em contato com uma história que mostra a importância dos laços familiares e de aceitarmos as pessoas tal qual elas são. O bebê caolho cresce e torna-se Kubo (voz do Art Parkinson), um rapazinho que divide o tempo entre cuidar da mãe atônita e contar uma história com origamis mágicos num vilarejo próximo para ganhar alguns trocados. Hanzo (voz do Matthew McConaughey), o pai que Kubo não conheceu, é o personagem principal dessas histórias, um herói lendário que desafiou o Rei Lua (voz do Ralph Fiennes) em uma batalha épica.

kubo-e-as-cordas-magicas-cena-2O conflito começa quando Kubo, desejoso de conhecer mais detalhes sobre o pai, decide tentar conversar com o espírito do mesmo usando uma lamparina mágica (notaram que tudo é mágico nesse filme? rs). Para tanto, ele precisa desobedecer uma ordem direta de sua mãe, que proibiu-o de ficar fora de casa durante a noite. Merda feita, o menino passa então a ser perseguido pelo Rei Lua e suas filhas (voz da Rooney Mara), e a única forma de ele vencê-los é reunir as três peças (espada, peitoral e capacete) de uma armadura MÁGICA, tarefa na qual ele será auxiliado por uma macaca mal humorada e por um samurai besouro.

Confuso? Só quando transformado em texto. Kubo e as Cordas Mágicas é bem tranquilo de ser assistido e, mesmo com todas as suas bizarrices e particularidades (onde mais tu encontrará um protagonista caolho que manipula origamis com um banjo mágico?), ele é alicerçado na clássica narrativa do herói, com Kubo partindo em sua jornada para conseguir a armadura e os poderes necessários para vencer o Rei Lua; as aventuras que ele vive no processo e, por fim, o retorno para casa no qual ele encontra seu grande inimigo. A trama até contem uma reviravolta no final, na qual a identidade de alguns personagens é revelada (acredite, vocês sacarão essa ‘revelação’ logo de cara), mas no geral o que vê-se aqui é um filme de ação e aventura padrão com um visual soberbo.

kubo-e-as-cordas-magicas-cenaO que torna Kubo bastante legal (talvez não para vencer as produções da Disney –Moana e Zootopia– no Globo de Ouro, mas ainda assim legal) são os detalhes, como o tom de terror/gótico imprimido pelo diretor Travis Knight em várias cenas (todas as aparições das filhas do Rei da Lua, bem como o combate deste último com Kubo, são assustadoras), os personagens esquisitões (a caveira gigante com espadas cravadas na cabeça entraria facilmente em qualquer versão do game Castlevania) e, como já dito, a história familiar bonitinha que corre paralelo à aventura principal. É realmente tocante ver o quanto aquele menino caolho deseja reunir sua família e os esforços que ele faz para tanto. Kubo ainda celebra as diferenças com um discurso poderoso no final sobre tolerância e amor (nossa beleza está nas nossas imperfeições e memórias), momento onde a emoção aflora em uma cena lindíssima repleta de MAGIA (não podia faltar) e belas lamparinas (lembrei de uma cena semelhante dessa animação aqui). Fechando o pacote, uma versão bonitinha da clássica While My Guitar Gently Weeps dos Beatles cantada pela Regina Spektor e um vídeo mostrando o trabalho espetacular dos artistas para criar a técnica stop motion. Kubo é esquisito, assustador e divertido. Mostre ele para seus filhos! Feliz Natal!

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Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016)

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animais-fantasticos-e-onde-vivem Nos 2 meses que antecederam a estreia de Animais Fantásticos e Onde Habitam, revi todos os 8 filmes da série Harry Potter. Não me considero um fã hardcore da franquia (nunca li nada escrito pela J. K. Rowling), mas eu queria relembrar a trama visto que, conforme anunciaram, este lançamento seria ambientado no mesmo universo de bruxos e magia em que Harry e Voldemort duelaram.

Completada a maratona (o As Relíquias da Morte – Parte 1 continua sendo um dos meus soníferos favoritos), acessei o site do cinema para comprar ingressos para a pré-estreia, que ocorreria numa sessão durante a madrugada. Foi aí que as coisas começaram a dar errado. Tal qual um velho gaga, eu confundi a data da sessão e, por muito pouco, não gastei dinheiro à toa e perdi a viagem até o shopping. Fiquei meio chateado com isso. Antigamente, eu não costumava fazer esse tipo de confusão.

Todo caso, escolhi uma data posterior, comprei os ingressos e, chegado o dia, saí de casa 1h30min antes do horário marcado para o início da sessão. Foi aí que começou a chover. Detalhe: eu estava de moto. No prazo de uns 3 minutos, eu e minha esposa ficamos completamente encharcados e, para não piorar a situação, entramos no estacionamento de um supermercado com a esperança de que a chuva parasse. Cerca de uma hora depois, ainda molhados e morrendo de frio, decidimos voltar para casa. Fim da história? Não para um homem determinado! Observando que a chuva estava parando, resolvi deixar toda a minha dignidade de lado e ir ao cinema daquele jeito mesmo, todo zoado. Para não perder os ingressos, atravessei a cidade acelerado e entrei na sala do cinema, minutos antes dos trailers começarem, com o tênis fazendo *plec plec* e a roupa pingando água. Foi uma experiência horrorosa e eu teria ficado muito puto se, depois de todo esses infortúnios, o filme fosse ruim. Felizmente, porém, não foi o caso: Animais Fantásticos e Onde Habitam é um ótimo início de franquia (já anunciaram mais 4 sequências rs) e sua dinâmica, que mistura piadas, cenas de ação grandiosas e referências aos longas anteriores, foi boa o suficiente para me fez esquecer que eu estava molhado dentro de uma sala de cinema com ar condicionado rs

animais-fantasticos-e-onde-vivem-cena-3Ambientada nos Estados Unidos do início do século passado, a história conta como o bruxo inglês Newt Scamander (Eddie Redmayne) chegou em Nova York levando uma mala mágica repleta de criaturas extraordinárias. Devido a uma confusão envolvendo o simpático padeiro Kowalski (Dan Fogler), algumas dessas criaturas escapam e Newt precisa recuperá-las antes que elas denunciem para os trouxas (ou No-Maj) a existência da comunidade de bruxos norte americana.

Em sua aventura, Newt recebe ajuda de Tina (Katherine Waterston), uma Auror do Congresso Mágico dos EUA, e acaba envolvendo-se em uma trama muito mais séria e sombria do que a fuga dos animais que ele trazia em sua mala: Gellert Grindelwald, um terrível feiticeiro negro, pode ter refugiado-se em território americano após espalhar o pânico no continente europeu.

animais-fantasticos-e-onde-vivem-cena-4Em Animais Fantásticos e Onde Habitam, o diretor David Yates (que também dirigiu os últimos 4 filmes da saga Harry Potter) cumpre muitíssimo bem a delicada tarefa de resgatar o interesse do público por uma das franquias mais amadas da história recente do cinema (vale lembrar que já passaram-se 5 anos desde As Relíquias da Morte – Parte 2), e o faz principalmente através da manipulação de alguns elementos que já haviam sido testados e aprovados anteriormente. Fora o fato de, essencialmente, Newt, Tina e Kowalski serem reedições mais maduras de Harry, Hermione e Rony, não passam despercebidas as semelhanças entre Graves (Colin Farrell) e o Professor Snape (dois personagens poderosos envoltos em algum tipo de mistério), bem como o mecanismo do roteiro que, tal qual o da Pedra Filosofal, prepara o terreno para a chegada de um terrível inimigo nos longas posteriores. Essas paridades, que vem acompanhadas de citações à personagens conhecidos (Dumbledore e Bellatrix Lestrange) e do uso de seres e encantamentos próprios da série, imprimem à trama uma necessária e aconchegante sensação de familiaridade.

FANTASTIC BEASTS AND WHERE TO FIND THEMPara si, estava nova incursão no universo criado pela escritora J. K. Rowling pode reivindicar uma mistura de gêneros mais coesa do que havia sido feita na série anterior. Animais Fantásticos e Onde Habitam equilibra satisfatoriamente cenas de ação, aventura, comédia, romance e drama, oferecendo uma gama variada de sentimentos ao longo de suas pouco mais de 2 horas. Se a correria e as espetaculares batalhas de magia fazem valer à pena investir num ingresso mais caro para assistir em 3D, o romance entre Kowalski e Queenie (Alison Sudol, que é a cara do Redmayne no A Garota Dinamarquesa rs) e o tema do preconceito/tolerância trabalhado no núcleo da Família Barebone atendem as necessidades de quem procura um filme mais intimista. Se você, por outro lado, está se sentindo velho e/ou teve um péssimo dia correndo de moto sob um temporal, desafio-lhe a continuar mal-humorado após ver o simpático Niffler coletando todo e qualquer objeto brilhante que ele encontra pela frente. É de rir alto, igual criança feliz.

Tomando por base esse incrível debute, acredito que Animais Fantásticos e Onde Habitam tem tudo para ser lembrado como o início de mais uma franquia de sucesso, fornecendo para os fãs de fantasia toda a emoção que a adaptação do O Hobbit, por exemplo, prometeu e não cumpriu (por mais difícil que seja, é necessário reconhecer que A Batalha dos Cinco Exércitos foi um fiasco). A julgar pela revelação bombástica do final, a sequência, que está programada para 2018, será um filmão.

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