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T2 Trainspotting (2017)

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Quase 20 dias sem postar e só posso pensar em 2 culpados:

  • Final Fantasy Brave Exvius: Estou completamente viciado nesse jogo da Square Enix. Maldito seja o infeliz que teve a ideia de reunir, numa mesma história, personagens de todos os games da série Final Fantasy. Comecei de leve, fazendo apenas as missões diárias, e hoje, cerca de um ano depois que instalei o aplicativo, estou acordando durante a madrugada para jogar e vendo itens do mesmo aparecerem na minha fatura de cartão de crédito. Droga!
  • Final de bimestre: Nas últimas duas semanas, eu precisei dedicar grande parte do meu tempo livre para elaborar/corrigir provas, atualizar diários e ouvir as muitas e comoventes histórias dos meus alunos que, pelos mais incríveis e inacreditáveis motivos, não conseguiram apresentar os trabalhos solicitados a tempo.

O cansaço físico e mental é grande, mas as férias estão chegando e, aos poucos, eu vou conseguindo encontrar tempo para voltar a assistir filmes e atualizar o blog com regularidade.

O último título que consegui ver, aliás, foi esse T2 Trainspotting, continuação do diretor inglês Danny Boyle para o icônico trabalho que o apresentou para o mundo em 1996. Boyle imaginou como estariam Renton (Ewan McGregor), Simon (Jonny Lee Miller), Spud (Ewen Bremner) e Begbie (Robert Carlyle) 20 anos após os eventos do primeiro filme e realizou uma sequência que, mesmo sem provocar o mesmo impacto do original, certamente agrada aos fãs do clássico pela nostalgia e pela atualização do discurso irônico e afiado contra os vícios da modernidade.

Depois de roubar os amigos e fugir com o dinheiro que eles haviam ganhado numa venda de drogas, Renton escolheu viver. Ele escolheu um serviço, uma família e, muito provavelmente, ele comprou uma televisão grande pra caralho. A felicidade, no entanto, não veio. O emprego não deu certo, a família acabou e a TV de muitas polegadas continuou exibindo os mesmos e velhos programas chatos de auditório. Foi aí que Renton resolveu largar tudo (ou o pouco que havia sobrado) e retornar para a Escócia para encontrar seus velhos amigos.

T2 Trainspotting faz esse movimento legal de mostrar um personagem que conseguiu o que queria (uma vida responsável, séria e estável longe das drogas), não gostou (ou não aproveitou bem a oportunidade) e então decidiu recorrer ao passado que ele havia negado como forma de recomeçar. É como se Renton tivesse largado um relacionamento ruim, começado outro e então tivesse sentido falta da ex. E voltar com ex, meus amigos, é aquele negócio: no começo pode até ser bom, pela familiaridade e tal, mas logo logo os problemas reaparecem e você lembra do porque havia terminado.

Renton queria rever Spud, saber o que o cara havia feito com a  grana que ele havia lhe deixado, mas o encontro acontece da pior forma possível. Numa daquelas coincidências pontuais do cinema, o personagem abre a porta de um apartamento velho e sujo bem no momento em que o amigo estava tentando suicidar-se. Renton salva Spud da morte, mas, em troca, ouve uma cacetada: “Você arruinou minha vida! Você deu 4.000 libras para um viciado! O que você pensou que eu fosse fazer?”. Não era bem o que ele esperava.

Renton queria rever Simon, mas ele sabia que não seria um encontro fácil. Na última vez que estiveram juntos, Renton deixou o amigo dormindo e fugiu levando o dinheiro que eles deveriam dividir. O reencontro acontece num velho pub, local que Simon herdou do pai e que agora ele toca para ganhar uns trocados. Conversa vai, conversa vem, Simon bate com um taco de sinuca nas costelas de Renton e inicia uma briga que destrói boa parte da mobília do bar. “16 mil libras! Seu ladrão desgraçado!”. Expurgado o ressentimento, os dois personagens reatam a amizade e voltam a fazer planos juntos, mas Simon revela para sua namorada, Veronika (Anjela Nedyalkova), que ele ainda pretende vingar-se de amigo.

Renton certamente não queria rever Begbie. Um cara que não acha difícil bater com uma caneca de cerveja no rosto de um estranho pode até ser útil em determinadas situações, mas definitivamente não é alguém pra você ter como inimigo. Renton roubou Begbie e foi indiretamente responsável por sua prisão (o cara quebrou um quarto de hotel inteiro quando ficou sabendo que fora passado para trás), logo ele sabia que era bom evitar o sujeito. Tal tarefa não parecia muito difícil, visto que o cara estava preso, mas, noutra dessas coincidências pontuais do cinema, a chegada de Renton na cidade coincide com a fuga de Begbie da prisão (e a cena em que isso acontece não deve nada para as antigas loucuras do personagem) e aí o acerto de contas passa a ser apenas uma questão de tempo.

Renton é o protagonista de T2 Trainspotting e o foco aqui, tal qual foi no primeiro filme, são as relações intensas porém efêmeras do personagem com seus amigos e com o meio em que eles vivem. Danny Boyle revisita o discurso “Choose Life” para atacar os novos vícios da sociedade (redes sociais, pornô, reality shows) e vale-se de uma edição audaciosa (adorei aquele ‘elevador’ artificial no prédio do Spud) e de uma trilha sonora onipresente para dar leveza e humor a um tema que é bastante sério. Talvez os três grandes momentos do filme sejam a cantoria no clube dos patriotas, a reedição da cena do “atropelamento” do Renton e o confronto final entre os personagens e Begbie, mas o que eu mais gostei foram os arcos da história que envolvem o Spud.

Desde o primeiro Trainspotting, o Spud era aquele cara engraçadão, doido e gente boa que todo mundo gosta mas que ninguém leva muito a sério. Me assustou, portanto, ver o cara tentando cometer suicídio no início desse filme. Ao escrever para a mulher antes de enfiar a cabeça dentro de um saco e asfixiar-se, Spud diz: “Eu sei que você e nosso filho estão em um mundo melhor sem todo o meu caos”. Caralho, caras. A personalidade expansiva e o jeito brincalhão do cara, no fim, revelaram-se disfarces para um vazio existencial que ele não suportou carregar. Quando Renton encontra-o e impede que ele se mate, Spud inicia um processo difícil de tentar canalizar o vício em drogas para outras atividades. Ele tenta correr, lutar boxe… tudo sem sucesso. Finalmente, quando parecia não haver mais esperanças, Spud encontra na escrita algo que ele gosta de fazer. E Spud começa a escrever sobre seu passado insano ao lado de Renton, Simon e Begbie e, para sua própria surpresa, ele vê que é bom no que faz. E é assim, canalizando suas energias e impulsos para algo produtivo e prazeroso, que o legalzão Spud começa a reencontrar seu caminho. Eu, que também tenho meus problemas, tenho jogado bastante. Pretendo voltar a escrever com regularidade também.

Silêncio (2016)

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Tenho ido bastante ao cinema. Dos meus últimos 10 posts, 8 foram sobre filmes vistos no escurinho comendo pipoca e bebendo refrigerante. Isso é bom, mas tenho sentido falta de procurar títulos de diretores/atores/temas que me interessam, logo optei por ficar uma semana longe das salas de projeção e escolher algo para ver no conforto do sofá da minha casa.

Apesar de ser assinado pelo consagradíssimo Martin Scorsese, Silêncio não teve uma grande distribuição nas redes de cinemas nacionais. Aqui em Uberlândia-MG, por exemplo, ele nem entrou em cartaz. Não é difícil imaginar o porquê. Com quase 3 horas de duração (2h40min) e baseado em um livro que explora aspectos pouco ortodoxos do cristianismo (obra do japonês Shûsaku Endô), Silêncio não teria grandes chances nas bilheterias contra produções como Velozes e Furiosos 8. Pessoalmente, porém, acredito que não há o que lamentar: as questões levantadas pelo Scorsese neste longa despertam uma vontade enorme de comentar na hora, tão logo a cena acaba. Como gente educada não conversa dentro do cinema, assistir o filme em casa acaba sendo bem mais legal e produtivo.

*Pausa na resenha para um agradecimento (Caso você queira ler só sobre o filme, pule o próximo parágrafo)* Este texto ficou parado neste ponto por mais de uma semana. Estou num período complicado, organizando viagens, corrigindo provas e resolvendo algumas coisas em casa, mas a verdade é que eu cansei um pouco de escrever. Não é a primeira vez que isso acontece e certamente não será a última, porém dessa vez a vontade de deixar o blog de lado foi bastante tentadora. Já são quase 7 anos dedicados a essa página e 848 textos publicados, daí eu me peguei pensando no quão mais leve os meus dias seriam sem essa “obrigação” de resenhar todos os filmes que eu assisto. Geralmente, quando bate esse desânimo, é a minha esposa quem me faz lembrar o porque de eu ter começado isso aqui (ter um espaço só meu para falar de algo que eu amo), mas desta vez, por mais que ela tenha feito a parte dela, eu encontrei forças mesmo foi nas palavras carinhosas e inesperadas de um amigo. Eu conheço o Luiz (ou Sir Luiz, como ele é chamado por aqui) há uns 6 anos e sempre o admirei pelo bom coração e pela autenticidade (ele usa ‘saia’, faz slav squat e tem uma Suzuki Intruder legalzona), mas mesmo assim eu fiquei sem reação quando fui cumprimentá-lo na saída de um bar e vi ele falando para uma galera sobre o meu blog. Qualquer elogio sempre é bem vindo, mas o cara estava falando sobre o meu estilo de escrever, algo que dá a entender que ele realmente lê e gosta do que eu faço ao ponto de já ter identificado um padrão (salvo engano, ele estava comentando o começo deste texto aqui). Isso me deixou feliz demais. Muito obrigado, Sir! É muito bom saber que tem alguém aí do outro lado notando o que eu faço e, graças as suas palavras, cá estou eu com o ânimo renovado escrevendo novamente 🙂

Silêncio retrata parte da história do catolicismo romano no Japão e, caso você queira mais informações sobre o tema, há um artigo do Wikipédia bastante completo sobre o assunto. Resumidamente, o que aconteceu foi que, após obterem um relativo sucesso no século XVI, as missões catequizadoras, em sua maioria portuguesas, foram combatidas pelo governo japonês ao longo do século XVII, que considerava-as nocivas à estabilidade política e econômica do país. Assim sendo, as missões foram proibidas e os missionários foram obrigados a apostatar-se (desertar) da religião católica sob pena de morte.

Ferreira (Liam Neeson) foi um padre que viu-se na difícil situação de precisar abandonar sua fé para salvar a própria vida e dos kirishitan (japoneses convertidos ao cristianismo) que o seguiam. Tal acontecimento teve uma grande repercussão em sua terra natal, Portugal, visto que ele era uma figura bastante conhecida e respeitada dentro da igreja. Interessados em saber o que realmente aconteceu com o padre, os missionários Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) conseguem permissão para ir até o Japão investigar o caso e darem seguimento a missão catequizadora.

Apesar de possuírem objetivos comuns, porém, nota-se que os missionários tem formas bastante distintas de lidarem com a fé e de ensina-la para os japoneses. Garupe parece ser mais pragmático. Ele vê dificuldades onde há dificuldades e não aceita, mesmo em nome da conversão, que os kirishitans façam distorções e adaptações do texto bíblico para a realidade deles. Rodrigues, por outro lado, é um católico fervoroso cujo amor por Cristo lhe dá forças para lidar com qualquer tipo de situação sem perder a alegria. Seguro de sua fé e de seus propósitos, ele arrisca-se sem pestanejar através de territórios hostis para levar a palavra de Cristo até os japoneses.

Como dito, assisti Silêncio em casa e fui comentando o que eu via com a minha esposa ao longo da sessão. Espectador gosta de torcer por alguém, e nós nos afeiçoamos bastante com o o tal Rodrigues. A beleza da fé inabalável dele contrasta demais com o pessimismo e com a feiura do Adam Driver, daí nós ficamos do lado dele em praticamente todos os conflitos entre os missionários que surgem na primeira metade do filme. Foi aí que, como geralmente acontece em filmes conduzidos por grandes diretores, o roteiro apresentou uma reviravolta e nos fez ver um outro ângulo da história. Segundo o próprio Scorsese, Silêncio é sobre a “necessidade de acreditar conflitando com a voz da experiência”. Rodrigues “conversa” com Deus e vê sinais de manifestação divina em quase tudo (numa imagem na água, por exemplo), mas a gente vai notando aos poucos que há um pouco de egoísmo nessa comunhão dele. O personagem, que inicialmente preferira não acreditar que o padre Ferreira havia apostatado, passa a criticar o seu velho amigo pela abdicação da fé quando a verdade finalmente surge. Rodrigues não vê (ou não quer ver) que Ferreira fez o que fez (pisar em cima de uma imagem da Virgem como gesto simbólico de rejeição do cristianismo) para salvar outros cristãos. Rodrigues prefere ver pessoas morrendo (e as cenas onde isso acontece são bastante traumáticas) do que ceder. Nisso, deixei de ver a beleza do sacrifício, da fé e da coerência e passei a ver o ego, a vaidade e a prepotência.

Silêncio tem essas e outras questões espinhosas (os japoneses precisavam mesmo do catolicismo?) e, claro, a direção impecável do Scorsese. Como elogiar o trabalho do cara nessas alturas do campeonato é meio que chover no molhado, vou contentar-me em chamar a atenção de vocês para duas coisas que ele fez aqui que me agradaram muito. Uma é o tal silêncio que dá título ao filme. Notem toda a frustração de Rodrigues quando, em resposta a suas orações, um silêncio constrangedor preenche a tela. O outro ponto é a cena em que Rodrigues e Garupe conversam com alguns japoneses no meio de um matagal. A câmera está posicionada em cima dos atores, estática, mostrando-os quase que como insetos do ponto de vista de alguém superior e indiferente ao sofrimento deles. Esses artifícios falam mais da posição do diretor sobre o tema abordado do que qualquer diálogo poderia fazer e colocam Silêncio em pé de igualdade com outros clássicos do diretor como Os Bons Companheiros e Taxi Driver. Que bom que o Scorsese continua firme e forte nesse negócio de fazer a gente gostar de cinema.

A Cabana (2017)

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Texto com SPOILERS.

Minha mãe foi uma das grandes responsáveis por eu gostar de ler. Sou grato as professoras de literatura que tive na escola, pois sem elas provavelmente eu não conhecerias as obras fantásticas da Coleção Vagalume, mas o que me inspirava de verdade a abrir um livro e debruçar-me sobre uma boa história era ver que a minha mãe também gostava de fazer o mesmo. Sabrina, Bianca, romances do Sidney Sheldon e suspenses da Agatha Christie: a dona Silene lia de tudo e, terminada a leitura, me emprestava aqueles de que ela havia gostado mais. Essa relação mudou um pouco ao longo dos anos (hoje em dia é ela quem sempre pega algo da minha mini biblioteca quando vem me visitar), mas vez ou outra ela ainda aparece com algum livro “que é muito bom e que eu preciso ler”. Foi assim que eu conheci A Cabana.

Acho que, não fosse a indicação da minha mãe, dificilmente eu teria encarado a história sobre Deus e perdão do escritor canadense William P. Young. Não sou completamente averso a temáticas religiosas, mas tenho uma quantidade enorme de livros esperando para serem lidos e seria pouco provável que eu enfiasse “o best seller de autoajuda do momento” na frente de algo do Dostoiévski ou do Stephen King, por exemplo. Todo caso, aceitei a dica e iniciei a leitura com a cabeça aberta, procurando deixar que meus preconceitos não influenciassem na apreciação do material. Foi difícil. Lembro que, além de achar o texto mal escrito, cheio de clichês e lugares comuns, eu não consegui olhar com bons olhos as alegorias do escritor para a Santíssima Trindade. Na época, eu havia acabado de ler algumas coisas pesadas do Nietzsche (O Anticristo e Crepúsculo dos Ídolos) e o meu ceticismo estava lá em cima, logo a parte “religiosa” da história não me cativou. A temática do “perdão”, porém, eu achei bem legal, e foi por ela que eu fui ver esta adaptação do diretor Stuart Hazeldine.

Achei por bem iniciar o texto colocando o aviso de SPOILERS porque é difícil fazer uma sinopse decente de A Cabana sem revelar um ponto central do roteiro. Missy (Amélie Eve), a filha caçula de Mack (Sam Worthington) e Nan (Radha Mitchell), é sequestrada e assassinada dentro de uma cabana na floresta por um assassino em série. Como não poderia deixar de ser, o evento devasta a vida do casal, mas Mack, que estava responsável por Missy no dia do rapto, sente-se especialmente culpado pelo ocorrido. Ao contrário da mulher, que é uma pessoa espiritualizada que vive em comunhão com Deus, ele não consegue perdoar a si mesmo e seguir em frente, o que leva-o a uma existência triste e amargurada.

Certo dia, Mack recebe uma carta de Deus convidando-o a voltar até a cabana onde Missy foi assassinada para um bate papo. É aqui que a história exige que a gente dê o chamado leap of faith (salto de fé): ou você acredita que sim, é perfeitamente possível (mesmo que na ficção) que Deus envie uma carta para alguém, ou você passará o resto do filme torcendo o nariz para tudo o que será mostrado. A atitude desconfiada de Mack, que acredita estar sendo vítima de alguma brincadeira de mau gosto, até ajuda a gente a começar a digerir a ideia, mas no fim ele acaba indo mesmo até a tal cabana e tendo o encontro não só com Deus (Octavia Spencer), mas também com Jesus (Avraham Aviv Alush) e com o Espírito Santo (Sumire Matsubara).

Cenas como Mack comendo um rango preparado pelo próprio Deus (ou correndo sobre a água com Jesus) ainda me causam um certo estranhamento, mas entendo perfeitamente tudo o que o escritor William P. Young quis dizer sobre o poder do perdão. Essa história, que ele escreveu para os próprios filhos como um presente de natal e que acabou transformando-se num sucesso mundial, fala de um mundo injusto e imperfeito onde crianças são assassinadas a sangue frio, mas também fala que nós nunca estaremos sozinhos para enfrentar essas mazelas. Aceitar ou não a presença e o conforto de Deus nessas horas, como o filme sugere, é algo que depende de cada um (pessoalmente, eu tenho dificuldades com isso), mas entendo a força destrutiva que sentimentos como a culpa e a vingança podem ter em nossas vidas. Julgar e condenar outrem, como é falado no melhor diálogo do longa, é um processo sem fim e ineficaz para aliviar as dores que carregamos. Ou a gente perdoa e segue a vida levando um dia após o outro, deixando que nossas feridas sejam curadas aos poucos, ou a gente afunda no sofrimento por ter sido alvo de alguma injustiça.

Tal qual o livro, A Cabana oferece conforto e mostra que é possível seguir em frente após um grande trauma. Não há dúvidas que a apreciação do filme variará de acordo com a fé do espectador, mas mesmo quem decidir acreditar que Mack simplesmente caiu e bateu a cabeça na cabana, acordando “mudado” depois do acidente, reconhecerá que trata-se de uma bonita história de superação. O diretor Suart Hazeldine encheu o filme de paisagens oníricas (aquele jardim caótico onde Mack e o Espírito Santo conversam é maravilhoso) e, ao meu ver, só escorregou por colocar a tocante Keep Your Eyes on Me (a música que tocava no trailer) nos créditos e não no clímax, quando o reencontro de Mack e Missy obrigam a gente a secar os olhos. Eu tinha tudo para não gostar de A Cabana: o tema não é dos meus favoritos e, no dia da sessão, eu estava morrendo de sono. Felizmente, porém, eu tive alguém para me ensinar a importância de manter a mente aberta e a beleza do ato de perdoar. Achei o filme bem bonito. Obrigado, mãe (e me desculpe por ter falado com você daquele jeito).

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017)

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Antes de falar do filme, uma nota rápida sobre a minha última semana.

Após 2 meses de muitas dores, dúvidas e privações devido aquele maldito acidente de moto, finalmente consegui retornar para a minha rotina. Voltei a dar aulas de História na quarta (12/04)  e, na manhã da quinta feira (13/04), eu já estava no aeroporto realizando controle de tráfego aéreo. É bom pensar que aquele pesadelo agora faz parte do passado, mas nem a vontade de seguir em frente me fará esquecer daqueles 60 dias em que tive tempo de sobra para duvidar de mim mesmo. Dentre outras coisas, tive medo de voltar a dirigir, de não fazer falta para os meus colegas de trabalho e alunos, de não encontrar mais motivação para escrever e medo de encarar as pessoas e reconhecer que eu havia falhado.

Falhei mesmo. Por mais que o quebra molas que me derrubou esteja mal sinalizado (passei lá ontem: ele está sem pintura e a placa está oculta atrás de uma árvore), não posso negar que eu estava acima do limite de velocidade (100km/h numa via onde o máximo é 80). Daqui até o fim da minha vida, terei a lembrança da queda e uma cicatriz enorme no braço esquerdo para me recordarem do que fiz. Fui irresponsável e precisarei lidar com isso, mas o caminho rumo ao amadurecimento não precisa ser trilhado sozinho. Nesta última semana, além de ter sido muitíssimo bem acolhido nos meus locais de trabalho, ganhei um abraço carinhoso de um aluno (Valeu, Claudin!), recebi mensagens encorajadoras dos meus familiares e fui presenteado com o apoio da minha esposa, que propôs realizarmos uma viagem de moto até o estado de Goiás para que, nas palavras dela, “eu pudesse reconquistar a minha confiança ao dirigir”. Quando penso em tudo que passei, concluo que não há fardo suficientemente pesado para quem tem amigos e nem dúvida que resista a um gesto sincero de amor. Sinto-me feliz e motivado para recomeçar. Obrigado a todos que me ajudaram durante esse período difícil 🙂

Percorridos os 180km que separam Uberlândia-MG de Caldas Novas-GO, tive um final de semana bastante agradável em solo goiano. O forte de Caldas são as piscinas de água quente, a música sertaneja e a cerveja gelada, porém há uma grande variedade de opções de entretenimento na vida noturna da cidade para quem quiser algo mais sossegado, dentre elas o 7ªrte Cine Stadium. O local não é lá dos maiores (há apenas 2 salas) e a programação prioriza filmes dublados, mas as instalações são boas (cadeiras novas e limpas; sistema de som eficiente) e de fácil acesso. Mesmo contrariado por perder o áudio original e as sutilezas da voz da Scarlett Johansson, acabei vendo A Vigilante do Amanhã por lá mesmo, meio bêbado e grilado com o cara da bilheteria que não quis aceitar a minha carteirinha de estudante para pagar meia entrada.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell não foi bem nas bilheterias. Envolto numa polêmica de whitewashing (quando um ator branco é escalado no papel de um personagem que, originalmente, tinha outra raça/etnia), a produção deve acumular incríveis 100 milhões de dólares de prejuízo. Eu não fiquei empolgadão com o que vi, mas não achei o o filme tão ruim assim. O fato de terem optado pela Johansson em detrimento de uma atriz oriental certamente foi uma mancada e, como eu havia desconfiado quando resenhei o anime original, simplificaram bastante o roteiro, mas a condução pragmática e o trabalho visual do diretor Rupert Sanders são bastante eficientes.

Ambientando em um futuro próximo, A Vigilante do Amanhã mostra uma realidade em que os seres humanos podem realizar implantes cibernéticos para aprimorarem seus corpos. Após sofrer um acidente, Mira (Johansson) foi salva pela empresa Hanka Robotics, que extraiu seu cérebro e implantou-o num corpo de metal, transformando-a em um ciborgue. Algum tempo depois, Mira, que agora trabalha para o governo e é conhecida como Major, está no meio de uma operação secreta em que ela precisa monitorar uma conversação entre um executivo da Hanka e um político. A reunião é encerrada abruptamente quando ciborgues em formato de gueixa começam a atacar e hackear os cérebros dos participantes, o que obriga a Major a invadir o local e utilizar a força para controlar a situação. No fim, após dizimar a ameaça, ela ouve de uma das gueixas que “quem colaborar com a Hanka será destruído”.

Mira e seu parceiro Batou (Pilou Asbaek), que trabalham sob o comando do Chefe Aramaki (Takeshi Kitano), iniciam então uma investigação para descobrir o responsável pelo ataque das gueixas. Em linhas gerais, A Vigilante do Amanhã segue a mesma narrativa de O Fantasma do Futuro, com a Major esgueirando-se através dos becos sujos de Tóquio perseguindo um inimigo sem rosto. O remake difere-se do original mais nos detalhes e na profundidade em que o tema da individualidade é abordado. Seguem algumas diferenças:

  • Visual: A Major, infelizmente, está mais “comportada”. O corpo de ciborgue dela, que era praticamente idêntico ao de uma mulher normal, ficou com um visual “emborrachado” para suavizar as cenas de nudez. Já o Batou, que no original não tinha nada que acusasse sua natureza cibernética, ganhou olhos biônicos após ser ferido em uma explosão. A maior mudança, porém, foi no vilão: o Mestre dos Fantoches, hacker que transferia a própria consciência para a rede e que agia como um vírus, foi substituído por Kuze (Michael Pitt), um experimento defeituoso da Hanka Robotics. Pessoalmente, eu gostava mais da ideia quase abstrata do anime.
  • Cenas de ação e violência: O diretor Rupert Sanders recriou com maestria o clima noir e a estética cibernética de O Fantasma do Futuro, mas não podemos dizer que ele teve o mesmo êxito com a ação. Por mais que a clássica luta no “espelho d’água” tenha ficado idêntica, os momentos mais violentos do filme (como o assassinato do embaixador e o confronto com o tanque do final) perderam sangue, vísceras e impacto.
  • “Individualidade”: A Vigilante do Amanhã abre mão de praticamente todo o subtexto político do anime para concentrar-se na história de Mira. Ainda que a personagem tenha uma ou duas digressões sobre sua condição de ciborgue, o diretor optou mesmo foi por focar no passado dela. Essa decisão alterou significativamente o final da trama (pra pior, ao meu ver), mas deixou o roteiro mais enxuto e acessível.

A Vigilante do Amanhã é um filme mais simples e funcional do que O Fantasma do Futuro. Isso é bom em certos pontos (achei mais fácil acompanhar a história) e ruim em outros (sem a violência, a nudez e a ‘esquisitice’, perdeu-se a aura ‘cult’). Futuramente, num dia que eu não tiver nada melhor para fazer, pretende vê-lo novamente nem que seja para rir do visual estranho da Johansson, que ficou parecendo o Jesse Eisenberg com aquele cabelinho na cara rs

Cinquenta Tons Mais Escuros (2017)

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Sinto-me feliz. Após um mês de muitas dificuldades e privações, cá estou eu conseguindo digitar com as duas mãos novamente. Fui ao médico ontem pela manhã e, contrariando todo o meu pessimismo, ele disse que já era hora de retirar o  gesso e a tala que eu vinha usando desde o dia do meu acidente. Ainda é preciso calma, algumas sessões de fisioterapia e tempo para as feridas da palma da mão direita fecharem, mas a felicidade de poder voltar a escrever e realizar sozinho tarefas cotidianas (tomar banho, comer, etc) é algo indescritível. Em breve, espero, este pesadelo ficará definitivamente no passado e eu poderei lembrar desses dias tenebrosos apenas para agradecer todo o carinho e apoio que recebi da minha família, amigos e da minha querida esposa.

Semana passada, tão logo eu e a Renata saímos da sessão do Logan, entramos em outra sala para assistir este Cinquenta Tons Mais Escuros. Isto foi um erro em todos os sentidos. Levando em conta nossa condição física, foi um erro porque ela precisou ficar sentada durante quase 4 horas (tempo somado dos dois filmes) num dia que o joelho dela estava bastante dolorido. Também foi um erro porque, após ver a despedida magistral do Wolverine, assistir um soft porn ruim assemelhou-se a sair dos Jardins do Éden e cair direto no Vale dos Ventos, Segundo Círculo do Inferno dantesco onde agonizam aquelas pessoas que, em vida, deixaram-se levar pela luxúria. Cinquenta Tons Mais Escuros não só repete todos os muitos erros de seu antecessor, o insosso Cinquenta Tons de Cinza, quanto volta a deixar claro que, se você tem mais de 18 anos, você não é o público alvo desta adaptação cinematográfica da obra da escritora E. L. James. Eu, que já completei 31 primaveras e não gosto de abandonar nada pelas metades, voltarei ao cinema para assistir a conclusão da história, mas o ânimo é zero depois do que vi nesta continuação.

Aqui, até mesmo para justificar o “por que raios eu fui ver este troço”, acho justo repetir algo que eu disse quando resenhei o Cinquenta Tons de Cinza. Antes de qualquer coisa, eu gosto de cinema. Mesmo que eu não tenha condições de assistir tudo que é lançado (alguém tem?), procuro ver a maior quantidade de filmes possíveis, e isso inclui desde o “novo do Scorsese” até o “blockbuster bafo sobre fodelança sadomasoquista”. É bastante confortável, principalmente devido a falta de tempo, dar atenção somente para trabalhos ligados a cineastas já consagrados e/ou para títulos que receberam boas resenhas, mas eu ainda gosto de ter uma visão ampla do que está sendo produzido atualmente e, as vezes, isso implica ir assistir algo mesmo quando todos os meus instintos me dizem para não ir.

Todo caso, eu fui e vi uma história que começa tão mal quanto a anterior havia terminado. Anastasia (Dakota Johnson), que havia afastado-se do bonitão Christian Grey (Jamie Dornan) após descobrir a extensão de suas peculiaridades sexuais, procurou superar o término do relacionamento enfiando a cara no trabalho. Agora ela é uma competente assistente numa editora de livros e, quando tem algum tempo livre, sai para beber com os amigos e para passear. Certo dia, enquanto visitava uma exposição de fotografias de um amigo, Anastasia surpreende-se não somente com o fato de que o tal amigo havia feito vários quadros com fotos dela quanto com a notícia de que um comprador havia arrematado todas as obras em que seu rosto aparecia. Não é nenhuma surpresa que o comprador é o galante Christian Grey, que surge logo em seguida pedindo para que a moçoila dê-lhe uma segunda chance.

E Anastasia dá. E Christian, que promete aceitar um “relacionamento baunilha” (menos foder, mais fazer amor) para agradar sua amada, abre a carteira e começa a mima-la com roupas caras, joias e celulares. Como pontos de conflito, a trama traz a possessividade e o ciúme de Christian atrapalhando a vida profissional de Anastasia, a eterna indecisão da moça, que ora quer experiências sadomasoquistas, ora não, e a inclusão da personagem Elena (Kim Basinger), a milf que ensinou o Sr. Grey a foder e que ainda exerce uma estranha influência sobre ele.

Dar, foder, fazer amor. Falou na série Cinquenta Tons de Cinza, falou em sexo. As pessoas postam comentários safadinhos no Facebook quando referem-se ao filme e, dentro da sala do cinema, imperam as risadinhas, suspiros e exclamações quando Anastasia e Christian começam a se pegar, mas a verdade é que o conteúdo sexual do filme é extremamente meia boca. Talvez por visar mesmo um público mais adolescente, o diretor James Foley abre mão de cenas de nudez frontal e sempre envolve o sexo e os elementos do sadomasoquismo em contextos humorísticos. Christian introduz esferas na vagina de Anastasia e, nas cenas seguintes, todo mundo ri dos closes que mostram as caras e bocas que ela faz para conter o tesão na frente de terceiros. Christian masturba Anastasia dentro de um elevador lotado e a gente ri da cara fechada de uma senhora próxima ao casal. Já tive 18 anos e sei que este tipo de conteúdo pode provocar rebuliços internos nessa fase (até porque praticamente tudo provoca rs), mas não acho que Cinquenta Tons Mais Escuros tenha algo a dizer sobre sexo para um adulto casado e com acesso à internet.

Se o sexo decepciona, não é o roteiro esquemático que salva o material. Resumidamente, Anastasia e Christian tem os mesmos problemas que eu e você, caro leitor, temos em nossos relacionamentos. A diferença é a proporção bizarra que esses problemas tomam quando há bilhões de dólares envolvidos no processo. Você sente ciúmes da sua namorada por pensar que o chefe dela está com segunda intenções mas resigna-se por saber que ela precisa do emprego. Christian também sente ciúmes, daí ele compra a empresa da namorada e manda o chefe dela embora. Sua namorada fica preocupada quando você não dá notícias. Anastasia fica preocupada porque Christian sofreu um acidente de helicóptero que está sendo transmitido ao vivo na TV. Sua namorada é independente e gosta de dividir a conta. Anastasia é independente e recusa um cheque de 24 mil dólares. Não dá para ter empatia com pessoas assim (nem com um diretor que faz de uma queda de helicóptero uma cena banal dentro de um filme).

O mistério envolta do passado e dos desejos sadomasoquistas de Christian, ponto central da trama, avança pouco em Cinquenta Tons Mais Escuros. O relacionamento entre os personagens dá o passo lógico em direção ao altar, Anastasia termina a trama um pouco mais determinada e segura de si, abandonando aquela postura passivo-confusa irritante de outrora, e um homem observa tudo das sombras, prometendo complicações futuras para a relação do casal, mas é só.  E é pouco. E é ruim. E não dá tesão. E, ainda que a trilha sonora e o figurino sejam bons e que tenham me dito que o livro é “melhor e mais quente”, não dá a MENOR vontade de conhecer o trabalho da escritora E. L. James com base nisso aqui. Felizmente, se não dividirem o último livro em 2 filmes, falta só mais um.

Logan (2017)

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“Eu já havia enfrentado muitas situações terríveis antes, e a escrita me ajudara a superá-las – me ajudara a esquecer de mim por pelo menos alguns momentos. Talvez ela me ajudasse outra vez. Parecia ridículo pensar que funcionaria, dado o nível de dor e incapacidade física que eu sentia, mas uma voz no fundo da minha cabeça, ao mesmo tempo paciente e implacável, me dizia (…) que a hora era aquela.”

Em junho de 1999, o Stephen King quase abotoou o paletó de madeira após ser atropelado por um furgão. O escritor estava realizando sua caminhada diária próximo a uma estrada do Maine (provavelmente pensando em novas formas de matar personagens tagarelas) quando foi atingido em cheio por um veículo desgovernado. Dentre outras coisas, o cara teve lesões sérias no joelho, na coluna, nas costelas e no couro cabeludo e precisou operar o quadril, que foi completamente deslocado pelo impacto. Coincidência bizarra, King relatou o ocorrido no Sobre a Escrita, último livro que li antes do meu próprio acidente e do qual retirei o trecho acima.

De fato, após vivenciar um grande trauma e ver tarefas corriqueiras como escovar os dentes transformarem-se em experiências dolorosas, a gente meio que fica uns dias no limbo. Te levam para o hospital para trocar curativos, te levam pra casa. Te levam para almoçar, colocam comida na sua boca (olha o aviãozinho!), te dão banho e parabéns quando você demonstra alguma evolução (coisas complexas como usar um cotonete sozinho). O pior de tudo é que, por mais horroroso que seja abrir mão da própria independência, não há muito o que fazer e a gente vai deixando-se levar. Daí para acostumar-se com a situação é um passo. Felizmente, a tal voz a qual o King refere-se também habita a minha cachola e, no último fim de semana, eu decidi que chegara a hora de reconquistar parte do meu espaço: chamei um Uber e fui ao cinema. Ousado, não?

Não foi fácil. Acostumado que estou a fazer as coisas de forma rápida e objetiva, vi-me na entediante situação de precisar andar bem devagar, tanto para acompanhar minha esposa, que ainda está com o joelho dolorido, quanto para evitar que alguém esbarrasse nos meus braços. Tarefas simples, como inserir o cartão de crédito na maquininha e digitar a senha, transformaram-se em verdadeiras aventuras. A felicidade por ter saído de casa após quase 3 semanas de relacionamento com o Netflix foi acompanhada pela sensação constante de impotência, como se os meus melhores dias houvessem passado e dado lugar a decadência de alguém que viverá o resto da vida na sombra daquilo que um dia foi. Exagero? Talvez, mas, noutra coincidência incrível, Logan, o primeiro filme que vi após o acidente, evoca justamente esses sentimentos de alguém que, consciente de suas limitações, prepara-se para sair de cena após uma última dança.

No ano de 2029, o Logan (Hugh Jackman) ganha a vida trabalhando como chofer. Velho e decadente, ele divide o tempo entre encher a cara e cuidar, com a ajuda do esquisitão Caliban (Stephen Merchant), de um decrépito Professor Xavier (Patrick Stewart). Aparentemente, após os eventos mostrados em Apocalipse, o Xavier foi diretamente responsável por um acidente que não só vitimou vários mutantes como desencadeou uma reação implacável do governo contra os chamados homo superior: os X-Men chegaram ao fim e o nascimento de novos mutantes foi coibido através da manipulação de drogas inibidoras nos alimentos.

Logan sente que o fim está próximo. Não que ele importe-se com isso, visto que praticamente todas as pessoas que ele amou já partiram deste mundo, mas seu fator de cura regenerativo nunca mais foi o mesmo desde que ele recebeu os implantes de Adamantium no Programa Arma X. O metal, ainda que útil, está apodrecendo Logan de dentro pra fora, e sempre que ele envolve-se em uma briga e fica ferido (o que não é lá uma raridade) a morte fica mais e mais próxima.

O Wolverine que o diretor e roteirista James Mangold nos mostra em Logan, portanto, é um personagem bem diferente daquela máquina da fazer sashimi que foi vista no Imortal e nos outros longas da franquia X-Men feitos até agora. Já na abertura do filme, Logan demonstra uma dificuldade incomum para despachar um grupo de bandidos que tentam roubar as rodas da limousine que ele usa para trabalhar. Num aperitivo da violência gráfica galopante que será vista ao longo de toda a projeção, os delinquentes acabam estraçalhados, mas antes de terem seus membros e cabeças arrancados eles conseguem dar uma coça considerável no personagem. Para um cara que já saiu no braço com o Dentes-de-Sabre e com o Magneto, apanhar de ladrões de carro não é um bom sinal.

Essa abordagem de “humanizar” o herói nem sempre dá certo, mas aqui funciona muitíssimo bem. Logan tem muitas e boas cenas de ação (aquela luta noturna na fazenda é um espetáculo), mas o forte do filme é mesmo o conteúdo emocional extraído das fraquezas e defeitos do mutante. Vivendo nas sombras procurando juntar uma grana para comprar um barco e dar no pé com Xavier, Logan não dá a mínima quando uma mulher procura-o pedindo ajuda para levar ela e uma garotinha até a fronteira dos EUA com o Canadá. Nada de heroísmo gratuito para um cara que bebe dia e noite para esquecer as dores do corpo e da alma. Quando agentes do governo demonstram interesse na tal garotinha, porém, Logan aceita os conselhos de Xavier (e uma quantia generosa de dinheiro), e inicia uma longa viagem rumo ao norte do país. Assumindo, pois, o formato de um road movie na maior parte da trama, o roteiro é balizado por diálogos e situações do cotidiano que revelam um Logan cético, estressado e pessimista precisando encontrar forças tanto para realizar uma última missão quanto para cuidar de uma criança e de um velho. Após vários filmes focados na brutalidade do personagem, vê-lo esforçando-se para ter paciência com uma garota brincando com o pino da porta do carro foi algo bem diferente e divertido.

A tal garota, Laura/X-23 (Dafne Keen), revela-se uma máquina de matar tão ou mais implacável que o Wolverine de outrora. Mangold explora bem o contraste entre a inocência esperada das crianças e a capacidade destrutiva da personagem, fazendo-a decapitar seus perseguidores e fatiá-los freneticamente em cenas brutais. Felizmente, Logan redime toda a falta de violência de filmes horrorosos como X-Men Origens Wolverine, mas insisto que o grande trunfo do filme é o conteúdo emocional. Fora o fator “Hugh Jackman” (particularmente, eu nunca morri de amores pelo ator, mas é inegável que a ciência de que esta é a última vez que ele aparecerá como o mutante acrescenta uma certa melancolia ao material), há o humor inocente da X-23 roubando um óculos na loja de conveniência, as piadas e as palavras de sabedoria do Xavier esclerosado e, claro, a conclusão carregada de sacrifício e redenção.

Logan, pela classificação indicativa (para maiores de 16 anos) e pelos temas que aborda, foi feito buscando um público mais adulto, fato que devemos comemorar e agradecer a títulos como Batman – O Cavaleiro das Trevas e Deadpool por mostrarem que é possível fazer filmes de super heróis focando menos nos efeitos especiais e mais no roteiro (que bela sacada aquela metalinguagem com os gibis e as action figures). Foi bom abandonar um pouco o limbo e ir ao cinema ver um filme sobre um cara que, mesmo visivelmente decadente, encontrou forças (ainda que sintéticas rs) para fazer o que precisava ser feito. Tem sido bom usar a escrita para esquecer um pouco da dor e tirar alguns sentimentos ruins aqui de dentro. É bom ver que, aos poucos, as coisas vão voltando ao normal.

Toni Erdmann (2016)

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toni-erdmannNa madrugada do dia 10 para o dia 11 de fevereiro de 2017, às 04:18, eu tive a minha vida interrompida por um acidente de moto. Eu voltava para casa com a minha esposa após vermos uma banda cover do Audioslave quando passamos em alta velocidade sobre um quebra-molas e fomos parar no chão. O obstáculo foi construído recentemente, logo eu fui me dar conta dele apenas quando já era tarde demais para frear. Eu sei a hora exata do acidente porque o meu relógio, que foi destruído pelo impacto, parou de funcionar para sempre com a queda.

Fiquei triste por perder tão estimado objeto (presente de natal da esposa), mas, felizmente, devo reconhecer que sou um homem de sorte. Apesar de ter rolado no asfalto através de um quarteirão inteiro, a minha moto, uma Fazer 250cc, apenas ralou algumas partes da carenagem. O notebook que estou utilizando agora para escrever este texto escapou ileso. E eu e minha esposa, que fomos arremessado no chão após um impacto à 100km/h, estamos vivos e inteiros.

Logicamente, nós não escapamos ilesos. Ela precisou dar 4 pontos no joelho e ralou bastante uma perna e eu me fodi todo. Quando caí, projetei minhas duas mãos pra frente. Nisso, do lado esquerdo, eu quebrei o dedo mindinho e, apesar da brava resistência do meu finado relógio, ralei pra valer o braço na região próxima ao cotovelo, o que certamente me garantirá uma cicatriz badass e, consequentemente, uma desculpa para mais uma tattoo. Do lado direito, quebrei um osso próximo a junta (me parece que foi a ulna) e vi a pele da palma da mão ser completamente consumida pelo asfalto impiedoso. Resultado: já estou há 20 dias com os braços imobilizados, recebendo comida na boca e sem poder lavar a minha própria bunda, e ficarei assim pelo menos mais 2 semanas.

tony-erdmann-cena-3Experimentei vários estados de espírito desde o acidente. No início, senti desespero e vergonha. Não foi fácil ver minha esposa machucada e saber que, apesar da péssima sinalização do novo quebra-molas (a placa está atrás de uma árvore), eu fui o grande responsável pelo ocorrido. No dia seguinte, após sair do hospital, eu ainda tive que encarar os meus sogros e assumir a bronca. Depois disso veio o medo e as incertezas, visto que eu precisei ser afastado dos meus dois cargos (professor e controlador de voo). Por último, veio a tristeza de ver minha vida paralisada: tive que interromper a cobertura que eu estava fazendo do Oscar, desmarcar as aulas na autoescola (estou tirando habilitação de carro), abandonar academia, corridas no parque, passeios e planejamentos de aula que eu havia preparado para este ano. Minha rotina era cansativa, mas ser arrancado dela dessa forma foi quase como morrer em vida. Chorei muito no início, mas logo a razão voltou e eu percebi que, mediante o que aconteceu (e, principalmente, a tudo que PODERIA ter acontecido), eu não devo perder mais tempo com lamúrias. Chala Head Chala, não importa o que aconteça, tudo vai ficar melhor!, não é mesmo?

tony-erdmann-cenaTodo caso, tenho certeza que o leitor, apesar de compreensivo, não está interessado em mensagens de superação baseadas no Dragon Ball, certo? Vamos então ao plano de contingência para o blog, comentários sobre o Oscar e, claro, sobre o filme em questão, o alemão Toni Erdmann.

Pessoal, a grande verdade é que, por ora, eu não tenho a mínima condição de manter o blog atualizado. Já retirei alguns curativos e estou com alguns dedos livres, o que me permitiu escrever este texto ao longo de uma tarde inteira ao custo de muita dor e suor, mas não pretendo repetir essa tarefa tão cedo. Eu precisava desabafar, dar uma satisfação para quem visita a página regularmente e resenhar este filme antes que eu me esquecesse do que vi (já fazem mais de 3 semanas), mas paro por aqui. Preciso recuperar minhas mãos e isso demanda repouso.

Sobre o Oscar:

  • Coitados do Warren Beatty e da Faye Dunaway por terem sido escalados para um dos momentos mais grotescos da história da cerimônia. Pessoalmente, o meu favorito era o La La Land, mas entendo que o Moonlight, além de ser muito bom e bem feito, tem muito mais a dizer no contexto político e cultural atual. A vitória foi merecida, porém o êxito ficou maculado pela confusão na hora da entrega da estatueta. Sinceramente, ninguém deveria ser chamado em um palco para agradecer a mãe por algo que não ganhou.
  • Melhor Atriz para a Emma Stone numa categoria que tinha a Isabelle Huppert foi um erro ainda maior do que premiar o Casey Affleck em detrimento do trabalho monumental do Denzel Washington no Cercas, que por aqui sairá com o título tosco de Um Limite Entre Nós.
  • Pô, Academia! Moana é bem melhor do que Zootopia!
  • Nada contra o ótimo Mahershala Ali, mas a curta participação dele no Moonligth, ao meu ver, foi inferior ao que o Michael Shannon fez no Animais Noturnos, filme esse, aliás, que soma-se ao Capitão Fantástico como os grandes injustiçados do Oscar 2017.

tony-erdmann-cena-4Toni Erdmann concorreu e perdeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para O Apartamento. O longa, que foi escrito e dirigido pela alemã Maren Ade, vale-se muitas vezes do bizarro e do ridículo para passar uma válida mensagem contra o estresse e a seriedade excessiva do mundo adulto. Tony Erdmann é o alterego que Winfried (Peter Simonischek) usa para divertir-se e aliviar a tensão de seus conhecidos com piadas e brincadeiras. Após encontrar a filha, a ultra metódica Ines (Sandra Hüller) e perceber que ela não está muito feliz no cargo de executiva de uma grande empresa, Winfried vale-se de seu personagem doidão para tentar ajudar a moça. Acontece de tudo aqui: queijo ralado na cabeça, dentadura falsa, uma cena esquisitíssima de masturbação, interpretação “destruidora” da clássica The Greatest Love of All da Whitney Houston, uma festa com todo mundo pelado e uma fantasia de um gigante peludão que deixaria o Chewbacca com inveja. É um filme longo (2h40min) e estranho, mas também é um filme do qual a gente sai feliz e com novas e boas perspectivas. Em breve, a história ganhará uma versão hollywoodiana, produção que marcará o retorno às telas do grande Jack Nicholson.

Bem, é isso. Desculpem-me por ter falado pouco do filme, mas eu juro que fiz o meu melhor. Se tudo der certo, dentro de uns 20 dias eu tiro o gesso e o restante dos curativos e volto a escrever normalmente. Por enquanto, estou feliz por estar vivo, contente por ter conseguido finalizar este texto (me fez sentir ‘normal’ outra vez) e agradecido por ter alguém ao meu lado que, neste momento de dificuldade, está sendo extremamente paciente, amorosa e me ajudado em tudo. Desculpa por ter tentado voar sem asas, Renata. Obrigado por tudo (prometo dar menos trabalho na hora do banho). Te amo.

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