Arquivo da categoria: Documentário

Be Here Now (2015)

Padrão

Assisti Spartacus ao longo de 2016 e, no início, não gostei muito do que vi. Eu conhecia a história do personagem através daquele filme interminável do Kubrick de 1960 e, na primeira temporada da série, tive a impressão de que o roteiro sobre o escravo que comandou uma rebelião contra o Império Romano foi deixado de lado para privilegiar as cenas de ação e putaria.

Claramente inspirado pelo trabalho conceitual do Zack Snyder no 300, Spartacus começou mal com cenários toscos gerados por CGI, repetidas lutas sangrentas em slow motion e uma porção de homens fortões seminus que conversavam como se estivessem recitando poemas. Todo caso, o roteiro foi tomando corpo ao longo do caminho, os personagens foram tornando-se mais e mais carismáticos (o Gannicus é muito legal) e, quando terminei a quarta e última temporada, bateu aquela tristeza por saber que não havia mais material para ver, ou seja, a série havia superado o início ruim e ganhado o meu coração.

O último episódio, aliás, trouxe uma dose extra de emoção para quem acompanhou as notícias de bastidores de Spartacus. Terminada a história e encerrados os créditos finais, exibiram uma justa e tocante homenagem ao Andy Whitfield, ator que interpretou o protagonista na primeira temporada mas que abandonou a série após ser diagnosticado com câncer. Infelizmente, Andy não resistiu ao tratamento e faleceu vítima da doença no dia 11 de setembro de 2011. Não serei hipócrita e dizer que eu achava o cara um grande ator (além de não ter lembranças dele naquele Gabriel, que é um filme horroroso, acho que o Liam McIntyre encarnou melhor o gladiador), mas ainda assim é sempre estranho e triste quando um rosto conhecido nos abandona. Assim sendo, fiquei bastante emocionado quando terminaram a série mostrando o Andy gritando “I”m Spartacus” naquela que talvez seja a cena mais marcante da produção.

Lembro que, quando o episódio acabou, enxuguei as lágrimas e fui procurar informações sobre a morte do ator. Foi aí que encontrei esse Be Here Now (ainda sem título nacional), documentário no qual a diretora Lilibet Foster conta como a família Whitfield lidou com a doença desde o momento de sua descoberta até o falecimento de Andy. A minha intenção era vê-lo de imediato, mas vasculhei todos os cantos da internet e não tive sucesso na busca. Desde já, fica a dica: se você também procurou e não encontrou (ou se você ficar interessado em assistir após ler esta resenha), saiba que o título foi disponibilizado recentemente na Netflix 🙂

O primeiro ponto que precisa ser comentado é que Be Here Now é mais sobre o Andy Whitfield pai e esposo do que sobre o cara que interpretou o Spartacus. Como a maioria das pessoas conheceram o ator através da série, é perfeitamente natural que o público queira ver cenas de bastidores da mesma bem como saber de que forma a doença impactou as gravações. Ciente disso, a diretora reserva espaço para que o ator Jai Courtney (o Varro da 1° temporada) fale sobre seu colega e mostra cenas de Andy ensaiando e atuando como o personagem, mas na maior parte do tempo o que vemos são cenas do dia a dia da família Whitfield e depoimentos que Andy e sua mulher, a valente Vashti Whitfield, registraram de si mesmos. Tal abordagem pode até deixar alguns fãs frustrados (inicialmente, eu também queria ver mais conteúdo sobre a série), mas o resultado não decepciona ao compor um registro intimista e emocionante dos últimos dias de um homem que precisou encarar a própria mortalidade e preparar sua saída de cena.

Lilibet não dá muitos detalhes sobre o assunto, mas é citado o fato de que Andy já havia enfrentado e vencido outro câncer antes de ser diagnosticado novamente com um linfoma em março de 2010. Dessa forma, o início do tratamento é pouco traumático: ele já venceu a doença uma vez e voltará a vencer. Tendo retornado para sua casa na Austrália após afastar-se das gravações da série, Andy opta então por realizar um tratamento espiritual na Índia antes de iniciar o processo de quimioterapia. Em sua fé, o ator acreditou que a medicina e os conhecimentos milenares do oriente poderiam prepará-lo para o que viria a seguir. Independente da opinião que possamos ter sobre temas como astrologia e medicina alternativa, essa passagem é bastante bonita por dois motivos: 1) Andy recebe a visita do pai na Índia e, juntos, eles visitam lugares fantásticos e andam de moto nas ruas caóticas daquele país. Acredito que isso é o tipo de lembrança boa para um pai guardar do filho. 2) A sintonia entre Andy e sua esposa é muito bacana. Vashti deixa bem claro sua opinião sobre aquela viagem (ela preferia que o marido iniciasse a quimioterapia imediatamente), mas o faz de forma respeitosa e mostra-se disposta a apoiá-lo 100% quando ele decide ir.

Findada a viagem, Andy retorna confiante para casa e inicia o tratamento. É um período difícil e confuso: ao mesmo tempo que os médicos fazem diagnósticos que mostram a remissão do linfoma, surgem notícias desanimadoras sobre a detecção da doença em novas áreas do corpo do ator. Andy demonstra ser um homem forte e de poucas palavras, mas não são poucas às vezes que a câmera capta-o com os olhos cheios de lágrimas após os telefonemas que não trazem as notícias que ele esperava. Vashti é uma fortaleza e doa-se por completo para a situação, desdobrando-se para auxiliar o marido sem deixar os dois filhos de lado, mas quando fica sozinha ela desmorona e fala sobre o medo de perder seu amor. Novamente, a maturidade do casal chama a atenção. Seja nos consultórios escutando que o quadro piorou, seja no dia a dia alegre da família, os dois demonstram uma química fantástica e estão sempre dispostos a ouvirem e confortarem um ao outro. A forma madura como eles discutem um tema espinhoso como a possibilidade real de Andy morrer é algo que todos os casais deveriam aprender a fazer.

Começamos a ver Be Here Now sabendo que ele não terá um final feliz, mas ver Andy lutando contra a doença (e praticamente vencendo-a antes de definhar por completo) nos dá uma falsa sensação de esperança que é completamente destruída pela inevitável confirmação de que o ator perdeu a batalha para o câncer e faleceu aos 39 anos de idade. Felizmente, a diretora teve bom senso e evitou o sensacionalismo, logo a gente não vê nenhum registro em vídeo da família no dia do ocorrido, mas mesmo assim é difícil segurar a emoção quando Vashti narra como foram os últimos momentos ao lado de seu marido. A grande verdade é que ninguém está preparado para perder o amor de sua vida, logo a gente entende perfeitamente o que aquela mulher sentiu e chora junto com ela. Chora muito.

Be Here Now, numa tradução livre, seria algo como “estar aqui agora”. Andy Whitfield tatuou esta frase no antebraço no início do tratamento para simbolizar a importância de aproveitar cada momento como se ele fosse o último. Se até mesmo o forte Spartacus, aquele que venceu o gigante Theokoles e trouxe a chuva de volta, sucumbiu diante de uma doença, é bom que nós, meros mortais assinantes da Netflix, aprendamos com a mensagem de Be Here Now e percebamos a urgência de encararmos a brevidade da vida, de “estarmos aqui agora” e abraçarmos com força cada oportunidade de sermos felizes que tivermos. Afinal de contas, nunca saberemos quando poderemos dar um último beijo na pessoa amada ou quando haverá um quebra molas no caminho. Descanse em paz, Andy.

Água Suja (2016)

Padrão

Água SujaRomaria é uma cidadezinha do Triângulo Mineiro com uma população estimada de 3657 habitantes. Anualmente, entre os dias 06 e 15 de agosto, o município sedia uma festa em homenagem à Nossa Senhora da Abadia, ocasião em que suas ruas ficam lotadas dos chamados “romeiros”, peregrinos que deslocam-se de toda a região até lá para pedirem graças, agradecerem por conquistas alcançadas ou simplesmente para reforçarem sua fé e devoção pela santa.

Também conhecida como Água Suja, seu primeiro nome, Romaria está a cerca de 86km de Uberlândia, cidade onde moro e da qual já saí 3 vezes, a pé, para realizar a difícil peregrinação até o Santuário de Nossa Senhora da Abadia. Não sou religioso (ainda me defino como agnóstico), mas, como comentei no texto do Livre, topei a caminhada tanto pelo desafio físico que ela oferece quanto pela oportunidade de ficar sozinho com os meus próprios pensamentos. Na primeira vez, fiquei na metade do caminho. Na segunda, completei o trajeto mesmo quando dois amigos desistiram na metade. Na terceira e última vez, em 2010, também consegui chegar, mas algo que aconteceu alguns meses depois me marcou tão profundamente que, desde então, não encontrei mais ânimo para encarar a estrada.

Meu vovô, o saudoso José Ferreira, faleceu no dia 28 de outubro de 2010, dentro de um ônibus, vitima de um ataque cardíaco. Tendo fumado durante toda a vida e trabalhado majoritariamente com serviços braçais na zona rural, ele enfrentou muitas problemas de saúde em seus últimos dias, como tosse constante e dores no corpo. Como eu via que ele estava definhando dia após dia e ficava desesperado por não saber como ajudar, decidi deixar o ceticismo de lado e fazer a caminhada até Romaria para “pedir” que ele melhorasse. A viagem em si, apesar da costumeira dificuldade, foi bastante proveitosa, mas de certa forma eu sempre lembro dela com a frustração de alguém que, pouco tempo depois, chorou a morte de um pai. Mesmo que seja uma hipocrisia gigantesca acreditar que eu (que até então nunca havia tido fé) merecesse receber alguma graça superior, nunca mais tive vontade de ir até Romaria: corações cheios de mágoas, infelizmente, tendem a tornar-nos rancorosos e irracionais.

IMG_4382Caso eu tivesse encontrado forças para voltar a realizar a peregrinação no ano passado (a ideia passou pela minha cabeça), eu poderia ter esbarrado no caminho com o diretor Yuji Kodato, que estava com sua equipe na estrada registrando as imagens e depoimentos que depois seriam transformados nesse excelente documentário, o Água Suja. Kodato, que também é fotógrafo, realizou um excelente trabalho capturando cenas belíssimas que, de tão fortes e representativas, dispensam a tradicional narração presente na maioria das produções do formato:  não é necessário que o diretor nos fale sobre as dificuldades da caminhada quando ele nos mostra o sol escaldante, o tráfego intenso de veículos, as condições precárias de higiene e os corpos cansados e castigados dos romeiros.

Estruturalmente, Água Suja pode ser dividido em 3 momentos, sendo eles:

  • Caminho até Romaria: Kodato e sua equipe, entre eles o câmera Roberto Camargos, registram o trajeto feito pelos peregrinos, destacando pontos conhecidos do caminho, como o “primeiro posto”, a “antena” e o “atalho”, e dá voz aos fiéis, deixando que eles, tal qual eu fiz no começo desse texto, contem suas experiências ligadas à peregrinação. Aqui, independente das convicções religiosas de cada um, impressiona a força de vontade dos entrevistados e a boa vontade daquelas pessoas que saem de suas casas para ajudar os romeiros (o chamado ‘dar apoio’), seja fornecendo-lhes água e comida, seja lavando os seus pés.
  • Chegada no Santuário: Após um longo tempo na estrada (quando fui, gastei 36 horas), os romeiros chegam exaustos mas felizes em Romaria e então o diretor registra a ida deles até o Santuário. Valendo-se de uma música impactante (produzida, acredito, com um berimbau), Kodato mostra os fiéis subindo de joelhos as longas escadarias do Santuário para prestarem seus agradecimentos e homenagens à santa.
  • Festa de Nossa Senhora da Abadia: Na primeira vez que consegui completar o trajeto, entrei feliz nos limites da cidade e fui direto até um bar para pedir um copo d’água. Grande foi a minha surpresa e decepção quando o dono do local me cobrou 50 centavos pela água. A ganância dos comerciantes de Romaria no dia da festa é tão memorável quanto a solidariedade encontrada na estrada e o diretor registra muitas das bizarrices que podem ser encontradas na cidade, coisas como venda de lingeries e shows de músicas seculares. Ainda que seja compreensível a necessidade da cidade lucrar com o evento, essa lado da festa destoa completamente da espiritualidade do restante da peregrinação e é positivo que o diretor também tenha optado por mostrar esse lado polêmico do evento.

IMG_4383Escrever sobre Água Suja me deixa bastante feliz por 3 motivos. Primeiro, porque pude falar-lhes sobre o meu vovô, pessoa que foi embora e deixou um vazio em minha vida que só é superado em intensidade pela força dos exemplos e da educação que ele me deu em vida. Segundo, pela chance de relatar algo que eu mesmo vivi e que agora vejo convertido em um ótimo documentário. Por último, porque posso utilizar o blog para ajudar a divulgar o trabalho de um amigo. O Roberto Camargos, câmera citado anteriormente, foi meu colega de classe na faculdade e eu fico verdadeiramente orgulhoso de saber que ele está utilizando toda sua inteligência para registrar e interpretar o mundo e nossas realidade imediatas de forma tão bela e crítica. Parabéns, cara!

Água Suja foi financiado coletivamente e pode ser conferido, gratuitamente, clicando aqui. Assistam!

IMG_4381

What Happened, Miss Simone? (2015)

Padrão

What Happened, Miss SimoneAcabou! Acabou! Acabou! A não ser que O Filho de Saul ou O Abraço da Serpente vazem de hoje para amanhã (e eu duvido muito que isso aconteça), esse What Happened, Miss Simone?, produção original da Netflix, será o último indicado ao Oscar de 2016 que resenharei. Como quero utilizar esse texto para fazer alguns comentários sobre o trabalho que realizei, vou começar analisando o documentário e, no final, reservarei um espaço para finalizar a cobertura do Oscar. Fiquem a vontade para lerem apenas a parte do texto que lhes interessarem 🙂

No começo, quando coloquei What Happened, Miss Simone? pra rodar no Netflix, não liguei nem o nome e nem a voz à pessoa. Assim sendo, deixei que a diretora Liz Garbus me apresentasse uma cantora que começou a carreira ainda criança quando foi descoberta por uma professora de piano em uma igreja. Eunice Waymon, que mais tarde mudaria o nome para Nina Simone, ambicionava ser a primeira pianista clássica negra dos EUA e para isso ela dedicou os primeiros anos de sua vida estudando teoria musical e compositores como Bach. Nina alcançou o sucesso e transformou-se em uma das vozes mais marcantes de sua geração, mas isso não garantiu-lhe paz de espírito.

Para responder a pergunta que faz no título do documentário (O que aconteceu, Srta. Simone?), a diretora utiliza imagens de shows e de entrevistas gravadas por Nina (ela faleceu em 2003), bem como dá voz a pessoas que conviveram diretamente com ela, como sua filha e Andrew Stroud, seu esposo e empresário. Notei que, apesar de citar o diagnóstico de bipolaridade que teriam atribuído à cantora e mostrar que ela não mediu consequências na hora de participar da luta pelo fim da segregação racial durante a década de 60, Liz Garbus é excessivamente respeitosa ao apontar os motivos que comprometaram a carreira de Nina. O comportamento muitas vezes intransigente nos palcos e o discurso violento que ela parece ter adotado enquanto manifestava-se pelos direitos civis, ao meu ver, não são suficientemente problematizados pela diretora, que prefere concentrar-se mais nos aspectos da vida privada da cantora para buscar as respostas que ela procurava.

What Happened Miss Simone - Cena 2What Happened, Miss Simone?, conta-nos, por exemplo, que Nina desenvolveu uma personalidade mais reservada por ter crescido separada das outras crianças de sua idade. Enquanto todos corriam e brincavam, ela estava sentada e concentrada nos estudos musicais. Já na adolescência, Nina depara-se com a face preconceituosa da sociedade americana quando é rejeita de uma escola de música devido à cor de sua pele. Quando adulta, ela precisa conviver diariamente com a violência e a ganância do marido, que espanca-a constantemente e age como um parasita sobre a carreira e os lucros dela.

Tudo isso, a diretora Liz Garbus nos diz, contribuiu para que a cantora fosse acumulando uma série de tristezas e frustrações que tanto explodiram nas mensagens anti-sistema que ela converteu em música enquanto lutou ao lado de nomes como Martin Luther King e Malcolm X quanto foi preponderante para que, no auge do sucesso, ela abandonasse tudo e todos e se mudasse para a África. Não acho, porém, que Nina tenha sido uma vítima das cruéis circunstâncias que a vida lhe impôs: o que vi foi uma mulher forte que, quando atingiu o topo, não quis mais curvar-se nem para a sociedade e nem para a família. Durante esse processo, ela cometeu alguns erros de julgamento (os que eu disse que a diretora poderia ter explorado mais) e acabou pagando um preço altíssimo por isso (perder público, chegar a ser confundida com uma moradora de rua), mas ela parece ter chegado no final da vida consciente de que os altos e baixos enfrentados levaram-na até onde ela queria chegar.

What Happened Miss Simone - Cena 4Durante o filme, a diretora mostra algumas das canções mais conhecidas de Nina, como Don’t Let Me Be Misunderstood e My Babe Just Cares For Me, mas foi justamente por uma música que não foi executada que eu acabei lembrando que eu já conhecia a cantora. Como assim? A medida fui ouvindo aqueles movimentos rápidos no piano e ficando encantado com a voz marcante de Nina, recordei-me que a Feeling Good, música que o Muse resgatou no álbum Origin of Symmetry, é de autoria dela. Ao contrário do que eu disse na resenha do Amy, estou percebendo que gosto bastante de jazz, pois foi bom conhecer a história da Nina, mas foi melhor ainda ouvi-la cantar. A execução no final da música Stars, aliás, é o tipo de momento que merece ser chamado de “embasbacante”: tal qual alguém que resume a própria vida, Nina expõe a alma no palco enquanto fala de estrelas que vem e vão. É de arrepiar, de verdade.

What Happened Miss Simone - CenaBem, a resenha de What Happened, Miss Simone? acaba aqui. Sobre os últimos 3 meses e todo o trabalho que fiz para cobrir o Oscar, devo dizer que estou bastante feliz comigo mesmo. Lá em dezembro, quando iniciei o processo com o texto do Beasts of no Nation, eu estava bastante cansado e desanimado com o blog: era final de ano letivo na escola onde eu dou aula e duvidei de verdade que eu fosse conseguir tempo para ver todos os indicados. Foi então que filmes como O Despertar da Força e Os Oito Odiados foram estreando e me fazendo lembrar do porque o cinema ter convertido-se na grande paixão da minha vida: tive ótimas experiências cinematográficas na passagem de 2015 para 2016 e isso fez com que eu decidisse esforçar-me para realizar a minha melhor cobertura do Oscar até então. Não foi fácil. Esse ano, a Academia escolheu muitos títulos bons, como O Quarto de Jack, mas também selecionou títulos chatos e difíceis como A Grande Aposta. Se não tive as mesmas dificuldades que tive o ano passado para ver os indicados a Melhor Filme (só consegui ver o Selma, por exemplo, faltando 3 dias para a premiação) e a Melhor Animação (vi todos dessa vez, em 2015 faltou o A Canção do Oceano), não posso dizer o mesmo dos concorrentes a Melhor Filme Estrangeiro: sempre costuma faltar um ou outro, mas dessa vez faltaram dois e um deles, O Filho de Saul, é o franco favorito a levar a estatueta. Todo caso, o resultado é extremamente positivo: com esse documentário (e faço questão de pontuar que é a primeira vez que resenhei dois indicados nessa categoria), somam-se 28 textos de filmes que amanhã concorrerão entre si pelo prêmio máximo da indústria cinematográfica americana. Eu me propus a fazer algo e consegui: estou feliz e agora vou abrir uma cerveja para comemorar essa vitória enquanto revejo O Regresso, filme pelo qual torcerei amanhã com todas as minhas forças. Chegou a sua hora, Leo!

What Happened Miss Simone - Cena 3

Amy (2015)

Padrão

AmyTal qual tenho feito nos últimos anos, olhei a lista de indicados ao Oscar de Melhor Documentário e selecionei um para assistir e resenhar. Optei pelo Amy não por eu ter sido fã da cantora (eu só conhecia Rehab e Tears Dry on their Own, que a minha cunhada sempre cantava com a voz desafinada nas nossas sessões de karaokê rs), mas sim porque nutro um interesse um tanto quanto mórbido por histórias de autodestruição. Mesmo que eu não tenha absolutamente NENHUMA intenção de boicotar minha própria vida, acho muito válido conhecer casos de quem o fez justamente para ir tirando algumas pedras do meu caminho.

A Amy Winehouse que o diretor Asif Kapadia (o mesmo do emocionante Senna) nos apresenta foi uma mulher que não conseguiu suportar a pressão de ascender meteoricamente rumo ao sucesso. Da fase adolescente cheia de espinhas fã do Tonny Bennett quando lançou o disco Frank até transformar-se em um dos maiores nomes da música britânica contemporânea com o álbum Back to Black, foram apenas 3 anos. No mesmo corpo frágil, encontrava-se a voz poderosa de uma deusa do jazz e a alma de uma menina que sofria de amor e bulimia. Como é de conhecimento geral, Amy foi encontrada morta em casa no dia 23 de julho de 2011 vítima de intoxicação por álcool. Nesse documentário, Kapadia vale-se de arquivos de vídeo públicos e particulares para tentar entender o processo de ascensão e queda da cantora. Surpreendentemente, o diretor não furta-se de sugerir alguns culpados pelo fim trágico de Amy, mas é principalmente a possibilidade de aprender com o exemplo negativo, e não essa polêmica deveras sensacionalista, que tornam o material digno de ser apreciado e de concorrer ao Oscar.

Amy - Cena 2Kapadia, que claramente optou por explorar mais o período turbulento pós-Back to Black, acelera o início de tal forma que os mais desavisados poderão pensar que Amy fez sucesso da noite para o dia. Funciona mais ou menos assim: a cantora aparece falando de suas influências musicais, um amigo convida-a para gravar em um estúdio e pronto, o álbum Frank sai do forno e Amy assina um contrato de 6 dígitos. Fiquei com a sensação de que esse período, bem como a infância e a relação da cantora com os pais, poderia ter recebido mais atenção.

Como dito, não sou lá um grande fã do som dela (nada contra jazz, só falta de costume mesmo), mas, como sou apaixonado por música em geral, acredito que sei reconhecer quando vejo algo capaz de agradar quem é fanático por um artista. Asif Kapadia faz uso de uma edição caprichada para mostrar como deu-se o processo de composição de alguns sucessos da cantora, como Stroger Than Me e a já citada Tears Dry on Their Own, sobrepondo na tela imagens e letras, estas na própria caligrafia da Amy. À essas raridades, juntam-se ainda arquivos de vídeo filmados por amigos, onde é possível ver que ela era, de fato, uma pessoa simples e humilde, e gravações de shows do início da carreira, momentos especiais por mostrarem no palco uma artista segura de si e cheia de garra, ou seja, o oposto daquilo que ela transformou-se no final. A parte musical de Amy, ao meu ver, é sedutora: instigado pelo que vi e ouvi, providenciei os álbuns para futuras audições.

Amy - Cena 4Se o diretor não explora as raízes familiares de Amy, não podemos dizer o mesmo do conturbado relacionamento dela com Blake Fielder. O que começa naturalmente com uma conversa em um pub inglês desenvolve-se para uma relação de extrema dependência emocional que é interrompida quando ele decide voltar com a ex-namorada. Kapadia dá bastante enfoque no quanto o término da relação influenciou o processo de composição do Back to Black e depois, quando o álbum já havia estourado e elevado a carreira da cantora para um novo patamar, não priva-se de orquestrar a edição de modo a mostrar Blake como vilão da história. Não que ele não tenha tenha sido preponderante para o processo de decadência física e psicológica da cantora, visto, por exemplo, que foi com ele que ela começou a utilizar drogas pesadas como cocaína e heroína, mas retratá-lo como um parasita egoísta não diminui os erros de julgamento e escolhas equivocadas que ela, uma adulta, cometeu. O mesmo comentário vale para o retrato de um homem ganancioso que o diretor vende de Mitch Winehouse, pai de Amy: Mitch, cuja citação na letra da Rehab (And if my dad thinks I’m fine) pode ser entendida como uma denuncia de descaso com a saúde da filha, não é a figura paterna ideal, mas isso não coloca o peso da morte de Amy nas costas dele.

Amy - Cena 3Quando fala sobre o contexto que envolveu a morte prematura da cantora aos 27 anos (o que garantiu a ela uma ‘cadeira cativa’ no Clube dos 27, grupo formado por outros músicos famosos que morreram aos 27, como Janis Joplin, Kurt Cobain e Jimi Hendrix), Kapadia aponta ainda o dedo para a mídia, que acabou com a liberdade e a privacidade de Amy após ela vencer o Grammy em 2008. Novamente, não dá para discordar do diretor (ainda mais quando vemos as cenas onde ele mostra vários paparazzi fotografando-a freneticamente), mas, como dito no primeiro parágrafo, estou interessado mesmo é nas falhas individuais de Amy, não nas crueldades que o mundo cometeu com ela. Por que a bulimia? Por que uma pessoas tão talentosa entregou-se nas mãos de alguém sem maiores aptidões? Por que afundar nas drogas e na depressão quando obteve-se o sucesso profissional e financeiro pelo qual tanto lutou-se? Por que sabotar a própria carreira abandonado um palco de um festival sem cantar uma música sequer? Por que, Amy?

Incapacidade de lidar com a fama? Vontade de desaparecer? Imaturidade? Sinceramente, acredito que nem ela soubesse responder essas perguntas. Eu, que constantemente também não sei a resposta para situações semelhantes que enfrento no dia a dia, continuo servindo-me de exemplos dessa natureza para aprender a lidar melhor com os meus próprios demônios. Desistir? No, no, no!

Amy - Cena

Cobain: Montage of Heck (2015)

Padrão

Cobain - Montage of HeckMesmo sem nunca ter sido a minha banda favorita, o Nirvana sempre esteve presente na minha vida depois que comecei a ouvir rock lá por volta do ano 2000. Músicas como Lithium, In Bloom e Negative Creep tem presença garantida em todas as playlists que monto, utilizei a letra da Smells Like Teen Spirit mais de uma vez na faculdade para falar sobre análise do discurso e, assim como todo mundo que algum dia começou a aprender tocar violão, já passei algumas tardes dedilhando os acordes iniciais da fácil e empolgante Come as You Are. Gosto do som, mas, parando para pensar, percebo que, quando trata-se da banda, o meu maior interesse é mesmo pela conturbada figura de seu vocalista: ainda que até hoje eu não tenha explorado completamente os álbuns Bleach e In Utero, já li o Heavier Than Heaven, biografia escrita pelo autor Charles R. Cross sobre o Kurt Cobain, e coloquei esse Cobain: Montage of Heck na minha lista de interesses tão logo ele foi anunciado. Mais do que o “maluco que masturbou-se no palco durante um show” ou o “drogadão que cometeu suicídio”, vejo o Cobain como uma figura trágica cuja incrível força criativa, apesar de ter mudado significativamente a história do rock, não foi suficiente para salvar ele mesmo da autodestruição. Esse ótimo documentário do diretor Brett Morgen ajuda-nos a entender um pouco melhor essa contradição.

Para contar a trajetória do vocalista, Morgen mistura depoimentos, filmagens de shows, vídeos caseiros e belíssimas animações baseadas nas anotações encontradas nos cadernos do líder do Nirvana. Optando por seguir a linha temporal, o diretor começa Montage of Heck com imagens do bebê Kurt dando os primeiros passos no seio de uma família que estava prestes a ser dissolvida. Apesar de não ser uma prática comum na época, os pais de Kurt divorciam-se e isso faz com que ele, que é descrito como uma criança reclusa e desobediente, cresça em lares diferentes dos quais ele sempre acabava sendo expulso devido ao mau comportamento. Esse começo, apesar de meio burocrático devido aqueles comentários previsíveis típicos de familiares (‘desde pequeno ele era MUITO criativo’), serve para vermos como inicia-se a relação de Kurt com o sexo, tema que moldaria significativamente sua futura personalidade. Consta que ele, já um pré-adolescente, perdeu a virgindade com uma garota que na região era considerada “retardada”. As zoações dos colegas foram impiedosas, mas nenhuma crítica foi pior do que aquelas que o próprio Kurt fez a si mesmo: invadido por um agoniante sentimento de culpa, ele tenta suicidar-se pela primeira vez e, ao que parece, passa a considerar o sexo como algo cínico e até mesmo bizarro, como pode ser visto, por exemplo, na letra da Moist Vagina (Ela tinha uma vagina úmida/Eu, particularmente, adorei a circunferência/Estive chupando as paredes do ânus dela).

Cobain - Montage of Heck - Cena 2Na sequência, Morgen passa a explorar o período de incubação do Nirvana, época em que Kurt deixou a família e foi morar com uma namorada. Trabalhando em serviços irregulares, ele passava a maior parte do tempo em casa tocando guitarra, desenhando e vendo televisão. A tal namorada descreve-o como uma pessoa hiperativa (ele simplesmente TINHA que estar fazendo alguma coisa o tempo todo) e alguns entrevistados, entre eles o Krist Novoselic, ex-baixista do Nirvana, comentam como Kurt conheceu e passou a gostar de punk rock. Aqui, fica claro que a intenção do diretor era contar a história do homem, e não a do músico ou de sua banda: Morgen não incluiu o Dave Grohl no documentário (inicialmente, por questões de agenda, depois por achar que era desnecessário) e não preocupa-se em dissecar o estilo de Kurt tocar ou compor. Quando fala dos primeiros passos do Nirvana, o diretor prefere focar na relação contraditória do vocalista com o outro. Apesar de considerar críticas como uma “forma de humilhação”, Kurt pode ser visto, em vídeos caseiros registrados por amigos, lendo obsessivamente tudo que a mídia publicava sobre a banda. Para quem sempre dizia em entrevistas que o que deveria importar era somente sua música, Kurt preocupava-se demais com a forma como os outros enxergavam ele e sua arte.

Cobain - Montage of Heck - Cena 4No meio de filmagens de shows históricos da banda (entre eles, o tal em que ele ‘simula’ masturbar-se no palco), versões orquestradas de hits como Heart Shaped Box, histórias de bastidores (as desavenças com o Axl Rose são citada várias vezes) e as tais animações que ajudam-nos a compreender a mente atormentada de Kurt (gostei muito daquela em que um bebê explode a cabeça de um cara com um chute rs), surge a extravagante Courtney Love. Apontada por muitos como a grande vilã da curta história do Nirvana, a ex-esposa de Kurt fala sobre como eles usavam drogas descontroladamente, sobre a polêmica pública em que se transformou sua gravidez (ela consumiu heroína durante a gestação) e a suposta traição que, como muitos levianamente apontaram, teria levado Kurt ao suicídio no mês de abril de 1994. Courtney defende-se, assumindo que, apesar de ter pensado em trair o marido, nunca chegou a fazê-lo, e abre seu arquivo pessoal para mostrar a paixão de Kurt pela filha do casal, Frances Cobain.

Cobain - Montage of Heck - Cena 3Esse final, que é marcado pela gravação do famoso MTV Unplugged da banda e pelas internações por overdose do vocalista, é particularmente triste porque mostra alguém que, mesmo com todos os motivos para ter uma vida feliz (fama, dinheiro, família) sucumbiu diante do desespero. Kurt prometeu que abandonaria tudo e todos para cuidar de Frances. Ele não queria ela precisasse passar pelos mesmos problemas familiares que ele passou, mas sua mente fragilizada, que provocou empatia expondo a apatia de toda uma geração pós-Guerra Fria, não foi forte o suficiente para cumprir a promessa. Por saber que, assim como Kurt, também tenho defeitos que, por mais que eu me esforce, simplesmente não consigo deixar de lado e, por considerar que o diretor Brett Morgen realizou um ótimo trabalho de edição e condução de entrevistas, considerei Cobain: Montage of Heck um ótimo documentário sobre rock e uma excelente oportunidade para reflexão.

Cobain - Montage of Heck - Cena

Cássia Eller (2015)

Padrão

Cássia EllerA minha primeira lembrança da Cássia Eller não poderia ser mais estereotipada. Em 2001, quando eu era um adolescente que curtia Backstreet Boys, assisti uma edição do Jornal Nacional em que mostraram parte da apresentação da cantora no Rock in Rio. No palco, Cássia cantava, sorria e mostrava os peitos para uma platéia enlouquecida. Vendo aquilo, tudo o que meu cérebro juvenil conseguiu processar foi “Que pessoa maluca!”. Eu não conhecia o trabalho da artista, ignorava as particularidades da vida pessoal da mulher e isso, acrescido da minha imaturidade, não me permitiu vê-la além daquele gesto inesperado e transgressor.

Mudaram as estações, tudo mudou: coloquei as boybands no cantinho da nostalgia,  apaixonei-me por rock e heavy metal, saí do sofá e fui conferir o Rock in Rio ao vivo e, no meio de tudo isso, conheci a Cássia Eller. Conheci? Segundo a própria, nem mesmo quem conversou com ela ou até mesmo foi para a cama com ela conheceu-a por completo, quem dirá então alguém que leu uma ou outra matéria por aí e que passou algumas tardes ouvindo o Acústico MTV dela. Cássia Eller, documentário do diretor Paulo Henrique Fontenelle, joga uma pouco de luz tanto na carreira quanto na vida pessoal da cantora e, ainda que isso não seja suficiente para dissecá-la (se é que isso seja realmente possível), contribui para o enriquecimento do nosso olhar para o próximo e nos estimula, através do relato de uma força criativa indomável, a valorizarmos nossas particularidades e transformá-las em nosso meio de interação com o mundo.

Cássia Eller - Cena 3Fontenelle opta por iniciar sua narrativa não exatamente a partir do nascimento da Cássia mulher, que até é citado, mas sim do nascimento da Cássia como artista, que aconteceu entre seus 14 e 18 anos quando ela ganhou um violão, interessou-se por rock e iniciou sua carreira realizando apresentações em casas de show em Brasília. Através de fotos e relatos de pessoas que conviveram com ela no período, o diretor começa a construir aqui um dos principais argumentos de seu documentário: Cássia era, sobretudo, uma pessoa tímida que utilizava a arte como forma de extravasar suas emoções. Em um episódio engraçado contado pelo músico Oswaldo Montenegro, que na época comandou a cantora em um espetáculo teatral, ficamos sabendo de uma menina retraída que foi capaz de raspar as sobrancelhas e substitui-las por traços de canetinha para viver um personagem, comportamento que, antes de revelar a contradição de uma pessoa que definia-se como tímida, reforça a ideia de alguém que utilizava a extravagância como escudo contra a falta de aptidão para o convívio social.

Cássia Eller - CenaA bissexualidade de Cássia, fato de conhecimento público, poderia ser abordada pelo diretor em um tom demasiadamente respeitoso e politicamente correto, mas felizmente não é assim. Talvez naquela que seja a primeira menção do assunto no filme, Maria Eugênia, companheira com quem a cantora conviveu da adolescência até a morte, relembra e conta (da forma mais desbocada possível) do dia em que elas se conheceram. Apresentadas por amigos após o término de um show, Maria Eugênia, que então estava acompanhada por um namorado, diz que a simples presença de Cássia fez com que ela “arrepiasse até os cabelos do cu”. Palmas para o diretor, tanto por não estender-se além do necessário nessa questão da sexualidade (já que trata-se de uma decisão de fórum íntimo que DEVE ser respeitada), quanto por manter esse tom informal, por vezes até chulo, dos depoimentos. Cássia era poesia, mas também era alguém que cantava sobre um príncipe chato que “vivia dando no saco” dela, ou seja, falar sobre sua vida em tom moralista e com discursos “certinhos” soaria falso. Essa “naturalidade”, aliás, também é usada para tratar o tema das drogas, outro assunto polêmico que Fontenelle trata pragmaticamente: ela usava  e isso também dizia respeito somente a ela.

Cássia Eller - Cena 2Cassia Eller conta ainda sobre a gravação do primeiro álbum da cantora, do início das críticas positivas, da fama e seus perrengues, traz curiosidades sobre seus principais hits (Malandragem, composição de Frejat e Cazuza, foi recusada pela cantora Ângela Ro Ro para depois tornar-se o maior sucesso de Cássia) e narra sua ascensão ao estrelato que culminou na icônica apresentação no Rock in Rio e na gravação do Acústico MTV. Fontenelle é competente e inventivo para seguir a linha temporal da vida da artista, resgatando arquivos de foto e vídeo que mostram-na ora no conforto de casa cuidando de seu único filho, Chicão, ora em programas de TV morrendo de vergonha das perguntas majoritariamente boçais feitas pelos apresentadores. O diretor nos empolga com as histórias de bastidores que envolveram a execução da Smells Like Teen Spirit no Rock in Rio (o Dave gostou!) e nos faz rir com a quantidade de vezes que ela errou a letra da Vá Morar com o Diabo na gravação do Acústico mas, inevitavelmente, chega o momento em que ele precisa falar sobre o fim trágico e prematuro que ela encontrou no fim de 2001 e aí fica difícil conter as lágrimas. Antes de falar disso, porém, permitam-me um parágrafo mais pessoal.

Cássia Eller - Cena 5Não, eu ainda não posso dizer que conheci a Cássia Eller. Eu adoro o Acústico MTV do fundo do meu coração, mas ouvi pouquíssimo material dela fora desse álbum. Seria falsidade, portanto, falar-vos que sou um grande fã da cantora. O que posso dizer com toda sinceridade após assistir esse documentário é que, minimamente, ele mudou aquela visão que eu meio que encubei acriticamente lá na adolescência de que ela fosse uma doidona que mostrava os peitos no palco. Amadureci um pouquinho assistindo Cássia Eller. Entendo agora que o que vi (e o que geralmente vemos quando olhamos para o próximo), nada mais foi do que uma máscara que ela utilizava para conseguir suportar sabe-se lá quais paranoias e fobias sociais que ela carregava. Nisso, é significativo quando o Nando Reis aparece para dizer que o sucesso da parceria entre eles deu-se principalmente devido a identificação que eles sentiram com as esquisitices um do outro. Com a música, eles encontraram um meio de sobreviver e transformar essa timidez/estranheza trazidas no coração em algo belo e sincero da mesma forma que eu, que tenho uma dificuldade enorme para expressar-me pessoalmente sobre o que gosto, utilizo esse blog para sistematizar meus pensamentos sobre cinema. O que fica da “maluca de moicano” que cantava com tanta sinceridade “quem sabe eu ainda sou uma garotinha” é o exemplo de que a arte é um caminho para superarmos dificuldades e ofertarmos para o mundo o que há de melhor dentro de nós.

Cássia Eller - Cena 6Essa identificação forte e sincera com o que vi, com a pessoa humana, demasiadamente humana que ela foi (é bom que Fontenelle inclua relatos dos ataques ocasionais de raiva, medo e frustrações dela), provocaram introspecção e me fizeram chorar um bocado na parte final do documentário que trata da morte de Cássia. O enterro, com os fãs enchendo o lugar e cantando Por Enquanto, é desolador. É extremamente bom que o diretor faça justiça a família e a memória da cantora reforçando que o laudo excluiu a possibilidade da morte por overdose (Veja, eu quero é que você se top, top, top!) e que, no fim, o clima de tristeza seja substituído pela alegria da vitória revolucionária que Maria Eugênia conseguiu na justiça pela guarda de Chicão e que o menino, já um adolescente, esteja feliz e com os mesmos trejeitos da mãe, provas de que a influência de todas aquelas belezas que ela tirou do fundo do coração não foram apenas palavras pequenas ao vento. Se eu gostei? Estranho seria se eu não gostasse tanto assim 🙂

Cássia Eller - Cena 4

A Fotografia Oculta de Vivian Maier (2013)

Padrão

A Fotografia Oculta de Vivian MaierAno passado, eu consegui assistir um dos documentários concorrentes ao Oscar antes da premiação, o estranhão O Ato de Matar, e esse ano achei por bem a repetir a dose. Li meio que por cima a sinopse de todos os indicados e escolhi esse A Fotografia Oculta de Vivian Maier. Segundo me pareceu, tratava-se do registro de uma tentativa de fazer justiça ao trabalho de uma fotógrafa misteriosa. Colocado dessa forma, o tema pode soar espinhoso para quem não nutre interesse por fotografia (eu mesmo só tiro fotos mal enquadradas com o celular rs), mas quem decidir ir além dessa primeira impressão pouco convidativa encontrará uma excelente análise do espírito artístico que há dentro de cada um de nós e daquilo que nos motiva a externá-lo ou não para o mundo.

John Maloof, diretor e idealizador desse projeto, comprou uma caixa repleta de negativos antigos em um leilão e começou a revelá-los. Logo ele percebeu que a qualidade das fotos, creditadas a desconhecida Vivian Maier, estava muito acima da média, sendo o material equiparável aquele feito por grandes profissionais do ramo. Por que, então, – ele perguntou-se – ninguém, nem mesmo o todo poderoso Google, conhece o nome e o trabalho dela? Movido por essa dúvida, John iniciou uma pesquisa que o colocou em contato com pessoas que conviveram com Vivian e foram fotografadas por ela. O resultado – surpreendente, diga-se de passagem – foi registrado em vídeo e pode ser conferido nesse documentário.

A Fotografia Oculta de Vivian Maier - Cena 5Logo de cara, John faz questão de nos provar que, se Vivian não é uma profissional reconhecida, certamente isso não deve-se a falta de talento. Enquanto apresenta-se e fala sobre seu projeto, o cineasta bombardeia a tela com fotos tiradas por ela e mesmo um leigo no assunto será capaz de reconhecer a qualidade e a beleza do material. É uma foto mais bonita do que a outra, todas muitíssimo bem enquadradas, com uma iluminação legal e, principalmente, retratando momentos singulares que somente o olhar de uma pessoa sensível e de gosto apurado seria capaz de captar. Após nos convencer de que possui uma causa justa nas mãos, John inicia então uma série de entrevistas com profissionais da fotografia, diretores de museus e conhecidos de Vivian para descobrir os prováveis motivos de sua obscuridade.

Tendo morrido distante da família, de amigos e apresentando sinais de demência, Vivian guardou todas os negativos das milhares fotos que tirou em uma caixa. O trabalho intelectual de toda uma vida, a arte que poderia tê-la transformado em uma pessoa conhecida e admirada, foi deixado ali, displicentemente no meio de um monte de tranqueiras e, não fosse alguém vasculhar o material, poderia ter ido parar no lixo e ter sido destruído para sempre. O mais chocante de tudo é que, pelo que pode ser entendido através das entrevistas, essa perda seria muito mais nossa, que não teríamos acesso as fotografias, do que de Vivian, que não realizou nenhum esforço para tornar-se famosa.

A Fotografia Oculta de Vivian Maier - Cena 4Os esforços de John, que descobre que a fotógrafa trabalhou a maior parte da vida como babá em vários lares americanos, revelam uma pessoa séria e extremamente fechada, uma mulher que parecia ter aversão a homens (não por ser homossexual, mas por um provável caso de abuso) e que gostava de cuidar de crianças. Nota-se, observando a maioria de seus registros, uma preferência por pessoas e cenários que evocam sentimentos de dó e desolação, o que nos leva a crer que a fotógrafa utilizou seus próprios demônios pessoais para moldar seu olhar artístico. Provavelmente, ao identificar-se com esses episódios de tristeza e miséria, Vivian realizava-se registrando-os com sua câmera e isso já bastava para deixá-la, digamos, um pouco mais feliz. Ela tirou todas aquelas fotos, portanto, para estar em contato com ela mesma, para concretizar a visão pessimista que ela tinha da vida, e não para lucrar com isso expondo seus sentimos mais íntimos para o mundo. Isso é algo que nem todo mundo é capaz de entender.

A Fotografia Oculta de Vivian Maier - Cena 3Por mais que recentemente eu tenha adquirido o domínio do blog visando ganhar alguns trocados com o AdSense e que, verdade seja dita, reconhecimento é algo bom, eu não escrevo tendo em vista lucrar ou ficar famoso. Como eu disse aqui, seria legal conseguir pagar uma cerveja com os meus textos e eu fico bastante feliz quando alguém elogia o que faço, mas a minha verdadeira felicidade é sentar na frente do computador e transformar em texto todas as divagações que inundam a minha cabeça. Aqui, comento os filmes, mas também falo da minha vida pessoal, dos meus sonhos, das minhas frustrações… como não é sempre que tenho oportunidade de conversar tão intimamente com alguém (já que sou desconfiado e acredito que ninguém tem saco para escutar os outros falando infinitamente sobre si mesmos), utilizo esse espaço para colocar várias coisas para fora e isso me faz bem. Já ouvi muita gente dizer que eu deveria investir no blog, encontrar um jeito de dar mais visibilidade para ele e lucrar com isso, e de repente essas pessoas até estejam certas, mas não quero transformar o meu principal cúmplice em uma simples ferramenta de trabalho. A taciturna Vivian Maier poderia ter sido mais feliz se tivesse tido sua obra reconhecida em vida? Talvez sim, talvez não, mas acredito que, ao utilizar seu tempo fazendo aquilo que gostava, ela conseguiu uma espécie de realização pessoal que definitivamente dinheiro algum poderia comprar. Se algum dia resolverem fazer um documentário sobre mim, espero que o diretor também entenda que, aqui no meu cantinho obscuro da internet e sem ganhar nenhum centavo até o o momento com isso, fui bem feliz conversando comigo mesmo e com a meia dúzia de gatos pingados que vez ou outra deixam algum comentário nos textos rs

A Fotografia Oculta de Vivian Maier - Cena 2A Fotografia Oculta de Vivian Maier acaba passando uma visão um tanto quanto triste da fotografa, que não deixou apenas boas memórias dentre aqueles que a conheceram e dispuseram-se a falar dela e terminou a vida sozinha em uma situação deveras degradante. Isso não é algo agradável de ser assistido, mas cumprimento o diretor pela coragem de mostrar o ser humano cheio de defeitos que existia por trás da artista talentosa. Maloof coloca ainda a questão ética que diz respeito a realização do documentário, já que com seu projeto ele expôs o trabalho de alguém que, aparentemente, não queria ser exposta. Também cumprimento-o pela iniciativa: Vivian muitas vezes exigiu cumplicidade de seus modelos ao registrar suas desgraças, nada mais justo do que agora ela também nos “permitir” olhar para suas belíssimas fotos em busca de inspiração e paralelos sentimentais.

Obs.: Todas as imagens que ilustram o texto são fotos feitas pela Vivian Maier.

Vivian Maier Self-Portrait