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T2 Trainspotting (2017)

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Quase 20 dias sem postar e só posso pensar em 2 culpados:

  • Final Fantasy Brave Exvius: Estou completamente viciado nesse jogo da Square Enix. Maldito seja o infeliz que teve a ideia de reunir, numa mesma história, personagens de todos os games da série Final Fantasy. Comecei de leve, fazendo apenas as missões diárias, e hoje, cerca de um ano depois que instalei o aplicativo, estou acordando durante a madrugada para jogar e vendo itens do mesmo aparecerem na minha fatura de cartão de crédito. Droga!
  • Final de bimestre: Nas últimas duas semanas, eu precisei dedicar grande parte do meu tempo livre para elaborar/corrigir provas, atualizar diários e ouvir as muitas e comoventes histórias dos meus alunos que, pelos mais incríveis e inacreditáveis motivos, não conseguiram apresentar os trabalhos solicitados a tempo.

O cansaço físico e mental é grande, mas as férias estão chegando e, aos poucos, eu vou conseguindo encontrar tempo para voltar a assistir filmes e atualizar o blog com regularidade.

O último título que consegui ver, aliás, foi esse T2 Trainspotting, continuação do diretor inglês Danny Boyle para o icônico trabalho que o apresentou para o mundo em 1996. Boyle imaginou como estariam Renton (Ewan McGregor), Simon (Jonny Lee Miller), Spud (Ewen Bremner) e Begbie (Robert Carlyle) 20 anos após os eventos do primeiro filme e realizou uma sequência que, mesmo sem provocar o mesmo impacto do original, certamente agrada aos fãs do clássico pela nostalgia e pela atualização do discurso irônico e afiado contra os vícios da modernidade.

Depois de roubar os amigos e fugir com o dinheiro que eles haviam ganhado numa venda de drogas, Renton escolheu viver. Ele escolheu um serviço, uma família e, muito provavelmente, ele comprou uma televisão grande pra caralho. A felicidade, no entanto, não veio. O emprego não deu certo, a família acabou e a TV de muitas polegadas continuou exibindo os mesmos e velhos programas chatos de auditório. Foi aí que Renton resolveu largar tudo (ou o pouco que havia sobrado) e retornar para a Escócia para encontrar seus velhos amigos.

T2 Trainspotting faz esse movimento legal de mostrar um personagem que conseguiu o que queria (uma vida responsável, séria e estável longe das drogas), não gostou (ou não aproveitou bem a oportunidade) e então decidiu recorrer ao passado que ele havia negado como forma de recomeçar. É como se Renton tivesse largado um relacionamento ruim, começado outro e então tivesse sentido falta da ex. E voltar com ex, meus amigos, é aquele negócio: no começo pode até ser bom, pela familiaridade e tal, mas logo logo os problemas reaparecem e você lembra do porque havia terminado.

Renton queria rever Spud, saber o que o cara havia feito com a  grana que ele havia lhe deixado, mas o encontro acontece da pior forma possível. Numa daquelas coincidências pontuais do cinema, o personagem abre a porta de um apartamento velho e sujo bem no momento em que o amigo estava tentando suicidar-se. Renton salva Spud da morte, mas, em troca, ouve uma cacetada: “Você arruinou minha vida! Você deu 4.000 libras para um viciado! O que você pensou que eu fosse fazer?”. Não era bem o que ele esperava.

Renton queria rever Simon, mas ele sabia que não seria um encontro fácil. Na última vez que estiveram juntos, Renton deixou o amigo dormindo e fugiu levando o dinheiro que eles deveriam dividir. O reencontro acontece num velho pub, local que Simon herdou do pai e que agora ele toca para ganhar uns trocados. Conversa vai, conversa vem, Simon bate com um taco de sinuca nas costelas de Renton e inicia uma briga que destrói boa parte da mobília do bar. “16 mil libras! Seu ladrão desgraçado!”. Expurgado o ressentimento, os dois personagens reatam a amizade e voltam a fazer planos juntos, mas Simon revela para sua namorada, Veronika (Anjela Nedyalkova), que ele ainda pretende vingar-se de amigo.

Renton certamente não queria rever Begbie. Um cara que não acha difícil bater com uma caneca de cerveja no rosto de um estranho pode até ser útil em determinadas situações, mas definitivamente não é alguém pra você ter como inimigo. Renton roubou Begbie e foi indiretamente responsável por sua prisão (o cara quebrou um quarto de hotel inteiro quando ficou sabendo que fora passado para trás), logo ele sabia que era bom evitar o sujeito. Tal tarefa não parecia muito difícil, visto que o cara estava preso, mas, noutra dessas coincidências pontuais do cinema, a chegada de Renton na cidade coincide com a fuga de Begbie da prisão (e a cena em que isso acontece não deve nada para as antigas loucuras do personagem) e aí o acerto de contas passa a ser apenas uma questão de tempo.

Renton é o protagonista de T2 Trainspotting e o foco aqui, tal qual foi no primeiro filme, são as relações intensas porém efêmeras do personagem com seus amigos e com o meio em que eles vivem. Danny Boyle revisita o discurso “Choose Life” para atacar os novos vícios da sociedade (redes sociais, pornô, reality shows) e vale-se de uma edição audaciosa (adorei aquele ‘elevador’ artificial no prédio do Spud) e de uma trilha sonora onipresente para dar leveza e humor a um tema que é bastante sério. Talvez os três grandes momentos do filme sejam a cantoria no clube dos patriotas, a reedição da cena do “atropelamento” do Renton e o confronto final entre os personagens e Begbie, mas o que eu mais gostei foram os arcos da história que envolvem o Spud.

Desde o primeiro Trainspotting, o Spud era aquele cara engraçadão, doido e gente boa que todo mundo gosta mas que ninguém leva muito a sério. Me assustou, portanto, ver o cara tentando cometer suicídio no início desse filme. Ao escrever para a mulher antes de enfiar a cabeça dentro de um saco e asfixiar-se, Spud diz: “Eu sei que você e nosso filho estão em um mundo melhor sem todo o meu caos”. Caralho, caras. A personalidade expansiva e o jeito brincalhão do cara, no fim, revelaram-se disfarces para um vazio existencial que ele não suportou carregar. Quando Renton encontra-o e impede que ele se mate, Spud inicia um processo difícil de tentar canalizar o vício em drogas para outras atividades. Ele tenta correr, lutar boxe… tudo sem sucesso. Finalmente, quando parecia não haver mais esperanças, Spud encontra na escrita algo que ele gosta de fazer. E Spud começa a escrever sobre seu passado insano ao lado de Renton, Simon e Begbie e, para sua própria surpresa, ele vê que é bom no que faz. E é assim, canalizando suas energias e impulsos para algo produtivo e prazeroso, que o legalzão Spud começa a reencontrar seu caminho. Eu, que também tenho meus problemas, tenho jogado bastante. Pretendo voltar a escrever com regularidade também.

Velozes e Furiosos 8 (2017)

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“O mocinho vira bandido. Que clichê.”

Essa frase é dita pela Cipher (Charlize Theron), a vilã de Velozes e Furiosos 8, e resume bem o que pode ser visto neste oitavo episódio da franquia. Após 3 filmes com roteiros girando em torno de uma “última missão”, dessa vez os produtores resolveram colocar Toretto (Vin Diesel) para quebrar o pau com sua própria equipe (ou família, como ele gosta de dizer). A mudança não é uma inovação (você já viu isso antes e você verá isso outra vez), mas a autocrítica travestida de ironia do diálogo acima já é um bom indicativo de que o diretor F. Gary Gray não está lá muito preocupado com originalidade. Sem surpresa alguma, Velozes e Furiosos 8 requenta tudo o que a série já havia apresentado até aqui, porém nota-se que a busca por cenas de ação cada vez mais absurdas e grandiosas está levando a franquia para rumos distantes daqueles rachas de carro que marcaram as primeiras produções.

Dom até tentou sossegar. Após despedir-se de Brian naquele final emocionante do filme anterior, ele mudou-se com Letty (Michelle Rodriguez) para Cuba e passou a levar uma vida simples e tranquila. É claro que, vez ou outra, surge alguma possibilidade de reviver toda aquela loucura do passado (logo na abertura, Dom corre contra um zé barbicha para salvar o carro do primo de Letty), mas na maior parte do tempo o casal está fazendo coisas triviais como planejar bebês e ir ao mercado comprar pão. A desculpa para a ação surge quando Toretto é abordado por Cipher, uma hacker especializada em terrorismo digital que obriga-o a trair seus amigos e juntar-se a ela numa missão para roubar armas nucleares russas.

Tal qual aconteceu com o Velozes e Furiosos 6, que era levado pelo mistério ao redor do ressurgimento de Letty, Velozes 8 faz suspense em cima do motivo da traição de Dom. Cipher mostra algo para ele na tela de um celular e na cena seguinte o cara quase mata o grandalhão Hobbs (Dwayne Johnson) jogando-o para fora da estrada. O que Dom viu? Nos poucos momentos em que precisa preocupar-se com o roteiro, o diretor resgata acontecimentos e personagens do Operação Rio para dar sentido à chantagem de Cipher. A “revelação”, apesar de simplória, não chega a ser ruim, mas o timing definitivamente não foi bom: como sabemos quase desde o início que Dom está agindo para proteger alguém, os confrontos dele com os outros corredores perdem muito no quesito emoção. No fim, o que o trailer anunciou como “Toretto piradão tocando o terror” acaba não passando de um decepcionante “Tadinho do Dom!”.

Outro que “troca de lado” é o Deckard (Jason Statham), que é retirado da prisão pelo Mr. Nobody (Kurt Russell) para ajudar Letty e cia a localizarem Toretto. Isso ficou bem legal. Ainda que seja clara a forçação de barra para que o Statham continue na franquia e ocupe o espaço deixado pelo Paul Walker (tarefa que também está sendo empurrada para o Scott Eastwood, filho de ‘vocês sabem quem’), a tensão entre Deckard e Hobbs rende os melhores momentos do filme fora dos carros. Os personagens não chegam a reprisar a pancadaria travada no Velozes 7 (pode ser que o confronto fique para o spinoff que a Universal confirmou para a dupla), mas a troca de ofensas e ameaças entre eles é muito boa. A gente sabe que está assistindo algo bacana quando alguém diz “Quando tudo isso acabar, eu vou empurrar seus dentes tão fundo na sua garganta que tu terá que enfiar a escova de dentes no rabo pra poder escová-los”.

Mas e os carros? Velozes 8 começa com Toretto acelerando um trambolho através das ruas cubanas no melhor estilo daqueles rachas que ditaram o ritmo dos primeiros filmes. A música toca alto, todo mundo é bonito e malhado e há uma gostosona com um short minúsculo na linha de largada. É estranho notar, porém, o quão deslocada esse tipo de cena, que remete aos primórdios da franquia, soa atualmente quando comparada ao restante do material. Verdade seja dita, os carros não fazem mais a menor diferença dentro da história. Na maior parte dos casos, eles poderiam ser substituídos por motos, paraquedas ou snowmobiles sem que isso prejudicasse em nada as cenas. Velozes e Furiosos 8 até reserva tempo para o sempre engraçado Roman (Tyrese Gibson) babar em uma Lamborghini, mas é visível que os veículos modificados e as manobras impossíveis de outrora foram colocadas em segundo plano para privilegiar o espetáculo do absurdo, com os personagens disputando corrida com um submarino de guerra e Hobbs amassando paredes de metal com socos e parando bala de borracha com o peitoral. Qual o próximo passo? Carros no espaço? Corridas no deserto com Hobbs transformando-se no Escorpião Rei? Tudo é possível.

Velozes e Furiosos 8 é um filme perfeito para tu assistir no cinema comendo um balde de pipoca e tomando um copão de refrigerante. Os cenários são bonitos, a ação é constante e os diálogos motivacionais (O que importa não é a máquina, mas sim quem está atrás do volante) ditos por personagens que acumularam fortuna no mundo do crime deixam-nos motivados para trabalhar no dia seguinte. Como o público parece não cansar da franquia (o filme teve a melhor estreia de todos os tempos), é apenas uma questão de tempo para que saiam mais e mais continuações. No fim, Vin Diesel venceu tudo (carros, aviões, submarinos) e todos (Statham, The Rock, eu, você e a ‘crítica especializada’): gostando ou não, temos que respeitar um cara desses.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017)

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Antes de falar do filme, uma nota rápida sobre a minha última semana.

Após 2 meses de muitas dores, dúvidas e privações devido aquele maldito acidente de moto, finalmente consegui retornar para a minha rotina. Voltei a dar aulas de História na quarta (12/04)  e, na manhã da quinta feira (13/04), eu já estava no aeroporto realizando controle de tráfego aéreo. É bom pensar que aquele pesadelo agora faz parte do passado, mas nem a vontade de seguir em frente me fará esquecer daqueles 60 dias em que tive tempo de sobra para duvidar de mim mesmo. Dentre outras coisas, tive medo de voltar a dirigir, de não fazer falta para os meus colegas de trabalho e alunos, de não encontrar mais motivação para escrever e medo de encarar as pessoas e reconhecer que eu havia falhado.

Falhei mesmo. Por mais que o quebra molas que me derrubou esteja mal sinalizado (passei lá ontem: ele está sem pintura e a placa está oculta atrás de uma árvore), não posso negar que eu estava acima do limite de velocidade (100km/h numa via onde o máximo é 80). Daqui até o fim da minha vida, terei a lembrança da queda e uma cicatriz enorme no braço esquerdo para me recordarem do que fiz. Fui irresponsável e precisarei lidar com isso, mas o caminho rumo ao amadurecimento não precisa ser trilhado sozinho. Nesta última semana, além de ter sido muitíssimo bem acolhido nos meus locais de trabalho, ganhei um abraço carinhoso de um aluno (Valeu, Claudin!), recebi mensagens encorajadoras dos meus familiares e fui presenteado com o apoio da minha esposa, que propôs realizarmos uma viagem de moto até o estado de Goiás para que, nas palavras dela, “eu pudesse reconquistar a minha confiança ao dirigir”. Quando penso em tudo que passei, concluo que não há fardo suficientemente pesado para quem tem amigos e nem dúvida que resista a um gesto sincero de amor. Sinto-me feliz e motivado para recomeçar. Obrigado a todos que me ajudaram durante esse período difícil 🙂

Percorridos os 180km que separam Uberlândia-MG de Caldas Novas-GO, tive um final de semana bastante agradável em solo goiano. O forte de Caldas são as piscinas de água quente, a música sertaneja e a cerveja gelada, porém há uma grande variedade de opções de entretenimento na vida noturna da cidade para quem quiser algo mais sossegado, dentre elas o 7ªrte Cine Stadium. O local não é lá dos maiores (há apenas 2 salas) e a programação prioriza filmes dublados, mas as instalações são boas (cadeiras novas e limpas; sistema de som eficiente) e de fácil acesso. Mesmo contrariado por perder o áudio original e as sutilezas da voz da Scarlett Johansson, acabei vendo A Vigilante do Amanhã por lá mesmo, meio bêbado e grilado com o cara da bilheteria que não quis aceitar a minha carteirinha de estudante para pagar meia entrada.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell não foi bem nas bilheterias. Envolto numa polêmica de whitewashing (quando um ator branco é escalado no papel de um personagem que, originalmente, tinha outra raça/etnia), a produção deve acumular incríveis 100 milhões de dólares de prejuízo. Eu não fiquei empolgadão com o que vi, mas não achei o o filme tão ruim assim. O fato de terem optado pela Johansson em detrimento de uma atriz oriental certamente foi uma mancada e, como eu havia desconfiado quando resenhei o anime original, simplificaram bastante o roteiro, mas a condução pragmática e o trabalho visual do diretor Rupert Sanders são bastante eficientes.

Ambientando em um futuro próximo, A Vigilante do Amanhã mostra uma realidade em que os seres humanos podem realizar implantes cibernéticos para aprimorarem seus corpos. Após sofrer um acidente, Mira (Johansson) foi salva pela empresa Hanka Robotics, que extraiu seu cérebro e implantou-o num corpo de metal, transformando-a em um ciborgue. Algum tempo depois, Mira, que agora trabalha para o governo e é conhecida como Major, está no meio de uma operação secreta em que ela precisa monitorar uma conversação entre um executivo da Hanka e um político. A reunião é encerrada abruptamente quando ciborgues em formato de gueixa começam a atacar e hackear os cérebros dos participantes, o que obriga a Major a invadir o local e utilizar a força para controlar a situação. No fim, após dizimar a ameaça, ela ouve de uma das gueixas que “quem colaborar com a Hanka será destruído”.

Mira e seu parceiro Batou (Pilou Asbaek), que trabalham sob o comando do Chefe Aramaki (Takeshi Kitano), iniciam então uma investigação para descobrir o responsável pelo ataque das gueixas. Em linhas gerais, A Vigilante do Amanhã segue a mesma narrativa de O Fantasma do Futuro, com a Major esgueirando-se através dos becos sujos de Tóquio perseguindo um inimigo sem rosto. O remake difere-se do original mais nos detalhes e na profundidade em que o tema da individualidade é abordado. Seguem algumas diferenças:

  • Visual: A Major, infelizmente, está mais “comportada”. O corpo de ciborgue dela, que era praticamente idêntico ao de uma mulher normal, ficou com um visual “emborrachado” para suavizar as cenas de nudez. Já o Batou, que no original não tinha nada que acusasse sua natureza cibernética, ganhou olhos biônicos após ser ferido em uma explosão. A maior mudança, porém, foi no vilão: o Mestre dos Fantoches, hacker que transferia a própria consciência para a rede e que agia como um vírus, foi substituído por Kuze (Michael Pitt), um experimento defeituoso da Hanka Robotics. Pessoalmente, eu gostava mais da ideia quase abstrata do anime.
  • Cenas de ação e violência: O diretor Rupert Sanders recriou com maestria o clima noir e a estética cibernética de O Fantasma do Futuro, mas não podemos dizer que ele teve o mesmo êxito com a ação. Por mais que a clássica luta no “espelho d’água” tenha ficado idêntica, os momentos mais violentos do filme (como o assassinato do embaixador e o confronto com o tanque do final) perderam sangue, vísceras e impacto.
  • “Individualidade”: A Vigilante do Amanhã abre mão de praticamente todo o subtexto político do anime para concentrar-se na história de Mira. Ainda que a personagem tenha uma ou duas digressões sobre sua condição de ciborgue, o diretor optou mesmo foi por focar no passado dela. Essa decisão alterou significativamente o final da trama (pra pior, ao meu ver), mas deixou o roteiro mais enxuto e acessível.

A Vigilante do Amanhã é um filme mais simples e funcional do que O Fantasma do Futuro. Isso é bom em certos pontos (achei mais fácil acompanhar a história) e ruim em outros (sem a violência, a nudez e a ‘esquisitice’, perdeu-se a aura ‘cult’). Futuramente, num dia que eu não tiver nada melhor para fazer, pretende vê-lo novamente nem que seja para rir do visual estranho da Johansson, que ficou parecendo o Jesse Eisenberg com aquele cabelinho na cara rs

Ghost in the Shell – O Fantasma do Futuro (1995)

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A versão hollywoodiana do Ghost in the Shell, aquele clássico da animação japonesa de 1995, está disponível nos cinemas desde a semana passada, porém antes de ir assisti-lo eu achei melhor conhecer e resenhar a obra original.

*Pausa para adivinhar o pensamento do leitor* Como assim cara? Você, que se diz um cinéfilo, até hoje não havia assistido esse filme OBRIGATÓRIO?

Pois é amigos, que vergonha, né? Acontece que, mesmo sabendo da aura cult que cerca o anime (que é considerado um trabalho seminal dentro do gênero cyberpunk), até hoje eu não havia encontrado uma oportunidade para vê-lo (ainda que eu tenha tido tempo para ver esta merda aqui). Fala-se muito mal dessa “onda de remakes” de Hollywood (na maioria das vezes com razão), mas algo que eu sempre achei válido na ideia de resgatar clássicos é que, mesmo que indiretamente, essas novas roupagens acabam despertando o interesse do público pela produção original. Descobri bons filmes desse jeito, e foi assim que eu finalmente criei vergonha na cara e coloquei o Ghost in the Shell pra rodar. Nos últimos dias, aliás, eu vi ele duas vezes.

Seria bem legal dizer que realizei uma segunda sessão porque gostei demais da primeira, mas a grande verdade é que, se eu não tivesse revisto, eu não teria a mínima condição de escrever essa resenha. Resumidamente, eu não entendi patavinas da história. As cenas de ação são brutais e a mistura de computação gráfica com animação tradicional dá um visual incrível e futurista para o cenário, mas a trama envolvendo temas como terrorismo, política e existencialismo não entrou na minha cabeça de jeito nenhum. Na boa? Não fiquei nenhum pouco triste ou preocupado com isso.

Dia desses, uma amiga fez um post no Facebook dizendo que sentiu-se “tonta” por ver Donnie Darko e não “entender nada”. Antigamente eu também me sentia assim, mas com o tempo eu fui percebendo que tem obras que simplesmente não foram concebidas para serem digeridas de uma só vez. É muita pretensão, por exemplo, querer assistir algo da magnitude de um Interestelar e entender de cara todos aqueles diálogos carregados de física quântica. Independente dos temas complicados que escolher trabalhar (viagem no tempo SEMPRE dá nó na cabeça), o filme precisa funcionar, mas isso não quer dizer que o roteiro precise entregar tudo mastigadinho para o espectador. A força de filmes como Donnie Darko, por exemplo, está justamente no fator replay, ou seja, tu assisti-lo novamente utilizando informações que você não tinha da primeira vez para preencher lacunas e chegar a um novo entendimento, tal qual um quebra cabeças que vai sendo montado aos poucos. Foi mais ou menos isso que eu fiz com Ghost in the Shell. Eis o que compreendi das duas sessões.

No ano de 2029, a tecnologia permite que a consciência humana seja extraída do corpo e implantada em ciborgues. As pessoas que realizam essas modificações não tornam-se imortais, visto que seu cérebro/banco de dados pode sofrer danos permanentes  e que, regularmente, os corpos cibernéticos precisam de manutenção, mas o processo confere superforça, supervelocidade, acesso a uma infinidade de informações via download instantâneo e resistência contra doenças. No futuro sombrio dominado por megacorporações imaginado pelo escritor Shirow Masamune, ser um ciborgue é estar preparado para lidar com ataques terroristas e com a violência das grandes cidades.

A Major Motoko é uma ciborgue que trabalha para o governo utilizando força bruta quando as coisas saem do controle ou tornam-se demasiadamente complexas para a polícia comum resolver. Exemplo: um diplomata de um país vizinho quer extraditar e dar abrigo para um importante programador. Pela lei, nada poderia impedi-lo de ajudar o sujeito, então Motoko é enviada até o local e mete uma bala bem no meio das fuças do diplomata, desaparecendo logo em seguida, tal qual um fantasma, sem deixar rastros. É difícil duvidar do profissionalismo da Major após vê-la executar com frieza uma ordem sanguinária dessas, mas o surgimento de um famoso hacker trará à tona sentimentos e dúvidas que a personagem havia ocultado sob as placas de metal de seu corpo.

Da primeira vez que assisti, boiei completamente na parte “política” da historia. Os diálogos rápidos do anime e as muitas referências à personagens governamentais fictícios me confundiram bastante. Enquanto eu ainda estava tentando entender a relação do ditador exilado no Japão e o hacker, que é conhecido como Mestre dos Fantoches, a Major estava lá descendo o cacete num maluco em um laguinho, filosofando sobre sua individualidade e, finalmente, lutando contra um poderosíssimo tanque no clímax da trama. Eu respirei e o filme, que é bem curto (1h23min) acabou. Não tive nenhuma dúvida relacionada a qualidade visual do trabalho do diretor Mamoru Oshii (20 anos depois, a animação ainda é muito bonita), mas reconheci que o roteiro havia me escapado e resolvi ver outra vez.

A real é que a trama política é o que menos importa em Ghost in the Shell. O controle governamental sobre o cidadão comum é ferrenho, a politicagem come solta em negociações internacionais escusas e há brigas de hierarquia dentro dos vários setores do governo. Tudo fichinha para quem lê jornal diariamente no Brasil. O que dá sentido para o roteiro são os questionamentos de Motoko sobre sua condição de ciborgue. Se você ainda não assistiu o anime e pretende fazê-lo, aconselho-o a focar nisso. Todas as certezas que a Major tinha sobre si mesma desmoronam quando ela percebe que o tal Mestre dos Fantoches é capaz de produzir memórias e introduzi-las nos cérebros alheios. Se nossas lembranças podem ser criadas e manipuladas, o que definirá nossa individualidade? O que nos fará diferentes das máquinas? Vale a pena ser apenas um vulto dentro de um corpo metálico poderoso, um fantasma numa concha?

Esses questionamentos desenvolvem-se em cima da subtrama política citada e num cenário distópico em que a tecnologia de ponta contrasta com a pobreza absoluta. Ghost in the Shell conta ainda com pelo menos 3 cenas de ação frenéticas, com a Major e seus aliados (Batou e Togusa) fazendo sangue jorrar pra valer e, muita, muita nudez. O trailer do remake mostra a Johansson com um corpo metálico estilizado bem diferente da Motoko peladona da animação que, por fora, não tem absolutamente nenhuma diferença de uma mulher comum. Que vacilo, Hollywood! Como é certo que tornarão o material mais palatável para o público dos blockbusters, exagerando na ação e simplificando o roteiro (parece que o Mestre dos Fantoches deixou de ser um programa para ser um personagem físico), torço para que A Vigilante do Amanhã seja ao menos um filme que também dê vontade de assistir mais de uma vez, visto que Ghost in the Shell eu repeti e não veria problema algum em partir para uma terceira sessão.

Divines (2016)

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divinesA cerimônia do Globo de Ouro 2017 foi realizada no último domingo, dia 08/01. Eis alguns comentários sobre o que vi (e alguns sobre o que li no dia seguinte):

  • La La Land: Cantando Estações levou tudo. Indicado em 7 categorias, o musical terminou a noite com 7 estatuetas e transformou-se no favorito para vencer o Oscar de Melhor Filme deste ano. Moonlight: Sob a Luz do Luar (e dá-lhe subtítulo tosco!) levou o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e correrá por fora (apesar que, considerando o que houve em 2016, sempre pode surgir um azarão).
  • O Rubens Ewald Filho continua insuportável. Fora os comentários rasos sobre os concorrentes (quando perguntado sobre o Ryan Gosling, ele disse que é um ator ‘interessante’), o crítico foi grosseiro ao menosprezar a vitória do Casey Affleck, classificando-a como “uma grande bobagem”. Pessoalmente, eu também preferia o Denzel, mas daí a dizer que o Casey é um ator ruim é MUITA babaquice.
  • Que bom que a Isabelle Huppert venceu na categoria Melhor Atriz – Drama. A performance visceral dela não merecia ser eclipsada pelo fato do Elle ter sido feito fora de Hollywood.
  • A Meryl Streep foi homenageada com o prêmio Cecil B. DeMille pelo conjunto da obra e, no discurso de agradecimento, fez duras críticas ao comportamento do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, bem como às suas promessas de políticas anti-imigracionistas. No outro dia, as redes sociais estavam cheias de mensagens de apoio à atriz, mas também houve quem acusasse-a (como o próprio Trump fez) de mentir por não aceitar a derrota dos democratas na última eleição. Do ocorrido, extrai-se que, mesmo que aos trancos e barrancos, a liberdade de expressão ainda respira (ela pode acusá-lo, sem provas, de zombar da deficiência de um repórter; ele pode dizer que ela, vencedora de 3 Oscars, é uma atriz superestimada). Também conclui-se que a internet transformou-se no grande tribunal do século XXI. Eu, que também sou juiz, achei que o apelo da atriz por tolerância, respeito e paz perdeu-se um pouco na insistência sobre o caso do deficiente e na comparação infeliz entre cinema e MMA. Esses “deslizes”, porém, não invalidam o resto da mensagem, ou alguém discorda que “violência gera violência e desrespeito gera desrespeito”? As vezes, é bom analisar mais os discursos e menos os oradores.

Divines (que provavelmente sairá por aqui como Divinas – Duas Garotas da Pesada), produção original da Netflix da diretora Houda Benyamina, concorreu ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Assisti-o sem muitas expectativas (ele não entrou na lista final de produções indicadas ao Oscar e, no Globo, os favoritos eram o Elle, que ganhou, e o The Salesman) e encontrei um filmão, daqueles que tu termina e tem vontade de sair comentando e indicando para todo mundo.

divines-cena-2Dounia (Oulaya Amamra) é uma adolescente lutando para sobreviver na periferia de Paris. Filha de uma prostituta alcoólatra (!!!), Dounia pratica pequenos roubos nos supermercados locais para adquirir produtos que, posteriormente, ela e Maimouna (Déborah Lukumuena), sua amiga, venderão na escola durante os intervalos. Foi após ver uma cena ambientada nessa escola, aliás, que eu perdi o meu chão.

No que parece ser uma aula profissionalizante, uma professora tenta ensinar as atribuições de uma secretária para as alunas. “Boas secretárias”, ela diz, “sorriem, sentam com a coluna ereta e estão sempre preparadas para resolverem conflitos”. Dounia, que é literal e metaforicamente uma filha da puta, atrapalha a aula de todas as formas possíveis. Com a paciência no fim, a professora pergunta se Dounia não pensa no futuro, se ela não quer ganhar dinheiro. A resposta da menina é fulminante: “Ser secretária pra quê? Para ter a mesma vida miserável que você? Quanto você ganha? O suficiente para pagar o aluguel, água, energia, telefone e comprar essas roupas feias que você usa? Eu quero MONEY, MONEY, MONEY!”. A sala inteira ri. Irritada, a professora expulsa Dounia da sala.

divines-cena-5O incômodo com o que vi não deixa de ser uma reação natural de empatia. Eu também sou professor e, infelizmente, já vivi situações semelhantes, logo é fácil imaginar a frustração que aquela mulher passou. O vazio que senti, no entanto, vai um pouco além da empatia. Em um primeiro momento, eu até fiquei com raiva de Dounia. Vai ser grossa assim lá na puta que pariu! Na sequência, porém, eu não pude deixar de reconhecer que há uma verdade inconveniente no que ela diz. O planejamento de vida a longo prazo baseado na escola (estudar, aprender uma profissão, batalhar por alguns trocados) deixou de ser uma opção para os jovens que crescem acostumados com a velocidade da internet. Eles não querem conselhos sobre coluna ereta e nem promessas de um futuro estável, eles querem dinheiro, sexo, roupas de marca, bebidas e carros, tudo aqui e agora. Nós, um dia, também desejamos o mesmo, mas daí crescemos, apanhamos um pouco da vida e percebemos que não existem muitos atalhos: se você quer algo, você tem que esforçar-se para consegui-lo. É ruim ver que, por melhor que sejam nossos argumentos, nós não conseguimos mudar a cabeça de alguns jovens. Infelizmente, eles também precisam se ferrar para aprender, e em Divines Dounia se ferra pra valer.

divines-cenaApós virar as costas para a escola e perceber que a mãe não lhe dará nenhum futuro, Dounia e Maimouna começam a trabalhar para Rebecca (Jisca Kalvanda), uma traficante local. No início, elas realizam tarefas simples, como vigiar o quarteirão para certificar-se que a policia não aparecerá no meio de uma venda de drogas, mas logo Rebecca decide usar a inteligência e a beleza de Dounia para faturar alto. Na cidade, há um figurão que guarda 100mil dólares em casa. Caberá a Dounia seduzi-lo e rouba-lo.

Divines tem o mesmo poder de assustar/conscientizar que, em seu tempo, filmes como Eu, Christiane F., Diário de um Adolescente e Réquiem para um Sonho tiveram. A diretora Houda Benyamina construiu uma narrativa do tipo “ascensão e queda” bastante didática e atual para mostrar para os jovens (ou até mesmo para os adultos que não amadureceram) que não há como escapar das consequências de atos ilícitos. As meninas divertem-se muito antes dos problemas acontecerem (há uma cena verdadeiramente divina, tanto pela execução quanto pela atuação das atrizes, em que elas fingem dirigir uma Ferrari ), mas, no fim, a conta chega. É um filme moralista? É, mas um pouco de moralismo não faz mal para quem maltrata professores e acredita que pode sair por aí roubando, vendendo drogas e ganhando Iphone de graça, não é mesmo?

divines-cena-4A diretora não desconsidera o ambiente ruim em que Dounia cresceu (família desestruturada, vizinhança violenta). Houda parece ser partidária da ideia de que as condições influenciam, mas não determinam o destino de alguém, e por isso gasta um tempo mostrando que, apesar de tudo, há caminhos (o amor, a arte, a amizade) fora do crime para que os jovens possam escapar das armadilhas de uma sociedade em que eles valem o que consomem. Como eu concordo com ela, levarei Divines para os meus alunos verem esse ano, não para ditar caminhos, mas para dar exemplos e mostrar que sempre haverá mais de uma opção.

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A Qualquer Custo (2016)

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a-qualquer-custoA Qualquer Custo, produção do diretor David Mackenzie cotada para figurar entre os concorrentes ao Globo de Ouro/Oscar de 2017, retrata sentimentos e problemas contemporâneos dos norte americanos que nós, brasileiros, não deveremos ter muitas dificuldades para identificar e estabelecer paralelos com nossa própria realidade.

Vive-se no país um período de desilusão política provocado por denúncias diárias de corrupção. Tanto os partidos de esquerda quanto os de direita tiveram alguns de seus principais líderes presos e/ou denunciados em esquemas de recebimento de propina e de desvio de verba, de modo que a desconfiança da população nas instituições públicas está cada vez maior. Nesse cenário de apatia onde reina a sensação de que “todos políticos são iguais (ladõres)”, a tendência é que líderes com discursos extremos e nacionalistas despontem como opção à democracia fragilizada. Salvas as devidas proporções, foi isso que aconteceu na Itália e na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e é isso que tanto explica o resultado da última eleição presidencial dos Estados Unidos quanto desenha um futuro sombrio para o Brasil em 2018.

No caso específico dos EUA, o desencantamento político ainda vem acompanhado pela crise do liberalismo enquanto sistema econômico. Entre outras coisas, Donald Trump ganhou porque conseguiu falar direto no coração daqueles americanos que, desde 2008, amargam a recessão econômica provocada pelas especulações no mercado imobiliário (tema que é trabalhado neste filme aqui). Trump propôs medidas protecionistas e nacionalistas (rever acordos internacionais, taxar importações, expulsar imigrantes ilegais do país) e mostrou-se disposto a enfrentar o poderio de Wall Street para proteger os trabalhadores. Trump falou o que os americanos desiludidos com o governo democrata queriam ouvir, e nisso o fato de ele ser um bilionário xenófobo, misógino e homofóbico acabou não importando muito. Para salvarem seus próprios pescoços, os eleitores mostraram-se dispostos a pagar qualquer preço, e é sobre esse tipo de guinada radical que A Qualquer Custo trata.

a-qualquer-custo-cena-4Os irmãos Toby (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster) estão assaltando bancos em cidadezinhas do interior do estado do Texas. O esquema é simples: eles entram nas agências armados e usando capuzes, anunciam o assalto, rendem os funcionários, limpam os caixas e os cofres e depois fogem em um carro levando o dinheiro. Para prendê-los, a polícia designa os oficiais Marcus (Jeff Bridges) e Alberto (Gil Birmingham). Marcus está prestes a aposentar-se e quer levar os assaltantes à justiça para coroar sua longa carreira, mas de alguma forma ele não consegue deixar de ficar intrigado pelo padrão dos crimes que está investigando: além das ações de Toby e Tanner restringem-se a apenas uma rede bancária, eles não saem das agências levando quantias significativas de dinheiro. Por que alguém arriscaria a ser preso por tão pouco?

Essencialmente, o filme do diretor David Mackenzie fala de um cidadão que decidiu chutar o pau da barraca e usar o sistema contra o próprio sistema para resolver os problemas provocados pela crise econômica. Toby está na merda. Sem estudo e profissão, ele separou-se da mulher e perdeu a mãe, da qual ele herdou apenas um rancho no meio do nada. O terreno pode até ser explorado (há jazidas de petróleo no subsolo), mas o banco ameaça tomá-lo caso o pagamento de uma hipoteca não seja executado. Sem muito o que fazer, Toby convence seu irmão a ajudá-lo em alguns assaltos para levantar o dinheiro necessário para quitar a dívida. Tanner, que acabou de sair da prisão e não demonstra nenhum receio em voltar para lá, topa a ideia na hora.

a-qualquer-custo-cenaEscrevi ali no último parágrafo que Toby “não tinha muito o que fazer”, mas é claro que ele poderia utilizar outros meios que não fossem o do crime para resolver seus problemas. A grande questão de A Qualquer Custo é que Toby, conscientemente, não quer trilhar o caminho mais longo e difícil. Quando olha ao redor, o personagem só vê pobreza e morte (a edição mostra muitos locais sucateados e cidades desertas, dando um ar desesperador para as terras áridas do Texas), e ele não quer que seus filhos amarguem o mesmo tipo de vida miserável que ele levou. Toby não quer um emprego em uma lanchonete (como uma funcionária lhe sugere) e não quer fazer um empréstimo (como as várias placas na estrada oferecem): ele quer uma solução imediata e eficaz, e se isso significa ir contra a lei, então que assim seja. Toby votaria em Trump sem pestanejar.

A Qualquer Custo trata das consequências diretas da falta de credibilidade do governo para resolver os problemas dos cidadãos, mas não vi uma tentativa deliberada de legitimar atos extremos e/ou criminosos. O discurso de Toby sobre acabar definitivamente com a pobreza impregnada em sua família é tocante e convincente, mas ele não vê-se como um herói e o filme não tenta mostrá-lo como tal. A decisão do personagem de reivindicar seu “espaço vital”, aliás, tem consequências diretas e negativas na vida de muitas pessoas. A lei, que não por acaso é personificada em um Jeff Bridges velho e cansado, pode até estar enfraquecida e desacreditada em um cenário onde as instituições defendidas por ela não passam confiança, mas ainda assim é a ordem que prevalece no final.

a-qualquer-custo-cena-2Além de tratar de temas atuais, A Qualquer Custo é relevante por trazer mais de um ponto de vista sobre o papel do cidadão comum nos tempos de crise, apontando o caráter pernicioso das instituições financeiras e políticas mas também condenando os rampantes de violência individual, e funciona como uma atualização do gênero western, visto que os assaltos a banco e o confronto entre bandidos e mocinhos são os elementos ao redor dos quais a trama é construída. Gostei bastante da condução do Mackenzie, que valoriza os pequenos momentos (é muito bacana ver o Jeff Bridges bater o chapéu naquela luminária do motel) sem abrir mão da dramaticidade e da emoção das grandes sequências de ação (como o inevitável acerto de contras entre os irmãos Howard e a polícia), e da atuação tresloucada do Ben Foster, que ficou legalzão atirando na galera enquanto reivindica para si o título de “Senhor das Planícies”. De fato, este filme tem tudo para ser indicado e destacar-se na próxima temporada de premiações.

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Plano de Fuga (2012)

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plano-de-fugaFoi o saudosismo que me trouxe até este Plano de Fuga.

  • Quando o filme foi lançado, em 2012, eu morava em São José dos Campos-SP. Para nossa minha alegria, tinha um cinema que ficava a uns 10min de caminhada da minha casa. Vi muitos filmes lá, mas não vi todos que eu queria porque também foi um ano de muito estudo. Plano de Fuga foi um dos títulos que passou batido e assisti-lo agora meio que representou uma volta àqueles dias inesquecíveis.
  • Pelo pouco que eu lembrava do trailer, a produção era um daqueles filmes de ação exagerados que eu, meninão adolescente, adorava assistir na Globo domingo à tarde. Carros, explosões, bandidos malvadões e o Mel Gibson mau humorado: eis a cara da Temperatura Máxima, templo nacional de toda a testosterona fabricada em Hollywood na década de 80.
  • Estou com saudade do México. Já passaram-se dois meses desde que minhas férias por lá acabaram e estou sentindo falta daquele calor de 38° na sombra as 08 da manhã. Ver Plano de Fuga, cuja história passa-se em solo mexicano, foi a forma mais fácil que encontrei de aliviar um pouco a saudade.

E foi assim, ansiando resgatar alguns bons sentimentos, que coloquei o filme para rodar e vi aquela cena insana de perseguição de carro que abre a trama. Gibson, que é identificado apenas como “Piloto”, pode ser visto atrás do volante de um carro em alta velocidade fugindo de uma infinidade de viaturas de polícia. No banco traseiro, alguns milhares de dólares e um homem morto. Sei que vou parecer ranzinza, mas algo que vi nesta cena me fez desconfiar que não seria com Plano de Fuga que eu revisitaria satisfatoriamente o passado.

plano-de-fuga-cenaEste é daqueles filmes em que o personagem principal narra a história. Enquanto o pau está quebrando, tu vai ouvindo o que o cara está pensando graças ao recurso conhecido como “voz em off”. O formato em si é muito bom, o que pega negativamente é o senso de humor do Piloto: logo de saída ele faz uma piadinha cretina sobre o tal morto estar sangrando e sujando o dinheiro. É o tipo de sacada que deveria soar engraçada e fazer a gente rir, mas eu nem esbocei um sorriso. Infelizmente, as coisas não melhoram muito nesse sentido ao longo do filme. A minha crítica, acreditem, não tem nada de politicamente correta. Uma das únicas coisas que achei engraçada aqui, aliás, foi uma criança fumando um cigarro 😀 O ponto é que o roteiro de Plano de Fuga foi feito para soar irônico e malandrão mas quase nada funciona. Até a piada potencialmente boa com o Clint Eastwood acaba tropeçando no texto ruim e na imitação sem sal do Gibson.

plano-de-fuga-cena-2Se ignorarmos o humor capenga, sobra um filme de ação deveras genérico cujo ritmo é prejudicado por arcos de história pouco interessantes. Após a perseguição, o piloto é capturado e enviado para uma prisão no México. Os policiais locais embolsam o dinheiro que ele transportava e jogam-no numa cela para apodrecer. Plano de Fuga divide-se então em 3 momentos:

  • A prisão: O presídio para o qual o protagonista é enviado é uma zona total. O pior do pior da humanidade pode ser encontrado em todos os cantos do local e atividades como prostituição e tráfico de drogas correm soltas comandadas por um figurão do crime. O Piloto faz amizade com o “menino” (os personagens aqui não tem nome) e começa a procurar uma forma de reaver sua grana e escapar. Na boa que o menino é o melhor personagem do filme, mas a parte da história que envolve a mãe dele e um transplante de fígado é bem chata.
  • A fuga e Clint Eastwood: Interessado na grana que os policiais roubaram, o tal “figurão da prisão” ajuda o Piloto a escapar para que ele localize o dinheiro e elimine rastros e pessoas ligadas a ele. É aqui que rola a tal imitação do Clint e uma boa cena envolvendo um escritório e algumas granadas. Essa sequência, aliás, lembra bastante o tipo de ação que pode ser vista no ótimo O Troco, filme que também foi estrelado pelo M. Gibson e do qual Plano de Fuga parece ser uma continuação não oficial.
  • Crash, Boom, Bang: O Piloto retorna para a prisão para libertar o menino e a mãe e então rola aquele final padrão de filme de ação em que todo mundo atira em todo mundo mas só o protagonista parece saber mirar. Um transplante de fígado bizarro que é enfiado no meio do tiroteio para aumentar o potencial emocional da cena é a única coisa que lembro dessa conclusão.

Plano de Fuga não mostrou-se a altura de todo o saudosismo que envolveu o meu planejamento para assisti-lo: o filme do diretor Adrian Grunberg tropeça na falta de bons diálogos e piadas, as cenas de ação são bastante clichês, o Mel Gibson parece cansado e o México é mostrado em sua pior faceta. No fim, só fiquei feliz mesmo por não ter gastado dinheiro para vê-lo no cinema 😀

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