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Toni Erdmann (2016)

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toni-erdmannNa madrugada do dia 10 para o dia 11 de fevereiro de 2017, às 04:18, eu tive a minha vida interrompida por um acidente de moto. Eu voltava para casa com a minha esposa após vermos uma banda cover do Audioslave quando passamos em alta velocidade sobre um quebra-molas e fomos parar no chão. O obstáculo foi construído recentemente, logo eu fui me dar conta dele apenas quando já era tarde demais para frear. Eu sei a hora exata do acidente porque o meu relógio, que foi destruído pelo impacto, parou de funcionar para sempre com a queda.

Fiquei triste por perder tão estimado objeto (presente de natal da esposa), mas, felizmente, devo reconhecer que sou um homem de sorte. Apesar de ter rolado no asfalto através de um quarteirão inteiro, a minha moto, uma Fazer 250cc, apenas ralou algumas partes da carenagem. O notebook que estou utilizando agora para escrever este texto escapou ileso. E eu e minha esposa, que fomos arremessado no chão após um impacto à 100km/h, estamos vivos e inteiros.

Logicamente, nós não escapamos ilesos. Ela precisou dar 4 pontos no joelho e ralou bastante uma perna e eu me fodi todo. Quando caí, projetei minhas duas mãos pra frente. Nisso, do lado esquerdo, eu quebrei o dedo mindinho e, apesar da brava resistência do meu finado relógio, ralei pra valer o braço na região próxima ao cotovelo, o que certamente me garantirá uma cicatriz badass e, consequentemente, uma desculpa para mais uma tattoo. Do lado direito, quebrei um osso próximo a junta (me parece que foi a ulna) e vi a pele da palma da mão ser completamente consumida pelo asfalto impiedoso. Resultado: já estou há 20 dias com os braços imobilizados, recebendo comida na boca e sem poder lavar a minha própria bunda, e ficarei assim pelo menos mais 2 semanas.

tony-erdmann-cena-3Experimentei vários estados de espírito desde o acidente. No início, senti desespero e vergonha. Não foi fácil ver minha esposa machucada e saber que, apesar da péssima sinalização do novo quebra-molas (a placa está atrás de uma árvore), eu fui o grande responsável pelo ocorrido. No dia seguinte, após sair do hospital, eu ainda tive que encarar os meus sogros e assumir a bronca. Depois disso veio o medo e as incertezas, visto que eu precisei ser afastado dos meus dois cargos (professor e controlador de voo). Por último, veio a tristeza de ver minha vida paralisada: tive que interromper a cobertura que eu estava fazendo do Oscar, desmarcar as aulas na autoescola (estou tirando habilitação de carro), abandonar academia, corridas no parque, passeios e planejamentos de aula que eu havia preparado para este ano. Minha rotina era cansativa, mas ser arrancado dela dessa forma foi quase como morrer em vida. Chorei muito no início, mas logo a razão voltou e eu percebi que, mediante o que aconteceu (e, principalmente, a tudo que PODERIA ter acontecido), eu não devo perder mais tempo com lamúrias. Chala Head Chala, não importa o que aconteça, tudo vai ficar melhor!, não é mesmo?

tony-erdmann-cenaTodo caso, tenho certeza que o leitor, apesar de compreensivo, não está interessado em mensagens de superação baseadas no Dragon Ball, certo? Vamos então ao plano de contingência para o blog, comentários sobre o Oscar e, claro, sobre o filme em questão, o alemão Toni Erdmann.

Pessoal, a grande verdade é que, por ora, eu não tenho a mínima condição de manter o blog atualizado. Já retirei alguns curativos e estou com alguns dedos livres, o que me permitiu escrever este texto ao longo de uma tarde inteira ao custo de muita dor e suor, mas não pretendo repetir essa tarefa tão cedo. Eu precisava desabafar, dar uma satisfação para quem visita a página regularmente e resenhar este filme antes que eu me esquecesse do que vi (já fazem mais de 3 semanas), mas paro por aqui. Preciso recuperar minhas mãos e isso demanda repouso.

Sobre o Oscar:

  • Coitados do Warren Beatty e da Faye Dunaway por terem sido escalados para um dos momentos mais grotescos da história da cerimônia. Pessoalmente, o meu favorito era o La La Land, mas entendo que o Moonlight, além de ser muito bom e bem feito, tem muito mais a dizer no contexto político e cultural atual. A vitória foi merecida, porém o êxito ficou maculado pela confusão na hora da entrega da estatueta. Sinceramente, ninguém deveria ser chamado em um palco para agradecer a mãe por algo que não ganhou.
  • Melhor Atriz para a Emma Stone numa categoria que tinha a Isabelle Huppert foi um erro ainda maior do que premiar o Casey Affleck em detrimento do trabalho monumental do Denzel Washington no Cercas, que por aqui sairá com o título tosco de Um Limite Entre Nós.
  • Pô, Academia! Moana é bem melhor do que Zootopia!
  • Nada contra o ótimo Mahershala Ali, mas a curta participação dele no Moonligth, ao meu ver, foi inferior ao que o Michael Shannon fez no Animais Noturnos, filme esse, aliás, que soma-se ao Capitão Fantástico como os grandes injustiçados do Oscar 2017.

tony-erdmann-cena-4Toni Erdmann concorreu e perdeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para O Apartamento. O longa, que foi escrito e dirigido pela alemã Maren Ade, vale-se muitas vezes do bizarro e do ridículo para passar uma válida mensagem contra o estresse e a seriedade excessiva do mundo adulto. Tony Erdmann é o alterego que Winfried (Peter Simonischek) usa para divertir-se e aliviar a tensão de seus conhecidos com piadas e brincadeiras. Após encontrar a filha, a ultra metódica Ines (Sandra Hüller) e perceber que ela não está muito feliz no cargo de executiva de uma grande empresa, Winfried vale-se de seu personagem doidão para tentar ajudar a moça. Acontece de tudo aqui: queijo ralado na cabeça, dentadura falsa, uma cena esquisitíssima de masturbação, interpretação “destruidora” da clássica The Greatest Love of All da Whitney Houston, uma festa com todo mundo pelado e uma fantasia de um gigante peludão que deixaria o Chewbacca com inveja. É um filme longo (2h40min) e estranho, mas também é um filme do qual a gente sai feliz e com novas e boas perspectivas. Em breve, a história ganhará uma versão hollywoodiana, produção que marcará o retorno às telas do grande Jack Nicholson.

Bem, é isso. Desculpem-me por ter falado pouco do filme, mas eu juro que fiz o meu melhor. Se tudo der certo, dentro de uns 20 dias eu tiro o gesso e o restante dos curativos e volto a escrever normalmente. Por enquanto, estou feliz por estar vivo, contente por ter conseguido finalizar este texto (me fez sentir ‘normal’ outra vez) e agradecido por ter alguém ao meu lado que, neste momento de dificuldade, está sendo extremamente paciente, amorosa e me ajudado em tudo. Desculpa por ter tentado voar sem asas, Renata. Obrigado por tudo (prometo dar menos trabalho na hora do banho). Te amo.

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Capitão Fantástico (2016)

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capitao-fantastico“O negócio é largar tudo, mudar para o meio do mato, comer banana e ler Marx”

Ouvi (e falei) muito isso entre 2004 e 2010, período que cursei História na Universidade Federal de Uberlândia. Depois de ficar sentado 3h30min numa cadeira desconfortável, sentindo o perfume suave da Mary Jane e ouvindo os professores falando sobre os males da sociedade de consumo, a gente meio que experimentava um tilt mental ao tentar casar teoria e prática. O homem é primata, o capitalismo é selvagem e a revolução (viva!) é o caminho, mas ainda assim no outro dia eu levantaria cedo para trabalhar e, provavelmente, iria ao cinema no final de semana ver algum blockbuster dirigido pelo Michael Bay. Na saída, uma promoção do Big Mac (sem cebola) com Coca. Coerência zero.

Brincávamos, portanto, com a dificuldade de lutar contra o sistema inseridos no próprio sistema. Como, ao nosso alcance, haviam apenas ações paliativas e projetos a longo prazo (consumir apenas o necessário, votar no barbudão eloquente do PSTU), vez ou outra imaginávamos como seria chutar o balde de verdade. Movimentos sociais e luta armada? Não, isso dá muito trabalho, é perigoso e dependente da vontade alheia. Por que esperar se, hoje mesmo, poderíamos encontrar um lugar longe das garras da mais-valia para viver uma vida rica em fibras e vitaminas? Por mais “tentadora” que fosse essa visão, no entanto, nenhum de nós enveredou por esse caminho. A maioria de nós, aliás, hoje está lecionando em escolas públicas, passando o sonho de uma sociedade mais justa adiante. Sabe como é, né? Os boletos vencem impiedosamente no quinto dia útil do mês. Apresento-os agora Ben (Viggo Mortensen), um homem que teve mais culhões do que todos nós juntos.

capitao-fantastic-cena-2Não sei se Ben gosta de bananas, mas ele certamente não depende delas (ou de qualquer outro alimento fácil de ser conseguido) para sobreviver. Ben é um ótimo caçador, tem preparo físico de atletas olímpicos e é uma enciclopédia ambulante. Há muitos anos, ele decidiu afastar-se da sociedade e mudou-se para um pequeno acampamento no meio de uma floresta. Lá, ele e a mulher, Leslie (Trin Miller), criaram seis filhos (Bo, Kielyr, Vespyr, Rellian, Zaja e Nai), oferecendo-os conhecimentos avançados de literatura, medicina, leis e matemática, bem como treinamento físico e técnicas de luta e sobrevivência. O isolamento, que era interrompido apenas para viagens rápidas até a cidade em busca de equipamentos e suprimentos, tendia a continuar até o fim da vida de todos, mas aí Leslie comete suicídio e obriga Ben e os filhos a deixarem o acampamento temporariamente para irem até o velório, que será em outro estado.

Capitão Fantástico, filme do diretor e roteirista Matt Ross que garantiu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator – Drama para o Viggo Mortensen, fala sobre os benefícios e malefícios de viver afastado da sociedade. Ross realiza esta discussão através de um viés político/econômico/cultural, opondo capitalismo (a vida em sociedade com todas suas futilidades e vícios) e socialismo (vida intelectual e austera) de forma meio caricata, o que torna o filme um prato cheio para debates ideológicos acalorados, mas também há outras nuances que chamam a atenção, como o processo de educação infantil e o poder da autocrítica.

capitao-fantastic-cenaOs filhos de Ben e Leslie leem escritores russos como Doistoiévski (Os Irmãos Karamazov) e Vladimir Nabakov (Lolita). Eles tem momentos diários para discutirem física quântica e aspectos da moralidade. Ele sabem citar todos os artigos da Constituição Americana e possuem opiniões sobre suas aplicabilidades. Juntos de Ben, eles praticam atividades físicas como correr na floresta, escalar montanhas e caçar animais. Há pelo menos duas formas de enxergarmos tudo isso (com admiração ou com reprovação) e o diretor nos faz experimentar ambas ao longo do filme.

Eu acho fantástico, por exemplo, que um adolescente leia Lolita e, mais do que dizer que “é um livro interessante”, saiba comentar os pormenores polêmicos da história. Também vejo com admiração a disciplina com os estudos e com exercícios físicos e, definitivamente, bato palmas para a forma como os conflitos de opiniões são resolvidos na família de Ben. Eles conversam, olho no olho, sem enrolação, sem misticismos, sem eufemismos, só argumentos.

capitao-fantastic-cena-5Por outro lado, há a oposição rígida e engessada ao sistema, que não raramente soa hipócrita. Ben tem dinheiro (a origem não é muito bem explicada, mas dá a entender que a grana veio da esposa), e isso facilita bastante a sua vida as margens da sociedade, a qual ele recorre sempre que necessário para adquirir suprimentos e fazer uso de tecnologia (telefone, etc). Os filhos de Ben tem um conhecimento teórico formidável (a cena ‘da Constituição’ é impressionante), mas demonstram dificuldade para entenderem sentimentos e interagirem com pessoas que não estão nos livros, como seu primogênito lhe diz em uma cena chave.

Os contras da vida parcialmente isolada e da educação parental, no entanto, parecem insignificantes quando a família cai na estrada, no melhor estilo road movie, para ir até o velório de Leslie. Mesmo com todas as privações e com o autoritarismo de Ben, não há comparações justas, por exemplo, entre os filhos dele e os de seu cunhado, dois adolescentes típicos que não dão a mínima para a escola e que ficam o dia todo com a cara enfiada em equipamentos eletrônicos. Quando a gente está quase convencido de que, apesar de tudo, Ben está certo e que Capitão Fantástico é anti-sistema, o protagonista acaba sendo diretamente responsável pela filha ferir-se em uma “missão arriscada”.

Perceberam a grandeza do roteiro de Capitão Fantástico? Antes de posicionar-se (e ele o faz), o diretor Matt Ross conseguiu a proeza de pesar igualitariamente os dois lados das questões educacionais e ideológicas que ele aborda, dando argumentos tanto para reforçar aquilo que já acreditamos (teoria sem prática também é futilidade) quanto para estimular a nossa autocrítica (viver no mato comendo banana e lendo Marx é mais saudável do que muita coisa por aí). Outra façanha aqui é o tom que o diretor conseguiu dar para a trama. Pelos temas que aborda, Capitão Fantástico poderia ser pesado e sombrio, mas Ross disse tudo que tinha para dizer numa comédia leve e agradável (rola até uma versão açucarada da clássica Sweet Child O’ Mine). Ao meu ver, está configurada a grande injustiça do Globo de Ouro de 2017: Capitão Fantástico é um dos melhores (senão o melhor) filme dessa safra de premiações que vi até agora e deveria estar concorrendo em mais categorias. Torço para que ele tenha mais sorte no Oscar.

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Florence Foster Jenkins (2016)

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florence-foster-jenkins Eu sempre mantenho os títulos e subtítulos nacionais dos filmes aqui no blog. Faço isso não porque eu concordo com eles (acho estranho, por exemplo, que o Concussion tenha saído por aqui como Um Homem Entre Gigantes), mas sim para facilitar a busca dos leitores e para alinhar dados com o IMDB, que seguramente é um dos maiores portais sobre cinema da internet. Desta vez, porém, optei por manter o título original. Porquê? Porque o nacional é uma bosta. Desculpem a sinceridade, mas transformar Florence Foster Jenkins em Florence: Quem é Essa Mulher? é a atitude de uma pessoa retardada visando entreter e criar mais pessoas retardas. No pôster, você tem atores consagradíssimos como a Meryl Streep e o Hugh Grant, mas mesmo assim algum espertinho achou necessário fazer suspense através de um jogo de palavras óbvio no título para atrair o público. Sim, óbvio, porque acredito que a primeira coisa que passa na cabeça de alguém que não conhece a personagem-título é exatamente “Quem é essa mulher?”, mas nem esse raciocínio simplório o pessoal do marketing deixa o público realizar sozinho. Por mais irrelevante que seja esse apelo, não furtarei-me de fazê-lo: pessoal, parecem de subestimar nossa inteligência!

Mas e aí, quem é Florence Foster Jenkins (Meryl Streep)? Este filme, que é baseado em fatos reais e conduzido pelo diretor Stephen Frears (de Philomena), fala de uma milionária excêntrica que, na Nova York da década de 40, gastou uma fortuna para realizar o sonho de apresentar-se como cantora de ópera no Carnegie Hall, uma das salas de espetáculo mais famosas dos Estados Unidos. Essa descrição/sinopse não deixa de responder a pergunta infeliz do subtítulo nacional (Quem é essa mulher?), mas, conforme eu havia desconfiado, o filme não resume-se a reproduzir os fatos de forma wikipediana. Indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia/Musical, Florence Foster Jenkins, doravante apenas Foster, é divertido e informativo, mas também é eficiente em analisar a personalidade da protagonista e de seu marido, oferecendo uma sessão multifacetada onde o grotesco e o sublime misturam-se constantemente.

florence-foster-jenkins-cenaA primeira impressão que o Stephen Frears nos vende de Florence é a de uma mulher espirituosa e alegre, mas também mimada e sem um pingo de senso crítico. Amantes da música, ela e o marido, St Clair Bayfield (Hugh Grant), organizam encontros regulares entre a burguesia nova-iorquina, nos quais há declamações de poemas e apresentações de curtas teatrais que homenageiam e celebram a música clássica. Florence desempenha bem o papel de patrona das artes, investindo pesado nestes espetáculos e em eventuais artistas que precisam de ajuda financeira, mas desde a primeira cena fica claro que ela não possui nenhum pingo de talento, seja para cantar, seja para interpretar. Fora um grupo de senhorinhas simpáticas (e surdas rs), as pessoas comparecem em suas reuniões pomposas porque foram convidadas (e devidamente pagas) por Bayfield. Nesse ponto, é inevitável perguntar-se sobre a postura de Florence frente ao público: ela sabe (e ignora conscientemente) que todos são interesseiros ou ela realmente acredita na admiração da plateia?

florence-foster-jenkins-cena-2Certo dia, Florence vai com Bayfield até uma apresentação de ópera e seu coração é tocado novamente pela beleza da música. Com muito dinheiro e tempo à disposição, ela decide procurar um professor de canto para tornar-se ela mesma uma soprano. Cosmé McMoon (Simon Helberg), um jovem e ambicioso pianista, é contratado para acompanhá-la nas aulas e é aí que o show de horrores começa. Dá um grito aí. É, você mesmo, leitor: grita aí, de qualquer jeito que você conseguir. Gritou? Pronto, você produziu um som mais agradável aos ouvidos do que as tentativas de Florence de cantar. Sério, ela é MUITO ruim. Enquanto todo mundo (marido, professor de canto, empregada) opta por ignorar os ruídos demoníacos produzidos pela personagem, encorajando-a com elogios mentirosos, o pianista Cosmé funciona como um termômetro do espectador. O cara simplesmente não consegue acreditar no que está ouvindo (vocês também não acreditarão) e usa todas as forças para não gargalhar na frente de todos (eu, em casa, não consegui me conter).

florence-foster-jenkins-cena-5Florence segue com a personagem registrando suas “músicas” em vinil e, por fim, apresentando-se no auge da trama no Carnegie Hall para uma plateia selvagem. No geral, o filme, que tem quase 2 horas, faz a gente rir bastante (continuo achando monstruosa a capacidade da Meryl Streep de transitar entre gêneros), mas não pude deixar de pensar em algumas questões mais espinhosas que o roteiro coloca. Peguemos, por exemplo, o personagem Bayfield, marido de Florence. A primeira vista, ele parece um gigolô: casou-se com uma mulher mais velha por interesse e faz tudo o que ela quer para não perder a mamata. Pra piorar a situação, Bayfield tem uma amante, que ele visita quase todos os dias após colocar Florence para dormir. A nossa tendência natural é odiar o personagem, mas aí a gente vai vendo que, apesar dos pesares, ele dedica-se à Florence mais do que qualquer outra pessoa, fazendo de tudo para protegê-la das críticas e da ridicularização. Bayfield apoia tudo que a esposa deseja fazer, e esta devoção revela-se maior do que qualquer interesse financeiro (como pode ser visto na cena do bar, onde ele briga com alguns soldados que estavam rindo da voz de Florence). Vendo este tipo de relação, que prova-se bem sucedida e vantajosa para ambos, a gente fica menos inclinado a rotular a vida alheia.

florence-foster-jenkins-cena-3Por mais difícil que seja ouvir Florence cantando, algo que ela diz em determinado momento me fez pensar. “Eles podem até dizer que eu não sabia cantar, mas eles não podem dizer que eu não cantei”. De fato, pode-se criticar o egoísmo e o uso do dinheiro para comprar uma plateia e um espaço de apresentação que outros artistas só alcançaram com muito talento e trabalho duro, mas a coragem de Florence para driblar a falta de talento e viver o seu sonho não deixa de ser inspiradora.

Florence concorre a 4 Globos de Ouro (Melhor Filme, Atriz, Ator e Ator Coadjuvante) e, apesar de ser bastante leve e acessível, é uma boa oportunidade para quebrar alguns paradigmas sobre relacionamentos. Sim, só sobre relacionamentos, porque nem a simpatia e nem a força de vontade da protagonista foram suficiente para conter meus risos na última cena. Eu rolei no sofá de tanto rir. Literalmente.

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Esquadrão Suicida (2016)

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Esquadrão SuicidaPor mais difícil que seja, é preciso reconhecer a verdade: Esquadrão Suicida é ruim. No máximo, com muito amor no coração, dá pra dizer que ele é mediano, um 5/10, mas bom ele não é. Não estou dizendo isso porque eu “gosto dos filmes da Marvel”. Não estou dizendo isso porque os “trailers vendiam um filme e entregaram outro”. Enfim, não estou dizendo isso para contribuir com o “sepultamento” que o filme está recebendo em alguns cantos da internet. Não gostei de Esquadrão Suicida porque achei-o mal feito, rasteiro e sem personalidade e, neste texto, explicarei-lhes o porque da avaliação negativa.

Antes de começar a resenha, porém, faço-lhes um pedido: vão ao cinema, vejam o filme e, só depois, voltem aqui para trocarmos uma ideia. Digo isto tanto porque utilizarei SPOILERS abaixo quanto porque não quero que a minha experiência substitua a sua. O papel da crítica cinematográfica, acredito, não é afastar o público das salas de projeção nem mudar a opinião de ninguém, mas sim ajudar o espectador a enriquecer suas próprias impressões acerca daquilo que ele mesmo viu. Concordar ou discordar do crítico é apenas uma consequência caso tu conheça o assunto tratado, mas é fundamental que tu conheça o assunto para que haja diálogo, certo? 🙂

Esquadrão Suicida chega aos cinemas depois de O Homem de Aço e Batman vs Superman com a tarefa de 1) ampliar o chamado Universo Estendido da DC, apresentando um novo grupo de heróis/vilões e 2) conectar as produções anteriores e plantar links para os próximos lançamentos da DC Comics. Ao meu ver, nenhuma das duas propostas foram desenvolvidas satisfatoriamente, mas é principalmente as falhas da primeira (apresentar os personagens) que faz o filme do diretor David Ayer afundar.

Esquadrão Suicida - Cena 4O fato de um alienígena extremamente poderoso como o Superman ter escolhido a Terra para viver colocou nossas autoridades em estado de alerta. Temendo que o kryptoniano volte-se contra os humanos ou que a presença dele aqui atraia novas criaturas hostis como o General Zod e o Apocalypse, a agente Amanda Waller (Viola Davis) propõe ao governo norte americano a criação de um grupo secreto de pessoas com habilidade extraordinárias (os chamados meta-humanos) para defender-nos em situações de emergência. Até mesmo pela característica “suicida” dessas missões, Amanda sugere que os membros do grupo sejam recrutados nas prisões, visto que, na visão fria e pragmática dela, vilões condenados são “descartáveis”. É assim que nasce o Esquadrão Suicida, uma equipe de desajustados fora da lei comandada pelo soldado Rick Flag (Joel Kinnaman).

Tão logo Amanda consegue formar sua equipe de vilões, surge uma ameaça para colocar à prova as habilidades dos personagens. Enchantress, uma entidade ancestral que habita o corpo da pesquisadora June Moone (Cara Delevigne), sai do controle e inicia um plano de dominação global. É assim que o Esquadrão Suicida, que é formado por Arlequina (Margot Robbie), Deadshot (Will Smith), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), Diablo (Jay Hernandez), Killer Croc (Adewale Akinnuoye-Agbaje) e Slipknot (Adam Beach), bem como Katana (Karen Fukuhara), guarda costas de Rick Flag, entra em ação para evitar o pior.

Esquadrão Suicida - Cena 3Filmes de origem, desses que precisam contar a história dos personagens antes de colocá-los para quebrar o pau, são sempre complicados de se fazer. Para que esse tipo de longa dê certo e consiga estabelecer laços emocionais com o público, é preciso que o roteiro dedique tempo suficiente para desenvolver as relações pessoais dos personagens (motivações, família, amigos, inimigos), de modo que, quando a pancadaria começar, tu veja na tela não um zé mané qualquer com um uniforme no meio de uma infinidade de efeitos especiais, mas sim aquele cara legal cuja história tu conheceu e afeiçoou-se desde o início da projeção. Não é isso que acontece em Esquadrão Suicida.

Tão logo o filme começa, vemos a Amanda Waller em um jantar defendendo seu projeto de super grupo para o governo. Durante uns 15 min (?), ela apresenta cada um dos vilões, falando de suas habilidades e de seu passado no crime. Esta cena, além de ser rápida e acompanhada por textos explicativos impossíveis de serem lidos na totalidade (pisque e tu perderá informações importantíssimas, como aquela que fala do assassinato do Robin, por exemplo), ainda precisa cumprir o papel de linkar o filme com as futuras produções da DC (o Flash e o Batman aparecem por aqui). O ritmo é tão acelerado e o background dos vilões é tão superficial que, quando o tal Slipknot morre após uma tentativa de fuga, a única coisa que eu consegui pensar foi “foda-se”. A matemática, nesse caso, é implacável: quanto mais personagens tu tiver, mais tempo tu precisa investir para desenvolvê-los. Não fazer isso é o primeiro passo para criar um produto genérico.

Esquadrão Suicida - Cena 6Esse defeito é corrigido durante o filme? Parcialmente. Anunciados como as grandes estrelas de Esquadrão Suicida, a Arlequina e o Coringa ganham muitas cenas de flashback para explicar como começou e desenvolveu-se o romance obsessivo deles, tanto que a gente realmente passa a importar-se com o destino dos personagens. O resultado também é satisfatório para o Deadshot do Will Smith, que rala bastante para conseguir protagonizar o longa (não é fácil competir com uma dupla de loucos coloridos) com sua história de devoção à filha. O restante dos personagens não recebe a mesma atenção e parece estar ali só para fazer volume, sofrendo para conseguir uma ou duas frases de efeito e para emplacar suas próprias esquisitices. A ideia do unicórnio cor de rosa do Capitão Bumerangue, por exemplo, não rende nem a metade do que poderia render.

O grande problema desse Universo Estendido da DC parece ser justamente esse: eles não estão interessados em gastar tempo e filmes para nos mostrar como as coisas começaram. O Capitão Bumerangue? Ele é aquele cara lá que rouba as coisas e que foi preso pelo Flash. Como? Quando? Eles explicam tudo isso em um flashback de 15seg. O Batman tem 20 anos de lutas contra o crime, o Robin foi morto pelo Coringa e pela Arlequina… Isso tudo aconteceu em histórias que não vimos e das quais só ouvimos falar em diálogos e referências plantadas nos cenários. Ao que parece, a DC não quer perder o bom momento para filmes de super heróis e está tentando acelerar a adaptação de seu universo para os cinemas. Achei compreensível eles pularem a origem do Batman no Batman vs Superman (eles poderiam contar essa história no já anunciado filme solo do morcegão), mas não dá para entender o motivo dessa pressa com o Esquadrão Suicida: poderiam ter feito um filme legal misturando humor, cenas de ação fantásticas e um pouco de violências, tal qual o Guardiões da Galáxia, mas preferiram realizar uma espécie de vídeo clipe tosco onde a história dos personagens fica em segundo plano para dar espaço para um romance hiper colorido embalado por músicas de forte apelo popular (quem não gosta de Bohemian Rhapsody?).

Esquadrão Suicida - CenaConsigo até imaginar um reunião dos executivos da DC onde foi dito o seguinte: “Como o marido da Katana morreu? Por onde o Killer Croc andou? Não importa, explicamos isso em um diálogo. Acrescenta mais um close da bunda da Arlequina aí ou coloca ela para falar algo insano com AQUELE sorriso. Ah, coloca o Batman também. O Batman é legal.” Esquadrão Suicida é uma colagem de coisas potencialmente legais que, sem contexto, não funcionam e soam gratuitas. Peguemos, por exemplo, aquela cena do trailer onde a Arlequina rouba uma joia de uma vitrine. Legal o derrière, legal a fala, mas ela não acrescenta NADA para a história. Vi a mesma falta de propósito na referência ao Watchmen (o smile dentre da vitrine), na Arlequina quebrando o pau dentro do elevador (pra quê?) e na cena do Coringa deitado e rindo no meio de um círculo de facas: tudo muito legal, tudo muito bonito, mas completamente desnecessário.

A trilha sonora é uma das melhores dos últimos anos, as atuações do Jared Leto e da Margot Robbie (nunca duvidei deste Coringa) estão desgraçadas de boa e o Deadshot é um bom personagem, mas a real é que este filme é composto de uma única, gigantesca e  genérica cena de ação (encontrem a Enchantress, matem a Enchantress) com um monte de personagens esquecíveis e sem personalidade. Aparentemente, não era para ser assim. Notícias que podem ser lidas em sites especializados dizem que, tal qual aconteceu no Quarteto Fantástico, a direção do David Ayer sofreu diversas intervenções. Muito material que ele gravou para desenvolver os personagens (coisas como aprofundar o relacionamento do Flag com a June, por exemplo) ficou de fora do corte final para dar lugar para piadinhas cretinas (aquela do ‘limpar o histórico de navegação’ foi sofrível) e para colocar mais cenas de ação. O fato do público ter torcido o nariz para o lado sombrio do Batman vs Superman, pelo visto, foi preponderante para que esse filme mudasse de tom e mostrasse não o que o diretor preparou, mas sim o que o “espectador médio” queria ver: piadas, romance e explosões. Que bosta.

Esquadrão Suicida - Cena 5Repetindo o que eu disse no texto do A Origem da Justiça, a Marvel gastou pelo menos 6 filmes antes de reunir os Vingadores. Mesmo em longas menos inspirados, como o primeiro do Thor, eles fizeram o dever de casa: contaram a origem do personagem, apresentaram o mundo dele, a família, os inimigos, etc. A gente vai no cinema e pira com produções como o Guerra Civil porque a gente sabe da trajetória daqueles personagens, porque a gente já viu eles conversando e lutando antes. Ou a DC adota a mesma fórmula e tira o pé do acelerador ou ela está correndo o sério risco de perder toda a credibilidade junto ao público que realmente gosta de cinema e de quadrinhos e que conhece aqueles personagens e sabe o que eles podem render. Não dá para desperdiçar atuações como a do Leto e da Robbie num filme ruim desses, não dá para continuar apenas falando de personagens e acontecimentos que eles ainda não mostraram, não dá para colocar o Batman em uma cena pós crédito falando da Liga da Justiça e achar que, com isso, tu irá motivar o público a voltar ao cinema para ver outra história ruim. Se a editora for esperta, dessa vez ela ouvirá as críticas certas (ter um ‘tom sombrio’, nem de longe, é um defeito) e repensará a condução do seu universo cinematográfico. Torço para que isso aconteça.

Esquadrão Suicida - Cena 2

Um Dia Perfeito (2015)

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Um Dia PerfeitoEm 2010, quando fui para São Paulo participar do 5° Festival de Cinema Latino-Americano, fiquei hospedado em um hotel próximo da Av. Paulista. Sempre que eu saía do local para ir ao metrô ou para pegar o ônibus, eu passava em frente ao Cine Belas Artes e invejava profundamente os paulistas por terem um lugar tão bacana como aquele disponível na cidade deles. Até onde pude entender naquela ocasião, o Belas Artes exibia apenas filmes fora do circuito comercial. Gosto de blockbusters, mas também gosto dos chamados “filmes alternativos”, produções que raramente entram na grande de programação das redes de cinema tradicionais (como o Cinépolis e o Cinemark) por conta de seus temas ou gêneros de pouco apelo junto ao público ocasional.

Na ocasião, absorvido pela programação do Festival, não consegui converter a minha admiração pelo cinema em tempo para comprar um ingresso e conhecer o local, mas mentalmente prometi pra mim mesmo que um dia eu ainda voltaria lá para viver aquela experiência. Foi com um grande pesar, portanto, que recebi a notícia, em 2011, de que o Belas Artes havia fechado as portas por falta de patrocínio. Além de desenvolver uma atividade que não visa exclusivamente o lucro, o terreno do cinema, que está localizado em uma região nobre de São Paulo (cruzamento da Rua Consolação com a Av. Paulista), era alvo constante de especulação imobiliária e mantê-lo funcionando sem patrocínio tornou-se impraticável.

Gosto de acreditar que, no fim, o bem sempre triunfa (essa mensagem, aliás, é o que dita o ritmo deste divertido Um Dia Perfeito, filme que, prometo, já já eu vou comentar rs), e foi com uma sensação pessoal de vitória que, no último dia 30/07, eu finalmente consegui ver um filme no Belas Artes. Ué, mas ele não foi fechado? Foi sim, mas, graças à mobilização dos fãs, de empresários e do poder público, o local foi reaberto em 2014, desta vez patrocinado pela Caixa Econômica Federal. Foi assim que, ao lado das melhores companhias (minha esposa e o amigo Antônio Carlos, que é formado em cinema e me ensinou muito do que sei sobre o assunto), eu encerrei as minhas férias com chave de ouro realizando um sonho antigo de cinéfilo.

Um Dia Pefeito - Cena 4Não foi fácil escolher algo para ver, mas até essa “dificuldade” foi gostosa. Em cartaz, estavam pelo menos uns 5 filmes dos quais eu não havia ouvido falar absolutamente nada, ou seja, todos eles ofereciam infinitas possibilidades de novas descobertas. Eu estava bastante disposto a assistir um lá que, ao que tudo indicava, falava sobre o relacionamento entre duas jovens, tema importante e atual, mas acabei optando por esse Um Dia Perfeito devido a presença do Tim Robbins no elenco, ator que sempre foi meu “porto seguro”, cinematograficamente falando, desde que vi-o no Um Sonho de Liberdade.

O filme traz um recorte temporal de aproximadamente um dia na vida de um grupo de trabalhadores humanitários numa zona de conflito nos Bálcãs durante da década de 90. Liderados por Mambrú (Benicio Del Toro), os personagens precisam lidar com uma série de problemas cotidianos para garantir a manutenção dos acordos de paz que órgãos internacionais como a ONU estão negociando para a região.

O contexto político e social da guerra é deixado em segundo plano pelo diretor e roteirista espanhol Fernando León de Aranoa, que prefere focar nas relações humanas entre os personagens, explorando seus medos, sonhos, discordâncias e amores numa situação de exceção. Quando o grupo encontra o corpo de um homem morto jogado dentro de um poço, eles precisam agir rapidamente para que o cadáver não contamine a água e prejudique a população do local. O que parecia ser uma operação rotineira, no entanto, acaba tornando-se uma verdadeira epopeia quando a única corda que eles tinham para retirar o corpo arrebenta devido ao peso do morto.

Um Dia Pefeito - CenaMambrú e B (Tim Robbins), veteranos naquele tipo de serviço, sugerem uma solução pragmática para o problema: ir até um mercado próximo, comprar uma corda nova, retornar ao local e retirar o corpo. Fim da história. Acontece, porém, que eles estão subordinados aos militares em exercício na região, e os militares, temendo que a retirada do corpo possa provocar mais conflitos entre a população local, ordenam que eles deixem o poço exatamente como ele estava. Mambrú e B acatam as ordens, mas o mesmo não acontece com Sophie (Mélanie Thierry). Jovem e sonhadora, ela discute com os soldados e convence o restante do grupo a prosseguir com a procura pela corda. Completando o time, há ainda o caladão Damir (Fedja Stukan), um homem que trabalha como tradutor e que prefere não envolver-se mais do que o necessário naquele conflito, e Katya (Olga Kurylenko), ex-namorada de Mambrú que é enviada até o local para determinar a necessidade do grupo continuar trabalhando por lá.

Um Dia Pefeito - Cena 3Aranoa contrapõe o idealismo ao comodismo para nos fazer pensar (eu, que sempre fui partidário de tomar iniciativa o tempo todo, ultimamente tenho percebido que, ás vezes, é bastante válido simplesmente não fazer nada e deixar as coisas seguirem seu curso natural), mas o faz de forma bem leve, tanto que Um Dia Perfeito, apesar de seu tema envolvendo conflitos de guerra, está mais para uma comédia do que para um drama. A tensão entre Mambrú e Katya, bem como a seriedade de Damir, garante umas boas risadas, mas o humor que sobressai é mesmo o do Tim Robbins. Sei que sou suspeito para falar, visto que já declarei abertamente o meu amor pelo trabalho dele, mas o cara está simplesmente sensacional no papel de tiozão porra louca. Robbins, com um sorrisão no rosto, faz coisas insanas como acelerar com o jipe rumo a uma vaca que pode esconder uma mina terrestre e, cena após cena, faz piadas pontuais com todos os personagens, das quais a melhor talvez seja aquela em que ele brinca com o fato de Damir carregar fotos da namorada pelada na carteira.

Um Dia Perfeito, que conta ainda com um trilha sonora cheia de músicas de rock e com uma fotografia acima da média, foi perfeito para coroar o término das minhas férias, para eu conhecer o Belas Artes e também para que eu pudesse repensar uma ou duas coisas sobre responsabilidades e esforços desproporcionais. Regresso agora para a rotina do dia a dia feliz por tudo que vi e vivi nas últimas semanas, ansioso para continuar descobrindo e compartilhando com vocês dicas de filmes como este, que nos tornam pessoas melhores e mais leves.

Parabéns, Cine Belas Artes: que o poder da beleza e do exemplo advindo da arte continue dando-lhe forças para existir e encantar o público!

Um Dia Pefeito - Cena 2

Procurando Dory (2016)

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Procurando DoryEm se tratando de animações, não é exatamente uma novidade que personagens secundários roubem a cena, conquistem o público e ganhem suas próprias aventuras. Recentemente, por exemplo, Os Pinguins de Madagascar e os Minions chegaram aos cinemas para fornecer uma dose extra de piadas, fofura e insanidade para quem havia divertido-se com eles no Madagascar e no Meu Malvado Favorito. O que faz Procurando Dory destacar-se nessa maré de spin-offs (obra derivada de outra obra), ao meu ver, é a ligação emocional singular que o público estabeleceu com a Dory e, de maneira geral, com Procurando Nemo: tal qual O Rei Leão foi o favorito da garotada que cresceu nos anos 90, Procurando Nemo é constantemente apontado como a produção que marcou a infância do pessoal que veio depois da virada do século.

Ir ao cinema assistir essa sequência, portanto, é uma experiência que vai um pouco além de pagar para ver “mais do que já deu certo”. Como é de praxe nas animações da Pixar, Procurando Nemo tinha personagens fofinhos, cenários super coloridos e muitas cenas de ação, mas o que encantava ali eram coisas mais emocionais como o amor do Marlin pelo Nemo (era um pai superprotetor mas, ainda sim, era um pai capaz de atravessar todo o oceano para salvar o filho) e a força de vontade inabalável da Dory, cujo bordão “continue a nadar” transformou-se no lema de vida de muita gente, inclusive desse que vos fala. Sou da geração O Rei Leão (Scar miserável!), mas entendo perfeitamente o porquê de Procurando Nemo ter conquistado o coração das pessoas.

A Pixar demorou 13 anos para fazer esta continuação (o primeiro é de 2003). Considerando a celeridade do mercado cinematográfico atual, no qual a maioria das produções já chegam aos cinemas com suas sequências garantidas, essa “demora” precisa ser entendida como uma demonstração de carinho da empresa para com sua própria obra. Seguramente, qualquer coisa relacionada a franquia que fosse lançada faria sucesso, mas vejo que eles não quiseram lançar QUALQUER coisa. Para respeitar a ligação emocional que a obra estabeleceu com o público, era preciso criar um filme que fosse tão bom quanto ou melhor ainda do que o original. A solução do diretor e roteirista Andrew Stanton foi simples e eficaz: invertendo a história original, dessa vez ele colocou a filha (Dory) para procurar os pais (Jenny e Charlie). Deu muito certo.

Procurando Dory - Cena 5A famosa “perda de memória recente” da Dory era, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição. Se ela não sofria por lembrar-se dos erros e sofrimentos do passado, ela também não conseguia alegrar-se com as lembranças dos momentos felizes vividos. O peixe-fêmea divertido que falava baleiês que conhecemos anteriormente (exemplar dos belos cirurgiões-patela) era um personagem legal, mas também era alguém unilateral que ainda precisava ser explorado. Ninguém é feliz o tempo todo, nem a Dory.

Antes do filme propriamente dito, a Pixar nos presenteia com mais um daqueles curtas maravilhosos que servem para aquecer nossos corações e nos preparar para o que será visto em seguida. Piper: Descobrindo o Mundo mostra um passarinho aprendendo que a vida, ainda que perigosa, está cheia de oportunidades para aqueles que enfrentam-na de cabeça erguida. A qualidade da animação impressiona (prestem atenção na movimentação da água do mar) e a historinha, que é mais direcionada para as crianças do que para os pais, é bonitinha e inovadora.

Procurando Dory - Cena 4Procurando Dory abre com a personagem que dá nome ao filme, ainda filhotinha, desfrutando da companhia dos pais. Cientes do problema de memória da filha, Jenny e Charlie tentam ensinar para Dory formas alternativas de interagir com os outros peixes. Mesmo que ela tenha dificuldade para concentrar-se a longo prazo (1, 2, 3, 4, areia fofinha! rs), Dory consegue aprender e decorar a fala que seria fundamental para ajudar-lhe a sobreviver. “Oi, meu nome é Dory e eu sofro de perda de memória recente”.

O diretor Andrew Stanton deixa então a infância de Dory momentaneamente de lado para ligar a história com os eventos do primeiro filme. Uma recapitulação rápida mostra como o Marlin perdeu e encontrou Nemo e pronto, lá estão os personagens, um ano após toda aquela confusão, vivendo tranquilamente no coral. É aí que, num movimento que repetirá-se várias vezes ao longo do filme, Dory lembra do passado. Sim, amigos, Dory, a esquecida, começa visualizar pequenos flashs de seu passado e, neles, descobre que ela já teve um pai e uma mãe que a amaram. Empolgada com a possibilidade de reencontrá-los, a personagem inicia uma viagem ao lado de Marlin e Nemo para procurar pelos pais.

Procurando Dory - Cena 2O título da animação dá a entender que, tal qual no primeiro filme, Dory perderá-se e alguém irá procurar por ela, mas não é bem isso que acontece. Em um determinado momento, os personagens separam-se devido a um infortúnio e Marlin e Nemo precisam esforçar-se para reencontrar a amiga, mas não é essa procura que dita o ritmo da narrativa. Procurando Dory é sobre Dory reencontrar suas próprias memórias e, consequentemente, localizar o paradeiro dois pais. A aventura passa por locais conhecidos do público, como o coral, o fundo do mar repleto de monstro marinhos e as correntezas oceânicas onde as tartarugas “surfam”, mas a maior parte da história desenvolve-se em um gigantesco parque aquático no qual os personagens embrenham-se à procura dos pais de Dory.

Novamente, a ação é muito boa e variada. Uma ameaçadora lula gigante põe os personagens para “correr”, Nemo e Marlin viajam dentro de um balde carregado por um passarinho loucão e Dory e Hank, um polvo misantropo de 7 pernas (!!!), colocam o local de cabeça pra baixo, chegando, inclusive (numa das cenas mais improváveis de todos os tempos), a pilotar um caminhão (!!!²). Tudo isso, somado ao humor afiado (ri pra valer das broncas que aos leões marinhos dão no Geraldo rs) e ao visual impecável (não vi em 3D), fazem de Procurando Dory uma animação obrigatória, dessas que tu sai do cinema verdadeiramente feliz por tê-la assistido. Isso, no entanto, não é tudo que eu tenho para dizer-lhes sobre o que vi.

Procurando Dory - CenaEstruturalmente, as animações feitas pelos grandes estúdios americanos, como a Pixar, Disney e Dreamworks, são muito parecidas. Sempre temos um protagonista que passará por um processo de aprendizado, personagens secundários engraçadinhos, muita cor, muita ação, algumas músicas e uma lição de moral para os pais e para as crianças amarrando a história toda. O que difere essas animações uma da outra e que faz com que a gente goste de umas e esqueça de outras são os detalhes. Procurando Dory tem o “pacote diversão” completo, mas ele também tem um pai reconhecendo um erro para o filho. Ele tem um personagem principal cujo principal lema é seguir em frente/continuar a nadar, ideia aparentemente simples mas que, se aplicada nos momentos certos, tem o poder de salvar vidas e mudar existências. Ele tem uma personagem de coração bondoso transformando a vida de um personagem ranzinza e pessimista não com palavras, mas com o exemplo. Procurando Dory tem, acima de tudo, um roteiro que utiliza conchas (mamãe gosta de conchas!) para ilustrar o amor e a confiança absoluta que deve existir na relação entre pais e filhos e tem a Dory, em um momento onde ela poderia ceder ao desespero, dando um passo de cada vez (algas, pedras, conchas) rumo a própria salvação. Novamente, o tal “elemento emocional” fez-se presente e o filme falou diretamente com o meu coração.

Ri bastante, fiquei empolgado, chorei e saí da sala do cinema um pouco mais leve do que entrei: é esse tipo de conexão que, ao meu ver, faz com que um filme destaque-se dos demais e, vários anos após o seu lançamento, garante que ele seja lembrado com nostalgia pelo público. Procurando Dory é a continuação perfeita, produção que já nasce clássica e que um dia eu certamente terei o prazer de mostrar para meus filhos e dizer “esse eu vi no cinema” 🙂

Procurando Dory - Cena 3

Aconteceu Naquela Noite (1934)

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Aconteceu Naquela NoiteDescansei do tema “Oscar” por 2 meses, de modo que agora sinto-me novamente disposto à continuar explorando a história da maior premiação do cinema norte americano.

Aconteceu Naquela Noite é um filme que (perdoem o trocadilho tosco) quase não aconteceu. Além do roteiro ter sido recusado por vários atores, que acusaram-no de ser “a pior coisa que eles já haviam lido”, o diretor Frank Capra teve que lidar nos sets de filmagens com a indiferença de seus dois protagonistas, Clark Gable e Claudette Colbert, que não demostraram nenhuma empolgação pelo projeto. Foi então que, numa dessas ironias do destino, a produção (que pelo exposto tinha tudo para dar errado) acabou sagrando-se a grande campeã do Oscar de 1935, entrando para a história como a primeira a vencer nas 5 principais categorias da premiação (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Ator e Melhor Atriz). Curiosamente, Aconteceu Naquela Noite fala de uma divertida história de amor que, mesmo com todos os contras, também acaba conseguindo encontrar um final feliz.

Para o desgosto do pai milionário (Walter Connolly), Ellie (Colbert) casou-se secretamente com um famoso aviador. Pressionada para desfazer a união, a personagem foge e embarca em um ônibus com destino a Nova York para encontrar o marido. Enquanto o pai inicia uma investigação nacional para localizá-la, Ellie conhece Peter (Gable), um boêmio que lhe fará companhia durante a viagem e que será o responsável por ela repensar várias coisas, inclusive o casamento.

Aconteceu Naquela Noite - Cena 3De fato, há algumas coisas “estranhas” no roteiro de Aconteceu Naquela Noite, nada que possamos dizer que é “a pior coisa que já lemos/vimos”, mas ainda assim estranhas. A ideia relativamente complexa do “casamento secreto”, por exemplo, soa deslocada dentro de uma trama que, essencialmente, é bastante simples. Para si, Ellie não quer a vida segura que o pai planejou para ela. Mais do que o prazer superficial que pode ser obtido com joias e vestidos caros, a personagem quer experimentar a felicidade de um amor verdadeiro. A mudança de perspectiva pela qual Ellie passa, dá-se aqui não no sentido de que ela era uma patricinha fútil que descobre o verdadeiro significado da vida (o que sempre rende uma boa história), mas sim sob a perspectiva “esquisita” e pouco empática de alguém que, só após ter agido por impulso (casar secretamente para afrontar o pai), descobriu o amor. Acho que isso poderia ter sido melhor trabalhado.

It Happened One Night (1934)  Directed by Frank Capra Shown from left: Clark Gable, Claudette Colbert, Roscoe Karns

Feita essa consideração, resta um divertido road movie (ou filme de estrada) que traz uma série de cenas cômicas provenientes da tensão entre o casal principal. Clark Gable, ator conhecido por seus tipos cínicos e auto suficientes, interpreta Peter, sujeito que acabou de ser demitido pelo telefone. Puto da vida, ele compra uma passagem de ônibus para ir até Nova York conversar pessoalmente com o chefe e é aí que ele conhece Ellie. O estilo seco e indiferente de Peter desperta imediatamente a atenção da moça, que até então vivera acostumada com todos desdobrando-se para realizarem suas vontades. O primeiro diálogo entre eles é marcado pela troca de farpas e grosserias, mas a convivência forçada no longo trajeto que o veículo percorre permite que eles se conheçam melhor e passem a se interessar um pelo outro.

Aconteceu Naquela Noite - Cena 2Gosto das mudanças de paradigma trazidas pelos road movies. É bom ver o homem embrutecido dando uma nova chance para o amor e acompanhar a evolução da noção de felicidade de Ellie, mas o legal mesmo de Aconteceu Naquela Noite é aquele humor deveras inocente das produções da chamada Era de Ouro de Hollywood. Mesmo que não tenham gostado de trabalhar no filme, a dupla Gable e Colbert demonstra uma química impressionante na tela e protagoniza cenas engraçadíssimas, como o diálogo rápido e absurdo que eles improvisam para enganar a polícia que está procurando por Ellie. Bom também é o trabalho do diretor Frank Capra, que até hoje eu conhecia apenas pelo nome. Capra conduz os atores por cenários variados (um quarto de hotel, zona rural, uma festa de casamento) e faz com que eles funcionem bem em todos eles, tendo na cena da cantoria do ônibus o ápice da trama, tanto pela empolgação geral dos passageiros quanto por sua conclusão divertida e inesperada.

Como dito, Aconteceu Naquela Noite venceu o Oscar de Melhor Filme de 1935 e vê-lo, hoje, mais do que satisfazer a minha curiosidade pela história da premiação, foi uma boa oportunidade de dar algumas risadas sinceras e ficar um pouco mais leve vendo aquelas pessoas tão diferentes entre si encontrando o caminho até o coração uma da outra. Quando tem que dar certo, nenhum obstáculo (nem mesmo as Muralhas de Jericó rs) consegue impedir ❤

Aconteceu Naquela Noite - Cena