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Power Rangers (2017)

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Vamos encarar a realidade? Power Rangers É ruim. Não concordam? Experimentem rever a série (tem no Netflix) e percebam o quão zoado era tudo aquilo. Já no primeiro episódio, em menos de 5min, a Rita Repulsa e seu exército são libertados de uma prisão lunar, Zordon convoca os Rangers e lhes dá a missão de proteger os EUA a Terra e o Alpha já soltou vários AI AI AIAIAI . Sim, também tem a Amy Jo Johnson, primeira namoradinha de muita gente, fazendo ginástica com uma calça suplex rosa, mas no geral o seriado era bem bobão e previsível. Com raríssimas exceções, todos os episódios seguiam o esquema:

  1. Rangers na lanchonete + piadinhas do Bulk e Skull
  2. Rita conspirando contra o sossego alheio
  3. Bonequinhos de massa (PRULULULU!) e monstro
  4. Rita faz o monstro crescer
  5. Megazord destrói o monstro (e toda a cidade de Angel Grove junto)
  6. Rangers na lanchonete tomando milk shake, lição de moral e Rita com dor de cabeça pedindo aspirina

Todo caso, em 1995, quando o seriado estreou no Brasil, eu era apenas um garoto de 10 anos que saía da escola e ia correndo para casa ver Power Rangers na TV Colosso. Naquela época, eu tinha medo do Roberval, O Ladrão de Chocolates e gostava muito, muito de do seriado. Eu não tava nem aí para o roteiro capenga e para o fato de que a Ranger amarela tinha um volume estranho no meio das pernas. Para falar a verdade, eu nem sabia o que era roteiro. Quando eu sentava no sofá de casa na hora do almoço, as únicas coisas que importavam eram o purê de batata da minha mãe e a sequência animal de transformação do Megazord.

Com o exposto, sei que constato o óbvio – nem tudo que a gente gosta quando é criança continua nos agradando quando crescemos – mas é bom deixar isso claro para que nenhum fã da série apareça por aqui pra me xingar pelo que vou dizer. Acho difícil gostar de Power Rangers hoje em dia. Por mais que eles tenham feito parte da minha infância (eu tinha vários daqueles bonequinhos trash que giravam a cabeça; o meu favorito era o Billy/Triceratops) e que eu me sinta nostálgico em relação ao seriado, o tempo passou e agora eu me interesso por outras coisas. Nisso, fica a pergunta: faço parte do público alvo desse novo Power Rangers? A intenção dos produtores era conquistar uma nova leva de fãs ou fornecer um produto saudosista para a galera da década de 90? As duas coisas? É certo que esse filme do diretor Dean Israelite, com todos os seus efeitos especiais e linguagem atual, abre as portas dos anos 2000 para os Rangers, mas também é patente que o longa foi construído buscando proporcionar uma válvula de escape para o passado ao custo de um ingresso. Não sei se a molecada gostou do que viu, mas o tiozão aqui não ficou nenhum pouco empolgado.

O começo até que não é dos piores. Ao contrário do que acontece no seriado, reservaram um bom tempo para apresentar os personagens e dar sentido para uma história em que monstros gigantes tentam destruir o mundo. Há cerca de 65 milhões de anos, Rita Repulsa (Elizabeth Banks) e Zordon (Bryan Cranston) duelaram pelo destino da Terra. Zordon, que então era o Power Ranger vermelho, conseguiu vencer e selar Rita em uma prisão, mas a vitória custou a vida de todos os seus companheiros e sua própria liberdade, visto que seu corpo também ficou preso em uma dimensão paralela. Muitos anos depois, os colegiais Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cyler), Kimberly (Naomi Scott), Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.) encontram Zordon enterrado em uma pedreira e são encarregados por ele de protegerem o planeta da vingança iminente de Rita, que fugiu da prisão e iniciou o processo para invocar seu poderoso Goldar.

Como todo bom filme de origem, Power Rangers foca primeiro nos personagens e depois na ação. Jason é um líder irresponsável com problemas com o pai, Billy é autista, Kimberly espalhou nudes na escola, a mãe de Zack está doente e a família de Trini não aceita sua sexualidade. De suas 2 horas de duração, o filme investe pelo menos metade do tempo na apresentação do lado humano dos heróis antes que eles transformem-se em guerreiros que saltam sobre penhascos e lutam fazendo poses engraçadas. Disso eu gostei: como o desenvolvimento de personagens é bem feito, a gente sempre sabe, por exemplo, que o Zack fará alguma coisa doidona e que a Trini estará de mau humor.

A qualidade, no entanto, cai vertiginosamente quando o conteúdo “Ranger” é adicionado ao filme. Desde que saíram os primeiros trailers, eu torci o nariz para o visual dos personagens. Sei que seria impraticável repetir os pijamas de latex de outrora, mas essas roupas novas, que mais parecem trajes de motoqueiros, ficaram feias demais. A “modernização” também escorregou nos bonequinhos de massa, cujos atores foram substituídos por um CGI horroroso, e na aparência da Rita, que lembra muito mais a saudosa Scorpina do que aquela velha maluca do cabelo branco. Nenhum desses equívocos, porém, compara-se com o que foi feito com os Dinozords e com o Goldar. Para falar pouco, os veículos de batalha dos Rangers estão irreconhecíveis (aquilo lá NÃO É um mastodonte) e o monstro, que era uma espécie de macacão demoníaco, transformou-se em uma massa tosca de ouro ambulante.

Diante de todas essas apostas visuais bizarras, a minha animação foi zero quando a batalha final começou. Pra falar a verdade, fiquei até com um pouco de vergonha quando tocou o tema clássico da série (Go Go Power Rangers). No dia eu estava acompanhado da minha mãe, que vai pouquíssimo ao cinema, e fiquei bastante arrependido por ter escolhido esse filme para ver. A transformação do Megazord, que deveria ser o ponto alto do filme, apenas revelou outro amontado de efeitos especiais ruins e nem mesmo as boas piadas e referências a filmes como Transformers, Duro de Matar e Vingadores tornaram a sessão menos penosa. Power Rangers era ruim mas a gente era criança e gostava. Power Rangers é muito ruim e já fazem incríveis 20 anos que a TV Colosso acabou. Não dá mais.

Obs.: Durante os créditos, uma cena extra revela planos para uma continuação. Haim Saban, o criador dos personagens, quer mais 5 filmes. Única reação possível? AI AI AIAI!

Kong: A Ilha da Caveira (2017)

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Por mais que eu goste do macaco brincalhão e quebrador de mandíbulas do Peter Jackson, não dá para negar que aquele King Kong de 2005 é duro de assistir. Ontem, para resgatar a história e fazer as devidas comparações com esse lançamento, coloquei o filme para rodar e lembrei do quão equivocada, por exemplo, foi a escalação do Jack Black no papel daquele cineasta inescrupuloso. Ver o ator, que tem uma carreira sólida em filmes de humor, esforçando-se para soar sério ao dizer “Não foram os aviões, foi a bela que matou a fera” é deprimente. Contribuem ainda para o desastre o início arrastado (Kong, o protagonista, demora mais de uma hora para aparecer em seu próprio filme), os efeitos especiais capengas (o macaco é perfeito, mas aquela correria entre as pernas dos dinossauros, por exemplo, é intragável) e o final acelerado e bobão. O que foi feito daquela mocinha chorosa após a queda do Kong? Nunca saberemos.

Kong escorregando no gelo e sacudindo a neve dos pelos tem lá o seu charme, mas a real é que, quando trata-se de um macaco gigante, a gente quer ver mesmo é o estrago que ele consegue provocar. Cientes disso, os produtores decidiram reencenar a história original do personagem mostrando-o não como um macaco que ri de truques bobos com pedrinhas, mas sim como um ser ancestral gigantesco e poderoso que habita a Ilha da Caveira, território inexplorado e extremamente hostil do Pacífico Sul. Eu gostei demais.

Ambientado na década de 70, o filme do diretor Jordan Vogt-Roberts começa com o pesquisador Bill Randa (John Goodman) tentando convencer um senador americano a investir em uma arriscada missão de mapeamento de uma ilha recém descoberta no extremo oriente. O político não fica lá muito empolgado com a ideia, mas a possibilidade de realizar tal feito antes dos russos (lembrem-se da Guerra Fria) e a disponibilidade de soldados americanos na região (os EUA estavam retirando seus homens da Guerra do Vietnã) pesam a favor de Randa e a missão é autorizada. Junto com o pesquisador, partem para a chamada Ilha da Caveira uma fotógrafa (Brie Larson), um guia (Tom Hiddleston) e um grupo de soldados comandados pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson).

Tão logo chegam no local (após um dos voos de helicóptero mais irresponsáveis de todos os tempos rs), a equipe de Randa começa a disparar bombas no solo com a intenção de provocar abalos sísmicos e gerar as leituras necessárias para a pesquisa. No ar, paira uma desconfiança sobre os verdadeiros objetivos da missão. No ar, propaga-se o som da hoje clássica Paranoid do Black Sabbath, que algum soldado de bom gosto coloca para rodar numa caixa de som. No ar, avista-se uma árvore que foi arremessada violentamente de um ponto desconhecido contra um dos helicópteros. Segue-se um verdadeiro massacre das forças do Coronel Packard que, conforme bem observado por um dos poucos sobreviventes, não tinham precedente tático para enfrentar o ataque enfurecido de um macaco gigante.

Kong: A Ilha da Caveira não te faz esperar mais de uma hora para ver a sombra do macaco agarrar uma mocinha e correr com ela para dentro da selva. Ambientação feita e personagens apresentados, o diretor faz questão de deixar claro logo no início que estamos vendo um filme de monstro gigante (e não uma bizarra e trágica história de amor) e nos dá uma cena de ação violenta e empolgante, tal qual deve ser. Cerca de 4 vezes maior do que seu antecessor (31 metros contra 7 metros do Peter Jackson), Kong, que felizmente continua sem pinto e sem cu (deve ser embutido), dizima sem dificuldades os invasores da ilha, local onde ele reina, protege e é venerado pelos nativos como um deus. Coronel Packard, que não havia ficado muito satisfeito com o fim da Guerra do Vietnã, decide então reunir o que sobrou dos seus homens e equipamentos e enfrentar o monstro.

O que vemos aqui, porém, não é apenas um duelo entre homem e besta. Packard acaba recebendo sua oportunidade de ficar frente a frente com Kong, olhar no fundo dos olhos da criatura e utilizar todo o seu pesado arsenal contra ela, mas este é apenas um dos arcos da história, e não é o melhor deles. Repetindo, Kong é um filme de monstro gigante, o que quer dizer que o pacote não estaria completo sem uma boa dose de exageros. Há todo o tipo de aberrações na Ilha da Caveira, desde bisões e aranhas colossais até polvos demoníacos e, claro, os temíveis Escaladores de Esqueleto, figuras grotescas que escondem-se nas profundezas da terra aguardando o momento certo de destronar o macacão de seu posto de macho alfa do lugar. Eventualmente, os personagens humanos também envolvem-se em conflitos com essas monstruosidades (e utilizam espadas japonesas para cortá-las em slow motion no melhor estilo HELL YEAH!), mas são os confrontos devastadores e teatrais entre Kong e essas criaturas que rendem as melhores cenas do filme. O pega pra capar entre o macaco e o Escalador de Esqueleto do final é o tipo de cena que faz a gente pensar “poxa, que legal eu estar aqui, sentado, vendo esta bagaça”.

Quando não está quebrando e explodindo coisas, o diretor fala de forma simples mas correta de ecossistemas (os predadores mauzões também tem o seu papel e importância no equilíbrio das coisas) e nos faz rir. John C. Reilly, que interpreta um piloto que caiu na ilha e lá permaneceu desde a 2° Guerra Mundial, traz o melhor do humor involuntário e há uma piada sobre uma carta que um dos soldados escreveu para seu filho (o querido Billy) que é repetida várias vezes e vai tornando-se mais e mais engraçada a cada repetição. O esmero do roteiro também pode ser percebido nas citações a outros filmes e obras. Marlow e Conrad, nomes dos personagens do Reilly e do Hiddleston, certamente são referências ao escritor Joseph Conrad e seu livro O Coração das Trevas, obra que também inspirou o Apocalipse Now. A belíssima fotografia de A Ilha da Caveira, aliás, em muitos momentos lembra o trabalho monumental do Coppola naquele que ainda é um dos melhores filmes de guerra já feitos (olhem os helicópteros, o sol e o tom laranja na imagem abaixo).

Kong: A Ilha da Caveira é a segunda etapa de um projeto que, em 2020, fará o mundo tremer ao colocar King Kong e Godzilla para trocar uns sopapos no cinema. Antes disso, porém, o Rei dos Monstros japonês ainda retornará mais uma vez às telas para aumentar nossas expectativas com o embate e, conforme pode ser visto na cena pós-crédito, para trazer alguns velhos e famosos inimigos. Quebra tudo, bicharada!

Moana: Um Mar de Aventuras (2016)

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moana-um-mar-de-aventurasMinha primeira impressão sobre o Moana não foi das melhores. Sabem aqueles vídeos educativos que são exibidos antes da sessão começar? Pois bem, o Cinépolis valeu-se dos personagens da animação para pedir silêncio para os espectadores (o que é bastante válido), mas o fez de um jeito meio bosta. “Hey, desliguem seus concha-fones!”. Concha-fone é o seu celular, entendeu? Engraçado, né? Imaginei um filme inteiro com piadas desse tipo e considerei seriamente não assisti-lo.

Mudei de opinião por 2 motivos:

  1. Moana foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Animação (perdeu para o Zootopia) e também deve concorrer ao Oscar.
  2. Os primeiros comentários sobre o filme foram animadores.

Quando digo “animadores”, não me refiro a opiniões genéricas do tipo “interessante” ou “tomara que tenha continuação”. Quem comentou sobre Moana comemorou o engajamento do roteiro, que rompe com estereótipos comuns às produções do gênero ao colocar como protagonista uma menina negra cujo maior sonho nem de longe é ser princesa. Há quem ache esse tipo de iniciativa uma bobeira, mas há também quem reconhece a importância de valorizar e celebrar as diferenças da nossa espécie através da arte. Como faço parte desse segundo grupo, comprei meu ingresso (no moderno Cinemais da cidade de Araxá-MG) e entrei no cinema ansioso para saber o que a Disney tinha a dizer sobre representatividade.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-3Antes de falar do filme, porém, vale uma salva de palmas (CLAP!) para o brasileiro Leonardo Matsuda, diretor do curta-metragem Trabalho Interno que é exibido antes de Moana. Leonardo dá características humanas para os órgãos internos de um funcionário de um escritório e promove uma divertida disputa entre o cérebro (razão) e o coração (emoção). Dividido entre a necessidade de trabalhar e a vontade de divertir-se, o sujeito passa por poucas e boas até perceber que, organizando, dá pra fazer de tudo um pouco. Além do bom conselho, o diretor também nos diz que é “ok” fazer xixi no mar e que não há problemas em encher o bucho de comida. Boa, Leonardo!

Conta-se que, no início dos tempos, havia um belo e vasto oceano. Te Fiti, deusa da vida, criou os continentes, as ilhas e os seres vivos. Tudo correu relativamente bem até o dia em que Maui (voz do Dwayne Johnson), um semideus transmorfo (ser com capacidade de assumir a forma de animais), decidiu roubar o coração de Te Fiti, o que deu início a uma maldição que atravessou gerações provocando morte e destruição. Muitos anos depois, em uma ilha do Pacífico Sul, a jovem Moana (voz da Auli’i Cravalho), membra da família real e herdeira do trono, decide fazer algo para impedir que a tal maldição castigue seu povo. Contrariando a vontade do pai, Moana atende ao chamado do oceano e parte em busca de Maui para que ele devolva o coração de Te Fiti e restabeleça a paz.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-5Para contar essa história de deuses e maldições, os diretores Ron Clements e Jon Musker (de A Pequena Sereia e Aladdin) buscaram inspiração em mitos dos povos polinésios, o que por si só é bacana por demonstrar o desejo de produzir algo fora do eixo Estados Unidos/Europa. Seria uma pena, porém, se essa iniciativa ficasse restrita a explorar os elementos que nos são exóticos da cultura oriental, mas não é isso que acontece. Lê-se no IMDB que os diretores investiram meses de pesquisas e imersão na cultura polinésia de modo que o filme fosse fiel e respeitoso àquele povo. Assim sendo, Moana mostra um paraíso terreno no qual todos nós gostaríamos de passar alguns dias de férias, mas também mostra um povo politicamente organizado, dominante de técnicas avançadas de navegação e que vive em perfeita harmonia com a natureza.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-4O fato de Moana ser negra também é importante, mas não é exatamente uma novidade na história recente da Disney. Em 2009 a empresa já havia nos dado Tiana, protagonista de A Princesa e o Sapo,  e a própria Pocahontas, do filme homônimo de 1995, era uma índia morena/negra. O que merece ser comemorado é recorrência do tema (que é intercalado pelo tradicionalismo de Enrolados/Frozen e pela diversidade étnica de Lilo & Stitch/Mulan, configurando pluralidade) e, claro, a associação dele a outras causas tão válidas quanto, como a luta pela igualdade de gêneros. Em sua aventura para devolver o coração de Te Fiti, Moana caminha sempre ao lado de Maui. Nem atrás, nem a frente: ao lado. Moana nega a condição de “princesa bonitinha com um mascote” e faz questão de contribuir e arriscar o pescoço tanto quanto Maui na perigosa missão de cruzar o oceano. Naquela que talvez seja a cena mais significativa nesse sentido, a menina pede para que o semideus ensine-a fazer um laço. Diante da recusa dele, que duvida da capacidade dela, a personagem bate o pé e afirma que ela tem condições sim de aprender e de ajudar. Moana faz o laço, ensina uma ou duas coisas para Maui e juntos, como companheiros e não como concorrentes, eles triunfam. É uma bela forma de falar sobre igualdade para crianças (e para adultos que insistem em repetir comportamentos e discursos do século passado).

moana-um-mar-de-aventuras-cena-2Moana levanta bandeiras e posiciona-se sobre assuntos que são debatidos diariamente nas redes sociais, mas isso não torna-o cansativo ou contraindicado para quem não importa-se com essas discussões e deseja apenas ver uma aventura mais tradicional, com comédia e ação. Fora as 3 grandes sequências de correria/luta (navio Krakamoa, encontro com o caranguejo Tamatoa e confronto final com Te Ka), Moana conta ainda com bons personagens de apoio (o galo zureta Hei Hei e a vó malucona/bonitinha), vários eastereggs (notei o Godzilla e a lâmpada do Aladdin) e, claro, com aquelas músicas que fazem você sair do cinema querendo cantar. Linko aqui a How Far I’ll Go, que é infinitamente melhor do que a Let it Go do Frozen, e a You’re Welcome, uma ode ao egocentrismo (Eu arrasei, eu sei, de nada!), e termino este texto com uma dica valiosa: assistam em 3D. O oceano de Moana e a cena do Tamatoa, que troca de cor no escuro num dos efeitos mais bonitos que vi recentemente em uma animação, valem cada centavo pago pelo recurso.

Kubo e as Cordas Mágicas (2016)

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kubo-e-as-cordas-magicasDepois de um ano letivo de muito trabalho e aprendizado, finalmente estou de férias do meu cargo de professor de História na rede estadual. Sei que a saudade da sala de aula não tardará (como minha sogra diz bem, ensinar é uma ‘cachaça’ viciante rs), mas por ora sinto-me feliz por poder descansar a cabeça e o corpo fazendo outras coisas que gosto, como assistir filmes e escrever.

Para comemorar o início dessa pausa, abri uma cerveja escura e escolhi esse Kubo e as Cordas Mágicas para ver, concorrente ao Globo de Ouro de Melhor Animação que prometia uma sessão leve e descompromissada, exatamente o tipo de material que eu precisava para me afastar da correria que foram os 200 dias letivos de 2016. De fato, encontrei um filme bastante dinâmico e divertido, propriedades quase indissociáveis das animações, mas também encontrei uma história tocante sobre a beleza da essência falha da condição humana, tema que não é lá muito leve mas que é sempre bom apreciar para continuarmos mantendo nossos pés no chão.

Num mar bravio castigado por uma tempestade incessante, uma mulher (voz da Charlize Theron) luta em um barco para sobreviver. Num movimento que faria o próprio Moisés morrer de inveja, ela escapa de uma onda gigantesca abrindo-a ao meio com o poder de um instrumento musical mágico, mas logo em seguida a embarcação é engolida pelas águas.

kubo-e-as-cordas-magicas-cena-3Antes de ver o filme, eu havia checado as informações sobre ele e sabia que tratava-se de uma produção da Laika Entertainment, mesma companhia responsável pelos góticos Coraline, ParaNorman e Os Boxtrolls, ou seja, certamente haveria uma ou duas bizarrices na trama, mas nem de longe eu imaginei que o pau da barraca seria chutado logo de cara. Tão logo cai na água, a mulher é arrastada até o fundo do oceano e POW! bate com o rosto em uma pedra, perdendo o olho esmagado em meio a uma bolha de sangue. Na sequência, levada pelas ondas até a praia, a personagem abre um pacote que ela trazia preso nas costas e POW! lá está um BEBÊ CAOLHO chorando.

Se você, pai matador de bichos-papões, decidir retirar seu filho da sala após esse início violento, saiba que tu perderá uma boa oportunidade de colocar seu pimpolho em contato com uma história que mostra a importância dos laços familiares e de aceitarmos as pessoas tal qual elas são. O bebê caolho cresce e torna-se Kubo (voz do Art Parkinson), um rapazinho que divide o tempo entre cuidar da mãe atônita e contar uma história com origamis mágicos num vilarejo próximo para ganhar alguns trocados. Hanzo (voz do Matthew McConaughey), o pai que Kubo não conheceu, é o personagem principal dessas histórias, um herói lendário que desafiou o Rei Lua (voz do Ralph Fiennes) em uma batalha épica.

kubo-e-as-cordas-magicas-cena-2O conflito começa quando Kubo, desejoso de conhecer mais detalhes sobre o pai, decide tentar conversar com o espírito do mesmo usando uma lamparina mágica (notaram que tudo é mágico nesse filme? rs). Para tanto, ele precisa desobedecer uma ordem direta de sua mãe, que proibiu-o de ficar fora de casa durante a noite. Merda feita, o menino passa então a ser perseguido pelo Rei Lua e suas filhas (voz da Rooney Mara), e a única forma de ele vencê-los é reunir as três peças (espada, peitoral e capacete) de uma armadura MÁGICA, tarefa na qual ele será auxiliado por uma macaca mal humorada e por um samurai besouro.

Confuso? Só quando transformado em texto. Kubo e as Cordas Mágicas é bem tranquilo de ser assistido e, mesmo com todas as suas bizarrices e particularidades (onde mais tu encontrará um protagonista caolho que manipula origamis com um banjo mágico?), ele é alicerçado na clássica narrativa do herói, com Kubo partindo em sua jornada para conseguir a armadura e os poderes necessários para vencer o Rei Lua; as aventuras que ele vive no processo e, por fim, o retorno para casa no qual ele encontra seu grande inimigo. A trama até contem uma reviravolta no final, na qual a identidade de alguns personagens é revelada (acredite, vocês sacarão essa ‘revelação’ logo de cara), mas no geral o que vê-se aqui é um filme de ação e aventura padrão com um visual soberbo.

kubo-e-as-cordas-magicas-cenaO que torna Kubo bastante legal (talvez não para vencer as produções da Disney –Moana e Zootopia– no Globo de Ouro, mas ainda assim legal) são os detalhes, como o tom de terror/gótico imprimido pelo diretor Travis Knight em várias cenas (todas as aparições das filhas do Rei da Lua, bem como o combate deste último com Kubo, são assustadoras), os personagens esquisitões (a caveira gigante com espadas cravadas na cabeça entraria facilmente em qualquer versão do game Castlevania) e, como já dito, a história familiar bonitinha que corre paralelo à aventura principal. É realmente tocante ver o quanto aquele menino caolho deseja reunir sua família e os esforços que ele faz para tanto. Kubo ainda celebra as diferenças com um discurso poderoso no final sobre tolerância e amor (nossa beleza está nas nossas imperfeições e memórias), momento onde a emoção aflora em uma cena lindíssima repleta de MAGIA (não podia faltar) e belas lamparinas (lembrei de uma cena semelhante dessa animação aqui). Fechando o pacote, uma versão bonitinha da clássica While My Guitar Gently Weeps dos Beatles cantada pela Regina Spektor e um vídeo mostrando o trabalho espetacular dos artistas para criar a técnica stop motion. Kubo é esquisito, assustador e divertido. Mostre ele para seus filhos! Feliz Natal!

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Rogue One: Uma História Star Wars (2016)

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rogue-one-uma-historia-star-warsEste texto conterá SPOILERS e uma história sobre como o Cinépolis Uberlândia-MG me ferrou.

Eu dormi assistindo Rogue One. Por mais triste que seja, esta é a realidade e eu não pretendo fugir dela. Acredito que, após ler o próximo parágrafo, vocês acabarão entendendo que eu fui vítima de uma armação do capiroto, mas isso não diminui a minha vergonha por ter cochilado na estreia do melhor filme do ano.

Comprei ingressos para a pré-estreia de Rogue One: Uma História Star Wars com cerca de uma semana de antecedência. Na máquina de autoatendimento do Cinépolis, a sessão estava marcada para as 00:01 do dia 16/12, ou seja, madrugada de quinta para sexta-feira. Grande foi a minha surpresa quando, na quarta (14/12), eu vi um monte de gente comentando que havia chegado o dia de assistir o filme. Eu tinha CERTEZA que eu havia comprado ingresso para a PRIMEIRA sessão, e essa sessão DEFINITIVAMENTE não era na quarta. Preocupado, pedi para que a minha esposa fosse até o cinema confirmar a data da estreia e foi aí que o problema revelou-se em toda sua magnitude: o Cinépolis havia me vendido ingressos para uma sessão que não existia. Como solução, eles me deram cortesias para ver o filme naquele mesmo dia, na quarta, as 00:01.

Eu sei que esta história já está ficando longa demais, então vou resumir o que aconteceu. Caras, eu não estava NENHUM pouco preparado para ver o filme aquele dia. Eu havia trabalho dois turnos e estava morrendo de cansaço, de modo que a empolgação por estar diante de um novo Star Wars me deu forças para ver apenas os 30min iniciais do filme. Depois disso, eu cochilei pra valer. A sessão passou, fui ao banheiro, lavei o rosto e voltei para ver o final, mas basicamente foi isso que eu aproveitei: o início e o fim. Eu fiquei muito mal com isso. Pode parecer bobagem, mas senti que desrespeitei a saga. Maldito seja você, Cinépolis, por essa confusão dos infernos!

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-6No outro dia, tão logo acordei, consultei a grade de programação do GLORIOSO Cinemark, escolhi um horário, comprei um energético para garantir (rs) e entrei numa sala de cinema pela segunda vez em menos de 24 horas para ver Rogue One. Novamente, fui traído pelos meus olhos, mas dessa vez a dificuldade foi conter as lágrimas diante de um filme que não apenas confirmou o quão infinitas são as possibilidades de exploração do universo Star Wars quanto presenteou os fãs de longa data da franquia com a encenação de uma história fantástica e cheia de referências sobre o poder da Força e da resistência.

Cronologicamente, os eventos mostrados em Rogue One localizam-se entre A Vingança de Sith (Episódio 3) e Uma Nova Esperança (Episódio 4). Derrotados, os últimos Jedis partiram para o exílio e viram o Imperador Palpatine e seu aprendiz Darth Vader (James Earl Jones) derrubarem a República e estenderem a sombra do Império Galático por todo o universo. Para combater a resistência da Aliança Rebelde, o Império constrói a terrível Estrela da Morte, a arma definitiva capaz de destruir planetas inteiros com apenas um disparo. O início do Uma Nova Esperança mostrava como a Princesa Leia recebeu o plano de construção da Estrela da Morte e usou-o para dar início à derrocada do Império. Em Rogue One, o diretor Gareth Edwards (do ótimo remake do Godzilla) nos conta como esse plano foi descoberto e roubado pelos rebeldes em uma missão corajosa.

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-2Me parece que o anúncio do Rogue One despertou menos curiosidade e empolgação do que o do O Despertar da Força. Isso pode ser associado ao tempo que separa os lançamentos (do Episódio 3 até o 7 passaram-se 10 anos, e agora voltamos ao cinema apenas um ano depois para ver outro filme da série), mas também acredito que muita gente não confiou no potencial da trama. Não raramente, spin offs (obras derivadas de outras obras) como o Rogue One são vistos como meros caça-níqueis, produtos de qualidade inferior ao original pensados para gerar lucro, e a ideia de que poderiam dar este tratamento desrespeitoso para algo relacionado a franquia Star Wars não era lá das mais animadoras (o The Clone Wars de 2008, por exemplo, beirou o fiasco). Nesse sentido, Rogue One tem tudo para transformar-se um divisor de águas para os spin offs: ele não é apenas um derivado, ele é TÃO BOM QUANTO alguns dos filmes originais (pra mim, tá pau a pau com O Retorno de Jedi) e aumenta significativamente a expectativa para os futuros projetos da franquia (Episódio 8 em 2017, Han Solo em 2018).

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-5Como esperado, Rogue One apoia-se bastante na nostalgia, recriando cenas conhecidas do público e fazendo links e referências à outros filmes da série, mas ele também possui muito material original para ser amado por seus próprios méritos, a começar pelos personagens principais e suas motivações. Jyn Erso (Felicity Jones) e Cassian Andor (Diego Luna), uma criminosa e um líder da Aliança, não tem a mesma força, habilidade ou convicções morais de heróis como Obi-Wan e Mestre Yoda. Eles são pessoas comuns, com defeitos e qualidades (o que dá um tom mais cinza e adulto para o filme), que lutam como podem contra o domínio do Império. A beleza do roteiro de Rogue One está em desconstruir a figura do herói clássico (o exército de um homem só cheio de virtudes que enfrenta sozinho uma grande dificuldade) e mostrar a importância que ações individuais, ainda que pequenas, tem para os grandes feitos e realizações. Não fossem os sacrifícios de Jyn, Cassian e de outras centenas de desconhecidos, por exemplo, provavelmente o Luke não teria conseguido disparar o tiro que detonou a Estrela da Morte. Cada ação conta, mas nem por isso a trama deixa de criticar o extremismo, mesmo que veladamente. Notem a oposição que é feita entre a paranoia do líder Saw Gerrera (Forest Whitaker), um homem de métodos violentos, com a resiliência e a frieza do Galen Erso (Mads Mikkelsen), o cientista que é submetido à tirania do Diretor Orson Krennic (Ben Mendelsohn).

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-4A luta contra o Império vista em Rogue One é colorida por elementos que conhecemos e amamos, dentre os quais destaco:

  • As batalhas grandiosas envolvendo X-Wings, AT-ATs, Tie Fighers e Stormtroopers (que melhoraram consideravelmente para atirar rs), a Estrela da Morte sendo acionada duas vezes (é assustador vê-la surgir no horizonte antes dos disparos) e as cenas furtivas de sabotagem, resgate e roubo de dados.
  • O robô autista K-S2O, que preenche o espaço deixado pelo R2-D2 e pelo C-3PO (que aparecem em uma cena rápida) e é o responsável pelas melhores piadas do filme.
  • A base rebelde de Yavin IV, um dos cenários mais legais do Uma Nova Esperança, que é recriada com perfeição. Ver as X-Wings decolando de lá pilotadas por personagens antigos, como o Líder Vermelho e o Líder Dourado é algo inexplicável. É ali que também está um dos links mais diretos com o Episódio 3: Bail Organa (Jimmy Smits) pode ser visto entre os rebeldes.

rogue-one-uma-historia-star-wars-cena-3Ainda sobre a nostalgia, é óbvio que o ponto alto de Rogue One é a participação do Darth Vader. O personagem, que talvez seja o vilão mais icônico de todos os tempos, aparece em cenas curtas mas absurdamente fantásticas. Tem estrangulamento pela força, tem sombra do capacete projetada na parede, tem tanque de recuperação e, claro, tem a invasão da nave da Princesa Leia. Meus amigos, QUE CENA DO CARALHO! Naturalmente, a gente torce pela Aliança, mas é impossível ser politicamente correto quando o Wader saca o sabre de luz e começa a detonar os rebeldes. Nesta cena, recriação do início do Uma Nova Esperança, o Gareth Edwards vale-se de suas experiências anteriores em filmes de terror e apresenta uma sequência tenebrosa em que um monte de soldados caem diante o avanço implacável do Wader. Em seguida, a Leia (criada digitalmente, numa das maiores surpresas da trama) aparece e enche o coração de todo mundo de esperança, mas a real é que quando os créditos surgem a gente ainda está meio atordoado por ter presenciado uma das maiores carnificinas de toda a série. Hail, Disney!

rogue-one-uma-historia-star-wars-cenaPra finalizar, há a cena em que o Chirrut (Donnie Yen), um monge cego, marcha através de uma zona de guerra para pressionar uma alavanca. O universo tornou-se um lugar sombrio após os Jedis terem sido derrotados, mas nem por isso Chirrut deixou de acreditar no poder da Força. Inicialmente, o mantra que ele entoa (I’m one with the Force, and the Force is with me) é usado em cenas cômicas, mas aí o personagem demonstra todo o poder de sua fé ao avançar contra os temíveis Death Troopers e faz a gente dar aquele nó na garganta. Pra mim, esta cena junta-se a queda do Han Solo no Despertar da Força e ao “Você era meu irmão, Anakin” do A Vingança dos Sith como um dos momentos mais tristes e emocionantes da série. Lá no começo do texto eu disse que chorei vendo Rogue One e foi exatamente nesta cena que as lágrimas caíram. Não é só um filme, não é só um personagem: é Star Wars ❤

Eu já paguei 2 vezes para ver Rogue One: Uma História Star Wars e certamente pagarei uma terceira. É lógico que não verei no Cinépolis, que além de tudo o que foi falado ainda está vendendo um combo caro (53 reais) contendo um balde de plástico vagabundo no formato da Estrela da Morte. Verei no Cinemark, e verei com a mesma empolgação porque, num ano de ótimos blockbusters, Rogue One foi o melhor disparado. Que venha o Episódio 8 e que a Força esteja com vocês!

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Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016)

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animais-fantasticos-e-onde-vivem Nos 2 meses que antecederam a estreia de Animais Fantásticos e Onde Habitam, revi todos os 8 filmes da série Harry Potter. Não me considero um fã hardcore da franquia (nunca li nada escrito pela J. K. Rowling), mas eu queria relembrar a trama visto que, conforme anunciaram, este lançamento seria ambientado no mesmo universo de bruxos e magia em que Harry e Voldemort duelaram.

Completada a maratona (o As Relíquias da Morte – Parte 1 continua sendo um dos meus soníferos favoritos), acessei o site do cinema para comprar ingressos para a pré-estreia, que ocorreria numa sessão durante a madrugada. Foi aí que as coisas começaram a dar errado. Tal qual um velho gaga, eu confundi a data da sessão e, por muito pouco, não gastei dinheiro à toa e perdi a viagem até o shopping. Fiquei meio chateado com isso. Antigamente, eu não costumava fazer esse tipo de confusão.

Todo caso, escolhi uma data posterior, comprei os ingressos e, chegado o dia, saí de casa 1h30min antes do horário marcado para o início da sessão. Foi aí que começou a chover. Detalhe: eu estava de moto. No prazo de uns 3 minutos, eu e minha esposa ficamos completamente encharcados e, para não piorar a situação, entramos no estacionamento de um supermercado com a esperança de que a chuva parasse. Cerca de uma hora depois, ainda molhados e morrendo de frio, decidimos voltar para casa. Fim da história? Não para um homem determinado! Observando que a chuva estava parando, resolvi deixar toda a minha dignidade de lado e ir ao cinema daquele jeito mesmo, todo zoado. Para não perder os ingressos, atravessei a cidade acelerado e entrei na sala do cinema, minutos antes dos trailers começarem, com o tênis fazendo *plec plec* e a roupa pingando água. Foi uma experiência horrorosa e eu teria ficado muito puto se, depois de todo esses infortúnios, o filme fosse ruim. Felizmente, porém, não foi o caso: Animais Fantásticos e Onde Habitam é um ótimo início de franquia (já anunciaram mais 4 sequências rs) e sua dinâmica, que mistura piadas, cenas de ação grandiosas e referências aos longas anteriores, foi boa o suficiente para me fez esquecer que eu estava molhado dentro de uma sala de cinema com ar condicionado rs

animais-fantasticos-e-onde-vivem-cena-3Ambientada nos Estados Unidos do início do século passado, a história conta como o bruxo inglês Newt Scamander (Eddie Redmayne) chegou em Nova York levando uma mala mágica repleta de criaturas extraordinárias. Devido a uma confusão envolvendo o simpático padeiro Kowalski (Dan Fogler), algumas dessas criaturas escapam e Newt precisa recuperá-las antes que elas denunciem para os trouxas (ou No-Maj) a existência da comunidade de bruxos norte americana.

Em sua aventura, Newt recebe ajuda de Tina (Katherine Waterston), uma Auror do Congresso Mágico dos EUA, e acaba envolvendo-se em uma trama muito mais séria e sombria do que a fuga dos animais que ele trazia em sua mala: Gellert Grindelwald, um terrível feiticeiro negro, pode ter refugiado-se em território americano após espalhar o pânico no continente europeu.

animais-fantasticos-e-onde-vivem-cena-4Em Animais Fantásticos e Onde Habitam, o diretor David Yates (que também dirigiu os últimos 4 filmes da saga Harry Potter) cumpre muitíssimo bem a delicada tarefa de resgatar o interesse do público por uma das franquias mais amadas da história recente do cinema (vale lembrar que já passaram-se 5 anos desde As Relíquias da Morte – Parte 2), e o faz principalmente através da manipulação de alguns elementos que já haviam sido testados e aprovados anteriormente. Fora o fato de, essencialmente, Newt, Tina e Kowalski serem reedições mais maduras de Harry, Hermione e Rony, não passam despercebidas as semelhanças entre Graves (Colin Farrell) e o Professor Snape (dois personagens poderosos envoltos em algum tipo de mistério), bem como o mecanismo do roteiro que, tal qual o da Pedra Filosofal, prepara o terreno para a chegada de um terrível inimigo nos longas posteriores. Essas paridades, que vem acompanhadas de citações à personagens conhecidos (Dumbledore e Bellatrix Lestrange) e do uso de seres e encantamentos próprios da série, imprimem à trama uma necessária e aconchegante sensação de familiaridade.

FANTASTIC BEASTS AND WHERE TO FIND THEMPara si, estava nova incursão no universo criado pela escritora J. K. Rowling pode reivindicar uma mistura de gêneros mais coesa do que havia sido feita na série anterior. Animais Fantásticos e Onde Habitam equilibra satisfatoriamente cenas de ação, aventura, comédia, romance e drama, oferecendo uma gama variada de sentimentos ao longo de suas pouco mais de 2 horas. Se a correria e as espetaculares batalhas de magia fazem valer à pena investir num ingresso mais caro para assistir em 3D, o romance entre Kowalski e Queenie (Alison Sudol, que é a cara do Redmayne no A Garota Dinamarquesa rs) e o tema do preconceito/tolerância trabalhado no núcleo da Família Barebone atendem as necessidades de quem procura um filme mais intimista. Se você, por outro lado, está se sentindo velho e/ou teve um péssimo dia correndo de moto sob um temporal, desafio-lhe a continuar mal-humorado após ver o simpático Niffler coletando todo e qualquer objeto brilhante que ele encontra pela frente. É de rir alto, igual criança feliz.

Tomando por base esse incrível debute, acredito que Animais Fantásticos e Onde Habitam tem tudo para ser lembrado como o início de mais uma franquia de sucesso, fornecendo para os fãs de fantasia toda a emoção que a adaptação do O Hobbit, por exemplo, prometeu e não cumpriu (por mais difícil que seja, é necessário reconhecer que A Batalha dos Cinco Exércitos foi um fiasco). A julgar pela revelação bombástica do final, a sequência, que está programada para 2018, será um filmão.

FANTASTIC BEASTS AND WHERE TO FIND THEM

Mogli: O Menino Lobo (2016)

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mogli-o-menino-loboBoa tarde, leitores.

É dia 08 de novembro e venho a público DECRETAR a abertura de mais uma “Cobertura Globo de Ouro/Oscar” do Já viu esse? nesta internet espetacular de Cenas Lamentáveis, Aprenda Dollynez e Legado da Copa. A partir de agora já pode:

Brincadeiras facebookianas à parte, está na hora de começar a dar atenção para a temporada de 2017 das premiações mais tradicionais do cinema norte americano. Assim como fiz nos últimos 2 anos, peguei no Indiewire a lista de possíveis indicados ao Globo de Ouro/Oscar e vasculhei a internet atrás dos títulos que já haviam sido lançados. Não encontrei muita coisa (no início de janeiro sempre melhora), mas já há material online suficiente para começar a trabalhar. Dos 8 filmes estrangeiros indicados pelo site, por exemplo, 5 já estão disponíveis nos principais servidores de Torrent e logo logo devem figurar por aqui.

Segundo o Indiewire, Mogli: O Menino Lobo, adaptação do diretor Jon Favreau para o livro do escritor Rudyard Kipling, tem chances reais de estar entre os concorrentes a Melhor Filme por ser um “filme família” da Disney que não só tornou-se bastante popular entre o público quanto recebeu boas resenhas da crítica especializada. Pessoalmente, não acredito que a produção tenha essa força toda (talvez para o Globo de Ouro, não para o Oscar), mas começarei a cobertura por ela enquanto outros títulos mais expressivos não surgem.

mogli-o-menino-lobo-cena-3Pulei a chance de ver Mogli nos cinemas por pura falta de interesse. Gosto bastante da história, tanto que revi a animação de 1967 antes de escrever esta resenha e já passei um bocado de horas jogando o dificílimo game do filme no Super Nintendo, mas acho que minha cota de paciência com essa onda de refilmagens de clássicos da Disney já acabou. Não fosse a aposta do Indiewire, dificilmente vocês leriam sobre esse filme por aqui. Querem saber? Errei feio ao ignorar Mogli. A adaptação do Favreau, além de recriar com carinho e nostalgia algumas das melhores cenas da original, amplia significativamente a grandeza do material com um roteiro mais sombrio e profundo e encanta pelo uso magnífico da computação gráfica na criação dos personagens e dos cenários.

De todas as lendas estranhas que são contadas sobre as selvas da Índia, nenhuma é tão estranha como a do menino Mogli (Neel Sethi). Encontrado na floresta ainda bebê pela pantera Bagheera (voz do Ben Kingsley), Mogli foi levado para ser criado por uma família de lobos. Tudo transcorreu relativamente bem até o dia em que uma seca prolongada fez com que o tigre Shere Kan (voz do Idris Elba) retornasse da escuridão e exigisse a cabeça de Mogli. Segundo ele, os homens não são confiáveis e não deveriam permanecer na floresta. Temendo pela vida do garoto, Bagheera decide levá-lo até uma aldeia onde ele pudesse viver em paz com sua própria espécie, mas uma série de infortúnios vão colocando Mogli mais e mais perto do confronto com o tigre.

mogli-o-menino-lobo-cena-4No filme, o simpático ator mirim Neel Sethi interage com ambientes e animais totalmente criados por CGI e o resultado é nada menos do que sensacional. Num primeiro instante, aliás, é bastante difícil acreditar que a floresta em que vemos Mogli e os lobinhos correr não é real. A cachoeira, as árvores cheias de cipó, os mosquitos… tudo faz aumentar nossa incredibilidade devido à riqueza de detalhes e esmero da produção. É o tipo de material que deve ter ficado BEM legal na tela do cinema com o uso do óculos 3D 😦

Sobre a história, que originalmente foi contada em pouco mais de 1h15min de muita cantoria e tagarelice, Favreau investiu em uma trama mais adulta que fala sobre um garoto que tenta encontrar seu próprio caminho na vida. Nisso, o diretor aumentou a importância de certos personagens (lobos), modificou alguns (elefantes) e suprimiu outros tantos (abutres) do roteiro para falar sobre como Mogli aprendeu um pouquinho com cada um de seus amigos no tocante a enfrentar dificuldades e resolver problemas. Destoa do original a valorização das habilidades de Mogli enquanto ser humano (principalmente na cena do mel), o escancaramento dos defeitos dos animais (a preguiça do Baloo e a ganância do Rei Louie, por exemplo) e a violência. Um amigo do trabalho me disse que arrependeu-se de levar o filho dele para ver Mogli porque haviam muitas cenas no filme que não eram feitas para crianças. Não dá para tirar a razão do cara: o confronto de Shere Kan com Akela, o líder dos lobos, é deveras traumático.

THE JUNGLE BOOKMogli atualiza a história do Rudyard Kipling para esta geração, mas é notável que o diretor preocupou-se em agradar os fãs da antiga animação da Disney. Fora começar o filme apresentando uma versão saudosista do logo da empresa (o castelo, com os fogos e o pó mágico da Sininho, aparece em 2D), Favreau foi bastante atencioso ao adaptar as cenas mais famosas do desenho. Não gostei tanto da sequência envolvendo a cobra Kaa (voz da Scarlett Johansson), mas o encontro do menino com o divertidão Baloo (voz do Bill Murray) é o tipo de coisa capaz de colocar um sorriso no rosto de alguém. Tal qual no original, Mogli desliza rio abaixo na barriga do urso cantando a viciante Somente o Necessário e nos faz pensar sobre as vantagens de viver comendo mel e formigas. Outra passagem clássica que ficou muito boa foi a do Rei Louie (voz do Christopher Walken): nunca deixará de ser engraçado ver o macaco, que está gigantesco, falando que quer ser igual a gente enquanto gagueja.

Num cenário bastante positivo, Mogli pode até concorrer ao Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia/Musical e disputar alguma categoria técnica no Oscar, como Melhores Efeitos Especiais, mas disso não passa. Não é por isso, porém, que o filme não merece uma chance: destas refilmagens de clássicos infantis que Hollywood andou lançando, ele é um dos poucos que valem a pena caso você não seja mais um pimpolho.

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