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Mulher Maravilha (2017)

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Após dividir opiniões com o tom sombrio adotado em O Homem de Aço e Batman vs Superman e ver o hiper colorido Esquadrão Suicida transformar-se em um dos maiores fiascos de 2016, o pessoal da DC certamente percebeu que não podia mais errar. Nisso, eles olharam para o lado, observaram o que a Marvel produziu nos últimos anos e decidiram tentar algo semelhante. Mulher Maravilha, filme da diretora Patty Jenkins concebido e produzido pelo onipresente Zack Snyder, traz todo o humor e ação que fizeram o Homem de Ferro e cia caírem nas graças do público. A aura mais “séria” da DC, no entanto, não foi completamente deixada de lado e continua presente graças à adição do atualíssimo tema do feminismo. O resultado dessa “mistura de fórmulas” é um filme legal, que diverte, faz pensar e que, acima de tudo, mostra o caminho que a DC pode e deve seguir daqui em diante.

Ninguém discorda que a participação da Mulher Maravilha (Gal Gadot) foi um dos pontos altos do Batman vs Superman, mas ao mesmo tempo ficou a sensação incômoda de que a personagem não rendeu tudo o que poderia render. A amazona foi fundamental para a vitória dos heróis sobre o Apocalypse, porém a falta de um longa anterior contando sua história transformou-a quase numa coadjuvante de luxo num universo em que ela é uma das principais protagonistas. Pensem aí: o que nos contaram da Diana antes de mostrarem-na saltando e golpeando ao som daquela música tribal legalzona? Que ela estava procurando uma foto? A real é que o Zack Snyder errou feio com a personagem (e, para quem acha que não é possível contar uma história bacana e apresentar muitos personagens ao mesmo tempo, basta ver o que a Marvel fez no Guerra Civil, que debutou simultaneamente gigantes como Homem Aranha e Pantera Negra).

Mulher Maravilha chega agora para contar a origem de Diana e explicar o contexto no qual aquela foto foi tirada. Ficou bom? Ficou bom demais, pena que não fizeram isso ANTES do Batman vs Superman. Se o filme da diretora Patty Jenkins preenche lacunas e responde questões anteriormente colocadas, ele pouco ou nada faz para preparar terreno para o próximo filme da DC, o aguardado Liga da Justiça (tanto que nem há cena pós-créditos). O acerto individual é inegável, mas, do ponto de vista cronológico, o Universo Estendido da DC continua estranho.

Feita esta ressalva, falemos dos muitos acertos de Mulher Maravilha. Tal qual O Homem de Aço, temos aqui um filme de origem, desses onde a história do/a personagem é explorada desde o início. Nisso, a diretora Patty Jenkins vale-se de sequências de animação e de cenas numa ilha paradisíaca para mostrar a infância de Diana, filha de Hippolyta (Connie Nielsen), uma amazona descendente do próprio Zeus que cresceu sem conhecer nenhum homem e foi treinada pela lendária guerreira Antiope (Robin Wright). Este começo, que é deveras rápido, revela-se fundamental para o funcionamento da trama: é aqui, nos diálogos entre a heroína e sua mãe, que a curiosidade, a determinação e a fé inabalável no amor da personagem ficam claros para o público. Vale destacar também a beleza onírica do cenário, que tanto faz a gente querer sair viajando por aí (as locações são italianas) quanto contrastam significativamente com os horrores da guerra que são mostrados em seguida.

O conflito começa quando, após uma briga com a mãe, Diana vê um avião cair próximo ao litoral da ilha. Naquela que talvez seja a cena mais bonita do filme (visualmente falando), a personagem salta de um penhasco e mergulha para resgatar o piloto Steve Trevor (Chris Pine) dos destroços. Tão logo salva a vida de Steve, Diana e as amazonas precisam lidar com um batalhão inteiro do exército alemão, que invade a ilha à procura do piloto. A primeira cena de ação de Mulher Maravilha é um espetáculo: mesmo que o uso excessivo do slow motion (estética visual que a diretora emula dos trabalhos do Snyder) acabe enjoando depois de um tempo, as lutas foram coreografadas para parecerem selvagens e brutais. Caem, junto com os corpos dos alemães (e o de uma importante personagem), os primeiros estereótipos: aqui, são as mulheres que salvam os homens e elas, ao contrário do que é levianamente dito, não tem nada de “sexo frágil”. Antiope bate igual uma campeã, caras.

O tema do feminismo é explorado em muitos pontos de Mulher Maravilha e a postura forte e independente de Diana certamente inspirará muitas mulheres a buscarem o próprio empoderamento. Como o debate é amplo, também não dá para desconsiderar a opinião de quem diz que, ao fazer da heroína uma mulher de corpo intangível e axilas depiladas, o filme foi superficial e até mesmo equivocado com as demandas atuais do feminismo. Independente da opinião que qualquer um possa ter sobre as questões abordadas, no entanto, não podemos abrir mão de pensar sobre elas, então deixo aqui a minha contribuição. Tão logo a batalha da praia encerra-se, Steve é interrogado pelas amazonas sobre o mundo exterior e a guerra. Quando tem oportunidade de ficar sozinha com o piloto, Diana interpela-o com uma série de perguntas que, em sua maioria, carregam algum tipo de conotação sexual. Achei particularmente interessante observar a reação do público do cinema nessa cena (e também naquela que acontece logo em seguida, num barco). Enquanto as mulheres riam o tempo todo, os homens ficavam visivelmente constrangidos. Por quê? Será que é porque o cinema costuma retratar somente o contrário (mulheres sexualizadas à serviço do humor)? Acredito que, mais do que revoltar-se quando Diana diz que “homens são necessários apenas para a reprodução”, vale a pena usar o desconforto causado por algumas cenas para repensarmos algumas atitudes e posturas.

Pelo tema da guerra, muitas pessoas apressaram-se em comparar Mulher Maravilha com o Capitão América. As semelhanças visuais são óbvias (apesar de estarmos falando de duas guerras diferentes), mas estruturalmente a trama lembra bem mais o primeiro Thor. Tão logo chega em Londres, Diana envolve-se em uma séries de situações cômicas tal qual o deus do trovão envolveu-se ao ser exilado na Terra por seu pai. Esse “meio” do filme é onde vemos com mais clareza a influência da Marvel sobre o trabalho da DC. O humor proveniente da inocência da Diana em cenas rápidas e leves como aquela da porta giratória é melhor do que tudo o que foi feito nesse sentido no Esquadrão Suicida (até hoje não acredito naquela ‘piada’ sobre apagar o histórico de busca) e é um indicativo de que a DC está no caminho certo.

Todo caso, trata-se de um filme de “super herói”, o que implica em cenas de ação grandiosas e confrontos contra vilões memoráveis. Antes de ficar cara a cara com seus antagonistas, Ludendorff (Danny Huston) e Dra. Maru (Elena Anaya), Diana (que, salvo engano, não é chamada em nenhum momento de Mulher Maravilha) enfrenta o perigo das trincheiras e luta contra um sniper nos escombros de uma cidade destruída. Fazendo uso de seu escudo, dos Braceletes Indestrutíveis, do Laço da Verdade e da Espada Matadora de Deuses, Diana toma a frente no campo de batalha e sobra sobre os soldados alemães. O que ela faz contra o sniper no campanário, aliás, é uma das maiores demonstrações de força bruta que se tem notícia em um filme de super herói.

É difícil imaginar ligações diretas entre Mulher Maravilha e o Liga da Justiça. Deveriam ter lançado este filme antes do Batman vs Superman e pronto. Como “consolação”, fica o fato de que, fora apontar um caminho, o trabalho da diretora Patty Jenkins começa, desenvolve-se e termina bem. A reviravolta do final, com o surgimento de um novo e inesperado vilão e a pancadaria brutal que segue-se é o exemplo que a DC ousa deixar para a Marvel: valorizem a luta final e façam o possível para tornarem-na épica e cheia de poderes, luzes e frases de efeito. Vencer uma guerra com amor? Gosto. Gal Gadot? Gosto também.

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Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (2017)

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Ao que tudo indica, após 14 anos e 5 filmes, a série Piratas do Caribe finalmente encontrou seu ponto final com A Vingança de Salazar. Da minha parte, Jack Sparrow (Johnny Depp) e cia não deixarão muita saudade. Sei que Hollywood tem várias franquias que já estão fazendo hora extra, mas sempre visualizo piratas tomando rum num cenário tropical quando penso numa história que passou da hora de acabar (Navegando em Águas Estranhas, o último filme lançado em 2011, foi pura enrolação). Coube a dupla de diretores noruegueses Joachim Rønning e Espen Sandberg a tarefa de conduzir este último capítulo, tarefa que eles realizaram com dignidade devido a experiências anteriores com filmagens marítimas, mas fica claro o tempo todo da projeção que não há mais nada para ser dito por aqui.

Eis o roteiro: Quando novo, Jack enfrentou e venceu o Capitão Salazar (Javier Bardem) em uma batalha marítima. Salazar desejava exterminar todos os piratas do mar mas não foi capaz de superar seu jovem adversário, que valeu-se de uma manobra arrojada para destruir a embarcação do Capitão espanhol e dizimar toda sua tripulação. Anos mais tarde, Salazar retorna do mundo dos mortos disposto a vingar-se de Jack, cuja única chance de fazer frente a seu adversário sobrenatural é encontrar o Tridente de Poseidon, um artefato mítico que, segundo a lenda, garante o controle dos mares para quem o possuir.

Tal qual sempre faço antes do lançamento de um novo filme de uma franquia, peguei todos os Piratas do Caribe para rever. Faço isso para recordar a história e os eventos que fatalmente serão citados na nova produção. Recentemente, por exemplo, revisitei todos os 7 Star Wars antes de ver o Rogue One e os 8 Harry Potter antes de ir assistir o Animais Fantásticos e Onde Habitam. Com o Piratas, eu não consegui passar do O Baú da Morte, que é o segundo numa lista de 4. Por que isso aconteceu? Eu até posso alegar falta de tempo, visto que ando numa correria danada, mas a real é que me faltou saco para ficar sentando 2h15min na frente da TV (que é a média de duração dos filmes da série) assistindo sequências intermináveis de ação e humor pastelão. Um filme assim? Ok. 5? Não, obrigado.

E foi assim, sem muitas lembranças da história, que eu entrei no cinema para ver A Vingança de Salazar. Sinceramente? Não senti muita diferença. De tudo o que foi mostrado, só fiquei perdido quanto ao fato do navio Pérola Negra estar dentro de uma garrafa (e o Wikipédia me ajudou a lembrar que isso aconteceu após uma batalha com o Barba Negra), de resto consegui acompanhar numa boa. Algumas histórias paralelas, como o arco em que o novato Henry Turner (Brenton Thwaites) tenta quebrar a maldição de seu pai (Orlando Bloom) e as cenas envolvendo o agora ricaço Capitão Barbossa (Geoffrey Rush), até exigem algum conhecimento prévio da trama, mas nada que deixe o filme incompreensível para quem estiver tendo aqui o seu primeiro contato com os piratas. Essa “leveza” do roteiro pode até ser perfeita para o o chamado público ocasional, pessoas que vão ao cinema em busca de entretenimento rápido e simples, mas torna-se insustentável e insuficiente para quem acompanhou a série desde o início.

Jack Sparrow, que não mudou praticamente nada desde que deu as caras em 2003 no ótimo A Maldição da Pérola Negra, continua enchendo a cara de rum, paquerando as mulheres alheias e correndo daqui e dali realizando façanhas aparentemente impossíveis. A abertura de A Vingança de Salazar, aquela cena do roubo do cofre, condensa todos esses elementos e apresenta novos personagens para o público, Henry e Carina Smyth (Kaya Scodelario), dupla que reedita sem muita criatividade o que outrora foi feito por Will e Elizabeth Swann (Keira Knightley). Trata-se de um correria infernal repleta de efeitos especiais e de artifícios cômicos, mas tão logo a cena termina a gente já esquece de praticamente tudo o que aconteceu. Vi o filme domingo. Lembro que Jack e sua tripulação estavam tentando roubar um cofre, mas tenho dificuldades para falar sobre detalhes do ocorrido. Como ainda não fui diagnostico com Alzheimer, fico inclinado a pensar que a confusão visual típica da série (e dos blockbusters no geral), apesar de divertida, é bastante descartável.

As coisas melhoram um pouco nas gigantescas batalhas de navio. Antes de encontrar sua inevitável derrota, Salazar realiza um estrago considerável na frota inglesa e nas embarcações do Barbossa, cenas estas que ganham um tom sombrio graças à trilha sonora forte e à hábil condução dos diretores. Também vejo qualidade nas atuações do Geoffrey Rush e do Javier Bardem e, mesmo considerando que o Jack Sparrow acabou transformando-se numa paródia de si mesmo, continuo gostando do trabalho do Johnny Depp, mas, no geral, Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar é bastante repetitivo e frustrante. Torço para que aquele final piegas seja realmente o último ato da série e para que, por mais lucrativo que seja, a Disney não invente uma nova desculpa para trazer Jack e cia de volta.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 (2017)

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O primeiro Guardiões da Galáxia foi muito bom. Apoiado num visual hiper colorido, numa trilha sonora onipresente e saudosista e abraçando o humor sem medo de ser feliz, o filme do diretor James Gunn conquistou vários fãs com seu roteiro leve e ritmo frenético. Esta continuação, como não poderia deixar de ser, retoma e amplia esta fórmula, mas desta vez, principalmente na segunda metade do longa, o diretor resolveu incorporar elementos dramáticos à história, o que deixou o filme um pouco mais “adulto” do que seu antecessor. O resultado é inquestionavelmente bom, mas confesso que foi meio estranho entrar no cinema felizão, ansioso para dar boas risadas, e sair de lá meio cabisbaixo e pensativo.

Foi na gloriosa e mágica década de 80 que Meredith Quill (Laura Haddock) conheceu e apaixonou-se por uma criatura topetuda do espaço (Kurt Russell). Do amor deles, nasceu Peter Quill (Chris Pratt), o homem que anos mais tarde ganharia notoriedade por conseguir segurar uma das Joias do Infinito e sobreviver. Peter, que nunca conheceu o pai e que viu a mãe morrer ainda criança, cresceu e tornou-se o Senhor das Estrelas, um caçador de recompensas que lidera o grupo Guardiões da Galáxia em missões através de todo o universo.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 começa ao som de Brandy, do Looking Glass, com Meredith passeando num conversível estiloso junto de seu amado. Tão logo fica claro que os dois são os pais de Peter, porém, a cena muda para o longínquo planeta dos Soberanos onde os Guardiões aguardam pela chegada de uma besta interdimensional. Ayesha (Elizabeth Debicki), a rainha do local, contratou Peter, Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (voz do Bradley Cooper) e o Bebê Groot (voz do Vin Diesel) para protegerem uma preciosa carga de baterias inflamáveis do monstro. A luta que se segue é, sem sombra de dúvidas, a melhor sequência de abertura de um filme da Marvel até o momento. Fazendo um belo uso do 3D, James Gunn coloca Peter e cia para quebrarem o pau com o bichão enquanto mostra o simpático Bebê Groot dançando com a Mr. Blue Sky do Eletric Light Orchestra. Ver esse começo, que tem coisas bacanas como o Peter e o Rocket discutindo, o Drax vigiando o Bebê Groot e a Gamora desferindo alguns golpes estilosos de espada, é como abrir um presente no dia das crianças e encontrar exatamente aquilo que a gente queria ganhar. É familiar e surpreendente ao mesmo tempo.

Após ganhar nossa atenção com esse início divertidíssimo, o diretor introduz os elementos que compõe a história de Vol. 2. Por pura sacanagem, Rocket rouba algumas das baterias dos Soberanos e Ayesha ordena que seus comandados capturem os Guardiões. Rola uma cena frenética de perseguição no espaço, daquelas que parecem ter saído direto de um videogame, a qual é interrompida pela aparição já anunciada de Ego, o topetudo pai de Peter Quill. Nisso, o grupo divide-se em 2: Peter, Gamora e Drax acompanham Ego e Mantis (Pom Klementieff), sua auxilar, até um planeta distante, e Rocket e Bebê Groot ficam responsáveis por reparar a nave e vigiar Nebulosa (Karen Gillian), a filha de Thanos que havia sido entregue aos personagens como recompensa por protegerem as baterias. Paralelamente, o pirata Yondu (Michael Rooker) é contratatado por Ayesha para localizar os Guardiões.

Sobre esses eventos que constituem o “meio do filme”, por assim dizer, vale a pena realizar comentários separados para cada um deles:

Ego e Peter Quill: O esperado encontro entre o Senhor das Estrelas e seu pai responde muitas perguntas deixadas pelo primeiro Guardiões da Galáxia e é o principal acontecimento deste filme, mas todas as cenas que envolvem esse arco da história são chatas de doer. Eu entendo que até mesmo uma bomba de diversão como essas precise de algumas partes mais “sérias” para que os personagens sejam desenvolvidos, porém não posso negar que fiquei extremamente entediado enquanto Peter e Ego falavam do passado e do futuro naqueles cenários oníricos.

Rocket: Tanto por seu mau humor quanto por sua insanidade nas batalhas (adoro quando ele fala aquele HELL YEAH!), o guaxinim antropomórfico permanece como meu personagem favorito dentre todos os Guardiões. O Rocket continua legalzão e o James Gunn deu uma cena na floresta para ele brilhar sozinho com todos os seus equipamentos e metrancas, no entanto a imagem que eu levei dele desta vez foi a da criatura triste e solitária que maltrata todos, até os próprios amigos, pela inabilidade de ser amado. As cenas que nos levam a essa conclusão, principalmente aquele diálogo com o Yondu no final, são verdadeiramente tristes e destoam de tudo o que fora feito na série até aqui. Isso não é necessariamente ruim, mas confesso que fui surpreendido pela bad vibe.

Yondu: Lembram daquele sujeito risonho e seguro de si que dizimava grupos inteiros de inimigos com uma flecha voadora? Restou pouco dele em Vol. 2. Yondu não só enfrenta um motim de sua tripulação quanto é desprezado por Stakar Ogord (Sylvester Stallone), o líder dos piratas espaciais. Yondu também ganha espaço para exibir suas habilidades (a batalha contra o Taserface) e protagoniza um dos momentos mais engraçados do longa (Mary Poppins!), mas no geral a participação dele nesta continuação é bem melancólica. A cena em que a Father & Son do Cat Stevens é executada é de cortar o coração.

Resumindo, é muita tristeza e seriedade em um filme que é a continuação de um dos longas mais divertidos dos últimos anos. Vol. 2 ainda tem MUITO humor e inocência (conforme pode ser visto em praticamente todas as cenas do Bebê Groot e do Drax e em pérolas como o ‘Pac Man gigante’) repete aquele clima descolado proporcionado por músicas bacanas como The Chain do Fleetwood Mac e está cheio de easter eggs (Howard, o Pato está de volta e há incríveis 5 cenas após os créditos rs), mas no geral a investida do James Gunn no desenvolvimento dos personagens levou a história para rumos bastante sombrios (observem a Nebulosa falando sobre o que ela deseja fazer com o Thanos). Gostei do filme, tanto que vi ele duas vezes antes de escrever essa resenha (uma foi dublado: a voz do Yondu ficou HORRÍVEL na versão nacional), mas não gostei de ver o Rocket chorando. Tadinho.

Power Rangers (2017)

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Vamos encarar a realidade? Power Rangers É ruim. Não concordam? Experimentem rever a série (tem no Netflix) e percebam o quão zoado era tudo aquilo. Já no primeiro episódio, em menos de 5min, a Rita Repulsa e seu exército são libertados de uma prisão lunar, Zordon convoca os Rangers e lhes dá a missão de proteger os EUA a Terra e o Alpha já soltou vários AI AI AIAIAI . Sim, também tem a Amy Jo Johnson, primeira namoradinha de muita gente, fazendo ginástica com uma calça suplex rosa, mas no geral o seriado era bem bobão e previsível. Com raríssimas exceções, todos os episódios seguiam o esquema:

  1. Rangers na lanchonete + piadinhas do Bulk e Skull
  2. Rita conspirando contra o sossego alheio
  3. Bonequinhos de massa (PRULULULU!) e monstro
  4. Rita faz o monstro crescer
  5. Megazord destrói o monstro (e toda a cidade de Angel Grove junto)
  6. Rangers na lanchonete tomando milk shake, lição de moral e Rita com dor de cabeça pedindo aspirina

Todo caso, em 1995, quando o seriado estreou no Brasil, eu era apenas um garoto de 10 anos que saía da escola e ia correndo para casa ver Power Rangers na TV Colosso. Naquela época, eu tinha medo do Roberval, O Ladrão de Chocolates e gostava muito, muito de do seriado. Eu não tava nem aí para o roteiro capenga e para o fato de que a Ranger amarela tinha um volume estranho no meio das pernas. Para falar a verdade, eu nem sabia o que era roteiro. Quando eu sentava no sofá de casa na hora do almoço, as únicas coisas que importavam eram o purê de batata da minha mãe e a sequência animal de transformação do Megazord.

Com o exposto, sei que constato o óbvio – nem tudo que a gente gosta quando é criança continua nos agradando quando crescemos – mas é bom deixar isso claro para que nenhum fã da série apareça por aqui pra me xingar pelo que vou dizer. Acho difícil gostar de Power Rangers hoje em dia. Por mais que eles tenham feito parte da minha infância (eu tinha vários daqueles bonequinhos trash que giravam a cabeça; o meu favorito era o Billy/Triceratops) e que eu me sinta nostálgico em relação ao seriado, o tempo passou e agora eu me interesso por outras coisas. Nisso, fica a pergunta: faço parte do público alvo desse novo Power Rangers? A intenção dos produtores era conquistar uma nova leva de fãs ou fornecer um produto saudosista para a galera da década de 90? As duas coisas? É certo que esse filme do diretor Dean Israelite, com todos os seus efeitos especiais e linguagem atual, abre as portas dos anos 2000 para os Rangers, mas também é patente que o longa foi construído buscando proporcionar uma válvula de escape para o passado ao custo de um ingresso. Não sei se a molecada gostou do que viu, mas o tiozão aqui não ficou nenhum pouco empolgado.

O começo até que não é dos piores. Ao contrário do que acontece no seriado, reservaram um bom tempo para apresentar os personagens e dar sentido para uma história em que monstros gigantes tentam destruir o mundo. Há cerca de 65 milhões de anos, Rita Repulsa (Elizabeth Banks) e Zordon (Bryan Cranston) duelaram pelo destino da Terra. Zordon, que então era o Power Ranger vermelho, conseguiu vencer e selar Rita em uma prisão, mas a vitória custou a vida de todos os seus companheiros e sua própria liberdade, visto que seu corpo também ficou preso em uma dimensão paralela. Muitos anos depois, os colegiais Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cyler), Kimberly (Naomi Scott), Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.) encontram Zordon enterrado em uma pedreira e são encarregados por ele de protegerem o planeta da vingança iminente de Rita, que fugiu da prisão e iniciou o processo para invocar seu poderoso Goldar.

Como todo bom filme de origem, Power Rangers foca primeiro nos personagens e depois na ação. Jason é um líder irresponsável com problemas com o pai, Billy é autista, Kimberly espalhou nudes na escola, a mãe de Zack está doente e a família de Trini não aceita sua sexualidade. De suas 2 horas de duração, o filme investe pelo menos metade do tempo na apresentação do lado humano dos heróis antes que eles transformem-se em guerreiros que saltam sobre penhascos e lutam fazendo poses engraçadas. Disso eu gostei: como o desenvolvimento de personagens é bem feito, a gente sempre sabe, por exemplo, que o Zack fará alguma coisa doidona e que a Trini estará de mau humor.

A qualidade, no entanto, cai vertiginosamente quando o conteúdo “Ranger” é adicionado ao filme. Desde que saíram os primeiros trailers, eu torci o nariz para o visual dos personagens. Sei que seria impraticável repetir os pijamas de latex de outrora, mas essas roupas novas, que mais parecem trajes de motoqueiros, ficaram feias demais. A “modernização” também escorregou nos bonequinhos de massa, cujos atores foram substituídos por um CGI horroroso, e na aparência da Rita, que lembra muito mais a saudosa Scorpina do que aquela velha maluca do cabelo branco. Nenhum desses equívocos, porém, compara-se com o que foi feito com os Dinozords e com o Goldar. Para falar pouco, os veículos de batalha dos Rangers estão irreconhecíveis (aquilo lá NÃO É um mastodonte) e o monstro, que era uma espécie de macacão demoníaco, transformou-se em uma massa tosca de ouro ambulante.

Diante de todas essas apostas visuais bizarras, a minha animação foi zero quando a batalha final começou. Pra falar a verdade, fiquei até com um pouco de vergonha quando tocou o tema clássico da série (Go Go Power Rangers). No dia eu estava acompanhado da minha mãe, que vai pouquíssimo ao cinema, e fiquei bastante arrependido por ter escolhido esse filme para ver. A transformação do Megazord, que deveria ser o ponto alto do filme, apenas revelou outro amontado de efeitos especiais ruins e nem mesmo as boas piadas e referências a filmes como Transformers, Duro de Matar e Vingadores tornaram a sessão menos penosa. Power Rangers era ruim mas a gente era criança e gostava. Power Rangers é muito ruim e já fazem incríveis 20 anos que a TV Colosso acabou. Não dá mais.

Obs.: Durante os créditos, uma cena extra revela planos para uma continuação. Haim Saban, o criador dos personagens, quer mais 5 filmes. Única reação possível? AI AI AIAI!

Kong: A Ilha da Caveira (2017)

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Por mais que eu goste do macaco brincalhão e quebrador de mandíbulas do Peter Jackson, não dá para negar que aquele King Kong de 2005 é duro de assistir. Ontem, para resgatar a história e fazer as devidas comparações com esse lançamento, coloquei o filme para rodar e lembrei do quão equivocada, por exemplo, foi a escalação do Jack Black no papel daquele cineasta inescrupuloso. Ver o ator, que tem uma carreira sólida em filmes de humor, esforçando-se para soar sério ao dizer “Não foram os aviões, foi a bela que matou a fera” é deprimente. Contribuem ainda para o desastre o início arrastado (Kong, o protagonista, demora mais de uma hora para aparecer em seu próprio filme), os efeitos especiais capengas (o macaco é perfeito, mas aquela correria entre as pernas dos dinossauros, por exemplo, é intragável) e o final acelerado e bobão. O que foi feito daquela mocinha chorosa após a queda do Kong? Nunca saberemos.

Kong escorregando no gelo e sacudindo a neve dos pelos tem lá o seu charme, mas a real é que, quando trata-se de um macaco gigante, a gente quer ver mesmo é o estrago que ele consegue provocar. Cientes disso, os produtores decidiram reencenar a história original do personagem mostrando-o não como um macaco que ri de truques bobos com pedrinhas, mas sim como um ser ancestral gigantesco e poderoso que habita a Ilha da Caveira, território inexplorado e extremamente hostil do Pacífico Sul. Eu gostei demais.

Ambientado na década de 70, o filme do diretor Jordan Vogt-Roberts começa com o pesquisador Bill Randa (John Goodman) tentando convencer um senador americano a investir em uma arriscada missão de mapeamento de uma ilha recém descoberta no extremo oriente. O político não fica lá muito empolgado com a ideia, mas a possibilidade de realizar tal feito antes dos russos (lembrem-se da Guerra Fria) e a disponibilidade de soldados americanos na região (os EUA estavam retirando seus homens da Guerra do Vietnã) pesam a favor de Randa e a missão é autorizada. Junto com o pesquisador, partem para a chamada Ilha da Caveira uma fotógrafa (Brie Larson), um guia (Tom Hiddleston) e um grupo de soldados comandados pelo Coronel Packard (Samuel L. Jackson).

Tão logo chegam no local (após um dos voos de helicóptero mais irresponsáveis de todos os tempos rs), a equipe de Randa começa a disparar bombas no solo com a intenção de provocar abalos sísmicos e gerar as leituras necessárias para a pesquisa. No ar, paira uma desconfiança sobre os verdadeiros objetivos da missão. No ar, propaga-se o som da hoje clássica Paranoid do Black Sabbath, que algum soldado de bom gosto coloca para rodar numa caixa de som. No ar, avista-se uma árvore que foi arremessada violentamente de um ponto desconhecido contra um dos helicópteros. Segue-se um verdadeiro massacre das forças do Coronel Packard que, conforme bem observado por um dos poucos sobreviventes, não tinham precedente tático para enfrentar o ataque enfurecido de um macaco gigante.

Kong: A Ilha da Caveira não te faz esperar mais de uma hora para ver a sombra do macaco agarrar uma mocinha e correr com ela para dentro da selva. Ambientação feita e personagens apresentados, o diretor faz questão de deixar claro logo no início que estamos vendo um filme de monstro gigante (e não uma bizarra e trágica história de amor) e nos dá uma cena de ação violenta e empolgante, tal qual deve ser. Cerca de 4 vezes maior do que seu antecessor (31 metros contra 7 metros do Peter Jackson), Kong, que felizmente continua sem pinto e sem cu (deve ser embutido), dizima sem dificuldades os invasores da ilha, local onde ele reina, protege e é venerado pelos nativos como um deus. Coronel Packard, que não havia ficado muito satisfeito com o fim da Guerra do Vietnã, decide então reunir o que sobrou dos seus homens e equipamentos e enfrentar o monstro.

O que vemos aqui, porém, não é apenas um duelo entre homem e besta. Packard acaba recebendo sua oportunidade de ficar frente a frente com Kong, olhar no fundo dos olhos da criatura e utilizar todo o seu pesado arsenal contra ela, mas este é apenas um dos arcos da história, e não é o melhor deles. Repetindo, Kong é um filme de monstro gigante, o que quer dizer que o pacote não estaria completo sem uma boa dose de exageros. Há todo o tipo de aberrações na Ilha da Caveira, desde bisões e aranhas colossais até polvos demoníacos e, claro, os temíveis Escaladores de Esqueleto, figuras grotescas que escondem-se nas profundezas da terra aguardando o momento certo de destronar o macacão de seu posto de macho alfa do lugar. Eventualmente, os personagens humanos também envolvem-se em conflitos com essas monstruosidades (e utilizam espadas japonesas para cortá-las em slow motion no melhor estilo HELL YEAH!), mas são os confrontos devastadores e teatrais entre Kong e essas criaturas que rendem as melhores cenas do filme. O pega pra capar entre o macaco e o Escalador de Esqueleto do final é o tipo de cena que faz a gente pensar “poxa, que legal eu estar aqui, sentado, vendo esta bagaça”.

Quando não está quebrando e explodindo coisas, o diretor fala de forma simples mas correta de ecossistemas (os predadores mauzões também tem o seu papel e importância no equilíbrio das coisas) e nos faz rir. John C. Reilly, que interpreta um piloto que caiu na ilha e lá permaneceu desde a 2° Guerra Mundial, traz o melhor do humor involuntário e há uma piada sobre uma carta que um dos soldados escreveu para seu filho (o querido Billy) que é repetida várias vezes e vai tornando-se mais e mais engraçada a cada repetição. O esmero do roteiro também pode ser percebido nas citações a outros filmes e obras. Marlow e Conrad, nomes dos personagens do Reilly e do Hiddleston, certamente são referências ao escritor Joseph Conrad e seu livro O Coração das Trevas, obra que também inspirou o Apocalipse Now. A belíssima fotografia de A Ilha da Caveira, aliás, em muitos momentos lembra o trabalho monumental do Coppola naquele que ainda é um dos melhores filmes de guerra já feitos (olhem os helicópteros, o sol e o tom laranja na imagem abaixo).

Kong: A Ilha da Caveira é a segunda etapa de um projeto que, em 2020, fará o mundo tremer ao colocar King Kong e Godzilla para trocar uns sopapos no cinema. Antes disso, porém, o Rei dos Monstros japonês ainda retornará mais uma vez às telas para aumentar nossas expectativas com o embate e, conforme pode ser visto na cena pós-crédito, para trazer alguns velhos e famosos inimigos. Quebra tudo, bicharada!

Moana: Um Mar de Aventuras (2016)

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moana-um-mar-de-aventurasMinha primeira impressão sobre o Moana não foi das melhores. Sabem aqueles vídeos educativos que são exibidos antes da sessão começar? Pois bem, o Cinépolis valeu-se dos personagens da animação para pedir silêncio para os espectadores (o que é bastante válido), mas o fez de um jeito meio bosta. “Hey, desliguem seus concha-fones!”. Concha-fone é o seu celular, entendeu? Engraçado, né? Imaginei um filme inteiro com piadas desse tipo e considerei seriamente não assisti-lo.

Mudei de opinião por 2 motivos:

  1. Moana foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Animação (perdeu para o Zootopia) e também deve concorrer ao Oscar.
  2. Os primeiros comentários sobre o filme foram animadores.

Quando digo “animadores”, não me refiro a opiniões genéricas do tipo “interessante” ou “tomara que tenha continuação”. Quem comentou sobre Moana comemorou o engajamento do roteiro, que rompe com estereótipos comuns às produções do gênero ao colocar como protagonista uma menina negra cujo maior sonho nem de longe é ser princesa. Há quem ache esse tipo de iniciativa uma bobeira, mas há também quem reconhece a importância de valorizar e celebrar as diferenças da nossa espécie através da arte. Como faço parte desse segundo grupo, comprei meu ingresso (no moderno Cinemais da cidade de Araxá-MG) e entrei no cinema ansioso para saber o que a Disney tinha a dizer sobre representatividade.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-3Antes de falar do filme, porém, vale uma salva de palmas (CLAP!) para o brasileiro Leonardo Matsuda, diretor do curta-metragem Trabalho Interno que é exibido antes de Moana. Leonardo dá características humanas para os órgãos internos de um funcionário de um escritório e promove uma divertida disputa entre o cérebro (razão) e o coração (emoção). Dividido entre a necessidade de trabalhar e a vontade de divertir-se, o sujeito passa por poucas e boas até perceber que, organizando, dá pra fazer de tudo um pouco. Além do bom conselho, o diretor também nos diz que é “ok” fazer xixi no mar e que não há problemas em encher o bucho de comida. Boa, Leonardo!

Conta-se que, no início dos tempos, havia um belo e vasto oceano. Te Fiti, deusa da vida, criou os continentes, as ilhas e os seres vivos. Tudo correu relativamente bem até o dia em que Maui (voz do Dwayne Johnson), um semideus transmorfo (ser com capacidade de assumir a forma de animais), decidiu roubar o coração de Te Fiti, o que deu início a uma maldição que atravessou gerações provocando morte e destruição. Muitos anos depois, em uma ilha do Pacífico Sul, a jovem Moana (voz da Auli’i Cravalho), membra da família real e herdeira do trono, decide fazer algo para impedir que a tal maldição castigue seu povo. Contrariando a vontade do pai, Moana atende ao chamado do oceano e parte em busca de Maui para que ele devolva o coração de Te Fiti e restabeleça a paz.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-5Para contar essa história de deuses e maldições, os diretores Ron Clements e Jon Musker (de A Pequena Sereia e Aladdin) buscaram inspiração em mitos dos povos polinésios, o que por si só é bacana por demonstrar o desejo de produzir algo fora do eixo Estados Unidos/Europa. Seria uma pena, porém, se essa iniciativa ficasse restrita a explorar os elementos que nos são exóticos da cultura oriental, mas não é isso que acontece. Lê-se no IMDB que os diretores investiram meses de pesquisas e imersão na cultura polinésia de modo que o filme fosse fiel e respeitoso àquele povo. Assim sendo, Moana mostra um paraíso terreno no qual todos nós gostaríamos de passar alguns dias de férias, mas também mostra um povo politicamente organizado, dominante de técnicas avançadas de navegação e que vive em perfeita harmonia com a natureza.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-4O fato de Moana ser negra também é importante, mas não é exatamente uma novidade na história recente da Disney. Em 2009 a empresa já havia nos dado Tiana, protagonista de A Princesa e o Sapo,  e a própria Pocahontas, do filme homônimo de 1995, era uma índia morena/negra. O que merece ser comemorado é recorrência do tema (que é intercalado pelo tradicionalismo de Enrolados/Frozen e pela diversidade étnica de Lilo & Stitch/Mulan, configurando pluralidade) e, claro, a associação dele a outras causas tão válidas quanto, como a luta pela igualdade de gêneros. Em sua aventura para devolver o coração de Te Fiti, Moana caminha sempre ao lado de Maui. Nem atrás, nem a frente: ao lado. Moana nega a condição de “princesa bonitinha com um mascote” e faz questão de contribuir e arriscar o pescoço tanto quanto Maui na perigosa missão de cruzar o oceano. Naquela que talvez seja a cena mais significativa nesse sentido, a menina pede para que o semideus ensine-a fazer um laço. Diante da recusa dele, que duvida da capacidade dela, a personagem bate o pé e afirma que ela tem condições sim de aprender e de ajudar. Moana faz o laço, ensina uma ou duas coisas para Maui e juntos, como companheiros e não como concorrentes, eles triunfam. É uma bela forma de falar sobre igualdade para crianças (e para adultos que insistem em repetir comportamentos e discursos do século passado).

moana-um-mar-de-aventuras-cena-2Moana levanta bandeiras e posiciona-se sobre assuntos que são debatidos diariamente nas redes sociais, mas isso não torna-o cansativo ou contraindicado para quem não importa-se com essas discussões e deseja apenas ver uma aventura mais tradicional, com comédia e ação. Fora as 3 grandes sequências de correria/luta (navio Krakamoa, encontro com o caranguejo Tamatoa e confronto final com Te Ka), Moana conta ainda com bons personagens de apoio (o galo zureta Hei Hei e a vó malucona/bonitinha), vários eastereggs (notei o Godzilla e a lâmpada do Aladdin) e, claro, com aquelas músicas que fazem você sair do cinema querendo cantar. Linko aqui a How Far I’ll Go, que é infinitamente melhor do que a Let it Go do Frozen, e a You’re Welcome, uma ode ao egocentrismo (Eu arrasei, eu sei, de nada!), e termino este texto com uma dica valiosa: assistam em 3D. O oceano de Moana e a cena do Tamatoa, que troca de cor no escuro num dos efeitos mais bonitos que vi recentemente em uma animação, valem cada centavo pago pelo recurso.

Kubo e as Cordas Mágicas (2016)

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kubo-e-as-cordas-magicasDepois de um ano letivo de muito trabalho e aprendizado, finalmente estou de férias do meu cargo de professor de História na rede estadual. Sei que a saudade da sala de aula não tardará (como minha sogra diz bem, ensinar é uma ‘cachaça’ viciante rs), mas por ora sinto-me feliz por poder descansar a cabeça e o corpo fazendo outras coisas que gosto, como assistir filmes e escrever.

Para comemorar o início dessa pausa, abri uma cerveja escura e escolhi esse Kubo e as Cordas Mágicas para ver, concorrente ao Globo de Ouro de Melhor Animação que prometia uma sessão leve e descompromissada, exatamente o tipo de material que eu precisava para me afastar da correria que foram os 200 dias letivos de 2016. De fato, encontrei um filme bastante dinâmico e divertido, propriedades quase indissociáveis das animações, mas também encontrei uma história tocante sobre a beleza da essência falha da condição humana, tema que não é lá muito leve mas que é sempre bom apreciar para continuarmos mantendo nossos pés no chão.

Num mar bravio castigado por uma tempestade incessante, uma mulher (voz da Charlize Theron) luta em um barco para sobreviver. Num movimento que faria o próprio Moisés morrer de inveja, ela escapa de uma onda gigantesca abrindo-a ao meio com o poder de um instrumento musical mágico, mas logo em seguida a embarcação é engolida pelas águas.

kubo-e-as-cordas-magicas-cena-3Antes de ver o filme, eu havia checado as informações sobre ele e sabia que tratava-se de uma produção da Laika Entertainment, mesma companhia responsável pelos góticos Coraline, ParaNorman e Os Boxtrolls, ou seja, certamente haveria uma ou duas bizarrices na trama, mas nem de longe eu imaginei que o pau da barraca seria chutado logo de cara. Tão logo cai na água, a mulher é arrastada até o fundo do oceano e POW! bate com o rosto em uma pedra, perdendo o olho esmagado em meio a uma bolha de sangue. Na sequência, levada pelas ondas até a praia, a personagem abre um pacote que ela trazia preso nas costas e POW! lá está um BEBÊ CAOLHO chorando.

Se você, pai matador de bichos-papões, decidir retirar seu filho da sala após esse início violento, saiba que tu perderá uma boa oportunidade de colocar seu pimpolho em contato com uma história que mostra a importância dos laços familiares e de aceitarmos as pessoas tal qual elas são. O bebê caolho cresce e torna-se Kubo (voz do Art Parkinson), um rapazinho que divide o tempo entre cuidar da mãe atônita e contar uma história com origamis mágicos num vilarejo próximo para ganhar alguns trocados. Hanzo (voz do Matthew McConaughey), o pai que Kubo não conheceu, é o personagem principal dessas histórias, um herói lendário que desafiou o Rei Lua (voz do Ralph Fiennes) em uma batalha épica.

kubo-e-as-cordas-magicas-cena-2O conflito começa quando Kubo, desejoso de conhecer mais detalhes sobre o pai, decide tentar conversar com o espírito do mesmo usando uma lamparina mágica (notaram que tudo é mágico nesse filme? rs). Para tanto, ele precisa desobedecer uma ordem direta de sua mãe, que proibiu-o de ficar fora de casa durante a noite. Merda feita, o menino passa então a ser perseguido pelo Rei Lua e suas filhas (voz da Rooney Mara), e a única forma de ele vencê-los é reunir as três peças (espada, peitoral e capacete) de uma armadura MÁGICA, tarefa na qual ele será auxiliado por uma macaca mal humorada e por um samurai besouro.

Confuso? Só quando transformado em texto. Kubo e as Cordas Mágicas é bem tranquilo de ser assistido e, mesmo com todas as suas bizarrices e particularidades (onde mais tu encontrará um protagonista caolho que manipula origamis com um banjo mágico?), ele é alicerçado na clássica narrativa do herói, com Kubo partindo em sua jornada para conseguir a armadura e os poderes necessários para vencer o Rei Lua; as aventuras que ele vive no processo e, por fim, o retorno para casa no qual ele encontra seu grande inimigo. A trama até contem uma reviravolta no final, na qual a identidade de alguns personagens é revelada (acredite, vocês sacarão essa ‘revelação’ logo de cara), mas no geral o que vê-se aqui é um filme de ação e aventura padrão com um visual soberbo.

kubo-e-as-cordas-magicas-cenaO que torna Kubo bastante legal (talvez não para vencer as produções da Disney –Moana e Zootopia– no Globo de Ouro, mas ainda assim legal) são os detalhes, como o tom de terror/gótico imprimido pelo diretor Travis Knight em várias cenas (todas as aparições das filhas do Rei da Lua, bem como o combate deste último com Kubo, são assustadoras), os personagens esquisitões (a caveira gigante com espadas cravadas na cabeça entraria facilmente em qualquer versão do game Castlevania) e, como já dito, a história familiar bonitinha que corre paralelo à aventura principal. É realmente tocante ver o quanto aquele menino caolho deseja reunir sua família e os esforços que ele faz para tanto. Kubo ainda celebra as diferenças com um discurso poderoso no final sobre tolerância e amor (nossa beleza está nas nossas imperfeições e memórias), momento onde a emoção aflora em uma cena lindíssima repleta de MAGIA (não podia faltar) e belas lamparinas (lembrei de uma cena semelhante dessa animação aqui). Fechando o pacote, uma versão bonitinha da clássica While My Guitar Gently Weeps dos Beatles cantada pela Regina Spektor e um vídeo mostrando o trabalho espetacular dos artistas para criar a técnica stop motion. Kubo é esquisito, assustador e divertido. Mostre ele para seus filhos! Feliz Natal!

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