Arquivo da categoria: Animações e Animes

Ghost in the Shell – O Fantasma do Futuro (1995)

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A versão hollywoodiana do Ghost in the Shell, aquele clássico da animação japonesa de 1995, está disponível nos cinemas desde a semana passada, porém antes de ir assisti-lo eu achei melhor conhecer e resenhar a obra original.

*Pausa para adivinhar o pensamento do leitor* Como assim cara? Você, que se diz um cinéfilo, até hoje não havia assistido esse filme OBRIGATÓRIO?

Pois é amigos, que vergonha, né? Acontece que, mesmo sabendo da aura cult que cerca o anime (que é considerado um trabalho seminal dentro do gênero cyberpunk), até hoje eu não havia encontrado uma oportunidade para vê-lo (ainda que eu tenha tido tempo para ver esta merda aqui). Fala-se muito mal dessa “onda de remakes” de Hollywood (na maioria das vezes com razão), mas algo que eu sempre achei válido na ideia de resgatar clássicos é que, mesmo que indiretamente, essas novas roupagens acabam despertando o interesse do público pela produção original. Descobri bons filmes desse jeito, e foi assim que eu finalmente criei vergonha na cara e coloquei o Ghost in the Shell pra rodar. Nos últimos dias, aliás, eu vi ele duas vezes.

Seria bem legal dizer que realizei uma segunda sessão porque gostei demais da primeira, mas a grande verdade é que, se eu não tivesse revisto, eu não teria a mínima condição de escrever essa resenha. Resumidamente, eu não entendi patavinas da história. As cenas de ação são brutais e a mistura de computação gráfica com animação tradicional dá um visual incrível e futurista para o cenário, mas a trama envolvendo temas como terrorismo, política e existencialismo não entrou na minha cabeça de jeito nenhum. Na boa? Não fiquei nenhum pouco triste ou preocupado com isso.

Dia desses, uma amiga fez um post no Facebook dizendo que sentiu-se “tonta” por ver Donnie Darko e não “entender nada”. Antigamente eu também me sentia assim, mas com o tempo eu fui percebendo que tem obras que simplesmente não foram concebidas para serem digeridas de uma só vez. É muita pretensão, por exemplo, querer assistir algo da magnitude de um Interestelar e entender de cara todos aqueles diálogos carregados de física quântica. Independente dos temas complicados que escolher trabalhar (viagem no tempo SEMPRE dá nó na cabeça), o filme precisa funcionar, mas isso não quer dizer que o roteiro precise entregar tudo mastigadinho para o espectador. A força de filmes como Donnie Darko, por exemplo, está justamente no fator replay, ou seja, tu assisti-lo novamente utilizando informações que você não tinha da primeira vez para preencher lacunas e chegar a um novo entendimento, tal qual um quebra cabeças que vai sendo montado aos poucos. Foi mais ou menos isso que eu fiz com Ghost in the Shell. Eis o que compreendi das duas sessões.

No ano de 2029, a tecnologia permite que a consciência humana seja extraída do corpo e implantada em ciborgues. As pessoas que realizam essas modificações não tornam-se imortais, visto que seu cérebro/banco de dados pode sofrer danos permanentes  e que, regularmente, os corpos cibernéticos precisam de manutenção, mas o processo confere superforça, supervelocidade, acesso a uma infinidade de informações via download instantâneo e resistência contra doenças. No futuro sombrio dominado por megacorporações imaginado pelo escritor Shirow Masamune, ser um ciborgue é estar preparado para lidar com ataques terroristas e com a violência das grandes cidades.

A Major Motoko é uma ciborgue que trabalha para o governo utilizando força bruta quando as coisas saem do controle ou tornam-se demasiadamente complexas para a polícia comum resolver. Exemplo: um diplomata de um país vizinho quer extraditar e dar abrigo para um importante programador. Pela lei, nada poderia impedi-lo de ajudar o sujeito, então Motoko é enviada até o local e mete uma bala bem no meio das fuças do diplomata, desaparecendo logo em seguida, tal qual um fantasma, sem deixar rastros. É difícil duvidar do profissionalismo da Major após vê-la executar com frieza uma ordem sanguinária dessas, mas o surgimento de um famoso hacker trará à tona sentimentos e dúvidas que a personagem havia ocultado sob as placas de metal de seu corpo.

Da primeira vez que assisti, boiei completamente na parte “política” da historia. Os diálogos rápidos do anime e as muitas referências à personagens governamentais fictícios me confundiram bastante. Enquanto eu ainda estava tentando entender a relação do ditador exilado no Japão e o hacker, que é conhecido como Mestre dos Fantoches, a Major estava lá descendo o cacete num maluco em um laguinho, filosofando sobre sua individualidade e, finalmente, lutando contra um poderosíssimo tanque no clímax da trama. Eu respirei e o filme, que é bem curto (1h23min) acabou. Não tive nenhuma dúvida relacionada a qualidade visual do trabalho do diretor Mamoru Oshii (20 anos depois, a animação ainda é muito bonita), mas reconheci que o roteiro havia me escapado e resolvi ver outra vez.

A real é que a trama política é o que menos importa em Ghost in the Shell. O controle governamental sobre o cidadão comum é ferrenho, a politicagem come solta em negociações internacionais escusas e há brigas de hierarquia dentro dos vários setores do governo. Tudo fichinha para quem lê jornal diariamente no Brasil. O que dá sentido para o roteiro são os questionamentos de Motoko sobre sua condição de ciborgue. Se você ainda não assistiu o anime e pretende fazê-lo, aconselho-o a focar nisso. Todas as certezas que a Major tinha sobre si mesma desmoronam quando ela percebe que o tal Mestre dos Fantoches é capaz de produzir memórias e introduzi-las nos cérebros alheios. Se nossas lembranças podem ser criadas e manipuladas, o que definirá nossa individualidade? O que nos fará diferentes das máquinas? Vale a pena ser apenas um vulto dentro de um corpo metálico poderoso, um fantasma numa concha?

Esses questionamentos desenvolvem-se em cima da subtrama política citada e num cenário distópico em que a tecnologia de ponta contrasta com a pobreza absoluta. Ghost in the Shell conta ainda com pelo menos 3 cenas de ação frenéticas, com a Major e seus aliados (Batou e Togusa) fazendo sangue jorrar pra valer e, muita, muita nudez. O trailer do remake mostra a Johansson com um corpo metálico estilizado bem diferente da Motoko peladona da animação que, por fora, não tem absolutamente nenhuma diferença de uma mulher comum. Que vacilo, Hollywood! Como é certo que tornarão o material mais palatável para o público dos blockbusters, exagerando na ação e simplificando o roteiro (parece que o Mestre dos Fantoches deixou de ser um programa para ser um personagem físico), torço para que A Vigilante do Amanhã seja ao menos um filme que também dê vontade de assistir mais de uma vez, visto que Ghost in the Shell eu repeti e não veria problema algum em partir para uma terceira sessão.

Zootopia (2016)

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zootopiaLevando em consideração a temática engajada e o visual soberbo, eu daria o Globo de Ouro de Melhor Animação de 2017 para o Moana. Não é por isso, porém, que eu começarei esta resenha dizendo que a vitória do Zootopia foi injusta. Eu ter morrido de amores pela aventura da menina que queria navegar o oceano não me impede de reconhecer os muitos predicados que este filme tem, a começar pelo roteiro. Como quero comentar alguns detalhes da história (e considerando que a animação foi lançada no início do ano passado), o texto conterá SPOILERS, capiche?

Tal qual o título sugere, Zootopia é uma utopia vivida por animais, ou seja, uma fábula onde os protagonistas habitam uma sociedade ideal e harmônica nos moldes daquela imaginada pelo escritor inglês Thomas More. Basta alguns minutos de filme, no entanto, para que a gente perceba que a perfeição daquele mundo é bastante relativa. Ainda que exista um pacto de não agressão entre presas e predadores (o que permite que espécies diferentes convivam no mesmo espaço), a cidade onde a história desenvolve-se está lotada de sujeitos de caráter duvidoso. Brigões, políticos corruptos, vendedores de drogas, mafiosos e vendedores de DVD’s piratas (!!!) misturam-se aos trabalhadores de Zootopia, o que torna a presença da polícia indispensável para manter a paz e a ordem.

Desde pequena, a coelha Judy Hopps sonhou em seguir a carreira policial. Desencorajada pelos pais e pelos amigos, que julgavam-na muito pequena e fraca para a profissão, Judy valeu-se de sua inteligência e de uma força de vontade sem igual para estudar e realizar os exames de admissão. Aprovada, a personagem muda-se para a cidade de Zootopia louca para caçar e prender alguns bandidos, mas tudo que ela consegue é um entediante cargo de agente de trânsito. Judy até tenta resignar-se e transformar-se em uma eficiente máquina de emitir multas, mas logo o misterioso desaparecimento de 8 animais dará a oportunidade perfeita para ela provar o seu valor como policial e, de quebra, livrar a cidade de uma grande ameaça.

zootopia-cena-4Antes de falar sobre a natureza moral do roteiro de Zootopia, devo dizer que gostei demais da pegada da história, que é baseada em uma investigação e lembra o que há de melhor nos filmes noir hollywoodianos da década de 40/50, com os personagens visitando toda espécie de inferninho à procura de pistas que possam levá-los até o vilão. Logicamente, o material escrito e dirigido pelos cineastas Byron Howard e Rich Moore é suavizado, logo os prostíbulos e bares copo sujo cedem espaço para ambientes menos polêmicos e potencialmente engraçados, como um clube de nudismo, mas ainda assim foi muito legal ver a Disney investir em uma narrativa menos convencional que atravessa o submundo e dá voz a personagens marginais como o malandrão Nick Wilde.

Minha memória não anda lá essas coisas (já tô do tipo que precisa anotar senhas e datas), mas lembro que os primeiros trailers de Zootopia davam a entender que o protagonista da história era o Nick, e não a Judy. Acontece que, nas audições-teste que foram realizadas antes do filme ser lançado, os produtores perceberam que o público não foi muito com a cara de Nick, logo o roteiro foi reescrito e o foco da história mudou. Não é difícil entender o porque disso ter acontecido. Eu, que sou adulto e senhor do meu próprio lar, gostei bastante do personagem, mas imagino que um pai possa ficar desconfortável ao ver no papel de protagonista um raposo que ganha a vida aplicando golpes na praça com a ajuda de um anão. Nick é um sobrevivente, descolado e inteligente, mas o esforço e a honestidade de Judy vendem mais e sintetizam melhor a reconfortante ideia de que, no fim, o bem sempre vencerá o mal.

O final de Zootopia, como o da maioria das fábulas, é moralista e didático. Crime e castigo são faces da mesma moeda, ou seja, se você fizer merda, você irá se ferrar. Antes do chinelo comer, porém, o roteiro dá um nó na cabeça de quem enxerga o mundo em preto e branco e vale-se de uma inversão de estereótipos para fazer o público pensar. Num cenário comum, ovelhas são vítimas e leões são vilões, certo? A tendência é que  torçamos sempre para o Davi, mas nossa simpatia pelo mais fraco não pode impedir-nos de ver que, as vezes, é o Golias que está sendo sacaneado. A gente acha normal quando o prefeito Lionheart é acusado de ser o responsável pelo sumiço dos 8 animais, afinal de contas ele é um predador e não seria estranho ele obedecer ao próprio instinto e quebrar o pacto de não-agressão. Grande é a nossa surpresa, portanto, quando a ovelha Bellwether, secretária do prefeito, é desmascarada no fim, revelando seu plano para amedrontar e confundir a população de modo que ela pudesse chegar ao poder. É sempre importante reforçar que, por mais tentador que seja, não devemos deixar-nos levar pelas primeiras impressões.

A ótima história de Zootopia é enriquecida pelos detalhes. Eu, que nunca me cansarei de referências ao O Poderoso Chefão, adorei o personagem Mr. Big, versão fofinha do Don Corleone que, no dia do casamento de sua filha, ajuda Judy e Nick fazendo ofertas irrecusáveis para alguns vilões. Boa também é a cena de sintetização de drogas, momento que será celebrado pelos fãs da série Breaking Bad, e a barraquinha de DVD’s pirata do loucão Duke Weaselton, na qual encontra-se versões paralelas de várias animações recentes da Disney, como Pig Hero 6 (Operação Big Hero) e Wreck-It Rhino (Detona Ralph). Por fim, apesar de ter uma pegada levemente mais sombria e adulta, Zootopia tem aquela ótima piada do bicho preguiça, que você certamente viu (e riu) nos trailers e que fica ainda melhor quando inserida dentro da história como uma (infelizmente) válida crítica ao funcionalismo público. Pessoalmente, continuo preferindo o Moana, mas Zootopia é bom o suficiente para merecer sua atenção.

Moana: Um Mar de Aventuras (2016)

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moana-um-mar-de-aventurasMinha primeira impressão sobre o Moana não foi das melhores. Sabem aqueles vídeos educativos que são exibidos antes da sessão começar? Pois bem, o Cinépolis valeu-se dos personagens da animação para pedir silêncio para os espectadores (o que é bastante válido), mas o fez de um jeito meio bosta. “Hey, desliguem seus concha-fones!”. Concha-fone é o seu celular, entendeu? Engraçado, né? Imaginei um filme inteiro com piadas desse tipo e considerei seriamente não assisti-lo.

Mudei de opinião por 2 motivos:

  1. Moana foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Animação (perdeu para o Zootopia) e também deve concorrer ao Oscar.
  2. Os primeiros comentários sobre o filme foram animadores.

Quando digo “animadores”, não me refiro a opiniões genéricas do tipo “interessante” ou “tomara que tenha continuação”. Quem comentou sobre Moana comemorou o engajamento do roteiro, que rompe com estereótipos comuns às produções do gênero ao colocar como protagonista uma menina negra cujo maior sonho nem de longe é ser princesa. Há quem ache esse tipo de iniciativa uma bobeira, mas há também quem reconhece a importância de valorizar e celebrar as diferenças da nossa espécie através da arte. Como faço parte desse segundo grupo, comprei meu ingresso (no moderno Cinemais da cidade de Araxá-MG) e entrei no cinema ansioso para saber o que a Disney tinha a dizer sobre representatividade.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-3Antes de falar do filme, porém, vale uma salva de palmas (CLAP!) para o brasileiro Leonardo Matsuda, diretor do curta-metragem Trabalho Interno que é exibido antes de Moana. Leonardo dá características humanas para os órgãos internos de um funcionário de um escritório e promove uma divertida disputa entre o cérebro (razão) e o coração (emoção). Dividido entre a necessidade de trabalhar e a vontade de divertir-se, o sujeito passa por poucas e boas até perceber que, organizando, dá pra fazer de tudo um pouco. Além do bom conselho, o diretor também nos diz que é “ok” fazer xixi no mar e que não há problemas em encher o bucho de comida. Boa, Leonardo!

Conta-se que, no início dos tempos, havia um belo e vasto oceano. Te Fiti, deusa da vida, criou os continentes, as ilhas e os seres vivos. Tudo correu relativamente bem até o dia em que Maui (voz do Dwayne Johnson), um semideus transmorfo (ser com capacidade de assumir a forma de animais), decidiu roubar o coração de Te Fiti, o que deu início a uma maldição que atravessou gerações provocando morte e destruição. Muitos anos depois, em uma ilha do Pacífico Sul, a jovem Moana (voz da Auli’i Cravalho), membra da família real e herdeira do trono, decide fazer algo para impedir que a tal maldição castigue seu povo. Contrariando a vontade do pai, Moana atende ao chamado do oceano e parte em busca de Maui para que ele devolva o coração de Te Fiti e restabeleça a paz.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-5Para contar essa história de deuses e maldições, os diretores Ron Clements e Jon Musker (de A Pequena Sereia e Aladdin) buscaram inspiração em mitos dos povos polinésios, o que por si só é bacana por demonstrar o desejo de produzir algo fora do eixo Estados Unidos/Europa. Seria uma pena, porém, se essa iniciativa ficasse restrita a explorar os elementos que nos são exóticos da cultura oriental, mas não é isso que acontece. Lê-se no IMDB que os diretores investiram meses de pesquisas e imersão na cultura polinésia de modo que o filme fosse fiel e respeitoso àquele povo. Assim sendo, Moana mostra um paraíso terreno no qual todos nós gostaríamos de passar alguns dias de férias, mas também mostra um povo politicamente organizado, dominante de técnicas avançadas de navegação e que vive em perfeita harmonia com a natureza.

moana-um-mar-de-aventuras-cena-4O fato de Moana ser negra também é importante, mas não é exatamente uma novidade na história recente da Disney. Em 2009 a empresa já havia nos dado Tiana, protagonista de A Princesa e o Sapo,  e a própria Pocahontas, do filme homônimo de 1995, era uma índia morena/negra. O que merece ser comemorado é recorrência do tema (que é intercalado pelo tradicionalismo de Enrolados/Frozen e pela diversidade étnica de Lilo & Stitch/Mulan, configurando pluralidade) e, claro, a associação dele a outras causas tão válidas quanto, como a luta pela igualdade de gêneros. Em sua aventura para devolver o coração de Te Fiti, Moana caminha sempre ao lado de Maui. Nem atrás, nem a frente: ao lado. Moana nega a condição de “princesa bonitinha com um mascote” e faz questão de contribuir e arriscar o pescoço tanto quanto Maui na perigosa missão de cruzar o oceano. Naquela que talvez seja a cena mais significativa nesse sentido, a menina pede para que o semideus ensine-a fazer um laço. Diante da recusa dele, que duvida da capacidade dela, a personagem bate o pé e afirma que ela tem condições sim de aprender e de ajudar. Moana faz o laço, ensina uma ou duas coisas para Maui e juntos, como companheiros e não como concorrentes, eles triunfam. É uma bela forma de falar sobre igualdade para crianças (e para adultos que insistem em repetir comportamentos e discursos do século passado).

moana-um-mar-de-aventuras-cena-2Moana levanta bandeiras e posiciona-se sobre assuntos que são debatidos diariamente nas redes sociais, mas isso não torna-o cansativo ou contraindicado para quem não importa-se com essas discussões e deseja apenas ver uma aventura mais tradicional, com comédia e ação. Fora as 3 grandes sequências de correria/luta (navio Krakamoa, encontro com o caranguejo Tamatoa e confronto final com Te Ka), Moana conta ainda com bons personagens de apoio (o galo zureta Hei Hei e a vó malucona/bonitinha), vários eastereggs (notei o Godzilla e a lâmpada do Aladdin) e, claro, com aquelas músicas que fazem você sair do cinema querendo cantar. Linko aqui a How Far I’ll Go, que é infinitamente melhor do que a Let it Go do Frozen, e a You’re Welcome, uma ode ao egocentrismo (Eu arrasei, eu sei, de nada!), e termino este texto com uma dica valiosa: assistam em 3D. O oceano de Moana e a cena do Tamatoa, que troca de cor no escuro num dos efeitos mais bonitos que vi recentemente em uma animação, valem cada centavo pago pelo recurso.

Sing (2016)

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singAno novo, vida nova, velhos problemas e muitas, muitas expectativas. Para tirar logo a parte ruim do caminho, fica aqui mais uma reclamação sobre a bizarrice dos subtítulos nacionais. Sing, produção indicada ao Globo de Ouro de Melhor Animação e Melhor Canção Original, saiu por aqui como Sing: Quem Canta Seus Males Espanta. É o humor tipo “tio do pavê” saindo da ceia de natal direto para o seu ingresso, caro leitor!

Leitor? Você está aí? Cadê você?

Tenho notado que o número de acessos do blog está caindo significativamente. No último semestre, a média de visitantes diários passou de 200 para algo em torno de 100-130. Em alguns dias, não chegou nem a 100. Escrevo porque gosto e continuarei escrevendo mesmo que os acessos caiam para 3 (um meu, um da minha mãe e um da minha esposa), mas não nego que quero mais do que isso. Quem escreve quer ser lido. Sei, porém, que não será através de reclamações e/ou pedidos de cliques que mudarei esse quadro. O caminho é persistir e melhorar, e começo o ano bastante animado para sacudir as coisas por aqui.

2017 promete ser um ano muito bom para os fãs de cinema. Teremos um novo Alien, um novo Star Wars, produções da Marvel e da DC e toda uma série de blockbusters testosterônicos como Velozes e Furiosos, Transformers e King Kong. Fora isso, a cerimônia do Globo de Ouro é este fim de semana (08/01) e o Oscar já tem data marcada (26/02). Terei muito material para ver e resenhar, e estou cuidando para que o formato dos textos seja cada vez mais agradável. Livre de uma série de problemas pessoais que estavam minando o meu tempo e criatividade, redescobri o prazer pela leitura e estou encontrando dicas preciosas (e ótimas histórias) nas páginas do Sobre a Escrita do Stephen King. Reclamações feitas, ânimo renovado, bora começar o ano? Hey! Ho! Let’s Go!

sing-cena-4Não lembro quando fui “seduzido” pela arte. Eu poderia até dizer que foi quando minha mãe me levou ao cinema pela primeira vez (vi Os Trapalhões e a Árvora da Juventude e, quando cheguei em casa, tentei montar a minha própria tela de projeção com uns brinquedos velhos), mas não tenho certeza. Já o Buster Moon, coala protagonista de Sing, nunca esqueceu o dia em que a arte fisgou seu coração. Acompanhado do pai, ele assistiu uma montagem teatral da música Golden Slumbers (que cena fantástica!), dos Beatles, e apaixonou-se. Anos depois da apresentação, vemos que Buster comprou o seu próprio teatro e transformou-se em um empresário do show business. O que deveria ser uma vida de sonhos, porém, não está lá tão legal assim.

Endividado, Buster corre o risco de perder o teatro. Os últimos espetáculos que ele produziu fracassaram e o banco ameaça tomar o prédio caso as dívidas acumuladas não sejam pagas. Para atrair novamente o público, o personagem decide organizar um concurso de música, formato sempre popular e rentável que poderia resolver definitivamente seus problemas de grana. O prêmio? A intenção de Buster era pagar apenas 1.000 dólares para o vencedor, mas uma trapalhada de sua secretária faz com que o anúncio diga 100.000. No dia seguinte, vendo que a fila para audição está dobrando a esquina, Buster decide levar a mentira adiante para salvar o teatro.

sing-cena-2Em Sing, a música é tratada pelo diretor e roteirista Garth Jennings como um caminho para a salvação/redenção. Dentre os selecionados para o concurso, há um gorila que prefere cantar a roubar, uma porquinha dona de casa que quer ser mais do que uma dona de casa,  uma ouriço fêmea que escreverá uma canção para curar seu coração partido e uma elefanta que precisará vencer a timidez antes de brilhar no palco. As histórias desses personagens somam-se a luta do protagonista para manter o teatro e mostram para o público que sempre é possível recomeçar e que a música tem o poder de nos dar forças mesmo nas horas mais difíceis. É um bom roteiro: fácil para as crianças e sucinto para os pais, que precisam prestar atenção no filme E nas crianças, esses anjinhos que ficam conversando o tempo todo e chutando a cadeira da frente. Gracinha!

sing-cena-3A grande atração de Sing, porém, é mesmo a música. As cantorias, que são bem legais, estão satisfatoriamente espalhadas dentro do filme, mas é notório que concentraram as melhores cenas no início e no final, deixando a metade para o desenvolvimento dos personagens. Durante a audição, há versões divertidas de artistas como Lady Gaga, Seal e Nicki Minaj e até mesmo uma piada sobre a extravagância do J-pop (Japanese Pop). No fim, após vermos cada um dos personagens lutando para superarem uma porção de obstáculos, as apresentações individuais (e longas) deles soam estrondosas. Não sei se o leitor acompanha programas como American Idol e The Voice (ou seus correspondentes nacionais), mas é válido dizer que a última cena de Sing ficou tão boa quanto as apresentações mais emocionantes vistas nesses shows (esta é a minha favorita). Empolgados, alguns dos anjinhos “sentados” atrás de mim chegaram até a bater palmas. Lindinhos!

Pra fechar, um comentário rápido sobre o rato Mike. Pensa num sujeito filho da puta. Enquanto todos os personagens estão transbordando bons sentimentos, o cara humilha todo mundo, participa de jogatinas, gasta o que não tem, faz dívidas com bandidos e usa o dinheiro para conquistar uma ratinha. Numa animação moralista, Mike daria-se mal, muito mal. O que acontece? O cara sai de cena por cima após cantar uma versão maravilhosa da My Way do Sinatra. Que belo exemplo para a criançada! Parabéns, Illumination!

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Kubo e as Cordas Mágicas (2016)

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kubo-e-as-cordas-magicasDepois de um ano letivo de muito trabalho e aprendizado, finalmente estou de férias do meu cargo de professor de História na rede estadual. Sei que a saudade da sala de aula não tardará (como minha sogra diz bem, ensinar é uma ‘cachaça’ viciante rs), mas por ora sinto-me feliz por poder descansar a cabeça e o corpo fazendo outras coisas que gosto, como assistir filmes e escrever.

Para comemorar o início dessa pausa, abri uma cerveja escura e escolhi esse Kubo e as Cordas Mágicas para ver, concorrente ao Globo de Ouro de Melhor Animação que prometia uma sessão leve e descompromissada, exatamente o tipo de material que eu precisava para me afastar da correria que foram os 200 dias letivos de 2016. De fato, encontrei um filme bastante dinâmico e divertido, propriedades quase indissociáveis das animações, mas também encontrei uma história tocante sobre a beleza da essência falha da condição humana, tema que não é lá muito leve mas que é sempre bom apreciar para continuarmos mantendo nossos pés no chão.

Num mar bravio castigado por uma tempestade incessante, uma mulher (voz da Charlize Theron) luta em um barco para sobreviver. Num movimento que faria o próprio Moisés morrer de inveja, ela escapa de uma onda gigantesca abrindo-a ao meio com o poder de um instrumento musical mágico, mas logo em seguida a embarcação é engolida pelas águas.

kubo-e-as-cordas-magicas-cena-3Antes de ver o filme, eu havia checado as informações sobre ele e sabia que tratava-se de uma produção da Laika Entertainment, mesma companhia responsável pelos góticos Coraline, ParaNorman e Os Boxtrolls, ou seja, certamente haveria uma ou duas bizarrices na trama, mas nem de longe eu imaginei que o pau da barraca seria chutado logo de cara. Tão logo cai na água, a mulher é arrastada até o fundo do oceano e POW! bate com o rosto em uma pedra, perdendo o olho esmagado em meio a uma bolha de sangue. Na sequência, levada pelas ondas até a praia, a personagem abre um pacote que ela trazia preso nas costas e POW! lá está um BEBÊ CAOLHO chorando.

Se você, pai matador de bichos-papões, decidir retirar seu filho da sala após esse início violento, saiba que tu perderá uma boa oportunidade de colocar seu pimpolho em contato com uma história que mostra a importância dos laços familiares e de aceitarmos as pessoas tal qual elas são. O bebê caolho cresce e torna-se Kubo (voz do Art Parkinson), um rapazinho que divide o tempo entre cuidar da mãe atônita e contar uma história com origamis mágicos num vilarejo próximo para ganhar alguns trocados. Hanzo (voz do Matthew McConaughey), o pai que Kubo não conheceu, é o personagem principal dessas histórias, um herói lendário que desafiou o Rei Lua (voz do Ralph Fiennes) em uma batalha épica.

kubo-e-as-cordas-magicas-cena-2O conflito começa quando Kubo, desejoso de conhecer mais detalhes sobre o pai, decide tentar conversar com o espírito do mesmo usando uma lamparina mágica (notaram que tudo é mágico nesse filme? rs). Para tanto, ele precisa desobedecer uma ordem direta de sua mãe, que proibiu-o de ficar fora de casa durante a noite. Merda feita, o menino passa então a ser perseguido pelo Rei Lua e suas filhas (voz da Rooney Mara), e a única forma de ele vencê-los é reunir as três peças (espada, peitoral e capacete) de uma armadura MÁGICA, tarefa na qual ele será auxiliado por uma macaca mal humorada e por um samurai besouro.

Confuso? Só quando transformado em texto. Kubo e as Cordas Mágicas é bem tranquilo de ser assistido e, mesmo com todas as suas bizarrices e particularidades (onde mais tu encontrará um protagonista caolho que manipula origamis com um banjo mágico?), ele é alicerçado na clássica narrativa do herói, com Kubo partindo em sua jornada para conseguir a armadura e os poderes necessários para vencer o Rei Lua; as aventuras que ele vive no processo e, por fim, o retorno para casa no qual ele encontra seu grande inimigo. A trama até contem uma reviravolta no final, na qual a identidade de alguns personagens é revelada (acredite, vocês sacarão essa ‘revelação’ logo de cara), mas no geral o que vê-se aqui é um filme de ação e aventura padrão com um visual soberbo.

kubo-e-as-cordas-magicas-cenaO que torna Kubo bastante legal (talvez não para vencer as produções da Disney –Moana e Zootopia– no Globo de Ouro, mas ainda assim legal) são os detalhes, como o tom de terror/gótico imprimido pelo diretor Travis Knight em várias cenas (todas as aparições das filhas do Rei da Lua, bem como o combate deste último com Kubo, são assustadoras), os personagens esquisitões (a caveira gigante com espadas cravadas na cabeça entraria facilmente em qualquer versão do game Castlevania) e, como já dito, a história familiar bonitinha que corre paralelo à aventura principal. É realmente tocante ver o quanto aquele menino caolho deseja reunir sua família e os esforços que ele faz para tanto. Kubo ainda celebra as diferenças com um discurso poderoso no final sobre tolerância e amor (nossa beleza está nas nossas imperfeições e memórias), momento onde a emoção aflora em uma cena lindíssima repleta de MAGIA (não podia faltar) e belas lamparinas (lembrei de uma cena semelhante dessa animação aqui). Fechando o pacote, uma versão bonitinha da clássica While My Guitar Gently Weeps dos Beatles cantada pela Regina Spektor e um vídeo mostrando o trabalho espetacular dos artistas para criar a técnica stop motion. Kubo é esquisito, assustador e divertido. Mostre ele para seus filhos! Feliz Natal!

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Mogli: O Menino Lobo (2016)

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mogli-o-menino-loboBoa tarde, leitores.

É dia 08 de novembro e venho a público DECRETAR a abertura de mais uma “Cobertura Globo de Ouro/Oscar” do Já viu esse? nesta internet espetacular de Cenas Lamentáveis, Aprenda Dollynez e Legado da Copa. A partir de agora já pode:

Brincadeiras facebookianas à parte, está na hora de começar a dar atenção para a temporada de 2017 das premiações mais tradicionais do cinema norte americano. Assim como fiz nos últimos 2 anos, peguei no Indiewire a lista de possíveis indicados ao Globo de Ouro/Oscar e vasculhei a internet atrás dos títulos que já haviam sido lançados. Não encontrei muita coisa (no início de janeiro sempre melhora), mas já há material online suficiente para começar a trabalhar. Dos 8 filmes estrangeiros indicados pelo site, por exemplo, 5 já estão disponíveis nos principais servidores de Torrent e logo logo devem figurar por aqui.

Segundo o Indiewire, Mogli: O Menino Lobo, adaptação do diretor Jon Favreau para o livro do escritor Rudyard Kipling, tem chances reais de estar entre os concorrentes a Melhor Filme por ser um “filme família” da Disney que não só tornou-se bastante popular entre o público quanto recebeu boas resenhas da crítica especializada. Pessoalmente, não acredito que a produção tenha essa força toda (talvez para o Globo de Ouro, não para o Oscar), mas começarei a cobertura por ela enquanto outros títulos mais expressivos não surgem.

mogli-o-menino-lobo-cena-3Pulei a chance de ver Mogli nos cinemas por pura falta de interesse. Gosto bastante da história, tanto que revi a animação de 1967 antes de escrever esta resenha e já passei um bocado de horas jogando o dificílimo game do filme no Super Nintendo, mas acho que minha cota de paciência com essa onda de refilmagens de clássicos da Disney já acabou. Não fosse a aposta do Indiewire, dificilmente vocês leriam sobre esse filme por aqui. Querem saber? Errei feio ao ignorar Mogli. A adaptação do Favreau, além de recriar com carinho e nostalgia algumas das melhores cenas da original, amplia significativamente a grandeza do material com um roteiro mais sombrio e profundo e encanta pelo uso magnífico da computação gráfica na criação dos personagens e dos cenários.

De todas as lendas estranhas que são contadas sobre as selvas da Índia, nenhuma é tão estranha como a do menino Mogli (Neel Sethi). Encontrado na floresta ainda bebê pela pantera Bagheera (voz do Ben Kingsley), Mogli foi levado para ser criado por uma família de lobos. Tudo transcorreu relativamente bem até o dia em que uma seca prolongada fez com que o tigre Shere Kan (voz do Idris Elba) retornasse da escuridão e exigisse a cabeça de Mogli. Segundo ele, os homens não são confiáveis e não deveriam permanecer na floresta. Temendo pela vida do garoto, Bagheera decide levá-lo até uma aldeia onde ele pudesse viver em paz com sua própria espécie, mas uma série de infortúnios vão colocando Mogli mais e mais perto do confronto com o tigre.

mogli-o-menino-lobo-cena-4No filme, o simpático ator mirim Neel Sethi interage com ambientes e animais totalmente criados por CGI e o resultado é nada menos do que sensacional. Num primeiro instante, aliás, é bastante difícil acreditar que a floresta em que vemos Mogli e os lobinhos correr não é real. A cachoeira, as árvores cheias de cipó, os mosquitos… tudo faz aumentar nossa incredibilidade devido à riqueza de detalhes e esmero da produção. É o tipo de material que deve ter ficado BEM legal na tela do cinema com o uso do óculos 3D 😦

Sobre a história, que originalmente foi contada em pouco mais de 1h15min de muita cantoria e tagarelice, Favreau investiu em uma trama mais adulta que fala sobre um garoto que tenta encontrar seu próprio caminho na vida. Nisso, o diretor aumentou a importância de certos personagens (lobos), modificou alguns (elefantes) e suprimiu outros tantos (abutres) do roteiro para falar sobre como Mogli aprendeu um pouquinho com cada um de seus amigos no tocante a enfrentar dificuldades e resolver problemas. Destoa do original a valorização das habilidades de Mogli enquanto ser humano (principalmente na cena do mel), o escancaramento dos defeitos dos animais (a preguiça do Baloo e a ganância do Rei Louie, por exemplo) e a violência. Um amigo do trabalho me disse que arrependeu-se de levar o filho dele para ver Mogli porque haviam muitas cenas no filme que não eram feitas para crianças. Não dá para tirar a razão do cara: o confronto de Shere Kan com Akela, o líder dos lobos, é deveras traumático.

THE JUNGLE BOOKMogli atualiza a história do Rudyard Kipling para esta geração, mas é notável que o diretor preocupou-se em agradar os fãs da antiga animação da Disney. Fora começar o filme apresentando uma versão saudosista do logo da empresa (o castelo, com os fogos e o pó mágico da Sininho, aparece em 2D), Favreau foi bastante atencioso ao adaptar as cenas mais famosas do desenho. Não gostei tanto da sequência envolvendo a cobra Kaa (voz da Scarlett Johansson), mas o encontro do menino com o divertidão Baloo (voz do Bill Murray) é o tipo de coisa capaz de colocar um sorriso no rosto de alguém. Tal qual no original, Mogli desliza rio abaixo na barriga do urso cantando a viciante Somente o Necessário e nos faz pensar sobre as vantagens de viver comendo mel e formigas. Outra passagem clássica que ficou muito boa foi a do Rei Louie (voz do Christopher Walken): nunca deixará de ser engraçado ver o macaco, que está gigantesco, falando que quer ser igual a gente enquanto gagueja.

Num cenário bastante positivo, Mogli pode até concorrer ao Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia/Musical e disputar alguma categoria técnica no Oscar, como Melhores Efeitos Especiais, mas disso não passa. Não é por isso, porém, que o filme não merece uma chance: destas refilmagens de clássicos infantis que Hollywood andou lançando, ele é um dos poucos que valem a pena caso você não seja mais um pimpolho.

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Procurando Dory (2016)

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Procurando DoryEm se tratando de animações, não é exatamente uma novidade que personagens secundários roubem a cena, conquistem o público e ganhem suas próprias aventuras. Recentemente, por exemplo, Os Pinguins de Madagascar e os Minions chegaram aos cinemas para fornecer uma dose extra de piadas, fofura e insanidade para quem havia divertido-se com eles no Madagascar e no Meu Malvado Favorito. O que faz Procurando Dory destacar-se nessa maré de spin-offs (obra derivada de outra obra), ao meu ver, é a ligação emocional singular que o público estabeleceu com a Dory e, de maneira geral, com Procurando Nemo: tal qual O Rei Leão foi o favorito da garotada que cresceu nos anos 90, Procurando Nemo é constantemente apontado como a produção que marcou a infância do pessoal que veio depois da virada do século.

Ir ao cinema assistir essa sequência, portanto, é uma experiência que vai um pouco além de pagar para ver “mais do que já deu certo”. Como é de praxe nas animações da Pixar, Procurando Nemo tinha personagens fofinhos, cenários super coloridos e muitas cenas de ação, mas o que encantava ali eram coisas mais emocionais como o amor do Marlin pelo Nemo (era um pai superprotetor mas, ainda sim, era um pai capaz de atravessar todo o oceano para salvar o filho) e a força de vontade inabalável da Dory, cujo bordão “continue a nadar” transformou-se no lema de vida de muita gente, inclusive desse que vos fala. Sou da geração O Rei Leão (Scar miserável!), mas entendo perfeitamente o porquê de Procurando Nemo ter conquistado o coração das pessoas.

A Pixar demorou 13 anos para fazer esta continuação (o primeiro é de 2003). Considerando a celeridade do mercado cinematográfico atual, no qual a maioria das produções já chegam aos cinemas com suas sequências garantidas, essa “demora” precisa ser entendida como uma demonstração de carinho da empresa para com sua própria obra. Seguramente, qualquer coisa relacionada a franquia que fosse lançada faria sucesso, mas vejo que eles não quiseram lançar QUALQUER coisa. Para respeitar a ligação emocional que a obra estabeleceu com o público, era preciso criar um filme que fosse tão bom quanto ou melhor ainda do que o original. A solução do diretor e roteirista Andrew Stanton foi simples e eficaz: invertendo a história original, dessa vez ele colocou a filha (Dory) para procurar os pais (Jenny e Charlie). Deu muito certo.

Procurando Dory - Cena 5A famosa “perda de memória recente” da Dory era, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição. Se ela não sofria por lembrar-se dos erros e sofrimentos do passado, ela também não conseguia alegrar-se com as lembranças dos momentos felizes vividos. O peixe-fêmea divertido que falava baleiês que conhecemos anteriormente (exemplar dos belos cirurgiões-patela) era um personagem legal, mas também era alguém unilateral que ainda precisava ser explorado. Ninguém é feliz o tempo todo, nem a Dory.

Antes do filme propriamente dito, a Pixar nos presenteia com mais um daqueles curtas maravilhosos que servem para aquecer nossos corações e nos preparar para o que será visto em seguida. Piper: Descobrindo o Mundo mostra um passarinho aprendendo que a vida, ainda que perigosa, está cheia de oportunidades para aqueles que enfrentam-na de cabeça erguida. A qualidade da animação impressiona (prestem atenção na movimentação da água do mar) e a historinha, que é mais direcionada para as crianças do que para os pais, é bonitinha e inovadora.

Procurando Dory - Cena 4Procurando Dory abre com a personagem que dá nome ao filme, ainda filhotinha, desfrutando da companhia dos pais. Cientes do problema de memória da filha, Jenny e Charlie tentam ensinar para Dory formas alternativas de interagir com os outros peixes. Mesmo que ela tenha dificuldade para concentrar-se a longo prazo (1, 2, 3, 4, areia fofinha! rs), Dory consegue aprender e decorar a fala que seria fundamental para ajudar-lhe a sobreviver. “Oi, meu nome é Dory e eu sofro de perda de memória recente”.

O diretor Andrew Stanton deixa então a infância de Dory momentaneamente de lado para ligar a história com os eventos do primeiro filme. Uma recapitulação rápida mostra como o Marlin perdeu e encontrou Nemo e pronto, lá estão os personagens, um ano após toda aquela confusão, vivendo tranquilamente no coral. É aí que, num movimento que repetirá-se várias vezes ao longo do filme, Dory lembra do passado. Sim, amigos, Dory, a esquecida, começa visualizar pequenos flashs de seu passado e, neles, descobre que ela já teve um pai e uma mãe que a amaram. Empolgada com a possibilidade de reencontrá-los, a personagem inicia uma viagem ao lado de Marlin e Nemo para procurar pelos pais.

Procurando Dory - Cena 2O título da animação dá a entender que, tal qual no primeiro filme, Dory perderá-se e alguém irá procurar por ela, mas não é bem isso que acontece. Em um determinado momento, os personagens separam-se devido a um infortúnio e Marlin e Nemo precisam esforçar-se para reencontrar a amiga, mas não é essa procura que dita o ritmo da narrativa. Procurando Dory é sobre Dory reencontrar suas próprias memórias e, consequentemente, localizar o paradeiro dois pais. A aventura passa por locais conhecidos do público, como o coral, o fundo do mar repleto de monstro marinhos e as correntezas oceânicas onde as tartarugas “surfam”, mas a maior parte da história desenvolve-se em um gigantesco parque aquático no qual os personagens embrenham-se à procura dos pais de Dory.

Novamente, a ação é muito boa e variada. Uma ameaçadora lula gigante põe os personagens para “correr”, Nemo e Marlin viajam dentro de um balde carregado por um passarinho loucão e Dory e Hank, um polvo misantropo de 7 pernas (!!!), colocam o local de cabeça pra baixo, chegando, inclusive (numa das cenas mais improváveis de todos os tempos), a pilotar um caminhão (!!!²). Tudo isso, somado ao humor afiado (ri pra valer das broncas que aos leões marinhos dão no Geraldo rs) e ao visual impecável (não vi em 3D), fazem de Procurando Dory uma animação obrigatória, dessas que tu sai do cinema verdadeiramente feliz por tê-la assistido. Isso, no entanto, não é tudo que eu tenho para dizer-lhes sobre o que vi.

Procurando Dory - CenaEstruturalmente, as animações feitas pelos grandes estúdios americanos, como a Pixar, Disney e Dreamworks, são muito parecidas. Sempre temos um protagonista que passará por um processo de aprendizado, personagens secundários engraçadinhos, muita cor, muita ação, algumas músicas e uma lição de moral para os pais e para as crianças amarrando a história toda. O que difere essas animações uma da outra e que faz com que a gente goste de umas e esqueça de outras são os detalhes. Procurando Dory tem o “pacote diversão” completo, mas ele também tem um pai reconhecendo um erro para o filho. Ele tem um personagem principal cujo principal lema é seguir em frente/continuar a nadar, ideia aparentemente simples mas que, se aplicada nos momentos certos, tem o poder de salvar vidas e mudar existências. Ele tem uma personagem de coração bondoso transformando a vida de um personagem ranzinza e pessimista não com palavras, mas com o exemplo. Procurando Dory tem, acima de tudo, um roteiro que utiliza conchas (mamãe gosta de conchas!) para ilustrar o amor e a confiança absoluta que deve existir na relação entre pais e filhos e tem a Dory, em um momento onde ela poderia ceder ao desespero, dando um passo de cada vez (algas, pedras, conchas) rumo a própria salvação. Novamente, o tal “elemento emocional” fez-se presente e o filme falou diretamente com o meu coração.

Ri bastante, fiquei empolgado, chorei e saí da sala do cinema um pouco mais leve do que entrei: é esse tipo de conexão que, ao meu ver, faz com que um filme destaque-se dos demais e, vários anos após o seu lançamento, garante que ele seja lembrado com nostalgia pelo público. Procurando Dory é a continuação perfeita, produção que já nasce clássica e que um dia eu certamente terei o prazer de mostrar para meus filhos e dizer “esse eu vi no cinema” 🙂

Procurando Dory - Cena 3