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Sobre LucianF

Mais um dos milhares de apaixonados por cinema que existem por aí. "A Felicidade só é verdadeira quando compartilhada", então vamos compartilhar opiniões e indicações de bons filmes :)

A Cabana (2017)

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Texto com SPOILERS.

Minha mãe foi uma das grandes responsáveis por eu gostar de ler. Sou grato as professoras de literatura que tive na escola, pois sem elas provavelmente eu não conhecerias as obras fantásticas da Coleção Vagalume, mas o que me inspirava de verdade a abrir um livro e debruçar-me sobre uma boa história era ver que a minha mãe também gostava de fazer o mesmo. Sabrina, Bianca, romances do Sidney Sheldon e suspenses da Agatha Christie: a dona Silene lia de tudo e, terminada a leitura, me emprestava aqueles de que ela havia gostado mais. Essa relação mudou um pouco ao longo dos anos (hoje em dia é ela quem sempre pega algo da minha mini biblioteca quando vem me visitar), mas vez ou outra ela ainda aparece com algum livro “que é muito bom e que eu preciso ler”. Foi assim que eu conheci A Cabana.

Acho que, não fosse a indicação da minha mãe, dificilmente eu teria encarado a história sobre Deus e perdão do escritor canadense William P. Young. Não sou completamente averso a temáticas religiosas, mas tenho uma quantidade enorme de livros esperando para serem lidos e seria pouco provável que eu enfiasse “o best seller de autoajuda do momento” na frente de algo do Dostoiévski ou do Stephen King, por exemplo. Todo caso, aceitei a dica e iniciei a leitura com a cabeça aberta, procurando deixar que meus preconceitos não influenciassem na apreciação do material. Foi difícil. Lembro que, além de achar o texto mal escrito, cheio de clichês e lugares comuns, eu não consegui olhar com bons olhos as alegorias do escritor para a Santíssima Trindade. Na época, eu havia acabado de ler algumas coisas pesadas do Nietzsche (O Anticristo e Crepúsculo dos Ídolos) e o meu ceticismo estava lá em cima, logo a parte “religiosa” da história não me cativou. A temática do “perdão”, porém, eu achei bem legal, e foi por ela que eu fui ver esta adaptação do diretor Stuart Hazeldine.

Achei por bem iniciar o texto colocando o aviso de SPOILERS porque é difícil fazer uma sinopse decente de A Cabana sem revelar um ponto central do roteiro. Missy (Amélie Eve), a filha caçula de Mack (Sam Worthington) e Nan (Radha Mitchell), é sequestrada e assassinada dentro de uma cabana na floresta por um assassino em série. Como não poderia deixar de ser, o evento devasta a vida do casal, mas Mack, que estava responsável por Missy no dia do rapto, sente-se especialmente culpado pelo ocorrido. Ao contrário da mulher, que é uma pessoa espiritualizada que vive em comunhão com Deus, ele não consegue perdoar a si mesmo e seguir em frente, o que leva-o a uma existência triste e amargurada.

Certo dia, Mack recebe uma carta de Deus convidando-o a voltar até a cabana onde Missy foi assassinada para um bate papo. É aqui que a história exige que a gente dê o chamado leap of faith (salto de fé): ou você acredita que sim, é perfeitamente possível (mesmo que na ficção) que Deus envie uma carta para alguém, ou você passará o resto do filme torcendo o nariz para tudo o que será mostrado. A atitude desconfiada de Mack, que acredita estar sendo vítima de alguma brincadeira de mau gosto, até ajuda a gente a começar a digerir a ideia, mas no fim ele acaba indo mesmo até a tal cabana e tendo o encontro não só com Deus (Octavia Spencer), mas também com Jesus (Avraham Aviv Alush) e com o Espírito Santo (Sumire Matsubara).

Cenas como Mack comendo um rango preparado pelo próprio Deus (ou correndo sobre a água com Jesus) ainda me causam um certo estranhamento, mas entendo perfeitamente tudo o que o escritor William P. Young quis dizer sobre o poder do perdão. Essa história, que ele escreveu para os próprios filhos como um presente de natal e que acabou transformando-se num sucesso mundial, fala de um mundo injusto e imperfeito onde crianças são assassinadas a sangue frio, mas também fala que nós nunca estaremos sozinhos para enfrentar essas mazelas. Aceitar ou não a presença e o conforto de Deus nessas horas, como o filme sugere, é algo que depende de cada um (pessoalmente, eu tenho dificuldades com isso), mas entendo a força destrutiva que sentimentos como a culpa e a vingança podem ter em nossas vidas. Julgar e condenar outrem, como é falado no melhor diálogo do longa, é um processo sem fim e ineficaz para aliviar as dores que carregamos. Ou a gente perdoa e segue a vida levando um dia após o outro, deixando que nossas feridas sejam curadas aos poucos, ou a gente afunda no sofrimento por ter sido alvo de alguma injustiça.

Tal qual o livro, A Cabana oferece conforto e mostra que é possível seguir em frente após um grande trauma. Não há dúvidas que a apreciação do filme variará de acordo com a fé do espectador, mas mesmo quem decidir acreditar que Mack simplesmente caiu e bateu a cabeça na cabana, acordando “mudado” depois do acidente, reconhecerá que trata-se de uma bonita história de superação. O diretor Suart Hazeldine encheu o filme de paisagens oníricas (aquele jardim caótico onde Mack e o Espírito Santo conversam é maravilhoso) e, ao meu ver, só escorregou por colocar a tocante Keep Your Eyes on Me (a música que tocava no trailer) nos créditos e não no clímax, quando o reencontro de Mack e Missy obrigam a gente a secar os olhos. Eu tinha tudo para não gostar de A Cabana: o tema não é dos meus favoritos e, no dia da sessão, eu estava morrendo de sono. Felizmente, porém, eu tive alguém para me ensinar a importância de manter a mente aberta e a beleza do ato de perdoar. Achei o filme bem bonito. Obrigado, mãe (e me desculpe por ter falado com você daquele jeito).

Velozes e Furiosos 8 (2017)

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“O mocinho vira bandido. Que clichê.”

Essa frase é dita pela Cipher (Charlize Theron), a vilã de Velozes e Furiosos 8, e resume bem o que pode ser visto neste oitavo episódio da franquia. Após 3 filmes com roteiros girando em torno de uma “última missão”, dessa vez os produtores resolveram colocar Toretto (Vin Diesel) para quebrar o pau com sua própria equipe (ou família, como ele gosta de dizer). A mudança não é uma inovação (você já viu isso antes e você verá isso outra vez), mas a autocrítica travestida de ironia do diálogo acima já é um bom indicativo de que o diretor F. Gary Gray não está lá muito preocupado com originalidade. Sem surpresa alguma, Velozes e Furiosos 8 requenta tudo o que a série já havia apresentado até aqui, porém nota-se que a busca por cenas de ação cada vez mais absurdas e grandiosas está levando a franquia para rumos distantes daqueles rachas de carro que marcaram as primeiras produções.

Dom até tentou sossegar. Após despedir-se de Brian naquele final emocionante do filme anterior, ele mudou-se com Letty (Michelle Rodriguez) para Cuba e passou a levar uma vida simples e tranquila. É claro que, vez ou outra, surge alguma possibilidade de reviver toda aquela loucura do passado (logo na abertura, Dom corre contra um zé barbicha para salvar o carro do primo de Letty), mas na maior parte do tempo o casal está fazendo coisas triviais como planejar bebês e ir ao mercado comprar pão. A desculpa para a ação surge quando Toretto é abordado por Cipher, uma hacker especializada em terrorismo digital que obriga-o a trair seus amigos e juntar-se a ela numa missão para roubar armas nucleares russas.

Tal qual aconteceu com o Velozes e Furiosos 6, que era levado pelo mistério ao redor do ressurgimento de Letty, Velozes 8 faz suspense em cima do motivo da traição de Dom. Cipher mostra algo para ele na tela de um celular e na cena seguinte o cara quase mata o grandalhão Hobbs (Dwayne Johnson) jogando-o para fora da estrada. O que Dom viu? Nos poucos momentos em que precisa preocupar-se com o roteiro, o diretor resgata acontecimentos e personagens do Operação Rio para dar sentido à chantagem de Cipher. A “revelação”, apesar de simplória, não chega a ser ruim, mas o timing definitivamente não foi bom: como sabemos quase desde o início que Dom está agindo para proteger alguém, os confrontos dele com os outros corredores perdem muito no quesito emoção. No fim, o que o trailer anunciou como “Toretto piradão tocando o terror” acaba não passando de um decepcionante “Tadinho do Dom!”.

Outro que “troca de lado” é o Deckard (Jason Statham), que é retirado da prisão pelo Mr. Nobody (Kurt Russell) para ajudar Letty e cia a localizarem Toretto. Isso ficou bem legal. Ainda que seja clara a forçação de barra para que o Statham continue na franquia e ocupe o espaço deixado pelo Paul Walker (tarefa que também está sendo empurrada para o Scott Eastwood, filho de ‘vocês sabem quem’), a tensão entre Deckard e Hobbs rende os melhores momentos do filme fora dos carros. Os personagens não chegam a reprisar a pancadaria travada no Velozes 7 (pode ser que o confronto fique para o spinoff que a Universal confirmou para a dupla), mas a troca de ofensas e ameaças entre eles é muito boa. A gente sabe que está assistindo algo bacana quando alguém diz “Quando tudo isso acabar, eu vou empurrar seus dentes tão fundo na sua garganta que tu terá que enfiar a escova de dentes no rabo pra poder escová-los”.

Mas e os carros? Velozes 8 começa com Toretto acelerando um trambolho através das ruas cubanas no melhor estilo daqueles rachas que ditaram o ritmo dos primeiros filmes. A música toca alto, todo mundo é bonito e malhado e há uma gostosona com um short minúsculo na linha de largada. É estranho notar, porém, o quão deslocada esse tipo de cena, que remete aos primórdios da franquia, soa atualmente quando comparada ao restante do material. Verdade seja dita, os carros não fazem mais a menor diferença dentro da história. Na maior parte dos casos, eles poderiam ser substituídos por motos, paraquedas ou snowmobiles sem que isso prejudicasse em nada as cenas. Velozes e Furiosos 8 até reserva tempo para o sempre engraçado Roman (Tyrese Gibson) babar em uma Lamborghini, mas é visível que os veículos modificados e as manobras impossíveis de outrora foram colocadas em segundo plano para privilegiar o espetáculo do absurdo, com os personagens disputando corrida com um submarino de guerra e Hobbs amassando paredes de metal com socos e parando bala de borracha com o peitoral. Qual o próximo passo? Carros no espaço? Corridas no deserto com Hobbs transformando-se no Escorpião Rei? Tudo é possível.

Velozes e Furiosos 8 é um filme perfeito para tu assistir no cinema comendo um balde de pipoca e tomando um copão de refrigerante. Os cenários são bonitos, a ação é constante e os diálogos motivacionais (O que importa não é a máquina, mas sim quem está atrás do volante) ditos por personagens que acumularam fortuna no mundo do crime deixam-nos motivados para trabalhar no dia seguinte. Como o público parece não cansar da franquia (o filme teve a melhor estreia de todos os tempos), é apenas uma questão de tempo para que saiam mais e mais continuações. No fim, Vin Diesel venceu tudo (carros, aviões, submarinos) e todos (Statham, The Rock, eu, você e a ‘crítica especializada’): gostando ou não, temos que respeitar um cara desses.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017)

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Antes de falar do filme, uma nota rápida sobre a minha última semana.

Após 2 meses de muitas dores, dúvidas e privações devido aquele maldito acidente de moto, finalmente consegui retornar para a minha rotina. Voltei a dar aulas de História na quarta (12/04)  e, na manhã da quinta feira (13/04), eu já estava no aeroporto realizando controle de tráfego aéreo. É bom pensar que aquele pesadelo agora faz parte do passado, mas nem a vontade de seguir em frente me fará esquecer daqueles 60 dias em que tive tempo de sobra para duvidar de mim mesmo. Dentre outras coisas, tive medo de voltar a dirigir, de não fazer falta para os meus colegas de trabalho e alunos, de não encontrar mais motivação para escrever e medo de encarar as pessoas e reconhecer que eu havia falhado.

Falhei mesmo. Por mais que o quebra molas que me derrubou esteja mal sinalizado (passei lá ontem: ele está sem pintura e a placa está oculta atrás de uma árvore), não posso negar que eu estava acima do limite de velocidade (100km/h numa via onde o máximo é 80). Daqui até o fim da minha vida, terei a lembrança da queda e uma cicatriz enorme no braço esquerdo para me recordarem do que fiz. Fui irresponsável e precisarei lidar com isso, mas o caminho rumo ao amadurecimento não precisa ser trilhado sozinho. Nesta última semana, além de ter sido muitíssimo bem acolhido nos meus locais de trabalho, ganhei um abraço carinhoso de um aluno (Valeu, Claudin!), recebi mensagens encorajadoras dos meus familiares e fui presenteado com o apoio da minha esposa, que propôs realizarmos uma viagem de moto até o estado de Goiás para que, nas palavras dela, “eu pudesse reconquistar a minha confiança ao dirigir”. Quando penso em tudo que passei, concluo que não há fardo suficientemente pesado para quem tem amigos e nem dúvida que resista a um gesto sincero de amor. Sinto-me feliz e motivado para recomeçar. Obrigado a todos que me ajudaram durante esse período difícil 🙂

Percorridos os 180km que separam Uberlândia-MG de Caldas Novas-GO, tive um final de semana bastante agradável em solo goiano. O forte de Caldas são as piscinas de água quente, a música sertaneja e a cerveja gelada, porém há uma grande variedade de opções de entretenimento na vida noturna da cidade para quem quiser algo mais sossegado, dentre elas o 7ªrte Cine Stadium. O local não é lá dos maiores (há apenas 2 salas) e a programação prioriza filmes dublados, mas as instalações são boas (cadeiras novas e limpas; sistema de som eficiente) e de fácil acesso. Mesmo contrariado por perder o áudio original e as sutilezas da voz da Scarlett Johansson, acabei vendo A Vigilante do Amanhã por lá mesmo, meio bêbado e grilado com o cara da bilheteria que não quis aceitar a minha carteirinha de estudante para pagar meia entrada.

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell não foi bem nas bilheterias. Envolto numa polêmica de whitewashing (quando um ator branco é escalado no papel de um personagem que, originalmente, tinha outra raça/etnia), a produção deve acumular incríveis 100 milhões de dólares de prejuízo. Eu não fiquei empolgadão com o que vi, mas não achei o o filme tão ruim assim. O fato de terem optado pela Johansson em detrimento de uma atriz oriental certamente foi uma mancada e, como eu havia desconfiado quando resenhei o anime original, simplificaram bastante o roteiro, mas a condução pragmática e o trabalho visual do diretor Rupert Sanders são bastante eficientes.

Ambientando em um futuro próximo, A Vigilante do Amanhã mostra uma realidade em que os seres humanos podem realizar implantes cibernéticos para aprimorarem seus corpos. Após sofrer um acidente, Mira (Johansson) foi salva pela empresa Hanka Robotics, que extraiu seu cérebro e implantou-o num corpo de metal, transformando-a em um ciborgue. Algum tempo depois, Mira, que agora trabalha para o governo e é conhecida como Major, está no meio de uma operação secreta em que ela precisa monitorar uma conversação entre um executivo da Hanka e um político. A reunião é encerrada abruptamente quando ciborgues em formato de gueixa começam a atacar e hackear os cérebros dos participantes, o que obriga a Major a invadir o local e utilizar a força para controlar a situação. No fim, após dizimar a ameaça, ela ouve de uma das gueixas que “quem colaborar com a Hanka será destruído”.

Mira e seu parceiro Batou (Pilou Asbaek), que trabalham sob o comando do Chefe Aramaki (Takeshi Kitano), iniciam então uma investigação para descobrir o responsável pelo ataque das gueixas. Em linhas gerais, A Vigilante do Amanhã segue a mesma narrativa de O Fantasma do Futuro, com a Major esgueirando-se através dos becos sujos de Tóquio perseguindo um inimigo sem rosto. O remake difere-se do original mais nos detalhes e na profundidade em que o tema da individualidade é abordado. Seguem algumas diferenças:

  • Visual: A Major, infelizmente, está mais “comportada”. O corpo de ciborgue dela, que era praticamente idêntico ao de uma mulher normal, ficou com um visual “emborrachado” para suavizar as cenas de nudez. Já o Batou, que no original não tinha nada que acusasse sua natureza cibernética, ganhou olhos biônicos após ser ferido em uma explosão. A maior mudança, porém, foi no vilão: o Mestre dos Fantoches, hacker que transferia a própria consciência para a rede e que agia como um vírus, foi substituído por Kuze (Michael Pitt), um experimento defeituoso da Hanka Robotics. Pessoalmente, eu gostava mais da ideia quase abstrata do anime.
  • Cenas de ação e violência: O diretor Rupert Sanders recriou com maestria o clima noir e a estética cibernética de O Fantasma do Futuro, mas não podemos dizer que ele teve o mesmo êxito com a ação. Por mais que a clássica luta no “espelho d’água” tenha ficado idêntica, os momentos mais violentos do filme (como o assassinato do embaixador e o confronto com o tanque do final) perderam sangue, vísceras e impacto.
  • “Individualidade”: A Vigilante do Amanhã abre mão de praticamente todo o subtexto político do anime para concentrar-se na história de Mira. Ainda que a personagem tenha uma ou duas digressões sobre sua condição de ciborgue, o diretor optou mesmo foi por focar no passado dela. Essa decisão alterou significativamente o final da trama (pra pior, ao meu ver), mas deixou o roteiro mais enxuto e acessível.

A Vigilante do Amanhã é um filme mais simples e funcional do que O Fantasma do Futuro. Isso é bom em certos pontos (achei mais fácil acompanhar a história) e ruim em outros (sem a violência, a nudez e a ‘esquisitice’, perdeu-se a aura ‘cult’). Futuramente, num dia que eu não tiver nada melhor para fazer, pretende vê-lo novamente nem que seja para rir do visual estranho da Johansson, que ficou parecendo o Jesse Eisenberg com aquele cabelinho na cara rs

Power Rangers (2017)

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Vamos encarar a realidade? Power Rangers É ruim. Não concordam? Experimentem rever a série (tem no Netflix) e percebam o quão zoado era tudo aquilo. Já no primeiro episódio, em menos de 5min, a Rita Repulsa e seu exército são libertados de uma prisão lunar, Zordon convoca os Rangers e lhes dá a missão de proteger os EUA a Terra e o Alpha já soltou vários AI AI AIAIAI . Sim, também tem a Amy Jo Johnson, primeira namoradinha de muita gente, fazendo ginástica com uma calça suplex rosa, mas no geral o seriado era bem bobão e previsível. Com raríssimas exceções, todos os episódios seguiam o esquema:

  1. Rangers na lanchonete + piadinhas do Bulk e Skull
  2. Rita conspirando contra o sossego alheio
  3. Bonequinhos de massa (PRULULULU!) e monstro
  4. Rita faz o monstro crescer
  5. Megazord destrói o monstro (e toda a cidade de Angel Grove junto)
  6. Rangers na lanchonete tomando milk shake, lição de moral e Rita com dor de cabeça pedindo aspirina

Todo caso, em 1995, quando o seriado estreou no Brasil, eu era apenas um garoto de 10 anos que saía da escola e ia correndo para casa ver Power Rangers na TV Colosso. Naquela época, eu tinha medo do Roberval, O Ladrão de Chocolates e gostava muito, muito de do seriado. Eu não tava nem aí para o roteiro capenga e para o fato de que a Ranger amarela tinha um volume estranho no meio das pernas. Para falar a verdade, eu nem sabia o que era roteiro. Quando eu sentava no sofá de casa na hora do almoço, as únicas coisas que importavam eram o purê de batata da minha mãe e a sequência animal de transformação do Megazord.

Com o exposto, sei que constato o óbvio – nem tudo que a gente gosta quando é criança continua nos agradando quando crescemos – mas é bom deixar isso claro para que nenhum fã da série apareça por aqui pra me xingar pelo que vou dizer. Acho difícil gostar de Power Rangers hoje em dia. Por mais que eles tenham feito parte da minha infância (eu tinha vários daqueles bonequinhos trash que giravam a cabeça; o meu favorito era o Billy/Triceratops) e que eu me sinta nostálgico em relação ao seriado, o tempo passou e agora eu me interesso por outras coisas. Nisso, fica a pergunta: faço parte do público alvo desse novo Power Rangers? A intenção dos produtores era conquistar uma nova leva de fãs ou fornecer um produto saudosista para a galera da década de 90? As duas coisas? É certo que esse filme do diretor Dean Israelite, com todos os seus efeitos especiais e linguagem atual, abre as portas dos anos 2000 para os Rangers, mas também é patente que o longa foi construído buscando proporcionar uma válvula de escape para o passado ao custo de um ingresso. Não sei se a molecada gostou do que viu, mas o tiozão aqui não ficou nenhum pouco empolgado.

O começo até que não é dos piores. Ao contrário do que acontece no seriado, reservaram um bom tempo para apresentar os personagens e dar sentido para uma história em que monstros gigantes tentam destruir o mundo. Há cerca de 65 milhões de anos, Rita Repulsa (Elizabeth Banks) e Zordon (Bryan Cranston) duelaram pelo destino da Terra. Zordon, que então era o Power Ranger vermelho, conseguiu vencer e selar Rita em uma prisão, mas a vitória custou a vida de todos os seus companheiros e sua própria liberdade, visto que seu corpo também ficou preso em uma dimensão paralela. Muitos anos depois, os colegiais Jason (Dacre Montgomery), Billy (RJ Cyler), Kimberly (Naomi Scott), Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.) encontram Zordon enterrado em uma pedreira e são encarregados por ele de protegerem o planeta da vingança iminente de Rita, que fugiu da prisão e iniciou o processo para invocar seu poderoso Goldar.

Como todo bom filme de origem, Power Rangers foca primeiro nos personagens e depois na ação. Jason é um líder irresponsável com problemas com o pai, Billy é autista, Kimberly espalhou nudes na escola, a mãe de Zack está doente e a família de Trini não aceita sua sexualidade. De suas 2 horas de duração, o filme investe pelo menos metade do tempo na apresentação do lado humano dos heróis antes que eles transformem-se em guerreiros que saltam sobre penhascos e lutam fazendo poses engraçadas. Disso eu gostei: como o desenvolvimento de personagens é bem feito, a gente sempre sabe, por exemplo, que o Zack fará alguma coisa doidona e que a Trini estará de mau humor.

A qualidade, no entanto, cai vertiginosamente quando o conteúdo “Ranger” é adicionado ao filme. Desde que saíram os primeiros trailers, eu torci o nariz para o visual dos personagens. Sei que seria impraticável repetir os pijamas de latex de outrora, mas essas roupas novas, que mais parecem trajes de motoqueiros, ficaram feias demais. A “modernização” também escorregou nos bonequinhos de massa, cujos atores foram substituídos por um CGI horroroso, e na aparência da Rita, que lembra muito mais a saudosa Scorpina do que aquela velha maluca do cabelo branco. Nenhum desses equívocos, porém, compara-se com o que foi feito com os Dinozords e com o Goldar. Para falar pouco, os veículos de batalha dos Rangers estão irreconhecíveis (aquilo lá NÃO É um mastodonte) e o monstro, que era uma espécie de macacão demoníaco, transformou-se em uma massa tosca de ouro ambulante.

Diante de todas essas apostas visuais bizarras, a minha animação foi zero quando a batalha final começou. Pra falar a verdade, fiquei até com um pouco de vergonha quando tocou o tema clássico da série (Go Go Power Rangers). No dia eu estava acompanhado da minha mãe, que vai pouquíssimo ao cinema, e fiquei bastante arrependido por ter escolhido esse filme para ver. A transformação do Megazord, que deveria ser o ponto alto do filme, apenas revelou outro amontado de efeitos especiais ruins e nem mesmo as boas piadas e referências a filmes como Transformers, Duro de Matar e Vingadores tornaram a sessão menos penosa. Power Rangers era ruim mas a gente era criança e gostava. Power Rangers é muito ruim e já fazem incríveis 20 anos que a TV Colosso acabou. Não dá mais.

Obs.: Durante os créditos, uma cena extra revela planos para uma continuação. Haim Saban, o criador dos personagens, quer mais 5 filmes. Única reação possível? AI AI AIAI!

Ghost in the Shell – O Fantasma do Futuro (1995)

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A versão hollywoodiana do Ghost in the Shell, aquele clássico da animação japonesa de 1995, está disponível nos cinemas desde a semana passada, porém antes de ir assisti-lo eu achei melhor conhecer e resenhar a obra original.

*Pausa para adivinhar o pensamento do leitor* Como assim cara? Você, que se diz um cinéfilo, até hoje não havia assistido esse filme OBRIGATÓRIO?

Pois é amigos, que vergonha, né? Acontece que, mesmo sabendo da aura cult que cerca o anime (que é considerado um trabalho seminal dentro do gênero cyberpunk), até hoje eu não havia encontrado uma oportunidade para vê-lo (ainda que eu tenha tido tempo para ver esta merda aqui). Fala-se muito mal dessa “onda de remakes” de Hollywood (na maioria das vezes com razão), mas algo que eu sempre achei válido na ideia de resgatar clássicos é que, mesmo que indiretamente, essas novas roupagens acabam despertando o interesse do público pela produção original. Descobri bons filmes desse jeito, e foi assim que eu finalmente criei vergonha na cara e coloquei o Ghost in the Shell pra rodar. Nos últimos dias, aliás, eu vi ele duas vezes.

Seria bem legal dizer que realizei uma segunda sessão porque gostei demais da primeira, mas a grande verdade é que, se eu não tivesse revisto, eu não teria a mínima condição de escrever essa resenha. Resumidamente, eu não entendi patavinas da história. As cenas de ação são brutais e a mistura de computação gráfica com animação tradicional dá um visual incrível e futurista para o cenário, mas a trama envolvendo temas como terrorismo, política e existencialismo não entrou na minha cabeça de jeito nenhum. Na boa? Não fiquei nenhum pouco triste ou preocupado com isso.

Dia desses, uma amiga fez um post no Facebook dizendo que sentiu-se “tonta” por ver Donnie Darko e não “entender nada”. Antigamente eu também me sentia assim, mas com o tempo eu fui percebendo que tem obras que simplesmente não foram concebidas para serem digeridas de uma só vez. É muita pretensão, por exemplo, querer assistir algo da magnitude de um Interestelar e entender de cara todos aqueles diálogos carregados de física quântica. Independente dos temas complicados que escolher trabalhar (viagem no tempo SEMPRE dá nó na cabeça), o filme precisa funcionar, mas isso não quer dizer que o roteiro precise entregar tudo mastigadinho para o espectador. A força de filmes como Donnie Darko, por exemplo, está justamente no fator replay, ou seja, tu assisti-lo novamente utilizando informações que você não tinha da primeira vez para preencher lacunas e chegar a um novo entendimento, tal qual um quebra cabeças que vai sendo montado aos poucos. Foi mais ou menos isso que eu fiz com Ghost in the Shell. Eis o que compreendi das duas sessões.

No ano de 2029, a tecnologia permite que a consciência humana seja extraída do corpo e implantada em ciborgues. As pessoas que realizam essas modificações não tornam-se imortais, visto que seu cérebro/banco de dados pode sofrer danos permanentes  e que, regularmente, os corpos cibernéticos precisam de manutenção, mas o processo confere superforça, supervelocidade, acesso a uma infinidade de informações via download instantâneo e resistência contra doenças. No futuro sombrio dominado por megacorporações imaginado pelo escritor Shirow Masamune, ser um ciborgue é estar preparado para lidar com ataques terroristas e com a violência das grandes cidades.

A Major Motoko é uma ciborgue que trabalha para o governo utilizando força bruta quando as coisas saem do controle ou tornam-se demasiadamente complexas para a polícia comum resolver. Exemplo: um diplomata de um país vizinho quer extraditar e dar abrigo para um importante programador. Pela lei, nada poderia impedi-lo de ajudar o sujeito, então Motoko é enviada até o local e mete uma bala bem no meio das fuças do diplomata, desaparecendo logo em seguida, tal qual um fantasma, sem deixar rastros. É difícil duvidar do profissionalismo da Major após vê-la executar com frieza uma ordem sanguinária dessas, mas o surgimento de um famoso hacker trará à tona sentimentos e dúvidas que a personagem havia ocultado sob as placas de metal de seu corpo.

Da primeira vez que assisti, boiei completamente na parte “política” da historia. Os diálogos rápidos do anime e as muitas referências à personagens governamentais fictícios me confundiram bastante. Enquanto eu ainda estava tentando entender a relação do ditador exilado no Japão e o hacker, que é conhecido como Mestre dos Fantoches, a Major estava lá descendo o cacete num maluco em um laguinho, filosofando sobre sua individualidade e, finalmente, lutando contra um poderosíssimo tanque no clímax da trama. Eu respirei e o filme, que é bem curto (1h23min) acabou. Não tive nenhuma dúvida relacionada a qualidade visual do trabalho do diretor Mamoru Oshii (20 anos depois, a animação ainda é muito bonita), mas reconheci que o roteiro havia me escapado e resolvi ver outra vez.

A real é que a trama política é o que menos importa em Ghost in the Shell. O controle governamental sobre o cidadão comum é ferrenho, a politicagem come solta em negociações internacionais escusas e há brigas de hierarquia dentro dos vários setores do governo. Tudo fichinha para quem lê jornal diariamente no Brasil. O que dá sentido para o roteiro são os questionamentos de Motoko sobre sua condição de ciborgue. Se você ainda não assistiu o anime e pretende fazê-lo, aconselho-o a focar nisso. Todas as certezas que a Major tinha sobre si mesma desmoronam quando ela percebe que o tal Mestre dos Fantoches é capaz de produzir memórias e introduzi-las nos cérebros alheios. Se nossas lembranças podem ser criadas e manipuladas, o que definirá nossa individualidade? O que nos fará diferentes das máquinas? Vale a pena ser apenas um vulto dentro de um corpo metálico poderoso, um fantasma numa concha?

Esses questionamentos desenvolvem-se em cima da subtrama política citada e num cenário distópico em que a tecnologia de ponta contrasta com a pobreza absoluta. Ghost in the Shell conta ainda com pelo menos 3 cenas de ação frenéticas, com a Major e seus aliados (Batou e Togusa) fazendo sangue jorrar pra valer e, muita, muita nudez. O trailer do remake mostra a Johansson com um corpo metálico estilizado bem diferente da Motoko peladona da animação que, por fora, não tem absolutamente nenhuma diferença de uma mulher comum. Que vacilo, Hollywood! Como é certo que tornarão o material mais palatável para o público dos blockbusters, exagerando na ação e simplificando o roteiro (parece que o Mestre dos Fantoches deixou de ser um programa para ser um personagem físico), torço para que A Vigilante do Amanhã seja ao menos um filme que também dê vontade de assistir mais de uma vez, visto que Ghost in the Shell eu repeti e não veria problema algum em partir para uma terceira sessão.

A Bela e a Fera (2017)

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Apesar dos avisos do pastor Silas Malafaia, optei por correr o risco de “virar gay” e fui conferir esta nova versão do conto de fadas francês A Bela e a Fera. No vídeo que pode ser visto clicando no link acima, Malafaia acusa a Disney de “comprar a agenda gay” e de ensinar sexualidade para o público, especialmente para as crianças. Segundo o pastor, a decisão do estúdio de incluir no filme um personagem abertamente homossexual (LeFou, interpretado pelo Josh Gad) é uma tentativa “asquerosa e nojenta” de erotizar a molecada.

Malafaia gravou o tal vídeo no dia 02/03 e, segundo o IMDB, A Bela e a Fera (e o LeFou) só estreou no Brasil no dia 16/03, ou seja, é bem provável que ele emitiu aquela opinião ANTES de ver o filme. É claro que o pastor pode ter tido acesso ao material em uma pré-estreia exclusiva, mas o que me parece é que, ciente das informações que foram divulgadas sobre o personagem antes do lançamento, Malafaia adiantou-se e convidou seus seguidores a boicotarem o produto da Disney.

Faço essas considerações pois, por mais que eu preze pelo respeito às crenças alheias, não consegui encontrar em A Bela e a Fera o conteúdo preocupante apontado pelo Malafaia. É fato que o LeFou está mais purpurinado do que seu correspondente da animação de 1991, mas daí a dizer que o filme propõe-se a erotizar crianças e ensinar-lhes sexualidade é um absurdo, o tipo de erro grotesco que geralmente é cometido por quem fala de algo que não sabe (ou não viu). Tal qual fazia anteriormente, o personagem continua beijando o chão que o Gaston (Luke Evans) pisa e cantando sua canção que enaltece as “qualidades” do valentão. Os trejeitos dele não deixam dúvidas que, se pudesse, ele beberia daquela água, mas é só. Sem beijos, sem carícias, sem nada que os pais de uma família tradicional precisem tampar os olhos dos filhos por medo deles saírem do cinema arrotando arco-íris. É, portanto, no mínimo quixotesca a preocupação do pastor com o LeFou. O fato de haver revolta contra a homossexualidade do personagem e silêncio contra o machismo e a truculência de Gaston, que continua querendo obrigar Bela (Emma Watson) a casar-se com ele para massagear-lhe os pés, diz muito a respeito das prioridades e do caráter do Malafaia.

Eu, que continuo gostando de mulheres a despeito dos esforços do simpático LeFou, também sigo apreciando musicais e acredito que dificilmente veremos algo tão bom do gênero nos cinemas esse ano quanto esse A Bela e a Fera. Conta-se que, inicialmente, a intenção da Disney era refilmar a história como um longa metragem comum, sem as músicas, ao que o diretor Bill Condon (dos dançantes Dreamgirls e Chicago) respondeu “Vocês são loucos? Pretendem fazer uma adaptação enorme e bonitona e deixar ‘Be Our Guest’ de lado?”. Que bom que deram ouvidos ao diretor: a tecnologia atual e a grandiosidade dos figurinos e dos cenários, por si só, já tornariam esta versão válida e interessante, mas é na parte musical que a história continua tocando nossos corações.

Nesse conto tão velho quanto o próprio tempo (na verdade, ele foi escrito em 1740 pela francesa Gabrielle-Suzanne Babot), Bela é uma garota entediada pela vida provinciana que a cerca. Num mundo organizado para que as maiores ambições de uma mulher sejam encontrar um marido e cuidar da casa, Bela é uma inventora apaixonada por livros que espanta todos tanto por seu jeito independente quanto por resistir aos avanços do bonitão Gaston, o solteirão mais cobiçado do vilarejo. Certo dia, Maurice (Kevin Kline), o pai de Bela, é capturado por uma fera monstruosa (Dan Stevens) e preso nas masmorras de um castelo. O crime dele? Colher uma rosa do jardim da propriedade para levar para a filha. Procurando reparar a injustiça, Bela oferece para trocar de lugar na prisão com o pai, proposta que é aceita pela Fera com a condição de que a moça nunca mais abandone o local.

Quem viu a animação sabe que a Bela e a Fera irão se apaixonar (ele pelo caráter dela, ela pela intelectualidade e coragem dele) e que isso quebrará o feitiço que havia transformado o príncipe egoísta numa criatura monstruosa. Gaston, obviamente, não ficará nada feliz em ser preterido por uma bola de pelos gigante e incitará a população do vilarejo a atacar o castelo, o que provocará uma batalha épica e divertida onde relógios (Ian McKellen), candelabros (Ewan McGregor) e bules de chá (Emma Thompson) colocarão todo mundo para correr. Condon respeitou a estrutura principal da história, mas retirou os excessos (a invenção maluca de Maurice, o velho calhorda do hospício), adicionou subtramas (a mãe e a infância de Bela) e 3 novas canções (How Does a Moment Last Forever, Days in the Sun e Evermore). Essas alterações, longe de comprometerem passagens e memórias caras aos fãs, tornaram a história mais coesa, principalmente no tocante à luz que é jogada no passado trágico da protagonista.

Ainda que conserve elementos de magia e diversão comumente associados à infância, de modo geral este A Bela e Fera está um pouco mais adulto e sombrio do que seu antecessor, tanto pela forma mais incisiva de abordar temas como o machismo (Emma Watson não economizou desprezo no olhar ao encarar o tosco Gaston) quanto pelo visual: se o Fera da animação era uma espécie de cachorrão que dava vontade de fazer um cafuné, esta nova versão, com chifres de bode e tudo mais, parece o próprio filho do cramunhão. Todo caso, cumpriu-se bem a tarefa de atualizar a história atemporal do poder da beleza interior para esta geração: as reencenações da psicodélica Be Our Guest e da apaixonante Beauty and the Beast utilizaram o que há de melhor em computação gráfica para criar um espetáculo soberbo em 3D e, no fim, o prepotente e arrogante Gaston voltou a receber o que ele merece, tal qual deve ser. Acreditem, não há o que boicotar aqui: a Disney acertou em transformar um de seus maiores clássicos em um magnífico live action e continua de parabéns por, mais do que desenvolver produtos para entreter crianças, preocupar-se em levar exemplos de diversidade e respeito às diferenças para as telas de cinema. Quero mais Mickey e menos Malafaia.

Be Here Now (2015)

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Assisti Spartacus ao longo de 2016 e, no início, não gostei muito do que vi. Eu conhecia a história do personagem através daquele filme interminável do Kubrick de 1960 e, na primeira temporada da série, tive a impressão de que o roteiro sobre o escravo que comandou uma rebelião contra o Império Romano foi deixado de lado para privilegiar as cenas de ação e putaria.

Claramente inspirado pelo trabalho conceitual do Zack Snyder no 300, Spartacus começou mal com cenários toscos gerados por CGI, repetidas lutas sangrentas em slow motion e uma porção de homens fortões seminus que conversavam como se estivessem recitando poemas. Todo caso, o roteiro foi tomando corpo ao longo do caminho, os personagens foram tornando-se mais e mais carismáticos (o Gannicus é muito legal) e, quando terminei a quarta e última temporada, bateu aquela tristeza por saber que não havia mais material para ver, ou seja, a série havia superado o início ruim e ganhado o meu coração.

O último episódio, aliás, trouxe uma dose extra de emoção para quem acompanhou as notícias de bastidores de Spartacus. Terminada a história e encerrados os créditos finais, exibiram uma justa e tocante homenagem ao Andy Whitfield, ator que interpretou o protagonista na primeira temporada mas que abandonou a série após ser diagnosticado com câncer. Infelizmente, Andy não resistiu ao tratamento e faleceu vítima da doença no dia 11 de setembro de 2011. Não serei hipócrita e dizer que eu achava o cara um grande ator (além de não ter lembranças dele naquele Gabriel, que é um filme horroroso, acho que o Liam McIntyre encarnou melhor o gladiador), mas ainda assim é sempre estranho e triste quando um rosto conhecido nos abandona. Assim sendo, fiquei bastante emocionado quando terminaram a série mostrando o Andy gritando “I”m Spartacus” naquela que talvez seja a cena mais marcante da produção.

Lembro que, quando o episódio acabou, enxuguei as lágrimas e fui procurar informações sobre a morte do ator. Foi aí que encontrei esse Be Here Now (ainda sem título nacional), documentário no qual a diretora Lilibet Foster conta como a família Whitfield lidou com a doença desde o momento de sua descoberta até o falecimento de Andy. A minha intenção era vê-lo de imediato, mas vasculhei todos os cantos da internet e não tive sucesso na busca. Desde já, fica a dica: se você também procurou e não encontrou (ou se você ficar interessado em assistir após ler esta resenha), saiba que o título foi disponibilizado recentemente na Netflix 🙂

O primeiro ponto que precisa ser comentado é que Be Here Now é mais sobre o Andy Whitfield pai e esposo do que sobre o cara que interpretou o Spartacus. Como a maioria das pessoas conheceram o ator através da série, é perfeitamente natural que o público queira ver cenas de bastidores da mesma bem como saber de que forma a doença impactou as gravações. Ciente disso, a diretora reserva espaço para que o ator Jai Courtney (o Varro da 1° temporada) fale sobre seu colega e mostra cenas de Andy ensaiando e atuando como o personagem, mas na maior parte do tempo o que vemos são cenas do dia a dia da família Whitfield e depoimentos que Andy e sua mulher, a valente Vashti Whitfield, registraram de si mesmos. Tal abordagem pode até deixar alguns fãs frustrados (inicialmente, eu também queria ver mais conteúdo sobre a série), mas o resultado não decepciona ao compor um registro intimista e emocionante dos últimos dias de um homem que precisou encarar a própria mortalidade e preparar sua saída de cena.

Lilibet não dá muitos detalhes sobre o assunto, mas é citado o fato de que Andy já havia enfrentado e vencido outro câncer antes de ser diagnosticado novamente com um linfoma em março de 2010. Dessa forma, o início do tratamento é pouco traumático: ele já venceu a doença uma vez e voltará a vencer. Tendo retornado para sua casa na Austrália após afastar-se das gravações da série, Andy opta então por realizar um tratamento espiritual na Índia antes de iniciar o processo de quimioterapia. Em sua fé, o ator acreditou que a medicina e os conhecimentos milenares do oriente poderiam prepará-lo para o que viria a seguir. Independente da opinião que possamos ter sobre temas como astrologia e medicina alternativa, essa passagem é bastante bonita por dois motivos: 1) Andy recebe a visita do pai na Índia e, juntos, eles visitam lugares fantásticos e andam de moto nas ruas caóticas daquele país. Acredito que isso é o tipo de lembrança boa para um pai guardar do filho. 2) A sintonia entre Andy e sua esposa é muito bacana. Vashti deixa bem claro sua opinião sobre aquela viagem (ela preferia que o marido iniciasse a quimioterapia imediatamente), mas o faz de forma respeitosa e mostra-se disposta a apoiá-lo 100% quando ele decide ir.

Findada a viagem, Andy retorna confiante para casa e inicia o tratamento. É um período difícil e confuso: ao mesmo tempo que os médicos fazem diagnósticos que mostram a remissão do linfoma, surgem notícias desanimadoras sobre a detecção da doença em novas áreas do corpo do ator. Andy demonstra ser um homem forte e de poucas palavras, mas não são poucas às vezes que a câmera capta-o com os olhos cheios de lágrimas após os telefonemas que não trazem as notícias que ele esperava. Vashti é uma fortaleza e doa-se por completo para a situação, desdobrando-se para auxiliar o marido sem deixar os dois filhos de lado, mas quando fica sozinha ela desmorona e fala sobre o medo de perder seu amor. Novamente, a maturidade do casal chama a atenção. Seja nos consultórios escutando que o quadro piorou, seja no dia a dia alegre da família, os dois demonstram uma química fantástica e estão sempre dispostos a ouvirem e confortarem um ao outro. A forma madura como eles discutem um tema espinhoso como a possibilidade real de Andy morrer é algo que todos os casais deveriam aprender a fazer.

Começamos a ver Be Here Now sabendo que ele não terá um final feliz, mas ver Andy lutando contra a doença (e praticamente vencendo-a antes de definhar por completo) nos dá uma falsa sensação de esperança que é completamente destruída pela inevitável confirmação de que o ator perdeu a batalha para o câncer e faleceu aos 39 anos de idade. Felizmente, a diretora teve bom senso e evitou o sensacionalismo, logo a gente não vê nenhum registro em vídeo da família no dia do ocorrido, mas mesmo assim é difícil segurar a emoção quando Vashti narra como foram os últimos momentos ao lado de seu marido. A grande verdade é que ninguém está preparado para perder o amor de sua vida, logo a gente entende perfeitamente o que aquela mulher sentiu e chora junto com ela. Chora muito.

Be Here Now, numa tradução livre, seria algo como “estar aqui agora”. Andy Whitfield tatuou esta frase no antebraço no início do tratamento para simbolizar a importância de aproveitar cada momento como se ele fosse o último. Se até mesmo o forte Spartacus, aquele que venceu o gigante Theokoles e trouxe a chuva de volta, sucumbiu diante de uma doença, é bom que nós, meros mortais assinantes da Netflix, aprendamos com a mensagem de Be Here Now e percebamos a urgência de encararmos a brevidade da vida, de “estarmos aqui agora” e abraçarmos com força cada oportunidade de sermos felizes que tivermos. Afinal de contas, nunca saberemos quando poderemos dar um último beijo na pessoa amada ou quando haverá um quebra molas no caminho. Descanse em paz, Andy.