Silêncio (2016)

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Tenho ido bastante ao cinema. Dos meus últimos 10 posts, 8 foram sobre filmes vistos no escurinho comendo pipoca e bebendo refrigerante. Isso é bom, mas tenho sentido falta de procurar títulos de diretores/atores/temas que me interessam, logo optei por ficar uma semana longe das salas de projeção e escolher algo para ver no conforto do sofá da minha casa.

Apesar de ser assinado pelo consagradíssimo Martin Scorsese, Silêncio não teve uma grande distribuição nas redes de cinemas nacionais. Aqui em Uberlândia-MG, por exemplo, ele nem entrou em cartaz. Não é difícil imaginar o porquê. Com quase 3 horas de duração (2h40min) e baseado em um livro que explora aspectos pouco ortodoxos do cristianismo (obra do japonês Shûsaku Endô), Silêncio não teria grandes chances nas bilheterias contra produções como Velozes e Furiosos 8. Pessoalmente, porém, acredito que não há o que lamentar: as questões levantadas pelo Scorsese neste longa despertam uma vontade enorme de comentar na hora, tão logo a cena acaba. Como gente educada não conversa dentro do cinema, assistir o filme em casa acaba sendo bem mais legal e produtivo.

*Pausa na resenha para um agradecimento (Caso você queira ler só sobre o filme, pule o próximo parágrafo)* Este texto ficou parado neste ponto por mais de uma semana. Estou num período complicado, organizando viagens, corrigindo provas e resolvendo algumas coisas em casa, mas a verdade é que eu cansei um pouco de escrever. Não é a primeira vez que isso acontece e certamente não será a última, porém dessa vez a vontade de deixar o blog de lado foi bastante tentadora. Já são quase 7 anos dedicados a essa página e 848 textos publicados, daí eu me peguei pensando no quão mais leve os meus dias seriam sem essa “obrigação” de resenhar todos os filmes que eu assisto. Geralmente, quando bate esse desânimo, é a minha esposa quem me faz lembrar o porque de eu ter começado isso aqui (ter um espaço só meu para falar de algo que eu amo), mas desta vez, por mais que ela tenha feito a parte dela, eu encontrei forças mesmo foi nas palavras carinhosas e inesperadas de um amigo. Eu conheço o Luiz (ou Sir Luiz, como ele é chamado por aqui) há uns 6 anos e sempre o admirei pelo bom coração e pela autenticidade (ele usa ‘saia’, faz slav squat e tem uma Suzuki Intruder legalzona), mas mesmo assim eu fiquei sem reação quando fui cumprimentá-lo na saída de um bar e vi ele falando para uma galera sobre o meu blog. Qualquer elogio sempre é bem vindo, mas o cara estava falando sobre o meu estilo de escrever, algo que dá a entender que ele realmente lê e gosta do que eu faço ao ponto de já ter identificado um padrão (salvo engano, ele estava comentando o começo deste texto aqui). Isso me deixou feliz demais. Muito obrigado, Sir! É muito bom saber que tem alguém aí do outro lado notando o que eu faço e, graças as suas palavras, cá estou eu com o ânimo renovado escrevendo novamente 🙂

Silêncio retrata parte da história do catolicismo romano no Japão e, caso você queira mais informações sobre o tema, há um artigo do Wikipédia bastante completo sobre o assunto. Resumidamente, o que aconteceu foi que, após obterem um relativo sucesso no século XVI, as missões catequizadoras, em sua maioria portuguesas, foram combatidas pelo governo japonês ao longo do século XVII, que considerava-as nocivas à estabilidade política e econômica do país. Assim sendo, as missões foram proibidas e os missionários foram obrigados a apostatar-se (desertar) da religião católica sob pena de morte.

Ferreira (Liam Neeson) foi um padre que viu-se na difícil situação de precisar abandonar sua fé para salvar a própria vida e dos kirishitan (japoneses convertidos ao cristianismo) que o seguiam. Tal acontecimento teve uma grande repercussão em sua terra natal, Portugal, visto que ele era uma figura bastante conhecida e respeitada dentro da igreja. Interessados em saber o que realmente aconteceu com o padre, os missionários Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) conseguem permissão para ir até o Japão investigar o caso e darem seguimento a missão catequizadora.

Apesar de possuírem objetivos comuns, porém, nota-se que os missionários tem formas bastante distintas de lidarem com a fé e de ensina-la para os japoneses. Garupe parece ser mais pragmático. Ele vê dificuldades onde há dificuldades e não aceita, mesmo em nome da conversão, que os kirishitans façam distorções e adaptações do texto bíblico para a realidade deles. Rodrigues, por outro lado, é um católico fervoroso cujo amor por Cristo lhe dá forças para lidar com qualquer tipo de situação sem perder a alegria. Seguro de sua fé e de seus propósitos, ele arrisca-se sem pestanejar através de territórios hostis para levar a palavra de Cristo até os japoneses.

Como dito, assisti Silêncio em casa e fui comentando o que eu via com a minha esposa ao longo da sessão. Espectador gosta de torcer por alguém, e nós nos afeiçoamos bastante com o o tal Rodrigues. A beleza da fé inabalável dele contrasta demais com o pessimismo e com a feiura do Adam Driver, daí nós ficamos do lado dele em praticamente todos os conflitos entre os missionários que surgem na primeira metade do filme. Foi aí que, como geralmente acontece em filmes conduzidos por grandes diretores, o roteiro apresentou uma reviravolta e nos fez ver um outro ângulo da história. Segundo o próprio Scorsese, Silêncio é sobre a “necessidade de acreditar conflitando com a voz da experiência”. Rodrigues “conversa” com Deus e vê sinais de manifestação divina em quase tudo (numa imagem na água, por exemplo), mas a gente vai notando aos poucos que há um pouco de egoísmo nessa comunhão dele. O personagem, que inicialmente preferira não acreditar que o padre Ferreira havia apostatado, passa a criticar o seu velho amigo pela abdicação da fé quando a verdade finalmente surge. Rodrigues não vê (ou não quer ver) que Ferreira fez o que fez (pisar em cima de uma imagem da Virgem como gesto simbólico de rejeição do cristianismo) para salvar outros cristãos. Rodrigues prefere ver pessoas morrendo (e as cenas onde isso acontece são bastante traumáticas) do que ceder. Nisso, deixei de ver a beleza do sacrifício, da fé e da coerência e passei a ver o ego, a vaidade e a prepotência.

Silêncio tem essas e outras questões espinhosas (os japoneses precisavam mesmo do catolicismo?) e, claro, a direção impecável do Scorsese. Como elogiar o trabalho do cara nessas alturas do campeonato é meio que chover no molhado, vou contentar-me em chamar a atenção de vocês para duas coisas que ele fez aqui que me agradaram muito. Uma é o tal silêncio que dá título ao filme. Notem toda a frustração de Rodrigues quando, em resposta a suas orações, um silêncio constrangedor preenche a tela. O outro ponto é a cena em que Rodrigues e Garupe conversam com alguns japoneses no meio de um matagal. A câmera está posicionada em cima dos atores, estática, mostrando-os quase que como insetos do ponto de vista de alguém superior e indiferente ao sofrimento deles. Esses artifícios falam mais da posição do diretor sobre o tema abordado do que qualquer diálogo poderia fazer e colocam Silêncio em pé de igualdade com outros clássicos do diretor como Os Bons Companheiros e Taxi Driver. Que bom que o Scorsese continua firme e forte nesse negócio de fazer a gente gostar de cinema.

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