A Cabana (2017)

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Texto com SPOILERS.

Minha mãe foi uma das grandes responsáveis por eu gostar de ler. Sou grato as professoras de literatura que tive na escola, pois sem elas provavelmente eu não conhecerias as obras fantásticas da Coleção Vagalume, mas o que me inspirava de verdade a abrir um livro e debruçar-me sobre uma boa história era ver que a minha mãe também gostava de fazer o mesmo. Sabrina, Bianca, romances do Sidney Sheldon e suspenses da Agatha Christie: a dona Silene lia de tudo e, terminada a leitura, me emprestava aqueles de que ela havia gostado mais. Essa relação mudou um pouco ao longo dos anos (hoje em dia é ela quem sempre pega algo da minha mini biblioteca quando vem me visitar), mas vez ou outra ela ainda aparece com algum livro “que é muito bom e que eu preciso ler”. Foi assim que eu conheci A Cabana.

Acho que, não fosse a indicação da minha mãe, dificilmente eu teria encarado a história sobre Deus e perdão do escritor canadense William P. Young. Não sou completamente averso a temáticas religiosas, mas tenho uma quantidade enorme de livros esperando para serem lidos e seria pouco provável que eu enfiasse “o best seller de autoajuda do momento” na frente de algo do Dostoiévski ou do Stephen King, por exemplo. Todo caso, aceitei a dica e iniciei a leitura com a cabeça aberta, procurando deixar que meus preconceitos não influenciassem na apreciação do material. Foi difícil. Lembro que, além de achar o texto mal escrito, cheio de clichês e lugares comuns, eu não consegui olhar com bons olhos as alegorias do escritor para a Santíssima Trindade. Na época, eu havia acabado de ler algumas coisas pesadas do Nietzsche (O Anticristo e Crepúsculo dos Ídolos) e o meu ceticismo estava lá em cima, logo a parte “religiosa” da história não me cativou. A temática do “perdão”, porém, eu achei bem legal, e foi por ela que eu fui ver esta adaptação do diretor Stuart Hazeldine.

Achei por bem iniciar o texto colocando o aviso de SPOILERS porque é difícil fazer uma sinopse decente de A Cabana sem revelar um ponto central do roteiro. Missy (Amélie Eve), a filha caçula de Mack (Sam Worthington) e Nan (Radha Mitchell), é sequestrada e assassinada dentro de uma cabana na floresta por um assassino em série. Como não poderia deixar de ser, o evento devasta a vida do casal, mas Mack, que estava responsável por Missy no dia do rapto, sente-se especialmente culpado pelo ocorrido. Ao contrário da mulher, que é uma pessoa espiritualizada que vive em comunhão com Deus, ele não consegue perdoar a si mesmo e seguir em frente, o que leva-o a uma existência triste e amargurada.

Certo dia, Mack recebe uma carta de Deus convidando-o a voltar até a cabana onde Missy foi assassinada para um bate papo. É aqui que a história exige que a gente dê o chamado leap of faith (salto de fé): ou você acredita que sim, é perfeitamente possível (mesmo que na ficção) que Deus envie uma carta para alguém, ou você passará o resto do filme torcendo o nariz para tudo o que será mostrado. A atitude desconfiada de Mack, que acredita estar sendo vítima de alguma brincadeira de mau gosto, até ajuda a gente a começar a digerir a ideia, mas no fim ele acaba indo mesmo até a tal cabana e tendo o encontro não só com Deus (Octavia Spencer), mas também com Jesus (Avraham Aviv Alush) e com o Espírito Santo (Sumire Matsubara).

Cenas como Mack comendo um rango preparado pelo próprio Deus (ou correndo sobre a água com Jesus) ainda me causam um certo estranhamento, mas entendo perfeitamente tudo o que o escritor William P. Young quis dizer sobre o poder do perdão. Essa história, que ele escreveu para os próprios filhos como um presente de natal e que acabou transformando-se num sucesso mundial, fala de um mundo injusto e imperfeito onde crianças são assassinadas a sangue frio, mas também fala que nós nunca estaremos sozinhos para enfrentar essas mazelas. Aceitar ou não a presença e o conforto de Deus nessas horas, como o filme sugere, é algo que depende de cada um (pessoalmente, eu tenho dificuldades com isso), mas entendo a força destrutiva que sentimentos como a culpa e a vingança podem ter em nossas vidas. Julgar e condenar outrem, como é falado no melhor diálogo do longa, é um processo sem fim e ineficaz para aliviar as dores que carregamos. Ou a gente perdoa e segue a vida levando um dia após o outro, deixando que nossas feridas sejam curadas aos poucos, ou a gente afunda no sofrimento por ter sido alvo de alguma injustiça.

Tal qual o livro, A Cabana oferece conforto e mostra que é possível seguir em frente após um grande trauma. Não há dúvidas que a apreciação do filme variará de acordo com a fé do espectador, mas mesmo quem decidir acreditar que Mack simplesmente caiu e bateu a cabeça na cabana, acordando “mudado” depois do acidente, reconhecerá que trata-se de uma bonita história de superação. O diretor Suart Hazeldine encheu o filme de paisagens oníricas (aquele jardim caótico onde Mack e o Espírito Santo conversam é maravilhoso) e, ao meu ver, só escorregou por colocar a tocante Keep Your Eyes on Me (a música que tocava no trailer) nos créditos e não no clímax, quando o reencontro de Mack e Missy obrigam a gente a secar os olhos. Eu tinha tudo para não gostar de A Cabana: o tema não é dos meus favoritos e, no dia da sessão, eu estava morrendo de sono. Felizmente, porém, eu tive alguém para me ensinar a importância de manter a mente aberta e a beleza do ato de perdoar. Achei o filme bem bonito. Obrigado, mãe (e me desculpe por ter falado com você daquele jeito).

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